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quarta-feira, 16 de março de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 50



A medida das coisas*

António Cagica Rapaz

Desde que o Mundo é Mundo o Homem interroga-se sobre o sentido da vida, de onde vimos, para onde vamos, a felicidade, o destino, a fatalidade, o acaso, Deus e o Diabo.

Questões várias e profundas que têm sido tratadas por filósofos, cientistas, pensadores, estudiosos, curiosos, magos, iluminados, aprendizes de feiticeiro e, até hoje, ninguém conseguiu apresentar uma tese totalmente convincente, que responda satisfatoriamente às dúvidas de cada um de nós.

E assim ficamos na nossa, acabando por adoptar a filosofia de vida que nos convém, o que no fundo não será pior pois se houvesse um padrão único a liberdade individual ver-se-ia limitada ou condicionaria o comportamento.

Nós temos uma estrutura de base e somos sujeitos a influências que começam no seio da família, depois na escola, alargando-se o círculo aos diversos meios que frequentamos. Da nossa infância conservamos rastos e restos dessas influências que nos acompanham toda a vida. Há pessoas que nos marcam para sempre, mesmo depois de deixarem o nosso convívio.

Sempre senti a necessidade de personalizar os modestos conceitos que trago em mim, sempre pensei que as pessoas são o que de mais importante existe na nossa terra, na nossa vida. Ao longo destes anos tenho-vos falado da nossa terra através da nossa gente, das pessoas que nela vivem, que por ela passaram, que dela gostam como eu gosto.

O meu primeiro artigo num grande jornal («Diário de Lisboa»), em 1971, consagrei-o ao Fragata. Noutros, sempre que pude, falei no Capitão Domingos, no Alfredo, no Deodato, eu sei lá, por prazer, para lhes dar prazer, porque me fazia bem e a eles também. Na «Gazeta dos Desportos» foi o Vítor Baptista e foi sempre com a mesma sinceridade que procurei dar destaque a pessoas que, por isto ou por aquilo, me inspiravam esse desejo.

Alguém me disse um dia que cada um desses escritos era um acto de amor. É verdade que sim e hoje tenho uma consciência mais nítida dessa realidade. Amar o próximo era o que nos ensinava o Padre João, esse homem maravilhoso que continua nos nossos corações.

Para a maioria das pessoas é difícil amar os outros, amar a Natureza, amar as coisas belas. Porque são egoístas, em alguns casos, ou simplesmente porque não sabem, nunca aprenderam. Amamos algumas pessoas e somos mais ou menos indiferentes a outras.

Durante muitos anos vi os outros através de um prisma selectivo, defini certos padrões e avaliei as pessoas à luz desse critério. Gostei muitos de alguns por esta ou por aquela razão, sem aprofundar, e não gostava de outros apenas por este ou por aquele motivo, sem ir mais longe. E isto assumido de forma totalmente honesta, sincera e convicta.

Cometi assim um erro enorme que muita gente comete, que é o de tomar a parte pelo todo, sem ver que nenhum de nós é um bloco monolítico, que não somos só isto nem só aquilo, que somos isto talvez mas também somos ou podemos ser outra coisa, pois ninguém tem só defeitos nem só virtudes.

Podemos não suportar alguém por um motivo sem ver que essa pessoa (embora possa ter de facto esse defeito) pode também ter qualidades que nós nem procuramos descobrir. E quando as vemos não lhes damos o justo valor, obcecados pelos nossos preconceitos ou juízos prévios. Por isso é preciso abrirmos o nosso coração, para não gostarmos apenas de alguns mas de todos, o que não impede preferências que são naturais.

A vida é por vezes cruel e fere-nos dolorosamente. A dor traz consigo um sentimento de revolta, de injustiça, de incompreensão. Olhamos para trás, lembramo-nos das palavras do Padre João, duvidamos de tudo e de Deus, ficamos à espera que respondam à nossa interrogação «Porquê». Porquê nós, porquê agora, porquê assim?

O Cristo na cruz permanece calado, o mar silencioso, o céu distante e a vida à nossa volta prossegue sem se deter.

De repente, alguns que nos olham serão capazes de tomar enfim consciência de que são felizes há muitos anos, sem saberem. Felizes por terem uma vida normal, banal, sem dramas, com saúde, sem sobressaltos. Vão e vêm, estão vivos, estão juntos, comem, dormem, passeiam, até ao Espadarte e acham isso tão normal que nem apreciam. A esses eu sugiro um momento de reflexão que os leve a apreciar devidamente a felicidade que têm. E a todos desejo que, nas horas difíceis, se as tiverem, vos apareça um amigo como o Manel António que veio sem eu chamar, que sofreu por mim e comigo, que me ensinou a abrir o coração, a amar por inteiro, a sentir mais e a pensar menos, a olhar os outros, todos, com amor, a ver neles o todo e não apenas uma parte.

Estou a sair do abismo, sinto-me renascer porque hoje vejo os outros.

Não só olho mas vejo. Vejo que alguns mudaram, talvez, para melhor, mas eu próprio mudei, vendo neles o que têm de melhor.

É a dura experiência da vida, do sofrimento que deu lugar a algo de novo, que dá outro sentido à minha vida.

O amor é a medida de todas as coisas, diz o poeta. Mas o amor sob diversas formas, que nos leva a gostar das pessoas mas também das coisas, a admirar a beleza, a ser sensíveis aos pequenos nadas que são a essência da vida.

Esta abertura, esta disponibilidade, esta bonomia leva-nos a um maior equilíbrio e a uma grande serenidade.

Perante esta transformação, de novo interrogo Deus para tentar compreender e penso no Padre João que me fazia ler epístolas e parábolas na missa das crianças. Como gosto de parábolas, sempre vos digo que por vezes percorremos um caminho sem nos apercebermos da beleza que nos rodeia. A nossa sede de aventura leva-nos a olhar em frente, ao longe, em busca do infinito, quando o ideal estava ali mesmo, a nosso lado.

Longe não é no fim do mar. Longe é aqui, à nossa porta, quando não sabemos ver. Mas nunca é tarde…
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* Publicado originalmente em O Sesimbrense.

terça-feira, 15 de março de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 40



Sempre bem disposto, bem lhe poderíamos ter chamado António do Porto Alegre...
António Cagica Rapaz



[da série Reflexões]

segunda-feira, 14 de março de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 49



Zacarias

António Cagica Rapaz

A defesa era imponente, gente de pêlo na venta, o João Caparica, o Manel Santana e o Jeremias Baeta, o queixada pé-de-chumbo.

Na baliza, o imprevisível Ilídio. No meio campo, mandava o temível Miguel Ferrinhos, libertando o Izidro para infiltrações subtis e golpes de cabeça insuperáveis. Na frente, Zé Filipe, Barlona, Zé Broa, Jesus e Pólvora, um senhor quinteto. É esta a mais antiga equipa do Desportivo de que me recordo. Muito rapidamente o Jesus saiu de cena, dizendo adeus aos rectângulos onde deixou a sua marca de goleador possante, e, para o substituir, surgiu um rapazinho tímido, com um belo pé esquerdo, toque suave, subtileza, técnica requintada, mas visível fragilidade.

Lançado no meio daqueles calmeirões, o Zacarias era um principezinho loiro, quase a pedir desculpa por estar ali. Mas foi-se afirmando, ganhando robustez, domingo a domingo, por esse distrito fora, em campos ásperos, com adversários intratáveis, rivalidades históricas, o Ramiro, do Amora, e outros que tais.

Aos poucos, foi impondo o seu estilo, a limpidez e o talento natural, perceptíveis em cada gesto. Quase lhe levei a mal quando o vi bater o pé, ombrear em execução com o Di Pace, roubar a bola ao Matateu, do meu Belenenses que veio jogar a Sesimbra em 1954, ano de triste memória, maldito Martins.

- Zacarias, prà braca! – ficou célebre a voz de comando do velho Desidério Hertkza, um húngaro que o Zé Brás albergou no Hotel Espadarte por falar línguas, e que treinou, durante anos, o Desportivo.

- Zacarias, prà braca! – insistia e teimava o bom Desidério, no final dos treinos, quando os guarda-redes eram submetidos a fuzilamentos impiedosos. O Ilídio saía de lá sem poder mexer-se e o Zacarias ia fazendo a vontade ao “mister”, embora não fosse um artilheiro credenciado. Cada um tem os seus predicados e o Zacarias ficou na retina dos apreciadores de técnica apurada, com o seu estilo elegante, classe de principezinho...

2000

sexta-feira, 11 de março de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 47

as crónicas da Eventos...



Cá se fazem…*

António Cagica Rapaz

- Vens para baixo? Vamos beber uma imperial?

Foi há pouco tempo, o corpo da nossa amiga acabara de descer à terra. O cemitério começa a esvaziar-se, os grupos vão-se diluindo devagar, lá fora um carro apita, lá em baixo o mar permanece bonito, prateado e indiferente, a vida já retoma os seus direitos…

Não aceitei o convite para a imperial e fiquei a pensar que é sempre assim, em cada funeral. Juntam-se os familiares e amigos, todos contritos, unidos na dor ou, pelo menos, na tristeza, envoltos num manto de solidariedade que as circunstâncias propiciam. Nesses momentos, a estranha magia da morte aproxima as pessoas, devolve-lhes uma espécie de pureza original e uma fraternidade tão sincera como efémera já que só dura a trégua de um funeral.

Terminada a cerimónia fúnebre, a vida continua, mesmo para os familiares mais chegados que vão ter de arranjar forças para prosseguir, para enfrentar o que lhes resta de vida, apesar do sofrimento, do vazio e da ausência. Para trás ficam as palavras de conforto, as fórmulas do costume, os abraços apertados, as palmadas nas costas. Concluindo filosoficamente que é a vida, cada um abandona o cemitério, segue o seu caminho, talvez beba uma imperial…

Seja como for, a verdade é que o choque da morte nos obriga, mesmo que de raspão, a reflectir, nos lembra mais uma vez que somos vulneráveis, simples cadáveres adiados. E desse instante de consciência generalizada da nossa fragilidade e da nossa insignificância nasce a tal solidariedade que nem por ser fugaz deixa de ser real e sentida. De forma mais ou menos difusa, mais cedo ou mais tarde, todos nos interrogamos sobre a morte e, em particular, sobre a eventualidade de uma vida para além dessa inevitável morte.

Numa terra como Sesimbra, com o mar e a morte tão presentes, a existência de Deus é uma certeza tão natural como o regresso do sol em cada manhã. Desde a nossa infância, fomos habituados a viver sob a protecção do Senhor Jesus das Chagas, da Senhora do Cabo, e na companhia dos santos populares, mais próximos, quase fazendo parte da família. De uma maneira geral, os sesimbrenses não se interrogam, não equacionam sequer a problemática da existência de Deus. Por tradição, por necessidade, por conveniência, por atavismo, a existência de Deus não tem sequer discussão. Em verdade, e embora este monstro que é o homem teime em destruir o planeta, basta olhar à nossa volta, contemplar a Natureza, observar o milagre das estações do ano, os ciclos da vida, a harmonia do Universo, para sentirmos que Deus existe.

Para nós, portugueses, o sol nasce, mas não morre, põe-se, eufemismo que encerra algum temor, o mistério da escuridão da noite, de certo modo comparável ao receio da morte, do desconhecido. Os franceses, com toda a tranquilidade, dizem que o sol se levanta e se deita…

Esta convicção simples, porventura pueril, da evidência da existência de Deus não constitui um sinal de intelectualidade aos olhos de agnósticos, ateus, filósofos tenebrosos, mestres iluminados em teologia, especialistas de análises comparativas de religiões, manipuladores de teses, sínteses e antíteses. Pessoalmente, considero que não é possível, a nós, pobres mortais, provar a (in)existência de Deus. Nem tal é desejável porque, a acontecer, acabaria com aquela minúscula partícula de dúvida que têm tanto os que acreditam como os que recusam. Sem essa partícula passaríamos a ter uma certeza que condicionaria perversamente o nosso comportamento. Os que acreditam talvez sejam considerados por alguns como pobres de espírito, é provável. Pôr em causa ou negar a existência de Deus é uma forma de afirmação pessoal, de superioridade em relação à massa ingénua e primária. Porém, bem lá no fundo, talvez haja apenas duas categorias de pessoas, as que acreditam e as que pretendem não acreditar…

Seja como for, o que interessa nesta perspectiva de se acreditar ou não em Deus, de se admitir ou não uma vida para além da morte, é o que fazemos com as nossas convicções, ou seja, que efeitos práticos têm elas no nosso comportamento, no nosso dia a dia, no relacionamento com a vida, com os outros, com a Natureza.

Graças a leituras, conversas, relatos e algumas experiências marcantes, acredito muito firmemente na vida depois da morte, em múltiplas encarnações. Só esta filosofia permite que a vida, tal como a conhecemos, faça sentido. De facto, se pensarmos que nada há antes nem depois da nossa actual encarnação, que tudo se resume a estes insignificantes setenta anos, a vida é um absurdo total, uma monstruosidade, um cenário de injustiças medonhas, de desigualdades intoleráveis. É como se cada um de nós, em vez de 365 dias por ano tivesse um só. Para uns seria de sol, temperatura amena, luar poético, mas para outros haveria chuva, para alguns neve, para uns quantos um furacão, para outros um incêndio, tudo arbitrário, desigual, aleatório, desequilibrado. Não seria justo nem faria qualquer sentido. Ao longo de um ano, nós aceitamos com naturalidade chuva e vento, frio e tempestades porque acreditamos que serão ocorrências passageiras, temos sempre esperança em melhores dias, porque sabemos que eles virão. Se dispuséssemos de um só dia seria dramático e insuportável. Da mesma forma me parece absurda uma vida com período fixo de validade, que determine invariavelmente na cova ou nas cinzas da cremação. É absurdo aceitar como coisa natural um mundo onda há tanta injustiça, tanta desigualdade, onde vivem paredes meias pessoas que sofrem, que morrem de fome, que são exploradas, e criminosos que gozam de saúde, que vivem à larga à custa da desgraça alheia, graças à venda de armas, à droga, à prostituição. Como podemos nós compreender que crianças sofram? Por que motivo morrem uns mais cedo que os outros? Por que razão uns nascem com enfermidades e outros são saudáveis toda a vida? Não pode ser, não faz sentido, tem de haver, para cada um de nós, outro ciclo, para repor a verdade, a justiça, o equilíbrio e a harmonia. Entretanto, o homem é como é, e muitos continuam sem perceber que os verdadeiros valores não são os carros, as casas, os terrenos ou as jóias.

O povo, na sua vasta sabedoria, bem lembra que depois da tempestade vem a bonança. E também diz que cá se fazem e cá se pagam. Esta última máxima tem um significado muito mais profundo do que parece à primeira leitura. De facto, nem sempre e muito raramente, o mal é devidamente castigado. Pelo menos nesta vida, nesta encarnação. Daí que se possa concluir que o povo sabe muito mais do que julga saber…

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* Publicado no n.º 16 de Sesimbra Eventos, de Natal/Ano Novo 2001-2002.

quarta-feira, 9 de março de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 49


Por trás das máscaras*

António Cagica Rapaz

Há uma dúzia de anos que não me era dado assistir ao Carnaval na nossa terra. Aconteceu este ano por simples coincidência de férias escolares em França com a festa das escolas de Samba, outra escola, outro ritmo, outro recreio.

O Carnaval é como sempre foi, um mundo de contrastes, uma festa imposta pelo calendário que nos leva a rir e folgar do dia tal ao dia tantos, com crise ou sem ela. É o Entrudo, é a tradição, as cinzas do quotidiano vêm depois.

Ora este ano tenho de chegar a uma conclusão e hesito: o Carnaval mudou ou eu, com a idade, não o vejo da mesma maneira. Ou talvez haja uma dose de cada.

Com os meus filhos pela mão, não me preocupei com as máscaras nem com o tumulto dos grupos animados. Olhei à minha volta e, enquanto o Carnaval passava, a vida continuava com o Nuno no hospital recuperando lentamente da operação. Os pais não se meteram em apertos para ver as escolas de samba, antes correram para Setúbal todos os dias, cruzando na estrada molhada os folgazões de circunstância. No café Central lá estava aquele marido angustiado com a mulher internada há um mês sem saber que doença a consome. Não há calendário nem decreto-lei que suprima os dias tristes de melancolia.

Há alguns anos talvez eu não me tivesse apercebido destas situações de pequenos dramas à margem da euforia geral pois no meio da agitação colectiva não há tempo nem espaço para nos determos, consagrando um minuto ao nosso vizinho, ao nosso amigo.

E muitos ao longo do ano vivem assim, sem ligarem, sem se aperceberem do que acontece na vida dos que o rodeiam.

Claro, também vi Carnaval à antiga. Lá estive na padaria do Joaquim do Moinho assistindo à caracterização, à maquilhagem das viúvas laironas de mamas abundantes, falsas e generosas, que eram o Zé Júlio (qual alcunha?), o Jofre, o Zé Duarte, o Arménio, o Mota e o mestre Vítor inspirador do movimento, poeta de veia em riste, navegador de sextante infalível, profeta de uma noite, barítono da maré vazia, irresistível forasteiro. No Toni entraram três loucas (autênticas, à fé de quem sou) que ao verem as viúvas laironas de bigodes farfalhudos, baixaram os braços amaneirados diante de uma concorrência insuperável.

O Vítor (y sus muchachos) é o último moicano, o último exemplar de um Carnaval antigo de improvisação organizada, de génio criador, de espontaneidade, de originalidade, de erupção prazenteira. O Carnaval de Sesimbra está a entrar na era industrial com a quantidade a ocupar o lugar da qualidade, com as massas a empurrarem pela borda fora o folião individual, o arauto da paródia, o menestral da risota.

Ao acaso de uma visita à antiga oficina dos Brandões (daqui saúdo o mestre Zé, uma saudade sorridente) e deparei com o Ernesto (mas qual alcunha?) que me confessou ter havido choros com a cassete que eu fiz com as histórias dos filhos da noite. Da mesma cassete me falou o Alfredo na noite dos pares de cornos, enormes e alambazados, que o Urbino e o seu comparsa nos puseram (ao Alfredo e a mim) para uma fotografia carregada de lenha e de malandrice.
A história desta cassete dará para outra crónica onde se falará do Alfredo, do Toni, do Ernesto, do Charuto e do Júlio Silva, o meu rico Júlio, o John português que matava o cavalo na feira da Agualva.

Pois o meu rico Júlio ficou com a cassete que eu fizera para o Alfredo, a tal cassete que (segundo as línguas indiscretas dos filhos da noite) arrancou uma lágrima rebelde a muitos dos malandros que julgavam que os homens não choram.

O Alfredo, com o coração grande como a serra da Arrábida, contou à minha mulher a partida do dominó sem pedras e os anzóis empatados sem fita nem anzóis, enquanto o Charuto transformava a realidade criando um clima mágico entre duas vagas cavernosas, com a chuva a fustigar a vidraça, na hora sombria em que o dia ameaça e se fina a madrugada.

O Toni amadurece com a sua bigodaça monumental e uma serenidade surpreendente.

Há trinta anos no Clube Naval o miúdo que eu era, do alto dos seus dez anos, almoçava com um amigo mais velho e era servido por um empregado atlético a quem o meu amigo chamava Tarzan. Era o Toni o Tarzan com o seu cabedal a aparecer por baixo do casaco branco e a sua vaga semelhança com o actor francês Jean Marais. Só que o Jean Marais não é cá dos nossos e o Toni bem pelo contrário.

Foi um longo caminho para o Toni, anos e anos atrás do balcão da Marisqueira, noitadas de trabalho e de malandrice, de dispepsia e parafusos mas sempre ao leme da barca, sempre a iscar a caçada, sempre a comandar as operações.

E aí temos o Toni bem na vida graças ao seu esforço e ao sorriso permanente, à bonomia, à simpatia bonacheirona, tudo com um olho vigilante e uma presença constante.

O Toni é um cartaz de Sesimbra e uma figura notável.

Os tambores calaram-se, os trajes dormem em caixas de papelão, as luzes apagaram-se. A vida continua…

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* Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra.

terça-feira, 8 de março de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 46

as crónicas da Eventos...




Porque é Carnaval* [2.ª parte. A 1.ª parte foi aqui publicada no passado domingo]

António Cagica Rapaz


Meses

Para os Peixes, o melhor mês é Março

Ao ver o portão fechado, correu a Abril

Quando me lembro do 25 de Abril, até 10 Maio

Julho não é Agosto dela…

Para os gatos, a época dos amores começa em miados de Janeiro…


O que eles poderiam ter dito

O meu negócio é limpo.
(António do Carvão)

Quero que a cigarra se lixe.
(Joaquim Formiga)

Não há fome que não dê em fartura.
(Joel)

Bem fresco, prefiro o branco.
(Preto do Palmeirim)

Supersticioso, eu?
(Treze)

Da cá eu.
(Doze)

Se me chateiam, um dia rebento.
(Costa da Bomba)

Todos os dias são dias de festa.
(Chagas)

Só me saem biscas.
(Duque)

Fique sabendo, à pistola ou com pincel, Pinto e Pinto bem.
(Alfredo)

Detesto a caça.
(Joaquim da Rolinha)

Qualquer dia dou-lhe na corneta.
(Ernesto)

Isso é que era bom.
(João Mau)

Vou pôr-me ao alto.
(Chico Rasteiro)

Apanho tudo pela rama.
(Armínio Pinhal)

Viva a República!
(Frederico Reis)

Só ando à 6.ª-feira.
(António da Roda)

Vão para o Inferno.
(Chico Diabo)

Foi o que ouvi dizer.
(Júlio Mouco)

Para mim é trigo limpo.
(Joaquim do Moinho)

Não gosto do primeiro milho.
(Zé Pardal)

- Ora deixe ver, tenho dois saloios, tenho três carcaças e tenho um cacete mole… mas sou muito homem, ouviu?
(Antero do Pão)

É preciso é não perder o Norte.
(Zé Leste)

Tónica, Túnica e Ténica.
(Mestre Adelino)

Meto-me em cada buraco!
(Fernando Covas)

Alinhavar tudo isto é d’homem
A. Cagica Rapaz

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*Publicado no n.º 35 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2005.

segunda-feira, 7 de março de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 48



O Pirilau

António Cagica Rapaz

Há pessoas assim, desinibidas, e o Zé Manel exibia o seu Pirilau à vista de toda a gente. Fazia mesmo gala na ostentação, na praia do tio Abel, primeiro, e no Espadarte, depois.

Curiosamente, e apesar dos anos que passavam, o Pirilau do Zé Manel continuava do mesmo tamanho, facto que não preocupava amigos nem familiares. As pessoas habituaram-se ao Pirilau do Zé Manel e as meninas de boas famílias não escondiam a cara nem desviavam o olhar. Pelo contrário sentiam certa atracção e devo confessar que eu próprio cheguei a invejar o Pirilau do Zé Manel, apesar de o achar pequeno.

De facto não era grande, mas tinha tudo no sítio, proa, popa, quilha, casco, remos, tudo quanto era necessário a um barquinho de recreio para enfrentar as procelas do triângulo dos Passadiços, contornar os destroços cavernosos do Numância, bolinar à vista da pedra alta e arriscar-se até às paragens inóspitas da Califórnia.

O Zé Manel Torres Batista, o nosso TB, servia-se do Pirilau para passear e, sobretudo, para atrair meninas que não enjoassem, que não tivessem medo dos gargalhetes nem receassem os tentáculos de um polvo amestrado que alugara uma caverna na ala poente do afundado barco espanhol.

O Zé Manel usou e abusou do Pirilau, pescou em mares profundos, versão caseira do capitão Audaz e do seu veleiro Aventura dos inesquecíveis álbuns do Cavaleiro Andante. Lá diz o povo, pela boca morre o peixe e o Zé Manel foi pelo Pirilau. Um belo dia, este flibusteiro do Calhau da Mijona, entregou a espada, arrancou a pala preta, desatarraxou a perna de pau, arreou a vela, baixou pavilhão, arrumou os remos, encalhou na preia mar, conheceu a Quinita...

De Espanha veio o vento e o casamento. Para Espanha zarpou o bom Zé Manel, para desgosto do Deodato que ficou inconsolável e não voltou a fritar lulinhas sem verter uma lágrima salgada. Barcos há muitos, mas Pirilau ninguém tem como ele tinha. O Luís Passos Leite, o Zé Bagaço e o Jorge Aranha andaram a recolher assinaturas que entregaram ao Tony. O Alfredo acendeu velas na Vila Pinto, o Charuto ofereceu, como penhor, o livro de quotas do Desportivo e o nadador-salvador Domingos Nogueira, vulgo capitão Domingos, jurou emendar-se e jamais voltar a aproveitar-se das criadas a quem fingia ensinar a boiar com a mãozinha por baixo e, sobretudo, acabar com as aulas prolongadas de respiração boca a boca...

Nas noites longas e frias de Inverno, pairava no Pinto & Pinto uma nuvem triste e um cheiro longínquo a Gitanes, o lendário tabaco que o Zé Manel introduziu em Sesimbra. Na embalagem azul ainda se vê uma cigana recortada em fundo de fumo. Era já um sinal do destino, sortilégio espanhol, o grito rouco e sofrido do flamenco, a sina do Pirilau.

Dizem as velhas da praia que, em manhãs de nevoeiro, aparece ao pé da Pedra Alta um barquinho a remos, vazio, silencioso e triste, com um maço de Gitanes, vazio, na proa. Ai que saudades, volta Pirilau!

Se o virem, afaguem-lhe a popa, levem-no ao reminho pela borda d’água, devagarinho, com doçura, mas de espia atenta. É um doido este Pirilau, sempre de vela alçada, pronto para novas aventuras, capaz de abalar com qualquer Nau Catrineta. Se o virem, tragam-no de volta, o Domingos agradece, dão-se alvíssaras...

1996

domingo, 6 de março de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 45

as crónicas da Eventos...




Porque é Carnaval* [1.ª parte. A 2.ª parte será aqui publicada na próxima terça-feira]

António Cagica Rapaz

Reflexões

Em Santana, o Joaquim Leite, que mora a dois passos do Fernando Gato, correrá algum perigo?

Será verdade que o Jorge Carapau deixou de passar à porta do Gato?

Dizem que o Gato está proibido de entrar na “Toca do Ratinho”…

O cúmulo seria o pai Gato ter posto ao filho o nome de Jeremias

Sempre bem disposto, bem lhe poderíamos ter chamado António do Porto Alegre

Se o David tivesse nascido em Sesimbra seria na mesma Saloio?

Ao cortar-se com a faca, o amanhador de peixe apercebeu-se de que nunca sentira tamanha dor.

Iam todos com espingardas e caçadeiras, alguns levavam cães. Ele levou um balde com engodo. Para iscar a caçada

O velho de terra franziu a sobranselha e saiu da loja…

Foi há uns bons quarenta anos. Quando o oculista lhe perguntou se queria trocar de armação, respondeu que não senhor, gostava de estar no Burgau...

O Luís Preto, o Castanho, o Encarnadinho e o Branquinho acaso serão filhos da Aurora Boreal?

Maria da Arrábida, Valdemar Laranjeiro, Augusto de Alfarim, Manel Santana, Zé Azóia, tudo gente da nossa terra...

Ingénua, aceitou a sugestão do namorado e acompanhou-o até aquele sítio isolado, em noite de luar. E assim se tornou uma mulher perdida, na serra da Achada...

Ao ruído das motorizadas não há quem escape...

Morreu sem se despedir. Só disse a Deus...

Na tropa tinha de fazer tudo. Era o cabo dos trabalhos…

Pastor procura ovelha ronhosa para cruzar com bode expiatório

Procurou longamente o rasto dos animais. Já desesperava quando se aproximou de um riacho e deu com os burrinhos na água

O abastado lavrador resolveu exibir os seus inúmeros tractores à população da aldeia. Fê-los desfilar sem preocupações de tamanho, cor, ou valor. Não se ralou com isso porque, como dizia, a ordem dos tractores é arbitrária...

Era um médico muito autoritário. Quando lhe perguntei que medicamento devia tomar, gritou-me: "Cálcio". E eu calei-me...

Era um empregado de sapataria muito autoritário. Quando lhe disse que o sapato estava apertado, foi buscar outro, e disse-me: "Calce-o". E eu calei-me...

Se a mágoa magoa, a tábua tá boa?

Participou num concurso de circunstâncias e era das mais "tâncias" que lá apareceram...

Deixou os gladiadores de barriga vazia...

Morre sempre da mesma maneira, estrebucha e estica o pernil...

Quando fazem vendas a bordo, as hospedeiras avíão os passageiros...

Aquilo já era mania. Pôs a filha a fazer limpezas, o filho a angariar seguros, a mulher a vender fruta. Até o carro ele punha a trabalhar...

Ela preferia o horário nocturno, gostava de trabalhar em silêncio. Chamavam-lhe a calada da noite...

Com tanta veia poética, ou sou filho de Pessoa ou soneto de Camões...

Se não são utilizados, os instrumentos desafinam e depreciam-se. Por isso mesmo, Nero, que raramente tocava, deixou desvalorizar a lira...

Invariavelmente, sempre que a discussão filosófica não lhe agrada, muda de tema, fala de futebol, desvia para Kant...

Zangaram-se e ele matou a mulher, esmagando-a sob o guarda-vestidos que a polícia considerou ter sido o móvel do crime...

Andava radiante com o novo relógio, desejoso que lhe perguntassem as horas. E logo respondia:"Duas e um quartzo".

É um presidente que gere bem o clube. Compra jogadores caros e depois obriga o treinador a deixá-los no banco...

A rapariga, quase analfabeta, casara com o padeiro a quem punha os palitos. E escreveu a uma amiga, justificando a sua conduta: o padeiro tinha sempre pãu mole...

Dizem que é preciso comer de forma saudável, legumes, tofu, que só faz bem. Oxalá assim soja!

De uma ponta à outra da mesa só havia pêssegos estragados. Já desesperava quando acabou por encontrar na extrema um são...

Ainda hei-de calar a boca da noite…

Apaixomar.

Salvo euro.

Pleonasmo: PolíCIA.

Eufemismo pelas pernas abaixo.

Converti-me ao Questionismo.


(continua)
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*Publicado no n.º 35 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2005.

sexta-feira, 4 de março de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 44

as crónicas da Eventos...




Bem te conheço, ó máscara!*

António Cagica Rapaz

O Carnaval de Sesimbra, antes do 25 de Abril, deixou em muitos de nós mil recordações e muita saudade, mas não podemos fazer uma evocação correcta sem integrarmos aquelas folias no seu contexto, ou seja, sem as enquadrarmos no clima sócio-cultural da época.

Naquele tempo, nos anos cinquenta e sessenta, a sociedade portuguesa regia-se por normas, regras e valores bem diferentes dos que hoje predominam. As mentalidades eram mais rígidas, a influência da Igreja muito mais sensível, e o Carnaval surgia como um curto período de libertação de convenções, espartilhos morais e preconceitos sociais. E, sem cair em exageros, Sesimbra divertia-se...

O meu pai contava-me brincadeiras de gosto mais ou menos duvidoso, roubos de galinhas, besuntadelas mal cheirosas no corrimão do Grémio ou na fechadura da porta de determinado senhor que costumava colar os lábios no orifício para chamar pela mulher. Todos nós pregámos partidas nem sempre recomendáveis, mas era assim, é Carnaval não se leva a mal.

Com o tempo, acabamos por ver as coisas com outros olhos e, muito provavelmente, o R. não voltaria a queimar aquele pedaço de malagueta numa tampa de caixa de pomada para o calçado. Foi no Grémio e o fumo asfixiante e tóxico produziu efeitos tais que o R. chegou a ter receio, perante o quadro dantesco de olhos inflamados, tosse, espirros e outras ventosidades ruidosas que deixaram prostrados alguns prezados consócios.

Recordo-me de ter subido ao sótão do mesmo Grémio e ter despejado cá para baixo pós de espirrar sobre a mesa à volta da qual se disputava animada partida de “sintético”. O festival de espirros, imprecações e recriminações foi indescritível, tendo o Alfredo Filipe escapado por uma unha negra ao linchamento.

O mesmo lhe sucedeu em tarde chuvosa, num Central fechado e cheio de fregueses encostados aos bilhares numa cavaqueira que os pós de espirrar transformaram num inferno. E também desta vez o Alfredo estava inocente. Outros pecados teria, porventura, por confessar...

Estes episódios ocorriam com frequência naquele triângulo das Bermudas localizado entre o Grémio, o Central e o estabelecimento do mestre Adelino. A taberna e a barbearia constituíam um autêntico covil de malandrice, palco e fonte de brincadeiras hilariantes, o lápis do Lopes, os rabos pendurados a preceito e, sobretudo, os porta-moedas pregados no alcatrão. As mulherzinhas do campo vinham vender à praça montadas em burros de que desciam para deitar a mão ao porta-moedas. Logo a impiedosa rapaziada saltava, gritando em coro “Larga! Larga!”, o que provocava a cólera e o despeito das pacatas camponesas que perdiam a cabeça e nos insultavam abundantemente, sugerindo até locais onde poderíamos meter os ditos porta-moedas.

Um dia, quem caiu foi o bom João Vaivém que se baixou para apanhar um relógio. No calor da reacção, o Zé Júlio gritou “Larga, urso” e foi multado em trezentos mil réis que a irmandade ajudou a pagar.

Escasso é este espaço para tanta libertinagem, pelo que aconselhável se torna passarmos ao capítulo dos bailes, prato de resistência do nosso Carnaval. Dificilmente se poderá contestar que, naquele tempo de austeros costumes, os bailaricos eram a grande oportunidade para aproximações entre pessoas do sexo oposto, a pretexto hipócrita de um passo de dança. Em verdade, era (sobretudo para raparigas e mulheres) a ocasião tão desejada de dar largas a todo um leque de apetites, sedução, intrigas, mistérios, mistificações, enredos e aventuras mais ou menos arrojadas, chamemos as coisas pelos nomes. A máscara desinibia, dava confiança, soltava as línguas, estimulava a imaginação, alargava horizontes, excitava os sentidos, dava corda ao diabinho que existe em cada um de nós. Porém, os casos de maior atrevimento não passavam de inocentes brincadeiras quando comparadas com o que vemos nos dias de hoje, à nossa volta, à luz do dia, de cara destapada, o ano inteiro...

Por isso, o que ficou em nós foi, sobretudo, a recordação de um clima mágico, de excitação e fascinação, expectativa e fantasia, com o engenho e a irreverência das raparigas que faziam, elas próprias, os trajes que depois trocavam por forma a porem a cabeça à roda aos rapazolas atrevidos. Mil episódios haveria para contar, a peça de cerâmica do Júlio Mouco, o cartucho de papel, com água, com que a Maria Vitória assustou o António Vidal, a ida da Carlota parteira a minha casa, os telefonemas intrigantes, eu sei lá.

Ficaram para a história quadros deliciosos como o Zé António da Parteira a dançar, desvairadamente apertado, mordendo o lábio, com uma máscara que não era outro senão o Zé Albano.

A magia burlesca do Carnaval atinge um alto expoente no engano em que viveu durante três noites uma figura grada da terra, o Doutor J., que dançou e tentou seduzir uma máscara que, afinal, era a velha D., magra, seca, enrugada, mulher a dias do serviço do próprio Dr. J.. A tia D. comeu, bebeu e dançou durante três noites, Cinderela galhofeira. Brincou realmente ao Carnaval e ajudou a consolidar aquilo que era a sua essência, o mistério e a ilusão...

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* Publicado no n.º 5 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2000. Trata-se da estreia de António Cagica Rapaz nesta publicação.

quarta-feira, 2 de março de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 48




Escuminha*

António Cagica Rapaz

Aqueles dedos calejados pelos longos anos de labuta no mar não são capazes de segurar um copo fino de cerveja. Os seus lábios gretados pelo vento de leste rejeitam o sabor estranho do «whisky». Os seus olhos, à volta dos quais o mar lançou rugas sem conta, olham o mundo à luz de uma candeia serena, ao som de um fado antigo com o gosto de outrora em forma de tinto.

O tio Escuminha não é deste tempo. É o passado que penetra no presente sem pretensões de folclorismo baloufo. O seu boné de pala preta, qual comandante de veleiro de aventura, o seu cachimbo, a peça de fruta, o jarro de vinho, a companhia do tio Guilherme e um sorriso tranquilo que contempla sem criticar quanto de fascinante acontece na Marisqueira.

O tio Escuminha não foi ali colocado pelo Tony a fim de dar um ar castiço. Ele toma o seu lugar porque a ele tem direito e porque, na sua ingénua alegria de viver, o copo de vinho na mesa do canto é um prazer para que o balanço das vagas o atirou e do qual não abdica.

Os dois velhos caturras tomam o seu copo, discutem todo o tempo sob o olhar terno e vigilante do Nelinho que tem um pé no passado heróico e um olho na loira que acaba de entrar…

Quando se apagar o cachimbo do tio Escuminha não haverá cigarro extra-longo que o substitua. O tio Escuminha que conhece as profundezas do mar, que sabe até onde a maré pode subir, abana a cabeça, sorri e pergunta ao tio Guilherme como pode aquele estrangeiro beber tanto «whisky» sem meter a borda debaixo d’água, sem encalhar nos rochedos do sono. O tio Escuminha deita-se cedo porque o sol nasce quando morre a madrugada e o mar chama por ele todas as manhãs…

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*Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica "Quando morre a madrugada - Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite". A versão publicada em Noventa e Tal Contos, sob o título “O tio Escuminha”, apresenta alterações e cortes notórios, que, todavia, não alteraram a essência do escrito original.

terça-feira, 1 de março de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 39



O cúmulo seria o pai GATO ter posto ao filho o nome de JereMIAS...
António Cagica Rapaz



[da série Reflexões]

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 47



Meta Física

António Cagica Rapaz

- Desculpe, acredita na premonição e na reencarnação?
- É uma sondagem?
- Não, nada disso. É antes o deslumbramento, a fascinação, a materialização de um sonho milenário, de uma convicção enraizada em mim há uma eternidade...
- Ena, o que para aí vai, receio não compreender...
- É natural, é tão natural! Eu próprio começava a duvidar, a interrogar-me se tudo isto faz algum sentido, se não andaria a ser vítima e carrasco, promotor e escravo desta união sonhada. Há anos que ando numa busca sem tréguas, olhando à minha volta, batendo a cada porta, procurando confirmação para as minhas convicções transcendentais. Até que hoje, o Céu seja louvado, as minhas preces foram ouvidas, hoje obtive resposta, ao vê-la aqui, na esplanada do Martelo, com o mar por testemunha. Sim, porque desde há séculos estamos prometidos, temos encontro marcado...
- Tudo isso é erudito, mas algo complicado. Importa-se de ser mais claro?
- Com todo o prazer. Em termos simples, numa vida anterior nós pertencemos um ao outro, tenho disso a certeza absoluta. E é essa confirmação fulgurante que acabo de ter. Ao fim de vários anos de buscas desesperadas, o milagre deu-se. Senti-o logo que a vi, a sua aura, o seu perfil, o seu olhar luminoso, não, não pode haver engano, a minha vigília terminou, estamos de novo juntos...
- É estranho e, ao mesmo tempo, curioso, sinto-me um tanto perturbada. Há, na verdade, coisas misteriosas. Há muitos anos eu pressentia que, um dia, um desconhecido me abordaria, numa praia, numa esplanada, num lugar público, de forma pouco convencional e que captaria o meu interesse, primeiro, para em seguida fazer nascer em mim um verdadeiro vulcão emocional.
- Ah, como é reconfortante! Continue, continue...
- É surpreendente como estas coisas acontecem. O que é frequente é aparecer um parvalhão qualquer a meter conversa connosco, numa tentativa rasca de engate, com pretextos do estilo “Desculpe, não nos conhecemos já de qualquer lado?”. Está a ver, não está?
- Claro, é uma técnica mentecapta, estafada, sem imaginação nem talento...
- Como gosto de esplanadas, habituei-me a lidar com esses conquistadores de meia tigela. Ao mesmo tempo, tinha uma espécie de sexto sentido ou de premonição, uma convicção nítida de que um dia seria diferente, que me apareceria um homem especial, absoluto, único, o Homem. Da minha vida. Que haveria um reconhecimento mútuo imediato, instintivo, irreprimível, uma emoção que dispensa palavras, afasta preconceitos, ignora artifícios, varre convenções, derruba obstáculos reais e imaginários...
- E o sonho tornou-se realidade...
- Ah, sim, completamente, excedeu até as minhas expectativas. É verdade que, no início, tive alguma dificuldade em perceber, em identificar. Mas bem depressa foi como se o sol entrasse no meu coração. Foi uma explosão maravilhosa na minha cabeça, fiquei rendida, subjugada.
- Ah, como é bom ouvi-la, que encanto, que deleite! Eu sabia que éramos feitos um para o outro...
- Mais devagar, mais devagar...
- Não se pode travar o destino. Agora que nos encontrámos, nada nem ninguém poderá separar-nos, somos um do outro, estava escrito.
- Mais devagar, meu amigo, mais devagar, nada de precipitações. As regras do jogo por vezes mudam, e a mulher também tem o direito de brincar com a dialéctica da sedução orquestrada. Ou, se preferir, de entrar e conduzir o jogo do engate.
- Não estou a perceber...
- Já vai entender. Fique sabendo que nem tudo quanto disse foi inventado. De facto, conheci o meu marido numa esplanada e foi amor à primeira vista. De vez em quando, gostamos de umas fantasias, com uma cumplicidade e uma confiança sem falhas, com regras bem definidas, com limites que só nós conhecemos.
- E quem é o seu marido??
- É aquele matulão que está ali, na mesa perto do muro, a fingir que lê o jornal. Não leve a mal, desta vez não resultou, mas paleio e imaginação não lhe faltam. Não desista...
- Bem, paciência, dou-lhe os parabéns, gabo-lhe o talento e invejo o seu marido. Mas a vida continua. Olhe, está a ver aquela morena, de óculos escuros, a tricotar??
- Vai atacar outra vez com a premonição?
- Trazia essa bem estudada, mas acho que vou mudar de tema. As questões ambientais estão na moda e, se calhar, é boa ideia qualquer coisa como o massacre das focas, coitadinhas. Pode ser que pegue...

1998

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 43

as crónicas da Eventos...

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Apalpando rábulas*

António Cagica Rapaz

Despedimo-nos de 2001 abordando um tema grave e transcendente (Deus) para entrarmos neste novo ano a brincar, talvez para variar, quem sabe se por efeito perverso da capicua 2002. Muitas vezes caímos na facilidade da generalização, afirmando que os portugueses são sorumbáticos, tristonhos, vergados ao peso do Fado. Não sei se será bem assim, antes me parece que somos é mais de marés, de altos e baixos, de quartos crescentes e minguantes. O que não impede que tenhamos uma admirável veia irreverente, espontânea e bem humorada.

Em Sesimbra sempre se cultivou a brincadeira, a paródia, a chalaça, a partidinha marota, dentro e fora do período carnavalesco. Brincar e jogar são faces da mesma moeda, verbos diferentes que noutras línguas são um só, para significar várias coisas. O francês jouer, tal como o inglês play, tanto querem dizer brincar, como jogar, como tocar um instrumento ou representar um papel no teatro ou no cinema.

Na nossa terra sempre se brincou e jogou, à bola, ao alho, ao prego, ao ringue, às linhas, às bolas, ao arco, ao ping-pong, às cartas, aos matraquilhos, ao bilhar, ao não-te-irrites, às malhas, às prendas, à berlinda ou ao passarinho de alcatrão. Brincava-se no Verão, na praia, nas ruas enfeitadas, à volta da fogueira, e, em particular, pelo Carnaval.

Salvo erro, foi Napoleão que disse que o melhor da História são as anedotas, ou seja, as peripécias engraçadas. E a verdade é que, com a passagem dos anos, nas cavaqueiras entre amigos, vamo-nos apercebendo de que as brincadeiras da nossa mocidade constituem o núcleo mais persistente das nossas recordações.

De facto, se é verdade que na nossa vida há um tempo para cada coisa, sem perdermos a noção das proporções e das conveniências, não é menos certo que não vale a pena levarmo-nos demasiado a sério pois tudo é efémero. Por isso, a tradição da brincadeira se tem mantido, embora vá assumindo formas diferentes, os tempos são outros.

Em Sesimbra, o Carnaval era o palco natural da paródia, com as partidas clássicas dos rabos, dos badalos, dos telefonemas misteriosos, dos pós de espirrar e tantas outras.

Porém, o que sempre me apaixonou foi o repentismo, o rasgo súbito da fantasia, da improvisação ditada pelas circunstâncias do momento. Por vezes, havia alguma pontinha de maldade, mas é mesmo assim, tem de haver uma vítima. Certa vez formei parelha com o J. que colocava, silenciosamente, no chão uma lata de conserva amarrada a um cordel que, na outra extremidade, tinha uma mola da roupa. O meu papel era prender essa mola no casaco da “vítima” que ia arrastando a lata, para gozo da malta. Um de nós ia acompanhando e, se a marosca era detectada, pisava a lata. A mola caía, recolhia-se o cordel, apanhava-se a lata e desandava-se rapidamente. Às tantas, o belo J. aspirou a maior protagonismo e quis ser ele a prender a mola. Ainda estou a ver, foi junto aos degraus do adro da farmácia de cima, a “vítima”, uma mulher de língua afiada. O J. aproximou-se pé ante pé, braço tenso, gesto cauteloso. No momento em que ele ia cravar a bandarilha, ou seja, prender a mola no cinto do casaco, eu não resisti. Velhaca e traiçoeiramente, atirei a lata aos pés da mulher que se virou, num salto de susto e surpresa. Ao ver o J., de mola na mão, boca aberta de medo e de raiva, a “vítima” arrematou-o dos pés à cabeça, sugerindo mesmo sítios onde poderia enfiar a mola. Confesso e reconheço a deslealdade, mas foi um momento inesquecível, a partida dentro da partida, coisa infame que me passou pela cabeça. Mas que gozo me deu!

Numa tarde de 3.ª feira de Carnaval, em 1967, na esplanada do Central, a ideia surgiu, inesperada e fulgurante. Meia hora depois, da arrecadação do pai Rasteiro, saía um grupo de turistas estrangeiros de visita a Sesimbra, com um guia-locutor (um japonês ia filmando para a TV) e um pescador-intérprete “pilaglota”. Tudo começou com uma entrevista ao velho Jul Mouco, à porta, perante a curiosidade dos populares (como dizem na televisão) que começavam a juntar-se. A seguir descemos até à nossa tertúlia, a taberna e a barbearia do mestre Adelino, palco e fonte de mil malandrices arrebatadoras. A rua chamava por nós, o cortejo engrossava, a pantomina assumia proporções delirantes. E fomos andando, parando aqui e ali, interpelando este e aquele, dando rédea solta à nossa imaginação e à nossa irreverência. As ruas encheram-se de gente, intrigada, suspensa, seduzida, na expectativa de piruetas, réplicas e tréplicas, tudo ao sabor dos encontros e da nossa louca improvisação. Foi um triunfo retumbante, uma imensa paródia, uma tarde memorável. Felizmente, restam as fotografias, já que o microfone era uma batata com um fio de cordel e a máquina de filmar do “japonês” uma caixa de papelão com um canudo…

Um ano antes, o almirante Américo Tomás veio inaugurar a Marconi, e o cortejo, ao descer, passou em frente do Espadarte, interrompendo o restante trânsito. Na circunstância, vinha o Manel António a meu lado, no jipe que o Carlos Farinha tinha a bondade de me emprestar. De repente, mal o cortejo acabara de passar, enfiámos atrás e eis que o Manel se põe de pé, toalha enrolada na cabeça em genuíno turbante, e braços abertos, agradecendo os aplausos que os “populares” continuavam a dispensar à comitiva. A poucos metros dos últimos motociclistas, a brincadeira podia ter saído cara. Mas correu tudo bem e foi outra rábula saborosa, repentina e ousada. Era um tempo feliz que nós saboreámos com a avidez de quem pouco tinha, a não ser o sol, o mar, alguma fantasia e uma bela amizade. Hoje, a caminho dos sessenta anos, como fugir a alguma nostalgia dos anos sessenta? Felizmente, graças aos desafios deste e de outros Eventos, graças sobretudo a um grupinho admirável que estamos a consolidar, alguns de nós vão envelhecendo mais devagar, com um sorriso, recordando aventuras, revivendo brincadeiras, apalpando rábulas…

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* Publicado no n.º 17 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2002.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 47



Dúvidas*

António Cagica Rapaz

Por vezes, muitas vezes, pergunto a mim mesmo se devo continuar a escrever este tipo de crónicas, não sei se agradam, não tenho a certeza. Não é falsa modéstia, não é apelo disfarçado a felicitações, aplausos, manifestações de simpatia como as que o velho Salazar encomendava. Apenas sucede que muitos indivíduos se mostram carregados de certezas e eu sempre tive muitas dúvidas. Ao longo da minha vida, talvez por ser do signo dos Gémeos, tenho feito equilíbrio, um pé num lado, outro pé algures em mundos diferentes onde por vezes me senti fora de jogo, com ou sem razão. Ainda hoje me sucede, na rua, no metropolitano, olhar à minha volta e perguntar a mim próprio o que faço aqui em Paris, longe de Sesimbra, da pedra alta, do capitão Domingos, do Chico Patrício, da Toca do Ratinho, dos caracóis do Gil, do Carlos Farinha, do mar, sobretudo do mar…

Sempre tive muitas dúvidas e tenho-as neste momento sobre o interesse que possa ter para o leitor este arrazoado sobre as minhas dúvidas. Duvidam?

Não duvidem, é verdade, tenho dúvidas…

Desde que me conheço tive dívidas e tive dúvidas. As dívidas paguei-as, as dúvidas conservei-as porque não há dinheiro que as pague.

Com os anos, fui fazendo certas coisas, seguindo determinados caminhos e fiquei sempre na dúvida se fiz tudo quanto estava ao meu alcance, se fui o mais longe que pude ou se, pelo contrário, podia ter feito melhor. Sempre a dúvida, a alternativa, a hesitação, a duplicidade e no último instante um sinal, uma luz, uma porta, uma flecha a indicar o caminho.

Às vezes rio sozinho vendo à minha volta certas personalidades falando francês, evoluindo num universo normal para eles mas onde eu me sinto, por momentos, como um intruso. É verdade, sinto-me à vontade, exprimindo-me numa língua que não é a minha mas que domino bastante bem.

Porém, a seguir atravessam-me o espírito imagens e figuras de Sesimbra, de outro universo tão diferente que imagino o que seria uma mistura dos dois. E sorrio, discretamente, acho curioso quando vejo o filho da Amália Come-figos a ser recebido, sozinho, em audiência privada pelo Ministro do Interior, Charles Pasqua. Eleito em 16 de Março de 86, fui recebido em 25 de Abril, das primeiras pessoas certamente que o Ministro recebeu. Com esta minha mania de escrever tive uma ideia e escrevi-lhe. Confesso que fiquei surpreendido que me recebesse pessoalmente e tão depressa.

Não lhe perguntei se já comeu carapaus secos ou se já foi ao mar dos Ursos, mas confesso que são coisas que me passam pela cabeça. Ou eu não fosse sobrinho do Justino Come-figos. Devo ter um grãozinho de loucura, mas ainda bem que assim é.

Tudo isto vinha a propósito das dúvidas. Uma das poucas dúvidas que eu não tenho é de que gosto de escrever, isso é certo, gosto de escrever, partindo da convicção (talvez ingénua, crédula e pueril) de que alguém gostará de ler. Por isso escrevo, por essa e por muitas outras razões. A principal é sentir que dou prazer a algumas pessoas ao evocá-las de certa maneira. A razão fundamental que me leva a escrever é, com toda a sinceridade, dar prazer às pessoas que trago a estas colunas e às que lêem. Se lhes dou prazer, também sinto prazer.

Ficamos todos contentes, é uma festa!

É simples, é uma definição banal, natural, sem a menor pretensão intelectual. É um prazer, uma necessidade, manter este contacto com as raízes, com as origens e trazer ao de cima o que me parece e quem me diz alguma coisa de especial. Difícil é arranjar ideias, argumentos, cenários para encaixar as figuras do meu presépio. Se quero evocar o Joaquim Sobral não basta dizer que ele trabalha e mora na Rua Marquês de Pombal por baixo da Carlota parteira. Tenho de construir um enredo, conceber uma história na qual ele terá o seu lugar. Só assim fará sentido e só então o tio Joaquim vestirá o traje que os meus heróis envergam quando os chamo a este palco sem lhes pedir autorização em meia folha de papel selado.

Desta maneira tenho tido um indesmentível prazer ao dar modesto destaque a pessoas de quem gosto e que considero merecerem esta prova de apreço. No fundo, é natural, é o nosso jornal, é a nossa terra, é a nossa gente. Pouco importa se é este e não aquele, amanhã será o outro.
Não sou eu que os valorizo, são eles que merecem e eu apenas sou um instrumento, um manipulador do projector.

O Zeca Simplício era um ás com o microfone, quando apresentava o Amílcar Coelho e os seus sapateados, o Luciano Faria, o António Maquino e o Isac Leão a cantar o «Che la la».
Há tempos, vejam lá vocês, quem havia de dizer, ia eu a caminho do metropolitano, ali ao pé da Rua Auber, ora nem mais, então não querem ver que dou de caras com o Isac que vinha com o filho?

Que na rua Direita, ao entrar no Gás Cidla, eu veja esse homem admirável que é o Duque, nada mais natural. Agora que em Paris, sem mais nem menos, me apareça pela frente o Isac, só visto, contado não é nada.

Eu morra já aqui se é mentira, dê-me já uma coisa, ceguinho seja eu, fique já com a espinhela caída.

É por estas e por outras que surgem crónicas por vezes sentidas e nostálgicas, outras vezes sorridentes, retratos da vida que vivo e recordo, à minha maneira, com o bico da caneta que vou molhando no tinteiro da saudade, chamando aqui como o Zeca chamava ao palco o que de melhor Sesimbra tem, as pessoas de quem gostamos.

Para hoje tinha vagamente pensado contar-vos que sempre fui ver o cantor Serge Reggiani ao famoso Olympia. Quis o acaso que antes do espectáculo, duas horas antes, o encontrasse na rua. Aconteceu. Falámos um bocado e foi para mim um momento de emoção. Serge Reggiani é um grande actor que canta, como só ele pode cantar.

Achei-o muito abatido e tive dúvidas (cá estão elas outra vez) que ele pudesse cantar dali por duas horas, tão débil o senti, um pouco rouco, um tanto gasto pelo tempo, pelo álcool, pela saudade do filho, pela vida.

Mas cantou com a força do desespero, como se fosse a última vez. Foi belo e comovente.
Sofri durante o espectáculo, tive receio de que não aguentasse, estive inquieto e aplaudi cada canção como se fosse um obstáculo que ele conseguisse saltar. Mais um, outro ainda e a sala, de pé, a aplaudir Serge Reggiani com reconhecimento e admiração.

Mas havia no ar um perfume de despedida. Poderá ter sido o adeus, só Deus sabe.

Escrevi-lhe, dias depois, para lhe testemunhar a minha admiração. Não sei se recebeu a minha carta, não sei se algum dia responderá, não tem importância. Importante para mim era escrever, ao grande Serge Reggiani como ao tio Joaquim Sobral. O cantor e o actor só me interessam pelo que, através deles, adivinho ser o homem.

O homem é o nosso denominador comum, é o que conta. O resto é contingência.

Peço-vos desculpa pela extensão de escritos improvisados ao correr da pena que tenho de não saber fazer melhor.
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*Publicado em O Sesimbrense de Maio de 1991.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 38



Dizem que o GATO está proibido de entrar na "Toca do Ratinho"...
António Cagica Rapaz


[da série Reflexões]

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 46




Álcool ou sublimado

António Cagica Rapaz

Tudo nesta vida tem um fim e, por vezes, dou por mim a pensar que não soubemos apreciar devidamente a destreza do mestre Adelino, a carícia do pincel carregado de alvo sabão, o gesto preciso no afiar da navalha, as palestras eruditas sobre o contra-ataque ou a diagonal do Otto Glória.

Talvez não tenhamos dado a devida atenção à maestria com que o patrão Adelino manejava a navalha, com a desenvoltura de um espadachim de opereta. Mal dávamos por nós e estava-se no último acto, escanhoados a rigor e a braços com a temível e derradeira opção: álcool ou sublimado?

Tenho passado noites em branco, vasculhando a memória, forçando a imaginação, sem conseguir encontrar um motivo, um só, que me tivesse levado a recusar sempre o sublimado. À sacramental e dilacerante pergunta, a resposta saía pronta, tonta, precipitada, como quem confessa logo para ter perdão ou castigo mais leve. E era sempre álcool... Porquê?

É verdade que era fresquinho, agradável e dava direito a umas palmadinhas suaves que o mestre nos aplicava com a toalha macia, a rematar a operação. O meu drama é não saber por que recusei sempre o sublimado que tinha pouca saída, como as raparigas menos bonitas que ninguém ia buscar para dançar. Este sublimado é a minha frustração, o brinquedo que não tive pelo Natal, o filme que não consegui ver no Salão, a bola que não me saiu nos rebuçados do Chico da Cooperativa, a máscara que não consegui identificar no baile do Carnaval, um sabor a fracasso sem remissão. Álcool ou sublimado é o refrão de uma cantilena de outro tempo em que as tardes de sábado eram deliciosas e compridas. Ninguém tinha pressa, jantava-se tarde, amanhã é domingo...

Na barbearia havia quem desse a vez para ficar mais um bocado, pela boca da noite adentro, preso à sedução de uma cavaqueira apetitosa, às rábulas do Raúl, aos picantes rumores das comadres, às pantominas que tornavam a barbearia num palco de revista saborosa. As camionetas do peixe subiam a ladeira vagarosamente, Lisboa era longe, a vida era tranquila...

1993

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 42

as crónicas da Eventos...



Feijão com arroz em tacho de barro*

António Cagica Rapaz

Muitas vezes, se calhar sempre, o mais importante não é o acontecimento, mas a imagem que dele formamos no nosso espírito, antes e depois. E neste universo gastronómico, cada um de nós tem as suas recordações e as suas referências. Todos conservámos lembranças nítidas de confraternizações à volta de uma mesa, de uma fogueira, a bordo de um barco ou à sombra de um pinheiro. E conservámos, sobretudo, a imagem das pessoas que nos rodeavam…

A minha infância foi, a espaços, povoada pelas narrativas do meu pai que, entre mil outras coisas, evocava, com saudosa frequência, homéricas e pantagruélicas almoçaradas em que, curiosamente, a comida quase ficava na obscuridade, ofuscada pelo envolvimento afectivo, pelo calor e fulgor da descrição dos preparativos, do ambiente de companheirismo, de pândega fraternal que ganhava esplendores de expedição quando o cenário era o mar e a cerimónia tinha lugar a bordo, no Calhau ou na fascinante lonjura da Arrábida.

Ao domingo, depois do jantar e dos comentários do Lança Moreira, o meu pai ficava à mesa, falava, contava, reconstruía a vida, travejava o tempo. Eu conhecia de cor, não me cansava de ouvir os nomes dos corsários da caldeirada, Franco, Abel Embaixador, Duque, Manilhas, Zé Espada, Artur do Raça ou ainda o sublime Antero do Pão que encerrava as festividades com anedotas, partes gagas e relatos hilariantes. A rábula do camponês e do mestre Rabuge é de antologia, incontável agora, irrecuperável, única, teve o seu tempo, o seu lugar, o seu intérprete, morreu com eles…

Mas, no fundo, será realmente importante definir o que é uma boa caldeirada? Interessará mesmo saber se devemos ou não cozer as batatas à parte? Será útil explicar por que é aconselhável utilizar pequenos recipientes e não um panelão grande, à pescador? Para quê afiançar que o melhor da caldeirada é o fígado de tamboril?

Em verdade, tudo isso é secundário, pois o verdadeiro e supremo valor deste tipo de refeições é constituir um pretexto para convívio. De facto, quando buscamos pormenores de repastos memoráveis, depressa nos apercebemos que eles estão, sobretudo, ligados a pessoas, locais e épocas da nossa vida. O acto de comer não é, em regra, um prazer solitário, antes se enquadra num espírito de partilha e de comunhão, num envolvimento afectivo de que nos ficam, algumas vezes, imagens inesquecíveis. O cenário não é indiferente, naturalmente, mas não é essencial. Uma barca ao largo em dia de sol é sempre um deslumbramento, é verdade. A Arrábida ainda é um cantinho do paraíso, mas o prazer maior é estar com as pessoas de quem gostamos. Por essa razão, nos ficam a todos, cada um as suas, recordações de sabores, de cheiros, de atmosferas que o tempo não apaga. No meu espírito, a carne assada da dona Fernanda, em domingos de Inverno, na Cotovia, representa muito mais do que um primor gastronómico. É um marco no tempo, símbolo de uma generosidade que nunca esquecerei. As sardinhadas ou os carapaus secos na adega do Jorge pertencem a outro registo, igualmente inolvidável, mas de outra natureza.

Da infância, ficou-me o sabor inigualado do feijão com arroz, feito em tacho de barro, da sopa de fava, das fatias albardadas e das costeletas panadas, especialidades da minha mãe. Mais tarde, pelos anos fora, há inúmeros episódios marcantes, desde as bacalhauzadas da vindima até às maravilhosas consoadas em casa do tio Nuno. Pelo caminho fica aquela dobrada comprada na Virgilinda e comida na Maçã, com o Manel Galinho, em casa desse maravilhoso amigo que é o Raúl. Era domingo, chovia e seria mais indicado peixe seco. Mas calhou assim, foi decidido à esquina do Central, e teve o sabor dos impulsos e desejos repentinos.

Recordo ainda o Mário Martelo a grelhar, salpicando com um raminho de salsa a melhor posta de cherne que comi até hoje. O Eduardo trouxe o sublime exemplar para aquela noite de Verão iluminada pelo fogo de artifício da presença da Pepita, no pequeno arraial do quintal do Mário.

Quando vivia em França, e sempre que vinha a Portugal, raramente deixava de jantar com o Manel António, no Bairro Alto, bebendo o ar, comendo o céu de Lisboa, em momentos mágicos de celebração, com uma exaltação que era mais habitual no Manel mas que, nessas ocasiões, era muito provocada por mim, feliz por estar ali e com ele. Era uma verdadeira festa, com o pão e o vinho da nostalgia mais os enchidos da saudade. E uns “joaquinzinhos” que nos levaram a dar uma aula de gastronomia a todos os presentes, naquela abençoada euforia que nos invade em momentos raros da nossa vida. Hoje, objectivamente e sem qualquer parcialidade afectiva, garanto que ninguém faz uma caldeirada, um cozido à portuguesa ou sopas como a Dona Romilda…

Numa óptica menos pessoal e em termos institucionais, pode afirmar-se, sem a menor hesitação, que o cartaz gastronómico de Sesimbra é o peixe, sob forma de caldeirada e de peixe grelhado ou assado, como é mais corrente dizer-se. Paradoxalmente, este peixe assado pode ser um prazer solitário quando nos sentamos à porta, no passeio, à sombra, com o fogareiro ao pé, assando e comendo, comendo e assando petingas, enquanto ao longe se ouve o fado e o mar é um imenso espelho de prata.

Durante longos anos, a maioria das famílias comia sopa, feijão com massa, magras couves, e peixe seco no Inverno, sendo a carne apenas para privilegiados. O chouriço na sopa constituía o único luxo, dava gosto e prolongava a refeição. Aconchegado numa carcaça, convidava a um copito na taberna, antes de uma partida de “não-te-irrites”, esperando o fim do vendaval. É uma imagem, mais uma, esta que me ficou da taberna da minha avó…

Mas o cenário ideal da gastronomia em Sesimbra é o das ruas enfeitadas, um pouco como nos banquetes que encerram cada aventura do “Astérix”. Noutro tempo, o Carnaval era preparado com imaginação, fantasia e febrilidade, na concepção dos trajes e na urdidura dos enredos. Depois, vinham os Santos Populares e era a busca do tema para enfeitar a rua, num trabalho de equipa que aproximava as pessoas, criando uma atmosfera de presépio a cada porta. À volta das fogueiras, havia rasgos de polvo, sardinha assada, caldeiradas e canções de roda.

No Verão de 1969, na rua Joaquim Brandão, um grupo de rapazolas de uma barca teve a simpática ideia de jantar à porta da loja. Indo a passar, com um grupo de amigos, fui convidado e não hesitei. Ainda hoje recordo, com nitidez e prazer, aquela agradável jantarada. Comemos chaputa e imperador, foi uma assada deliciosa, eles ficaram contentes, eu fiquei feliz, foi espontâneo, foi saboroso, era assim Sesimbra.

Ali bem perto, o Deodato e o capitão Domingos fritavam lulas pequeninas, preparavam choquinhos com molho à pé descalço, sob o olhar divertido do Alfredo, enquanto do outro lado da rua, o tio Mário, pai da Celestina, tinha sempre marisco escolhido e um sorriso cúmplice iluminado por uns olhos da cor do mar.

Em Sesimbra comia-se no poial da porta, no passeio, no quintal, na loja de companha, a bordo da barca, com naturalidade, sem pressas nem aviso prévio, chegava sempre para mais um, franqueza à mesa. Se calhar não era bem assim, mas é o que nos ficou ou o que nos apetece recordar. A vida era tranquila, havia tempo, e o mar era um festival permanente com o colorido da chegada das traineiras escoltadas por mil gaivotas numa algazarra que chegava à Galé onde o Márinho fez apetitosas sopinhas de pelim que o Júlio Galgão ainda evoca com alguma melancolia.

A Galé continua a ser um porto de abrigo da amizade e, quando não há almoçarada na loja do Eduardo, lá estão o João e o Paulo a tentar-nos com irresistíveis lambujinhas e mexilhões. O segredo é esse, estamos com a nossa gente. Ainda por cima, é mais que barato, é dado, porque o mar a perder de vista e o céu azul estão incluídos no preço…

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*Publicado no n.º 13 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2001.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 46


Carta ao João Rodrigues*

António Cagica Rapaz

Meu caro João

Não é meu hábito deixar sem resposta uma carta e raramente o faço com atraso. Desta vez, porém, a situação é particular pois estou a escrever-te um bom bocado depois de ter recebido a tua carta. Para ser mais exacto, já lá vão… vinte e um anos. Foi em Outubro de 70, estava eu na tropa, no Porto, no Regimento de Infantaria 6. Ao longo da minha vida escrevi e recebi muitas cartas, mas poucas guardei. A tua conservo-a como um vinho raro que deixamos envelhecer ou um livro precioso que colocamos na biblioteca do salão. É costume dizer-se que toda a carta tem resposta, mas a tua quase não tem, talvez por ser um desabafo, uma confidência, um gesto puro, totalmente desinteressado. E foi uma verdadeira surpresa, primeiro porque não éramos íntimos e, depois, pelas considerações que fazias.

Na gaveta das minhas recordações, o João Rodrigues está na ficha, pertence ao universo Emílio Nero, cujo primeiro expoente era a Mininha, adolescente que eu via passar à minha porta a caminho do colégio do Dr. Costa Marques, com a Maria Emília, a minha prima Lucinda, o Fernando Gaspar e outros. Mais tarde seria uma bela professora primária que os rapazolas porventura terão admirado com o mesmo olhar malicioso do miúdo que eu era nesses tempos de colégio.

Depois, o Emílio Nero evocava no meu espírito o armazém entre os largos do Canino e da Câmara, as ferragens, os materiais de construção, as madeiras, as tintas, o cimento, o Leopoldo de falas suaves e o João Rodrigues de ar grave que não era pessoa que entrasse com frequência na pequena área da minha intimidade. Anos volvidos, abriste a tua loja à esquina da Rua Latino Coelho, a meio caminho entre a «Marisqueira» e o «Pinto e Pinto», ali a dois passos do meu velho amigo Joaquim Sobral. O mestre Joaquim tem a sua ficha, é outra imagem, é a minúscula e acolhedora oficina, os banquinhos de madeira, o cheiro a cabedal, os rouxinóis na gaiola, a frescura da rua lavada com grandes baldes de água à hora a que as mulheres começavam a passar para a praça. É assim que vejo o universo do tio Joaquim Sobral, não me perguntes porquê. É como o Carlos Farinha. Na imagem que dele guardo, é depois do almoço, desce a Rua Cândido dos Reis, junto ao muro da farmácia, de camisola grossa à pescador, a caminho do Central. É assim, são instantâneos que conservei, que queres que te diga?

Na tua loja, eras uma espécie de faroleiro, um olho no café do Alfredo e o outro varrendo de alto a baixo a Rua Marquês de Pombal, caminho que percorri mil vezes menino e Rapaz e, depois, já homem à procura das navalheiras do Deodato e das mil aventuras de verões de fábulas que o Alfredo um dia contará se não lhe der o resmango. Queres outra imagem? Olha, toma lá esta, é o TB, o Torres Batista, que tinha um «pirilau» muito engraçado, barquinho a remos que navegou em águas turvas. Pois o belo Zé Manel, o TB, para mim é o homem dos Gitanes e das lulinhas fritas. O Gitanes é o meu tabaco hoje (um cigarro por dia, sem engolir o fumo) mas foi ele o primeiro que vi com o belo maço da cigana recortada na noite. E foi ele que me levou pela mão a saborear, pela primeira vez, as lulinhas fritas do Deodato, ainda o Alfredo servia no primeiro andar. Foi o meu baptismo na noite do Pinto e Pinto… Gitanes, lulas e Pirilau, aqui tens o TB.

Mas voltando ao nosso namoro, caro João, é verdade que de vez em quando trocámos duas frases, mas os nossos contactos nunca foram assíduos. Por isso me surpreendeu e tanto agradou a carta em que me davas conta da tua satisfação ao leres n’A Bola que me tinha formado em Letras. Dizias-te orgulhoso como Sesimbrense do meu sucesso. Mas bem maior foi o mérito do teu gesto do que o título que consegui.

É muito raro alguém ter a atenção, a gentileza ou certa forma de coragem para fazer um elogio ou felicitar outrem. A crítica destrutiva, a chalaça barata e o gracejo alarve saem com facilidade, são reflexos constantes. Mas uma palavra de apreço custa a dizer, queima os lábios, parece que nos diminuímos ao pronunciá-las. Daí a minha surpresa e sincera admiração pela tua franqueza e pela tua simpatia. No fundo tenho a impressão que, de forma mais ou menos consciente, levamos a vida em competição uns com os outros, desde os bancos da escola. Há uma rivalidade surda e estúpida que nos impede de reconhecer que o Marcos Júlio era um ás na dança, o Alfredo na natação ou o Fragata na bola, sem que as qualidades dos outros nos envergonhem ou diminuam. Este lamentável espírito de concorrência só acaba ou se atenua quando chegamos à velhice, quando varamos a aiola da inveja, quando nada mais temos a provar, quando baixamos os braços, quando nos resignamos, quando depomos as armas e arrancamos as máscaras.

Contrariamente às aparências o Carnaval era tempo de verdades, sem inibições, sem pruridos nem barreiras. Havia muita malandrice, intriga e enredo, mas muita sinceridade também, quando eram murmuradas (como dizia o poeta) «coisas que eu teria pudor de dizer seja a quem for»…

E aqui tens, meu caro João, a expressão da minha admiração um tanto tardia mas que foi tema e pretexto para uma divagação que, espero, não tenha sido enfadonha. Estamos em Outubro, é tempo de Balanças que, segundo os entendidos, se dão bem com os Gémeos como eu. Talvez devesse ter escolhido a carreira de aferidor como o filho do tio Chico Carteiro, aí perto da tua loja. Daqui a vinte e um anos, se vires passar o carteiro, pergunta-lhe se não tem carta p’ra ti, vinda de longe, no envelope da distância e com o selo da amizade…

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* Publicado originalmente em O Sesimbrense de Novembro de 1991.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 37



Será verdade que o Jorge CARAPAU deixou de passar à porta do GATO?
António Cagica Rapaz


[da série Reflexões]

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 45




Flauta

António Cagica Rapaz

Os concertos ocupavam um lugar importante na sua vida, como os fins-de-semana na Praia das Maçãs, a leitura do “Expresso” ou as peregrinações à Feira da Ladra. O concerto era um ritual sagrado, a música envolvia-o, transportava-o, iluminava-lhe o espírito. E dava por si a percorrer com o olhar os diferentes instrumentos, ouvido nítido, identificando sons, antecipando gestos, acompanhando movimentos, reconhecendo inflexões, integrando-se apaixonadamente no universo mágico da música, participando na transfiguração do real quando a orquestra tão depressa lhe parecia emergir das brumas tenebrosas da Escócia como integrar o recorte primaveril de um jardim da Florença.

Sucederam-se as temporadas, sempre no mesmo enlevo, até que, uma noite, o ouvido assinalou, o olhar fixou, o mundo parou. A flauta. Era isso, a flauta, alada, etérea, claríssima, sussurrante, eco de seixos lisos, o ondear fascinante dos cabelos loiros, os lábios doces num sopro suave...

Passou a sentar-se cada vez mais perto do palco, olhos e ouvidos concentrados. Apesar do deslumbramento, ainda foi capaz de observar, com um sorriso, o cerimonial do aperto de mão entre o maestro e o primeiro violino, no início de cada peça e no auge dos aplausos.

Voltou a procurar com os olhos, com todos os sentidos bem apurados, a flauta. Percorreu com ela prados inenarráveis, viu esquilos, duendes, diabinhos atrevidos, cupidos dissimulados, arco-íris, lua cheia, crepúsculos de púrpura e de infinito. E aquela cabecinha loira, aqueles lábios em eterno movimento meigo...

Um dia resolveu esperá-la à saída dos artistas. Comprara um ramo de orquídeas (um bouquet, precisara a florista) e imaginava-se, com delícia, prostrado à sua passagem, deixando que sobre o seu corpo impuro ela caminhasse, serena, graciosa, flauta na mão direita, o vestido branco dispersando as folhas que a brisa da noite fazia esvoaçar.

Sobressaltou-o o ronco medonho de uma moto infernal, e viu a sua deusa enfiar um capacete na bela cabecinha loira, ajustar o blusão de cabedal preto e abraçar com ternurento vigor o tronco do seu companheiro. E a moto arrancou com fragor.

Depositou, melancolicamente, o bouquet na relva e perdeu-se na noite.

Passou a comprar “O Independente” que leva, à sexta-feira, à noite, para a Praia das Maçãs, e vai menos à Feira da Ladra.

Ultimamente, foi visto a jantar, no Bairro Alto, com uma colega do escritório de advogados...

1998

domingo, 13 de fevereiro de 2011

IMAGENS E DOCUMENTOS, 1


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Sesimbra, 9 de Maio de 2009. Átrio da Biblioteca Municipal. António Telmo e António Cagica Rapaz estão à conversa, durante a sessão de apresentação do livro Congeminações de um Neopitagórico, da autoria do primeiro. A objectiva captou a cumplicidade dos olhares trocados entre os dois escritores, amigos sesimbrenses de longa data. Como Cagica nos conta em O Damião e o Deca, foi o filósofo quem o iniciou no bilhar (há, sobre este motivo, uma crónica dos Noventa e Tal Contos que ainda aqui há-de ser publicada) e no xadrez, entre o Central e o Grémio, numa espécie de triângulo que se fechava junto à mercearia do Arménio, na redacção de O Sesimbrense. E é justamente este jornal, em que colaborou, que Telmo, na fotografia, agora generosamente facultada por Pedro Sinde, está a ler. Trata-se da edição de 30 de Abril desse ano, onde publicou o seu derradeiro escrito de temática sesimbrense: Acontecimentos extraordinários na Sesimbra de outrora. Meses antes, em Dezembro de 2008, Cagica Rapaz publicara excepcionalmente naquele jornal, onde, havia quase uma década, deixara de colaborar, uma crónica sobre o Alfredo, do Pinto & Pinto. Também a última que ali viria a dar a lume.

A António Telmo é inteiramente dedicado o colóquio que amanhã e depois de amanhã terá lugar no Palácio da Independência, em Lisboa. O programa pode ser consultado aqui.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 41

as crónicas da Eventos...




Em sede de pedantaria*

António Cagica Rapaz

É perfeitamente natural, compreensível e mesmo desejável que a nossa língua evolua, e tal vem sucedendo por influência de outros idiomas e pela introdução de neologismos ditados pela modernidade tecnológica.

Todavia, é com algum desconsolo que assistimos ao empobrecimento da língua portuguesa, e muito por culpa das individualidades que ocupam os écrans e monopolizam os microfones. Bem ou mal, são essas figuras que ditam as modas, lançam palavras e expressões que os populares (adorável vocábulo tão usado pelos nossos jornalistas) se apressam a repetir constante e tristemente, talvez por comodismo, porventura por necessidade de se sentirem também na crista da onda cavalgada por gente supostamente bem falante. Este seguimento, esta macaquice parola conduz ao alastramento de uma maré negra de frases feitas, chavões e lugares comuns de banalidade, falta de imaginação e, por vezes, asneira crassa.

A primeira tentação, por influência das telenovelas, foi a adopção de termos brasileiros como o insuportável “Tudo bem?”. O mal é que esta expressão não veio juntar-se às nossas. O mal é que ela veio substituir, deitar para o lixo, as múltiplas fórmulas de saudação bem portuguesas como “Passou bem?”, “Como está?”, “Que tal vai isso?”, “Ora viva!” ou “Vai ou não vai?”. Ganhámos uma expressão que não é nossa, a que não somos capazes de emprestar a graça, o tom doce dos brasileiros, e perdemos várias formas bem portuguesas, esvaziando, mutilando a nossa língua. Este é que é o grande problema, aquilo que perdemos por deixarmos de usar e que vai caindo no esquecimento.

Depois, a utilização insistente das palavras e expressões na moda dá lugar a uma linguagem monocórdica, estereotipada, cassete sensaborona. Políticos e jornalistas, a inefável sociedade civil (os outros todos serão militares?), todas essas insignes figuras, em vez de elevarem o nível, colocam a língua no baixo estrato do futebol. E é ouvi-los dizer “nesta altura do campeonato”, “a bola está no campo da oposição” e outros primores de originalidade e requinte literário. O País não tenta reagir, vencer os obstáculos, ultrapassar as dificuldades, recuperar, nada disso. O País, como o clube da bola ou o político em queda, apenas garante que vai dar a volta por cima. A expressão pretende ser moderna, voluntariosa e optimista, mas não passa de uma construção esquisita e reles que, para cúmulo, ocupa sempre (e aqui reside o mal) o lugar de fórmulas correctas e de outro nível linguístico. E o resultado, claro, só pode ser o empobrecimento do nosso idioma. Não admira, pois o futebol é uma mina de coisas bonitas. Os jogadores dizem sempre o mesmo, têm de trabalhar muito, de estar muito concentrados para atingirem os objectivos. Não são erros, são apenas cassetes estafadíssimas que revelam, no mínimo, falta de criatividade. E saturam…

Os jornalistas (?) desportivos não são melhores quando dizem que a equipa que está a perder vai ter de correr atrás do prejuízo, quando ela tem de fazer é precisamente o contrário, ou seja, anular a desvantagem, reduzir o tal prejuízo. Jogador ausente, por castigo, lesão ou opção técnica é, na boca desses inefáveis poetas, uma carta fora do baralho. O conjunto de jogadores é mais conhecido por plantel (o que será?) e sobretudo por “grupo de trabalho”. E é o grupo de trabalho para aqui, o grupo de trabalho para ali. Será que jogar futebol é sequer trabalho? E que dizer da rebuscada “sinalética” em vez de sinal? Também acontece um jogador perder a posse de bola (como se ela lhe pertencesse) quando, prosaicamente, perdeu a bola ou ficou sem ela. O futebol é, como se observa, a locomotiva privilegiada deste arejamento, desta onda de “modernices” catitas que ouvimos a cada esquina. Antigamente, o avançado aparecia isolado. Hoje surge na cara do guarda-redes. Na cara não têm vergonha os que andam a destruir, a manchar a língua portuguesa, sabendo-se da influência que exercem criaturas destas em cujas mãos imprudentes indivíduos põem um microfone. Dantes um defesa intervinha com rudeza, com dureza, com violência, forte e feio ou com excessiva virilidade. Hoje entra com tudo. É uma síntese importada do Brasil (está bem de ouvir) que pode ser sugestiva mas que tem o defeito de todas estas expressões na berra, cansa pela repetição papagueada e atira para o balde do esquecimento as diferentes fórmulas em bom português. Não chega a ser divertido, é apenas cansativo e desolador.

Todos os dias ouvimos dizer que o assunto vai estar em cima da mesa das negociações. Pudera, havia de estar em baixo da mesa?

Ninguém já fala sobre este assunto, este tema, esta questão. É sempre e só sobre esta matéria.

A par do calão mais ou menos reles e totalmente dispensável como bué ou curtir, temos expressões manhosas como “à maneira”, a par de muletas repetitivas como o horripilante “é assim”. De facto, já não há paciência para tão pindérica e supérflua expressão.

Os nossos jornalistas adoram, descrever festas que decorrem sempre com pompa e circunstância. Festividade com pompa, imagino como será. Agora cerimónia com circunstância, confesso que não consigo idealizar. Não haverá nas redacções alguém que explique às criaturas que se trata da pompa própria da circunstância e não a dita e a cuja?

É frequente ouvir-se que a questão se prende com isto ou aquilo. No máximo poderia prender-se a e não com alguma coisa. A não ser que se prenda com arames ou com corda. Que diabo, já não serve dizer-se que está ligada ou relacionada? Será que esta moda se prende com alguma crítica subliminar ao sistema judicial?

Não haverá uma alma caridosa que ensine que não se diz “foi um dos presos que fugiu” mas sim “um dos presos que fugiram”. Ou então “um preso que fugiu”. Este grosseiro erro é ouvido todos os dias, repito, todos os dias, na rádio e na televisão, na boca de gente com cursos superiores (a quê?)…

São os mesmos que traduzem a expressão latina pari passu por a par e passo em vez de passo a passo, de perto ou, literalmente, com passo igual. Para trás ficaram, felizmente, os incontáveis pois e portanto. Mas ainda se ouve demasiados pronto e (pior) prontos.

Três adjectivos ocupam todo o terreno da qualificação, ofuscam e deixam no desemprego todos os outros. São eles óptimo, espectacular e complicado, aplicam-se a tudo. Dantes dizia-se que o filme foi empolgante, que a água estava morna, o almoço delicioso, o tempo agradável, a festa divertida. Hoje só existem dois adjectivos para todos estes casos, óptimo, é tudo e só óptimo, na boca da gente mais fina. As camadas mais rasteiras usam, para tudo, o espectacular. Com sinal negativo, dizia-se que a criança era turbulenta, a estrada perigosa, a viagem atribulada, o jogo difícil. Hoje é tudo e sempre complicado. Desta forma, inexoravelmente, o nosso vocabulário vai minguando. Além de ser fastidioso ouvir constantemente as mesmas palavras…

Na moda está o “desde logo” que raramente é usado a preceito. Também na berra, em vez de “a questão é”, “o que se passa é” ou “trata-se de”, o que é fino dizer é “estamos a falar de”. Hão de reparar…

Com raízes fundas está o “dado adquirido” em vez de certeza, facto, realidade, etc. Não sei onde foi adquirido, se foi dado ou emprestado, mas que é piroso, lá isso é.

Tal como para se dizer que é possível ou que há condições surge sempre o chavão “estão reunidas as condições”. É incontornável, outra deliciosa descoberta.

E agora é tudo “em concreto”. Tal como não basta ser activo, tem de se ser pró-activo, neologismo algo suspeito nestes tempos conturbados dos escândalos da pedofilia.

Talvez por isso, dadas as delicadas e sensíveis questões legais, já cana ouvir o “alegadamente” que funciona como resguardo ou preservativo antes de cada afirmação, revelação ou indicação. Arranjem outra, já chateia tanto alegadamente

O mesmo se aplica ao sinistro “atempadamente”, como se não tivéssemos “a tempo e horas”, na altura própria, em tempo útil, oportunamente, etc.

Tempos houve em que existiam barbeiros, merceeiros, donos de cafés ou restaurantes, pedreiros, electricistas, mecânicos, pintores, construtores civis, etc.

Hoje só há empresários. A palavra enche a boca e o ego dos nossos comerciantes e industriais, seja qual for a sua dimensão. Até o engraxador da esquina se declara pomposamente empresário. Somos realmente um país do faz de conta…

Os políticos são os campeões da linguagem hiperbólica e modernaça, com pérolas como obstaculizar, empresarializar, contratualizar, deslocalizar, direccionar, para já não falar de “economicista”. Durante anos, décadas, séculos, conseguimos viver e compreender-nos, dizendo dificultar, gerir com rigor, contratar, transferir, dirigir e económico. Mas não, é preciso mais sainete, outro estilo. Vai daí, toca a inventar, a recriar derivações. De contrato sai contratar, não contratualizar que viria de contratual. Qualquer dia, aparece um senhor deputado a dizer negocializar em vez do corriqueiro negociar. E os populares vão logo atrás, é incontornável

Talvez por acharem que há falta de verbos, alguns eruditos resolveram, a partir de elenco e alavanca, dar à luz as graciosas formas que são elencar e alavancar. A tais espíritos superiores já não servia dizer enunciar, nomear, indicar ou citar. Não senhor, elencar é mais chique. Depois, impulsionar, incentivar, estimular, apoiar, nada disso serve. Agora gente fina diz alavancar que é palavra bonita, expressiva, soa bem.

Igualmente deliciosa é a preocupação em usar o substantivo em vez do mais que indicado verbo. Dantes, os espíritos simples diziam que “não pagar a multa no prazo traz complicações”. Hoje, dir-se-á que “o não pagamento da multa no prazo (ou será nos timings?) traz complicações. O advérbio “não” é repetida e despropositadamente usado, não junto ao verbo (como lhe compete) mas ligado ao substantivo. Ouve-se e lê-se com frequência “não presença” em vez de ausência, o não respeito em vez de desrespeito. Até já vi escrito ao lado de “o direito de caça”, o direito de não caça. E um reconhecido comentador político afirmava que o mais provável seria a não guerra.

Não se analisa um texto aquando ou na altura da revisão orçamental, mas em sede de revisão orçamental. Os nomes dos árbitros são conhecidos em sede de sorteio…

E já ninguém acompanha de perto nem segue um projecto. Agora só se monitoriza. Alegadamente, é outra elegância…

Hoje não se executa, arranca, põe em prática, leva por diante ou dá início a um empreendimento ou uma acção, só se implementa.

Delirante igualmente é o uso repetido (ou melhor, recorrente) da forma distorcer no sentido de afectar, adulterar, pôr em causa, quando distorcer significa precisamente o contrário, ou seja, endireitar, corrigir, restabelecer.

Nos bons velhos tempos, fazia-se perguntas. Hoje, coloca-se questões. Percebem a diferença? Eu não, e acho ridículo. E incorrecto, porque uma não equivale à outra, são coisas diferentes.

Nada agora é simples ou provável, mas sim líquido. E se não foi pacífico chegar a acordo, isso não significa que tenham andado à tareia. Quer apenas dizer que não foi fácil. Mas fácil não oferece o toque de classe que pacífico parece conferir a quem o utiliza. A verdade é que as figuras públicas influenciam e condicionam os teledependentes, os tais populares que julgam distinguir-se quando repetem tiradas pedantes. E como ninguém aponta a dedo os autores e os instigadores de tanta fatuidade, a degradação continua.

É uma tristeza, mas parece que é assim, é bué da fixe e à maneira

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*Publicado no n.º 25 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2003.