
Vazio*
António Cagica Rapaz
Os automóveis são vários como largos são os contos em dinheiro e os outros que passam de boca em ouvido sobre os ditos. O homem chega e as mãos estendem-se, os bonés elevam-se das cabeças em gestos repetidos.
Ninguém se atreve a convidá-lo para a mesa. Deixam-no instalar-se e, então, é ele quem comanda, convidando este ou aquele a tomar lugar a seu lado. É o privilégio dos ricos e a miséria moral de alguns quase pobres que se vendem por um copo e a honra flácida de partilhar uma mesa.
O homem fala lá do alto e bebe de baixo para cima até encher. Quando tem a sua conta, levanta-se, paga tudo ou manda tomar nota, cumprimenta a assistência com um gesto largo e sai. Os sorrisos apagam-se nas suas costas. Sorrisos acendem-se no seu rosto comentando o copo que leva a mais…
A solidão afagada, a companhia comprada, o vazio que não é só dos pobres…
Junho de 1974
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*Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.
e continua a existir tanto disso...
ResponderEliminartanta gente a comprar "público", tanto público em saldo...
É fácil ter companhia, pagando.
ResponderEliminarJá amigos...
BOA NOITE, Ó MESTRE!