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sexta-feira, 29 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 7



Livre e Directo

António Cagica Rapaz

Aconteceu em meados de 1971, o Belenenses andava mal, Meirim tinha saído e eu não jogava. O Diário de Lisboa quis saber o que se passava e Jorge Soares fez-me uma extensa entrevista que se prolongou em dilatada conversa sobre as mil coisas interessantes que o futebol encerra. No final, convidou-me a criar uma rubrica no jornal, e assim surgiu Livre e Directo.

Eu escrevia as minhas croniquetas que depositava na caixa do correio, nunca tendo ido à redacção até ao dia em que suspeitei que algo de anormal se estava a passar com um artigo que não fora publicado. Tratava-se de um escrito sobre as relações um tanto tensas entre Jimmy Hagan e os jogadores do Benfica. O responsável pelo Desporto no DL era Neves de Sousa que, aberta e repetidamente, desancava o treinador inglês, sendo garagista um dos simpáticos epítetos com que mimoseava o pobre Hagan.

Intrigado, resolvi averiguar. Na escada, cruzei-me com o José Augusto que me disse ter lá ido dar uma entrevista ao Neves de Sousa, pessoa que eu nunca vira. Quando perguntei pelo meu artigo, não esteve com rodeios. No seu estilo tonitruante, disse-me, com todas as letras: - “Você deve estar é maluco. Então, ainda não percebeu que eu não posso com o Hagan? Eu gostava era de ver o Zé Augusto no lugar dele! E você faz um artigo a defender o gajo!” Foi a primeira vez que falei com Neves de Sousa. A crónica nunca saiu e, naturalmente, não voltei a escrever no Diário de Lisboa.

Nunca me tendo passado pela cabeça alguma vez ver ressuscitado o meu Livre e Directo, foi com grande surpresa que, nos anos 80, deparei com uma página de publicidade da Antena 1 onde era mencionado um programa intitulado precisamente Livre e Directo. Escrevi ao Sena Santos, juntando fotocópias de artigos do DL e pedindo uma explicação. Não recebi qualquer resposta, o que não me surpreendeu, devo dizer. Mais tarde, fiz nova tentativa, sem melhor sorte. Até que, nos anos 90, escrevi ao Presidente da RDP, José Manuel Nunes, que me respondeu rapidamente e mandou que o serviço do Desporto me esclarecesse, o que realmente aconteceu.

Em síntese, disseram-me que se tratara de pura coincidência, que o nome do programa se devia ao facto de as pessoas falarem livremente e de a emissão ser em directo. Admirável explicação! Um programa de rádio feito em directo! Que coisa rara e original! Que lembrança prodigiosa!

Depois, um programa onde se falava livremente! Espantoso, inacreditável! Certamente todos os outros deviam continuar a ver visados pela comissão de censura, imagino. Francamente, que falta de imaginação! Chato como sou, não resisti a explicar-lhes que a originalidade do título resulta dos trocadilhos possíveis entre os adjectivos e os substantivos homónimos livre e directo (boxe), bem como da ambiguidade entre livre e directo e livre e indirecto.

Naturalmente, não houve qualquer reacção, ficámos assim conversados e o capítulo Antena 1 encerrado.

Eis senão quando, há poucos anos, encontrei no Diário de Notícias uma rubrica intitulada Livre e Directo. Admirado e um pouco divertido, enviei um fax ao meu velho conhecido António Castro que, para meu espanto, não teve a menor reacção. Tal como não respondeu aos dois faxes seguintes. Outros tantos faxes dirigi ao Director do DN, dr. Bettencourt Resendes, mas todos ficaram sem resposta. Azar o meu…

Mais recentemente, em 29 de Setembro de 2001, foi o Público a ostentar uma rubrica Livre e Directo, assinada por Bruno Prata. Enviei um correio electrónico, mas nunca me responderam. Decididamente, não tenho emenda nem sorte…

Sinceramente, não sei que conclusão tirar, apenas registo com estranheza tanto silêncio. Se eu quiser ser ingénuo (às vezes até sou), ainda fecho os olhos à explicação pueril da Antena 1 e até admito que tenham esquecido o que escrevi em 71. Ou que nunca tenham lido.

Mas se já custa acreditar que o António Castro nunca tenha ouvido a Antena 1, mais inacreditável é os jornalistas do Público não lerem o Diário de Notícias.

Neste mundo do futebol e dos jornais, tudo é possível, mas que é estranho, lá isso é...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 56



Ah, grande Manel!*
António Cagica Rapaz
O meu pai costumava chegar no carro que saía de Cacilhas às 6.45 e eu debruçava-me para alcançar com a vista a esquina que a Rua Monteiro formava com a calçada, na esperança de ver a sua silhueta imponente dobrar aquele cabo que para mim tanta vez fora de tormentas, na ansiedade de o ver chegar.
Acontecia-me desejar que o meu pai fosse como tantos outros, tivesse o seu empregozinho em Sesimbra, almoçasse em casa, fosse ao Central beber a bica e voltasse cedinho para jantar.
Mas ele navegou por outros mares, abraçou a Marinha, tinha sede de evasão. Depois trocou o mar pela terra, pela miragem do gesso e acabou torturado por uma Secil gigantesca onde a construção transformava carradas de terra em toneladas de gesso, verdadeiro milagre que o dinheiro sujo conseguia. O meu pai recusou, manteve-se vertical e acabou arruinado. O crime talvez não compense mas a virtude ainda menos…
O nosso dia começava com as duas badaladas infalíveis que o Eduardo pregava na nossa porta às sete em ponto. Vinha da Cotovia, trazia-nos o leite e o boletim meteorológico. Anos depois o filho do Eduardo do leite viria a ser guarda-redes na minha equipa de juniores. Curiosamente o futebol tem muito de rural. Joga-se num «campo», fala-se do «terreno» de jogo, se o guardião não tem «leite» e dá o seu «frango», é capaz de comer três ou quatro «batatas» e quem perde fica com um grande «melão»? Mas deixemos por agora o futebol e voltemos à chuva…
Metido na cama eu ficava à escuta receando que ele nos anunciasse um dia inteiro de chuva impiedosa. A chuva era o pesadelo do meu pai, ameaça medonha para as pedreiras, destruindo o trabalho feito, comprometendo o dia a dia, hipotecando o futuro. Eu sofria com isso e por vezes quase invejava quem não estava sujeito às contingências do tempo, quem não nadava com o coração nas mãos, com letras para pagar, à mercê de um aguaceiro.
Naquelas pedreiras, mais do que extrair gesso, o meu pai cavava a sua sepultura…
Partilhando tanta preocupação, tanta angústia, acontecia-me quase invejar os amigos e companheiros que se deitavam sem pensar na chuva e noutros problemas. Sonhava com tranquilidade, paz de espírito, quando só tinha ansiedade permanente, insegurança e incerteza.
Mas depois o meu pai sentava-se à mesa, comia e falava, falava, contava, narrava, reconstruía um universo que afastava as nuvens negras e o ronco surdo do vendaval. E era o «Bartolomeu Dias», a «Faro» e a «Lagos», as viagens a África, as proezas da rapaziada do seu tempo, a taberna do Câncio, as sessões de hipnotismo e espiritismo, as caldeiradas monumentais, os retiros na Arrábida, o escaler e o charuto na praia do tio Abel. E o Pátria.
O Pátria era o combate desigual numa vila dominada pelo União e pelo Vitória, com os Ases a fechar o quadrado.
O Pátria era o mais pequeno, grupo de amigos, companheiros, entusiastas, apaixonados, tesos e irredutíveis.
Os nomes do Mira, do Zé da Faca, do Patachão faziam parte da minha mitologia desse tempo heróico das bolas com atilhos, lenço na testa e balizas às costas.
As aventuras do Pátria quase me faziam esquecer o implacável Eduardo que trazia as bilhas com leite e com chuva às sete em ponto, altura em que começava o Talismã, no Rádio Clube Português. Às sete e meia lá vinha aquela música sinistra que anunciava um folhetim tenebroso narrado e interpretado por uma Manuela Reis que fazia todos os papéis. A minha mãe e a minha prima Judite não falhavam um episódio.
As rivalidades e os golpes baixos assassinaram o Pátria que acabou ferindo dolorosamente o meu pai e alguns fiéis companheiros.
A partir daí o único objectivo (seria vingança?) do meu pai passou a ser acabar com os outros. Não garanto que tenha sido ele a lançar a ideia da fusão, mas pelo menos apoiou-a com todo o entusiasmo até à sua concretização.
Mais do que a fundação de um novo e maior clube, a fusão representou o fim dos que tinham acabado com o Pátria. E para o meu pai o futebol em Sesimbra morreu ali.
Por volta dos meus treze ou catorze anos lembrei-me de ressuscitar o Pátria, com a ajuda de um grupo de companheiros que aprovaram a ideia.
A sede era em casa do João Rasteiro, onde hoje é a lavandaria, ao lado do Américo fotógrafo. Do grupo faziam parte o Pedro Gonçalves, o Luís Filipe, o Penim, o Manel Campino, o Julião, o Zé Júlio e muitos outros.
Limpámos e arranjámos o quintal, dotámo-nos com uma pequena biblioteca, tínhamos um «não-te-irrites», cartas, dominó e mandámos fazer cartões de sócio com o emblema autêntico do Pátria Futebol Clube.
Foi bonito, foi enternecedor, foi piegas e, graças à generosidade do João Rasteiro, tínhamos ali uma casa, um ninho. Juntávamo-nos, brincávamos, sonhávamos…    
Infelizmente a história repetiu-se e um grupo de invejosos tratou de formar uma coisa a que chamaram Juventude, não para criar uma competição salutar mas apenas para aliciar elementos nossos, provocar instabilidade, destruir o Pátria. E resultou. Aos poucos foram saindo e no fim ficámos três.
Os outros dois foram o Pedro e o Manuel Campino. O Pedro ficou como o pai dele teria ficado ao lado do meu. Foi um gesto bonito e Deus sabe que nem sempre estive de acordo com o Pedro.
O Manel era o neto do velho Fartura cuja cocheira ficava ali a dois passos da taberna do mestre Adelino. Morava no Barreiro e vinha passar todas as férias a Sesimbra este Manel que sempre foi apaixonado, arrebatado, um louco maravilhoso, generoso e inteiro, um amigo fixe e leal, rico de fantasia, de humor e de talentos múltiplos, na bola, na pintura, e hoje nos negócios. O pai dele construiu a sepultura do meu pai e a nossa amizade é como o mármore que ele escolheu. O tempo não deixou marcas nem a separação que as nossas vidas ditaram.
O Pátria foi uma brincadeira, foi como a exploração das grutas do farol e as expedições às Caixas de que o Alexandre ainda se há-de rir lá em cima…
Foi um sonho condenado a despertar precoce, projecto sem amanhã, sabíamo-lo todos. Mas foi bom, foi saboroso, durou o que podia durar, como a cabra do senhor Seguin no célebre conto de Alphonse Daudet. Ela sabia que o lobo acabaria por a comer, mas foi na mesma para a montanha. Comeu a erva verde e tenra, rebolou-se nela, contemplou o pôr do sol, embriagou-se com os perfumes da montanha, com as cores deslumbrantes do crepúsculo, sabendo que seria a última vez. Depois lutou, lutou até lhe faltarem as forças quando raiava a alvorada. E o lobo comeu-a…
Se calhar viver é isso mesmo, sonhar, correr atrás de miragens, buscar o inacessível, agarrar o sol com as duas mãos, mergulhar no mar azul em Janeiro, acreditar que há tesouros nas grutas do farol, que na encosta do castelo ainda há mouros com cimitarras cravejadas de rubis, que o Numância emerge da fundura e cruza todas as noites a baía, luzes apagadas.
Só morremos quando perdemos a faculdade de sonhar. No Pátria ficámos três e nenhum de nós esqueceu. Só por isso valeu a pena.
E tudo isto me ocorreu apenas porque o Manel me telefonou há dias e, entre outras coisas, deu-me conta da sua emoção ao ler «O carro das sete».
Porque aquele carro era também o dele, fazia parte do seu, do nosso universo, do nosso inconsciente colectivo. E assim eu vou conseguindo, bem ou mal, arranjar ideias enquanto me emocionar também, enquanto houver um Manel que me dê uma ajuda e enquanto tiverdes paciência para me aturar. É um pedaço de nós que fica graças a ele. Ah, grande Manel!  
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* Publicado em O Sesimbrense de Dezembro de 1993.

terça-feira, 26 de abril de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 46

 

Não há fome que não dê em fartura - (Joel)
António Cagica Rapaz



[da série O que eles poderiam ter dito]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 55



O muro das lamentações

António Cagica Rapaz

- O pior é que nem conseguimos comunicar...

Era a meio de uma manhã de sábado, no muro da eterna lota, quando o tempo parece parar, em que à nossa frente se desenha, mais do que um fim-de-semana, uma semana sem fim que o domingo prolonga até ao infinito.

Os dois amigos estão sentados no muro, de costas para o mar azul que se estende desde a falda da fortaleza até à linha brumosa do horizonte. Foram companheiros de escola, nunca se perderam de vista ao longo dos anos e estão agora com um pé na velhice.

- E com a tua mulher?

As motas de água começam a sulcar as águas lisas da baía, um barquinho à vela contorna com suavidade a muralha do porto de abrigo, sem pressas, na indiferença das gaivotas. O pequeno autocarro da carreira faz uma pausa no largo da Marinha, o Cristiano barafusta, o GNR passeia, imperturbável, com o livrinho das multas à mão de aplicar, o Garrau acende o lume no “Farol”, no Martelo lê-se o “Expresso”. É sábado, e ainda é manhã.

- Não sei, também pouco falamos desde que...

Aconteceu sem razão aparente. Raramente há uma explicação, sucede apenas, sempre de repente, sem algo que nos pareça justificar, sem que sejamos sequer capazes de detectar os primeiros sinais, os vagos apelos. E, se damos por eles, fingimos não ver, recusamo-nos a acreditar, esperamos que não seja bem assim, que acabe por passar. É difícil, ninguém está preparado para enfrentar a droga.

- Olha, ao fim de tantos anos, parecia que tinha a vida estabilizada. Consegui reformar-me dignamente, os filhos criados, empregados, julguei que ia poder descansar, dedicar-me às coisas que me dão prazer, agarrar no barquito, ir à pesca, ler, ouvir música, ver o tempo passar, repousar a cabeça, respirar fundo, enfim, viver ao meu ritmo. Afinal...

Primeiro, foi o choque devastador. Depois, a incompreensão, a revolta, a raiva, o desalento, o silêncio, a incapacidade de dialogar, a impotência, a vontade de desaparecer ou, pelo menos, de ir para muito longe. Mais tarde, foram os primeiros passos para a compreensão, com a ajuda da mulher e do outro filho, universo familiar fechado pela vergonha e pelo desespero, a esperança na cura de desintoxicação através de um empréstimo que o banco concedeu e que vai ter de suportar por uns anos ainda. E a angústia da recaída, a vida que nunca mais voltará a ser o que foi, se é que alguma vez chegou a ser...

- O pior é que nem sequer conseguimos comunicar...

Dói-lhe aquela sensação de serem, ele e o filho, quase dois estranhos, sem espaço comum a não ser aquela casa onde vivem, tanto quanto aquela coexistência pode ser considerada vida familiar.

- O meu pai, como te recordas, era pescador. E eu sofria, tinha medo, só descansava quando ele voltava do mar. À noite, depois do jantar, não me cansava de o ouvir contar os lances, as talas, as braças, as enviadas, os ventos, as pescarias, as peripécias a bordo, as brincadeiras na loja, as caldeiradas, as sardinhadas, os dias negros de vendaval de invernos intermináveis, a incerteza do amanhã. Gostava de ir ao muro ver a barca ancorar ali em frente e vê-lo depois saltar em terra, quando a aiola encalhava, de gargalhete. Nunca esquecerei os sacrifícios que a minha mãe e o meu pai fizeram para eu poder tirar o quinto ano no Costa Marques. Sempre me senti muito próximo do meu pai, apesar de falar mais com a minha mãe. E, hoje, quando vejo a distância que há entre mim e o meu filho, fico triste. Não há nada, nem cumplicidade, nem ternura, menos ainda ideais comuns, é um desconsolo, um desencanto. E não sei como melhorar a nossa relação, admitindo que ainda seja possível. Seja como for, os melhores anos já estão perdidos.

- Não é forçosamente culpa tua...

- Talvez, mas isso não serve de consolação nem resolve o problema. Isto é como nos divórcios, pouco adianta saber de quem é a culpa. A verdade é que, se não resulta, se não funciona, perdem os dois. E, neste nosso caso, perco mais eu porque sei o que é uma boa relação entre pai e filho, ao passo que ele não sabe. Por tudo isto, não consigo afastar esta frustração, este vazio, esta tristeza. Tenho a impressão de ter procurado estar próximo, de me ter interessado pelas coisas que ele fazia, de que gostava, embora nem sempre pudesse identificar-me com as suas preferências, as suas músicas, a roupa que usava. A gente julga que faz bem, mas só faz o que pode. Por isto ou por aquilo, não consegui, não fui capaz, o que fiz foi pouco ou mau, não sei. E o resultado é esta mágoa que me pesa em cada manhã cinzenta. É um mar que não acaba e não leva a lado algum. Olha, tu nem sabes a sorte que tens, sem problemas destes, dá-te por feliz.

O amigo não respondeu. Desviou o olhar, contemplou o mar, hesitou, ainda abriu a boca, mas não falou. Após prolongado silêncio, lá acabou por alinhavar duas frases sem nexo, desculpou-se com o almoço e foi-se embora. Sentiu-se mal, mal pelo amigo e mal por si próprio, incapaz de falar de si, da melancolia que disfarça, dos tormentos que esconde. Ainda esteve para voltar atrás, mas prosseguiu, virando costas ao mar e ao muro das lamentações. Não será ainda desta vez...

1999

sexta-feira, 22 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 6




Belenenses

António Cagica Rapaz

O serviço militar levara-me para o Porto, mas era meu desejo voltar para a região de Lisboa. A CUF não dava mostras de poder conseguir a minha transferência para uma unidade próxima do Barreiro, e Meirim manifestou o desejo de contar comigo no Belenenses onde, segundo julgava, havia gente influente no campo militar.

Estamos no Verão de 1970 e Meirim já incendiara as hostes azuis ao deixar no ar a promessa de ser campeão. Eram as bombásticas declarações do treinador, sua foi a responsabilidade…

Contrariamente às expectativas, só em Janeiro de 1971 consegui vir para perto de Lisboa, para o Campo de Tiro da Serra da Carregueira. A época ia a mais de meio, a nau azul afundava-se, Meirim foi despedido e, como consequência directa e lamentável, alguns dos jogadores mais próximos do treinador foram proscritos, apontados a dedo, colocados à margem.

Eu, que mal acabara de chegar, fui um deles, sentindo imediatamente que constava da lista negra. O nosso “crime” foi, suponho, termos sido trazidos por Meirim, não vejo outra razão nem alguém jamais se dignou dar a menor explicação.

Embora tal atitude fosse injusta e absurda, teria sido possível abordar a questão com um mínimo de dignidade, o que não sucedeu.

Apesar de eu ter um contrato de seis meses (que estava em curso) e outro de três anos, teria entendido que o clube desejasse alterar a sua posição. Estava no seu direito e, civilizadamente, poderiam ter-me exposto o assunto. Através de diálogo, teríamos certamente chegado a um entendimento, mas, em vez disso, o que aconteceu foi terem-me ostensivamente colocado na situação de indesejável, sem uma palavra, sem uma observação, sem a menor crítica ou acusação.

Até que o treinador-adjunto Mourinho Félix deixou escapar a assunção de que os dados estavam viciados, quando o surpreendi a fazer a convocatória antes do (normalmente determinante) treino de conjunto da 5ª feira. Manifestei-lhe a minha estranheza perante tal procedimento que provava, de forma inegável, que tudo era decidido previamente, de nada servindo o esforço ou o valor de alguns elementos, condenados que estavam, sem apelo, ao afastamento. Perguntei-lhe até se valia a pena ir treinar, sabendo de antemão que não seria convocado. A resposta de Mourinho Félix foi de antologia: - “O azar foi tu teres chegado atrasado, senão não tinhas visto e nunca saberias de nada”.

Azar para quem? Para mim não, porque já estava julgado e condenado sem conhecer a acusação e sem ser ouvido. Azar foi para ele que se viu descoberto e não teve arte nem reflexos para arranjar sequer uma desculpa, uma finta discursiva para camuflar a prática suspeita.

Recordo-me de ainda ter visto o jovem Mourinho defender as balizas do Vitória no velho e pelado campo dos Arcos, recebendo o testemunho do veterano Batista. Mais tarde, admirei o seu profissionalismo ao serviço do Belenenses, como jogador sério e de certa valia. Por isso tenho certa dificuldade em compreender as atitudes do mesmo Mourinho Félix nas funções de treinador-adjunto.

Curiosamente, por acaso, cruzámo-nos, há pouco tempo, em Setúbal. Ele não me viu, eu não o chamei. Estamos trinta anos mais velhos, e não pude deixar de reflectir sobre tudo isto, sobre a verdadeira importância destes incidentes nas nossas vidas. Que motivações o terão levado a agir assim? Que balanço, em consciência, terá feito? Terá achado que actuou com isenção e justiça? Terá ficado em paz, admitindo ter defendido o superior interesse do Belenenses? Que palavras teríamos trocado se tivéssemos agora chegado à fala, ao fim de mais de trinta anos, no limiar da velhice? Até que ponto será útil recordar o passado? Mas, por outro lado, por que razão haveria de silenciar comportamentos desta natureza?

Embora a fase das ilusões sobre o futebol já tivesse passado havia muito, tive pena porque continuava a ter simpatia pelo clube e tencionava acabar ali, mais tarde, a minha carreira. Assim, abandonei cedo de mais, profundamente desiludido.

Nesse Verão de 71, pus a acção, continuei no serviço militar e aguardei. Três anos depois, o Belenenses pagava-me o que o tribunal decidiu…

quarta-feira, 20 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 55



Mestre José Brandão*

António Cagica Rapaz

Para quem vive longe, o jornal é como uma carta de um amigo que nos relata o que vai acontecendo na nossa terra, no largo do Canino ou na rua Direita. Mas um amigo, quando tem alguma má notícia a transmitir, prepara o terreno, progride com precaução, previne, avisa, suaviza. O jornal não pode entrar nessas águas da afectividade e informa com alguma secura o que de bom e menos bom ocorre na nossa vila.
Assim, fiquei a saber que o vendaval voltou a rugir, medonho e lúgubre, metendo as garras horrendas e mortíferas por entre os grãos de areia da nossa praia, deixando-a em rocha viva. Esta notícia transportou-me para outros tempos, outros vendavais em invernos longínquos, com as vagas fustigando a Fortaleza e a pedra alta, o vento a ameaçar as folhas de zinco da «Sopa» e as estrelas de papel reforçado, presas por um cordel, a subirem oscilando no céu escuro e as nuvens que fugiam vertiginosas a caminho do Castelo, isolado e fúnebre, onde o Rafael punha a tranca na porta e os torreões tremiam de frio. E o mar levou um jovem pescador, drama que merece respeito e digno silêncio. 
Outra morte que me deixou perplexo e desamparado: perdemos o Zé Brandão. O jornal mostrava-o na fotografia tradicional acompanhada pelo testemunho de gratidão habitual e lembrava-nos que ele se chamava José António Preto Júnior. Mas para nós era o Zé Brandão, o nosso velho mestre de armas, o coronel das Índias que conduzia as tropas no combate da noite e da brincadeira. Um companheiro sempre bem disposto, modelo de correcção, cordialidade e elegância. Os preconceitos postiços de muita gente devem ter provocado certas críticas, decretando que um homem daquela idade devia ter juízo e não andar naquela vida. Bem ele fez em ter aproveitado os últimos anos para respirar a plenos pulmões a alegria bonacheirona da boémia singela e beatífica da companha que embarcava na traineira da Marisqueira que lançava as redes no Chagas ou no Espadarte Clube, guiado pelo timoneiro António do Porto de reco-reco à laia de leme, para ouvir os tremidinhos do Zé Manel e assistir à agonia do cavalo que o Júlio matava noite sim noite não na feira da Agualva. Muitos dos que criticavam passavam as noites no convés do fumo, batendo as cartas em sintéticos de má sorte.
O Zé Brandão era o chefe de fila de uma velha guarda bem humorada e sem outra pretensão que não fosse rir e dar ao pé, sem convicções ilusórias de conquistadores de fotonovela barata.
Fica para a história local a epopeia da peixaria do Ernesto e da oficina do Zé Brandão. E fica na memória de todos nós o sorriso permanente e a figura simpática do velho mestre. A nossa terra é sobretudo a nossa gente. E o Zé Brandão era (e continua a ser) dos nossos. Boa noite, ó mestre!
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* Publicado em O Sesimbrense de 21 de Fevereiro de 1982.

terça-feira, 19 de abril de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 45


Quero que a cigarra se lixe - (Joaquim Formiga)
António Cagica Rapaz


[da série O que eles poderiam ter dito]

segunda-feira, 18 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 54



Vinte anos

António Cagica Rapaz

- Sabes, Ricardo, eu não gostava que interpretasses mal a minha atitude...

- Claro que não, que ideia tão absurda, não há qualquer mal.

- Não se trata de bem ou de mal, não é uma questão de moral nem de ética, é apenas um princípio de clareza. No fundo, fui eu que resolvi telefonar-te, assim, de repente, depois de quase vinte anos sem nos vermos.

- Não calhou.

- Pois não. E mesmo agora foi realmente o acaso, uma coincidência espantosa.

- De facto, quem havia de dizer!

- Olha, meu querido... não te importas que te trate assim, como dantes, pois não? É uma fórmula, eu sei, perdeu consistência, mas gosto dela, tem a ver connosco. O que eu te queria dizer é que ao longo destes anos todos nunca consegui tirar-te do meu pensamento, continuaste na minha cabeça como um fantasma a sobrevoar o universo em que vivi com o Pedro. Fui-lhe sempre fiel, tivemos uma relação serena, agradável, sem sobressaltos, mas sem chama. Nunca procurei ver-te, apenas fui sabendo alguma coisa de ti através dos jornais e de uma ou outra confidência discreta de amigos íntimos. Até que aconteceu esta coincidência extraordinária de a Isabel ser amiga do João e este ser teu amigo de infância. O mundo é, de facto, pequeno. O resto já sabes, com a cumplicidade do João, fiquei a saber a tua vinda a Lisboa e... pronto, aqui estou.

- Meu amor... permites que, por minha vez, te chame assim? Na verdade, foi uma enorme surpresa ouvir-te ao telefone, ouvir a tua voz, assim, inesperadamente, tantos anos depois. E confesso que foi muito agradável. Na realidade pensava que nunca mais quisesses ver-me nem falar-me, depois de teres decidido romper a nossa relação. Considerei o nosso caso definitivamente encerrado e prossegui a minha vida de aventuras, encontros e desencontros. Até que resolvi assentar arraiais, arrumar as botas, juntar os trapinhos, pôr termo à inconstância. E jurei a mim próprio ser fiel, não me autorizei, nunca, a menor facada.

- E conseguiste?

- Foi uma fidelidade cerebral que funcionou sem a menor falha. Até hoje.

- Olha, a razão fundamental do meu telefonema é a necessidade que eu tenho de te ver, de te falar, de te ouvir, de saber quem és hoje, como evoluíste, como estás, contigo mesmo e com os outros. Para te tirar da minha cabeça, para correr com o teu fantasma, o que foste ou o que eu idealizei, não sei. Mas preciso saber. Até agora não tenho estado disponível porque tu, involuntariamente, não deixavas. Por isso, agora, quero, de alguma forma, exorcizar, encerrar o capítulo, fechar o livro e arrumá-lo na última prateleira do sótão, tirar-te de vez da minha cabeça, libertar-me para poder voltar a viver.

- Está bem, eu compreendo e concordo. Se quiseres, podemos jantar juntos...

- Óptimo. Eu passo aí no hotel daqui a uma hora, pode ser?

- Claro que sim. Espero por ti no hall.

- Achas que me vais reconhecer?

- Diogo, meu adorável palerma...

1998

sexta-feira, 15 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 5



CUF

António Cagica Rapaz

O Barreiro evocava, no meu espírito, o fumo das fábricas, o lodo da maré vazia, terra de gente sombria, contracapa descolorida de Lisboa.
Estávamos em 65, era o adeus ao irrespirável campo de Santa Bárbara onde jogara várias vezes e onde vira, em miúdo, muitos jogos do Belenenses. Recordo a desagradável impressão da Guarda Republicana, de costas para o campo e olhos fixos nos espectadores, um pavor ridículo.
Conservava dos jogadores da CUF uma imagem de homens-máquina que deitavam fumo pelos olhos, enchiam o peito de azoto e arrotavam gás carbónico, e a ideia de trocar o Mondego pelo Tejo e o choupal pelas fábricas, não me entusiasmava. Porém, a CUF oferecia-me melhores condições monetárias e a possibilidade de continuar a estudar.
A CUF era uma colectividade de características muito especiais que aliciava os jogadores com a promessa do futuro garantido, com um emprego nos escritórios, argumento que lhe permitia pagar fracas luvas. Futebolistas em fim de carreira aproveitavam a oportunidade, casos de Arsénio, Faia, Mário João, Salvador e outros. Mas para os mais novos era uma ilusão, o ordenado no escritório era fraco, porque as habilitações eram modestas e porque não eram assíduos ao trabalho. Só raros como o Zé Maria e o Abalroado, iam com alguma regularidade ao serviço. Com ausências sistemáticas (cobertas pelos avisos do Gregório Palma), não justificavam aumentos que teriam escandalizado os colegas que não faltavam. E no fim da carreira de futebolistas estavam com o mesmo ordenado com que tinham entrado, mas habituados aos extra dos prémios de jogo. Por isso, de certa forma, a CUF era uma miragem, porque nunca foi frontalmente assumida a situação de excepção que os jogadores deveriam ter. E futebolistas extraordinários, como o Medeiros, podiam ter feito grandes carreiras noutros clubes, em vez de ficarem presos à ilusão de um emprego…
Para mim foi o ideal, porque me permitiu continuar a estudar. De manhã ia à Faculdade de Letras. Depois, almoçava a correr, apanhava o barco para o Barreiro, e só voltava a Lisboa à boca da noite, para descansar, estudar e alguma diversão. Apesar deste ritmo e dos estágios, consegui um aproveitamento total, tendo concluído o curso sem grande dificuldade. Porque tinham desaparecido os motivos de angústia que me haviam atormentado em Coimbra…
O clima na CUF era muito especial, havia uma casta superior constituída pelos senhores engenheiros que dirigiam o clube e que tinham com os jogadores uma relação algo ambígua. Gostavam de futebol e tinha uma evidente admiração pelos futebolistas, honravam-se mesmo de certa forma de aparente familiaridade. Contudo (e é a outra face da moeda) cultivavam a superioridade, usavam o tratamento por tu num tom condescendente e senhorial. De um lado, o jogador da bola, do outro lado o senhor engenheiro. Apreciavam o servilismo, a lisonja, a reverência, e gostavam de ver os jogadores lutar em campo como os tribunos romanos gozavam o espectáculo dos gladiadores no circo. Há aqui algum exagero, mas não muito. A verdade é que esse tipo de subserviência nunca foi a minha especialidade. Tal como nunca senti vocação de gladiador. Certa vez, num jogo amigável, fui excluído ao intervalo porque “não dava porrada”. Expus os meus argumentos e acabei por voltar ao jogo…
O meu primeiro treinador foi Manuel de Oliveira, sagaz, competente, trabalhador. Saiu a meio da época, tendo sido substituído por João Mário e, depois, pelo arquitecto Anselmo Fernandez. A seguir, veio Meirim e, mais tarde, Costa Pereira.
A CUF podia ter sido a primeira equipa-empresa do futebol português. Bastaria que a família Mello tivesse querido usar o Grupo Desportivo como o seu principal cartaz publicitário. Mesmo assim, marcou regularmente posições de relevo, tendo chegado a defrontar o Milão na Taça das Cidades com Feira. O deslumbramento dos directores foi tão grande que só quando a equipa estava equipada no balneário de São Ciro se aperceberam de que os cartões dos jogadores tinham ficado no Barreiro.
Lá fui parlamentar com o árbitro alemão que fez o que hoje seria impensável, fechou os olhos, aceitou como prova de identificação a assinatura dos jogadores. Era outro tempo, outra inocência…
Esta equipa da CUF tinha, naquela altura, grandes jogadores e homens de forte carácter. O guarda-redes era o José Maria, comprido e experiente, figura lendária do clube que acabou por dar lugar ao Vítor Manuel, um fabuloso e jovem guardião vindo de Alhos Vedros. Quando, vítima de lesão gravíssima, teve de abandonar o futebol, foi substituído por outro Vítor, o Cabral, notável, seguro, forte personalidade, inteligente e um grande companheiro. Na defesa, o Bambo e o Abalroado eram valores de créditos firmados. Sem serem estrelas fulgurantes, eram certinhos, eficazes, de rendimento garantido. Mais tarde, chegou o Castro, um defesa excepcional. Outro Vítor (Marques) veio de Sintra, para reforçar a defesa. Estrela grande era o Medeiros, avançado adaptado a quarto-defesa que foi o pilar da equipa durante muitos anos. Podia ter sido ainda maior, mas a CUF prendeu-o sempre. No meio campo, tivemos belos talentos como o elegante Alfredo Espírito Santo, o hábil Vieira Dias, o talentoso Pedro, o colossal Arnaldo, o experiente Mário João, o polivalente Sério. Mais tarde, viria o Rogério, do Varzim, excelente jogador. Na frente, a dupla formada por Fernando e Capitão-Mór fez muitos estragos, era possante e eficaz, rendeu muitos golos. O Monteiro era uma enguia, com os seus dribles em zig-zag. Ainda me foi dado apreciar a invulgar arte do Úria, um minúsculo jogador com um pé esquerdo prodigioso e um diabólico poder de finta.
Tive o melhor período no tempo de Meirim e, mais tarde, em 1969, Costa Pereira nomeou-me capitão da equipa. Seguiu-se uma fase de mal-entendidos, felizmente ultrapassados, e sucederam-se episódios determinantes. Em fins de Março, vésperas de um jogo contra o Benfica, recebi um convite formal da parte de Pinto de Magalhães para apresentar condições para ingressar no Porto. Fiquei admirado e honrado, mas não respondi. Ou melhor, esclareci que, em Outubro, iria para a tropa para o Curso de Oficiais Milicianos, em Mafra, inapelavelmente. Achei que seria desonesto fingir que não sabia, e recusei. A tropa foi a razão maior, é indiscutível. Por outro lado, por razões familiares, não queria estar longe de Sesimbra. Mas, lá muito no fundo, talvez se mantivesse a mesma insegurança que me fizera recusar a proposta do Sporting, quando júnior…
Curiosamente, um ano depois, estava colocado no RI 6, no Porto. Pelo meio, tinha estado um ano sem jogar, por lesão, primeiro, e por causa da tropa, depois. O Porto, entretanto tinha contratado o Armando Manhiça, e eu tentava vir para perto de Lisboa. Meirim queria-me no Belenenses e acreditava que as altas figuras do clube conseguiriam a minha transferência militar, o que não sucedeu.
Ficou-me ainda outra consolação, o apreço que Otto Glória manifestou por mim. Sei que chegou a falar ao Costa Pereira, mas este nada me disse, pois na altura andávamos em marés divergentes.
Ficaram-me estes pequenos e vagos motivos de remoto orgulho…
No fundo, conservo muito boas recordações dos anos passados na CUF e não esqueço que foi a solução para os graves problemas que tive.
Noutro clube, dificilmente teria conseguido concluir a licenciatura, mas não há favores em futebol. Tudo teria sido diferente, não fora a tropa, mas os tempos eram de guerra. Convocaram-me para Mafra e não voltei ao Barreiro…

quarta-feira, 13 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 54



E o mar…*

António Cagica Rapaz

O mar é azul, forte, carregado de ameaça que o céu não nega, escuro também, cúmplice, no limite impreciso de um horizonte sombrio.
Mas não é um mar de angústia aquele quadro de Alice Jorge que vi noutro dia em Lisboa numa sala acolhedora como um porto de abrigo. Da janela vê-se o Castelo de S. Jorge e um palmo do Tejo. Na parede é o mar, um mar fascinante, à primeira vista assustador, tenebroso, em véspera de vendaval precoce de Setembro. É um mar parado, pesado, enlutado, plúmbeo, mas que estranhamente nos comunica paz, quietude, tranquilidade, suavidade, eternidade. E essa sensação surpreendente virá porventura da presença de umas aiolas pequeninas, imóveis, silenciosas, impassíveis, tranquilas, no meio de um mar de cólera dominada, mar morto…
 A impressão de infinita serenidade talvez resulte do contraste entre a fragilidade, a inocência e a indiferença das aiolas coloridas perante a ameaça latente, a violência que se adivinha na tonalidade de um mar que nem parece o nosso. Mas que existe. Vi-o há dias da esplanada do café Martelo. O tempo estava de trovoada e o mar ficou de repente escuro, igual ao céu, igual ao quadro. No muro da antiga lota, pescadores despreocupados conversavam de costas viradas para o mar, um mar que viram mil vezes, um mar que sentem, que adivinham, que está dentro deles.
E não precisam de olhar para o verem, para o sentirem percorrer cada veia dos seus corpos que ao mar pertencem, que o mar deseja, que o mar fascina.
A esplanada do Martelo é um lugar privilegiado, balcão de frente, camarote avançado, varanda imperial sobre o mar, rochedo, farol, cantinho abrigado, com a sua poesia, o perfume das manhãs frescas de domingo, a doçura do crepúsculo, o namoro com o mar, olhos nos olhos azuis do céu e do mar. E ali se junta a freguesia…
As minhas incursões na Galé foram esporádicas no passado, quase sempre à procura do fígado de tamboril do malandro do Maquino. Hoje são mais assíduas, para surpresa do João e da Fátima que descobri agora ser minha parente, afastada mas parente, inegável quando se tem um nome tão pouco comum como o nosso.
Estava tão longe de imaginar este parentesco como de descobrir que o quadro do mar escuro não fora inspiração inventiva mas sim observação, cópia talentosa de uma realidade impressiva. 
São as marés da vida que nos levam a estas e outras descobertas, em manhãs suaves, entre o cafezinho do João, a imensidão fascinante do mar, o alheamento de alguns que lhe viram as costas preferindo ver passar os automóveis, enquanto outros como o Martinho se instalam na mesa do canto, com o mar em frente, com o mar nos olhos, com o mar em si…
O Zé Calisto mora por cima da Pedra Alta, ideia feliz do Chagas ao dar esse nome ao restaurante que foi a loja da minha tia Francisca, irmã da minha avó Sabina, belos nomes de outro tempo. Da sua janela, o meu primo saxofonista acenava-me com um sorriso deste tamanho, sem saber que naquele instante daquela noite, ali no largo, o Helder me falava dolorosamente do pai Chagas. E nenhum de nós adivinhava que, no dia seguinte, o mestre Chagas nos dizia adeus sem esperar pelo Santo António nem pelo verão que ele tanto amava. O Chagas é Sesimbra, é a festa, o arquinho e balão da fantasia, folclore elegante, uma forma de viver que assumiu até ao fim, príncipe da noite que não podia resignar-se a ficar a ver a vida passar por ele, a ver a noite avançar sem ir por ela fora até ao Alfredo, às três da manhã. O Chagas só sabia viver, não era homem para sobreviver.
Como alguns, poucos, o Chagas é uma época, uma figura, um nome, um estilo, uma filosofia de vida, deixou marcas, traços nítidos em todos quantos gostam da noite, do mar e da vida.
A noite acabou e o Chagas foi com ela…
Também do Valdemar a noite foi companheira, amante insaciável que o enfeitiçou, que o embriagou, que o enrolou em fumo mais espesso que o do peixe que agora assa para o Heitor. A medalha de mérito da Câmara é peripécia tardia para um homem da noite, talentoso em mil artes, que podia ter sido isto ou aquilo, navegando noutras águas. Mas assim não teria sido o Valdemar…
Futebolista de classe, bailarino, fantasista, playboy da lota, comprou, vendeu e agora assa peixe. Não faltam professores de moral, pregadores de virtude, mas por mais que digam, aquele homem será sempre mais do que um assador de peixe. É o Valdemar…
E era ali, no largo da Marinha, que o Senhor das Chagas se virava para o mar, abençoando os barcos e os homens, no auge da emoção.
Era o ponto mais alto da fé de uma população que hoje se interroga, mal se atrevendo a exprimir uma convicção. O assunto é delicado, as pessoas falam, perguntam, hesitam, buscam confirmação, esperam esclarecimento, a questão tem de ser posta, alguém terá de responder.
 Mas, no fundo, talvez nem seja importante saber se o Senhor abriu ou não os olhos. Será apenas (e é muito) uma questão de fé. Importante sim é nós abrirmos os olhos para os outros, para a vida, para a beleza das coisas e dos sentimentos, para a tolerância, a fraternidade…
O Senhor não precisa de abrir os olhos para provar seja o que for.
Nós é que precisamos de abrir os olhos, abrir o nosso coração às pessoas e às coisas boas que a vida nos dá.
Abrir os olhos, ver o mar sem lhe voltar as costas, apreciar a imensa felicidade que é uma manhã suave de domingo quando um barquinho sonolento atravessa a baía com as gaivotas à volta e o sol por companhia.
Abrir os olhos apesar do fumo que provoca lágrimas ao Valdemar quando se lembra da lota, quando esquece a grelha e contempla o mar, quando olha para trás, quando fita ao longe a linha frágil do horizonte que separa os sonhos da realidade.
A vida também é fumo, nos olhos e nos braços que às vezes baixamos, cansados de lutar e de sofrer. Mas se abrirmos os olhos veremos outros braços que os esperam, que para nós se estendem.
Abrir os olhos e lutar como a Celestina, procurar motivações, forças novas. Os fins de tarde têm certa magia e foi ao entardecer que voltei a ver a Celestina, junto à capela. Depois chegou a Laura que trazia consigo um ramo de recordações ligadas à loja do mestre Adelino, aos matraquilhos, às sandes de atum do Lopes e a uma janela de onde se vê o mar…
Abrir os olhos para a energia, o entusiasmo da Maria Irene que se juntou a nós, com um sorriso luminoso e uma alegria sentida que nos leva a acreditar na vida, no que ela é capaz de nos dar, mesmo quando o desalento nos invade.
Por isso, não sei se é importante saber se o Senhor abriu ou não os olhos, se deveríamos recorrer a uma peritagem, assegurarmo-nos de que não havia mistificação. No fundo, esta peripécia que perturba e interpela pode servir apenas para nos dizer, a todos quantos vão atrás da procissão e aos outros que viram as costas ao mar e ao próximo, que é preciso abrirmos os olhos e, sobretudo, os nossos corações.
Só amar é importante. Amar e o mar…
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*Publicado em O Sesimbrense de Julho de 1992.   

terça-feira, 12 de abril de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 44



O meu negócio é limpo - (António do Carvão)
António Cagica Rapaz

[da série O que eles poderiam ter dito]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 53



Candeeiros bem bonitos

António Cagica Rapaz

O enérgico e sorridente Eduardo aplicava duas argoladas na porta, invariável e ruidosamente, às sete da manhã. A minha mãe ficava com o leite e, depois de deixar o fervedor na cozinha, acendia a telefonia. Assim começava o dia com o “Talismã”, o seu programa da manhã, produzido pelo Gilberto Cotta. Ao microfone, Armando Marques Ferreira, António Miguel e Dora Maria. Das sete às oito e meia, com segunda sessão das dez ao meio dia. Pelo meio ficava a “Onda do Optimismo”, com o Jorge Alves. Tudo no Rádio Clube Português.

Às sete e meia, ia para o ar um folhetim mais assustador do que as argoladas do Eduardo, a cargo da Manuela Reis que interpretava todos os papéis, fazia todas as vozes, homem, mulher e criança, narrava e dava corpo sonoro às personagens. Eram histórias aterradoras que eu ouvia de longe, do fundo da minha cama...

Mas os primeiros ecos da telefonia são anteriores, situam-se na taberna da minha avó, com os “Companheiros da Alegria”, o Zèquinha e a Lélé, o Vasco Santana, o Igrejas Caeiro, a Elvira Velez. E os fados! Os fados, na rua dos Pescadores, reconfortavam, ajudavam a esperar o fim do vendaval, a aceitar a fatalidade do destino, e iluminavam as noites quentes de Verão, sardinha assada e fogareiro à porta. Até o mar se calava para ouvir a Amália...

Quando mudámos para a rua da Fé, a telefonia passou a ser a do Chico da Cooperativa, com os relatos de futebol e, sobretudo, a magia das transmissões de hóquei em patins, os torneios de Montreux, na longínqua Suíça. Era a vibração apaixonante do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas, os golos de Portugal contra a Espanha, tanta emoção e paixão. A nossa imaginação fervia, tínhamos de dar um rosto, um corpo àquelas vozes cujos donos ninguém conhecia. Era o fascinante sortilégio da Rádio...

Já na rua Monteiro, o Manel Estêvão convenceu o meu pai a comprar uma telefonia Philips, a prestações, com letras assinadas por mim, com a caligrafia insegura dos oito anos e que poucas melhoras regista desde então.

No quadro das estações, da esquerda para a direita, lá estavam a Rádio Voz de Lisboa, a Rádio Graça, os Emissores Associados de Lisboa, o Clube Radiofónico de Portugal, a Rádio Renascença, o Rádio Clube Português e as duas Emissoras, a 2 e a 1 que transmitia com Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Guarda, na banda dos 47 metros.

Nos emissores pequeninos de Lisboa, havia, ao sábado de manhã, para os miúdos, o “Comboio das Seis e Meio, do José Castelo que veio muitos anos para Sesimbra e era amigo do meu pai. Certa vez, num concurso de desenho, ganhei duas grandes caixas de chocolates Regina graças ao talento da minha tia Lucinda e ao descaramento com que assinei o bilhete postal, com uma letra ainda mais incerta do que era habitual. A fraude já prescreveu, espero bem...

Na Emissora, gostava de ouvir o “Jornal Sonoro”, os relatos de futebol e, sobretudo, o teatro radiofónico que ia para o ar às nove e meia da noite, repetindo no dia seguinte à uma e meia da tarde, mal acabavam as aventuras do Patilhas e do Ventoinha, parodiantes do Rádio Clube Português. As vozes mágicas do teatro pertenciam a Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Rogério Paulo, Raúl de Carvalho, Rui de Carvalho, Canto e Castro e outros. Samuel Diniz ensaiava.

Na mesma Emissora, ao sábado, às sete da tarde, depois do banho, era o programa infantil da Maria Madalena Patacho, com realização do Castela Esteves, as Aventuras do Zé Caracol.

Mas o Rádio Clube Português era a estação que mais ouvíamos, o “Talismã”, os “Parodiantes de Lisboa”, o Lança Moreira, o senhor Messias, as cavernosas “Lendas da Nossa Terra”, do Gentil Marques, os sublimes diálogos do sempre imitável mas nunca igualável Olavo d’Eça Leal. A mana Maria Helena tinha a mais bonita voz da nossa Rádio, a meu gosto.

À boca da noite, enquanto esperava o meu pai, ouvia o “Jornal da APA”, apresentado pelo Luís Filipe Costa e pela Tany Belo, das sete e meia às oito e dez. A seguir vinha o “Apontamento do Dia”, por Américo Leite Rosa, o mesmo do apicerum, do segredo da abelha. Os “Apontamentos” eram olhares poéticos, atentos e curiosos, sobre o quotidiano, sobre as pessoas e as coisas.

Se o meu pai demorava, ainda ouvia, na Renascença, os “Cinco Minutos de Jazz”, do José Duarte, com que se atingia as nove da noite.

Era o limite da minha tranquilidade vacilante, a última carreira tinha chegado há muito. A partir daí ficava mais inquieto e preocupado...

Ao sábado, às oito e meia, havia a “Onda Desportiva”, apresentada por um tal Henrique Mendes que ninguém sabia se era alto ou baixo, gordo ou magro. Alto e magro, muito magro, era um certo Alves dos Santos, mas isso só fiquei a saber muitos anos depois. Naquela altura, ele fazia, com o Fernando Pires, as “Jogadas de Antecipação” com que encerrava o programa.

Ao domingo era hábito almoçarmos bacalhau com grão enquanto ouvíamos “A Vida é Assim”, de José de Oliveira Cosme. Era um programa delicioso, sem pretensões, muito caloroso e agradável, com diálogos interpretados pelo autor e pela Mary, o João e a Luísa de uma ficção que integrava os anúncios na conversa do casal. E assim apareciam, com suave naturalidade, as camisas da Camisaria Moderna, as tais que não faziam pregas no peito nem rugas no colarinho, o cafezinho da Pérola do Rossio, no Rossio 105, os chás milagrosos da antiga ervanária do largo da Anunciada, os petiscos da charcutaria Suíça e, o melhor de tudo, os candeeiros bem bonitos, modernos, originais, compre-os na Rádio Vitória, não se preocupe mais. Porque na Rádio Vitória, embaixada do bom gosto, quem lá vai é bem servido e sai sempre bem disposto. Lá na rua da Vitória, 46-48, satisfaz-se plenamente o cliente mais afoito.

Na Rádio Voz de Lisboa, havia uma locutora com uma voz muito doce que dizia, com frequência e muita, muita meiguice “Esta é a Voz de Lisboa”. Um dia, o Vítor Marques, na brincadeira, imitou-as, anunciando com requebros ternurentos “Esta é a Rádio Renascença”. Os senhores padres é que não gostaram e suspenderam-no por quinze dias...

A tal Voz de Lisboa apresentava um programa muito popular, com discos oferecidos aos doentinhos dos hospitais, enfermaria oito, cama nove, a Maria Amélia Canossa a dizer que “anda o vira na minha rua, já me encheram a rua toda, oiço harmónios e cavaquinhos, cabeças à roda”. Enquanto o Artur Ribeiro convidada “a cachopa do Minho que Deus abençoa, deixa o teu cantinho, vem até Lisboa mostrar como baila a tua chinela, ver o lisboeta andar atrás dela”.

Mas eu gostava era de ouvir o Max a contar a história da Maria da Luz. “Na pequena capelinha da aldeia velha e branquinha, dei à Maria da Luz um cruz de pôr ao peito e o juramento foi feito por nós dois sobre essa cruz”.

Hoje há outra Maria da Luz que faz, ali nas Caixas, um pão maravilhoso, mas nunca lhe perguntei se também faz uma cruz na massa, como a tia Clarisse quando cozia a farinha que o filho, o Julinho, e eu trazíamos do velho moinho, num tempo em que, na lonjura do campo, não havia electricidade, só poesia.

Poesia, nostalgia, telefonia, um tempo que foi à via...

2000

sexta-feira, 8 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 4


Académica

António Cagica Rapaz

O sonho doirado de todos os miúdos que estudavam e davam pontapés na bola era, um dia, envergar a camisola da Académica. E, naturalmente, também eu me deixei embriagar pelas melodias da velha cidade, pela melancolia das guitarras, pelo eco dos amores lendários no Choupal, pela sombra das capas e pela sedução do equipamento preto.

A primeira vez que me recordo ter ouvido falar da Académica foi quando o malandro do Capela, o nosso guarda-redes, uma das torres de Belém, resolveu fugir para Coimbra que era a terra prometida para profissionais em litígio com os seus clubes e que corriam a pedir asilo político no Largo da Portagem ou na Praça da República, depois de terem batido à Porta Férrea.

Lá permaneciam um ano e, após esta chantagem escolar, regressavam à base. Mas ele não voltou, apaixonou-se por Coimbra e por lá ficou, Capela que era, encostado à Sé Velha e à Igreja de Santa Cruz, em família. O André fez o mesmo, depois o Jorge Alexandre, muito mais tarde o José Manuel Castro, todos de Belém para Coimbra…

Outro que fugiu para a Académica foi o Faia, do Barreirense, que, com a camisola preta, marcou um célebre golo por entre as pernas do Costa Pereira, proeza que custou um título ao Benfica. Este Faia já era meu conhecido, até lhe pedira um autógrafo, em Sesimbra. Mais tarde viria a jogar contra ele e a tê-lo, episodicamente, como treinador. As voltas que a bola dá…

Também o Péridis e o Rocha andaram em bolandas entre o Sporting e a Académica. Este Rocha, chinês de Macau, mágico da bola, era um dos que constavam da minha magra colecção de Ídolos do Desporto. Nesse tempo, pontificavam na Académica Bentes, Torres, Wilson, Abreu, Malícia, Marta e outros.

Os anos iam passando, eu ia avançando nos estudos e nos pontapés na bola. A meta estava fixada, era completar o 7º ano e, depois, arranjar um empregozinho.  Na minha segunda época de júnior, tive uma tentadora proposta do Sporting que me garantia o pagamento de pensão, estudos, treinos e prémios de jogos. Juca era o treinador e Felisberto Vaz o seccionista. Mas tive receio de ir viver para Lisboa, medo de vir a ser dispensado no final da época, quando passasse a sénior. E acabei por recusar…

Em 1962, realizou-se em Leiria o habitual torneio, entre juniores, com as selecções de Lisboa, Porto, Coimbra e Setúbal, tendo eu tido a honra de ser escolhido para capitão da equipa de Setúbal que venceu (por 5-3) a de Coimbra onde jogavam o guarda-redes Arrobas e o Manuel Duarte que, no ano seguinte, viriam a ser meus colegas na Académica.

Curiosamente, esta circunstância, o jogo entre selecções regionais, não teve influência na minha ida para Coimbra. Na verdade, a Académica mal chegava a ser um sonho, nem me atrevia a pensar nisso. Por tudo, e porque nem sequer tinha dinheiro para ir lá tentar a sorte.

O milagre aconteceu de forma totalmente inesperada e sem que eu tivesse tido a menor intervenção. Foi o acaso de um dos meus professores, no liceu de Setúbal (dr. João Cavalheiro), ser amigo do dr. Hortênsio Pais de Almeida Lopes que era um dos membros da Comissão Administrativa da Académica, na altura.

Para não dar a saber que não tinha dinheiro para a viagem, tive o atrevimento de pedir à Académica que me pagasse o comboio e a pensão. E tive a sorte de não me terem mandado à pesca. Como num sonho, desembarquei em Coimbra, onde nunca tinha estado, para treinar, sob o olhar de Pedroto, ao lado de nomes míticos, os tais ídolos longínquos, quase irreais, como o dr. Torres, o dr. Abreu, o dr. Marta, o Wilson, o Rocha, o Gaio, o Maló, o Curado, o Américo, o Lourenço. Lá estavam outras caras novas, nomes que viriam a ser grandes, na Académica e no futebol português, como o Rui Rodrigues, o Oliveira Duarte, o Gervásio, o Piscas. Mais modestos e tímidos, eu e o Rosales, vindo do Estoril e que haveria de ser meu companheiro de quarto e amigo para a vida.

Entre os titulares nesse Verão 62, contavam-se o França, o José Júlio e o Araújo que aproveitaram a digressão a Moçambique para se juntarem ao Chipenda na luta pela independência da África portuguesa.
Aprovado por Pedroto, realizei o meu sonho de ingressar na Académica e, ao mesmo tempo, entrei na Universidade, coisa que nunca ousara esperar…

Setembro foi o recomeço dos treinos, e a minha primeira época foi de adaptação e aprendizagem, no meio de grandes jogadores e alguns homens notáveis com os quais diferentes tipos de relações se foram desenhando.

Os graves problemas familiares, a falta de dinheiro, a angústia, tudo isso me deixou uma enorme frustração, embora tentasse mostrar cara alegre nas aulas e nos treinos e participar na vida colectiva muito centrada no café Montanha, no largo da Portagem.

Por lá passavam figuras castiças como o gordo Administrador, exótica personagem, velho colonialista de monóculo à Spínola; o Barrinhos, peso pluma que se achava parecido com o Aznavour; o senhor Vaz, da casa das máquinas e dos vapores rutilantes; o gerente Arrobas, mestre de cerimónias num café onde o Humberto servia os clientes e contava que trabalhava por desporto, já que o pai era um rico industrial de cortiça; o Carlos Portugal, exímio basquetebolista, corredor de automóveis e jogador de snooker; o Bigodes da escola agrícola, que metia bolas a atravessar; o Panão, o Manel Cavalo, o Figueiras Antárctida, o Zé Maria das histórias deliciosas, os manos Salvado. O Montanha era o nosso mundo, ali no largo da Portagem onde morava o Mata-Frades e ficava o consultório do dr. Adolfo Rocha, mais conhecido por Miguel Torga.

Na segunda época, Pedroto lançou-me em alguns jogos e havia boas perspectivas de futuro. Porém, há no mundo do futebol práticas a que nem a Académica escapa. Estranhamente, e por razões que nada tiveram a ver com competência, Pedroto acabou por sair. No seu lugar, como era de esperar, ficou o velho capitão…
A terceira temporada foi de total frustração, desencanto a que não posso deixar de associar o nome do senhor Wilson cujo comportamento descrevo com mais pormenor noutra crónica.

Em Maio de 65, o meu pai faleceu e decidi deixar Coimbra, transferindo-me para a CUF. Era uma nova aventura que começava…

quarta-feira, 6 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 53


Regresso*
António Cagica Rapaz
O Carlinhos da Rã entrou ofegante no Café Central naquele fim de tarde tranquila, lusco-fusco preguiçoso, com a noite a ameaçar cair e o dia a agarrar-se às nuvens ténues que beijam o mar lá longe, em equilíbrio adivinhado sobre a linha do horizonte.
De boina abundante enfiada na cabeçorra, o Carlinhos descera a correr a escada da Repartição de Finanças onde pairavam a sombra esquiva do regedor Ferreira, vulgo Badejo, e a aristocrática elegância do Professor Artur Maria da Silva Costa.
Nós, rapazolas centralistas, estávamos como de costume ancorados ao bilhar da frente, depois de uma voltinha ao Espadarte, um olho à lota e um salto à loja do mestre Adelino. Era a nossa peregrinação, o nosso triângulo das Bermudas onde nos perdíamos entre as páginas d’A Bola, as tacadas do bilhar, a sedução da esquina que nos amparava, o conforto dos poiais das montras, o ar bravio que nos chegava do jardim, do campo do Desportivo, da serra, do mundo que se abria naquela rua do cinema que era o berço da evasão.
E o Carlinhos, já lá chegamos, caía-nos em cima para nos interrogar com febril excitação:
– Vocês não deram pela minha falta?
Foi assim, tal e qual, e nós ficámos embaraçados, confundidos, pesarosos porque, em boa verdade, nenhum de nós podia afirmar ter sentido naquele dia, naquela tarde calma, a ausência do Carlinhos da Rã.
Ver aparecer o Alfredo ou o João Vai-Vem quando jogávamos à bola entre o Grémio e o Central, isso causava-nos certa emoção. Ir ao baile à Quintola e apanhar uma tampa enchia-nos de vergonha. Cair na esparrela do Júlio Mouco era vexame insuportável.
Agora passar uma tarde sem ver o Carlinhos, de facto não era coisa que nos traumatizasse por aí além.
E ficámos mudos como peixes estendidos na lota a ouvir a cantilena do Alfredo Filipe. E não percebíamos sequer a razão daquela pergunta. Estaria o Carlinhos a fazer uma sondagem sobre a sua popularidade? Poderia ele medir o afecto que nos inspirava?
Teria preocupações de ordem metafísica o nosso Carlinhos batráquio?
Nada disso. Sucedera apenas que o Carlinhos tinha ido com a mãe a Lisboa e talvez quisesse verificar se a vida em Sesimbra, no Central, não teria parado durante a sua ausência. Não, Carlinhos, a vida não pára seja para quem for que se ausente. Por umas horas para ir a Lisboa ou para sempre no cemitério, no mar profundo ou algures. Os matraquilhos do Lopes continuam a trincar bolas e a disparar tiraços. O Mestre Adelino não deixou de criticar o Otto Glória entre duas barbas e uma desbastadela a preceito. O Hernâni foi à cave do Tio Chico da Cooperativa para o seu ping-pong antes de vir servir uma bica escaldada ao imenso Duque. O Damião distribuiu as fichas do sintético, o António, na mercearia do senhor Arménio, vendeu dois quilos de sabão de amêndoa e três litros de azeite espesso enquanto o Orlando largava o bilhar para ir fazer um frete à doca.
Não, Carlinhos, a vida não pára e não demos pela tua falta. Pela nossa falta dão aqueles que de nós gostam e mesmo esses têm a sua vida para viver. Há dezanove anos fui mais longe do que Lisboa, abalei para Paris e levei comigo o Central, a doca, a fortaleza e o farol. Na fronteira, quando me perguntaram se tinha alguma coisa a declarar, era difícil dizer que levava aquela carga toda mais as redes do Pai Bernardo, o gelo do Chanoca, as barracas do tio Abel, o carrocel oito, os bancos do jardim, a porta da capela, o campo do Desportivo, a escola Conde de Ferreira, a areia da praia e o cântico das gaivotas.
Mais difícil ainda teria sido dizer que ia à procura do Carlinhos da Rã que se ausentara para parte incerta numa tarde pálida pela calada do tempo.
Lá longe, dei por mim a folhear o álbum da memória com a preocupação de conservar as recordações como se guardava a albacora para os invernos intermináveis. Poderá ter sido uma maneira de não deixar que me esquecessem, de fazer com que dessem pela minha ausência. E longe, sentia-me mais perto, percorria ruas, becos e recantos da nossa terra, mergulhando nas entranhas do tempo, trazendo ao de cima o que me parecia ser importante, interessante, valer a pena.
Ver e sentir Sesimbra de longe é uma abordagem tendenciosa e parcial porque escolhia caminhos e tonalidades, situações e pessoas levado por uma concepção da vida e das coisas que é apenas a minha. E o que para mim é belo ou bom pode ser detestável para o vizinho do lado. Depois, a visão que temos lá de longe, deforma, retoca, altera, reconstrói uma realidade que o tempo por si já se encarregou de transformar sem precisar da nossa ajuda.
Por outro lado, em cada visita rápida, apercebia-me da distância entre o universo relativamente poético e idealizado que eu tentava recriar e a vida, os valores, a realidade.
Diz o poeta que melhor que viver é sonhar. E é verdade que, ao longo destes dezanove anos, eu sonhei, reconstruí quadros do presépio de Sesimbra com uma espiritualidade semelhante à que nos invadia nas noites de Natal, na Missa do Galo, quando olhávamos o nosso próximo com uma ternura sentida e uma fraternidade desusada.
O tempo e a distância trazem-nos, com a saudade, imagens ideais, o melhor da montra do Zé do Lima, os brinquedos mais bonitos.
Nas minhas visitas ocasionais fui descobrindo uma outra realidade mas, no fundo, se as coisas são o que são, elas poderão também ser o que nós quisermos, o que delas fizermos.
Podemos ver com os olhos, com uma lupa, mas também com o coração.
Depois, nem tudo muda e ainda hoje lá está a relíquia que é a mercearia do Arménio, com o mesmo António ao balcão, os mesmos tachos e panelas, fogareiros e penicos, talvez o sabão de amêndoa, aquele cheiro a coisas boas e simples da nossa infância, o aconchego dos sacos de feijão, a tentação de um naco de marmelada e o mesmo azeite espesso que ilumina a eternidade.
O meu longínquo primo Cristiano dizia-me noutro dia que gosta de ir passando pela montra do nosso jornal porque enquanto o fizer é sinal de que não é o retrato dele que lá se encontra debaixo de uma cruz preta. Tanto lhe basta para se sentir bem, chega-lhe estar vivo. É simples como filosofia, mas não deixa de ser lúcida e, porventura, mais profunda do que parece.
E é assim, vamos e vimos, ausentamo-nos e voltamos, as marés sobem e descem, o sol recomeça em cada dia a sua travessia da baía, do Caneiro à doca, o Carlinhos foi a Lisboa e eu dei um salto mais demorado a Paris. Hoje estou de volta, já não vejo Sesimbra de longe, mais ainda imagino. E continuo a reconstruir.
Por enquanto mal tive tempo para pensar e receei não conseguir escrever. Agora estou por dentro e não sei se, para escrever, é melhor ou pior. Só sei que estou de volta, estou de novo em casa. Deixem-me saborear…
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*Publicado em O Sesimbrense de Outubro de 1993.