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sexta-feira, 22 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 6




Belenenses

António Cagica Rapaz

O serviço militar levara-me para o Porto, mas era meu desejo voltar para a região de Lisboa. A CUF não dava mostras de poder conseguir a minha transferência para uma unidade próxima do Barreiro, e Meirim manifestou o desejo de contar comigo no Belenenses onde, segundo julgava, havia gente influente no campo militar.

Estamos no Verão de 1970 e Meirim já incendiara as hostes azuis ao deixar no ar a promessa de ser campeão. Eram as bombásticas declarações do treinador, sua foi a responsabilidade…

Contrariamente às expectativas, só em Janeiro de 1971 consegui vir para perto de Lisboa, para o Campo de Tiro da Serra da Carregueira. A época ia a mais de meio, a nau azul afundava-se, Meirim foi despedido e, como consequência directa e lamentável, alguns dos jogadores mais próximos do treinador foram proscritos, apontados a dedo, colocados à margem.

Eu, que mal acabara de chegar, fui um deles, sentindo imediatamente que constava da lista negra. O nosso “crime” foi, suponho, termos sido trazidos por Meirim, não vejo outra razão nem alguém jamais se dignou dar a menor explicação.

Embora tal atitude fosse injusta e absurda, teria sido possível abordar a questão com um mínimo de dignidade, o que não sucedeu.

Apesar de eu ter um contrato de seis meses (que estava em curso) e outro de três anos, teria entendido que o clube desejasse alterar a sua posição. Estava no seu direito e, civilizadamente, poderiam ter-me exposto o assunto. Através de diálogo, teríamos certamente chegado a um entendimento, mas, em vez disso, o que aconteceu foi terem-me ostensivamente colocado na situação de indesejável, sem uma palavra, sem uma observação, sem a menor crítica ou acusação.

Até que o treinador-adjunto Mourinho Félix deixou escapar a assunção de que os dados estavam viciados, quando o surpreendi a fazer a convocatória antes do (normalmente determinante) treino de conjunto da 5ª feira. Manifestei-lhe a minha estranheza perante tal procedimento que provava, de forma inegável, que tudo era decidido previamente, de nada servindo o esforço ou o valor de alguns elementos, condenados que estavam, sem apelo, ao afastamento. Perguntei-lhe até se valia a pena ir treinar, sabendo de antemão que não seria convocado. A resposta de Mourinho Félix foi de antologia: - “O azar foi tu teres chegado atrasado, senão não tinhas visto e nunca saberias de nada”.

Azar para quem? Para mim não, porque já estava julgado e condenado sem conhecer a acusação e sem ser ouvido. Azar foi para ele que se viu descoberto e não teve arte nem reflexos para arranjar sequer uma desculpa, uma finta discursiva para camuflar a prática suspeita.

Recordo-me de ainda ter visto o jovem Mourinho defender as balizas do Vitória no velho e pelado campo dos Arcos, recebendo o testemunho do veterano Batista. Mais tarde, admirei o seu profissionalismo ao serviço do Belenenses, como jogador sério e de certa valia. Por isso tenho certa dificuldade em compreender as atitudes do mesmo Mourinho Félix nas funções de treinador-adjunto.

Curiosamente, por acaso, cruzámo-nos, há pouco tempo, em Setúbal. Ele não me viu, eu não o chamei. Estamos trinta anos mais velhos, e não pude deixar de reflectir sobre tudo isto, sobre a verdadeira importância destes incidentes nas nossas vidas. Que motivações o terão levado a agir assim? Que balanço, em consciência, terá feito? Terá achado que actuou com isenção e justiça? Terá ficado em paz, admitindo ter defendido o superior interesse do Belenenses? Que palavras teríamos trocado se tivéssemos agora chegado à fala, ao fim de mais de trinta anos, no limiar da velhice? Até que ponto será útil recordar o passado? Mas, por outro lado, por que razão haveria de silenciar comportamentos desta natureza?

Embora a fase das ilusões sobre o futebol já tivesse passado havia muito, tive pena porque continuava a ter simpatia pelo clube e tencionava acabar ali, mais tarde, a minha carreira. Assim, abandonei cedo de mais, profundamente desiludido.

Nesse Verão de 71, pus a acção, continuei no serviço militar e aguardei. Três anos depois, o Belenenses pagava-me o que o tribunal decidiu…

quarta-feira, 20 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 55



Mestre José Brandão*

António Cagica Rapaz

Para quem vive longe, o jornal é como uma carta de um amigo que nos relata o que vai acontecendo na nossa terra, no largo do Canino ou na rua Direita. Mas um amigo, quando tem alguma má notícia a transmitir, prepara o terreno, progride com precaução, previne, avisa, suaviza. O jornal não pode entrar nessas águas da afectividade e informa com alguma secura o que de bom e menos bom ocorre na nossa vila.
Assim, fiquei a saber que o vendaval voltou a rugir, medonho e lúgubre, metendo as garras horrendas e mortíferas por entre os grãos de areia da nossa praia, deixando-a em rocha viva. Esta notícia transportou-me para outros tempos, outros vendavais em invernos longínquos, com as vagas fustigando a Fortaleza e a pedra alta, o vento a ameaçar as folhas de zinco da «Sopa» e as estrelas de papel reforçado, presas por um cordel, a subirem oscilando no céu escuro e as nuvens que fugiam vertiginosas a caminho do Castelo, isolado e fúnebre, onde o Rafael punha a tranca na porta e os torreões tremiam de frio. E o mar levou um jovem pescador, drama que merece respeito e digno silêncio. 
Outra morte que me deixou perplexo e desamparado: perdemos o Zé Brandão. O jornal mostrava-o na fotografia tradicional acompanhada pelo testemunho de gratidão habitual e lembrava-nos que ele se chamava José António Preto Júnior. Mas para nós era o Zé Brandão, o nosso velho mestre de armas, o coronel das Índias que conduzia as tropas no combate da noite e da brincadeira. Um companheiro sempre bem disposto, modelo de correcção, cordialidade e elegância. Os preconceitos postiços de muita gente devem ter provocado certas críticas, decretando que um homem daquela idade devia ter juízo e não andar naquela vida. Bem ele fez em ter aproveitado os últimos anos para respirar a plenos pulmões a alegria bonacheirona da boémia singela e beatífica da companha que embarcava na traineira da Marisqueira que lançava as redes no Chagas ou no Espadarte Clube, guiado pelo timoneiro António do Porto de reco-reco à laia de leme, para ouvir os tremidinhos do Zé Manel e assistir à agonia do cavalo que o Júlio matava noite sim noite não na feira da Agualva. Muitos dos que criticavam passavam as noites no convés do fumo, batendo as cartas em sintéticos de má sorte.
O Zé Brandão era o chefe de fila de uma velha guarda bem humorada e sem outra pretensão que não fosse rir e dar ao pé, sem convicções ilusórias de conquistadores de fotonovela barata.
Fica para a história local a epopeia da peixaria do Ernesto e da oficina do Zé Brandão. E fica na memória de todos nós o sorriso permanente e a figura simpática do velho mestre. A nossa terra é sobretudo a nossa gente. E o Zé Brandão era (e continua a ser) dos nossos. Boa noite, ó mestre!
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* Publicado em O Sesimbrense de 21 de Fevereiro de 1982.

terça-feira, 19 de abril de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 45


Quero que a cigarra se lixe - (Joaquim Formiga)
António Cagica Rapaz


[da série O que eles poderiam ter dito]

segunda-feira, 18 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 54



Vinte anos

António Cagica Rapaz

- Sabes, Ricardo, eu não gostava que interpretasses mal a minha atitude...

- Claro que não, que ideia tão absurda, não há qualquer mal.

- Não se trata de bem ou de mal, não é uma questão de moral nem de ética, é apenas um princípio de clareza. No fundo, fui eu que resolvi telefonar-te, assim, de repente, depois de quase vinte anos sem nos vermos.

- Não calhou.

- Pois não. E mesmo agora foi realmente o acaso, uma coincidência espantosa.

- De facto, quem havia de dizer!

- Olha, meu querido... não te importas que te trate assim, como dantes, pois não? É uma fórmula, eu sei, perdeu consistência, mas gosto dela, tem a ver connosco. O que eu te queria dizer é que ao longo destes anos todos nunca consegui tirar-te do meu pensamento, continuaste na minha cabeça como um fantasma a sobrevoar o universo em que vivi com o Pedro. Fui-lhe sempre fiel, tivemos uma relação serena, agradável, sem sobressaltos, mas sem chama. Nunca procurei ver-te, apenas fui sabendo alguma coisa de ti através dos jornais e de uma ou outra confidência discreta de amigos íntimos. Até que aconteceu esta coincidência extraordinária de a Isabel ser amiga do João e este ser teu amigo de infância. O mundo é, de facto, pequeno. O resto já sabes, com a cumplicidade do João, fiquei a saber a tua vinda a Lisboa e... pronto, aqui estou.

- Meu amor... permites que, por minha vez, te chame assim? Na verdade, foi uma enorme surpresa ouvir-te ao telefone, ouvir a tua voz, assim, inesperadamente, tantos anos depois. E confesso que foi muito agradável. Na realidade pensava que nunca mais quisesses ver-me nem falar-me, depois de teres decidido romper a nossa relação. Considerei o nosso caso definitivamente encerrado e prossegui a minha vida de aventuras, encontros e desencontros. Até que resolvi assentar arraiais, arrumar as botas, juntar os trapinhos, pôr termo à inconstância. E jurei a mim próprio ser fiel, não me autorizei, nunca, a menor facada.

- E conseguiste?

- Foi uma fidelidade cerebral que funcionou sem a menor falha. Até hoje.

- Olha, a razão fundamental do meu telefonema é a necessidade que eu tenho de te ver, de te falar, de te ouvir, de saber quem és hoje, como evoluíste, como estás, contigo mesmo e com os outros. Para te tirar da minha cabeça, para correr com o teu fantasma, o que foste ou o que eu idealizei, não sei. Mas preciso saber. Até agora não tenho estado disponível porque tu, involuntariamente, não deixavas. Por isso, agora, quero, de alguma forma, exorcizar, encerrar o capítulo, fechar o livro e arrumá-lo na última prateleira do sótão, tirar-te de vez da minha cabeça, libertar-me para poder voltar a viver.

- Está bem, eu compreendo e concordo. Se quiseres, podemos jantar juntos...

- Óptimo. Eu passo aí no hotel daqui a uma hora, pode ser?

- Claro que sim. Espero por ti no hall.

- Achas que me vais reconhecer?

- Diogo, meu adorável palerma...

1998

sexta-feira, 15 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 5



CUF

António Cagica Rapaz

O Barreiro evocava, no meu espírito, o fumo das fábricas, o lodo da maré vazia, terra de gente sombria, contracapa descolorida de Lisboa.
Estávamos em 65, era o adeus ao irrespirável campo de Santa Bárbara onde jogara várias vezes e onde vira, em miúdo, muitos jogos do Belenenses. Recordo a desagradável impressão da Guarda Republicana, de costas para o campo e olhos fixos nos espectadores, um pavor ridículo.
Conservava dos jogadores da CUF uma imagem de homens-máquina que deitavam fumo pelos olhos, enchiam o peito de azoto e arrotavam gás carbónico, e a ideia de trocar o Mondego pelo Tejo e o choupal pelas fábricas, não me entusiasmava. Porém, a CUF oferecia-me melhores condições monetárias e a possibilidade de continuar a estudar.
A CUF era uma colectividade de características muito especiais que aliciava os jogadores com a promessa do futuro garantido, com um emprego nos escritórios, argumento que lhe permitia pagar fracas luvas. Futebolistas em fim de carreira aproveitavam a oportunidade, casos de Arsénio, Faia, Mário João, Salvador e outros. Mas para os mais novos era uma ilusão, o ordenado no escritório era fraco, porque as habilitações eram modestas e porque não eram assíduos ao trabalho. Só raros como o Zé Maria e o Abalroado, iam com alguma regularidade ao serviço. Com ausências sistemáticas (cobertas pelos avisos do Gregório Palma), não justificavam aumentos que teriam escandalizado os colegas que não faltavam. E no fim da carreira de futebolistas estavam com o mesmo ordenado com que tinham entrado, mas habituados aos extra dos prémios de jogo. Por isso, de certa forma, a CUF era uma miragem, porque nunca foi frontalmente assumida a situação de excepção que os jogadores deveriam ter. E futebolistas extraordinários, como o Medeiros, podiam ter feito grandes carreiras noutros clubes, em vez de ficarem presos à ilusão de um emprego…
Para mim foi o ideal, porque me permitiu continuar a estudar. De manhã ia à Faculdade de Letras. Depois, almoçava a correr, apanhava o barco para o Barreiro, e só voltava a Lisboa à boca da noite, para descansar, estudar e alguma diversão. Apesar deste ritmo e dos estágios, consegui um aproveitamento total, tendo concluído o curso sem grande dificuldade. Porque tinham desaparecido os motivos de angústia que me haviam atormentado em Coimbra…
O clima na CUF era muito especial, havia uma casta superior constituída pelos senhores engenheiros que dirigiam o clube e que tinham com os jogadores uma relação algo ambígua. Gostavam de futebol e tinha uma evidente admiração pelos futebolistas, honravam-se mesmo de certa forma de aparente familiaridade. Contudo (e é a outra face da moeda) cultivavam a superioridade, usavam o tratamento por tu num tom condescendente e senhorial. De um lado, o jogador da bola, do outro lado o senhor engenheiro. Apreciavam o servilismo, a lisonja, a reverência, e gostavam de ver os jogadores lutar em campo como os tribunos romanos gozavam o espectáculo dos gladiadores no circo. Há aqui algum exagero, mas não muito. A verdade é que esse tipo de subserviência nunca foi a minha especialidade. Tal como nunca senti vocação de gladiador. Certa vez, num jogo amigável, fui excluído ao intervalo porque “não dava porrada”. Expus os meus argumentos e acabei por voltar ao jogo…
O meu primeiro treinador foi Manuel de Oliveira, sagaz, competente, trabalhador. Saiu a meio da época, tendo sido substituído por João Mário e, depois, pelo arquitecto Anselmo Fernandez. A seguir, veio Meirim e, mais tarde, Costa Pereira.
A CUF podia ter sido a primeira equipa-empresa do futebol português. Bastaria que a família Mello tivesse querido usar o Grupo Desportivo como o seu principal cartaz publicitário. Mesmo assim, marcou regularmente posições de relevo, tendo chegado a defrontar o Milão na Taça das Cidades com Feira. O deslumbramento dos directores foi tão grande que só quando a equipa estava equipada no balneário de São Ciro se aperceberam de que os cartões dos jogadores tinham ficado no Barreiro.
Lá fui parlamentar com o árbitro alemão que fez o que hoje seria impensável, fechou os olhos, aceitou como prova de identificação a assinatura dos jogadores. Era outro tempo, outra inocência…
Esta equipa da CUF tinha, naquela altura, grandes jogadores e homens de forte carácter. O guarda-redes era o José Maria, comprido e experiente, figura lendária do clube que acabou por dar lugar ao Vítor Manuel, um fabuloso e jovem guardião vindo de Alhos Vedros. Quando, vítima de lesão gravíssima, teve de abandonar o futebol, foi substituído por outro Vítor, o Cabral, notável, seguro, forte personalidade, inteligente e um grande companheiro. Na defesa, o Bambo e o Abalroado eram valores de créditos firmados. Sem serem estrelas fulgurantes, eram certinhos, eficazes, de rendimento garantido. Mais tarde, chegou o Castro, um defesa excepcional. Outro Vítor (Marques) veio de Sintra, para reforçar a defesa. Estrela grande era o Medeiros, avançado adaptado a quarto-defesa que foi o pilar da equipa durante muitos anos. Podia ter sido ainda maior, mas a CUF prendeu-o sempre. No meio campo, tivemos belos talentos como o elegante Alfredo Espírito Santo, o hábil Vieira Dias, o talentoso Pedro, o colossal Arnaldo, o experiente Mário João, o polivalente Sério. Mais tarde, viria o Rogério, do Varzim, excelente jogador. Na frente, a dupla formada por Fernando e Capitão-Mór fez muitos estragos, era possante e eficaz, rendeu muitos golos. O Monteiro era uma enguia, com os seus dribles em zig-zag. Ainda me foi dado apreciar a invulgar arte do Úria, um minúsculo jogador com um pé esquerdo prodigioso e um diabólico poder de finta.
Tive o melhor período no tempo de Meirim e, mais tarde, em 1969, Costa Pereira nomeou-me capitão da equipa. Seguiu-se uma fase de mal-entendidos, felizmente ultrapassados, e sucederam-se episódios determinantes. Em fins de Março, vésperas de um jogo contra o Benfica, recebi um convite formal da parte de Pinto de Magalhães para apresentar condições para ingressar no Porto. Fiquei admirado e honrado, mas não respondi. Ou melhor, esclareci que, em Outubro, iria para a tropa para o Curso de Oficiais Milicianos, em Mafra, inapelavelmente. Achei que seria desonesto fingir que não sabia, e recusei. A tropa foi a razão maior, é indiscutível. Por outro lado, por razões familiares, não queria estar longe de Sesimbra. Mas, lá muito no fundo, talvez se mantivesse a mesma insegurança que me fizera recusar a proposta do Sporting, quando júnior…
Curiosamente, um ano depois, estava colocado no RI 6, no Porto. Pelo meio, tinha estado um ano sem jogar, por lesão, primeiro, e por causa da tropa, depois. O Porto, entretanto tinha contratado o Armando Manhiça, e eu tentava vir para perto de Lisboa. Meirim queria-me no Belenenses e acreditava que as altas figuras do clube conseguiriam a minha transferência militar, o que não sucedeu.
Ficou-me ainda outra consolação, o apreço que Otto Glória manifestou por mim. Sei que chegou a falar ao Costa Pereira, mas este nada me disse, pois na altura andávamos em marés divergentes.
Ficaram-me estes pequenos e vagos motivos de remoto orgulho…
No fundo, conservo muito boas recordações dos anos passados na CUF e não esqueço que foi a solução para os graves problemas que tive.
Noutro clube, dificilmente teria conseguido concluir a licenciatura, mas não há favores em futebol. Tudo teria sido diferente, não fora a tropa, mas os tempos eram de guerra. Convocaram-me para Mafra e não voltei ao Barreiro…

quarta-feira, 13 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 54



E o mar…*

António Cagica Rapaz

O mar é azul, forte, carregado de ameaça que o céu não nega, escuro também, cúmplice, no limite impreciso de um horizonte sombrio.
Mas não é um mar de angústia aquele quadro de Alice Jorge que vi noutro dia em Lisboa numa sala acolhedora como um porto de abrigo. Da janela vê-se o Castelo de S. Jorge e um palmo do Tejo. Na parede é o mar, um mar fascinante, à primeira vista assustador, tenebroso, em véspera de vendaval precoce de Setembro. É um mar parado, pesado, enlutado, plúmbeo, mas que estranhamente nos comunica paz, quietude, tranquilidade, suavidade, eternidade. E essa sensação surpreendente virá porventura da presença de umas aiolas pequeninas, imóveis, silenciosas, impassíveis, tranquilas, no meio de um mar de cólera dominada, mar morto…
 A impressão de infinita serenidade talvez resulte do contraste entre a fragilidade, a inocência e a indiferença das aiolas coloridas perante a ameaça latente, a violência que se adivinha na tonalidade de um mar que nem parece o nosso. Mas que existe. Vi-o há dias da esplanada do café Martelo. O tempo estava de trovoada e o mar ficou de repente escuro, igual ao céu, igual ao quadro. No muro da antiga lota, pescadores despreocupados conversavam de costas viradas para o mar, um mar que viram mil vezes, um mar que sentem, que adivinham, que está dentro deles.
E não precisam de olhar para o verem, para o sentirem percorrer cada veia dos seus corpos que ao mar pertencem, que o mar deseja, que o mar fascina.
A esplanada do Martelo é um lugar privilegiado, balcão de frente, camarote avançado, varanda imperial sobre o mar, rochedo, farol, cantinho abrigado, com a sua poesia, o perfume das manhãs frescas de domingo, a doçura do crepúsculo, o namoro com o mar, olhos nos olhos azuis do céu e do mar. E ali se junta a freguesia…
As minhas incursões na Galé foram esporádicas no passado, quase sempre à procura do fígado de tamboril do malandro do Maquino. Hoje são mais assíduas, para surpresa do João e da Fátima que descobri agora ser minha parente, afastada mas parente, inegável quando se tem um nome tão pouco comum como o nosso.
Estava tão longe de imaginar este parentesco como de descobrir que o quadro do mar escuro não fora inspiração inventiva mas sim observação, cópia talentosa de uma realidade impressiva. 
São as marés da vida que nos levam a estas e outras descobertas, em manhãs suaves, entre o cafezinho do João, a imensidão fascinante do mar, o alheamento de alguns que lhe viram as costas preferindo ver passar os automóveis, enquanto outros como o Martinho se instalam na mesa do canto, com o mar em frente, com o mar nos olhos, com o mar em si…
O Zé Calisto mora por cima da Pedra Alta, ideia feliz do Chagas ao dar esse nome ao restaurante que foi a loja da minha tia Francisca, irmã da minha avó Sabina, belos nomes de outro tempo. Da sua janela, o meu primo saxofonista acenava-me com um sorriso deste tamanho, sem saber que naquele instante daquela noite, ali no largo, o Helder me falava dolorosamente do pai Chagas. E nenhum de nós adivinhava que, no dia seguinte, o mestre Chagas nos dizia adeus sem esperar pelo Santo António nem pelo verão que ele tanto amava. O Chagas é Sesimbra, é a festa, o arquinho e balão da fantasia, folclore elegante, uma forma de viver que assumiu até ao fim, príncipe da noite que não podia resignar-se a ficar a ver a vida passar por ele, a ver a noite avançar sem ir por ela fora até ao Alfredo, às três da manhã. O Chagas só sabia viver, não era homem para sobreviver.
Como alguns, poucos, o Chagas é uma época, uma figura, um nome, um estilo, uma filosofia de vida, deixou marcas, traços nítidos em todos quantos gostam da noite, do mar e da vida.
A noite acabou e o Chagas foi com ela…
Também do Valdemar a noite foi companheira, amante insaciável que o enfeitiçou, que o embriagou, que o enrolou em fumo mais espesso que o do peixe que agora assa para o Heitor. A medalha de mérito da Câmara é peripécia tardia para um homem da noite, talentoso em mil artes, que podia ter sido isto ou aquilo, navegando noutras águas. Mas assim não teria sido o Valdemar…
Futebolista de classe, bailarino, fantasista, playboy da lota, comprou, vendeu e agora assa peixe. Não faltam professores de moral, pregadores de virtude, mas por mais que digam, aquele homem será sempre mais do que um assador de peixe. É o Valdemar…
E era ali, no largo da Marinha, que o Senhor das Chagas se virava para o mar, abençoando os barcos e os homens, no auge da emoção.
Era o ponto mais alto da fé de uma população que hoje se interroga, mal se atrevendo a exprimir uma convicção. O assunto é delicado, as pessoas falam, perguntam, hesitam, buscam confirmação, esperam esclarecimento, a questão tem de ser posta, alguém terá de responder.
 Mas, no fundo, talvez nem seja importante saber se o Senhor abriu ou não os olhos. Será apenas (e é muito) uma questão de fé. Importante sim é nós abrirmos os olhos para os outros, para a vida, para a beleza das coisas e dos sentimentos, para a tolerância, a fraternidade…
O Senhor não precisa de abrir os olhos para provar seja o que for.
Nós é que precisamos de abrir os olhos, abrir o nosso coração às pessoas e às coisas boas que a vida nos dá.
Abrir os olhos, ver o mar sem lhe voltar as costas, apreciar a imensa felicidade que é uma manhã suave de domingo quando um barquinho sonolento atravessa a baía com as gaivotas à volta e o sol por companhia.
Abrir os olhos apesar do fumo que provoca lágrimas ao Valdemar quando se lembra da lota, quando esquece a grelha e contempla o mar, quando olha para trás, quando fita ao longe a linha frágil do horizonte que separa os sonhos da realidade.
A vida também é fumo, nos olhos e nos braços que às vezes baixamos, cansados de lutar e de sofrer. Mas se abrirmos os olhos veremos outros braços que os esperam, que para nós se estendem.
Abrir os olhos e lutar como a Celestina, procurar motivações, forças novas. Os fins de tarde têm certa magia e foi ao entardecer que voltei a ver a Celestina, junto à capela. Depois chegou a Laura que trazia consigo um ramo de recordações ligadas à loja do mestre Adelino, aos matraquilhos, às sandes de atum do Lopes e a uma janela de onde se vê o mar…
Abrir os olhos para a energia, o entusiasmo da Maria Irene que se juntou a nós, com um sorriso luminoso e uma alegria sentida que nos leva a acreditar na vida, no que ela é capaz de nos dar, mesmo quando o desalento nos invade.
Por isso, não sei se é importante saber se o Senhor abriu ou não os olhos, se deveríamos recorrer a uma peritagem, assegurarmo-nos de que não havia mistificação. No fundo, esta peripécia que perturba e interpela pode servir apenas para nos dizer, a todos quantos vão atrás da procissão e aos outros que viram as costas ao mar e ao próximo, que é preciso abrirmos os olhos e, sobretudo, os nossos corações.
Só amar é importante. Amar e o mar…
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*Publicado em O Sesimbrense de Julho de 1992.   

terça-feira, 12 de abril de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 44



O meu negócio é limpo - (António do Carvão)
António Cagica Rapaz

[da série O que eles poderiam ter dito]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 53



Candeeiros bem bonitos

António Cagica Rapaz

O enérgico e sorridente Eduardo aplicava duas argoladas na porta, invariável e ruidosamente, às sete da manhã. A minha mãe ficava com o leite e, depois de deixar o fervedor na cozinha, acendia a telefonia. Assim começava o dia com o “Talismã”, o seu programa da manhã, produzido pelo Gilberto Cotta. Ao microfone, Armando Marques Ferreira, António Miguel e Dora Maria. Das sete às oito e meia, com segunda sessão das dez ao meio dia. Pelo meio ficava a “Onda do Optimismo”, com o Jorge Alves. Tudo no Rádio Clube Português.

Às sete e meia, ia para o ar um folhetim mais assustador do que as argoladas do Eduardo, a cargo da Manuela Reis que interpretava todos os papéis, fazia todas as vozes, homem, mulher e criança, narrava e dava corpo sonoro às personagens. Eram histórias aterradoras que eu ouvia de longe, do fundo da minha cama...

Mas os primeiros ecos da telefonia são anteriores, situam-se na taberna da minha avó, com os “Companheiros da Alegria”, o Zèquinha e a Lélé, o Vasco Santana, o Igrejas Caeiro, a Elvira Velez. E os fados! Os fados, na rua dos Pescadores, reconfortavam, ajudavam a esperar o fim do vendaval, a aceitar a fatalidade do destino, e iluminavam as noites quentes de Verão, sardinha assada e fogareiro à porta. Até o mar se calava para ouvir a Amália...

Quando mudámos para a rua da Fé, a telefonia passou a ser a do Chico da Cooperativa, com os relatos de futebol e, sobretudo, a magia das transmissões de hóquei em patins, os torneios de Montreux, na longínqua Suíça. Era a vibração apaixonante do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas, os golos de Portugal contra a Espanha, tanta emoção e paixão. A nossa imaginação fervia, tínhamos de dar um rosto, um corpo àquelas vozes cujos donos ninguém conhecia. Era o fascinante sortilégio da Rádio...

Já na rua Monteiro, o Manel Estêvão convenceu o meu pai a comprar uma telefonia Philips, a prestações, com letras assinadas por mim, com a caligrafia insegura dos oito anos e que poucas melhoras regista desde então.

No quadro das estações, da esquerda para a direita, lá estavam a Rádio Voz de Lisboa, a Rádio Graça, os Emissores Associados de Lisboa, o Clube Radiofónico de Portugal, a Rádio Renascença, o Rádio Clube Português e as duas Emissoras, a 2 e a 1 que transmitia com Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Guarda, na banda dos 47 metros.

Nos emissores pequeninos de Lisboa, havia, ao sábado de manhã, para os miúdos, o “Comboio das Seis e Meio, do José Castelo que veio muitos anos para Sesimbra e era amigo do meu pai. Certa vez, num concurso de desenho, ganhei duas grandes caixas de chocolates Regina graças ao talento da minha tia Lucinda e ao descaramento com que assinei o bilhete postal, com uma letra ainda mais incerta do que era habitual. A fraude já prescreveu, espero bem...

Na Emissora, gostava de ouvir o “Jornal Sonoro”, os relatos de futebol e, sobretudo, o teatro radiofónico que ia para o ar às nove e meia da noite, repetindo no dia seguinte à uma e meia da tarde, mal acabavam as aventuras do Patilhas e do Ventoinha, parodiantes do Rádio Clube Português. As vozes mágicas do teatro pertenciam a Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Rogério Paulo, Raúl de Carvalho, Rui de Carvalho, Canto e Castro e outros. Samuel Diniz ensaiava.

Na mesma Emissora, ao sábado, às sete da tarde, depois do banho, era o programa infantil da Maria Madalena Patacho, com realização do Castela Esteves, as Aventuras do Zé Caracol.

Mas o Rádio Clube Português era a estação que mais ouvíamos, o “Talismã”, os “Parodiantes de Lisboa”, o Lança Moreira, o senhor Messias, as cavernosas “Lendas da Nossa Terra”, do Gentil Marques, os sublimes diálogos do sempre imitável mas nunca igualável Olavo d’Eça Leal. A mana Maria Helena tinha a mais bonita voz da nossa Rádio, a meu gosto.

À boca da noite, enquanto esperava o meu pai, ouvia o “Jornal da APA”, apresentado pelo Luís Filipe Costa e pela Tany Belo, das sete e meia às oito e dez. A seguir vinha o “Apontamento do Dia”, por Américo Leite Rosa, o mesmo do apicerum, do segredo da abelha. Os “Apontamentos” eram olhares poéticos, atentos e curiosos, sobre o quotidiano, sobre as pessoas e as coisas.

Se o meu pai demorava, ainda ouvia, na Renascença, os “Cinco Minutos de Jazz”, do José Duarte, com que se atingia as nove da noite.

Era o limite da minha tranquilidade vacilante, a última carreira tinha chegado há muito. A partir daí ficava mais inquieto e preocupado...

Ao sábado, às oito e meia, havia a “Onda Desportiva”, apresentada por um tal Henrique Mendes que ninguém sabia se era alto ou baixo, gordo ou magro. Alto e magro, muito magro, era um certo Alves dos Santos, mas isso só fiquei a saber muitos anos depois. Naquela altura, ele fazia, com o Fernando Pires, as “Jogadas de Antecipação” com que encerrava o programa.

Ao domingo era hábito almoçarmos bacalhau com grão enquanto ouvíamos “A Vida é Assim”, de José de Oliveira Cosme. Era um programa delicioso, sem pretensões, muito caloroso e agradável, com diálogos interpretados pelo autor e pela Mary, o João e a Luísa de uma ficção que integrava os anúncios na conversa do casal. E assim apareciam, com suave naturalidade, as camisas da Camisaria Moderna, as tais que não faziam pregas no peito nem rugas no colarinho, o cafezinho da Pérola do Rossio, no Rossio 105, os chás milagrosos da antiga ervanária do largo da Anunciada, os petiscos da charcutaria Suíça e, o melhor de tudo, os candeeiros bem bonitos, modernos, originais, compre-os na Rádio Vitória, não se preocupe mais. Porque na Rádio Vitória, embaixada do bom gosto, quem lá vai é bem servido e sai sempre bem disposto. Lá na rua da Vitória, 46-48, satisfaz-se plenamente o cliente mais afoito.

Na Rádio Voz de Lisboa, havia uma locutora com uma voz muito doce que dizia, com frequência e muita, muita meiguice “Esta é a Voz de Lisboa”. Um dia, o Vítor Marques, na brincadeira, imitou-as, anunciando com requebros ternurentos “Esta é a Rádio Renascença”. Os senhores padres é que não gostaram e suspenderam-no por quinze dias...

A tal Voz de Lisboa apresentava um programa muito popular, com discos oferecidos aos doentinhos dos hospitais, enfermaria oito, cama nove, a Maria Amélia Canossa a dizer que “anda o vira na minha rua, já me encheram a rua toda, oiço harmónios e cavaquinhos, cabeças à roda”. Enquanto o Artur Ribeiro convidada “a cachopa do Minho que Deus abençoa, deixa o teu cantinho, vem até Lisboa mostrar como baila a tua chinela, ver o lisboeta andar atrás dela”.

Mas eu gostava era de ouvir o Max a contar a história da Maria da Luz. “Na pequena capelinha da aldeia velha e branquinha, dei à Maria da Luz um cruz de pôr ao peito e o juramento foi feito por nós dois sobre essa cruz”.

Hoje há outra Maria da Luz que faz, ali nas Caixas, um pão maravilhoso, mas nunca lhe perguntei se também faz uma cruz na massa, como a tia Clarisse quando cozia a farinha que o filho, o Julinho, e eu trazíamos do velho moinho, num tempo em que, na lonjura do campo, não havia electricidade, só poesia.

Poesia, nostalgia, telefonia, um tempo que foi à via...

2000

sexta-feira, 8 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 4


Académica

António Cagica Rapaz

O sonho doirado de todos os miúdos que estudavam e davam pontapés na bola era, um dia, envergar a camisola da Académica. E, naturalmente, também eu me deixei embriagar pelas melodias da velha cidade, pela melancolia das guitarras, pelo eco dos amores lendários no Choupal, pela sombra das capas e pela sedução do equipamento preto.

A primeira vez que me recordo ter ouvido falar da Académica foi quando o malandro do Capela, o nosso guarda-redes, uma das torres de Belém, resolveu fugir para Coimbra que era a terra prometida para profissionais em litígio com os seus clubes e que corriam a pedir asilo político no Largo da Portagem ou na Praça da República, depois de terem batido à Porta Férrea.

Lá permaneciam um ano e, após esta chantagem escolar, regressavam à base. Mas ele não voltou, apaixonou-se por Coimbra e por lá ficou, Capela que era, encostado à Sé Velha e à Igreja de Santa Cruz, em família. O André fez o mesmo, depois o Jorge Alexandre, muito mais tarde o José Manuel Castro, todos de Belém para Coimbra…

Outro que fugiu para a Académica foi o Faia, do Barreirense, que, com a camisola preta, marcou um célebre golo por entre as pernas do Costa Pereira, proeza que custou um título ao Benfica. Este Faia já era meu conhecido, até lhe pedira um autógrafo, em Sesimbra. Mais tarde viria a jogar contra ele e a tê-lo, episodicamente, como treinador. As voltas que a bola dá…

Também o Péridis e o Rocha andaram em bolandas entre o Sporting e a Académica. Este Rocha, chinês de Macau, mágico da bola, era um dos que constavam da minha magra colecção de Ídolos do Desporto. Nesse tempo, pontificavam na Académica Bentes, Torres, Wilson, Abreu, Malícia, Marta e outros.

Os anos iam passando, eu ia avançando nos estudos e nos pontapés na bola. A meta estava fixada, era completar o 7º ano e, depois, arranjar um empregozinho.  Na minha segunda época de júnior, tive uma tentadora proposta do Sporting que me garantia o pagamento de pensão, estudos, treinos e prémios de jogos. Juca era o treinador e Felisberto Vaz o seccionista. Mas tive receio de ir viver para Lisboa, medo de vir a ser dispensado no final da época, quando passasse a sénior. E acabei por recusar…

Em 1962, realizou-se em Leiria o habitual torneio, entre juniores, com as selecções de Lisboa, Porto, Coimbra e Setúbal, tendo eu tido a honra de ser escolhido para capitão da equipa de Setúbal que venceu (por 5-3) a de Coimbra onde jogavam o guarda-redes Arrobas e o Manuel Duarte que, no ano seguinte, viriam a ser meus colegas na Académica.

Curiosamente, esta circunstância, o jogo entre selecções regionais, não teve influência na minha ida para Coimbra. Na verdade, a Académica mal chegava a ser um sonho, nem me atrevia a pensar nisso. Por tudo, e porque nem sequer tinha dinheiro para ir lá tentar a sorte.

O milagre aconteceu de forma totalmente inesperada e sem que eu tivesse tido a menor intervenção. Foi o acaso de um dos meus professores, no liceu de Setúbal (dr. João Cavalheiro), ser amigo do dr. Hortênsio Pais de Almeida Lopes que era um dos membros da Comissão Administrativa da Académica, na altura.

Para não dar a saber que não tinha dinheiro para a viagem, tive o atrevimento de pedir à Académica que me pagasse o comboio e a pensão. E tive a sorte de não me terem mandado à pesca. Como num sonho, desembarquei em Coimbra, onde nunca tinha estado, para treinar, sob o olhar de Pedroto, ao lado de nomes míticos, os tais ídolos longínquos, quase irreais, como o dr. Torres, o dr. Abreu, o dr. Marta, o Wilson, o Rocha, o Gaio, o Maló, o Curado, o Américo, o Lourenço. Lá estavam outras caras novas, nomes que viriam a ser grandes, na Académica e no futebol português, como o Rui Rodrigues, o Oliveira Duarte, o Gervásio, o Piscas. Mais modestos e tímidos, eu e o Rosales, vindo do Estoril e que haveria de ser meu companheiro de quarto e amigo para a vida.

Entre os titulares nesse Verão 62, contavam-se o França, o José Júlio e o Araújo que aproveitaram a digressão a Moçambique para se juntarem ao Chipenda na luta pela independência da África portuguesa.
Aprovado por Pedroto, realizei o meu sonho de ingressar na Académica e, ao mesmo tempo, entrei na Universidade, coisa que nunca ousara esperar…

Setembro foi o recomeço dos treinos, e a minha primeira época foi de adaptação e aprendizagem, no meio de grandes jogadores e alguns homens notáveis com os quais diferentes tipos de relações se foram desenhando.

Os graves problemas familiares, a falta de dinheiro, a angústia, tudo isso me deixou uma enorme frustração, embora tentasse mostrar cara alegre nas aulas e nos treinos e participar na vida colectiva muito centrada no café Montanha, no largo da Portagem.

Por lá passavam figuras castiças como o gordo Administrador, exótica personagem, velho colonialista de monóculo à Spínola; o Barrinhos, peso pluma que se achava parecido com o Aznavour; o senhor Vaz, da casa das máquinas e dos vapores rutilantes; o gerente Arrobas, mestre de cerimónias num café onde o Humberto servia os clientes e contava que trabalhava por desporto, já que o pai era um rico industrial de cortiça; o Carlos Portugal, exímio basquetebolista, corredor de automóveis e jogador de snooker; o Bigodes da escola agrícola, que metia bolas a atravessar; o Panão, o Manel Cavalo, o Figueiras Antárctida, o Zé Maria das histórias deliciosas, os manos Salvado. O Montanha era o nosso mundo, ali no largo da Portagem onde morava o Mata-Frades e ficava o consultório do dr. Adolfo Rocha, mais conhecido por Miguel Torga.

Na segunda época, Pedroto lançou-me em alguns jogos e havia boas perspectivas de futuro. Porém, há no mundo do futebol práticas a que nem a Académica escapa. Estranhamente, e por razões que nada tiveram a ver com competência, Pedroto acabou por sair. No seu lugar, como era de esperar, ficou o velho capitão…
A terceira temporada foi de total frustração, desencanto a que não posso deixar de associar o nome do senhor Wilson cujo comportamento descrevo com mais pormenor noutra crónica.

Em Maio de 65, o meu pai faleceu e decidi deixar Coimbra, transferindo-me para a CUF. Era uma nova aventura que começava…

quarta-feira, 6 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 53


Regresso*
António Cagica Rapaz
O Carlinhos da Rã entrou ofegante no Café Central naquele fim de tarde tranquila, lusco-fusco preguiçoso, com a noite a ameaçar cair e o dia a agarrar-se às nuvens ténues que beijam o mar lá longe, em equilíbrio adivinhado sobre a linha do horizonte.
De boina abundante enfiada na cabeçorra, o Carlinhos descera a correr a escada da Repartição de Finanças onde pairavam a sombra esquiva do regedor Ferreira, vulgo Badejo, e a aristocrática elegância do Professor Artur Maria da Silva Costa.
Nós, rapazolas centralistas, estávamos como de costume ancorados ao bilhar da frente, depois de uma voltinha ao Espadarte, um olho à lota e um salto à loja do mestre Adelino. Era a nossa peregrinação, o nosso triângulo das Bermudas onde nos perdíamos entre as páginas d’A Bola, as tacadas do bilhar, a sedução da esquina que nos amparava, o conforto dos poiais das montras, o ar bravio que nos chegava do jardim, do campo do Desportivo, da serra, do mundo que se abria naquela rua do cinema que era o berço da evasão.
E o Carlinhos, já lá chegamos, caía-nos em cima para nos interrogar com febril excitação:
– Vocês não deram pela minha falta?
Foi assim, tal e qual, e nós ficámos embaraçados, confundidos, pesarosos porque, em boa verdade, nenhum de nós podia afirmar ter sentido naquele dia, naquela tarde calma, a ausência do Carlinhos da Rã.
Ver aparecer o Alfredo ou o João Vai-Vem quando jogávamos à bola entre o Grémio e o Central, isso causava-nos certa emoção. Ir ao baile à Quintola e apanhar uma tampa enchia-nos de vergonha. Cair na esparrela do Júlio Mouco era vexame insuportável.
Agora passar uma tarde sem ver o Carlinhos, de facto não era coisa que nos traumatizasse por aí além.
E ficámos mudos como peixes estendidos na lota a ouvir a cantilena do Alfredo Filipe. E não percebíamos sequer a razão daquela pergunta. Estaria o Carlinhos a fazer uma sondagem sobre a sua popularidade? Poderia ele medir o afecto que nos inspirava?
Teria preocupações de ordem metafísica o nosso Carlinhos batráquio?
Nada disso. Sucedera apenas que o Carlinhos tinha ido com a mãe a Lisboa e talvez quisesse verificar se a vida em Sesimbra, no Central, não teria parado durante a sua ausência. Não, Carlinhos, a vida não pára seja para quem for que se ausente. Por umas horas para ir a Lisboa ou para sempre no cemitério, no mar profundo ou algures. Os matraquilhos do Lopes continuam a trincar bolas e a disparar tiraços. O Mestre Adelino não deixou de criticar o Otto Glória entre duas barbas e uma desbastadela a preceito. O Hernâni foi à cave do Tio Chico da Cooperativa para o seu ping-pong antes de vir servir uma bica escaldada ao imenso Duque. O Damião distribuiu as fichas do sintético, o António, na mercearia do senhor Arménio, vendeu dois quilos de sabão de amêndoa e três litros de azeite espesso enquanto o Orlando largava o bilhar para ir fazer um frete à doca.
Não, Carlinhos, a vida não pára e não demos pela tua falta. Pela nossa falta dão aqueles que de nós gostam e mesmo esses têm a sua vida para viver. Há dezanove anos fui mais longe do que Lisboa, abalei para Paris e levei comigo o Central, a doca, a fortaleza e o farol. Na fronteira, quando me perguntaram se tinha alguma coisa a declarar, era difícil dizer que levava aquela carga toda mais as redes do Pai Bernardo, o gelo do Chanoca, as barracas do tio Abel, o carrocel oito, os bancos do jardim, a porta da capela, o campo do Desportivo, a escola Conde de Ferreira, a areia da praia e o cântico das gaivotas.
Mais difícil ainda teria sido dizer que ia à procura do Carlinhos da Rã que se ausentara para parte incerta numa tarde pálida pela calada do tempo.
Lá longe, dei por mim a folhear o álbum da memória com a preocupação de conservar as recordações como se guardava a albacora para os invernos intermináveis. Poderá ter sido uma maneira de não deixar que me esquecessem, de fazer com que dessem pela minha ausência. E longe, sentia-me mais perto, percorria ruas, becos e recantos da nossa terra, mergulhando nas entranhas do tempo, trazendo ao de cima o que me parecia ser importante, interessante, valer a pena.
Ver e sentir Sesimbra de longe é uma abordagem tendenciosa e parcial porque escolhia caminhos e tonalidades, situações e pessoas levado por uma concepção da vida e das coisas que é apenas a minha. E o que para mim é belo ou bom pode ser detestável para o vizinho do lado. Depois, a visão que temos lá de longe, deforma, retoca, altera, reconstrói uma realidade que o tempo por si já se encarregou de transformar sem precisar da nossa ajuda.
Por outro lado, em cada visita rápida, apercebia-me da distância entre o universo relativamente poético e idealizado que eu tentava recriar e a vida, os valores, a realidade.
Diz o poeta que melhor que viver é sonhar. E é verdade que, ao longo destes dezanove anos, eu sonhei, reconstruí quadros do presépio de Sesimbra com uma espiritualidade semelhante à que nos invadia nas noites de Natal, na Missa do Galo, quando olhávamos o nosso próximo com uma ternura sentida e uma fraternidade desusada.
O tempo e a distância trazem-nos, com a saudade, imagens ideais, o melhor da montra do Zé do Lima, os brinquedos mais bonitos.
Nas minhas visitas ocasionais fui descobrindo uma outra realidade mas, no fundo, se as coisas são o que são, elas poderão também ser o que nós quisermos, o que delas fizermos.
Podemos ver com os olhos, com uma lupa, mas também com o coração.
Depois, nem tudo muda e ainda hoje lá está a relíquia que é a mercearia do Arménio, com o mesmo António ao balcão, os mesmos tachos e panelas, fogareiros e penicos, talvez o sabão de amêndoa, aquele cheiro a coisas boas e simples da nossa infância, o aconchego dos sacos de feijão, a tentação de um naco de marmelada e o mesmo azeite espesso que ilumina a eternidade.
O meu longínquo primo Cristiano dizia-me noutro dia que gosta de ir passando pela montra do nosso jornal porque enquanto o fizer é sinal de que não é o retrato dele que lá se encontra debaixo de uma cruz preta. Tanto lhe basta para se sentir bem, chega-lhe estar vivo. É simples como filosofia, mas não deixa de ser lúcida e, porventura, mais profunda do que parece.
E é assim, vamos e vimos, ausentamo-nos e voltamos, as marés sobem e descem, o sol recomeça em cada dia a sua travessia da baía, do Caneiro à doca, o Carlinhos foi a Lisboa e eu dei um salto mais demorado a Paris. Hoje estou de volta, já não vejo Sesimbra de longe, mais ainda imagino. E continuo a reconstruir.
Por enquanto mal tive tempo para pensar e receei não conseguir escrever. Agora estou por dentro e não sei se, para escrever, é melhor ou pior. Só sei que estou de volta, estou de novo em casa. Deixem-me saborear…
____________
*Publicado em O Sesimbrense de Outubro de 1993.

terça-feira, 5 de abril de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 43



Iam todos com espingardas e cartucheiras, alguns levavam cães. Ele levou um balde com engodo. Para içar a caçada...
António Cagica Rapaz
[da série Reflexões]

segunda-feira, 4 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 52
















Natureza

António Cagica Rapaz

Ao longo do ano era com muita dificuldade que se arrastava nas grandes superfícies dos hipermercados, acorrentado ao carrinho das compras que, melancolicamente, ia empurrando.

Frutas pálidas e enlatados tristonhos acumulavam-se entre as grades da viatura que manobrava em infindáveis gincanas entre as prateleiras de onde retirava, semana após semana, produtos idênticos, sem entusiasmo nem imaginação. O inferno maior era a bicha para a caixa, carrinhos mais carregados que camiões de longo curso, matronas encharcadas em perfumes manhosos, esperas penosas, tormentos infinitos.

Felizmente, havia as férias. Então, sim, adeus metropolitano, pizzerias à pressa, telejornal às oito, hipermercado ao sábado...

O outro carrinho devorava a estrada, rumo à aldeia de férias, fórmula nova, experiência tentadora. Ah, a Natureza, a praia selvagem, o oceano bravio, as dunas a perder de vista, os pinheiros mansos, o ar sadio, o vigoroso exercício físico, a leitura tranquila de um livro, a música suave ao entardecer...

Episodicamente, algumas compras no minimercado do aldeamento turístico, sem carrinho, apenas um cabaz ligeiro, necessidades mínimas, o prazer de descobrir rostos simpáticos, bronzeados, sorridentes, descontraídos, por vezes, insinuantes.

Aquela morena deliciosa, por exemplo, já a vira na praia. Olha, também vai para a caixa, mesmo à sua frente. Aproximou-se. Ela cheirava a maresia, a pele adivinhava-se macia, os cabelos soltos sobre os ombros. Aproximou-se mais, mais ainda, o seu rosto já roçava os cabelos negros, sentiu um desejo selvagem apoderar-se dele. E só se apercebeu de que era a sua vez de pousar o cabaz quando reparou no olhar divertido da empregada da caixa que o olhava de alto a baixo, dos pés à cabeça, até desatar a rir. Perdidamente, descontroladamente.

Jurou a si mesmo nunca mais voltar a um aldeamento de nudistas...

1998

sexta-feira, 1 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 3



Balizas às costas
António Cagica Rapaz
O futebol entrou muito cedo na minha vida, através das narrativas do meu pai que vivia com um pé no presente (Belenenses) e o outro preso à nostalgia do passado, o seu Pátria Futebol Clube, uma das quatro equipas que havia em Sesimbra.
Apesar das desesperadas tentativas da minha tia Lucinda em me conquistar para o Benfica, eu fui azul desde a primeira hora.
Mas toda a minha infância foi embalada pela evocação das epopeias do Pátria. Estávamos no início dos anos 50, não havia televisão e, enquanto o mar rugia, ao longe, eu adormecia com a cabeça cheia de histórias autênticas em que a lealdade, a amizade, a camaradagem e o empenhamento eram valores seguros. Era o tempo ingénuo e heróico das balizas às costas, do calção pelo joelho, da cabeça amarrada com um lenço e da bola com atilhos. E eu conhecia tão bem os nomes do Matateu, do Di Pace, do Sério, do Feliciano como os do Zé da Faca, do Patachão, do Mira, do Policarpo, do Barlona, do Anazário, dos irmãos Casa-Pia ou do Pompílio.
Mas nem tudo era belo e nobre nessas lutas entre irmãos da mesma terra e, de uma lamentável guerra fraterna, resultou a morte do Pátria, apesar da resistência corajosa de meia dúzia de homens dignos. Mas, como quem com ferro mata, com ferro morre, os outros três acabaram por desaparecer igualmente diluídos na fusão que deu origem ao Desportivo de Sesimbra. E se para o meu pai o futebol em Sesimbra morreu com o Pátria, para mim despontou com o Desportivo. Mas o Pátria ficou bem ancorado no cantinho mais romântico da minha alma desportiva.
O futebol começou a ser vivido por mim em três frentes, com as jogatanas da nossa rapaziada, a assistência a treinos e jogos do Desportivo e o acompanhamento, à distância, da carreira do meu Belenenses.
De vez em quando, o meu pai levava-me a ver jogos, em Lisboa, em Setúbal e no Barreiro.
O Belenenses e as suas estrelas eram outra dimensão, quase irreais, enquanto que os jogadores do Desportivo passavam à minha porta, a caminho dos treinos, o Ilídio, o Rogério, o Manel Santana, o Izidro, o Zé Filipe, o Barlona, o Zé Broa, o Jesus, o Zacarias…
Eu não perdia um treino, ávido de ver de perto aqueles ídolos reais, concretos. Quando ia para a escola, cruzava-me com o Manel Santana que, a passos largos, de bota de borracha de cano curto e fato de ganga azul, ia almoçar, para depois ir trabalhar na fábrica de gelo do Chanoca que alimentava a lota.
Na escola Conde de Ferreira, no livro de leitura, eu contemplava as fotografias dos recortes de jornais que o meu pai comprava. O barulho das botas de traves ainda estava nos meus ouvidos, o cheiro a sebo das botas e das bolas misturava-se com o perfume dos eucaliptos que rodeavam o campo do Desportivo.
Metidos no livro de leitura, estavam jogadores de um outro universo, ídolos longínquos, enquanto o Izidro estava ali, a dois passos, com os outros mecânicos, na oficina do Brandão, o Palhete safava machuchas, à rabeça, em frente do Hotel Espadarte, ao lado do mar.
Foi a idade da paixão, das ilusões e dos sonhos, do deslumbramento ingénuo, a aprendizagem de valores que me ficaram para a vida…

quarta-feira, 30 de março de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 52

um agradecimento especial ao João Aldeia


Central: a meio do sono*
António Cagica Rapaz
O Carlinhos da Rã levantou-se, pegou na garrafa de água e no copo, veio até à nossa mesa, pousou copo e garrafa, sentou-se e, passado um bom bocado, perguntou de forma mais afirmativa que interrogativa se não incomodava…
Foi no Central, num domingo à tarde, a hora morta, quando o Manel Zé conseguiu enfim almoçar. Noutro tempo as mães preocupavam-se com a torreira do sol, recomendavam a sesta à miudagem ou impunham o chapéu de palha, inestético mas útil. O Carlinhos da Rã usava boina, uma boina preta, enorme, enfiada pela cabeça abaixo, quase tão grande como a do outro Carlinhos que morava na calçada. Fiel ao Central há muitos anos, o Carlinhos ancora por ali desde miúdo. Por isso se infiltra com grande destreza por entre as mesas, com o copo e a garrafa na mão, conhece as correntes, escolhe as marés, navega à bolina até chegar de gargalhete à nossa mesa. Só podia ser no Central, só podia ser o Carlinhos da Rã…
Para quem, como eu, tem andado por outros mares, reencontrar o Central é ver a luzinha vermelha do farol em noite de tempestade, alcançar o porto de abrigo em dia de mar feio. Era domingo, a meio da tarde, a meio da vida, a meio da saudade, a meio do sonho que o Central sempre representou a meus olhos. Com o Manel Zé recordámos figuras que passaram pelo Central. Cada um de nós conserva as suas imagens, as suas emoções e o tempo vai retocando, adoçando o contorno.
Fazia falta este Central, com o peso do seu historial, a sua memória colectiva, a sua imponência, o seu simbolismo, marco de uma tradição.
Os tempos são outros, o snooker terá mais procura do que o bilhar e compreende-se a opção. Contudo, bem gostaria de fazer duas bolas a girar como o meu mestre António Vitorino me ensinou.
O bilhar era a disciplina do professor Arménio que, dono da casa, possuía o seu taco, as suas bolas e a autoridade do cientista. As suas lições eram quase tão raras como as exibições do Chico Cagica, todo ele talento, no bilhar e em todos os desportos. Excepcional em tudo.
O bilhar era o «tacho» nas tardes de chuva, com o Orlando dos táxis sempre a chorar, a fazer-se mais azelha do que de facto era e o João Mota, pontapé p’rà frente, a gritar como um trovão. O Leste era um artista, gostava do jogo bonito, com adornos e enfeites, o prazer do floreado, arte pela arte. E depois perdia com o Pai do Céu, de tacada triste, económica, deslavada, sem risco nem fantasia. Espectacular era o dueto Zé Romão-António Casa Pia, com as prelecções do mestre António, os seus passes requebrados, verónicas e manuelinas a acompanhar o movimento caprichoso das bolas…
Era a meio da tarde, a meio da chuva, a meio do Inverno, a meio da melancolia de um tempo que foi. Que foi melhor, pior, não sei. Apenas sei que nos ficou cá dentro, bem fundo, a nostalgia do Central, do sô Zé, do cafezinho, da esquina…
A esquina do Central é um sítio histórico, monumento repertoriado, referência, marco, fronteira, poço de rumores, fonte de intrigas, berço de manigâncias, torre de controlo, ponto de passagem, portagem, malandragem, calhandragem.
O Central ocupou um lugar muito importante na vida de todos nós. E a vida é assim, perdemos o Chagas, voltou o Central…
À noite, na esplanada, houve música, um ar de festa, a ressurreição daquele espaço outrora meio mundano, mas sempre simpático e agradável.
Faltavam os chapéus-do-sol, as janelas do Grémio abertas de par em par, os xailes de renda branca das senhoras bronzeadas. E faltava a silhueta inconfundível da Isabel…
Mas lá estava o Mário Martelo, vértice de um triângulo fascinante constituído pelo seu café, pelo café Filipe e pelo Central. O Mário Martelo é, no meu álbum, o parceiro do Zé Ângelo, uma bigodaça ocasional, irreverente, do tempo em que a lota era uma feira franca e fresca, com o peixe alinhado na areia, com as chatas a carregar das barcas para a praia, com o Pala-Pala num corrupio. O Largo da Marinha era o pátio dos Milagres, homens, burros e camionetas, turistas e curiosos, a tarde a entrar pela noite adentro. O café do Zé Filipe era o verão da lota, o Central era o verão balnear. O Mário Martelo era uma traineira, um café, uma boémia requintada e um belo sorriso que seduziu a Pepita.
Na mesma mesa estava o Luís Preto (também conhecido por Conceição), com uns quilos a mais e a boa disposição de sempre. Poderia ter sido um futebolista de alto nível, se tivesse querido. Outros tempos, menos incentivos que hoje e também uma negligência manifesta, privilégio de talento inato.
O «Ginja» era um miúdo tímido cujo futuro cunhado, o Horta, fazia parte da nossa equipa de juniores, sob o comando do nosso Carlos Marques.
Quando jogávamos fora, lá vinha o menino Eduardo, encostado ao cunhado, para ter lugar na camioneta que nos levava até campos nunca dantes pisados, em regiões inóspitas como o Montijo, o Barreiro ou a Cova da Piedade. Era a idade dos sonhos, para ele e para nós todos que esperávamos, sem grande convicção, um dia ser futebolistas a sério.
O Eduardo cresceu, fez-se um homem e bom jogador. Foi para a CUF, onde eu estava, ao tempo treinada por Costa Pereira, ídolo da nossa meninice.
E assim o Eduardo voltou a percorrer o caminho para o Barreiro, não nas velhas camionetas do Covas, mas no seu pequeno Austin, não para ver os outros, mas para jogar e travar duelos acesos, nos treinos, com o Castro, herói de Sarilhos, gigante à altura de um Fragata com quem se bateu em pelejas de criar bicho.
Os anos passam e certas coisas boas ficam. O Eduardo, hoje homem feito, lá estava também com o Mário e o Luís. Olho-o e continuo a ver um bom companheiro de equipa, sobretudo o miúdo calado, agarrado ao Horta, com olhos de sonho, com olhos de sono, aquele sonho maravilhoso que só a infância nos dá e atrás do qual às vezes corremos a vida inteira…
Foi tudo isto o Central naquele domingo, à tarde com o Carlinhos da Rã, navegador sem complexos, e à noite a poesia de uma esplanada ressuscitada, de um passado ressurgido. Não sei se são melodias de sempre, passadismo a tiracolo, só sei que é bom reencontrar um universo que contou na nossa vida. E estas coisas acontecem a cada passo, a cada esquina. Fiquei com pena de não ter podido falar mais com o Zacarias que me dizia, com um sorriso ternurento «Tenho tanta coisa para te dizer…!».
Também eu, Zacarias, tenho muita coisa para te dizer, recordações que conservam o cheiro a eucalipto do campo do Desportivo, o cheiro a mar que o Rogério (o meu guardião preferido) e o João Caparica traziam ao passar à minha porta, o cheiro ao gelo do Chanoca agarrado ao fato-macaco desse admirável Manuel Santana, o cheiro da oficina do Brandão que não largava o Isidro. Disso e muito mais gostaria de te falar, Zacarias, porque tu foste um menino de ouro naquela equipa de homens rudes, substituíste o grande Jesus, deste de bandeja ao Zé Broa, lançaste o Zé Baptista, tinhas a arte fina dos predestinados. Tudo isto e muito mais te diria, mas não digo para não ficares babado…
E é assim, vê bem, o que faz o Central, para onde me levou o arrais Carlinhos. Menos admirável ficará a minha prima Carolina, mulher do Luís, já habituada às divagações delirantes do pai Justino e à veia poética da nossa tia Lucinda.
Estamos em Agosto, é preciso sonhar porque o tempo é vento e de repente nos apercebemos de que a vida nos fugiu. Os verões são como a vida, passam. E às vezes bruscamente…
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* Publicado em O Sesimbrense de Agosto de 1992.

terça-feira, 29 de março de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 42


O velho de terra franziu a sobranSELHA e saiu da loja...
António Cagica Rapaz

[da série Reflexões]

segunda-feira, 28 de março de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 51




Oliveira do Conde

António Cagica Rapaz

Durante anos, no meu espírito, Oliveira do Conde não foi uma terra mas uma casa de que me habituei a ouvir falar em Coimbra, desde o Verão de 1962, período em que o Mondego não passava de um envergonhado fio de água, despojo tímido da majestosa Serra da Estrela, beirão orgulhoso desgastado por gargantas e penedias. A imagem que fui construindo era a de uma casa imponente, senhorial, berço de famílias de raiz aristocrática, carácter talhado no granito, à imagem do patriarca Afonso da Maia a que o génio de Eça de Queirós deu forma e dimensão sublimes. Foi por outro Afonso, filho do Doutor Maurício, que conheci a família que lá viveu.

Gerações sucessivas habitaram casas como aquela, que eu nunca vira mas que imaginava, casas onde havia amor à terra, nobreza de carácter, integridade, temor a Deus, princípios e regras, respeito pela palavra dada, sentimento de honra, a sombra de árvores seculares, segurança e estabilidade, a protecção das paredes espessas que testemunharam alegrias de casamentos e baptismos e abafaram, em silêncio pesado, as grandes dores, as perdas irreparáveis.

Acabei por ir a Oliveira do Conde, no mês passado. A casa fica no largo do pelourinho e é como a imaginei, na traça bem portuguesa, na robustez, na imponência, na sobriedade das formas, três séculos que nos emocionam e nos deixam contemplativos.

- Eu sou plebeu, a Isabel é que tinha raízes aristocráticas, embora não fizesse alarde.

Assim nos recebeu o António, hoje o senhor do solar. O engenheiro António Fonseca é tio do Afonso e do Jorge Maurício.

Em 1962, foi o Afonso que me levou a casa do tio que, juntamente com a Isabel, me aceitaram na família, até hoje. Desta vez, foi o Jorge que se juntou a nós, em Oliveira do Conde. O Jorge pertence mais à Silvã, pela mãe, irmã da Isabel. Formou-se em Direito, em Coimbra, e nunca perdeu o contacto com a terra beirã.

A Sesimbra vinham muitas vezes o António e a Isabel, em veleiro que ancoravam no porto de abrigo e que deixavam ao cuidado do João Catita.

Despedimo-nos do António no largo do pelourinho, saía ele da missa, ouvia-se o sino da igreja, ali bem perto. O António há muito que não navega, mas ainda cavalga uma moto potente, dá umas braçadas vigorosas na piscina, recebe os amigos, lê muito e ouve música que saboreia como um vinho raro, na cave daquela casa deslumbrante onde a rocha empresta ainda mais suavidade à voz da Maysa Matarazzo. As grandes emoções vivem-se em recolhimento, entre paredes espessas de granito...


1999