
A face oculta do mundo*
António Cagica Rapaz
Há pouco tempo, num restaurante do Bairro Alto, um cliente encomendou uma dose de «Joaquizinhos» fritos e perguntou ao empregado por que razão os carapauzinhos têm aquele nome.
Embaraçado, o empregado não soube dar a resposta, mas logo surgiu um outro cliente explicando que se trata de uma alusão a um senhor de Sesimbra. Com efeito, prosseguiu o culto cliente, em Sesimbra havia muitos carapauzinhos pequeninos e o tio Joaquizinho era uma figura muito conhecida pela sua mini-estatura. Daí, Joaquizinho igual a pequenino, aplicado aos carapaus, petisco tão apreciado.
Toda a gente sorriu com a explicação e a refeição prosseguiu. Eu não me meti na conversa porque de pouco serviria informar a ilustre assistência que os joaquizinhos são os pelins e o tio Joaquinzinho era pai do José António da parteira. Malhas que o império tece, malhas que o pelim fura…
Tudo isto me inspirou uma reflexão sobre pessoas e factos que entram ou não entram na História, por isto ou por aquilo.
Habituamo-nos aos grandes nomes, às altas individualidades, sabemos quem inventou a penicilina, conhecemos a teoria da relatividade, a lei da atracção dos corpos, o nome do cientista que descobriu a vacina contra a raiva, nomes de reis, presidentes, músicos, escritores, políticos, mil e uma personalidades que ficaram na História. Mas a grande maioria desconhece que, em diferentes períodos dessa mesma História, algumas pessoas falharam por pouco o acesso à imortalidade.
Por razões diferentes, como vamos ver…
É a face oculta das coisas, o que a televisão não mostra, a rádio não diz e os jornais não revelam.
Em 1972, um jornalista francês, de férias na Austrália, foi assistir a um concerto de Country-music e, para grande surpresa sua, descobriu num canto um guitarrista talentoso e simpático. Conversaram, beberam e acabaram a noite em casa do guitarrista, James Lighton. A certa altura, este ilustre desconhecido interpretou de forma genial dois dos maiores sucessos dos Beatles, Yesterday e Michele. Até aí o jornalista francês, Pierre Noiret, apenas registou, admirativo, a arte do guitarrista. A surpresa veio depois quando James Lighton lhe revelou, com documentos na mão, que era ele e não os Beatles, o autor dos dois trechos de fama mundial.
Antes de serem figuras lendárias, John Lennon e Paul McCartney estiveram na Austrália e travaram conhecimento com James Lighton. Tocaram juntos, conviveram durante algum tempo e, ao partirem, levavam na bagagem as melodias que haveriam de dar a volta ao mundo, com o êxito que conhecemos.
O escândalo só não surgiu porque Pierre Noiret recebeu uma forte soma de libras, discretamente, de um dos advogados dos Beatles. E nunca revelou o segredo.
James Lighton morreu num desastre de viação em 1984 sem ter conhecido a fama nem recebido a recompensa por um talento autêntico…
Depois do 25 de Abril, muito boa gente se interrogava sobre os segredos que os ficheiros da Pide deveriam encerrar.
A publicação de todos ou parte desses documentos constituiria uma verdadeira bomba e o receio era bem compreensível e previsível em múltiplos sectores políticos.
Ora até hoje, em Portugal, apareceram muitos livros sobre o que se passou antes e depois do 25 de Abril, mas nada sobre os ficheiros da Pide. Porquê?
A verdade é simples, mas ninguém a diz. Em Março de 74 não era segredo para muitas pessoas que o golpe de Estado era inevitável e um funcionário da Pide, hábil e previdente, apoderou-se da maior parte dos documentos ultra-secretos.
O escriba, Joaquim Albertino da Costa, permaneceu na sombra anónima em que sempre vivera. Porém, de estúpido nada ele tinha e entregou o assunto a um advogado célebre que entrou em contacto com certas personalidades influentes e negociou o silêncio do homem da sombra.
O livro não foi publicado e o habilidoso funcionário recebeu dois milhões de contos. Retirou-se para o Brasil onde faleceu em 1988, de morte natural…
Outro caso insólito é o do templo de Augusto, verdadeira obra-prima de arquitectura romana descoberta em Palmela numa quinta que pertence ao Sr. Luís Ferragudo.
Aconteceu, por acaso, durante a construção de uma adega e o bom Ferragudo falou a um amigo que se interessava pela arqueologia. Foi em 1957 e o caso ocultado porque um célebre arqueólogo italiano pagou uma pequena fortuna ao nosso Luís Ferragudo para não revelar a existência de uma obra que a academia de Arqueologia de Florença afirma nunca ter sido executada.
Para não serem desacreditados, os italianos preferiram pagar e, algures numa quinta de Palmela, dorme, meio desenterrado, o templo de Augusto…
E quem sabe onde fica o beco Alfredo Vinhas? E quem foi Alfredo Vinhas?
O beco fica situado não muito longe do estádio do Bonfim em Setúbal e Alfredo Vinhas é autor de vários sucessos populares, cantigas que o povo canta, ao ponto de se ignorar o nome do autor, atribuindo-se ao colectivo popular a sua criação. Tal é o caso de «Ó Rosa arredonda a saia» e do «Jardim da Celeste».
Alfredo Vinhas morreu pobre e praticamente ignorado, no Pinhal Novo, em 1962.
Em todos os domínios, em todos os sectores de actividade há pessoas que fizeram coisas extraordinárias e nunca foram recompensadas nem conheceram a notoriedade merecida.
Em 1824, na pequena cidade de Berkeley, o médico John Silver descobriu e deu a conhecer uma banalidade: o banho Maria, assim conhecido porque a mãe do simpático doutor se chamava Mary.
Nenhum jornal relatou a descoberta estrondosa de um jornalista francês, Jean Marie Laumonier, que possui a prova de que toda a obra do filósofo Jean-Paul Sartre é, afinal , da autoria do seu cunhado André Sebas que viveu toda a vida na sombra de Sartre por ser coxo e gaguejar de forma pronunciada. Porque estas enfermidades não lhe permitiam uma vida pública, o pobre André aceitou escrever o que Sartre assinava e comercializava.
Obviamente, a revelação desta mistificação seria uma vergonha e um descrédito para a França intelectual e orgulhosa dos seus grandes pensadores…
E André Sebas morreu no anonimato em Nantes, em 1976…
O último exemplo toca-nos de perto porque diz respeito a um nosso conterrâneo, o Júlio Silva, o John Português, que foi levado a tribunal por ter reclamado direitos de autor que na realidade pertencem a a um inglês, Peter Shilton. A canção intitula-se «The Gispy And His Horse» que Júlio Silva traduziu e adaptou, transformando-a no grandioso sucesso do fado do cigano que matou o cavalo na feira da Agualva…
E esta citação pitoresca serve apenas para preparar a explicação final. Tudo quanto atrás fica dito é totalmente falso, ou melhor, é pura imaginação, conversa fiada, aldrabice pegada, lampana da boa, cujo hipotético e único mérito é ter constituído tema de agradável leitura, passatempo sem outra pretensão que não seja assassinar o tempo, dar um pontapé na letargia deste fim de Verão.
A única coisa verdadeira será, porventura, a origem dos joaquinzinhos, tese que fui buscar (com a devida vénia e apreço) a esse homem culto e inteligente que se chama Rafael Monteiro.
Isto é verdade, o resto é fumo de Verão.
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*Publicado originalmente na edição de Outubro de 1990 de O Sesimbrense.
Verdadeiramente desconcertante!
ResponderEliminarConfesso que fui "apanhada" por muitas das bombásticas "revelações"...
Imaginação prodigiosa e enorme sentido de humor.
"Lampana da boa"?
DA MELHOR QUE HÁ!!!
BOA NOITE, Ó MESTRE!
Cagica no seu melhor!!!
ResponderEliminarQue bom que é ler estes textos!!!
E que bem me fazem à alma!!!
Boa noite, ó Mestre!!!
excelente.
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