__________________________________________________________________

quarta-feira, 13 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 54



E o mar…*

António Cagica Rapaz

O mar é azul, forte, carregado de ameaça que o céu não nega, escuro também, cúmplice, no limite impreciso de um horizonte sombrio.
Mas não é um mar de angústia aquele quadro de Alice Jorge que vi noutro dia em Lisboa numa sala acolhedora como um porto de abrigo. Da janela vê-se o Castelo de S. Jorge e um palmo do Tejo. Na parede é o mar, um mar fascinante, à primeira vista assustador, tenebroso, em véspera de vendaval precoce de Setembro. É um mar parado, pesado, enlutado, plúmbeo, mas que estranhamente nos comunica paz, quietude, tranquilidade, suavidade, eternidade. E essa sensação surpreendente virá porventura da presença de umas aiolas pequeninas, imóveis, silenciosas, impassíveis, tranquilas, no meio de um mar de cólera dominada, mar morto…
 A impressão de infinita serenidade talvez resulte do contraste entre a fragilidade, a inocência e a indiferença das aiolas coloridas perante a ameaça latente, a violência que se adivinha na tonalidade de um mar que nem parece o nosso. Mas que existe. Vi-o há dias da esplanada do café Martelo. O tempo estava de trovoada e o mar ficou de repente escuro, igual ao céu, igual ao quadro. No muro da antiga lota, pescadores despreocupados conversavam de costas viradas para o mar, um mar que viram mil vezes, um mar que sentem, que adivinham, que está dentro deles.
E não precisam de olhar para o verem, para o sentirem percorrer cada veia dos seus corpos que ao mar pertencem, que o mar deseja, que o mar fascina.
A esplanada do Martelo é um lugar privilegiado, balcão de frente, camarote avançado, varanda imperial sobre o mar, rochedo, farol, cantinho abrigado, com a sua poesia, o perfume das manhãs frescas de domingo, a doçura do crepúsculo, o namoro com o mar, olhos nos olhos azuis do céu e do mar. E ali se junta a freguesia…
As minhas incursões na Galé foram esporádicas no passado, quase sempre à procura do fígado de tamboril do malandro do Maquino. Hoje são mais assíduas, para surpresa do João e da Fátima que descobri agora ser minha parente, afastada mas parente, inegável quando se tem um nome tão pouco comum como o nosso.
Estava tão longe de imaginar este parentesco como de descobrir que o quadro do mar escuro não fora inspiração inventiva mas sim observação, cópia talentosa de uma realidade impressiva. 
São as marés da vida que nos levam a estas e outras descobertas, em manhãs suaves, entre o cafezinho do João, a imensidão fascinante do mar, o alheamento de alguns que lhe viram as costas preferindo ver passar os automóveis, enquanto outros como o Martinho se instalam na mesa do canto, com o mar em frente, com o mar nos olhos, com o mar em si…
O Zé Calisto mora por cima da Pedra Alta, ideia feliz do Chagas ao dar esse nome ao restaurante que foi a loja da minha tia Francisca, irmã da minha avó Sabina, belos nomes de outro tempo. Da sua janela, o meu primo saxofonista acenava-me com um sorriso deste tamanho, sem saber que naquele instante daquela noite, ali no largo, o Helder me falava dolorosamente do pai Chagas. E nenhum de nós adivinhava que, no dia seguinte, o mestre Chagas nos dizia adeus sem esperar pelo Santo António nem pelo verão que ele tanto amava. O Chagas é Sesimbra, é a festa, o arquinho e balão da fantasia, folclore elegante, uma forma de viver que assumiu até ao fim, príncipe da noite que não podia resignar-se a ficar a ver a vida passar por ele, a ver a noite avançar sem ir por ela fora até ao Alfredo, às três da manhã. O Chagas só sabia viver, não era homem para sobreviver.
Como alguns, poucos, o Chagas é uma época, uma figura, um nome, um estilo, uma filosofia de vida, deixou marcas, traços nítidos em todos quantos gostam da noite, do mar e da vida.
A noite acabou e o Chagas foi com ela…
Também do Valdemar a noite foi companheira, amante insaciável que o enfeitiçou, que o embriagou, que o enrolou em fumo mais espesso que o do peixe que agora assa para o Heitor. A medalha de mérito da Câmara é peripécia tardia para um homem da noite, talentoso em mil artes, que podia ter sido isto ou aquilo, navegando noutras águas. Mas assim não teria sido o Valdemar…
Futebolista de classe, bailarino, fantasista, playboy da lota, comprou, vendeu e agora assa peixe. Não faltam professores de moral, pregadores de virtude, mas por mais que digam, aquele homem será sempre mais do que um assador de peixe. É o Valdemar…
E era ali, no largo da Marinha, que o Senhor das Chagas se virava para o mar, abençoando os barcos e os homens, no auge da emoção.
Era o ponto mais alto da fé de uma população que hoje se interroga, mal se atrevendo a exprimir uma convicção. O assunto é delicado, as pessoas falam, perguntam, hesitam, buscam confirmação, esperam esclarecimento, a questão tem de ser posta, alguém terá de responder.
 Mas, no fundo, talvez nem seja importante saber se o Senhor abriu ou não os olhos. Será apenas (e é muito) uma questão de fé. Importante sim é nós abrirmos os olhos para os outros, para a vida, para a beleza das coisas e dos sentimentos, para a tolerância, a fraternidade…
O Senhor não precisa de abrir os olhos para provar seja o que for.
Nós é que precisamos de abrir os olhos, abrir o nosso coração às pessoas e às coisas boas que a vida nos dá.
Abrir os olhos, ver o mar sem lhe voltar as costas, apreciar a imensa felicidade que é uma manhã suave de domingo quando um barquinho sonolento atravessa a baía com as gaivotas à volta e o sol por companhia.
Abrir os olhos apesar do fumo que provoca lágrimas ao Valdemar quando se lembra da lota, quando esquece a grelha e contempla o mar, quando olha para trás, quando fita ao longe a linha frágil do horizonte que separa os sonhos da realidade.
A vida também é fumo, nos olhos e nos braços que às vezes baixamos, cansados de lutar e de sofrer. Mas se abrirmos os olhos veremos outros braços que os esperam, que para nós se estendem.
Abrir os olhos e lutar como a Celestina, procurar motivações, forças novas. Os fins de tarde têm certa magia e foi ao entardecer que voltei a ver a Celestina, junto à capela. Depois chegou a Laura que trazia consigo um ramo de recordações ligadas à loja do mestre Adelino, aos matraquilhos, às sandes de atum do Lopes e a uma janela de onde se vê o mar…
Abrir os olhos para a energia, o entusiasmo da Maria Irene que se juntou a nós, com um sorriso luminoso e uma alegria sentida que nos leva a acreditar na vida, no que ela é capaz de nos dar, mesmo quando o desalento nos invade.
Por isso, não sei se é importante saber se o Senhor abriu ou não os olhos, se deveríamos recorrer a uma peritagem, assegurarmo-nos de que não havia mistificação. No fundo, esta peripécia que perturba e interpela pode servir apenas para nos dizer, a todos quantos vão atrás da procissão e aos outros que viram as costas ao mar e ao próximo, que é preciso abrirmos os olhos e, sobretudo, os nossos corações.
Só amar é importante. Amar e o mar…
____________
*Publicado em O Sesimbrense de Julho de 1992.   

terça-feira, 12 de abril de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 44



O meu negócio é limpo - (António do Carvão)
António Cagica Rapaz

[da série O que eles poderiam ter dito]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 53



Candeeiros bem bonitos

António Cagica Rapaz

O enérgico e sorridente Eduardo aplicava duas argoladas na porta, invariável e ruidosamente, às sete da manhã. A minha mãe ficava com o leite e, depois de deixar o fervedor na cozinha, acendia a telefonia. Assim começava o dia com o “Talismã”, o seu programa da manhã, produzido pelo Gilberto Cotta. Ao microfone, Armando Marques Ferreira, António Miguel e Dora Maria. Das sete às oito e meia, com segunda sessão das dez ao meio dia. Pelo meio ficava a “Onda do Optimismo”, com o Jorge Alves. Tudo no Rádio Clube Português.

Às sete e meia, ia para o ar um folhetim mais assustador do que as argoladas do Eduardo, a cargo da Manuela Reis que interpretava todos os papéis, fazia todas as vozes, homem, mulher e criança, narrava e dava corpo sonoro às personagens. Eram histórias aterradoras que eu ouvia de longe, do fundo da minha cama...

Mas os primeiros ecos da telefonia são anteriores, situam-se na taberna da minha avó, com os “Companheiros da Alegria”, o Zèquinha e a Lélé, o Vasco Santana, o Igrejas Caeiro, a Elvira Velez. E os fados! Os fados, na rua dos Pescadores, reconfortavam, ajudavam a esperar o fim do vendaval, a aceitar a fatalidade do destino, e iluminavam as noites quentes de Verão, sardinha assada e fogareiro à porta. Até o mar se calava para ouvir a Amália...

Quando mudámos para a rua da Fé, a telefonia passou a ser a do Chico da Cooperativa, com os relatos de futebol e, sobretudo, a magia das transmissões de hóquei em patins, os torneios de Montreux, na longínqua Suíça. Era a vibração apaixonante do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas, os golos de Portugal contra a Espanha, tanta emoção e paixão. A nossa imaginação fervia, tínhamos de dar um rosto, um corpo àquelas vozes cujos donos ninguém conhecia. Era o fascinante sortilégio da Rádio...

Já na rua Monteiro, o Manel Estêvão convenceu o meu pai a comprar uma telefonia Philips, a prestações, com letras assinadas por mim, com a caligrafia insegura dos oito anos e que poucas melhoras regista desde então.

No quadro das estações, da esquerda para a direita, lá estavam a Rádio Voz de Lisboa, a Rádio Graça, os Emissores Associados de Lisboa, o Clube Radiofónico de Portugal, a Rádio Renascença, o Rádio Clube Português e as duas Emissoras, a 2 e a 1 que transmitia com Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Guarda, na banda dos 47 metros.

Nos emissores pequeninos de Lisboa, havia, ao sábado de manhã, para os miúdos, o “Comboio das Seis e Meio, do José Castelo que veio muitos anos para Sesimbra e era amigo do meu pai. Certa vez, num concurso de desenho, ganhei duas grandes caixas de chocolates Regina graças ao talento da minha tia Lucinda e ao descaramento com que assinei o bilhete postal, com uma letra ainda mais incerta do que era habitual. A fraude já prescreveu, espero bem...

Na Emissora, gostava de ouvir o “Jornal Sonoro”, os relatos de futebol e, sobretudo, o teatro radiofónico que ia para o ar às nove e meia da noite, repetindo no dia seguinte à uma e meia da tarde, mal acabavam as aventuras do Patilhas e do Ventoinha, parodiantes do Rádio Clube Português. As vozes mágicas do teatro pertenciam a Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Rogério Paulo, Raúl de Carvalho, Rui de Carvalho, Canto e Castro e outros. Samuel Diniz ensaiava.

Na mesma Emissora, ao sábado, às sete da tarde, depois do banho, era o programa infantil da Maria Madalena Patacho, com realização do Castela Esteves, as Aventuras do Zé Caracol.

Mas o Rádio Clube Português era a estação que mais ouvíamos, o “Talismã”, os “Parodiantes de Lisboa”, o Lança Moreira, o senhor Messias, as cavernosas “Lendas da Nossa Terra”, do Gentil Marques, os sublimes diálogos do sempre imitável mas nunca igualável Olavo d’Eça Leal. A mana Maria Helena tinha a mais bonita voz da nossa Rádio, a meu gosto.

À boca da noite, enquanto esperava o meu pai, ouvia o “Jornal da APA”, apresentado pelo Luís Filipe Costa e pela Tany Belo, das sete e meia às oito e dez. A seguir vinha o “Apontamento do Dia”, por Américo Leite Rosa, o mesmo do apicerum, do segredo da abelha. Os “Apontamentos” eram olhares poéticos, atentos e curiosos, sobre o quotidiano, sobre as pessoas e as coisas.

Se o meu pai demorava, ainda ouvia, na Renascença, os “Cinco Minutos de Jazz”, do José Duarte, com que se atingia as nove da noite.

Era o limite da minha tranquilidade vacilante, a última carreira tinha chegado há muito. A partir daí ficava mais inquieto e preocupado...

Ao sábado, às oito e meia, havia a “Onda Desportiva”, apresentada por um tal Henrique Mendes que ninguém sabia se era alto ou baixo, gordo ou magro. Alto e magro, muito magro, era um certo Alves dos Santos, mas isso só fiquei a saber muitos anos depois. Naquela altura, ele fazia, com o Fernando Pires, as “Jogadas de Antecipação” com que encerrava o programa.

Ao domingo era hábito almoçarmos bacalhau com grão enquanto ouvíamos “A Vida é Assim”, de José de Oliveira Cosme. Era um programa delicioso, sem pretensões, muito caloroso e agradável, com diálogos interpretados pelo autor e pela Mary, o João e a Luísa de uma ficção que integrava os anúncios na conversa do casal. E assim apareciam, com suave naturalidade, as camisas da Camisaria Moderna, as tais que não faziam pregas no peito nem rugas no colarinho, o cafezinho da Pérola do Rossio, no Rossio 105, os chás milagrosos da antiga ervanária do largo da Anunciada, os petiscos da charcutaria Suíça e, o melhor de tudo, os candeeiros bem bonitos, modernos, originais, compre-os na Rádio Vitória, não se preocupe mais. Porque na Rádio Vitória, embaixada do bom gosto, quem lá vai é bem servido e sai sempre bem disposto. Lá na rua da Vitória, 46-48, satisfaz-se plenamente o cliente mais afoito.

Na Rádio Voz de Lisboa, havia uma locutora com uma voz muito doce que dizia, com frequência e muita, muita meiguice “Esta é a Voz de Lisboa”. Um dia, o Vítor Marques, na brincadeira, imitou-as, anunciando com requebros ternurentos “Esta é a Rádio Renascença”. Os senhores padres é que não gostaram e suspenderam-no por quinze dias...

A tal Voz de Lisboa apresentava um programa muito popular, com discos oferecidos aos doentinhos dos hospitais, enfermaria oito, cama nove, a Maria Amélia Canossa a dizer que “anda o vira na minha rua, já me encheram a rua toda, oiço harmónios e cavaquinhos, cabeças à roda”. Enquanto o Artur Ribeiro convidada “a cachopa do Minho que Deus abençoa, deixa o teu cantinho, vem até Lisboa mostrar como baila a tua chinela, ver o lisboeta andar atrás dela”.

Mas eu gostava era de ouvir o Max a contar a história da Maria da Luz. “Na pequena capelinha da aldeia velha e branquinha, dei à Maria da Luz um cruz de pôr ao peito e o juramento foi feito por nós dois sobre essa cruz”.

Hoje há outra Maria da Luz que faz, ali nas Caixas, um pão maravilhoso, mas nunca lhe perguntei se também faz uma cruz na massa, como a tia Clarisse quando cozia a farinha que o filho, o Julinho, e eu trazíamos do velho moinho, num tempo em que, na lonjura do campo, não havia electricidade, só poesia.

Poesia, nostalgia, telefonia, um tempo que foi à via...

2000

sexta-feira, 8 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 4


Académica

António Cagica Rapaz

O sonho doirado de todos os miúdos que estudavam e davam pontapés na bola era, um dia, envergar a camisola da Académica. E, naturalmente, também eu me deixei embriagar pelas melodias da velha cidade, pela melancolia das guitarras, pelo eco dos amores lendários no Choupal, pela sombra das capas e pela sedução do equipamento preto.

A primeira vez que me recordo ter ouvido falar da Académica foi quando o malandro do Capela, o nosso guarda-redes, uma das torres de Belém, resolveu fugir para Coimbra que era a terra prometida para profissionais em litígio com os seus clubes e que corriam a pedir asilo político no Largo da Portagem ou na Praça da República, depois de terem batido à Porta Férrea.

Lá permaneciam um ano e, após esta chantagem escolar, regressavam à base. Mas ele não voltou, apaixonou-se por Coimbra e por lá ficou, Capela que era, encostado à Sé Velha e à Igreja de Santa Cruz, em família. O André fez o mesmo, depois o Jorge Alexandre, muito mais tarde o José Manuel Castro, todos de Belém para Coimbra…

Outro que fugiu para a Académica foi o Faia, do Barreirense, que, com a camisola preta, marcou um célebre golo por entre as pernas do Costa Pereira, proeza que custou um título ao Benfica. Este Faia já era meu conhecido, até lhe pedira um autógrafo, em Sesimbra. Mais tarde viria a jogar contra ele e a tê-lo, episodicamente, como treinador. As voltas que a bola dá…

Também o Péridis e o Rocha andaram em bolandas entre o Sporting e a Académica. Este Rocha, chinês de Macau, mágico da bola, era um dos que constavam da minha magra colecção de Ídolos do Desporto. Nesse tempo, pontificavam na Académica Bentes, Torres, Wilson, Abreu, Malícia, Marta e outros.

Os anos iam passando, eu ia avançando nos estudos e nos pontapés na bola. A meta estava fixada, era completar o 7º ano e, depois, arranjar um empregozinho.  Na minha segunda época de júnior, tive uma tentadora proposta do Sporting que me garantia o pagamento de pensão, estudos, treinos e prémios de jogos. Juca era o treinador e Felisberto Vaz o seccionista. Mas tive receio de ir viver para Lisboa, medo de vir a ser dispensado no final da época, quando passasse a sénior. E acabei por recusar…

Em 1962, realizou-se em Leiria o habitual torneio, entre juniores, com as selecções de Lisboa, Porto, Coimbra e Setúbal, tendo eu tido a honra de ser escolhido para capitão da equipa de Setúbal que venceu (por 5-3) a de Coimbra onde jogavam o guarda-redes Arrobas e o Manuel Duarte que, no ano seguinte, viriam a ser meus colegas na Académica.

Curiosamente, esta circunstância, o jogo entre selecções regionais, não teve influência na minha ida para Coimbra. Na verdade, a Académica mal chegava a ser um sonho, nem me atrevia a pensar nisso. Por tudo, e porque nem sequer tinha dinheiro para ir lá tentar a sorte.

O milagre aconteceu de forma totalmente inesperada e sem que eu tivesse tido a menor intervenção. Foi o acaso de um dos meus professores, no liceu de Setúbal (dr. João Cavalheiro), ser amigo do dr. Hortênsio Pais de Almeida Lopes que era um dos membros da Comissão Administrativa da Académica, na altura.

Para não dar a saber que não tinha dinheiro para a viagem, tive o atrevimento de pedir à Académica que me pagasse o comboio e a pensão. E tive a sorte de não me terem mandado à pesca. Como num sonho, desembarquei em Coimbra, onde nunca tinha estado, para treinar, sob o olhar de Pedroto, ao lado de nomes míticos, os tais ídolos longínquos, quase irreais, como o dr. Torres, o dr. Abreu, o dr. Marta, o Wilson, o Rocha, o Gaio, o Maló, o Curado, o Américo, o Lourenço. Lá estavam outras caras novas, nomes que viriam a ser grandes, na Académica e no futebol português, como o Rui Rodrigues, o Oliveira Duarte, o Gervásio, o Piscas. Mais modestos e tímidos, eu e o Rosales, vindo do Estoril e que haveria de ser meu companheiro de quarto e amigo para a vida.

Entre os titulares nesse Verão 62, contavam-se o França, o José Júlio e o Araújo que aproveitaram a digressão a Moçambique para se juntarem ao Chipenda na luta pela independência da África portuguesa.
Aprovado por Pedroto, realizei o meu sonho de ingressar na Académica e, ao mesmo tempo, entrei na Universidade, coisa que nunca ousara esperar…

Setembro foi o recomeço dos treinos, e a minha primeira época foi de adaptação e aprendizagem, no meio de grandes jogadores e alguns homens notáveis com os quais diferentes tipos de relações se foram desenhando.

Os graves problemas familiares, a falta de dinheiro, a angústia, tudo isso me deixou uma enorme frustração, embora tentasse mostrar cara alegre nas aulas e nos treinos e participar na vida colectiva muito centrada no café Montanha, no largo da Portagem.

Por lá passavam figuras castiças como o gordo Administrador, exótica personagem, velho colonialista de monóculo à Spínola; o Barrinhos, peso pluma que se achava parecido com o Aznavour; o senhor Vaz, da casa das máquinas e dos vapores rutilantes; o gerente Arrobas, mestre de cerimónias num café onde o Humberto servia os clientes e contava que trabalhava por desporto, já que o pai era um rico industrial de cortiça; o Carlos Portugal, exímio basquetebolista, corredor de automóveis e jogador de snooker; o Bigodes da escola agrícola, que metia bolas a atravessar; o Panão, o Manel Cavalo, o Figueiras Antárctida, o Zé Maria das histórias deliciosas, os manos Salvado. O Montanha era o nosso mundo, ali no largo da Portagem onde morava o Mata-Frades e ficava o consultório do dr. Adolfo Rocha, mais conhecido por Miguel Torga.

Na segunda época, Pedroto lançou-me em alguns jogos e havia boas perspectivas de futuro. Porém, há no mundo do futebol práticas a que nem a Académica escapa. Estranhamente, e por razões que nada tiveram a ver com competência, Pedroto acabou por sair. No seu lugar, como era de esperar, ficou o velho capitão…
A terceira temporada foi de total frustração, desencanto a que não posso deixar de associar o nome do senhor Wilson cujo comportamento descrevo com mais pormenor noutra crónica.

Em Maio de 65, o meu pai faleceu e decidi deixar Coimbra, transferindo-me para a CUF. Era uma nova aventura que começava…

quarta-feira, 6 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 53


Regresso*
António Cagica Rapaz
O Carlinhos da Rã entrou ofegante no Café Central naquele fim de tarde tranquila, lusco-fusco preguiçoso, com a noite a ameaçar cair e o dia a agarrar-se às nuvens ténues que beijam o mar lá longe, em equilíbrio adivinhado sobre a linha do horizonte.
De boina abundante enfiada na cabeçorra, o Carlinhos descera a correr a escada da Repartição de Finanças onde pairavam a sombra esquiva do regedor Ferreira, vulgo Badejo, e a aristocrática elegância do Professor Artur Maria da Silva Costa.
Nós, rapazolas centralistas, estávamos como de costume ancorados ao bilhar da frente, depois de uma voltinha ao Espadarte, um olho à lota e um salto à loja do mestre Adelino. Era a nossa peregrinação, o nosso triângulo das Bermudas onde nos perdíamos entre as páginas d’A Bola, as tacadas do bilhar, a sedução da esquina que nos amparava, o conforto dos poiais das montras, o ar bravio que nos chegava do jardim, do campo do Desportivo, da serra, do mundo que se abria naquela rua do cinema que era o berço da evasão.
E o Carlinhos, já lá chegamos, caía-nos em cima para nos interrogar com febril excitação:
– Vocês não deram pela minha falta?
Foi assim, tal e qual, e nós ficámos embaraçados, confundidos, pesarosos porque, em boa verdade, nenhum de nós podia afirmar ter sentido naquele dia, naquela tarde calma, a ausência do Carlinhos da Rã.
Ver aparecer o Alfredo ou o João Vai-Vem quando jogávamos à bola entre o Grémio e o Central, isso causava-nos certa emoção. Ir ao baile à Quintola e apanhar uma tampa enchia-nos de vergonha. Cair na esparrela do Júlio Mouco era vexame insuportável.
Agora passar uma tarde sem ver o Carlinhos, de facto não era coisa que nos traumatizasse por aí além.
E ficámos mudos como peixes estendidos na lota a ouvir a cantilena do Alfredo Filipe. E não percebíamos sequer a razão daquela pergunta. Estaria o Carlinhos a fazer uma sondagem sobre a sua popularidade? Poderia ele medir o afecto que nos inspirava?
Teria preocupações de ordem metafísica o nosso Carlinhos batráquio?
Nada disso. Sucedera apenas que o Carlinhos tinha ido com a mãe a Lisboa e talvez quisesse verificar se a vida em Sesimbra, no Central, não teria parado durante a sua ausência. Não, Carlinhos, a vida não pára seja para quem for que se ausente. Por umas horas para ir a Lisboa ou para sempre no cemitério, no mar profundo ou algures. Os matraquilhos do Lopes continuam a trincar bolas e a disparar tiraços. O Mestre Adelino não deixou de criticar o Otto Glória entre duas barbas e uma desbastadela a preceito. O Hernâni foi à cave do Tio Chico da Cooperativa para o seu ping-pong antes de vir servir uma bica escaldada ao imenso Duque. O Damião distribuiu as fichas do sintético, o António, na mercearia do senhor Arménio, vendeu dois quilos de sabão de amêndoa e três litros de azeite espesso enquanto o Orlando largava o bilhar para ir fazer um frete à doca.
Não, Carlinhos, a vida não pára e não demos pela tua falta. Pela nossa falta dão aqueles que de nós gostam e mesmo esses têm a sua vida para viver. Há dezanove anos fui mais longe do que Lisboa, abalei para Paris e levei comigo o Central, a doca, a fortaleza e o farol. Na fronteira, quando me perguntaram se tinha alguma coisa a declarar, era difícil dizer que levava aquela carga toda mais as redes do Pai Bernardo, o gelo do Chanoca, as barracas do tio Abel, o carrocel oito, os bancos do jardim, a porta da capela, o campo do Desportivo, a escola Conde de Ferreira, a areia da praia e o cântico das gaivotas.
Mais difícil ainda teria sido dizer que ia à procura do Carlinhos da Rã que se ausentara para parte incerta numa tarde pálida pela calada do tempo.
Lá longe, dei por mim a folhear o álbum da memória com a preocupação de conservar as recordações como se guardava a albacora para os invernos intermináveis. Poderá ter sido uma maneira de não deixar que me esquecessem, de fazer com que dessem pela minha ausência. E longe, sentia-me mais perto, percorria ruas, becos e recantos da nossa terra, mergulhando nas entranhas do tempo, trazendo ao de cima o que me parecia ser importante, interessante, valer a pena.
Ver e sentir Sesimbra de longe é uma abordagem tendenciosa e parcial porque escolhia caminhos e tonalidades, situações e pessoas levado por uma concepção da vida e das coisas que é apenas a minha. E o que para mim é belo ou bom pode ser detestável para o vizinho do lado. Depois, a visão que temos lá de longe, deforma, retoca, altera, reconstrói uma realidade que o tempo por si já se encarregou de transformar sem precisar da nossa ajuda.
Por outro lado, em cada visita rápida, apercebia-me da distância entre o universo relativamente poético e idealizado que eu tentava recriar e a vida, os valores, a realidade.
Diz o poeta que melhor que viver é sonhar. E é verdade que, ao longo destes dezanove anos, eu sonhei, reconstruí quadros do presépio de Sesimbra com uma espiritualidade semelhante à que nos invadia nas noites de Natal, na Missa do Galo, quando olhávamos o nosso próximo com uma ternura sentida e uma fraternidade desusada.
O tempo e a distância trazem-nos, com a saudade, imagens ideais, o melhor da montra do Zé do Lima, os brinquedos mais bonitos.
Nas minhas visitas ocasionais fui descobrindo uma outra realidade mas, no fundo, se as coisas são o que são, elas poderão também ser o que nós quisermos, o que delas fizermos.
Podemos ver com os olhos, com uma lupa, mas também com o coração.
Depois, nem tudo muda e ainda hoje lá está a relíquia que é a mercearia do Arménio, com o mesmo António ao balcão, os mesmos tachos e panelas, fogareiros e penicos, talvez o sabão de amêndoa, aquele cheiro a coisas boas e simples da nossa infância, o aconchego dos sacos de feijão, a tentação de um naco de marmelada e o mesmo azeite espesso que ilumina a eternidade.
O meu longínquo primo Cristiano dizia-me noutro dia que gosta de ir passando pela montra do nosso jornal porque enquanto o fizer é sinal de que não é o retrato dele que lá se encontra debaixo de uma cruz preta. Tanto lhe basta para se sentir bem, chega-lhe estar vivo. É simples como filosofia, mas não deixa de ser lúcida e, porventura, mais profunda do que parece.
E é assim, vamos e vimos, ausentamo-nos e voltamos, as marés sobem e descem, o sol recomeça em cada dia a sua travessia da baía, do Caneiro à doca, o Carlinhos foi a Lisboa e eu dei um salto mais demorado a Paris. Hoje estou de volta, já não vejo Sesimbra de longe, mais ainda imagino. E continuo a reconstruir.
Por enquanto mal tive tempo para pensar e receei não conseguir escrever. Agora estou por dentro e não sei se, para escrever, é melhor ou pior. Só sei que estou de volta, estou de novo em casa. Deixem-me saborear…
____________
*Publicado em O Sesimbrense de Outubro de 1993.

terça-feira, 5 de abril de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 43



Iam todos com espingardas e cartucheiras, alguns levavam cães. Ele levou um balde com engodo. Para içar a caçada...
António Cagica Rapaz
[da série Reflexões]

segunda-feira, 4 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 52
















Natureza

António Cagica Rapaz

Ao longo do ano era com muita dificuldade que se arrastava nas grandes superfícies dos hipermercados, acorrentado ao carrinho das compras que, melancolicamente, ia empurrando.

Frutas pálidas e enlatados tristonhos acumulavam-se entre as grades da viatura que manobrava em infindáveis gincanas entre as prateleiras de onde retirava, semana após semana, produtos idênticos, sem entusiasmo nem imaginação. O inferno maior era a bicha para a caixa, carrinhos mais carregados que camiões de longo curso, matronas encharcadas em perfumes manhosos, esperas penosas, tormentos infinitos.

Felizmente, havia as férias. Então, sim, adeus metropolitano, pizzerias à pressa, telejornal às oito, hipermercado ao sábado...

O outro carrinho devorava a estrada, rumo à aldeia de férias, fórmula nova, experiência tentadora. Ah, a Natureza, a praia selvagem, o oceano bravio, as dunas a perder de vista, os pinheiros mansos, o ar sadio, o vigoroso exercício físico, a leitura tranquila de um livro, a música suave ao entardecer...

Episodicamente, algumas compras no minimercado do aldeamento turístico, sem carrinho, apenas um cabaz ligeiro, necessidades mínimas, o prazer de descobrir rostos simpáticos, bronzeados, sorridentes, descontraídos, por vezes, insinuantes.

Aquela morena deliciosa, por exemplo, já a vira na praia. Olha, também vai para a caixa, mesmo à sua frente. Aproximou-se. Ela cheirava a maresia, a pele adivinhava-se macia, os cabelos soltos sobre os ombros. Aproximou-se mais, mais ainda, o seu rosto já roçava os cabelos negros, sentiu um desejo selvagem apoderar-se dele. E só se apercebeu de que era a sua vez de pousar o cabaz quando reparou no olhar divertido da empregada da caixa que o olhava de alto a baixo, dos pés à cabeça, até desatar a rir. Perdidamente, descontroladamente.

Jurou a si mesmo nunca mais voltar a um aldeamento de nudistas...

1998

sexta-feira, 1 de abril de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 3



Balizas às costas
António Cagica Rapaz
O futebol entrou muito cedo na minha vida, através das narrativas do meu pai que vivia com um pé no presente (Belenenses) e o outro preso à nostalgia do passado, o seu Pátria Futebol Clube, uma das quatro equipas que havia em Sesimbra.
Apesar das desesperadas tentativas da minha tia Lucinda em me conquistar para o Benfica, eu fui azul desde a primeira hora.
Mas toda a minha infância foi embalada pela evocação das epopeias do Pátria. Estávamos no início dos anos 50, não havia televisão e, enquanto o mar rugia, ao longe, eu adormecia com a cabeça cheia de histórias autênticas em que a lealdade, a amizade, a camaradagem e o empenhamento eram valores seguros. Era o tempo ingénuo e heróico das balizas às costas, do calção pelo joelho, da cabeça amarrada com um lenço e da bola com atilhos. E eu conhecia tão bem os nomes do Matateu, do Di Pace, do Sério, do Feliciano como os do Zé da Faca, do Patachão, do Mira, do Policarpo, do Barlona, do Anazário, dos irmãos Casa-Pia ou do Pompílio.
Mas nem tudo era belo e nobre nessas lutas entre irmãos da mesma terra e, de uma lamentável guerra fraterna, resultou a morte do Pátria, apesar da resistência corajosa de meia dúzia de homens dignos. Mas, como quem com ferro mata, com ferro morre, os outros três acabaram por desaparecer igualmente diluídos na fusão que deu origem ao Desportivo de Sesimbra. E se para o meu pai o futebol em Sesimbra morreu com o Pátria, para mim despontou com o Desportivo. Mas o Pátria ficou bem ancorado no cantinho mais romântico da minha alma desportiva.
O futebol começou a ser vivido por mim em três frentes, com as jogatanas da nossa rapaziada, a assistência a treinos e jogos do Desportivo e o acompanhamento, à distância, da carreira do meu Belenenses.
De vez em quando, o meu pai levava-me a ver jogos, em Lisboa, em Setúbal e no Barreiro.
O Belenenses e as suas estrelas eram outra dimensão, quase irreais, enquanto que os jogadores do Desportivo passavam à minha porta, a caminho dos treinos, o Ilídio, o Rogério, o Manel Santana, o Izidro, o Zé Filipe, o Barlona, o Zé Broa, o Jesus, o Zacarias…
Eu não perdia um treino, ávido de ver de perto aqueles ídolos reais, concretos. Quando ia para a escola, cruzava-me com o Manel Santana que, a passos largos, de bota de borracha de cano curto e fato de ganga azul, ia almoçar, para depois ir trabalhar na fábrica de gelo do Chanoca que alimentava a lota.
Na escola Conde de Ferreira, no livro de leitura, eu contemplava as fotografias dos recortes de jornais que o meu pai comprava. O barulho das botas de traves ainda estava nos meus ouvidos, o cheiro a sebo das botas e das bolas misturava-se com o perfume dos eucaliptos que rodeavam o campo do Desportivo.
Metidos no livro de leitura, estavam jogadores de um outro universo, ídolos longínquos, enquanto o Izidro estava ali, a dois passos, com os outros mecânicos, na oficina do Brandão, o Palhete safava machuchas, à rabeça, em frente do Hotel Espadarte, ao lado do mar.
Foi a idade da paixão, das ilusões e dos sonhos, do deslumbramento ingénuo, a aprendizagem de valores que me ficaram para a vida…

quarta-feira, 30 de março de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 52

um agradecimento especial ao João Aldeia


Central: a meio do sono*
António Cagica Rapaz
O Carlinhos da Rã levantou-se, pegou na garrafa de água e no copo, veio até à nossa mesa, pousou copo e garrafa, sentou-se e, passado um bom bocado, perguntou de forma mais afirmativa que interrogativa se não incomodava…
Foi no Central, num domingo à tarde, a hora morta, quando o Manel Zé conseguiu enfim almoçar. Noutro tempo as mães preocupavam-se com a torreira do sol, recomendavam a sesta à miudagem ou impunham o chapéu de palha, inestético mas útil. O Carlinhos da Rã usava boina, uma boina preta, enorme, enfiada pela cabeça abaixo, quase tão grande como a do outro Carlinhos que morava na calçada. Fiel ao Central há muitos anos, o Carlinhos ancora por ali desde miúdo. Por isso se infiltra com grande destreza por entre as mesas, com o copo e a garrafa na mão, conhece as correntes, escolhe as marés, navega à bolina até chegar de gargalhete à nossa mesa. Só podia ser no Central, só podia ser o Carlinhos da Rã…
Para quem, como eu, tem andado por outros mares, reencontrar o Central é ver a luzinha vermelha do farol em noite de tempestade, alcançar o porto de abrigo em dia de mar feio. Era domingo, a meio da tarde, a meio da vida, a meio da saudade, a meio do sonho que o Central sempre representou a meus olhos. Com o Manel Zé recordámos figuras que passaram pelo Central. Cada um de nós conserva as suas imagens, as suas emoções e o tempo vai retocando, adoçando o contorno.
Fazia falta este Central, com o peso do seu historial, a sua memória colectiva, a sua imponência, o seu simbolismo, marco de uma tradição.
Os tempos são outros, o snooker terá mais procura do que o bilhar e compreende-se a opção. Contudo, bem gostaria de fazer duas bolas a girar como o meu mestre António Vitorino me ensinou.
O bilhar era a disciplina do professor Arménio que, dono da casa, possuía o seu taco, as suas bolas e a autoridade do cientista. As suas lições eram quase tão raras como as exibições do Chico Cagica, todo ele talento, no bilhar e em todos os desportos. Excepcional em tudo.
O bilhar era o «tacho» nas tardes de chuva, com o Orlando dos táxis sempre a chorar, a fazer-se mais azelha do que de facto era e o João Mota, pontapé p’rà frente, a gritar como um trovão. O Leste era um artista, gostava do jogo bonito, com adornos e enfeites, o prazer do floreado, arte pela arte. E depois perdia com o Pai do Céu, de tacada triste, económica, deslavada, sem risco nem fantasia. Espectacular era o dueto Zé Romão-António Casa Pia, com as prelecções do mestre António, os seus passes requebrados, verónicas e manuelinas a acompanhar o movimento caprichoso das bolas…
Era a meio da tarde, a meio da chuva, a meio do Inverno, a meio da melancolia de um tempo que foi. Que foi melhor, pior, não sei. Apenas sei que nos ficou cá dentro, bem fundo, a nostalgia do Central, do sô Zé, do cafezinho, da esquina…
A esquina do Central é um sítio histórico, monumento repertoriado, referência, marco, fronteira, poço de rumores, fonte de intrigas, berço de manigâncias, torre de controlo, ponto de passagem, portagem, malandragem, calhandragem.
O Central ocupou um lugar muito importante na vida de todos nós. E a vida é assim, perdemos o Chagas, voltou o Central…
À noite, na esplanada, houve música, um ar de festa, a ressurreição daquele espaço outrora meio mundano, mas sempre simpático e agradável.
Faltavam os chapéus-do-sol, as janelas do Grémio abertas de par em par, os xailes de renda branca das senhoras bronzeadas. E faltava a silhueta inconfundível da Isabel…
Mas lá estava o Mário Martelo, vértice de um triângulo fascinante constituído pelo seu café, pelo café Filipe e pelo Central. O Mário Martelo é, no meu álbum, o parceiro do Zé Ângelo, uma bigodaça ocasional, irreverente, do tempo em que a lota era uma feira franca e fresca, com o peixe alinhado na areia, com as chatas a carregar das barcas para a praia, com o Pala-Pala num corrupio. O Largo da Marinha era o pátio dos Milagres, homens, burros e camionetas, turistas e curiosos, a tarde a entrar pela noite adentro. O café do Zé Filipe era o verão da lota, o Central era o verão balnear. O Mário Martelo era uma traineira, um café, uma boémia requintada e um belo sorriso que seduziu a Pepita.
Na mesma mesa estava o Luís Preto (também conhecido por Conceição), com uns quilos a mais e a boa disposição de sempre. Poderia ter sido um futebolista de alto nível, se tivesse querido. Outros tempos, menos incentivos que hoje e também uma negligência manifesta, privilégio de talento inato.
O «Ginja» era um miúdo tímido cujo futuro cunhado, o Horta, fazia parte da nossa equipa de juniores, sob o comando do nosso Carlos Marques.
Quando jogávamos fora, lá vinha o menino Eduardo, encostado ao cunhado, para ter lugar na camioneta que nos levava até campos nunca dantes pisados, em regiões inóspitas como o Montijo, o Barreiro ou a Cova da Piedade. Era a idade dos sonhos, para ele e para nós todos que esperávamos, sem grande convicção, um dia ser futebolistas a sério.
O Eduardo cresceu, fez-se um homem e bom jogador. Foi para a CUF, onde eu estava, ao tempo treinada por Costa Pereira, ídolo da nossa meninice.
E assim o Eduardo voltou a percorrer o caminho para o Barreiro, não nas velhas camionetas do Covas, mas no seu pequeno Austin, não para ver os outros, mas para jogar e travar duelos acesos, nos treinos, com o Castro, herói de Sarilhos, gigante à altura de um Fragata com quem se bateu em pelejas de criar bicho.
Os anos passam e certas coisas boas ficam. O Eduardo, hoje homem feito, lá estava também com o Mário e o Luís. Olho-o e continuo a ver um bom companheiro de equipa, sobretudo o miúdo calado, agarrado ao Horta, com olhos de sonho, com olhos de sono, aquele sonho maravilhoso que só a infância nos dá e atrás do qual às vezes corremos a vida inteira…
Foi tudo isto o Central naquele domingo, à tarde com o Carlinhos da Rã, navegador sem complexos, e à noite a poesia de uma esplanada ressuscitada, de um passado ressurgido. Não sei se são melodias de sempre, passadismo a tiracolo, só sei que é bom reencontrar um universo que contou na nossa vida. E estas coisas acontecem a cada passo, a cada esquina. Fiquei com pena de não ter podido falar mais com o Zacarias que me dizia, com um sorriso ternurento «Tenho tanta coisa para te dizer…!».
Também eu, Zacarias, tenho muita coisa para te dizer, recordações que conservam o cheiro a eucalipto do campo do Desportivo, o cheiro a mar que o Rogério (o meu guardião preferido) e o João Caparica traziam ao passar à minha porta, o cheiro ao gelo do Chanoca agarrado ao fato-macaco desse admirável Manuel Santana, o cheiro da oficina do Brandão que não largava o Isidro. Disso e muito mais gostaria de te falar, Zacarias, porque tu foste um menino de ouro naquela equipa de homens rudes, substituíste o grande Jesus, deste de bandeja ao Zé Broa, lançaste o Zé Baptista, tinhas a arte fina dos predestinados. Tudo isto e muito mais te diria, mas não digo para não ficares babado…
E é assim, vê bem, o que faz o Central, para onde me levou o arrais Carlinhos. Menos admirável ficará a minha prima Carolina, mulher do Luís, já habituada às divagações delirantes do pai Justino e à veia poética da nossa tia Lucinda.
Estamos em Agosto, é preciso sonhar porque o tempo é vento e de repente nos apercebemos de que a vida nos fugiu. Os verões são como a vida, passam. E às vezes bruscamente…
____________
* Publicado em O Sesimbrense de Agosto de 1992.

terça-feira, 29 de março de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 42


O velho de terra franziu a sobranSELHA e saiu da loja...
António Cagica Rapaz

[da série Reflexões]

segunda-feira, 28 de março de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 51




Oliveira do Conde

António Cagica Rapaz

Durante anos, no meu espírito, Oliveira do Conde não foi uma terra mas uma casa de que me habituei a ouvir falar em Coimbra, desde o Verão de 1962, período em que o Mondego não passava de um envergonhado fio de água, despojo tímido da majestosa Serra da Estrela, beirão orgulhoso desgastado por gargantas e penedias. A imagem que fui construindo era a de uma casa imponente, senhorial, berço de famílias de raiz aristocrática, carácter talhado no granito, à imagem do patriarca Afonso da Maia a que o génio de Eça de Queirós deu forma e dimensão sublimes. Foi por outro Afonso, filho do Doutor Maurício, que conheci a família que lá viveu.

Gerações sucessivas habitaram casas como aquela, que eu nunca vira mas que imaginava, casas onde havia amor à terra, nobreza de carácter, integridade, temor a Deus, princípios e regras, respeito pela palavra dada, sentimento de honra, a sombra de árvores seculares, segurança e estabilidade, a protecção das paredes espessas que testemunharam alegrias de casamentos e baptismos e abafaram, em silêncio pesado, as grandes dores, as perdas irreparáveis.

Acabei por ir a Oliveira do Conde, no mês passado. A casa fica no largo do pelourinho e é como a imaginei, na traça bem portuguesa, na robustez, na imponência, na sobriedade das formas, três séculos que nos emocionam e nos deixam contemplativos.

- Eu sou plebeu, a Isabel é que tinha raízes aristocráticas, embora não fizesse alarde.

Assim nos recebeu o António, hoje o senhor do solar. O engenheiro António Fonseca é tio do Afonso e do Jorge Maurício.

Em 1962, foi o Afonso que me levou a casa do tio que, juntamente com a Isabel, me aceitaram na família, até hoje. Desta vez, foi o Jorge que se juntou a nós, em Oliveira do Conde. O Jorge pertence mais à Silvã, pela mãe, irmã da Isabel. Formou-se em Direito, em Coimbra, e nunca perdeu o contacto com a terra beirã.

A Sesimbra vinham muitas vezes o António e a Isabel, em veleiro que ancoravam no porto de abrigo e que deixavam ao cuidado do João Catita.

Despedimo-nos do António no largo do pelourinho, saía ele da missa, ouvia-se o sino da igreja, ali bem perto. O António há muito que não navega, mas ainda cavalga uma moto potente, dá umas braçadas vigorosas na piscina, recebe os amigos, lê muito e ouve música que saboreia como um vinho raro, na cave daquela casa deslumbrante onde a rocha empresta ainda mais suavidade à voz da Maysa Matarazzo. As grandes emoções vivem-se em recolhimento, entre paredes espessas de granito...


1999

sexta-feira, 25 de março de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 2



Preâmbulo

António Cagica Rapaz

Um jogador de futebol que escreve, é pouco comum. Frequente é a proliferação de biografias das grandes vedetas, com mil fotografias, textos laudatórios, panegíricos exaltadores das qualidades dos ídolos, evocação exaustiva dos feitos gloriosos, golos marcados, troféus conquistados, tudo centrado na figura do futebolista famoso.

Nada disto espera quem tiver a bondade de ler este livro. Nunca fui vedeta, não passei de razoável praticante, apenas fui capitão de uma modesta selecção de Setúbal, em juniores, em 1962, minha única e obscura distinção. De resto, fui um estudante que jogava ou um futebolista que estudava, não sei bem. Limitei-me a passar pelo futebol, a atravessar os campos, correndo atrás da bola e, sobretudo, de um cursozinho de Letras.

Fui amador em Sesimbra, não-amador na Académica, profissional na CUF e acabei (prematuramente, aos 27 anos) a minha carreira em Belém.

Curiosa e ironicamente, a minha relação com o futebol teve início e fim no Restelo. O meu pai era sócio e, lá em casa, éramos todos do Belenenses. Chorei quando o Martins tirou o título ao Belenenses, em 1955, ao cair do pano, nas Salésias. E assisti à inauguração do estádio do Restelo, em dia chuvoso. O meu ídolo era o Matateu…

Comecei a escrever crónicas, em 1971, no Diário de Lisboa, a convite de Jorge Soares que me entrevistou sobre o momento atribulado do Belenenses, e o meu primeiro escrito foi sobre o meu conterrâneo Fragata, um espantoso jogador que nunca saiu de Sesimbra. Depois, centenas de crónicas se seguiram, em vários jornais e na rádio…

O título desta colectânea designa, por um lado, a função que mais me agradou desempenhar como jogador e evoca, por outro, a primeira rubrica que criei, no Diário de Lisboa, como mais à frente se verá.

O sub-título é uma homenagem ao incomparável Camilo José Cela que descobri ao ler os seus delirantes e fascinantes Onze contos de futebol. Perfidamente diria que consegui fazer mais do que o Nobel Camilo. Melhor é impossível…

Devo confessar que utilizei a designação de contos sobretudo para introduzir a alusão a mestre Cela, já que, na realidade, a maioria dos textos aqui apresentados não são contos mas crónicas que ilustram o que julgo ser um outro olhar, uma abordagem diferente ao universo futebolístico.

Esta forma de olhar o futebol deve-se, naturalmente, a uma sensibilidade que não é boa nem má, é apenas a minha. Em verdade, nunca levei o futebol muito a sério, conservei mesmo certa forma de deslumbramento, quase não acreditando que estava ali a jogar, a tratar por tu, a travar amizade, até, com grandes nomes como o Eusébio, o Hernâni, o Coluna ou o Hilário. Por razões que não vêm agora à colação, nunca me senti futebolista de corpo inteiro, nunca perdi a parcela de inocência da meninice, tendo-me sentido sinceramente feliz e honrado quando joguei pela primeira vez na Luz, contra o grande Eusébio. Tal como foi particularmente emocionante ter defrontado o meu ídolo, o velho Lucas, o inesquecível Matateu, na Tapadinha. Melhor ainda foi termos ficado amigos, para meu contentamento e orgulho.

Talvez tenha sido, de certa forma, um pouco marginal, tanto no futebol, onde nunca me entreguei a fundo, como no jornalismo que pratiquei sem compromissos nem submissões, livre e independente. E foi assim, com este olhar curioso e contemplativo, que fui observando o mundo do futebol, fixando a minha atenção nas pessoas que conheci, dentro e fora dos campos. Sem, no entanto, abdicar do direito (presumindo possuir algum conhecimento de causa) de criticar, aqui e ali, talvez de forma incisiva e mordaz.

Em verdade, julgo ter escrito sobretudo na condição de testemunha privilegiada, como alguém que viveu o futebol por dentro, a quem foi dado pisar relvados míticos e conhecer um pouco dos bastidores. Por isso, esta colectânea não será o diário de um capitão de longo curso, antes se parecerá com um livro de bordo redigido por um humilde grumete que vai dando conta, à sua maneira, do que viu e ouviu, do que sonhou e inventou, do que as sereias lhe segredaram ao longo de uma viagem que começou e findou no Restelo.

Infinitamente mais do que as vedetas, interessaram-me os homens, as pessoas, algumas célebres como Alves dos Santos, Carlos Pinhão Anselmo Fernandez ou José Maria Pedroto. Mas igualmente alguns desconhecidos, dignos de admiração.

O futebol não é um mundo perfeito, ele é como nós, tem os nossos defeitos e as nossas virtudes. Nem tudo nele é podridão e desencanto, também há beleza, sonho e até poesia. Quase por acaso, porque me convidaram, comecei a escrever, a partilhar ideias e convicções, a olhar o jogo da bola e os seus actores de uma forma que talvez tenha uma pontinha de originalidade e me deixa a ilusão de não ter dado muitos pontapés na gramática nem na civilidade.

Escrevi com gosto, como gosto, como gostei de jogar, melhor ou pior, como pude, como fui capaz. Mas sempre de cabeça erguida, com dignidade, livre e directo, mais em jeito do que em força…

quinta-feira, 24 de março de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 1



Prefácio

Pedro Martins


É bem sabido que não há dois livros iguais à face da terra. Ainda assim, vale a pena explicar a diferença desta obra.

Nos nossos dias, livros sobre o mundo do futebol, como aquele que o leitor acaba de abrir, serão quase multidão. E que um futebolista se disponha a escrever sobre a modalidade – antes ou depois de ter pendurado as botas – pode ser caso raro, mas não é caso único. Há exemplos recentes nas colunas da imprensa escrita, e deve, a propósito, dizer-se que boa parte das crónicas que se seguem viu primeiro a luz do dia nas páginas de alguns dos principais jornais desportivos portugueses – o Record, A Bola e a já desaparecida Gazeta dos Desportos. Como se compreende, nada disto afirma, só por si, a singularidade de um estatuto.

Um livro começa-se pelo princípio e para tanto é mister ler-lhe o título, onde, neste caso, já quase tudo vai dito sobre quem escreve e aquilo que se deixa escrito. Libero e directo oferece-nos verdadeiramente um outro olhar sobre o futebol.

Diz-se que o futebol é o desporto-rei. António Cagica Rapaz não vai contra isso. Mas afirma que o rei vai nu. Nas últimas décadas, o futebol mudou muito, e para pior. A emergência do fenómeno televisivo trouxe demasiado dinheiro ao circuito. As mutações estão à vista: o jogo deu lugar ao negócio, o maior espectáculo do mundo transformou-se numa indústria que assume aspectos detestáveis, e cuja máquina poderosa não cessa de alienar as consciências e as vontades.

No fundo, só não vê quem não quer, toda a gente sabe que é assim. Mas alguns, submetidos ao anonimato, não têm a menor possibilidade de o dizer alto e bom som; e outros, podendo fazê-lo – devendo fazê-lo –, preferem calar, quando se não limitam à expressão cómoda, porque inofensiva, de uma qualquer trivialidade. Não assim com Cagica Rapaz. O antigo defesa da Académica e da CUF joga agora ao ataque: afirma, acusa, aponta o dedo, questiona, denuncia. Cada crónica vale por um pontapé livre, em posição frontal.

De certo modo, este livro é o testemunho privilegiado de alguém que, depois de ter conhecido os meandros do futebol – primeiro como jogador, depois como jornalista –, já não tem ilusões.

Mas estou em crer que António Cagica Rapaz perdeu a ingenuidade para preservar a inocência.

Só assim se explicará que, a despeito dos ventos álgidos que, num sopro de desencanto, perpassam muitas das páginas deste livro, ainda brotem, por entre os escombros, algumas flores de esperança. É um renovo de paixão que nos devolve a crença numa certa sobriedade, própria da pureza que houve nos melhores anos das nossas vidas, ou não se dirigisse este livro a algumas gerações de adeptos que cresceram para o futebol fascinadas pelo sortilégio dos bonecos da bola, suspensas dos relatos radiofónicos, num tempo em que os jogos se realizavam sempre ao domingo e os jornais desportivos ainda não eram diários.

Só assim se entende o olhar terno e saudoso lançado sobre a velha Tia Ana, que, no centro de estágio da CUF, preparava carinhosamente os pequenos-almoços aos jogadores, enquanto ansiava pelo regresso de seu filho, que estava em África, na guerra.

Só assim se compreende a profissão de fé no exemplo do menino brasileiro que, profético, nos garante que nenhum jogo está perdido enquanto Pelé estiver em campo.

Só assim se justificam as aproximações feitas à poesia e ao teatro, acentuando a dimensão estética com que o futebol, apesar de tudo, apesar dele próprio, será sempre capaz de surpreender.

Só assim se percebe que o autor, apesar deste futebol, se não canse de pensar a essência do jogo e sugira algumas alterações profundas às leis que o regem, de forma a salvaguardar a beleza do espectáculo e a garantir a justiça do resultado.

Hoje como sempre, Cagica Rapaz escreve pequenos textos sobre grandes paixões. Foi assim com Sesimbra, terra que o viu nascer, é assim com o futebol – estou em crer que será sempre assim. As crónicas que se seguem são uma colecção de retratos impressivos e histórias que nos prendem da primeira à última linha. São textos curtos mas admiráveis, plenos de humor, paixão, ternura e lucidez. São setenta e tal textos, curtos mas admiráveis, plenos de humor, paixão, ternura e lucidez.


Cabe ao leitor dar o pontapé de saída…

quarta-feira, 23 de março de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 51



Passa por mim no Central*

António Cagica Rapaz

O café Central foi durante muitos anos o coração da terra, ponto de reunião e de passagem, vizinho do velho cinema, parceiro do Grémio, teatro de partidas memoráveis de bilhar, salão de cavaqueira dos homens notáveis de Sesimbra. O café, qualquer café, era coisa de homens e o Central não fugia à regra, pelo menos no Inverno, já que no Verão a esplanada enchia de cor e animação o largo, num vai-vém entre as imperiais do António Luís e o cafezinho concorrente do Damião.

O Central do Inverno era a atmosfera acolhedora dos domingos de manhã, o vozeirão do Doutor Maurício, o cheirinho da bica que o Sô Zé tirava com tranquila suavidade, o jornal na mão, a barbinha feita, um certo ar de festa, a voltinha ao Espadarte, ver o mar, o mar e o sol, o sol de Inverno.

De Verão, era a sombra do Grémio e das árvores, de manhã, e o colorido dos chapéus de sol à tarde, as rendas das senhoras, a amenidade do crepúsculo e o saltinho ao muro da lota.
Era o ritmo certinho das estações, os Invernos chuvosos, com o Central a ver o pagode passar para a bola ou a sair da matinée do salão.

O Central era ainda a rabeça depois do almoço, com a rapaziada da oficina do Brandão, de fato macaco, laracha pegada, tangerinas saborosas, dois toques em bolas improvisadas, a vila tranquila, a vida desfila em passo vagaroso à imagem do Sô Zé, imperturbável, magnífico de dignidade com os seus cabelos brancos, o olhar doce e malicioso, o porte nobre, verdadeiro profeta, apóstolo dono do tempo, senhor do templo que era o Central.

A magia do bilhar seduzia-me. Olhei com admiração a fina execução do senhor Arménio, o talento genial do Chico Cagica, a arte do Dr. António Vitorino (meu mestre e amigo) e fui treinando manhãs a fio, no café do Chagas onde o bom João do Hospital me deixava jogar, às escondidas, sem pagar. Ia ouvindo o Talismã (o seu programa da manhã) e fazendo bolas a girar, com efeito do lado da cocheira do Fartura, avô do Manel Campino.

O Central era a minha segunda casa. A minha mãe telefonava, à boca da noite, nem dizia quem era, limitando-se a fórmulas simplistas do estilo

«É para dizer ao meu filho que venha jantar». Concisa, sintética e directa. Era assim a Dona Amália. E o Hernâni, o nosso admirável inspector Cachopa, nem precisava de grandes investigações para saber quem lançava o apelo telefónico. Se mãe há só uma, filho um só há. E o veloz Hernâni (belo companheiro dos matraquilhos na tasca do Mestre Adelino) transmitia-me a mensagem. Era outro tempo, outro Central.

Há dias, em fugida curta, passei à porta do Central e voltei a vê-lo como uma igreja sombria, um quarto escuro de casa antiga com um oratório em cima da cómoda e um relógio de pêndulo de tic-tac monótono que só dá horas sem sorte…

O Julião chamou-me e encostei-me à montra como anos atrás. O António Luís lá estava, ao balcão, enquanto o Cândido ia e vinha. Noutro tempo, o Cândido folgava à quarta-feira e ia à pesca. O Hernâni talvez preferisse os romances policiais enquanto o António da mercearia nem parecia folgar pois estava lá sempre, entre duas postas de bacalhau demolhado e um quilo de açúcar amarelo. O meu primo Rui (do João Mota) por lá passou e fez das boas a uma pobre surda que nem sonhava o que ele lhe dizia ao fingir falar de linguiça e de feijão fradinho.

Com o Julião estava o João Mau, professor primário, filósofo da Pedra Alta, herói de guerras lendárias entre seitas desta e daquela banda, refém amarrado à porta do cemitério, companheiro fixe, inesquecível intérprete da célebre peça na qual o Jonas lhe dizia «Obrigado João, és um bom rapaz, arranjaste umas velas para o meu moinho».

A famosa réplica «Ninguém» do Romeiro, no Frei Luís de Sousa, não é nada comparada com a tirada do Jonas. Era na Vila Amália, era a Mocidade, era a nossa mocidade, era o João Mau que um dia abalou para a Suécia, com o António Júlio e o Jorge Martelo, três mosqueteiros, três aventureiros que regressaram como Ulisses voltou a Ítaca. O João Mau foi anticonformista, rebelde, contestatário, mas um coração puro e uma generosidade autêntica.

Juntou-se-nos o Alfredo Filipe e a malandrice insinuante veio com ele, agravada com a chegada do Ernesto Corneta, seco de carnes, pronto para proezas que tenho pudor de revelar, porque sou tímido por natureza, sisudo por parte do meu pai e pouco abelhudo por banda da minha mãe que (não sei se sabem) costumava telefonar para o Central. Ah, já tinha dito?

Desculpem lá, «tenho andado com a cabeça tão esvaída», como diz a Judite, prima da minha mãe que costumava... Pronto, pronto, não se fala mais nisso!

Esta visão de um Central sombrio pode vir da minha imaginação em dia cinzento. E o que pensará, talvez, o Quim, do João Alemão, ao ler estas linhas em Agosto, com Sesimbra cheia de cor, de movimento, algazarra, azáfama dos mil comerciantes que a terra tem, boutique sim, restaurante não, carros em cima dos passeios onde já não se passeia só se passa, entalado entre a Fortaleza incontornável e a modernidade que nos asfixia.

Na oficina do Brandão já não estão o Doze nem o Chico Diabo a quem eu pedia esferas para jogar às bolas, cabos de palheta que até estalava.

Era no tempo em que a oficina cheirava a mar, com os pescadores que vinham ver se o motor estava arranjado, antes de abalarem até à longínqua doca, estafa garantida, à torreira do sol, marginal adiante que só começava a descer depois do Álvaro Tanoeiro.

A oficina hoje é o comércio moderno, montras coloridas, gente que se cruza e se acotovela ao som da música que substituiu a cadência da bigorna e do martelo e de luzes menos cintilantes que as do bico de soldadura.

Felizmente lá está a minha adorável amiga, fada maravilhosa dos produtos biológicos, tão naturais como o seu sorriso luminoso.

Esta metamorfose da Oficina é a grande mudança que Sesimbra sofreu. Para melhor, para pior? É difícil dizer, é assim, é inevitável, é a vida que passa por nós como nós passamos pelo Central.
Eu passei e olhei, para dentro e para trás, até ao fundo das recordações.

O Augusto do «Salva-Vidas» também por lá passou e com ele a evocação de outras peregrinações entre o campo do Desportivo e a doca, com paragem na Capitania. E aqui tens, João António Carapinha Chagas, caro João Mau, como nascem estas crónicas breves, escritas (como disse recentemente) ao correr da pena que tenho de não saber fazer melhor.

É assim, é o mar que chama por mim. O mar, o Central e o Manel que está comigo em todas, do Caneiro à Doca, este magnífico Manel António, chamador das ruas do silêncio que teria gostado que eu falasse aqui das lições do Pila («amanhê», «despois d’amanhê») do mano a mano entre o Ernesto (com a peixaria) e o mestre Zé Brandão a abrir a porta da oficina. E do fantasma chamado Leonarda que aparecia no Grémio, ali à beira do Central, este Central que se vai perdendo na bruma do tempo, como barco engolido pelo nevoeiro. Este Central que me dizem estar em vias de trespasse, palavra ambígua que significa mudança comercial e também morte. Talvez por isso vi um Central escuro, de fumo na montra e noite da alma. O Central está de luto, pela esplanada que era um pátio de cantigas e sonhos de Verão, um teatro de comédias de arte estival, palco, feira de vaidades um pouco, mas mais que tudo quadro admirável de cores vivas, os grandes chapéus de sol, os vestidos das senhoras, o encanto discreto de um tempo trespassado.

O Central está de luto pela lota, pela doca, pela vila, pela vida, por nós, pela nossa juventude, pelas nossas ilusões. O Central era o coração de Sesimbra e está cansado, arrasta-se como os últimos passos do Sô Zé, carregados de anos e melancolia, como os velhos que, nos bancos do jardim, contam as badaladas do sino da igreja de cima, até lhes tocar a vez, a finados.

Entretanto, Manel, vai passando no Central. Lá ficou um pedaço de mim…

____________
*Publicado em O Sesimbrense de Agosto de 1991.

terça-feira, 22 de março de 2011

NOTAS & NOTÍCIAS, 6

Novidades na Primavera...
Sem alaridos, com a discrição que se impõe e a saudade de sempre, Boa Noite, Ó Mestre! completou um ano de existência faz hoje uma semana. Neste tempo de renovo e mudança em que entrámos, chegou entretanto ao fim a publicação da série Confraria Mínima, onde se reuniram todos os escritos que António Cagica Rapaz publicou, ao longo de seis anos, na Sesimbra Eventos. Mas o lugar habitual das sextas-feiras não fica vago. Vai acolher, já a partir do próximo dia 25, as páginas do segundo livro publicado pelo autor: LIBERO E DIRECTO - Setenta e tal Contos de Futebol, saído a lume em 2003 com a chancela da Garrido. Na véspera, será publicado o prefácio, da lavra deste vosso modesto escriba. Já amanhã, e durante três semanas, a rubrica Ao Reminho Pela Borda d'Água assenta arraiais no velho Café Central. BOA NOITE, Ó MESTRE!

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 41



Se o DAVID tivesse nascido em Sesimbra seria na mesma SALOIO?
António Cagica Rapaz


[da série Reflexões]

segunda-feira, 21 de março de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 50


Obrigado, João

António Cagica Rapaz

- Monstro, coração de tigre! – era o grito de ódio do jovem Polónio, patrício romano, no palco da Vila Amália, tendo por alvo o imperador interpretado por João Salgueiro.

Era nos finais dos anos cinquenta, na noite de despedida do padre João, de malas já feitas, com a Ericeira por destino. Na primeira fila, estava sentado mestre Augusto Formiga que, uma semana antes, abandonara a encenação da peça, tendo ficado a tremenda responsabilidade sobre os ombros do João Salgueiro. Tratava-se de um drama em três actos intitulado “Mãos Vermelhas”, designação tão desprovida de insinuação política como a actividade da Mocidade Portuguesa cujo centro funcionava por baixo do salão da Vila Amália, ao lado da escola dos órfãos que tremiam com o vozeirão da Cecília Cruz...

A Mocidade era a nossa outra casa, com o jornal de parede, o ping-pong, o bilhar, as damas, os acampamentos, o voleibol, o atletismo, a natação, o teatro, a televisão e, sobretudo, a convivência saudável, cantando e rindo, é mesmo verdade, graças à boa vontade, à disponibilidade e ao entusiasmo do João Salgueiro.

Na Mocidade cresceram e fizeram-se homenzinhos muitos dos que, anos depois, haveriam de marcar posição numa sociedade pluralista e democratizada cujos valores não constituem novidade para quem frequentou aquela casa.

Durante muitos anos, em Sesimbra, o teatro despertou paixão, teve público interessado e intérpretes de valor. Um deles foi o João Salgueiro com quem tive a oportunidade de contracenar e de admirar em desempenhos notáveis como na peça “Fátima, Terra de Fé”.
Ao longo da sua vida, João Salgueiro dedicou muito de si, do seu tempo, da sua energia e da sua paixão, a actividades de natureza social e cultural, na igreja, em colectividades de recreio, em jornais, sempre com seriedade e competência.

Nunca nos perdemos de vista, ligados por certas afinidades, as práticas saudáveis e o espírito da nossa Mocidade, o gosto pelo teatro, a recordação do padre João. Partilhámos afectos e valores, causas e brios, certa forma de cumplicidade, alguma nostalgia das manhãs frias de cada 1º de Dezembro, com missa e cornetim no momento do ofertório. E, sobretudo, das tardes inesquecíveis, na Vila Amália.

Continuamos a cruzar-nos, antes do almoço, em cada domingo, junto do palco gigantesco que é o largo da Marinha. Por trás de nós, o cenário constituído pelo casario, personagens que se movimentam ao fundo. O muro da lota fica à boca de cena e o mar é a plateia infinita. Trocamos réplicas, como nas “Mãos Vermelhas”, e depois cada um vai à sua vida, saindo pela esquerda baixa, até para a semana.

Já não há teatro em Sesimbra, mas, graças a Deus, não esquecemos os nossos papéis e a chama da nossa Mocidade não se apagou.

Obrigado, João!

2000

sexta-feira, 18 de março de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 48

as crónicas da Eventos...



Confraria Mínima*

António Cagica Rapaz

A designação surgiu no decorrer de uma conversa bem humorada a propósito de uma partida que pregámos ao António Reis Marques, por iniciativa e com a benção do mano Francisco. A inspiração teve origem na evocação de um pseudónimo usado pelo Rafael (na circunstância “Frei Mínimo”) e a aprovação foi imediata, espontânea e total, dentro do espírito que caracteriza esta companha que, alegre e entusiasticamente, enfrenta o mar de Sesimbra Eventos carregados de desafios à nossa imaginação, ao nosso escasso talento e ao nosso fraco saber.

Apesar disso, tem esta publicação recebido bom número de manifestações de agrado, provenientes de desencontrados quadrantes, sendo legítima a nossa (in)satisfação, pois sabemos que cada edição é um desafio renovado.

Não é habitual (talvez por convencionais resquícios de pudor duvidoso) vir a público elogiar a equipa de que se faz parte. Porém, acontece que sempre tive uma costela não propriamente anarquista mas um tanto anticonformista, e não é agora, a caminho dos 60 anos, que vou acertar o passo. Por isso, não resisto ao desejo de manifestar o meu contentamento por integrar esta “Confraria Mínima” que só existe na nossa cumplicidade e só vive pela nossa amizade.

A primeira e grande observação que me apetece sublinhar é a existência de um extraordinário clima de comunhão que nos leva a partilhar ideias, a fazer sugestões, a discutir assuntos, a debater princípios, a trocar opiniões, a criticar os nossos trabalhos, tudo sem uma quezília, sem farpas envenenadas, sem suspeitas nem insinuações. Ninguém se põe em bicos de pés, não há qualquer tenor, prima dona ou viciado em protagonismo. O que não significa que sejamos um bloco monolítico, alinhado ou acomodado. Pelo contrário, somos todos bem diferentes, cada um com as suas características, teimosos, opiniosos, de ideias bem definidas, com abordagens nem sempre coincidentes, mas com uma matriz afectiva e ética muito semelhante. Daqui resulta uma complementaridade frutífera, uma truculência mortífera e uma fraternidade beatífica.

O Paulo Pitôrra é uma espécie de Astérix, efervescente, incansável, hábil no teclado, no corte e costura da composição e da paginação, o que não o impede de ter uma porção mágica de projectos a borbulhar na marmita. Sem a sua tenacidade e a sua persistência nunca teríamos colhido “O que veio à rede”. É o “chofer” da barca, mas conhece os ventos, as estrelas e tem sempre um caminho marítimo para descobrir…

O Raul Rodrigues continua a buscar no fundo das minas da sua engenharia memorial, temas e imagens, figuras e acontecimentos que desenterra, limpa, vasculha, retoca e expõe com sensibilidade, talento e a precisão de quem conhece, de quem sabe reconstruir e reviver. De cada vez que, a pretexto de uma pesquisa, vem à nossa terra, parece um menino deslumbrado no arraial das Chagas, falando com este, abraçando aquele, beijando aquela. Cada visita sua é uma festa que não perdemos porque, no Outono das nossas vidas, cada momento destes é para ser apreciado, saboreado, eternizado. E quem não souber compreender que estas coisas simples são o pão e o vinho das nossas existências, tarde de mais se aperceberá do desperdício…

O António Reis Marques, é o nosso decano, o nosso “velho de terra”, o guardião do templo da sabedoria, enciclopédia que consultamos com respeito e parcimónia à mistura com a irreverência e a malícia de uma companha disciplinada mas divertida. Ninguém sabe tanto sobre Sesimbra como ele, mas os seus horizontes não se ficam pelos limites do Concelho. O nosso António mais velho é homem de muitas leituras e pensamentos próprios, um vulto insigne no panorama cultural de Sesimbra.

Ele não vai gostar, mas não vou esperar que atinja a terceira idade para lhe prestar a homenagem que, por mil razões, merece. Primeiro porque quando, por sua vez, for promovido a “velho de terra” já eu estarei sob a dita. Depois, porque o valor das pessoas deve ser reconhecido e realçado tão cedo quanto possível, enquanto há muito a esperar da sua acção. Por isso, é com todo o gosto que destaco o papel preponderante do Pedro Martins ao leme desta embarcação. A sua formação jurídica não o impediu de devorar obras, volumes, alfarrábios e pergaminhos das mais variadas ciências, ávido de saber, sequioso de cultura, devoto do pensamento, praticante da opinião, senhor de uma bagagem intelectual admirável, navegando tão à vontade na Filosofia como na História ou na música clássica. Fervoroso admirador de Teixeira de Pascoaes e José Régio, percorre a planície alentejana para ouvir Mestre Telmo, surgindo (com toda a naturalidade e mérito) como herdeiro espiritual de Rafael Monteiro.

São estes os membros mais veneráveis desta simpática confraria, que alberga ainda um “noviçoso”, ou seja, um noviço viçoso, de sua graça Joaquim Manuel Penim, meu companheiro de infância e de futeboladas inesquecíveis.

Não sei o que o futuro nos reserva, não sei até quando seremos capazes de navegar a favor deste vento de alguma originalidade e certa qualidade. Entretanto, vamos andando, ao reminho pela borda d’água, enquanto valer a pena, enquanto nos der prazer. Saberemos partir quando for tempo, porque nunca nos colocámos sob os trémulos holofotes de uma pretensa celebridade de trazer por casa, nunca nos atropelámos nem nos acotovelámos para ficar à frente na fotografia.
Sabemos é que estes anos com uma obra de nível muito razoável são uma realidade incontestável. E, sobretudo, temos a consciência do privilégio que foi e continua a ser conviver neste clima magnífico de camaradagem, amizade e bom humor.

É esta a boa companha a que me orgulho de pertencer e à qual assim presto a minha homenagem.

____________
* Publicado no n.º 27 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2003.

quarta-feira, 16 de março de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 50



A medida das coisas*

António Cagica Rapaz

Desde que o Mundo é Mundo o Homem interroga-se sobre o sentido da vida, de onde vimos, para onde vamos, a felicidade, o destino, a fatalidade, o acaso, Deus e o Diabo.

Questões várias e profundas que têm sido tratadas por filósofos, cientistas, pensadores, estudiosos, curiosos, magos, iluminados, aprendizes de feiticeiro e, até hoje, ninguém conseguiu apresentar uma tese totalmente convincente, que responda satisfatoriamente às dúvidas de cada um de nós.

E assim ficamos na nossa, acabando por adoptar a filosofia de vida que nos convém, o que no fundo não será pior pois se houvesse um padrão único a liberdade individual ver-se-ia limitada ou condicionaria o comportamento.

Nós temos uma estrutura de base e somos sujeitos a influências que começam no seio da família, depois na escola, alargando-se o círculo aos diversos meios que frequentamos. Da nossa infância conservamos rastos e restos dessas influências que nos acompanham toda a vida. Há pessoas que nos marcam para sempre, mesmo depois de deixarem o nosso convívio.

Sempre senti a necessidade de personalizar os modestos conceitos que trago em mim, sempre pensei que as pessoas são o que de mais importante existe na nossa terra, na nossa vida. Ao longo destes anos tenho-vos falado da nossa terra através da nossa gente, das pessoas que nela vivem, que por ela passaram, que dela gostam como eu gosto.

O meu primeiro artigo num grande jornal («Diário de Lisboa»), em 1971, consagrei-o ao Fragata. Noutros, sempre que pude, falei no Capitão Domingos, no Alfredo, no Deodato, eu sei lá, por prazer, para lhes dar prazer, porque me fazia bem e a eles também. Na «Gazeta dos Desportos» foi o Vítor Baptista e foi sempre com a mesma sinceridade que procurei dar destaque a pessoas que, por isto ou por aquilo, me inspiravam esse desejo.

Alguém me disse um dia que cada um desses escritos era um acto de amor. É verdade que sim e hoje tenho uma consciência mais nítida dessa realidade. Amar o próximo era o que nos ensinava o Padre João, esse homem maravilhoso que continua nos nossos corações.

Para a maioria das pessoas é difícil amar os outros, amar a Natureza, amar as coisas belas. Porque são egoístas, em alguns casos, ou simplesmente porque não sabem, nunca aprenderam. Amamos algumas pessoas e somos mais ou menos indiferentes a outras.

Durante muitos anos vi os outros através de um prisma selectivo, defini certos padrões e avaliei as pessoas à luz desse critério. Gostei muitos de alguns por esta ou por aquela razão, sem aprofundar, e não gostava de outros apenas por este ou por aquele motivo, sem ir mais longe. E isto assumido de forma totalmente honesta, sincera e convicta.

Cometi assim um erro enorme que muita gente comete, que é o de tomar a parte pelo todo, sem ver que nenhum de nós é um bloco monolítico, que não somos só isto nem só aquilo, que somos isto talvez mas também somos ou podemos ser outra coisa, pois ninguém tem só defeitos nem só virtudes.

Podemos não suportar alguém por um motivo sem ver que essa pessoa (embora possa ter de facto esse defeito) pode também ter qualidades que nós nem procuramos descobrir. E quando as vemos não lhes damos o justo valor, obcecados pelos nossos preconceitos ou juízos prévios. Por isso é preciso abrirmos o nosso coração, para não gostarmos apenas de alguns mas de todos, o que não impede preferências que são naturais.

A vida é por vezes cruel e fere-nos dolorosamente. A dor traz consigo um sentimento de revolta, de injustiça, de incompreensão. Olhamos para trás, lembramo-nos das palavras do Padre João, duvidamos de tudo e de Deus, ficamos à espera que respondam à nossa interrogação «Porquê». Porquê nós, porquê agora, porquê assim?

O Cristo na cruz permanece calado, o mar silencioso, o céu distante e a vida à nossa volta prossegue sem se deter.

De repente, alguns que nos olham serão capazes de tomar enfim consciência de que são felizes há muitos anos, sem saberem. Felizes por terem uma vida normal, banal, sem dramas, com saúde, sem sobressaltos. Vão e vêm, estão vivos, estão juntos, comem, dormem, passeiam, até ao Espadarte e acham isso tão normal que nem apreciam. A esses eu sugiro um momento de reflexão que os leve a apreciar devidamente a felicidade que têm. E a todos desejo que, nas horas difíceis, se as tiverem, vos apareça um amigo como o Manel António que veio sem eu chamar, que sofreu por mim e comigo, que me ensinou a abrir o coração, a amar por inteiro, a sentir mais e a pensar menos, a olhar os outros, todos, com amor, a ver neles o todo e não apenas uma parte.

Estou a sair do abismo, sinto-me renascer porque hoje vejo os outros.

Não só olho mas vejo. Vejo que alguns mudaram, talvez, para melhor, mas eu próprio mudei, vendo neles o que têm de melhor.

É a dura experiência da vida, do sofrimento que deu lugar a algo de novo, que dá outro sentido à minha vida.

O amor é a medida de todas as coisas, diz o poeta. Mas o amor sob diversas formas, que nos leva a gostar das pessoas mas também das coisas, a admirar a beleza, a ser sensíveis aos pequenos nadas que são a essência da vida.

Esta abertura, esta disponibilidade, esta bonomia leva-nos a um maior equilíbrio e a uma grande serenidade.

Perante esta transformação, de novo interrogo Deus para tentar compreender e penso no Padre João que me fazia ler epístolas e parábolas na missa das crianças. Como gosto de parábolas, sempre vos digo que por vezes percorremos um caminho sem nos apercebermos da beleza que nos rodeia. A nossa sede de aventura leva-nos a olhar em frente, ao longe, em busca do infinito, quando o ideal estava ali mesmo, a nosso lado.

Longe não é no fim do mar. Longe é aqui, à nossa porta, quando não sabemos ver. Mas nunca é tarde…
____________
* Publicado originalmente em O Sesimbrense.

terça-feira, 15 de março de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 40



Sempre bem disposto, bem lhe poderíamos ter chamado António do Porto Alegre...
António Cagica Rapaz



[da série Reflexões]

segunda-feira, 14 de março de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 49



Zacarias

António Cagica Rapaz

A defesa era imponente, gente de pêlo na venta, o João Caparica, o Manel Santana e o Jeremias Baeta, o queixada pé-de-chumbo.

Na baliza, o imprevisível Ilídio. No meio campo, mandava o temível Miguel Ferrinhos, libertando o Izidro para infiltrações subtis e golpes de cabeça insuperáveis. Na frente, Zé Filipe, Barlona, Zé Broa, Jesus e Pólvora, um senhor quinteto. É esta a mais antiga equipa do Desportivo de que me recordo. Muito rapidamente o Jesus saiu de cena, dizendo adeus aos rectângulos onde deixou a sua marca de goleador possante, e, para o substituir, surgiu um rapazinho tímido, com um belo pé esquerdo, toque suave, subtileza, técnica requintada, mas visível fragilidade.

Lançado no meio daqueles calmeirões, o Zacarias era um principezinho loiro, quase a pedir desculpa por estar ali. Mas foi-se afirmando, ganhando robustez, domingo a domingo, por esse distrito fora, em campos ásperos, com adversários intratáveis, rivalidades históricas, o Ramiro, do Amora, e outros que tais.

Aos poucos, foi impondo o seu estilo, a limpidez e o talento natural, perceptíveis em cada gesto. Quase lhe levei a mal quando o vi bater o pé, ombrear em execução com o Di Pace, roubar a bola ao Matateu, do meu Belenenses que veio jogar a Sesimbra em 1954, ano de triste memória, maldito Martins.

- Zacarias, prà braca! – ficou célebre a voz de comando do velho Desidério Hertkza, um húngaro que o Zé Brás albergou no Hotel Espadarte por falar línguas, e que treinou, durante anos, o Desportivo.

- Zacarias, prà braca! – insistia e teimava o bom Desidério, no final dos treinos, quando os guarda-redes eram submetidos a fuzilamentos impiedosos. O Ilídio saía de lá sem poder mexer-se e o Zacarias ia fazendo a vontade ao “mister”, embora não fosse um artilheiro credenciado. Cada um tem os seus predicados e o Zacarias ficou na retina dos apreciadores de técnica apurada, com o seu estilo elegante, classe de principezinho...

2000