
Chagas*
António Cagica Rapaz
É o cunhado do Alfredo, vive de noite, quase não come, basta-lhe o cheiro da cozinha do seu «Ribamar».
Se há fado em Sesimbra, se o folclore se faz ouvir, muito se deve ao dinamismo do Chagas que tinha, ele próprio, uma bela voz.
Hoje a cantiga é outra, um trabalho duro atrás do balcão, um esforço de muitos anos, um entusiasmo inquebrantável, uma fibra enorme num corpo que desaparece na camisa branca de mangas curtas.
Todos os fadistas conhecem o Chagas, já cantaram na sua casa que, em Sesimbra, é a catedral do fado. Menos vinho, mais whisky, parafusos.
A casa é pequena mas bonita. O folclore vem para a rua, de arquinho e balão lá vai a marcha.
O Chagas gosta de se ouvir ao microfone; explica aos turistas o tema do fado, eles não percebem nada, sorriem, batem palmas, o Chagas agradece e volta para o balcão. Quando o fado se cala e nem o eco perdura, o Chagas vai beber um copo a casa do Alfredo onde os filhos da noite vão morrer antes do dia nascer…
Junho 74
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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica "Quando morre a madrugada - Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite".
* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica "Quando morre a madrugada - Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite".
Mais uma pérola "Cagiquiana"!
ResponderEliminarDá perfeitamente para perceber que este Chagas, não sendo ciclista, era um Marco de Sesimbra!
Boa noite, ó mestre!
mais um retrato da bela Sesimbra...
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