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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 35

as crónicas da Eventos...



Pauwels e o milagre*

António Cagica Rapaz

Em 1979, o mundo foi abalado pelo segundo choque petrolífero e a tecnologia de ponta dava passos de cujo alcance poucos tiveram uma consciência tão nítida como Louis Pauwels.

Pressentia-se o fim do reino do aristocrático presidente que foi Valéry Giscard’Estaing e começava o maquiavélico e despudorado François Miterrand a preparar o rol de irresponsáveis e incontáveis promessas em que o supostamente arguto povo francês acreditou. Nesse tempo, o número de desempregados andava pelos 300.000 e Miterrand nem pestanejou (como era seu tique) ao afiançar que iria criar um milhão de postos de trabalho. Só para jovens. Poucos anos volvidos, a França, fatalmente, chegava aos três milhões de desempregados e Mitterrand, pressionado pelos jornalistas, apenas declarou que a culpa era dos seus peritos que se tinham enganado nos cálculos. E passou a outro assunto. Privilégios, arrogância e impunidade destes príncipes que nos governam.

Foi há uns bons vinte anos e os políticos de hoje não são melhores…

Num dos seus brilhantes editoriais no “Figaro Magazine”, Louis Pauwels terá sido, porventura, o primeiro a dizer que a rainha ia nua. A rainha era a nova ordem mundial caracterizada pelo crescente papel da informática, da robótica, da modernidade que ia criando e instalando máquinas que atiravam para um desemprego galopante e dramático pessoas tornadas desnecessárias, fardos a eliminar em nome da rentabilidade.

Com uma lucidez implacável, Pauwels explicava (em 1979, é importante recordar) esta coisa simples e evidente: a máquina cria riqueza porque faz melhor, mais depressa e com menor custo o trabalho até então desempenhado por homens. Inevitavelmente, iria haver cada vez mais pessoas que perderiam o seu emprego e outras que muito dificilmente ou nunca teriam acesso ao mundo do trabalho. Esta era a realidade, cruel e inegável a não ser para os políticos que não só recusavam a evidência mas dela se aproveitavam com criminosa hipocrisia.

Louis Pauwels é um homem de rara inteligência, grande coragem e uma visão do Cosmos que vai muito mais longe que as sórdidas lutas por um poder tão transitório como irrisório. Assumidamente de direita, revelou uma grandeza admirável ao avançar uma forma de atenuar o drama do desemprego. Em linhas gerais, sugeria que a riqueza criada pelas máquinas não ficasse maciçamente nas mãos dos patrões, mas que fosse distribuída por forma a permitir aos milhões de excluídos viver com dignidade. Será isto socialismo? Será solidariedade? No fundo, ele bem sabia que era uma visão lírica, beatífica e utópica deste mundo que nada tem de admirável e onde os grandes grupos económcios, ao longo destes vinte e tal anos, têm utilizado cada vez mais as máquinas, explorando e humilhando trabalhadores angustiados e resignados a aceitar baixos salários e horários abusivos. A riqueza produzida pelas máquinas continua a entrar nos cofres dos patrões, enquanto os custos decorrentes dos despedimentos ficam para o Estado, ou seja, para os contribuintes…

Pauwels referia ainda quanto de paradoxal existe ainda nesta busca desesperada de trabalho, quando o próprio do homem não é trabalhar, mas sim ter actividades, passear, escrever, pintar, ir à pesca, estudar, conviver. Mas para isso, precisa de um rendimento mínimo que não lhe é proporcionado porque a repartição da riqueza continua a ser injusta.

Louis Pauwels é co-autor do “Despertar dos Mágicos” e de “Histórias Fantásticas”, homem da metafísica e de visões transcendentais. Mas não é louco, nem visionário, nem ingénuo ao ponto de acreditar que os ricos alguma vez se preocuparão com os pobres. E já então percebia que o poder político está totalmente manietado pelo poder económico.

No nosso país, continuamos sem levantar o sigilo bancário; sem averiguar a partir dos sinais exteriores de riqueza; sem ter mão pesada para as fugas ao fisco; sem investigar falências duvidosas; sem acabar com empresas familiares que só são constituídas para se ter carro, gasolina, almoços, férias pagos, com o dinheiro que deveria ir para o IRS; sem prescindir de mil privilégios e mordomias como reformas antecipadas, assessores pagos a peso de oiro, empregos para camaradas de partido; sem coragem para punir exemplarmente os poluidores, responsáveis por descargas criminosas e cobardes que as televisões mostraram mas cujos autores permanecem impunes; sem dotações orçamentais para a saúde, para a educação ou para as pensões, mas com fartura para a megalomania dos dez estádios do Euro 2004.

Louis Pauwels não se enganou e o desemprego continua a ser o mal maior, causa principal de angústia, desespero, violência, criminalidade, insegurança, cancros que minam a Humanidade. Porque não há esperança de um futuro melhor, porque os valores éticos, morais, humanitários, são esquecidos e pisados, porque se mata por petróleo e se morre voluntariamente em nome da religião.

Depois, nas sociedades modernas, o consumo é religião, cultiva-se a ostentação, os hipermercados multiplicam-se, o crédito é acessível. E são os carros, as câmaras de vídeo, os televisores, o cabo, a Internet, os telemóveis de terceira geração, as aparelhagens de alta fidelidade, as férias a prestações, a ilusão que conduz ao drama do endividamento incontrolável. Os mais pobres, os excluídos, em particular os mais jovens, arregalam os olhos. E muitos caem em tentação, roubos, assaltos, delinquência e criminalidade inevitáveis.

Depois, a televisão mostra tudo, não há tabus nem pudor. Censura-se um comentador político por ser incómodo e dá-se rédea larga à vacalhada da Quinta. Os estudantes revoltam-se contra o pagamento de propinas, mas têm automóvel, telemóvel sofisticado que dá para tudo, até para falar. Encharcam-se em álcool em noitadas abundantemente exaltadas em revistas pirosas e até em semanários que pretendem ser sérios. Em tempo de Queima das Fitas, as inocentes cervejeiras deste país oferecem milhares de barris de onde saem, misturados com a espuma, bebedeiras monumentais e comas etílicos sem conta, para grande gáudio da televisão e perante a indiferença do poder político.

Nas nossas estradas morre-se desgraçadamente porque ignoramos o Código, não respeitamos os outros condutores, queremos chegar à frente, vencer, ser mais espertos.

Se Louis Pauwels vivesse em Portugal, se calhar ia rever a sua teoria, ao verificar que continuamos a fabricar, às toneladas, doutores desenquadrados das necessidades do mercado de trabalho, tanto em qualificação como em número. Mais observaria que, no nosso país, as máquinas não substituem os homens, já que ao volante de cada uma vai sempre um condutor. E em algumas zonas industriais onde a crise grassa, há grandes máquinas, Ferrari, Maseratti e outras, nas mãos de empresários “falidos”.

Louis Pauwels teve razão, talvez cedo de mais. De facto, não é possível alcançar-se a paz, a harmonia social, o bem-estar da Humanidade, sem uma verdadeira e alargada solidariedade, através de uma mais justa redistribuição da riqueza, por forma a assegurar um mínimo de justiça social e equilíbrio entre os povos. E sem uma urgente e efectiva acção de protecção da Natureza, uma luta corajosa contra a poluição, em defesa do Ambiente.

Pessoalmente não acredito em tal milagre e receio bem que o Homem acabe por destruir o Mundo em que vamos vivendo cada vez pior, com a intolerância, a ganância, a indiferença, a exclusão, a solidão, a guerra, o terrorismo, a sida e a droga. Mas a teoria está certa e se o milagre de Pauwels se der, então sim, os homens dispensados pelas máquinas poderão viver com dignidade e ter as tais ocupações, ler, passear, pintar ou ir à pesca.

Têm é que se despachar porque, qualquer dia, já não há peixe…

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*Publicado no n.º 34 de Sesimbra Eventos, de Natal/Ano Novo de 2004-2005.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 39




Soledade Welch*

António Cagica Rapaz

Durante anos longe de Sesimbra tenho escrito muitas dezenas de crónicas que são a expressão de certos estados de alma, a revelação de um rolo infinito de “fotografias” que fiz ao longo de muitos anos. Tal como as cores impressionam a película, também eu fiquei impressionado com a beleza, a ternura, a gentileza, a lealdade, a fraternidade, a inveja, a maldade, a baixeza e com tantos outros sentimentos, emoções e situações que encontrei, conheci e observei.

Aconteceu comigo como sucede com todos os seres humanos, de Sesimbra e de algures.

Do que vi e vivi guardei certas recordações como cada um de vós terá as suas. Muito cedo senti vontade de as expor em praça pública, pelo gosto da escrita e por pensar que bom número de pessoas as lê com grado.

Naturalmente, nem tudo se pode contar, porque todos temos o nosso jardim secreto, certo pudor e respeito por outras pessoas que poderiam não apreciar as minhas revelações.

Por outro lado, não utilizo esta forma de expressão pública para atacar ou denegrir alguém, o que não significa que não tome posição em relação a situações de interesse geral, pois tenho opinião e julgo ser capaz de a apresentar correctamente.

No fundo, muitos sesimbrenses poderiam colaborar nos nossos dois jornais, havendo certamente muita coisa interessante e importante a dizer. Tal como sucede com o tal pó de lavar a roupa, também um dia eu direi que julgava que as minhas recordações eram belas antes de ler as tuas.

Um amigo perguntava-me há tempos se não haverá quem pense que eu distribuo notas às pessoas como os júris dos festivais da canção, proclamando quem é bom e deixando os outros na sombra. O tema é interessante e direi que não sou árbitro nem juiz nem patriarca nem modelo de virtudes, longe disso.

Não possuo as tábuas da lei nem a cartilha das qualidades excelsas. Por isso ninguém é bom só porque essa é a minha opinião. Por tudo e porque posso enganar-me.

Aliás, o importante para o leitor não é que eu chegue aqui escrevendo apenas que o Carlinhos da Rã é um bom rapaz. Não se trata de distribuir medalhas nem certidões de bom comportamento, muito menos registos criminais.

Dizia Sartre que escritor não é quem escreve certas coisas mas quem escreve de certa maneira. Ora o que eu escrevo (mesmo sem ser escritor) pouco importa, o que conta é que o faça de certa maneira, de forma a proporcionar leitura agradável. Claro, se houver um fundo de verdade, um fio pelo menos, se falar de situações e pessoas conhecidas, melhor ainda, mas vale menos pelo fundo do que pela forma.

E se não falo de todos quantos pensam que lhes poderia arranjar aqui um lugar como na geral do Parque, a verdade é que para isso há a lista telefónica. Não posso ter de todos a mesma imagem, a mesma impressão gravada no meu espírito. Uns estão no primeiro plano das tais fotografias, outros no segundo plano e outros não aparecem porque não cabem, não entram no campo visual da minha máquina fotográfica que, por vezes, pode não funcionar tão bem como a do Américo fotógrafo que tinha como modelo, na loja, a Lucinda.

O mestre Adelino, de navalha na mão, de vez em quando deitava um olho à Lucinda e lá ficava o desgraçado do freguês com uma patilha mais curta. Podem acreditar, é pura mentira…

Por isso (e respondo ao meu amigo) as pessoas e as situações não são melhores ou piores porque eu decido, julgo ou afianço (não sou aferidor como o filho do tio Chico Carteiro) e apenas dou os meus pontos de vista, as minhas impressões, como o Damião poderia ter dado se resolvesse contar o que viu e ouviu naquele Grémio onde o seu café ficou famoso.

Muito sabem o Damião, o Charuto e o Alfredo que teriam mil histórias para contar. Como eles não o fazem, avanço eu com pouca cerimónia, com um desplante quase igual ao do Valdemar, com a pouca vergonha do meu tio Justino Come-figos, sem o talento do meu antigo Professor Vitorino Nemésio, sem a pureza de estilo do meu compadre Alves dos Santos e apenas com algumas ideias, certa forma de contar e a vontade de estar convosco.

Quando no Diário de Lisboa ou no Record coloquei os nomes do Deodato ou do Capitão Domingos, intriguei muita gente por esse país fora, mas sobretudo dei-lhes alguma satisfação, certo orgulho comedido. E tornei mais viva e concreta a narrativa pois se falo de um café nada custa acrescentar que é do Zé Filipe ou do Alfredo. Se era um cinema, claro, era o do João Mota, quanto mais não fosse porque a Soledade é minha prima e o Rui casou com a Rosa Maria que também é minha prima. Claro que estes pormenores são de pouco interesse (a não ser para as pessoas visadas) e se o faço é apenas por brincadeira e para evocar as pessoas que nas fotografias e na televisão agitam a mão para saudar a família, os amigos e os vizinhos de patamar. Assim eu saúdo os primos e as primas. Escuso de lhes escrever, poupo o selo, economia de tempo e vantagem que retiro desta correspondência.

Tudo isto é apenas devaneio, conversa de passeata entre o Central e o Espadarte, porque na vida há coisas graves que devem ser tratadas de outra forma. Porém, há um tempo para cada coisa e, por vezes, é bom distrairmos o espírito, abordar com ligeireza e aparente frivolidade outros temas porque a vida se encarrega de nos colocar uma cruz sobre os ombros. Para uns ela é leve, outros arrastam-se sob o peso da amargura anos e anos.

Por isso, se pudermos sorrir com alguma ternura, daí não virá mal ao mundo. Não é verdade, Candinha?

Escrevo o que me passa pela cabeça, enquanto sentir vontade e enquanto souber que não aborreço muito os leitores.

E imaginem que hoje, ao iniciar esta crónica, pensava falar-vos da Sofia Loren, da Raquel Welch, da Brigitte Bardot e outras vedetas que tive a ocasião de ver pessoalmente, aqui em Paris, de perto, como daqui àquela cadeira.

E afinal fugiu-me a veia para a rua do Saco fundo, vieram à tona da inspiração outras ideias e a Sofia Loren fica para a próxima.

O pior é que tive de arranjar outro título, porque o que previra já não encaixa. A culpa é vossa, do Carlinhos da Rã e dos outros que me distraíram de tal forma que acabei por falar da minha prima Soledade em vez da Raquel Welch. Não presta, sabes?!!

É assim, são fraquezas, são franquezas, é o que vem à rede…

E, já agora, confessem lá, o título deixou-vos intrigados, não deixou?
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* Publicado originalmente em O Sesimbrense.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 30



Foi há uns bons quarenta anos. Quando o oculista lhe perguntou se queria trocar de armação, respondeu que não senhor, gostava de estar no Burgau...
António Cagica Rapaz


[da série Gente, Nomes...]

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 38



Forno

António Cagica Rapaz

Na alvorada dos anos 60, abriu em Sesimbra uma boîte, coisa insólita quase à margem de uma lei ferrugenta e de uma moral cheia de teias de aranha. Ficava em frente da cocheira do Zé Dolfo e chamava-se Forno. O dono era um tal Vítor Marques, figura insinuante das sortidas de veraneio, pessoa requintada, homem do mundo.

O Forno aparecia como um lugar de perdição, antro diabólico, célula viciada de Sodoma e Gomorra, palco de mirabolâncias musicais e depravações de luzes indirectas. A entrada deste templo de Belzebu era guardada por um D. Quixote esguio, de bigodaça autoritária, conhecido por Fachadas, velho malandro de Cascais, especialista de portarias tenebrosas, filho da noite, rufia reformado, espadachim de cartolina, hussardo de opereta, marialva de becos escusos, artista de sonhos desfeitos. O Forno era a magia do Verão, a embriaguez da música, o calor da voz do Tom Jones, fábrica de romances de uma noite. O Vítor Marques era o mestre de cerimónias, o inspirador, um toque de classe que muitos invejavam...

No Inverno, Sesimbra voltava a ser uma terra sombria, fustigada pelo vento sul e pela chuva. E eu gostava de ir até ao Forno, vazio, mas ainda impregnado do perfume do Verão. E lá passei horas infinitas a conversar com o Vítor Marques, com a música a meia haste, na evocação das mil histórias da noite. Ele era, ao mesmo tempo, locutor de Rádio, programas, anúncios e, até, um folhetim que fez as delícias da minha mãe e da minha prima Judite. Foi em 1956, por aí, e era patrocinado pelo Polycolor. “Se aos seus cabelos quer dar outra cor, lave a cabeça com Polycolor. Acabam-se as mágoas e chega o amor, depois de usar o Polycolor”. Os heróis desse folhetim (Henrique e Olga Sampaio) eram interpretados pelo Vítor Marques e a mulher, Manuela. Porém, os nomes dos intérpretes não eram anunciados e só alguns anos depois, numa dessas noites de Inverno, fiquei a saber. Quase imagino a minha mãe ir esperar-me ao Forno, de braço dado com a Judite, para ficarem a conhecer o Henrique Sampaio da voz suave.

O Forno ficou como um marco na história marialva de Sesimbra, e o Vítor Marques era um fidalgo de botão na lapela, copo na mão, presença distinta, observador mordaz. Nos labirintos da noite havia rivalidades de estimação e o Vítor Marques não escondia certa antipatia pelo Tony. Dizia ele que cada um é para o que nasce e que o lugar do Tony era atrás do balcão da Marisqueira, de mangas arregaçadas, a dar gargalhadas. Mauzinho, mas exemplar...

1983

sábado, 25 de dezembro de 2010

TALVEZ POESIA..., 8

Esperança


António Cagica Rapaz

Farol incerto
Na noite,
Bastão frágil
Na jornada,
Fracos braços
Pr'a remar...
É bem pouco
O que valemos,
Mas aqui estamos
Comvosco, para dizer
Que é preciso acreditar,
Que é preciso olhar o mar.
O vosso barquinho avança,
Vai vencer o vendaval,
Por que a vontade é maior,
Porque é grande o vosso amor.
O vosso barquinho avança,
Vai vencer o vendaval.
Volta a sorrir a criança
Porque é grande
A vossa esperança,
Porque há Deus e é Natal.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 34

as crónicas da Eventos...


foto tirada
daqui
. clique para a ampliar


Presépios*
António Cagica Rapaz

Quando éramos crianças, a véspera do Natal era o dia mais longo, tão grande era a nossa ansiedade…

A escola começava em 7 de Outubro e, muito rapidamente, o Natal emergia das brumas de Novembro para ir ganhando contornos nítidos, à medida que na montra do Lima iam aparecendo
brinquedos.

A Igreja ocupava um lugar importante na nossa vida, no nosso quotidiano, em virtude da religiosidade ancestral da vila e, sobretudo, pela relação afectiva que todos tínhamos com o padre João. As imagens do catecismo, a poesia e o suave encanto que envolviam aquela quadra maravilhosa levavam-nos a construir presépios à medida da nossa emoção e da nossa fantasia.

O primeiro passo era o namoro às cortiças. Eu costumava valer-me da bondade do tio Zé Francisco, mandador das armações do Risco e do Burgau, pai do Fernando Viola, que sempre acabava por fornecer o mágico adereço que servia de suporte ao nosso universo de inocente deslumbramento. Por milagre caseiro, a cortiça transformava-se em montes, encostas, grutas, leito de riachos e lagos, outeiro de moleiro, planície longínqua, miragem de reis magos.

Da praia vinha a areia, do ribeiro alguma verdura e, aos poucos, o presépio ia ganhando forma. A guardadora de patos, junto ao espelho, que fingia ser lago ou riacho, contemplava o lenhador que, de molho às costas, se dirigia para a casinha diluída na encosta de cortiça.

Em cada dia, todo aquele mundo se agitava, os camelos avançavam um centímetro, o moleiro aproximava-se das velas alvas do moinho, as ovelhas dispersavam-se sob o olhar do pastor fleumático e do cão vigilante, bucolismo enternecedor, ali a dois palmos da gruta onde o Menino se mantinha caladinho e aconchegado nas palhinhas, que Deus o benzia.
Ali ao lado ia crescendo a seara, verde e frágil, verdadeira magia dos grãos de trigo, milagre da Natureza, materialização singela, clara e concreta do simbolismo que o presépio encerra…

Em muitos países, o ornamento preferido é a árvore de Natal, decorada com mil berloques e rodeada de presentes que, cada vez mais, foram constituindo a maior razão de ser de uma celebração irremediavelmente profana.

Em Portugal, a tradição do presépio foi cedendo terreno à facilidade do pinheiro enfeitado, sinal evidente da adulteração dos valores espirituais que caracterizavam os Natais do passado. O presépio era a partilha do sonho, a construção de um universo poético, ideal, fascinação repetida em cada Dezembro da nossa inocência.

Ao longo dos anos continuámos a compor, a retocar o presépio da nossa vida, nele colocando algumas das figuras que fomos elegendo, à luz da nossa sensibilidade, em função dos nossos afectos, na escola, na oficina, na barca, na tropa, no escritório, na nossa rua, colocando mais alto ou mais baixo, mais perto ou mais longe, mas sempre próximo do nosso coração. Em cada círculo de convivência fomos construindo uma cabana para nos abrigarmos das turbulências da vida, reunindo pastores pachorrentos, moleiros tranquilos, guardadoras de patos maliciosas, reis magos bondosos, estrelas amigas para iluminarem o nosso caminho.

Sesimbra é um imenso presépio que vai do Caneiro à doca, enquanto houver missa do galo o espírito de Natal perdurará.

O André e o Álvaro Bizarro teimam em preservar a poesia dos presépios da nossa meninice porque o progresso afundou as armações e já não temos cortiças. Uma vez por ano, há no ar um perfume de fraternidade, um brilho diferente nos olhos, não é como foi, é o que é, mas é Natal. Com pinheiro enfeitado, com presépio de plástico, sem seara, mas é Natal. Triste é a solidão, a secura de quem se limita a comprar, a dar e receber prendas, sem amor, por tradição mal vivida.
Pior será quando deixarmos de nos reunir, quando nos limitarmos a trocar mensagens de “Feliz Internetal”…

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* Publicado no n.º 10 de Sesimbra Eventos, Natal/Ano Novo de 2000-2001.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 38




Carta ao Fernando Viola*

António Cagica Rapaz

É provável que o Fernando Viola tenha lido a carta ao capitão Domingos. E não é impossível que tenha sentido alguma decepção quando verificou que eu fiz uma breve alusão a uma conversa com o Augusto do Salva-vidas e não mencionei que ele Fernando se juntara a nós a certa altura.

O Fernando Viola da minha infância não tinha aquele bigodinho à Errol Flynn. Era o Fernando Manuel da Encarnação Viola aluno do Colégio no Dr. Costa Marques ou melhor António da Costa Marques e tanto ele como eu obedecíamos aos toques de campainha do Manuel Figueiredo Elisbão. É curioso como nos ficam na memória os nomes completos dos nossos camaradas de escola.

O meu amigo mais antigo é o Carlinhos ou seja o Carlos Rafael Carapinha Pólvora que continua a ser o mesmo rapaz correcto e atencioso, nas bombas da Sacor.

Alguma confusão se estabelecia com o Carlos Manuel Ribeiro Carapinha, barbeiro artista, belenense dos antigos, e que na escola era apenas o Carapinha, vizinho do António da Silva Clemente e do António Sebastião Vieira Fidalgo.

Outros Antónios, o António Fernando Batalha Alves, o António José Saraiva Preto e o Pedro António Rosa Gonçalves, sem falar no Luís Filipe Dias Cagica Pinto, no Joaquim Manuel da Silva Penim, no meu capicua Manuel António Alves Pinto ou no Julião Gomes António morador no Casal das Boiças, para quem não souber.

Mas voltemos ao Fernando Viola que morava numa viela escondida, à sombra da Fortaleza, à beira da Rua de Alfenim.

A Rua de Alfenim evoca os Santos Populares e nunca esquecerei um ronda, uma volta à Vila em 1968 com um grupo de malandros do qual fazia parte o nosso António do Porto que largou uma “bomba de S. João” em plena Rua de Alfenim causando espanto inaudito. Foi um lance inesperado de efeito espectacular.

O António viu o Helder Chagas no poial de uma porta a fazer uma serenata a duas donzelas que moravam na Calçada e perguntou-lhe se ele acompanhava aquele ritmo. Palavras não era ditas já ele saltava com a sua agilidade incrível e, todo no ar, largou a “bomba”. Parou a roda, não à falta de haver quem cantasse mas pela surpresa que paralisou os folgazões de mão dada à volta da fogueira. Só visto ou só ouvido…

É uma perda e uma pena não termos ruas enfeitadas como nesse tempo. As ruas enfeitadas eram o perfume do verão, o alecrim e o rosmaninho, a poesia e a fraternidade, o esforço de muitos meses, a entreajuda, a comunidade de espírito, a amizade à volta da fogueira.

A simplicidade de certas decorações em nada diminuía o mérito de todos quantos generosamente participavam na criação. A rua passava a ser a casa de todos, a sala comum, o pátio das cantigas.

De dia a rua era fresca porque as decorações protegiam do sol e, à noite, era o deslumbramento das velas, das luzes e das estrelas. A fogueira era o vulcão de alegria pela madrugada dentro. O rasgo do polvo, a batata na cinza, o petisco à porta, o vinho alegre, Sesimbra dava as mãos à amizade e à alegria, saudável e sincera.

O tema dominante, a fonte de inspiração era o mar e os motivos ligados à pesca ocupavam um espaço tradicionalmente vasto. Mas havia quem gostasse de variar. Era o caso da minha tia Lucinda que decorava a rua com um requinte admirável, através dos seus dons artísticos excepcionais.

Se tivesse nascido no sei de outra família ou noutra terra, a minha tia Lucinda poderia ter sido uma artista porque nasceu com o toque de génio que não se aprende mas apenas se aperfeiçoa ou trabalha. Ela desenha e pinta na perfeição, canta, assobia, faz versos, corta, cose, compõe, arma, sei lá que mais. A sua rua nunca ganhou um prémio por não respeitar os temas piscatórios mas era sempre a mais bonita.

Nas ruas havia sempre quadras de sabor popular e seria interessante fazer-se uma recolha dessa expressão tão rica e autêntica.

Uma das quadras mais características, era alusiva ao St.º António e rezava assim:

Santo António era bom santo
Pôs os pés no alcatrão
Jogou à porrada c’o mestre de terra
Foi-se embora da armação
Era no tempo em que havia armações. E o pai do Fernando Vila, o tio Zé Francisco, era mestre de uma delas mas não creio que tenha sido ele o opositor do St.º António. Certa vez fiz umas quantas quadras para a rua de Alfenim precisamente e uma delas ficou-me na memória porque era bem ao gosto picante da nossa gente. Era assim

Não há rua por mais pobre
Que uma fogueira não tenha
Mas para tanta labareda
É precisa muita lenha

Destas e doutras é que o nosso bom povo gosta, sempre pronto para a galhofa, de chalaça em riste, com a piada na ponta da língua.

E vejam só até onde o Fernando Viola já nos levou, nesta divagação ao correr da pena, de arquinho e balão, lá vamos na marcha.

E no entanto a imagem que conservo do Viola não está ligada ás ruas enfeitadas nem ao verão. Pelo contrário, num dos instantâneos que dele guardo, o Fernando é o filho do homem que me dava as cortiças para o presépio.

Quando Dezembro chegava, cheirava a Natal. Logo que os primeiros brinquedos apareciam na montra do Lima o sortilégio do Natal crescia em nós.

E começavam as visitas ao tio Zé Francisco para namorar as cortiças da armação. Uma hoje, amanhã outra e, pouco a pouco, o presépio tomava forma. Depois era a disposição das figuras, o musgo macio e a poesia do presépio cristão.

Lá em cima, o padre João orientava a decoração da igreja para a missa do galo e em todos nós havia uma febre maravilhosa, uma expectativa angelical, uma curiosidade inocente e um entusiasmo contagiante.

No verão enfeitavam-se as ruas, no Natal era o presépio com as cortiças do tio Zé Francisco, o pai do Fernando Viola que encontrei noutro dia na rua Direita, às nove da manhã.

Falámos a fugir, disto e daquilo, de banalidades porque estas coisas não se dizem às nove da manhã na rua Direita.

E nem o Fernando sonhava que a evocação desses instantes nos levaria a esta digressão através de ruas enfeitadas onde a roda está para da à falta de haver quem cante. Ora agora cantei eu, mas a roda não segue avante porque a tradição das ruas enfeitadas se esfumou como as armações e tantas outras coisas.

Hoje há aparelhagens estereofónicas nas lojas de “companha”, há quem enjoe o marisco apesar do preço, há abastança onde ontem havia necessidades, muitas coisas mudaram, o progresso traz consigo o proveito de alguns quando o ideal seria o bem estar de todos.

Tanto melhor para os que beneficiam mas agravou-se a diferença. E perdem-se valores morais e culturais, vive-se a correr, já não há lugar nem tempo para a poesia.

Restam as cinzas de fogueiras apagadas. Que ao menos as não apaguemos na nossa memória.

Desculpa, Fernando, ter agarrado em ti tornando-te testemunha, depois de teres sido inspirador desta excursão saudosa.

Muito se devem aborrecer agora os Santos populares e eles não mereciam este esquecimento.
Pelo menos por um, ponho eu as mãos na fogueira e, diz a quadra, St.º António era bom santo…
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* Publicado na edição de 25 de Maio de 1984 do Jornal de Sesimbra.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 29



Ainda hei-de calar a boca da noite...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 37


Os Zambras

António Cagica Rapaz

Eram quatro como as estações do ano, como os pontos cardeais, como os naipes das cartas, como os Beatles e como os três mosqueteiros. Quatro eram os Zambras que, na década de 60, constituíram um conjunto de apreciável valia, aposta ousada, inspirados na melodia xaroposa dos Bee Gees.

A esplanada da Marisqueira era tímida, meia dúzia de mesas e cadeiras diante da porta, mais estalagem de corsários de má morte do que bar selecto ou restaurante requintado. A dois passos ficava o café do Joaquim Pólvora, antigo extremo-esquerdo do Desportivo que foi rendido pelo Hermínio Pinhal, também ele à frente de um café, o Martelo, berço dos Galés. Ao lado do Pólvora, pai do Eliseu, a minha tia-avó Francisca ia ficando cada vez mais mirrada naquela cova funda onde está hoje o restaurante Pedra Alta. Mas nunca perdeu o olhar vivo, de brilho intenso, malicioso e lúcido. Era irmã da minha avó Sabina que também passou anos atrás de um balcão, na rua dos Pescadores.

Sesimbra vivia uma época de fulgor e euforia, com a epopeia do Desportivo, o esplendor da lota, a animação da esplanada do Central, o cartaz folclórico do Chagas, a roda viva de barcas e traineiras em bailado garrido em frente da fortaleza, o rodopio das gaivotas, a festa saudável do Verão que os Galés cantavam pela noite fora, enquanto durava o fôlego do António do Porto, o homem da gaita. O Hotel do Mar era a excelência, templo inacessível, mistério e fascínio, com as suas paredes de inspiração monacal, o requinte despojado, o santuário de uma boîte de configuração insólita, com várias pistas de dança, caverna das mil e uma noites de sedução e fantasia.

Os Zambras tinham o mesmo espírito folgazão dos Galés, mas tocavam uma oitava acima, não vestiam camisola aos quadrados, empunhavam guitarra eléctrica e exibiam-se no universo sofisticado do Hotel do Mar, consagração para os nossos artistas que lá iam safando Massachussets e dizendo Words à média luz, em murmúrio suave.

Mal acabava a função, era vê-los com o António do Porto, na rua de Alfenim, de roda da fogueira, com o Helder, de guitarra cúmplice, em enlevada serenata a uma menina da Calçada.

Mal ele sonhava que, um dia, viria a ter o Pedra Alta ali mesmo ao lado do café do pai do Eliseu. Nem o Valdemar imaginava vir a suceder ao Cabecinha. O quarto elemento, o Zé Costa, deu os primeiros passos na boémia saindo, em bicos de pés, da mercearia do tio Arlindo para levantar, hesitante, a cortina do Espadarte Clube onde o Zé Manel e o Júlio Silva se enfrentavam, noite após noite, em despiques fadistas animados e vibrantes. Os Zambras ficaram na nossa memória como o eco distante de um tempo feliz, verões coloridos, festa na rua, Sesimbra sentada à porta até a noite se extinguir nos últimos acordes da gaita de beiços do António do Porto...

1998

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 33

as crónicas da Eventos....




Da eira do Valada ao planalto dos Macondes*

António Cagica Rapaz

O Joaquim Manuel nunca precisou da eira do Valada para ver jogar o Desportivo. Miúdos como éramos, cabíamos por entre as grades da esquelética vedação ou arranjávamos sempre uma alma caridosa que nos acolhia sob a sua protecção. E lá entrávamos para ver de perto os nossos heróis, o Manel Santana, o Isidro, o Zé Broa, o Baeta, o Rogério, e esperar o fim do jogo para saltarmos para o campo, com as redes ainda postas, a cal bem viva e as marcas das traves das botas no pelado áspero. Era a nossa vez, presos à magia do futebol, sonho deslumbrado ao cair da noite…

O Joaquim Manuel não esteve connosco nos dois últimos anos da prodigiosa década de sessenta. Convocaram-no para um jogo cujas regras não lhe explicaram, equiparam-no e mandaram-no para um campo desconhecido para defrontar e eliminar um adversário escondido. Era a guerra colonial, e o local dos encontros era algures em Moçambique, terra do Matateu, ídolo do Belenenses da nossa infância…

Por essa altura, com a camisola da CUF, tive a honra de jogar com o velho Lucas, o nosso Matateu, a quem não me ocorreu perguntar se tinha algum parente para as bandas de Nangololo, algum amigo que pudesse proteger o Joaquim Manuel. Um ano depois dele, em Outubro de 69, entrei eu na tropa, em Mafra, mas não fui ao Ultramar, e nunca hei-de saber avaliar como foi bom ter escapado.

O Joaquim Manuel começou por escrever um diário, talvez para passar o tempo, para registar factos que, paradoxalmente, preferiria nunca ter presenciado. Quem sabe se, ao escrever, não tentava diluir a crueldade daquela guerra, transportando-a para um universo de ficção. Mais tarde, acabou por desenterrar o diário e reviver a guerra, os medos, a angústia, a revolta, a incompreensão, mas também a força da camaradagem, o sabor da vida permanentemente ameaçada, a abençoada excitação provocada pela chegada do correio que lhe levava mensagens de amor, de amizade, de saudade.

“No Planalto dos Macondes” conta a guerra, a vida e a morte, lá longe, para onde foi sem ter pedido, para matar quem nunca vira ou ser morto por quem nunca ouvira falar do tio Amadeu nem sabia que ele era do Belenenses, clube dos manos Vicente e Matateu, moçambicanos como aqueles que se escondiam, preparando mortíferas emboscadas para mutilar ou roubar a vida a jovens condenados a uma luta cega e injusta.

É longe Moçambique, mas diante dos olhos do Joaquim Manuel estava sempre Sesimbra, a família, a namorada, os amigos, a praia, a vida, a verdadeira vida, não a que ele e os camaradas arriscavam ingloriamente em terras que não eram deles. Dele, Joaquim Manuel, era a nossa Sesimbra evocada ao longo das página desta admirável narrativa que deveria ser lida por todos quantos possam estar interessados em saber como se lutou, como se sofreu, como se morreu e como se sobreviveu no horror da guerra, tudo contado com realismo, lucidez e, mesmo, humor. Cada militar tinha a sua aldeia no coração, mas raros são os que falam dos seus sentimentos, menos ainda os que escrevem. Mas o Joaquim Manuel fê-lo e nós ficamos felizes por ele, por ter sobrevivido, por estar entre nós, por ser nosso amigo e por ter sido capaz de nos deixar este valioso testemunho, olhando a guerra à distância, recordando quadros de morte para melhor saborear a vida.

Sabe Deus em que pensará hoje o Joaquim Manuel nas suas caminhadas ao longo da Marginal. Talvez lhe chegue, vindo de longe, o cheiro da mata, o chilrear dos pássaros em cada alvorada, tudo misturado com o perfume suave dos eucaliptos do campo do Desportivo que quase tapavam a vista da eira do Valada…

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* Publicado no n.º 32 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2004.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 36



Valdemar, sempre ele

António Cagica Rapaz

- É inglesa, mas é do campo!

Tal foi o veredicto do juiz Valdemar Laranjeiro dos Santos no supremo tribunal da malandrice que era o Espadarte Clube. Numa noite de rambóia, na mesa comprida do canto, o belo Valdemar apreciava o estranho estilo de uma mocetona que dançava desajeitadamente. Após breve análise, saiu a sentença:

“Eh pá, esta gaja é do campo!”

- Tás maluco, pá – replica o Alfredo Filipe.

- Já te disse, é do campo. Já viste como ela dança, parece que anda aos bordos, toda desengonçada. A malvada vai à zinga! Vai por mim, é do campo.

- Não pode ser, pá, a mulher tá no Espadarte, é inglesa.

- Tá bem, é inglesa, mas é do campo, que lá também há campo.

Genial desarrincanço este do Valdemar, notável, de facto. Em Inglaterra também há campo, campo e bailes, algures em Quintola Road ou em Caixas Cottage. Portanto, o Valdemar tinha razão. Aliás, às duas da manhã, à luz mortiça das velas, à sombra dos barrotes do Espadarte Clube, depois do Pinhal ter posto o Rose garden, I beg your pardon pela décima vez, o Valdemar tinha sempre razão, a razão do mais forte, do mais descontraído, do mais hábil num flamengo improvisado ou num samba endiabrado. Nos anos 60, o Verão era uma festa permanente para o Valdemar que nem por isso faltava na lota para ganhar o peixe de cada dia. Até chegar a noite, as noites de aventuras, de ousadias, escaramuças no Forno, abordagens na Marisqueira, emboscadas no Hotel do Mar.

Na lota, à beira da fortaleza, pimpão e galgão, com um olho vigiava o peixe que vinha do mar e, com outro, o peixe de terra que se encostava ao muro com olhares meigos e sorrisos cheios de promessas.

- Hello, Val! – lá estavam elas à espera que na lota soasse o último chui para embarcarem na traineira da noite que largava as amarras e ia perder-se no mar da bruma.

O seu inglês era modesto, mas o Valdemar não tinha complexos e, com meia de italiano mais um toque de espanhol, boa noite, ó mestre, vamos lá atão.

Em vida anterior, o Valdemar terá sido, provavelmente, pirata da Jamaica, aventureiro de Maracaíbo, garrafa de rum, chapéu de aba larga e pluma ao vento, gesto largo, palavra fácil, uma mulher em cada porto.

No futebol podia ter ido longe, mas não quis, não sentiu que valesse a pena, era outro tempo. O Valdemar foi sempre cigarra, filho da noite. Por ela se perdeu, com ela viveu plenamente, intensamente, a noite, sim, mas também o sol, as vitórias do Desportivo. Bebeu essas taças que empunhou com ambas as mãos, mergulhou nelas, fez espuma, regalou-se, viveu.

A lota fugiu para a doca, o Espadarte Clube morreu, as marés levaram a nossa mocidade. Mas o Valdemar aí está, quase na mesma, sempre ele, como diria o meu compadre Alves do Santos se tivesse de comentar os lances da vida deste Valdemar que é uma legenda de uma certa Sesimbra.

Hello, Val, Valdemar, sempre ele...

1984

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 28



A rapariga, quase analfabeta, casara com o padeiro a quem punha os palitos. E escreveu a uma amiga, justificando a sua conduta: o padeiro tinha sempre pãu mole...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NOTAS & NOTÍCIAS, 5


Saudade: a homenagem de Linda
Tocante a homenagem de Linda a António Cagica Rapaz, um ano depois da sua morte, no blogue A Bela Sesimbra. Para ler e ouvir aqui.

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 37

Saudade: António Cagica Rapaz partiu faz hoje um ano.


António Reis Marques e António Cagica Rapaz em Sesimbra, em Fevereiro de 2009. Foto de João Aldeia.


Carta ao Tó Manel*

António Cagica Rapaz

Todos aqueles que têm tido a amabilidade de acompanhar as minhas divagações neste cantinho da última página, sabem que a certa altura me deu para dirigir cartas a este e aquele. A primeira foi enviada ao meu ilustre primo Domingos, o nosso Capitão Domingos. Depois, foi a vez do Fernando Viola, do Luís Rafael Pinto Cascais (mais conhecido pelo Luís Papa-rebuçados) que faz o favor de não se zangar comigo apesar do descaramento que aqui confesso sem remorsos.

Ora, depois de ter escrito a tanta gente, depois de ter feito desfilar nestas colunas milhentas personagens da nossa terra, chegou a altura de vos revelar um grande segredo. Aqui no andar de cima aparece a minha fotografia e o nome do autor das crónicas. E toda a gente julga que o autor destas linhas é o António Cagica Rapaz, mas não é verdade. É chegado o momento de vos revelar que o verdadeiro autor destas epístolas é o Tó Manel, filho do António Rapaz e da Amália Come-figos, sobrinho da minha tia Lucinda, que tem um jeitão para escrever, desenhar, pintar e assobiar, uma artista consumada que não saiu do anonimato por modéstia.

Hoje resolvi repor a verdade, fazer justiça e agradecer ao Tó Manel porque sem ele estas crónicas nunca teriam existido. Nascemos ambos ao mesmo tempo, na noite de Santo António, na Rua dos Pescadores, como recordou recentemente a minha prima Celestina, com ternura e poesia.

Na nossa terra todos começamos por ser o filho do fulano ou da beltrana. Eu não escapei à regra e, durante muitos anos, fui o filho do António Rapaz.

É assim e está muito bem. Não escolhi pai nem mãe (como nenhum de vós escolheu) mas sinto orgulho nos pais que Deus me deu.

Dito isto, temos de reconhecer que esta coisa de nomes e alcunhas tem muito que se lhe diga.

Trata-se de um assunto complicado, curioso e, muitas vezes, saboroso.

Segundo a minha mãe me contou (mas que isto fique entre nós) eu estava destinado a chamar-me apenas Manuel como o meu tio que morreu na horta do Faria. Porém quiseram os fados que eu tivesse nascido na noite de Satatónhe (também conhecido por Santo António) e daí este António Manuel ou Tó Manel que vocências têm aturado aqui (e algures) mês após mês, neste folhetim de trazer por casa e a conservar em banho Maria. Explicados os nomes passemos aos apelidos. Da minha mãe herdei o Rosa que vinha do meu avô João Come-figos. Do lado paterno recebi Cagica Rapaz com a curiosidade de no bilhete de identidade do meu pai figurar António Manuel Rapaz. Cagica nada. Mistério profundo? Não. Apenas um engano na altura da tropa, tendo sido suprimido Cagica e substituído por Manuel já que inicialmente o meu pai se chamava António Cagica Rapaz. Aliás descobri não há muito tempo um cartão de visita do meu pai com este nome e a menção de carpinteiro como profissão. É uma relíquia que conservo religiosamente.

A minha mãe não morria de amores por este nome Cagica que considerava supérfluo.

Ora ele é perfeitamente justificado já que a minha avó Sabina era Cagica.

Seja como for, a verdade é que até aos 18 anos não me considerei Cagica. Cagicas eram os Chicos, pai e filho, o Cristino, o Lucindo e os outros, filhos daqueles. A minha mãe contou-me uma história muito complicada que metia Galanduchas e que nunca entendi muito bem. Certo é que o Galucha, que andou comigo na escola, se chama Cagica Amigo (se não estou em erro) e tem uma irmã, cujo nome ignoro, que é uma das mais bonitas raparigas que Sesimbra viu nascer.

Quando, aos 16 anos, fui para o liceu de Setúbal, já lá andava o Joaquim Fernando, filho do Cristino Cagica e assim foi que passaram a tratar-me por Cagica também.

Ao dar os primeiros pontapés na bola, em Coimbra, foi Cagica o nome de guerra, o que não encheu de entusiasmo a minha mãe que queria que eu fosse António Rapaz, filho do pai. Porque Cagica é um nome invulgar (de origem africana?) muitas vezes aparecia mal escrito nos jornais o que me levou a mudar ocasionalmente para Rapaz acabando por ficar Cagica umas vezes e Cagica Rapaz outras vezes. Está entendido? Ninguém tem dúvidas? Quem tiver alguma dúvida, levante o braço. Bom, ninguém? Vamos adiante…

E assim foi que o Tó Manel se transformou em António Cagica Rapaz que escreve estas e outras crónicas anacrónicas graças à memória e à imaginação do Tó Manel.

O Tó Manel ficou em Sesimbra enquanto o Cagica começou o seu afastamento no Liceu de Setúbal, depois em Coimbra, Lisboa, Porto e agora em França, onde é conhecido por Monsieur Cagica com acentos nos dois aa. É a vida, com os seus apelos, com as opções a que nos obriga, os caminhos que nos leva a percorrer.

Nascido a 13 de Junho, sob o signo Gémeos esta dualidade é mais que natural. O António Cagica Rapaz escreve o que o Tó Manel lhe segreda. Dá-lhe o toque e o ritmo da sua sensibilidade, mas a essência assenta nas recordações do Tó Manel que ficou aí no Café do Alfredo, à esquina do Central, na loja do Maquino, na Taberna do Mestre Adelino, no Colégio do Costa Marques, no Palco da Vila Amália, nesse berço fascinante que vai do Caneiro à Doca.

Desculpem se desta vez falo de mim. E perdoem-me todos aqueles que tenho trazido a estas páginas sem lhes pedir autorização em meia folha de papel selado, com assinatura reconhecida pela Dona Bárbara ou pela Delmina.

É um atrevimento que tenho tido vezes sem conta ao longo de alguns anos já que dura esta cavaqueira mensal.

As ideias surgem-me por vezes estranhas, bizarras, insólitas. Hoje deu-me para escrever ao outro eu, ao meu gémeo. No fundo é justiça que faço ao Tó Manel que não vejo há muito tempo. De vez em quando vou a Lisboa. Ainda aí estive no mês passado. Vi o Manel António e cruzei-me com o João Salgueiro, antes das nove da manhã, como sucede quase sempre quando vou a Lisboa. O Tó Manel não vi porque (como já vos disse) ele ficou em Sesimbra e, nas minhas visitas a correr, não tenho tempo de ir ao muro da lota nem à beira da pedra alta.

Por isso, e para terminar, peço-lhes um favor. Se o virem, digam-lhe que qualquer dia apareço. Se o virem digam-lhe o que pensam das ideias que ele me manda e que eu transformo em crónicas breves. Se o virem dêem-lhe um abraço. O Tó Manel é bom Rapaz…

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*Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra.

domingo, 12 de dezembro de 2010

TALVEZ POESIA..., 7

A meu Pai


António Cagica Rapaz

O sol tombou no ocidente.
A vaga quebrou-se no rochedo.
O eco perdeu-se na montanha.
A ribeira, débil, secou.
E o meu Sol também tombou.
Tombou, sim, mas lentamente.
Co'a coragem de um valente,
A resignação de um santo,
Com o coração em Deus
E co'a ternura dos seus.
Amigos?
Ai, amigos, onde estais?
O dia chegou ao fim,
Mas a noite não caiu,
As trevas não me rodeiam.
Só nos teus braços me apoio,
So nos teus joelhos me sento
E mesmo c'os dedos lassos,
Só tu, meu pai,
Só tu guiarás meus passos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 32

as crónicas da Eventos...


foto tirada daqui


“Num’ânsia”*

António Cagica Rapaz

Há muitos anos encalhado na maré vazia, o Numância gerou e alimentou lendas e fantasias, foi centro de atenções, presença insólita, navio fantasma, antro de conquistadores, contrabandistas, espiões infiltrados, porões de mistério, nau de corsários na praia do tio Abel.

A rapaziada olhava, com respeito e temor, as cavernas sombrias, ninhos de polvos gigantescos, safios temíveis, moreias dilacerantes, refúgio do capitão Nemo saído das “Vinte Mil Léguas Submarinas” que nos deslumbraram a toda a largura da tela do cinemascope, milagre que o Parque proporcionava em cada noite calma, enquanto baloiçavam os eucaliptos da cordoaria. Os aventureiros do colchão de borracha armavam-se até aos dentes, com baldes, pás e bóias à cintura, para a expedição da última esperança de encontrar uma sereia na casa das máquinas ou um polvo enrolado na barra de leme. Os limos enormes, linguados castanhos, criavam raízes na estrutura de chapa ferrugenta e formavam uma barreira assustadora.

O Numância era o nosso Adamastor, a nossa Atlântida, palco de aparições quiméricas do enigmático cavaleiro Emílio da Rocha Negra, senhor de Vintemilhas, mais conhecido pelo Corsário Negro que, ao leme do seu “Relâmpago”, rasgava a noite a coberto da espessa bruma do mar dos Ursos, rumo à ilha das Tartarugas…

Quando caíam os primeiros nevoeiros de Setembro que o Rafael soprava das ameias do Castelo, o Numância parecia emergir das profundezas medonhas. Mãos e barbatanas fustigavam as águas com redobrado vigor, acelerando o regresso do colchão de borracha, fugindo à borrasca, em busca da praia, “num’ânsia” de segurança que só acalmava quando, do alto da gávea, o gajeiro gritava “Já há pé!”. Extenuados, corações a bater, só descansávamos quando víamos surgir no horizonte a silhueta branca do Zé Tucha, apregoando “Há bolos ò pastéis!”.

Logo os corsários da pedra de Zé Manel interrogavam: “Então e pastéis também não são bolos?”.
O bom do Zé Tucha, pacientemente, lá nos ia explicando que não, que há diferenças, pastéis são pastéis, bolos são bolos. Porém, os malandrins queriam era conversa e, no dia seguinte, voltavam com a provocação. Mal soava o pregão “Há bolos ò pastéis” surgia a interrogação irritante: Então e pastéis também não são bolos?”.

Com o tempo, esgotavam-se os bolos, os pastéis e, naturalmente, também se esgotava a paciência do Zé Tucha, que respondia, fleumática e pragmaticamente: “A puta da tua mãe!”…
Era assim, na praia dos piratas, no golfo de Maracaíbo, linguagem rude, espada na liga, gancho afiado, pala preta no olho esquerdo, brinco e lenço, barba hirsuta, chapéu de pluma, perna de pau, bandeira içada com a implacável caveira ao vento, canhões assestados e nós assustados, vem aí o cabo do mar, esconde a bola, chuta prà água.

O Numância foi desmantelado pelo mar e pela dinamite, lenda diluída, sonho desfeito, presépio desmontado. A praia do tio Abel mudou-se para o Espadarte, rumo à Califórnia. E nós abalámos para a vida que a muitos arrastou para o largo. Às tantas voltamos ao porto, um tanto à deriva. Atracamos como podemos, a carta de navegação está desactualizada, a bússola tresloucada, fiamo-nos no instinto e na memória enferrujada, e mal reconhecemos as tabernas do cais. Só o mar não mudou…

1997

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* Publicado no n.º 40 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2005.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 36



Forno*

António Cagica Rapaz

Quando Sesimbra acordou para a boémia, todos os caminhos conduziam ao Forno. Em frente da cocheira do Zé Dolfo, símbolo de um provincianismo a quatro patas, o Forno abriu as suas portas para um mundo novo: o mundo da noite.

Os turistas invadiram Sesimbra, agarraram os indígenas pelo braço e iniciaram-nos nos ritmos novos, nas luzes indirectas que conduzem directamente a ritos novos de artes antigas.

No «Forno», paixões ardentes cresceram e só se apaziguaram na areia morna da Califórnia. Por vezes, a Dona Ernestina batia lá de cima, mas a música não pode parar. O Forno ficou na história de Sesimbra by night, como pioneiro e como expoente mais alto.

Hoje restam as cinzas. A figura simpática do Vítor Marques não mais enquadrará o bar. O Forno arrefece lentamente...

Junho de 1974
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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica "Quando morre a madrugada - Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite".

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 27



É um presidente que gere bem o clube. Compra jogadores caros e depois obriga o treinador a deixá-los no banco...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 35

Crida Alice

António Cagica Rapaz

Estimo que esta te vá incontrar de boa saúde que nós cá vamos inde graças ò Senhor das Chagas. Vê lá tu qu’ontre dia do barque de Cacilhas um home veie ter comigue e preguntou seu era de Sesimbra. Fiquei imbuchada e ainda tou pra saber como é qu’ele descobriu. Ah, melher, fez-me cá umas fezes! O home parecia que tinha o rei na barriga, parecia um mandador, armade em labaruce. Ist’atão, senhores! Co barulhe do montor do barque aquase não ovia o que dezia a minha prima Alzira e ainda por cima aquele pilante a metersse cagente. Até faz ferre! Olha, o gaje vinha à fiuza mas levou cá uma arda caté foi a nove. Se calhar julgava que m’engrujava, tá ralace! Ai melher, iste tá cada vez pior. Deste dia aquela calhandra da Estrudes vei-me pedir um raminhe de salsa, carregadinha de manha, ela cria era conversa. Mas eu disse-le logue és tu nã és, não te descalces que vais ó petrol, tu queres é lulas. Olha só cria que visses aquela cavala areada. Começou a insultar-me, até fazia gargolide. Aquela lairona já nã se lembra quande andava escanzelada que eu até le tirei a linha torcida quande ela tava ca espinhela caída, fui mais que mãe dela, bebeu munta tejala de café da minha casa. Quem faz festas a galegos, mais galego é. Olha, o meu Vitra lá vai, o avise é prás dez. Hoje teve toda a tarde a encher bóias e a safar maxuxas, só foi jantar depois da caçada tar iscada. O gêbe do Irneste ainda cria co home fosse buscar a japona pra ir à doca, mai negro senhores. Quand’ele ia à sopa nã falava assim, agora nem quer ver o mar ò bote. Mas ainda ade cá vir à borda que eu façe-le um massacote. Ah, mar da neva, sempre quer ver se ò menos ele forra a isca, senão tem que andar à zagaia. Já lá vai o tempe qu’ele andava ò correcão. Depois sentava-se à rabeça e à noite ia ao cenima ver uma fita do trazan em trinta e uma partes. Ah, melher, beles tempes. Aquela lamesgóis da Estrudes já nã se lembra quande se punha a catar os ganaus aos filhos cas ventas cheias de ranho. Olha, vou ali buscar um becade de xoriçe pra pôr dentro duma carcassa caté estrala, não presta, sabes? Olha, sabes quem tem uma carrada de lenha que até cheira a rates é o teu prime Aguste. Vê lá tu que aquela mastrafona da Irrestina metia lá outre em casa quande o Aguste ia pró mar.

Deste dia o home vei do mar mais cede e apanhou o outre em ciroilas. Ela apanhou um cagace que só viste, vai aí um falatóire, mas o Aguste parece que é manse, se ela serve prós outros também serve pra ele, é o que dizem. Ai melher é lenha ós montes. Já me dói mas é a mão, parece que tive a impatar inzol a tarde toda. Olha ainda nã me saiu da cabeça come é qu’aquele paspalhão do barque de Cacilhas viu que eu era de Sesimbra. Achas que sou assim tão pexita? Ah, pariga, nã me digas!

Beijinhes e abraces da tua prima Floripes.

1985

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 31

as crónicas da Eventos...






Mar Novo*

António Cagica Rapaz

Quando entrei para a companha da Eventos, já a embarcação navegava com arte e com rota traçada a preceito, buscando em cada lanço, não só o que viesse à rede mas ainda, e sobretudo, o exemplar diferente, o alfaquique insólito, o roaz temível ou o golfinho gracioso. O que vinha à rede, sem surpresa, era aquilo que constitui uma espécie de serviço mínimo comum à generalidade das publicações próximas dos propósitos básicas da Eventos, ou seja, um rosário de informações mais ou menos estereotipadas sobre a vida cultural do concelho.

Ora, o que me seduziu no formato em boa hora escolhido pela Eventos foi a ambição de ir mais longe na afirmação dos valores intelectuais, artísticos, humanitários, históricos; mais fundo na memória, na revelação e na preservação do nosso património cultural, no reconhecimento dos vultos notáveis, das obras admiráveis; mais alto na originalidade dos temas que trata com mesura, com propriedade, é certo, mas também com ousadia, com irreverência, com humor, conforme as circunstâncias.

A nossa Eventos é rigorosa na toponímia, ciosa dos tesouros artísticos, tão orgulhosa dos senhores do intelecto como do camarada dos homens do mar, brinca ao Carnaval, vai atrás do Senhor das Chagas, celebra o mar, cultiva a poesia, sonha, conta as estrelas e ama a nossa terra…
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Publicado no n.º 36 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro de 2005, intitulado “Carta de Marear”. Tratou-se de um número especial, destinado a facultar um índice aos leitores da publicação.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 35



E agora?*

António Cagica Rapaz

- Olhe, já agora, ponha-me aí mais um bocado de fiambre, que a minha filha comeu tudo, só deixou uma fatia.

A senhora ouviu o pedido da freguesa e enquanto cortava as rodelas de chourição e as fatias de queijo ia-nos relatando o que sabia desta tragédia que nos deixou a todos destroçados. Uns mais do que outros, é evidente, porque assim é a vida, assim é a natureza humana. Felizmente, porque senão poucos de nós poderíamos sobreviver a tanto drama, a tanta desgraça que em cada dia acontece por este mundo fora.

- O pior é para os que morreram, coitadinhos. Os que cá ficam, melhor ou pior, com mais ou menos empurrão, hão-de recompor-se. Quem um filho tem não o vai pôr à porta de ninguém – concluiu filosoficamente a freguesa, de lágrimas nos olhos.

Era no domingo de manhã, na praça, onde, apesar do choque e do desgosto, a vida continuava.

Era sincera e visível a emoção da senhora que nos ia dando pormenores sobre as identidades dos pescadores desaparecidos, os parentescos, os laços de família. Havia certa impressão de culpa, certo mal-estar quando, perante um drama tão grande, se pudesse continuar a pensar no fiambre e no queijo, pesar e pagar, o comércio não pára, a vida continua.

Do outro lado da rua moram a Zézinha Nogueira e o Máximo que continuam a chorar a perda da filha, tal como o Rasteiro chora o filho, ambos mortos no mesmo acidente.

Para quem é pior, para os que se vão ou para os que ficam? As opiniões dividem-se, mas ninguém sabe nem é importante saber. Só que é preciso dizer alguma coisa, é preciso procurar explicações, consolação, derivativo, réstias de esperança no meio da tragédia.

A morte toca-nos a todos mas a cada um de modo diferente, fundamentalmente consoante a proximidade afectiva, primeiro, e física, depois.

O mar já levou muitos filhos de Sesimbra, mas nunca levara tantos de uma só vez. A morte é sempre medonha e cada um reage como pode, como consegue, como sabe, como é capaz. Quando perdemos um ser querido a morte agride-nos, ameaça-nos, destrói-nos, torna-nos frágeis, deixa-nos indefesos, enfraquece-nos, coloca-nos à beira do abismo. Por isso há quem feche os olhos, recue, fuja, se endureça, se desfaça, se desintegre, chore com e sem lágrimas, se consuma por dentro, aos poucos, lentamente.

Mas uma morte ainda nós podemos compreender, conseguimos imaginar, perceber. Mas vinte, meu Deus!

Ficamos a olhar o mar, aqui, mansinho, à beira da Fortaleza e não percebemos, não acreditamos, não conseguimos realizar. Não foi aqui, foi lá longe, em Marrocos, eram vinte homens, amigos, companheiros, vinte irmãos, vinte, como foi possível?

Os nossos pescadores juntam-se em grupos em frente ao mar, ouvem, contam, e repetem, o que sabem, o que julgam saber, o que a memória antiga lhes deixou, o ciclone, outros vendavais, mas nada, nada é igual a esta monstruosidade dilacerante.

Os homens falam e olham para o mar, este aqui, o nosso, como que à espera que ele revele alguma coisa, explique o inacreditável, se justifique, peça perdão.

A guerra por esse mundo faz milhares de vítimas todos os dias. Outros dramas terríveis chegam ao nosso conhecimento, centenas de mortos, há tempos, no afundamento de um barco, algures no mar do Norte. Abriu-se a porta da frente por onde entram os carros e o barco enfiou-se mar abaixo, vertiginosa e abruptamente, na negridão da noite. Morreram largas centenas de pessoas, foi um horror, mas um horror longínquo porque foi não sei onde no norte da Europa e não conhecíamos uma só das vítimas. O telejornal mostrou logo a seguir uma passagem de modelos ou os jogos do campeonato italiano. Nós, durante uns segundos, dissemos “ai coitadinhos, que coisa horrível” e depois passámos a outro assunto. É assim, é natural, não podemos sentir na carne cada uma das mil desgraças que acontecem a cada instante no Mundo.

Mas agora foi aqui, foram os nossos amigos, os nossos familiares, os nossos vizinhos, vinte, da nossa terra, da nossa gente. É o horror e a incompreensão.

No ano passado, em desastres de viação, terão morrido cerca de uma dezena de jovens do nosso concelho, dois irmãos de motorizada, dois amigos de automóvel, dois de cada vez.

Não há peso nem medidas, graus nem escalas na dor, no sofrimento das famílias e amigos. Não há dores maiores ou menores, cada um é que sabe, ninguém pode comparar nem (ainda menos) estabelecer hierarquias.

Mas em certos casos as pessoas são levadas a esboçar tentativas de explicação. No caso dos desastres lamentam, sofrem, mas acabem por admitir que houve porventura (mais ou menos) imprudência, inconsciência ou gosto pelo risco. Não é uma condenação póstuma, não será recriminação maldosa, é apenas a necessidade que temos de compreender, de explicar, de perceber e até de desculpar ou consolar.

Nisso também este drama foi excepcional, não houve imprudência nem erro de manobra, foi uma calamidade incontrolável, imprevisível, devastadora, crueldade cega e inexplicável.

Onde estava Deus naquele momento? Como foi possível? Será que a protecção do Senhor das Chagas não chega tão longe?

Os órfãos, as viúvas, os parentes, os amigos, não sabem, não pensam, só sofrem.

A loja do Ginja é ali na Galé, a barca do Ginja era uma família, foram ao mar e não voltaram.

Da Galé avista-se o mar sem fim e desta vez o mar foi o fim, um fim monstruoso. E nós não percebemos, só choramos.

O mar levou tudo, levou-os todos, nem um corpo devolveu para um beijo derradeiro. Só ficam a dor e a saudade.

Chorava aquela mulher, sinceramente, mas lá foi pedindo fiambre para a filha. É assim, é a vida que continua para os que ficam.

E agora? Como vamos viver? Como vamos olhar para o mar? Como vão os outros pescadores olhar para o mar, este, o nosso, aqui, o dos Açores, o assassino de Marrocos?

Como vamos olhar uns para os outros? E, sobretudo, como vamos olhar uns pelos outros, pelos órfãos todos que são os que ficaram? Os que ficaram vivos, os que ficaram em terra, os que ficaram sem pai, sem filho, sem marido.

E Deus onde estava? Explique-lhes, senhor padre, eu bem gostaria, mas não sou capaz.
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* Publicado na edição de Janeiro de 1995 de O Sesimbrense. António Cagica Rapaz refere-se nesta crónica à tragédia do Menino Deus, embarcação sesimbrense que havia naufragado no início daquele mês, ao largo de Marrocos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 26



Pleonasmo: PolíCIA.
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 34


A Natureza faz bem as coisas

António Cagica Rapaz

Há no nosso quotidiano pequenas coisas, gestos que repetimos e a que não atribuimos valor especial. Porém, alguns deles vão ganhando, lenta e subtilmente, no nosso espírito, contornos e significados que, um dia, sem sabermos como, se tornam claros e impressivos. Abrir e fechar uma janela é gesto que podemos realizar mil vezes, uma vida inteira, sem lhes juntarmos a menor partícula de emoção. Mas pode muito bem suceder que, de repente, tomemos consciência de que uma janela que se abre é muito mais do que um fecho que puxamos e duas portadas que afastamos. Aos poucos, foi surgindo em nós um sentimento insinuante associado àquele gesto que adquiriu, sem nos darmos conta, um simbolismo inesperado e maravilhoso. E então apercebemo-nos de que abrir uma janela pode ser como abrir o nosso coração para uma paisagem, para um cantinho do nosso mundo, para a vida, para o amor. Abrir uma janela é como um pai que abre os braços para aconchegar no peito o filho que corre para ele. Como abraçarmos a mulher que amamos ou o amigo leal. Abrir uma janela pode ser fechar os olhos por um instante, deixar entrar o perfume do campo ou a brisa do mar. E voltar a abri-los para contemplarmos, longa e silenciosamente, o ondular do trigo, o oceano a perder de vista, o céu infinito, rodeando pela cintura alguém que partilha connosco esse momento abençoado. Uma andorinha que passa, em voo rasante, interrompe a contemplação e, com febrilidade, vamos abrindo, uma a uma, todas as janelas, com a excitação de crianças às voltas com os brinquedos em manhã de Natal. Fechar uma janela é estar de partida, a penumbra que já invade a casa e a nossa casa. Foi ao fechar uma janela que vi a Cidália...

Acenei-lhe e trocámos duas frases de saudação. Por aí teríamos ficado se ela não tivesse acrescentado, com voz inquieta:

- O homem está no hospital.

O homem podia ser o marido, mas é o pai, o patriarca, o carvalho austero que a Soraia transforma em frágil vime com um olhar meigo ou beicinho sentido. A sua voz sonora faz coro com a natureza, ouvi-lo à distância tranquiliza, estamos com a nossa gente, está tudo no seu lugar. Não preciso de o ver para saber que está, ainda agora o ouvi chamar pelo Rodrigo. O Fernando foi buscar lenha à Raposa, o Inverno não tarda, os sobreiros protegem do vento oeste, os cães já se enroscaram, o pão está cozido, o dia vai chegando ao fim. E o homem está lá...

A Soraia não percebe, revolta-se contra os médicos que não deixam o avô sair do hospital. É a primeira vez que sente receio, finge não compreender, para afastar aquele sentimento estranho, aquela forma de medo vago, impalpável, muito diferente do que sente quando matam o porco.

A Natureza não se engana, nós estamos habituados a uma certa ordem e aquele quadro só faz sentido com o patriarca a comandar as operações do labor quotidiano ou arrimado à casa, contemplando o pôr do sol.

Agora, a Soraia vai brincando aos comerinhos, às casinhas, forma que tem de afugentar angústias. O Rodrigo senta-se horas esquecidas no tractor, imitando o pai. O quadro não é o mesmo, falta a figura maior do presépio. Mas tudo vai voltar ao seu lugar, o homem vai regressar não tarda, a Natureza faz bem as coisas...

1998

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 30

as crónicas da Eventos...





A respeito de…*

António Cagica Rapaz

Algumas das pessoas que tiveram a amabilidade de assistir ao lançamento das minhas “Bonecas Russas” foram mais longe na gentileza e solicitaram-me uma dedicatória, como se faz com os escritores a sério. Eu não me desmanchei, lá fui rabiscando o que me veio à cabeça e, em certos casos, em que havia pouca ou nenhuma intimidade, rematei com um beijinho que qualifiquei de “respeituoso”. Recordo-me de, na altura e naquela agitação, ter pensado primeiro em “afectuoso” mas o que afinal acabou por me sair foi um defeituoso “respeituoso”. Não uma mas duas ou três vezes, imagine-se, sem que tal me tivesse chocado. Só na manhã seguinte, muito cedo, tive como uma revelação, uma espécie de campainha que tocou na minha cabeça e me deixou perplexo. De repente, tomei consciência de ter escrito incorrectamente a palavra. É verdade que houve a influência do afectuoso; é certo também que se escreve, entre outros, delituoso, monstruoso, tortuoso, ou sinuoso. Mas não respeituoso. Por isso, aqui estou a penitenciar-me e a pedir às magnânimas pessoas contempladas com o tal beijinho “respeituoso” que vejam nele um gesto de respeito salpicado de afecto e o aceitem como uma espécie de brinde da Farinha Amparo, uma atenção do autor, uma surpresa mais, uma boneca russa adicional. Pelo mesmo preço.

Não foi este o caso, mas a verdade é que o gosto pelas palavras e pelas próprias letras leva-me a caprichos que podem revelar-se traiçoeiros. Por exemplo, o ç parece-me apropriado para carroça, com a cedilha a lembrar o pau de apoio e sustentação. Mas ainda bem que carrossel não ligou à carroça mas sim ao francês carrousel, pois a cedilha do c, para mim, representa um peso, um ferro ao fundo, um travão à liberdade de movimento que é a razão de ser do engenho. Aliás, os dois ss fazem até lembrar o carrossel 8 do arraial da Festa das Chagas de outro tempo.

Da mesma forma, dansar me agrada muito mais do que dançar, tem outra leveza, outra graciosidade, está mais em harmonia com o que significa. Dançar é a forma correcta, é verdade, mas aquela cedilha faz muito mais pensar em pés de chumbo do que em Cisnes do Lago…

Também não sei ao certo porquê, gostaria mais de escrever jeito com g. Não sei, acho o g muito mais bonito que o j, e nenhuma graça achava quando lia Cajica em vez de Cagica. Não sei se é das duas pintinhas seguidas, se da sua aparente fragilidade, só sei que não simpatizo com o jota. Claro, são apenas devaneios meus, daí não vem grande mal ao mundo.

Posto isto, aqui fica a admissão do lapso, esperando que os interessados a aceitem juntamente com os meus cumprimentos afectuosos. E respeitosos, está bem de ver.

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* Publicado no n.º 38 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2005.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 34



Isabel*

António Cagica Rapaz

A autoestrada é um longo tapete que se vai desenrolando à nossa frente, cinzento e interminável, monótono e eficaz. Por vezes temos mesmo a sensação dos ciclistas que pedalam numa bicicleta colocada sobre rolos, andamos muito sem sair do mesmo sítio. E, de repente, apercebemo-nos de que chegámos, porque pagamos a portagem e porque estamos no fim do percurso. Nesse momento sentimos uma mistura de alívio e decepção. Alívio, porque chegámos bem e depressa. Decepção, porque passámos ao lado, longe dos caminhos antigos. Durante anos percorremos itinerários, habituámo-nos a atravessar povoações, a identificar curvas, rectas, subidas, cruzamentos, a descortinar paisagens, vales frondosos, uma casinha no alto do monte, um moinho, pessoas na berma da estrada ou à volta das casas, os mil pormenores que constituíam o quadro da nossa viagem.

Viajar de carro não era apenas avançar por uma estrada. Pelo contrário esta fazia parte de um espaço global, era um dos seus elementos. Seria menos funcional, menos rápido, menos eficaz, mas mais humano, mais bonito, mais poético.

Com os anos, fomos integrando aquelas imagens no nosso universo cognitivo, aquele café antes da curva, aquela fonte a meio da subida, aquele outeiro para lá do riacho…

Da mesma forma integramos no nosso universo afectivo as pessoas que conhecemos, de quem gostamos. A partir de certa altura elas vão ocupando um lugar determinado no nosso presépio interior, estão cá dentro, fazem parte de nós, habituamo-nos a viver com elas, estão em nós. Como os brinquedos da nossa meninice que conservamos na prateleira imaginária do nosso quarto. Estão ali, estão bem…

A vida leva-nos para aqui e para ali e acontece-nos recusar a estrada antiga, desprezar a paisagem encantadora, perdemos de vista o carro de bois a caminho da eira e lá vamos, a alta velocidade, cheios de pressa de chegar. Para depressa partirmos. A viagem, o espaço e o tempo, tudo morreu. Só conta chegar e partir…

Que tristeza se um dia rasgarem uma pista infernal entre Sesimbra e Setúbal que nos roube o encanto do Alto das Vinhas, o perfume próximo da Arrábida, a frescura da Aldeia de Irmãos, o recato de Oleiros. Quando preferimos a autoestrada cedemos à tentação, desumanizamo-nos um pouco.

O mesmo sucede com a amizade, quando a distância se coloca entre nós, quando começamos a ver-nos só espaçadamente. É certo que os nossos amigos continuam cá dentro, fazem parte de nós, mas, de algum modo, vão-se transformando em estatuetas, entidades difusas, imagens fixas, padrões, símbolos, pouco mais que irreais. No fundo, é uma forma derrapante, se não de esquecimento, pelo menos de letargia e diluição. Como alguém que sabe que o mar é azul e bonito e, por isso, resolve que não é preciso vê-lo todos os dias…

Meu caro António, todas estas ideias me atravessaram o espírito, assim, confusamente, desordenadamente, há tempos, numa autoestrada, algures, perto de Leiria. Por associação de recordações, lembrei-me de Coimbra, da estrada antiga, do comboio que parava em todas, Albergaria dos Doze, Alfarelos, Taveiro. Lembrei-me de Coimbra, lembrei-me de vocês, lembrei-me intensamente da Isabel…

Há muito não me acontecia, chorei e sorri, porque a imagem da Isabel é sempre um sorriso luminoso, maravilhoso, resplendente. Chorei enquanto conduzia, enquanto desfilavam à minha frente quilómetros e recordações, avançando na estrada, recuando no tempo.

Quando deixei, pela primeira vez, a minha casa fui por essa estrada fora, a caminho de Coimbra aproveitando a boleia de uns amigos que iam para o Porto. Esse mesmo Porto onde anos depois vocês viveriam e onde nos voltaríamos a reunir.

Praticamente saí da minha para a vossa casa, fui de imediato adoptado, passei a ser o filho mais velho. Tive a sensação de entrar num romance de Eça de Queirós, com as vossas raízes beirãs, a memória de Oliveira do Conde, a presença do senhor abade Varandas, a nobreza natural da avó Natália de sorriso bondoso, os fortes laços familiares, o calor da lareira junto da qual o Kari se enroscava até o Zé Manel o desafiar para as diabruras próprias da sua idade traquina.

E pensar eu que não fui mais cedo a vossa casa porque imaginava que um director de fábrica de cerveja tinha de ser velho e barrigudo! Felizmente o Afonso apareceu e obrigou-me a acompanhá-lo, levou-me até vós. E a Isabel, logo no primeiro dia, ditou a sentença, fiquei obrigado a visitar-vos todos os dias. Conivente, o trolley que vinha do Calhabé conhecia bem a estrada da Beira e, ao fim da tarde, depois do treino da Académica, parava à vossa porta. Só me custava, mais tarde, ter de subir a rua do Quebra Costas, do arco de Almedina até ao largo da Sé Velha, para chegar ao meu quarto, na travessa do Cabido. Era Coimbra…

Anos depois foi o Porto, outra etapa na carreira profissional do António e, para mim, paragem ocasional durante o serviço militar. Assim voltei ao seio da família Fonseca. O Kari crescera menos que o Zé Manel, mas ladrava alegremente quando brincava connosco. A Graça começava a refugiar-se na Ressaca, café fronteiro ao mar, ali na Foz. Era em 1970…

Depois foi a desintegração, cada um para seu lado, a avó Natália disse-nos um adeus derradeiro, o padre Varandas afastou-se, subindo na hierarquia, o António Afonso abalou para a vida, eu ausentei-me demoradamente. Ficaram vocês, o António e a Isabel, a energia calorosa e a ternura frágil, a bondade vigorosa e o sorriso enternecedor.

O António gosta de música suave, aprecia a bossa nova. Recordo-me da poética confissão do desafinado: “fotografei você na minha Rolleiflex, revelou-se sua enorme ingratidão”. De alguma maneira, foi o que fiz, fotografei-vos, fiquei com vocês cá dentro, mas a ingratidão terá sido minha porque não fiz tanto esforço quanto deveria para vos ver mais vezes. Contentei-me com o sorriso da Isabel, a recordação da sua bondade, da sua ternura, das manifestações de afecto que conservo intactas. É bom sabermos, sentirmos que gostam de nós, é bom termos amigos assim, é bom gostar de pessoas como vocês, mas é preciso dizê-lo, é preciso mostrar essa amizade, praticá-la, fortalecê-la, saboreá-la, apertarmo-nos nos braços, estarmos juntos, partilharmos emoções. Não chega sabermos, não chega termos a certeza dessa amizade, é preciso vivê-la. Porque um dia o telefone toca em nossa casa e não é a Isabel, não será nunca mais a Isabel, a Isabel já não está, nunca mais estará. E só então percebemos … Julgamos que nos habituamos à ideia da fatalidade, do inevitável, julgamos que é assim, quase aceitamos que é a ordem natural das coisas. E fomos colocando a Isabel na tal galeria de recordações queridas. Queridas mas distantes, prematura e estupidamente distantes. E, de repente, em plena autoestrada, algures, acordamos, tomamos consciência, temos a revelação fulgurante da proximidade e da verdadeira importância que uma pessoa tem na nossa vida. Com maravilhosa intensidade senti, recordei o sorriso luminoso da Isabel. Recordo nitidamente a sua voz, as expressões tão suas, agora que a fui buscar, sem saber como, à galeria onde a tinha colocado, também inconscientemente.

A amizade não é chegar, é viajar, percorrer passo a passo, de mão dada, de braço dado, de abraço em abraço, próximos, presentes, todos.

Amizade não é acenar de longe, é parar, para abraçar, para dizer com e sem palavras que gostamos. Não sei se vos disse, se fui capaz de vos dizer, como gostaria e como devia, quanto gosto de vocês. Desculpa António, perdoa-me Isabel…

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*Publicado na edição de Setembro de 1995 de O Sesimbrense.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 25



Andava radiante com o novo relógio, desejoso que lhe perguntassem as horas. E logo respondia:
"Duas e um quartzo".
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 33




Vítor Batista

António Cagica Rapaz

O sol iluminava a baía de Sesimbra e os nadadores lançavam-se à água lá no Caneiro tentando acertar o ritmo da braçada na travessia anual organizada pelo Clube Naval.

O Alfredo Filipe, no seu estilo pujante e elegante, deslizava como um golfinho, embora soubesse que o vencedor seria o Vaz Jorge ou outro especialista do Algés e Dafundo. A travessia da baía era a única prova grande e uma bela festa na nossa terra, com o Zé Brás de megafone em punho, as barcas e as aiolas enfeitadas, o almoço colorido no Hotel Espadarte. Havia quem alinhasse à partida, nadasse até à Califórnia e desistisse, garantindo assim um lugar, se não na meta de chegada, pelo menos à mesa do almoço...

Era o Verão calmo e quente, numa Sesimbra tranquila. E era o defeso do futebol. Porém a febre da bola subia nessa maré de tréguas e o Desportivo organizava torneios populares que apaixonavam a vila e revelavam talentos. Clubes de bairro, rivalidade de rua, orgulho, paixão, Marítimo, Malta Brava, SAC, Horta, Espadarte, Albano, Bacalhau, Zé Barbeiro, Gato, Hélio, Manel Rosa, Zé António e Vítor Batista.

O primeiro com equipamentos a rigor e pretensões a bordo foi o Espadarte, sob o impulso do Vítor Batista. Na família, jogador a sério fora o irmão, o Zé, belíssimo avançado-centro, rápido, ágil, hábil no jogo de cabeça, que poderia ter feito carreira se não tivesse perdido o controlo e agredido o árbitro, num jogo com o Seixal.

Prematuramente privado da competição oficial, o Zé Batista saltava de contente e marcava golos em série com a camisola do Espadarte, onde pontificava o José António, excelente defesa central que a burocracia não deixou ir mais longe. Na baliza, o Palhete, o elegante Cardim, abria a boca e exibia um estilo inconfundível, enquanto o dinâmico João Pedroto varria o meio campo. Mas o maestro era o Vítor Batista, de bigode à Germano e entradas, de cabelo, à Vasques.

Assim nasceu para o futebol este Vítor que haveria de envergar, durante muitos anos, a camisola do Desportivo, com o número onze nas costas e a braçadeira de capitão. Estava o Sesimbra na terceira divisão e o Vítor armava jogo na esquerda, acabando sempre por centrar para a cabeça demolidora do Zé Serafim.

As finais com o Farense foram autênticas epopeias, partidas de arrasar que culminaram com uma negra em Beja. O Desportivo venceu por um a zero, golo do Vítor Batista. Era a subida à segunda divisão, a festa durou dias. Os peixes estranharam a ausência de barcos e ninguém lhes explicou que Sesimbra estava em delírio...

Durante anos, o Vítor Batista foi o cérebro de uma equipa onde o Fragata era um leão. Como tantos amadores, o Vítor não se considerava um jogador da bola como os que aparecem nos jornais. Depois dos treinos, retornava à sua mercearia e voltava a ser o cidadão anónimo, leitor interessado dos jornais desportivos, todo ele paixão ingénua e sincera. À segunda-feira, o Vítor já não era o capitão do Desportivo mas o sócio do Benfica que criticava o árbitro que roubou um penalty ao seu clube. E falava do Eusébio com a admiração de qualquer profano que nunca calçou botas de futebol. Regularmente, ia à Luz ver o glorioso, com o Hélio e os outros, repartia-se entre o Desportivo, a mercearia, as piadas do Gil e os ditos do Zé Barbeiro, lagarto até às patilhas.

Depois de uma dessas partidas europeias, o Vítor regressou a casa, cansado. E, nessa noite, morreu, suavemente, discretamente, como vivera, menos de quarenta anos.

O Benfica continua a jogar, o Sesimbra já desceu e voltou a subir à segunda divisão, a bola não deixou de rolar. O Gil deve sentir-lhe a falta em cada segunda-feira de manhã, na altura do rescaldo da jornada.

O Vítor Batista saiu do futebol e da vida com a discrição e a humildade com que comandava o Espadarte nas tardes quentes de um Verão que vai ficando longe na memória e na saudade...

1981

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 29

as crónicas da Eventos...



Carlos*

António Cagica Rapaz

No início dos anos 50, nós morávamos no prédio do Gá, na rua da Fé, quando o Pedro Muleta (filho do velho Justino das barracas da praia da doca) procurou o meu pai para lhe pedir emprestados três mil escudos. Recordo-me das suas palavras, podia ter falado em três contos, mas não, foi três mil escudos que disse, talvez numa tentativa tão eufemística de suavizar a dimensão do pedido. Na altura, era uma quantia avultada, e o bom do Pedro ter-se-á fiado no aparato das pedreiras de gesso, ignorando que, na realidade, elas não passavam de ilusão e de abismos onde o meu pai só escavou desgraça. Por isso mesmo, despediu-se como entrara, cabisbaixo e amargurado, como todos quantos, por infortúnio seu, precisam de pedir…

Da conversa, porém, resultou a nossa mudança para o rés-do-chão da moradia da família Justino, situada entre as vivendas do patriarca Palmela, a norte, e do Dr. Fernando Lopes, a sul. Pouco tempo depois, a necessidade obrigaria à venda da moradia que foi comprada pela família Palmela por uns magros 48 contos.

A D. Beatriz foi marcante no panorama do ensino primário, tendo-se distinguido pela sua competência e pela forma como castigava os alunos. Foi professora da minha mãe e minha também. Cheguei a comer à sua mesa, intimidado, quase aterrorizado, entre a D. Beatriz e o austero Palmela. Era um ambiente de pesadelo e, anos mais tarde, essa sensação viria a confirmar-se quando o herdeiro intentou contra a minha mãe um vergonhoso processo de despejo por (como justificou) precisar da casa para passar férias…

Felizmente, a sul, o horizonte era bem diferente, e a casa do dr. Fernando Lopes e da D. Stella foi, para mim e para a minha irmã, um oásis de paz e conforto, um verdadeiro porto de abrigo. Teria eu uns oito anos quando conheci o Carlos Manuel Gouveia Lopes, um rapazinho amoroso, com quatro anos e cabelo encaracolado…

O muro que separava as nossas casas declinava na extremidade próxima da rua, na zona da varanda, e cedo aprendi a saltá-lo para ir brincar com o Carlos, naquele universo deslumbrante que era uma casa bonita e abastada onde fui tratado com inesquecível ternura por essa Senhora maravilhosa que era a D. Stella.

Com o Carlos, brincávamos horas infinitas, em intermináveis partidas de monopólio, aos caixeiros-viajantes que se deslocavam de triciclo, ao mecano e ao lego, às mil diabruras próprias da idade. Nunca tivemos a menor disputa, nunca teve caprichos de menino rico, nunca me fez sentir diferente, e no seio daquela família encontrei hospitalidade, protecção e ajuda afectiva.

Depressa compreendi que a vida é assim feita, uma sociedade sem classes só existe no reino da utopia. E esta realidade até nem custa a aceitar quando sentimos a nosso lado pessoas como a D. Stella que não se limitava a rezar o terço que nós, enfadados, acompanhávamos murmurando “rogai por nós”. Ela era a bondade, a gentileza, a doçura, o amor, tudo reunido numa pessoa de rara beleza, física e espiritual.

Às quintas-feiras, infalivelmente, o dr. Fernando Lopes e a D. Stella iam a Lisboa e para nós era dia de festa porque, como dois principezinhos, almoçávamos na varanda, servidos pela Álvara. Depois, entregávamo-nos ao nosso desporto favorito, de cócoras, como os guarda-redes do hóquei, tendo os vasos por balizas e utilizando uma raqueta de ping-pong. Assim íamos marcando uns golitos até à hora do lanche que incluía sempre um copo de deliciosa groselha. Certa noite, clandestinamente, abusámos da “Marie Brizard” e acabámos no quintal, eufóricos e incansáveis, escarranchados em cadeiras de praia que, uma vez fechadas, faziam de mota ou de cavalo. Tudo era novidade e regalo para mim, pelava-me por tão boas coisas. Partilhei a intimidade da família, brinquei, convivi e aprendi a viver em casa da tia Stella, como me habituei a tratá-la, em particular desde que conheci o tio Nuno e o tio Jó…

Certo dia, o Carlos teve uma saída que já deixava entrever um espírito fino e imaginativo. Ao ver passar o meu pai e desconhecendo o seu nome, saudou-o desta forma original e afectuosa: “Boa tarde, senhor pai do Tó Manel”. A nossa cumplicidade foi sempre sem falha, a nossa amizade sem mácula. O Carlos teve a felicidade de ter nascido no seio de uma família maravilhosa, entre o amor e o carinho da mãe e a presença forte, tranquilizadora de um pai que garantia estabilidade e segurança. O futuro foi, para ele, desde muito cedo, um mar tranquilo a perder de vista, sem incógnitas nem angústias, feliz e merecidamente.

Andámos juntos no colégio, e o Carlos foi meu cúmplice num namoro que marcou a minha vida. Mais tarde, acompanhei de perto os primeiros passos rumo a um casamento que haveria de fazer dele um jovem avô feliz.

Dois anos depois, foi a vez do Carlos e da Ana apadrinharem o meu casamento, era a continuação da nossa boa cumplicidade…

Com os anos que por ele passam sem deixar marcas, o Carlos ganhou a atitude segura do pai e conservou o encanto da mãe. Apesar de ser herdeiro de um nome, de um estatuto social e de um património, soube escolher o seu caminho, criar um estilo, afirmar-se. O tempo foi sublinhando uma distinção com o seu quê de britânica, uma elegância descontraída, uma classe natural, um toque aristocrático a que nem faltou, durante anos, um bonito bigode. Não precisou o Carlos de aprender a seduzir nem a colocar a voz bem timbrada para entrar na política, opção que foi para mim uma surpresa, talvez por saber que não tem a menor necessidade de favores nem de benesses, porventura por o julgar (ou imaginar) tímido, imagens de infância que nós teimamos em conservar inalteradas, como se o menino que brincava com o mecano não fosse agora um homem feito, um engenheiro com carreira.

O Carlos é, há vários anos, uma figura pública prestigiada e nunca deixou de ser um homem encantador e caloroso. Nem a política o estragou…
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*Publicado no n.º 29 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2004.