
Boa noite, ó mestre!
António Cagica Rapaz
Quando o sol se põe para lá do farol, deixando no céu tons de púrpura, quando os pescadores, de saco aviado, se encaminham lentamente para a doca, a noite turística de luzes retocadas instala-se na esplanada da Marisqueira. É o intróito, convém chegar cedo para ocupar um lugar estratégico, com a bica e uma Aveleda, o maço de cigarros e o isqueiro, armas da emboscada que começa a ser montada.
Em frente, para lá das bombas da Sacor, estende-se o mar, enrugado como a pele do tio Vicente Faneca. As traineiras já lá vão, sombras que correm sobre as águas, luzes que tremulam no alto dos mastros. Nostálgico, o jovem pescador procura com os olhos a esplanada da Marisqueira onde já foram servidas mais bicas e mais isqueiros foram colocados com negligente ostentação sobre as mesas de ferro como âncora que se lança ao fundo. O lugar está marcado, a noite ainda mal começou, tudo pode acontecer…
- Coffee, please, and two brandies – começa a chegar o material, todos atentos à jogada. Aí está o Capitão John que não é capitão nem John, sorrisos, saudações, vai um copo? Boa noite, ó mestre! A bordo da traineira vai um turista estrangeiro encantado com a perspectiva da pesca e que tomou dois comprimidos contra o enjoo. A mulher ficou em terra, não tomou comprimidos mas já vai no terceiro whisky, na esplanada. Ela não enjoa…
1980
Um remate final "à Cagica"...
ResponderEliminarDelicioso este pequeno texto.
E aproveito para notar que a imagem é muitíssimo sugestiva.
BOA NOITE, Ó MESTRE!
Quanto ao texto, é tal qual como diz. Pura fleuma cagiquiana. "Souplesse". Muita classe. Muito jogo.
ResponderEliminarQuanto ao resto, parece-me líquido. Claro como água.
Boa noite, Ó Mestre!
São comentários de deixar qualquer um Cuscopos!
ResponderEliminarDo texto, então, nem se fala...
Boa noite, Ó Mestre!