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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 41

as crónicas da Eventos...




Em sede de pedantaria*

António Cagica Rapaz

É perfeitamente natural, compreensível e mesmo desejável que a nossa língua evolua, e tal vem sucedendo por influência de outros idiomas e pela introdução de neologismos ditados pela modernidade tecnológica.

Todavia, é com algum desconsolo que assistimos ao empobrecimento da língua portuguesa, e muito por culpa das individualidades que ocupam os écrans e monopolizam os microfones. Bem ou mal, são essas figuras que ditam as modas, lançam palavras e expressões que os populares (adorável vocábulo tão usado pelos nossos jornalistas) se apressam a repetir constante e tristemente, talvez por comodismo, porventura por necessidade de se sentirem também na crista da onda cavalgada por gente supostamente bem falante. Este seguimento, esta macaquice parola conduz ao alastramento de uma maré negra de frases feitas, chavões e lugares comuns de banalidade, falta de imaginação e, por vezes, asneira crassa.

A primeira tentação, por influência das telenovelas, foi a adopção de termos brasileiros como o insuportável “Tudo bem?”. O mal é que esta expressão não veio juntar-se às nossas. O mal é que ela veio substituir, deitar para o lixo, as múltiplas fórmulas de saudação bem portuguesas como “Passou bem?”, “Como está?”, “Que tal vai isso?”, “Ora viva!” ou “Vai ou não vai?”. Ganhámos uma expressão que não é nossa, a que não somos capazes de emprestar a graça, o tom doce dos brasileiros, e perdemos várias formas bem portuguesas, esvaziando, mutilando a nossa língua. Este é que é o grande problema, aquilo que perdemos por deixarmos de usar e que vai caindo no esquecimento.

Depois, a utilização insistente das palavras e expressões na moda dá lugar a uma linguagem monocórdica, estereotipada, cassete sensaborona. Políticos e jornalistas, a inefável sociedade civil (os outros todos serão militares?), todas essas insignes figuras, em vez de elevarem o nível, colocam a língua no baixo estrato do futebol. E é ouvi-los dizer “nesta altura do campeonato”, “a bola está no campo da oposição” e outros primores de originalidade e requinte literário. O País não tenta reagir, vencer os obstáculos, ultrapassar as dificuldades, recuperar, nada disso. O País, como o clube da bola ou o político em queda, apenas garante que vai dar a volta por cima. A expressão pretende ser moderna, voluntariosa e optimista, mas não passa de uma construção esquisita e reles que, para cúmulo, ocupa sempre (e aqui reside o mal) o lugar de fórmulas correctas e de outro nível linguístico. E o resultado, claro, só pode ser o empobrecimento do nosso idioma. Não admira, pois o futebol é uma mina de coisas bonitas. Os jogadores dizem sempre o mesmo, têm de trabalhar muito, de estar muito concentrados para atingirem os objectivos. Não são erros, são apenas cassetes estafadíssimas que revelam, no mínimo, falta de criatividade. E saturam…

Os jornalistas (?) desportivos não são melhores quando dizem que a equipa que está a perder vai ter de correr atrás do prejuízo, quando ela tem de fazer é precisamente o contrário, ou seja, anular a desvantagem, reduzir o tal prejuízo. Jogador ausente, por castigo, lesão ou opção técnica é, na boca desses inefáveis poetas, uma carta fora do baralho. O conjunto de jogadores é mais conhecido por plantel (o que será?) e sobretudo por “grupo de trabalho”. E é o grupo de trabalho para aqui, o grupo de trabalho para ali. Será que jogar futebol é sequer trabalho? E que dizer da rebuscada “sinalética” em vez de sinal? Também acontece um jogador perder a posse de bola (como se ela lhe pertencesse) quando, prosaicamente, perdeu a bola ou ficou sem ela. O futebol é, como se observa, a locomotiva privilegiada deste arejamento, desta onda de “modernices” catitas que ouvimos a cada esquina. Antigamente, o avançado aparecia isolado. Hoje surge na cara do guarda-redes. Na cara não têm vergonha os que andam a destruir, a manchar a língua portuguesa, sabendo-se da influência que exercem criaturas destas em cujas mãos imprudentes indivíduos põem um microfone. Dantes um defesa intervinha com rudeza, com dureza, com violência, forte e feio ou com excessiva virilidade. Hoje entra com tudo. É uma síntese importada do Brasil (está bem de ouvir) que pode ser sugestiva mas que tem o defeito de todas estas expressões na berra, cansa pela repetição papagueada e atira para o balde do esquecimento as diferentes fórmulas em bom português. Não chega a ser divertido, é apenas cansativo e desolador.

Todos os dias ouvimos dizer que o assunto vai estar em cima da mesa das negociações. Pudera, havia de estar em baixo da mesa?

Ninguém já fala sobre este assunto, este tema, esta questão. É sempre e só sobre esta matéria.

A par do calão mais ou menos reles e totalmente dispensável como bué ou curtir, temos expressões manhosas como “à maneira”, a par de muletas repetitivas como o horripilante “é assim”. De facto, já não há paciência para tão pindérica e supérflua expressão.

Os nossos jornalistas adoram, descrever festas que decorrem sempre com pompa e circunstância. Festividade com pompa, imagino como será. Agora cerimónia com circunstância, confesso que não consigo idealizar. Não haverá nas redacções alguém que explique às criaturas que se trata da pompa própria da circunstância e não a dita e a cuja?

É frequente ouvir-se que a questão se prende com isto ou aquilo. No máximo poderia prender-se a e não com alguma coisa. A não ser que se prenda com arames ou com corda. Que diabo, já não serve dizer-se que está ligada ou relacionada? Será que esta moda se prende com alguma crítica subliminar ao sistema judicial?

Não haverá uma alma caridosa que ensine que não se diz “foi um dos presos que fugiu” mas sim “um dos presos que fugiram”. Ou então “um preso que fugiu”. Este grosseiro erro é ouvido todos os dias, repito, todos os dias, na rádio e na televisão, na boca de gente com cursos superiores (a quê?)…

São os mesmos que traduzem a expressão latina pari passu por a par e passo em vez de passo a passo, de perto ou, literalmente, com passo igual. Para trás ficaram, felizmente, os incontáveis pois e portanto. Mas ainda se ouve demasiados pronto e (pior) prontos.

Três adjectivos ocupam todo o terreno da qualificação, ofuscam e deixam no desemprego todos os outros. São eles óptimo, espectacular e complicado, aplicam-se a tudo. Dantes dizia-se que o filme foi empolgante, que a água estava morna, o almoço delicioso, o tempo agradável, a festa divertida. Hoje só existem dois adjectivos para todos estes casos, óptimo, é tudo e só óptimo, na boca da gente mais fina. As camadas mais rasteiras usam, para tudo, o espectacular. Com sinal negativo, dizia-se que a criança era turbulenta, a estrada perigosa, a viagem atribulada, o jogo difícil. Hoje é tudo e sempre complicado. Desta forma, inexoravelmente, o nosso vocabulário vai minguando. Além de ser fastidioso ouvir constantemente as mesmas palavras…

Na moda está o “desde logo” que raramente é usado a preceito. Também na berra, em vez de “a questão é”, “o que se passa é” ou “trata-se de”, o que é fino dizer é “estamos a falar de”. Hão de reparar…

Com raízes fundas está o “dado adquirido” em vez de certeza, facto, realidade, etc. Não sei onde foi adquirido, se foi dado ou emprestado, mas que é piroso, lá isso é.

Tal como para se dizer que é possível ou que há condições surge sempre o chavão “estão reunidas as condições”. É incontornável, outra deliciosa descoberta.

E agora é tudo “em concreto”. Tal como não basta ser activo, tem de se ser pró-activo, neologismo algo suspeito nestes tempos conturbados dos escândalos da pedofilia.

Talvez por isso, dadas as delicadas e sensíveis questões legais, já cana ouvir o “alegadamente” que funciona como resguardo ou preservativo antes de cada afirmação, revelação ou indicação. Arranjem outra, já chateia tanto alegadamente

O mesmo se aplica ao sinistro “atempadamente”, como se não tivéssemos “a tempo e horas”, na altura própria, em tempo útil, oportunamente, etc.

Tempos houve em que existiam barbeiros, merceeiros, donos de cafés ou restaurantes, pedreiros, electricistas, mecânicos, pintores, construtores civis, etc.

Hoje só há empresários. A palavra enche a boca e o ego dos nossos comerciantes e industriais, seja qual for a sua dimensão. Até o engraxador da esquina se declara pomposamente empresário. Somos realmente um país do faz de conta…

Os políticos são os campeões da linguagem hiperbólica e modernaça, com pérolas como obstaculizar, empresarializar, contratualizar, deslocalizar, direccionar, para já não falar de “economicista”. Durante anos, décadas, séculos, conseguimos viver e compreender-nos, dizendo dificultar, gerir com rigor, contratar, transferir, dirigir e económico. Mas não, é preciso mais sainete, outro estilo. Vai daí, toca a inventar, a recriar derivações. De contrato sai contratar, não contratualizar que viria de contratual. Qualquer dia, aparece um senhor deputado a dizer negocializar em vez do corriqueiro negociar. E os populares vão logo atrás, é incontornável

Talvez por acharem que há falta de verbos, alguns eruditos resolveram, a partir de elenco e alavanca, dar à luz as graciosas formas que são elencar e alavancar. A tais espíritos superiores já não servia dizer enunciar, nomear, indicar ou citar. Não senhor, elencar é mais chique. Depois, impulsionar, incentivar, estimular, apoiar, nada disso serve. Agora gente fina diz alavancar que é palavra bonita, expressiva, soa bem.

Igualmente deliciosa é a preocupação em usar o substantivo em vez do mais que indicado verbo. Dantes, os espíritos simples diziam que “não pagar a multa no prazo traz complicações”. Hoje, dir-se-á que “o não pagamento da multa no prazo (ou será nos timings?) traz complicações. O advérbio “não” é repetida e despropositadamente usado, não junto ao verbo (como lhe compete) mas ligado ao substantivo. Ouve-se e lê-se com frequência “não presença” em vez de ausência, o não respeito em vez de desrespeito. Até já vi escrito ao lado de “o direito de caça”, o direito de não caça. E um reconhecido comentador político afirmava que o mais provável seria a não guerra.

Não se analisa um texto aquando ou na altura da revisão orçamental, mas em sede de revisão orçamental. Os nomes dos árbitros são conhecidos em sede de sorteio…

E já ninguém acompanha de perto nem segue um projecto. Agora só se monitoriza. Alegadamente, é outra elegância…

Hoje não se executa, arranca, põe em prática, leva por diante ou dá início a um empreendimento ou uma acção, só se implementa.

Delirante igualmente é o uso repetido (ou melhor, recorrente) da forma distorcer no sentido de afectar, adulterar, pôr em causa, quando distorcer significa precisamente o contrário, ou seja, endireitar, corrigir, restabelecer.

Nos bons velhos tempos, fazia-se perguntas. Hoje, coloca-se questões. Percebem a diferença? Eu não, e acho ridículo. E incorrecto, porque uma não equivale à outra, são coisas diferentes.

Nada agora é simples ou provável, mas sim líquido. E se não foi pacífico chegar a acordo, isso não significa que tenham andado à tareia. Quer apenas dizer que não foi fácil. Mas fácil não oferece o toque de classe que pacífico parece conferir a quem o utiliza. A verdade é que as figuras públicas influenciam e condicionam os teledependentes, os tais populares que julgam distinguir-se quando repetem tiradas pedantes. E como ninguém aponta a dedo os autores e os instigadores de tanta fatuidade, a degradação continua.

É uma tristeza, mas parece que é assim, é bué da fixe e à maneira

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*Publicado no n.º 25 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2003.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 45




Senhoras minhas*

António Cagica Rapaz

e meus senhores. Foi assim que iniciei a alocução que proferi no Clube Sesimbrense por ocasião da celebração do seu 146.º aniversário. Foi a forma que escolhi para prestar homenagem ao nosso inesquecível professor Artur Maria da Silva Costa e, ao mesmo tempo, dar o tom para a conversa em família para que o Rui Mota me convidou.

Não é minha intenção repetir aqui, por aproximadas palavras, quanto me ocorreu dizer naquela tarde de sábado. É verdade que poucos dos leitores lá terão estado, mas cada coisa tem o seu tempo e a sua moldura. E, se retomo o assunto, é porque se tratou de uma experiência de comunicação que envolvia para mim uma espécie de desafio, um teste a certas ideias que tenho quanto à natureza deste processo curioso e aliciante que é o diálogo imperfeito através desta última página. Já o escrevi muitas vezes, o que tendes entre mãos é apenas um jornal, papel que vai amarelecendo, capacho adiado, artigo perecível, folha à mercê de qualquer Outono menos meigo. Mas é, ao mesmo tempo e paradoxalmente, algo de muito importante, quando nele pomos algo de nós, quando através dele passa a amizade, o desejo de partilhar alguma coisa, sonhos, recordações, ideias, o simples facto de pertencermos a esta terra, a este mar…

Nada disto habitava o meu espírito quando o Rui me telefonou. Sem hesitação, aceitei o convite, e só depois dei por mim a pensar no que iria dizer. No fundo, preocupava-me não saber quais seriam as expectativas da Direcção do Clube, o que esperavam ou desejavam de mim os que me convidaram e os que lá se deslocariam para me ouvir. Como costumo fazer, deixei aboborar, esperei que uma ideia viesse, um caminho se desenhasse. Felizmente, tinha carta branca, pois não me haviam imposto qualquer tema, como por vezes acontece. Na verdade, por mais interessante que possa parecer, um tema pré-determinado constitui um espartilho e um constrangimento. Por isso, confiei no acaso, deixei que o mar traçasse na areia um sinal, um rumo, ou deixasse na rede uma ideia de assunto.

A palavra palestra causava-me certo desconforto, evocava-me os inúmeros discursos a que não pude escapar. A ideia de falar de cátedra não me seduzia, por um lado, por não me achar à altura e, por outro, por preferir um tom mais coloquial.

O professor Silva Costa teria, imagino eu, uma perspectiva algo semelhante. Daí, porventura, aquela forma, remotamente maliciosa, que ele arranjou para retirar parte da solenidade que os discursos carregam às costas. E também para deixar entrever, desde as primeiras palavras, Que não iria ser fastidioso. Assim, resolvi adoptar uma perspectiva algo egoísta e falar de pessoas e de coisas de que gosto, admitindo que tal viesse a ser do agrado dos presentes. No fundo é o que aqui sempre tenho feito, impondo-vos a minha vontade, ao escrever o que me apetece. Mas não é menos verdade que procuro não me afastar do que julgo, adivinho, pressinto (e às vezes sei) ser o vosso gosto. Porque aqui intervém o que penso ser essencial nesta relação que se estabelece entre quem escreve e quem lê, ou seja, a criação de um espaço comum, espécie de pátio de recreio onde os jogos podem ser de palavras, onde cada crónica é apenas uma mensagem lançada ao vento, praia fora, marginal adiante, sinal combinado, pretexto para o que realmente é importante, o encontro entre pessoas. Cada crónica é uma palavra de um diálogo que só se torna efectivo quando nos encontramos à esquina do Central e falamos disto, daquilo, às vezes (não é indispensável) do que escrevi. Talvez por ser Gémeos tenho dualidades estranhas. E tanto gosto de conversar longa e acaloradamente como sou capaz de ausências e silêncios demorados. A escrita ajuda-me a não me deixar arrastar para a ascese…

E assim foi que me apresentei no Clube, disposto a fazer aquilo de que gosto, conversar ao sabor da inspiração do momento. Naturalmente, levei uma cábula, archote discreto para me iluminar o caminho, salvar-me do perigo de ir à via nas marés desencontradas da fantasia que às vezes me arrasta.

O nosso novo e jovem pároco apenas ficou alguns minutos, prometido que estava a missão inadiável. Mas ainda tivemos tempo para trocar duas frases de circunstância, tendo surgido pelo meio o nome do padre João. Com suave franqueza, confessou que muito tem ouvido falar no padre João, embora não tenha dado mostras de agastamento nem preocupação.

Pelo contrário, deu a ideia de querer conhecer melhor a figura do padre João, talvez para compreender as razões da saudade que ele em nós deixou.

Foi porventura este intróito que me levou a recordar outros que li, durante anos, a meias com o Pedro Gonçalves, na missa das crianças, até o futebol, me levar por outros caminhos…

A meu lado, na mesa de honra, como é usual dizer, estava o Dr. Manuel Nabais, meu professor de Português no antigo 5.º ano e que herdou a tremenda responsabilidade de substituir o Dr. António da Costa Marques, homem de grande envergadura, personalidade notável e mestre em várias disciplinas. Peso semelhante terá sentido sobre os ombros o padre Abílio quando veio render o padre João. Não é fácil assumir certas sucessões, é verdade. Não deixa de ser curioso observar que falar diante de um antigo professor foi uma espécie de prova oral, consequência natural das provas escritas que, mês após mês, aqui venho fazendo. Felizmente não dispensei desta oral cuja dificuldade paradoxal residiu no facto de não me fazerem perguntas.
Antigamente, nestas festas de aniversário, mandavam vir o Rui de Mascarenhas ou a Maria Marise. Agora atiraram-me para a boca de cena, naquela sala onde arrastei os pés, dotado que nunca fui da suavidade deslizante do Lucindo ou do Alfredo Filipe, um modelo Astérix, outro tipo Obélix, mas ambos admiráveis dançarinos. Cantar também não é o meu forte, e muito jeito me teria dado levar comigo o Luciano Faria, por exemplo, que tinha das mais bonitas vozes que passaram pela Vila Amália. Ao falar de “coisas que teria pudor de contar seja a quem for”, lembrei-me do João Villaret a dizer José Régio. E lembrei-me do David Saloio, naturalmente, o nosso empolgante declamador de tardes inesquecíveis dos primeiros de Dezembro da nossa Mocidade. Lembrei-me de tudo isso e muito mais, mas a verdade é que estive sozinho perante a curiosidade silenciosa dos prezados consócios que, por me conhecerem, me deviam interrogar sobre a cor do coelho que eu iria tirar da minha cartola de ilusionista do discurso directo.

No fundo, não lhes impingi uma crónica falada nem agora vos faço um relato do que lá disse. Se retomo o assunto é porque, pelo menos para mim, foi uma experiência muito agradável, interessante e honrosa. O mais significativo, a meu ver, terá mesmo sido o que aconteceu depois da alocução.

Enquanto esta durou tive a sensação de estarmos a partilhar alguma coisa, de lhes estar a dizer o que teriam escolhido se tivessem tido possibilidade de escolha. E isto porque, apesar de ser só eu a falar, tive a impressão de ser um verdadeiro diálogo, com réplicas dos presentes em forma de olhares, sorrisos, gestos de cumplicidade. Não se tratou de mérito do orador, apenas terei, porventura, tido a intuição de acertar o passo, de dar a mão ao entrar na roda, de remar em cadência, de estarmos em sintonia. Para, desta maneira, todos juntos, fazermos daquela cerimónia (um bocadinho solene, apesar de tudo) uma pequena festa de família, com certo sabor a consoada. Fiquei feliz por ter contribuído para alguma expressão espontânea de afectividade que julgo ter sido sensível durante o convívio que se seguiu. Não houve apenas a busca da comida, antes vimos conversas animadas, grupos que se formaram e entrecruzaram, certo espírito de fraternidade que me pareceu sincero. Quase havia no ar o perfume do cafezinho do Damião, foi bonito e simples. Afinal, é esta a razão de ser de todos os Clubes.

No fim, fica a dúvida sobre a duração da alocução, se teria valido a pena alongá-la, se não seria maçador ir mais longe. Alguns espíritos mais brejeiros gostariam de ver evocada a peripécia do duelo Ernesto-Zé Brandão, a peixaria face à oficina, pistoleiros da noite saídos do Ribamar dispostos a tudo. Ou o dueto burlesco do passo doble protagonizado pelo Zé António da parteira com o mascarado Zé Albano. Outros, mais propensos ao bucolismo, talvez tivessem apreciado um poema, meia dúzia de apontamentos poéticos, a cheirar a maresia e com música de Carlos Paredes em fundo, não sei.

Talvez um dia, com fogueira à porta, pelos santos populares, fica o alvitre…

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* Publicado originalmente em O Sesimbrense de Fevereiro de 1999.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 36



Em Santana, o Joaquim LEITE, que mora a dois passos do Fernando GATO, correrá algum perigo?
António Cagica Rapaz


[da série Reflexões]

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 44




Quotidiano

António Cagica Rapaz

O telefone tocou com o mesmo som irritante dos outros dias, o mesmo sinal perturbador de sempre. Todavia, desta vez, parecia haver algo de inquietante naquele som estridente.

O senhor Alexandre olhou o aparelho como se o visse pela primeira vez. Estendeu o braço, mas logo deteve o gesto, ficando a olhar o telefone. Nos olhos lia-se toda a angústia que o invadia naquele momento. Os colegas do escritório olhavam-no num silêncio absoluto. Era normal o telefone tocar àquela hora, a todas as horas. Mas se os telefones tivessem alma tocariam de acordo com as mensagens que vêm trazer. E aquele telefone parecia ter alma pois o som arrepiante continuava. Ninguém se atreveu a abrir a boca para dizer ao senhor Alexandre que levantasse o auscultador. Todos estavam possuídos do mesmo estranho terror. Por fim, o senhor Alexandre pegou no auscultador. Houve um suspiro geral de alívio, mas a expectativa não terminou. Pelo contrário, aumentou à medida que o rosto do senhor Alexandre ia exprimindo a preocupação progressiva ditada através do nefasto aparelho. O seu pressentimento tinha, infelizmente, confirmação.

O senhor Alexandre pousou o auscultador, lentamente, como se não tivesse força para o aguentar na queda. Ao desligar o telefone, como que se desligou a ele próprio de algo muito caro, de muito importante na sua vida. Sem uma palavra, levantou-se, pegou no casaco e dirigiu-se para a porta. Um colega correu para ele e perguntou o que se passava. O senhor Alexandre, com voz fraca, apenas pronunciou: - A patroa... E saiu, fechando a porta de mansinho, como se tivesse receio de acordar alguém que já dormia o sono de que se não desperta.

Passados uns dias, o senhor Alexandre ocupava, de novo, o seu lugar no escritório. O telefone tocou. Todos os colegas se voltaram como se uma força misteriosa os impelisse. O senhor Alexandre olhou o aparelho, fechou os olhos por uns momentos e, com firmeza, pegou no auscultador. Falou com a sua voz calma e tratou o assunto. Os colegas recomeçaram a trabalhar, mais tranquilos.

À hora do almoço, o senhor Alexandre pediu desculpa aos colegas por não os acompanhar, como era habitual, e afastou-se, apressadamente. Quase à esquina, ainda o viram comprar um pequeno ramo de flores e apanhar o eléctrico. Quando regressaram, já o senhor Alexandre se encontrava no seu lugar, trabalhando, em silêncio. Tinha os olhos vermelhos...

Durante a tarde não trocou uma palavra com os colegas. Ao sair, recusou delicadamente a boleia que lhe ofereceram e seguiu a pé, lentamente, o olhar perdido no céu que perdia o seu azul. Não tinha pressa de voltar para casa, a noite adivinhava-se sombria. Caminhou durante muito tempo ao longo do Tejo, até parar, olhando os barcos carregados de pessoas apressadas em regressar aos seus lares. Sentiu-se perdido, no meio daquela gente com que se cruzava, evitando-o como um impecilho. Sentiu-se só, dolorosamente só. As pessoas continuavam a passar, os barcos sucediam-se. As luzes já se acendiam, a noite abria os seus braços, espalhava a sua fascinação enquanto o rio ia ficando negro, como o telefone, como o fundo da noite, como a sua vida vazia. Sentou-se na muralha e olhou as águas. Por um momento, o olhar ficou-lhe preso naquele pedaço de madeira que seguia, silencioso e suave, levado pela corrente. Despertou, sobressaltado, quando lhe tocaram no ombro. Virou-se, num impulso, e viu um miúdo com um jornal da tarde na mão.

- Senhor, compre-me este jornal, é o último...

Recusou. Que lhe interessava o jornal? Que lhe interessava o mundo, a vida? O miúdo insistiu:

- Senhor, traz o escândalo, o dopping do Agostinho...

Ele não sabia do que se tratava. De súbito, deteve-se na contemplação do menino. Teria uns nove ou dez anos, um olhar límpido, um rosto expressivo, os cabelos loiros. Adivinhava-se a inteligência, via-se a miséria.

- Está bem, dá cá. Olha, já agora, diz-me, almoçaste hoje?

- Não, senhor, só comi um bocado de pão esta manhã.

- Então, anda daí, vamos jantar os dois, queres?

- Quero, sim senhor. Obrigado.

- Mas com uma condição, tens de me contar aquilo do Agostinho.

- Então o senhor não sabe? Não tem estado cá?

- Não. Tenho andado longe, muito longe daqui...

O senhor Alexandre sorriu. A noite estendia o seu manto sobre as águas tranquilas do Tejo...

Record, 1972

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 40

as crónicas da Eventos...

O Damião e o Deca*

António Cagica Rapaz

O Grémio começava no Central, era mesmo sua a esplanada que acabou ao serviço do Café. Mas ficou tudo em família, os frequentadores do Central eram, na sua grande maioria, sócios do Grémio e a ambivalência quase roçou a concorrência quando o Damião começou a fazer um delicioso cafezinho, de aroma refinado e sabor requintado…

O meu pai era sócio do Grémio e eu entrei na adolescência saltitando entre o Central, onde aprendi a bem jogar bilhar, e o Grémio, onde o mesmo mestre me iniciou no xadrez. A vista do tabuleiro, a concentração, o ar misterioso e transcendente dos jogadores assustavam-me, não me sentia capaz de tais lances cerebrais. Até que, com a sua infinita paciência, o António Telmo me explicou como empinar os cavalos, fazer deslizar os bispos, avançar os peões, servir-me da rainha e proteger o rei. O resto veio com a imaginação e languidez das intermináveis tardes de Verão, embora o pé me saltasse mais para a praia. O Zé Pedro Rasteiro, pelo contrário, era estudioso, aplicado, tomava notas, levava aquilo muito a sério, punha os cavalos a correr, as torres na retranca e os peões à solta. De cartas nunca gostei (excepto as de escrever) e só lhes prestei alguma atenção quando o Damião me ensinou três ou quatro truques inocentes e rudimentares, os únicos que conheço. O Grémio conservava ainda alguma solenidade, sentia-se o peso de figuras destacadas, homens respeitáveis, havia ordem, certo ritual nas actividades, mesmo no Verão quando as janelas se escancaravam sobre a esplanada onde as belas damas veraneantes faziam renda, exibiam os decotes e o bronzeado. Os homens, sócios, amigos e convidados, desciam para uma imperial do António Luís e voltavam para jogar ou conversar, ler o jornal ou ver televisão.

Nada escapava ao olho de lince, à perspicácia do Damião, o que se passava na sala, o que se pressentia na esplanada, o que ia na rua, na praia, na noite. Gavião implacável, o Damião tinha um sexto sentido, um periscópio invisível, um radar infalível, adivinhava o que as cartas escondiam, descodificava gestos e olhares, era um espírito fino, malicioso, discreto, astuto e arguto…

A cultura teve em Augusto Formiga um dos seus vultos maiores e quase me envergonho de ter provocado o seu afastamento da encenação de que tanto gostava. Era Verão, a televisão uma novidade irresistível e havia que ensaiar uma peça que constituía o ponto alto de uma festa de adeus ao padre João, de abalada para a Ericeira. Ora os meus atrasos acabaram por exasperar mestre Formiga que abandonou o palco da Vila Amália a uma semana do espectáculo, apenas com um único dos três actos sabidos. Ficou o João Salgueiro com as “Mãos Vermelhas” (era o título da peça) para ensaiar e aplaudir o nosso padre João.

Foi uma maldade bem menos intencional do que os pós de espirrar que, certa vez, lancei do alto do tecto, do forro, sobre os jogadores de póquer. As culpas (tal como os pós) caíram sobre os ombros do Alfredo Filipe…

O gosto pela pantomina e a alergia às cartas inspiraram-me uma farsa memorável realizada inopinadamente, certa tarde de modorra, com a cumplicidade do Zé Adelino. Sentámo-nos a uma mesa e começámos a dispor as cartas num misto de paciência, canasta ou algo que o valesse, para mim tudo era chinês. Deixámos correr a fantasia, dando cartas, ordenando cartas, fingindo ganhar e perder, comentando, discutindo hipotéticas irregularidades, numa simulação surrealista e desenfreada, sob o olhar atónito e intrigado de vários associados que tentavam compreender o incompreensível, sem o conseguirem, obviamente, mas sem quererem dar o braço a torcer, nunca admitindo não conhecerem o jogo que nós estaríamos a praticar. Até que um, menos hipócrita, perguntou que raio de jogo era aquele, ao que eu respondi, seca e desprendidamente, tratar-se do Deca. Novo silêncio embaraçado, ninguém ousando reconhecer que desconhecia tal jogo nem perguntando quais eram as regras, apenas seguindo as nossas loucas jogadas. No auge da expectativa, levantámos ferro e saímos porta fora. O Deca nascera e morrera naquela tarde…

Mas o sinal mais visível da presunção vigente era a obrigação grotesca e inflexível do uso de fato e gravata nas noites tórridas de Carnaval. Para fugir a essa ridícula tirania, eu costumava mascarar-me de “Tó Manel”, ou seja, à vontade, manga curta, usando com único e frágil disfarce um mascarim minúsculo que mal cobria o contorno dos olhos. Ora, certa vez, por essas quatro da manhã, e como ter mascarim ou nada era igual, resolvi tirá-lo. Eis senão quando se precipita sobre mim um “ayatollah” da Direcção, guardião do templo da virtude, de galões em riste, lançando-me um ultimato fulminante: ou repunha o mascarim ou ia vestir fato e gravata. Felizmente o ridículo não mata, senão o Grémio seria um vasto cemitério…

Mais grotesco ainda foi terem-me aplicado uma repreensão registada por ter cometido o sacrilégio de ter entrado na sala de boné na cabeça, facto que muito indispôs os prezados consócios que praticavam o salutar desporto do sintético. Como me censuraram o atrevimento e a audácia de forma quase histérica, resolvi ignorar as injunções. E não tirei o boné. Convém referir que nunca, a não ser naquela noite, andei de boné, na minha vida. Comprara-o em Paris e foi uma inocente brincadeira tê-lo posto…

Enfim, malhas que a hipocrisia tece mas que não chegam para destruir no meu espírito a imagem impressiva de belas partidas de xadrez, de conversas de fim de tarde, antes da lota, dos elegantes bailes de Verão, do passadiço até ao Central, do saboroso café do Damião, com um cheirinho a enigmáticas ilusões, um impalpável perfume a escândalo de veraneio, da chegada do Diário Popular com os ecos da última proeza do Agostinho na Volta à França. Foi esse o meu Grémio, com o convívio e a aprendizagem como amigos como o Raul que hoje, milagres dos ciclos da vida, é rapaz da minha idade. É esse o meu Grémio, com os seus excessos, sim, mas sobretudo com o seu inquestionável sortilégio que quero conservar no registo da memória, com prazer e saudade, entre as diagonais dos bispos, uma vitória única, inesquecível, do Fernando Cardoso sobre o Alberto Ló, a sensualidade e os mistérios cultivados pelas máscaras de um Carnaval inconfessável, a par da pantomina impagável do Deca…

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*Publicado no n.º 23 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2003.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 44



O Duque*

António Cagica Rapaz

A lota antiga à sombra protectora da Fortaleza, a água transparente da prainha, o calhau da Mijona, a festa do Cabo, a procissão das Chagas, as ruas enfeitadas, o café do Zé Filipe, o Central, a Marisqueira, o Pinto & Pinto são cartazes da nossa terra, imagens tradicionais do universo típico da nossa vila com os seus atractivos naturais, o ardor religioso e a alma boémia.

A nossa terra é tudo isso, as praias, as ruas, os becos e recantos, as tradições, os usos e costumes, as crenças mas, sobretudo, as pessoas. São elas a alma de Sesimbra. A lota, mais do que o peixe estendido, era o diálogo vibrante entre pescadores, vendedores e compradores sob o olhar contemplativo dos curiosos pendurados no muro.

A Marisqueira é o Tony com a dispepsia crónica, as gargalhadas pantagruélicas e as mangas arregaçadas. O Pinto & Pinto é (ou era) o Alfredo, regedor de uma freguesia inesquecível desde o Domingos ao Baeta, do Zé Manel Torres Batista ao Zi, gerações sucessivas de filhos da noite a quem o Deodato matou a fome de aventura e evasão com sandes mistas de amizade e «rusmango».

Sesimbra teve (e conserva algumas) figuras típicas, daquelas que marcam uma época. A minha visão de Sesimbra e dessas personagens foi-me dada por meu pai que povoou as noites da minha infância com narrativas rocambolescas, colorias, saborosas, que iam desde partidas de Carnaval a caldeiradas na Arrábida, de bailes de máscaras a jogos do Pátria, de guerrilhas entre monárquicos e republicanos a sessões de hipnotismo na loja do Câncio. De tudo isso o que mais profundamente ficou gravado no meu espírito foi o sentimento de amizade, de camaradagem. É certo que à volta de uma mesa com caldeirada ou sardinhas assadas e bom vinho, o ambiente tem de ser de festa, a laracha é fácil, a fraternidade espontânea, o juramento fluído.

Porém, dessa superficialidade sem compromissos marcantes algo fica pela vida fora, uma cumplicidade, um espírito salutar, uma lealdade subjacente. As histórias que o Antero do pão contava, com uma graça irresistível, provocavam barrigadas de riso que rebentavam com os cós das calças e faziam sair bocados de «cães-de-monte» pelo nariz.

Era o tempo em que Sesimbra era uma praia de raros banhistas, com o Numância inteiro, carregado de aventura, objecto de curiosidade dos remadores dos charutos do tio Abel. O meu pai tinha um escaler do qual guardei uma fotografia onde se vêem igualmente dois dos seus grandes parceiros de então: o Franco e o Abel Embaixador. A maior parte desses amigos só os conheci de longe, de baixo para cima com os olhos tímidos da minha meninice e sob o efeito da embriaguez das narrativas em que esses homens atingiam a dimensão de personagens míticas.

Mas um conheci eu de facto e por ele sempre tive grande admiração: é o caso do DUQUE. Em Sesimbra, o Duque é uma figura, uma personalidade, uma instituição. Homem de traineiras, do mar, é igualmente uma chama viva de franqueza, generosidade, desassombro, alguma irreverência. E um coração enorme.

Na doca, no Central, no Grémio, na rua Direita, em toda a parte, o Duque é o mesmo, honesto, sorridente, bonacheirão, um grande senhor sem artifícios nem brasões postiços, só com a verticalidade do trabalho e a nobreza do carácter invulgar.

As marés vão e voltam, a Fortaleza permanece altaneira e firme sobre os troncos que a sustentam, o Castelo resiste aos invernos expressivos, mas os homens são frágeis e têm a memória fugidia. Por isso vamos passando ao lado de homens de uma grandeza insuspeita na indiferença da rotina. Cruzamo-nos sem nos olharmos de frente, sem o tempo de um abraço. Quem, como eu, vê Sesimbra através dos filtros do tempo e da distância destaca mais nitidamente os contornos, retoca a imagem das pessoas, avalia a importância das coisas. E da massa sobressaem uns quantos a quem presto a minha modesta homenagem. Não partilhei as caldeiradas na Arrábida mas guardei uma certa ideia da vida e dos homens, formada a partir das evocações do meu pai. E, tal como ele, eu gosto do Duque, da sua simplicidade benigna e autêntica de Homem de alto a baixo.

Contrariando a tirada popular, o azar do meu pai foi que, no jogo da vida, não lhe tivessem saído mais Duques…

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Publicado originalmente em O Sesimbrense de Fevereiro de 1983.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 35



O padeiro anda radiante, o negócio melhorou desde que a patroa foi para o balcão. Vistosa, insinuante, simpática, atrai a clientela, especialmente a masculina. O padeiro, agarrado ao forno, vê multiplicarem-se os pães e os bolos, amontoarem-se os lucros.
A mulher é o sorriso equívoco, decote atrevido, promessa de pão, amor e aventura...
Os homens rondam, o comércio prospera, o padeiro resolve comprar segundo forno. As comadres olham de soslaio, as línguas tornam-se insolentes, a breve trecho toda a gente murmura, só não vê quem não quer:
o padeiro tem um par de fornos...
António Cagica Rapaz


[da série Gente, Nomes...]

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 43


O Central
António Cagica Rapaz

O Central era o café por excelência, conservador, tradicional, sede das forças vivas da terra, da burguesia recatada, o médico, o chefe das Finanças, o doutor da Alfândega...

A sua imagem estava muito ligada à do Grémio, colectividade um tanto aristocrática de que parecia constituir um prolongamento ou um anexo. Durante anos só os grandes patrões da pesca eram sócios do Grémio, não os comuns camaradas. No Central, em contrapartida, muitos clientes eram pescadores, como o Jorge Coxo, o Leste, o Pai de Céu, o Eduardo Submarino ou o Papa-Rebuçados.

O Central era uma segunda casa, com uma grande sala onde cheguei a passar dias inteiros a jogar bilhar, a conversar, a conviver. Era o ponto de reunião de amigos do meu pai, companheiros de paródias da sua juventude, episódios que eu conhecia de cor.

Na confluência de sete ruas, o Central fica junto à mercearia que também pertencia ao senhor Arménio, irmão do tio Chico da Cooperativa, o mundo é pequeno. Ao lado da mercearia, ficava a sede de “O Sesimbrense” e, mais abaixo, a oficina do Brandão onde as marteladas repicavam em sinal de vida e actividade, na quietude da rua Direita. A oficina tinha já um cheirinho a mar, a porto de abrigo, com os pescadores a entrar e a sair, acompanhando o andamento das reparações dos motores. Os mecânicos, de fato-macaco azul manchado de óleo, vinham sentar-se no passeio em frente da mercearia, à rabeça, na hora do almoço. Era a pausa rotineira para tantos homens que tinham o vagar de almoçar em casa, beber um cafezinho e dar dois dedos de conversa, antes de voltarem, tranquilamente, ao trabalho. Homens que não se apercebiam de que o mar, a essa hora, estava menos azul e menos enrugado do que de manhã. Mas que viam o tempo a escoar-se lentamente até ao fim da tarde, quando as barcas voltavam do mar e a lota ganhava animação.

O Central era o senhor Arménio, de mão no colete, chapéu atirado para o alto da cabeça, passo vagaroso e tacada suave em bolas de marfim que guardava em caixa pessoal. Era também a figura bíblica do sô Zé, com o cabelo todo branco, a voz suave, o humor fino, o olhar observador, atrás do balcão.

De Inverno, o Central era a atmosfera acolhedora dos domingos de manhã, o vozeirão do doutor Maurício, o perfume do café, a barbinha feita, um certo ar de festa, a voltinha ao Espadarte, a visita ao mar.

De Verão, era a sombra do Grémio e das árvores, a animação da esplanada, o colorido dos chapéus de sol, o bailado incessante das bandejas com imperiais e bicas, ao despique com o cafézinho do Damião. A esplanada era ainda o tempo adormecido, entre as rendas das senhoras e a conversa arrastada, na amenidade do crepúsculo.

O Central era o coração de Sesimbra, degradou-se com o tempo, perdeu nobreza e dignidade, está cansado, arrasta-se como os últimos passos do sô Zé, carregados de melancolia.

Mas será sempre o Central. E lá ficou um pedaço de mim...

1981

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 39

as crónicas da Eventos...



Nova corrida, nova viagem*

António Cagica Rapaz

Não sei se, como diz o poeta, viajar é preciso, nem sei dizer, com rigor, o que é uma viagem. A nossa vida é certamente uma viagem, mais longa ou mais curta, com mais ou menos peripécias, mas sem sombra de dúvida uma viagem que começa e, em geral, termina sem que nos peçam a opinião. Aliás, não sabemos se termina pois o que aparenta ser o fim pode ser apenas o início de uma nova viagem, bem mais demorada, eternidade fora…

E esta reflexão sobre o tema da eventualidade de uma vida depois da morte é só por si uma viagem fascinante, mesmo que nunca cheguemos a conclusões irrefutáveis. Naturalmente, cada um é livre de acreditar no que entende e de exigir provas concretas e indiscutíveis. Pessoalmente, julgo que nunca se chegará a apresentar factos totalmente convincentes porque tal significaria o fim do mistério e do livre arbítrio. Embora eu esteja muito longe de ser entendido em tão profundo tema, ainda assim atrevo-me a dizer que, para mim, faz sentido que as coisas permaneçam nesta esfera de indefinição, entre uma nuvem de interrogação e uma névoa de dúvida, apesar de haver uma montanha de indícios e sinais dignos de interesse e reflexão. Algumas pessoas, como eu, talvez ingénuas, espíritos fracos, acham que eles são suficientes e flagrantes, mas outras continuarão firmes na exigência de dados irrefutáveis e não arredarão pé do seu cepticismo. Sempre foi e continuará a ser assim…

Não sou, obviamente, autoridade no assunto, e apenas por curiosidade confesso que acredito na vida além da morte. Sem ela, esta existência terrena não faria qualquer sentido, seria uma monstruosidade, um absurdo, uma aberração, tantas são as incongruências, as injustiças e as desigualdades. Mesmo que não dispusesse de um razoável arsenal de pistas (como possuo) continuaria a acreditar, simplesmente porque essa perspectiva me agrada, me parece lógica, natural e infinitamente mais agradável do que aceitar que tudo acaba no cemitério. Confesso que tenho dificuldade em perceber como se pode viver resignado ao final definitivo e irremediável do balde de cal…

Mas o importante não é anunciar que se tem uma convicção ou uma ideologia. O que conta é o que nós fazemos (ou não) com as nossas ideias. Ora a expectativa perante o que nos espera após a morte poderia influenciar a nossa conduta ao longo da viagem que é a vida terrena. Pelo menos, poderia ensinar-nos a olhar o mundo que nos rodeia, as pessoas e as coisas, de outra maneira, numa perspectiva diferente. Deveria ensinar-nos a apreciar o que tem verdadeira importância, o que vale a pena nesta vida. Mas tal não acontece, é a natureza humana. Para muitos o que conta é possuir, adquirir bens materiais, passando ao lado de coisas bem mais valiosas como o amor, a amizade, a fraternidade, a solidariedade, a alegria de uma convivência saudável, a partilha de sentimentos e afectos.

Para alguns, importantes são as pretensas honrarias, as medalhas, os diplomas, as condecorações, os títulos, os sinais externos de evidência, de hipotética relevância, de aparente importância. E fazem desta viagem uma caça ao suposto tesouro constituído por tais panóplias, com sofreguidão, egoísmo e cegueira.

No carrossel da nossa infância, havia sempre nova corrida, nova viagem. E o homem do carrossel “Ribatejano” recordava igualmente que não subíssemos nem descêssemos com o carrossel em movimento. “Deixem parar, fazem favor”, rematava ele, sem ter a noção de que, na sua lengalenga de anos e anos de feira, resumia uma implacável filosofia de vida. Hoje um, amanhã outro, os nossos amigos vão-nos deixando, vão descendo com o carrossel em movimento. Nós vemos, temos consciência, sabemos, até os acompanhamos na última viagem, ao cemitério. Mas fingimos que não é connosco, voltamos para o carrossel, agarramo-nos ao pescoço da girafa, olhamos em frente, e a roda volta a girar sem que aproveitemos para olhar em volta, reflectir sobre o sentido daquela correria desenfreada.

De tanto olharmos em frente e para cima, por querermos ser mais altos, mais fortes, mais ricos, não vemos a ternura no olhar do nosso amigo que teria ficado feliz se tivéssemos parado uns minutos para com ele trocarmos duas frases.

A nossa vida é feita de múltiplas viagens e escrever também é uma viagem, uma dupla viagem, dentro da nossa cabeça e ao encontro do leitor. A palavra é mão estendida a quem nos lê, gesto de esperança na partilha de um tema, de um tempo, de uma emoção em que o texto é apenas pretexto. No poço fundo dos nossos sentimentos, das nossas recordações, dos nossos medos e dos nossos anseios, dos nossos sonhos e da nossa fantasia, buscamos assunto para redacções como esta em que, afinal, só procuramos companheiros para a viagem que é a vida. Na nossa ingenuidade e na nossa ânsia de compreender o sentido das coisas, até nos atrevemos a filosofar sobre temas tão inacessíveis e transcendentes como são a vida e a morte.

A vida está cheia de coisas simples e belas, e o amor é a mais maravilhosa das viagens. No entanto, para a maioria, o conceito de viagem sugere mais deslocações à Tailândia ou à China, voltar com filmes, fotografias, provas de que estiveram lá.

São passageiros frequentes, vedetas de projecções comentadas em serões com amigos, cada um mais viajado do que o vizinho, heróis de aventuras organizadas, gente que cumpriu um alto desígnio, viu mundo. Outros sonharão, porventura, com o Tibete mas acabam em Benidorme enquanto alguns se ficam por angustiadas travessias do Tejo, com análises e outros exames na mala, consultas marcadas. O Tejo não é o Ganges e as radiografias não proporcionam projecções charmosas. A cada um suas viagens…

Há quem, diariamente, percorra a marginal, de ponta a ponta, a pé, em tributo ao mar, saboreando o nosso sol, bendizendo a felicidade de ter nascido nesta terra.

Conservo imagens nítidas das minhas primeiras viagens, a abalada de Sesimbra, do largo da Igreja, às seis da manhã, rumo às Caixas, com o Pintassilgo ao volante da velha Panhard do Covas. O galo do tio Meano esperava por nós, era um deslumbramento, um filme que revejo mil vezes na tela das minhas recordações. Mil outras viagens fiz na minha cabeça ao longo das múltiplas etapas entre Lisboa e Coimbra, no comboio correio ou semi-directo que demorava sete intermináveis horas.

Talvez por não ter sido habituado a viajar por prazer e recreio, fui aprendendo a apreciar este mar, estas árvores, estas ruas, algumas pessoas, o que me rodeia. Poderia, lá bem no fundo, fazer como tantos e sonhar com Maldivas, Hawai ou Maurícias, mas não. Talvez tenha ficado saciado de viagens ouvindo as narrativas do meu pai, marinheiro de guerra que cruzou os mares para acabar em terra, naufragado em pedreiras desastrosas. Teria gostado, isso sim, de o ter acompanhado em inesquecíveis expedições à Arrábida, com o Duque, o Antero e os outros. No fundo, é mais esse o meu registo, proximidade e pacatez, sem filmes, sem compras em bazares de turistas, sem troféus nem autocolantes de hotéis nas malas.

Em verdade, não aspiro a safaris nem a cruzeiros, sou mais de ir ao reminho pela borda d’água…

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*Publicado no n.º 25 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2003.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 43



Chagas*

António Cagica Rapaz

É o cunhado do Alfredo, vive de noite, quase não come, basta-lhe o cheiro da cozinha do seu «Ribamar».

Se há fado em Sesimbra, se o folclore se faz ouvir, muito se deve ao dinamismo do Chagas que tinha, ele próprio, uma bela voz.

Hoje a cantiga é outra, um trabalho duro atrás do balcão, um esforço de muitos anos, um entusiasmo inquebrantável, uma fibra enorme num corpo que desaparece na camisa branca de mangas curtas.

Todos os fadistas conhecem o Chagas, já cantaram na sua casa que, em Sesimbra, é a catedral do fado. Menos vinho, mais whisky, parafusos.

A casa é pequena mas bonita. O folclore vem para a rua, de arquinho e balão lá vai a marcha.

O Chagas gosta de se ouvir ao microfone; explica aos turistas o tema do fado, eles não percebem nada, sorriem, batem palmas, o Chagas agradece e volta para o balcão. Quando o fado se cala e nem o eco perdura, o Chagas vai beber um copo a casa do Alfredo onde os filhos da noite vão morrer antes do dia nascer…

Junho 74

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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica "Quando morre a madrugada - Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite".

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 34



Ingénua, aceitou a sugestão do namorado e acompanhou-o até aquele sítio isolado, em noite de luar. E assim se tornou uma mulher perdida, na serra da Achada...
António Cagica Rapaz


[da série Gente, Nomes...]

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 42



Carnaval

António Cagica Rapaz

Nos anos cinquenta e sessenta, a sociedade portuguesa regia-se por normas, regras e valores bem diferentes dos que hoje predominam. As mentalidades eram mais rígidas, a influência da Igreja muito mais sensível, e o Carnaval surgia como um curto período de libertação de convenções, espartilhos morais e preconceitos sociais. E, sem cair em exageros, Sesimbra divertia-se...

O meu pai contava-me brincadeiras de gosto mais ou menos duvidoso, roubos de galinhas, besuntadelas mal cheirosas no corrimão do Grémio ou na fechadura da porta de determinado senhor que costumava colar os lábios no orifício para chamar pela mulher. Todos nós pregámos partidas nem sempre muito recomendáveis, mas era assim, é Carnaval não se leva a mal.

Com o tempo, acabamos por ver as coisas com outros olhos e, muito provavelmente, o R. não voltaria a queimar aquele pedaço de malagueta numa tampa de caixa de pomada para o calçado. Foi no Grémio e o fumo asfixiante e tóxico produziu efeitos tais que o R. chegou a ter receio, perante o quadro dantesco de olhos inflamados, tosse, espirros e outras ventosidades ruidosas que deixaram prostrados alguns prezados consócios.

Recordo-me de ter subido ao sótão do mesmo Grémio e ter despejado cá para baixo pós de espirrar sobre a mesa à volta da qual se disputava animada partida de “sintético”. O festival de espirros, imprecações e recriminações foi indescritível, tendo o Alfredo Filipe escapado por uma unha negra ao linchamento.

O mesmo lhe sucedeu em tarde chuvosa, num Central fechado e cheio de fregueses encostados aos bilhares numa cavaqueira que os pós de espirrar transformaram num inferno. E também desta vez o Alfredo estava inocente. Outros pecados teria, porventura, por confessar...

Estes episódios ocorriam com frequência naquele triângulo das Bermudas localizado entre o Grémio, o Central e o estabelecimento do mestre Adelino. A taberna e a barbearia constituíam um autêntico covil de malandrice, palco e fonte de brincadeiras hilariantes, o lápis do Lopes, os rabos pendurados a preceito e, sobretudo, os porta-moedas pregados no alcatrão. As mulherzinhas do campo vinham vender à praça montadas em burros de que desciam para deitar a mão ao porta-moedas. Logo a impiedosa rapaziada saltava, gritando em coro “Larga! Larga!”, o que provocava a cólera e o despeito das pacatas camponesas que perdiam a cabeça e nos insultavam abundantemente, sugerindo até locais onde poderíamos meter os ditos porta-moedas.

Um dia, quem caiu foi o bom João Vaivém que se baixou para apanhar um relógio. No calor da reacção, o Zé Júlio gritou “Larga, urso” e foi multado em trezentos mil réis que a irmandade ajudou a pagar.

Escasso é este espaço para tanta libertinagem, pelo que aconselhável se torna passarmos ao capítulo dos bailes, prato de resistência do nosso Carnaval. Dificilmente se poderá contestar que, naquele tempo de austeros costumes, os bailaricos eram a grande oportunidade para aproximações entre pessoas do sexo oposto, a pretexto hipócrita de um passo de dança. Em verdade, era (sobretudo para raparigas e mulheres) a ocasião tão desejada de dar largas a todo um leque de apetites, sedução, intrigas, mistérios, mistificações, enredos e aventuras mais ou menos arrojadas, chamemos as coisas pelos nomes. A máscara desinibia, dava confiança, soltava as línguas, estimulava a imaginação, alargava horizontes, excitava os sentidos, dava corda ao diabinho que existe em cada um de nós.

Porém, os casos de maior atrevimento não passavam de inocentes brincadeiras quando comparadas com o que vemos nos dias de hoje, à nossa volta, à luz do dia, de cara destapada, o ano inteiro...

Por isso, o que ficou em nós foi, sobretudo, a recordação de um clima mágico, de excitação e fascinação, expectativa e fantasia, com o engenho e a irreverência das raparigas que faziam, elas próprias, os trajes que depois trocavam por forma a porem a cabeça à roda aos rapazolas atrevidos. Mil episódios haveria para contar, a peça de cerâmica do Júlio Mouco, o cartucho de papel, com água, com que a Maria Vitória assustou o António Vidal, a ida da Carlota parteira a minha casa, os telefonemas intrigantes, eu sei lá.

Ficaram para a história quadros deliciosos como o Zé António da Parteira a dançar, desvairadamente apertado, mordendo o lábio, com uma máscara que não era outro senão o Zé Albano.

A magia burlesca do Carnaval atinge um alto expoente no engano em que viveu durante três noites uma figura grada da terra, o Doutor J., que dançou e tentou seduzir uma máscara que, afinal, era a velha D., magra, seca, enrugada, mulher a dias do serviço do próprio Dr. J.. A tia D. comeu, bebeu e dançou durante três noites, Cinderela galhofeira. Brincou realmente ao Carnaval e ajudou a consolidar aquilo que era a sua essência, o mistério e a ilusão...

2000

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 38

as crónicas da Eventos...



A pena do poeta*

António Cagica Rapaz

Trinta é número redondo e desafio para balanços e retrospectivas que cada um de nós é livre de fazer à luz das suas convicções, das suas ilusões e de fragilidade de uma memória caprichosa e pouco isenta. Por isso, dificilmente haverá um dia uma visão abrangente e consensual do que foi, ou terá sido, o chamado 25 de Abril.

No labirinto das velharias do largo da Marinha, adquiri recentemente um livro do insuspeito e consagrado poeta José Gomes Ferreira que me forneceu o mote para este apontamento. A certa altura, naquilo que define como uma autocrítica de um revolucionário de consciência dorida, diz o poeta: Fizemos a Revolução sem a estudar. De cor. Resultado: falhámos e foi pena. A História vai ficar diminuída. Embora os versos possam permitir duas interpretações de sentidos opostos, há uma inequívoca ideia de frustração. E sendo conhecida, como é, a militância do poeta, podemos pensar que ele lamenta que a revolução não tenha ido mais longe, ou seja, que a foice não tenha chegado tão fundo quanto ele ambicionava e que o martelo não tenha pregado a partida com que sonhava. Todavia, José Gomes Ferreira acabou por escrever direito por linhas tortas. De facto, os que cavalgaram o golpe militar e tentaram transformá-lo numa revolução, falharam. E ainda bem que falharam. Em verdade não sei se a História terá ficado diminuída, o que sei é que a versão idílica que alguns vates andam há trinta anos a entoar é que não terá sido exactamente uma odisseia de cravos nem uma epopeia de povo unido.

Primeiro, conviria, porventura, apurar quem levou a cabo o golpe militar. E porquê. O povo, o tal povo heróico, estava a dormir naquela noite, como vinha fazendo há muitos anos. Em vez de dizermos onde estávamos no 25 de Abril, seria melhor confessarmos onde e como andávamos no 24 de Abril…

Ninguém duvida, foram os militares que fizeram o golpe. Mas porquê? Não é segredo nem novidade que os militares conviveram com o regime de Salazar e Caetano, foram mesmo o seu sustentáculo ao longo de décadas. Por isso, haverá que distinguir duas consequências maiores do golpe militar. Uma foi o derrube do regime, é verdade, mas tal só terá acontecido como resultado da outra que foi o fim da guerra do Ultramar. Este sim, terá sido o objectivo essencial, por que toda a gente, o país inteiro, por muitas e óbvias razões, queria ver terminada uma guerra devastadora e injustificada que começou na Primavera de 1961. Até essa data, os militares tinham-se mantido ao lado do povo, talvez, mas igualmente, ao lado do regime. Porém, a partir do início da guerra, os candidatos à Academia Militar começaram a rarear e, a certa altura, os capitães do Quadro não eram em número suficiente para as comissões de serviço numa África para onde eram mandados rapidamente e em força. Resultado (como diria o poeta), o regime foi obrigado a recorrer aos milicianos, processo que teve início em 1970, salvo erro. Ora, esta coexistência entre capitães milicianos e do Quadro depressa deu lugar a conflitos e reivindicações resultantes do facto de os capitães de carreira, os profissionais da guerra, se encontrarem, em termos de vencimentos e das prerrogativas, em pé de igualdade com os incipientes capitães milicianos, maçaricos, aprendizes nas artes do golpe de mão e da emboscada. Terá, pensam alguns, começado aí o descontentamento dos futuros capitães de Abril. Ao mesmo tempo, é bem sabido que uma comissão de serviço no Ultramar era a sorte grande para muitos oficiais superiores (entenda-se, de major para cima) que ou ficavam nas cidades (na guerra do ar condicionado) ou não saíam dos aquartelamentos, correndo poucos ou nulos riscos.

Ao passo que aos capitães outro galo cantava, eles iam mesmo à luta, eram carne para canhão. Por isso, esta disparidade acabou por pesar muito na tomada de consciência de que algo teria de mudar. Não foi por acaso que a guerra se arrastou durante tantos anos. De facto, isso só foi possível porque assim o exigia o regime, mas igualmente porque convinha aos tais oficiais superiores. Muitos deles, mal voltavam de uma comissão, só pensavam na seguinte, ansiedade que pude testemunhar quando cumpri serviço militar na Defesa Nacional. Por eles, a guerra teria durado muito mais tempo, e só não aconteceu assim porque os capitães resolveram exprimir o que hoje seria designado por direito à indignação. A face visível desse descontentamento terá então tomado a forma de reivindicações salariais que, segundo muitos observadores, terão sido a causa principal do golpe. E isto porque Marcello Caetano se recusou obstinadamente a satisfazer tais pretensões. Parece não haver a menor dúvida de que Marcello estava a par de tudo. Neste capítulo, posso revelar dois pormenores interessantes. Na tarde do dia 24 de Abril estive nos estúdios da RTP, no Lumiar, onde Marcello era esperado para gravar mais uma “Conversa em Família”. Para surpresa geral, o homem não apareceu. É verdade, sou testemunha. Anos mais tarde, um coronel do nosso Exército garantiu-me (sem revelar nomes) que, nesse mesmo dia 24, três oficiais superiores foram recebidos por Marcello a quem asseguraram que se concedesse os aumentos salariais exigidos pelos capitães, o golpe ficaria sem efeito. Marcello, pela última e decisiva vez, não cedeu. Segundo a mesma fonte, Marcello acreditava que o golpe lhe seria favorável. Enganou-se. Ou foi enganado…

Depois, foi o que se sabe, o povo saiu à rua e fez a festa. A quase totalidade dos soldados não sonhava sequer com o golpe, mas nem por isso deixaram de armar em heróis, deixando crescer barba e bigode, plantando cravos na boca das G3 e passeando nos carros de assalto, quais afadistados Guevaras saídos na Farinha Amparo.

É verdade que foi uma indescritível alegria, um alívio e uma bebedeira de liberdade. Aquele 1.º de Maio foi luminoso e feérico, ficará certamente na nossa memória colectiva. Mas logo a populaça amorfa e acobardada começou a pôr-se em bicos de pés, como uma vendedeira que, de mão na anca, no dia 26, ao microfone do repórter da RTP, e num trejeito de provocação, ameaçava: “A gente não pede nada. A gente agora EXIGE”. Era o povo no seu melhor, o mesmo povo que ocupou casas, julgou amigos de infância em abjectos tribunais orquestrados por comissões de revolucionários moradores. O 25 de Abril foi para todos nós um dia glorioso de sol e de esperança num futuro melhor. Foi muito bom ter acontecido, fossem quais fossem as causas próximas ou remotas. Mas, por favor, acabem com as histórias da carochinha e com a farsa do lobo do 24 que milagrosamente se transformou em cordeiro ao acordar na manhã de 25 de Abril. Muitos desses lobos, os ferrabrasses das ocupações de casas, das prisões arbitrárias do Copcon, dos crimes das FP25, muita dessa boa rapaziada ainda anda por aí. E há feridas que nem trinta nem trezentos anos chegarão para sarar. Não basta trazer Abril na boca e um cravo na lapela para se ser um democrata, tal como não chega envergar capa vermelha atrás da procissão para garantir um lugar no reino dos céus. É preciso que haja memória, coerência e dignidade. Porque Abril é para celebrar com moderação, sem sectarismos requentados nem visões maniqueístas.

Diz o poeta que fizeram a Revolução sem estudar. Pois foi. Melhor fora que tivesse sido um movimento pensado, reflectido, preparado, planeado, como seria de esperar de verdadeiros militares. Poderia ter sido o fruto de uma amadurecida e genuína tomada de consciência cívica e política. Se assim tivesse sido, muita coisa teria corrido melhor, a começar por uma descolonização que todos deviam saber que seria o difícil, melindroso e inevitável capítulo seguinte.

Mas, pelos vistos, a revolução não foi estudada. E falhou. Para o poeta foi pena, para o povo português nem tanto. Porque o povo português, na sua provável ignorância mas com um instinto implacável, festejou ruidosamente o fim da guerra e a queda do regime, mas não perdeu a lucidez e, na Fonte Luminosa, soube dizer não à revolução para a qual muitos poetas e falsos profetas nos queriam arrastar.

Posto isto, ninguém é dono da verdade e cada um vê o 25 de Abril como entende. Porque esta liberdade, até de pensar de forma errada e de exprimir opiniões controversas, é a grande conquista de Abril…

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*Publicado no n.º 30 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2004.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 42



Alfredo*

António Cagica Rapaz

Há muitos na terra desde um que foi polícia passando pelo outro que se ocupa dos apartamentos a dois metros de profundidade, até ao Alfredo equivocamente conhecido por Pinto e Pinto. Podia ser o Alfredo Alfredo, mas é o Pinto e Pinto.

Ao princípio era a mercearia do tio Alfredo (pai do dito) que nos difíceis tempos em que não havia porto de abrigo nem radar e os vendavais eram longos, abastecia, a crédito, muitos dos prósperos clientes de hoje.

Do copo de vinho e do bagacinho passou-se à bica e ao brandy e este Alfredo é um símbolo da permanência simples e cordial de antigamente a par da modernidade multifacetada. A sua casa cheira a mar, não o mar dos Ursos mas um mar sem nome que está na alma da gente. Um mar que alguns clientes trazem em si e outros levam ao partir. Outros, ainda, ao partir, levam a barriga cheia de cerveja e marisco pois é para isso que o Alfredo tem a porta aberta.

O Pinto e Pinto entrou na lenda da «dolce vita» de Sesimbra. É o Verão que enche a casa de clientes, trabalho, ruído e dinheiro. O Verão e o sol fazem a vida comercial da terra e as delícias dos turistas, principalmente estrangeiros. O Alfredo teve um princípio difícil, tem trabalhado muito e começa a respirar mais tranquilamente agora. A casa tem sempre clientes porque, para o Alfredo, o Bexiga ou o Domingos são tão bons clientes como o rico inglês que vem comer lagosta durante uma semana. Quando o Baeta engata nas suas gargalhadas intermináveis não pergunta primeiro quem são os fregueses. O Deodato prepara os mexilhões com aquele molho especial, sempre com o mesmo cuidado. Se o Alfredo é o homem-chave, o patrão da casa, a verdade é que o Deodato faz mais falta do que a cerveja. À falta desta bebe-se vinho, mas sem o Deodato nada feito. Não presta, o Deodato?!…

O problema, é a «ursa no estame» (também conhecida por úlcera no estômago) que o obriga à tortura de preparar petiscos deliciosos para os outros enquanto ele bebe leitinho que faz muito bem à ursa…

Quando a noite começa a morrer nos outros refúgios de boémia, o Pinto e Pinto é a tenda dos milagres, o oásis apetecido, a hospedaria do viajante fatigado. É o último copo antes da deita, é o prego para recuperar energias perdidas nos tentáculos da noite. A Guarda Republicana não sabe onde vão operar os ratos de automóveis mas sabe a que horas deve passar para mandar o Alfredo fechar a porta. A vizinhança protesta contra a algazarra dos filhos da noite. Hoje e mais logo há o seu desacato mas tudo passa porque ninguém passa sem vir morrer ao Pinto e Pinto.

O Alfredo deita-se quando o sol começa a querer raiar por trás das rochas do Caneiro. Quando o Deodato dá de beber à ursa já é dia claro. Decididamente, este Pinto não se deita com as galinhas…
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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica "Quando morre a madrugada - Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite".

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 33



Maria da Arrábida, Valdemar Laranjeiro, Augusto de Alfarim, Manel Santana, Zé Azóia, João Caparica, tudo gente da nossa terra...
António Cagica Rapaz



[da série Gente, Nomes...]

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 41




Os Maurícios

António Cagica Rapaz

Quando os Maurícios chegaram a Sesimbra um vento novo soprou no Colégio do Costa Marques. A nossa terra não estava habituada a ver desembarcar assim, de forma definitiva, tão grande família. No Verão, sim, era a costumada invasão dos alentejanos, com uma carrada de filhos, a pele tisnada e o sotaque vagaroso.

Os Maurícios eram uma catrefa, um regimento de saltimbancos coloridos, ruidosos e simpáticos. Fiquei deslumbrado com a camarata em que foi transformado o quarto, camas sobrepostas, um certo ar de caserna numa casa que marchava à voz de comando do patriarca Maurício, com o seu nariz arrebitado, a boquilha de quilómetro e o Peugeot 203 que ancorava à porta do Central às onze e meia da manhã, já almoçado. Comia-se cedo em casa dos Maurícios, e o Central aquecia com a chegada do comprido Doutor cujo vozeirão enchia de pavor o suave sô Zé da fala mansa.

O Afonso seria o mais doente e entusiasta, mas todos eles eram da Académica e traziam consigo um perfume nostálgico de Coimbra, cheiravam a capas e batinas lendárias, a choupal outonal. O Henrique ofereceu-me um minúsculo emblema da Briosa e talvez tenha nascido assim o meu sonho de Coimbra. No fundo, todos quantos estudávamos e jogávamos à bola sonhávamos com a Académica, mas vestir um dia a camisola preta era tão irreal, estava tão longe dos nossos horizontes como as aventuras do Luís Euripo, do João Tempestade, do Bronco Bustin, do Rúben Quirino, do Jerry Spring, do Cisco Kid, heróis do Condor Popular de que cheguei a ter uma razoável colecção ofertada pelo Manel Elisbão.

Menos o Luís, que era meu parceiro de turma, mais o Henrique e, sobretudo, o inefável Afonso foram despertando em mim aquele desejo secreto. Juntamente com os exemplares do “Condor Popular”, recordo-me de ter tido um ou outro número da colecção “Ídolos do Desporto”, entre os quais o de um jovem macaense chamado Augusto Rocha, um jogador genial que era o menino bonito de Coimbra, cidade maravilhosa, universo mítico de greves estudantis de 61, com o sortilégio das capas negras e o romantismo das serenatas. A Académica era a irreverência, a transcendência de um futebol diletante, claques apaixonadas, a mística e o sonho. Com o Afonso a descrever e a retocar aquele mundo admirável, o sonho foi crescendo.

Quiseram o acaso e o destino que acabasse por ir para Coimbra e para a Académica onde viria a encontrar-me com o Afonso que me levou a casa dos tios em cuja família entrei e de que continuo a fazer parte, pela grande amizade que nos liga.

O Luís e a Luísa já nos deixaram, o doutor Maurício teria hoje muita dificuldade em estacionar o Peugeot 203 em frente do seu café, o nosso Central, o Henrique raramente vem a Sesimbra, o João e o Jorge tornaram-se verdadeiros pexitos enquanto o Afonso se esconde no campo, poucas vezes nos dando a alegria da sua presença e da sua imaginação exuberante.

Era uma grande família, foi-se fragmentando com o tempo, ficam-nos as recordações aqui e ali reavivadas, como sucedeu em Oliveira do Conde, com o admirável Jorge, cenoura simpático, senhor de fino humor, um grãozinho de fantasia, a encantar o tio António e a enternecer-me quando evocou a figura do pai Maurício. Vieram, ficaram, são dos nossos, os Maurícios...

1992

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 37

as crónicas da Eventos...



Super-homens*

António Cagica Rapaz

Na penumbra do velho salão do João Mota, presos à intriga do filme policial ou arrebatados pelas proezas do Robin dos Bosques, mal dávamos pela presença do bombeiro a nosso lado, deslocando-se silenciosamente, colado à parede, como os detectives privados na peugada dos criminosos.

Do outro lado, um polícia igualmente discreto completava a dupla de segurança que nos permitia ver a fita descansados. As suas silhuetas, diluídas no escuro, acabavam por nos chamar à realidade, agora e mais logo, arrancando-nos à magia do cinema, interrompendo o sonho, por vezes, mas tranquilizando-nos também a meio de algum filme de terror.

Era um pouco o que sucede quando, madrugada alta, temos uma vaga consciência de estar a sonhar e hesitamos entre prolongar a viagem virtual e despertar. Por vezes, deixamo-nos levar, flutuamos, andamos à roleta na borda d’água suave, macia, envoltos na espuma de uma semi-fantasia controlada, com um pé no sonho e outro na realidade. Em qualquer momento podemos pôr um termo à evasão, não corremos riscos, é uma preguiça deliciosa.

E, tal como no cinema eles exerciam a vigilância, garantiam a tranquilidade e representavam o nexo com o mundo real, assim ao longo das nossas vidas nos habituámos a que os bombeiros sejam os nossos anjos da guarda. Talvez nem sempre lhes demos o devido valor, quase acabamos por achar que é normal tê-los assim, perto de nós, sempre atentos, disponíveis e dedicados, como se tal nos fosse devido. Chegávamos a invejá-los porque viam os filmes de graça, e talvez tivesse nascido no salão, da fantasia e da fascinação do cinema, a imagem mítica que, inconscientemente, fomos construindo à volta da figura do bombeiro. Em muitos filmes de aventuras e acção empolgante (como anunciava invariavelmente o Filipe) o herói era um cidadão comum que, de repente, se transformava em Super-Homem, Capitão Marvel ou Zorro, para nosso deslumbramento e admirativo entusiasmo.

Da mesma maneira, aquele bombeiro, de capacete, cinto largo com fivela forte e machado de Viking (sobretudo um calmeirão como o Westerman) no lusco-fusco do salão, acabava por se aproximar do universo de quimera da tela e ganhar aos nossos olhos de miúdos uma dimensão impressionante.

Depois, no dia seguinte, era o regresso à banalidade do quotidiano, desfazia-se o encanto quando, na rua, víamos o Zé Tucha a vender castanhas, o Albano de fato de ganga, a fazer aiolas, o Aldeia na oficina, de fato macaco, ou o Emídio no talho, de avental branco. Os heróis forjados pela nossa ingénua fantasia na penumbra do cinema voltavam à trivialidade das suas ocupações rotineiras, embora atrás da porta estivessem sempre a postos a farda e o equipamento, tudo pronto para a acção comandada pelo lancinante silvo da sirene que punha a vila em alvoroço.

Mal esta soava, toda a gente vinha para a rua, num reflexo ditado pela curiosidade e pela angústia. O ritmo e a cadência do toque indicavam se o fogo era na vila ou no campo, e logo os homens corriam de farda na mão, capacete enfiado no braço, em direcção ao quartel dos Bombeiros, situado lá no alto, longe para quem tem de subir e pressa de acudir.

Os tranquilos e modestos cidadãos tornavam a ser os destemidos defensores das nossas vidas e dos nossos bens, como se uma simples farda azul e um capacete lhes transmitissem energia, audácia, destreza, coragem e abnegação por artes mágicas.

Podemos interrogar-nos sobre as motivações profundas que levam estes homens a colocarem-se ao serviço dos seus semelhantes de forma generosa e por verdadeiro altruísmo. Talvez retirem alguma satisfação dos olhares de reconhecimento e admiração que lhes são dirigidos, o que é normal e mais do que compreensível. É natural que se sintam felizes por contribuírem para o bem-estar dos seus conterrâneos, e é muito provável que se sintam transformados quando a sirene chama por eles. Aquela farda aparentemente banal dá-lhes certamente um ânimo e um ideal reforçados porque os investe de uma responsabilidade nova, os torna, muitas vezes, braços do destino, agentes de vida, combatentes da morte, da destruição e da desgraça.

É uma missão transcendente, um desafio repetido mas sempre novo, um mundo de expectativa, temor e ansiedade que se abre diante deles a cada toque de sirene. E o contacto com a farda, o afivelar do capacete, um gesto simples pode ser o suficiente para transformar o pacato carpinteiro machado num lutador audaz e infatigável.

Mas, contrariamente aos heróis do cinema, os nossos bombeiros não actuam isoladamente, não são heróis solitários. Pelo contrário, muita da sua força e da sua intrepidez deve-se ao espírito de corpo, à união, à fraternidade e à solidariedade que constituem o cimento que conserva e reforça o carácter, a grandeza e o ideal desta corporação humanitária.

Há dias, na Cotovia, um menino dizia-me, com recatado orgulho, que toca caixa na fanfarra dos Bombeiros. E a irmã, pouco mais velha, também. Quando vemos grande parte da nossa juventude agarrada à televisão, presa a computadores e, às vezes, à droga, é reconfortante ficar a saber que ainda há jovens capazes de abraçar causas e valores como os dos Bombeiros.

Nunca serão super-homens como os heróis de ficção da nossa meninice, mas é bom que sejam generosos, sinal de que nem tudo está reduzido a cinzas, que ainda há quem conserve o fogo sagrado, o único que os nossos bombeiros se recusam a combater…

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*Publicado no n.º 26 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2003.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 41


A Tia Luzia*

António Cagica Rapaz

“Faleceram no nosso Concelho no período de 23/1/85 a 27/2/85 as seguintes pessoas: Luzia Vitória, Caixas, etc.”.

Assim começava a rubrica “Falecimentos” do nosso número de Fevereiro.

É assim a informação fria, distante, quase impessoal. Aqui a dois mil quilómetros, recebo desta forma uma lista de falecidos e tento ligar os nomes às pessoas o que raramente consigo.

Desta vez não fui além do primeiro nome da lista: Luzia Vitória.

Para a grande maioria dos leitores este nome nada evoca. Quem é esta Luzia Vitória das Caixas? Eu conto.

Mais do que uma vez me têm perguntado onde vou buscar os temas destas crónicas breves que tendes a paciência de ler. Ora eu penso que a resposta está aqui nesta situação concreta. Há num jornal notícias secas, despidas de sentimento, áridas, agrestes por vezes. São os dados estatísticos ou as publicações dos cartórios notariais. Mas o Jornal é o espelho da terra, tem de preocupar-se com a nossa terra e nesta nada é mais importante do que as pessoas. As ruas com buracos, os abusos camarários, os problemas de trânsito, tudo isso é acessório, secundário, insignificante quando comparado com as pessoas que, boas ou más, são a alma da terra.

Ora pessoalmente julgo que pouco nos preocupamos com as figuras da nossa colectividade. Tratamos de política a nível local e (exageradamente) a nível nacional, fazemos artigos teóricos sem apontar a dedo os que se distinguem negativamente, sem chamar as coisas nem as pessoas pelos seus nomes.

Por isso procuro fazer desfilar por estas colunas pessoas que, na minha opinião, merecem um certo destaque, pelo que são, pelo que valem, pelo que fazem, pelo que significam, pelo que representam a meus olhos.

É evidente que a admiração que eu possa ter por determinada pessoa não tem forçosamente de ser partilhada pelos leitores.

Por outro lado, não é sequer importante que aquilo que eu conto seja inteiramente verdadeiro. Posso até inventar personagens, pintá-las com as cores da minha imaginação e da minha sensibilidade. O leitor não deve preocupar-se com a autenticidade nem com o fundamento das minhas narrativas. A única cosia que deve contar para ele é se a crónica lhe agrada ou não, se lhe dá ou não prazer o que escrevo. Por isso, quando eu falo do meu amigo Alfredo (do Pinto e Pinto) não é para vos dar a notícia da nossa amizade (que pouco vos interessará) mas sim para evocar uma certa atmosfera vivida numa época recente à luz de tonalidades suaves, tudo descrito de forma que possa tocar a vossa sensibilidade. A amizade é um pretexto à partida e o objectivo é um testemunho que constitua um pedaço de prosa saboroso. Essa é a minha intenção.

Dizia-me o Manuel António há tempos que dera a ler a uma amiga uma crónica intitulada “A telefonia”. Ora essa amiga (que não conhecia Sesimbra), depois de ler, confessava que tinha a sensação de ter conhecido a taberna da minha avó Sabina, de ter ouvido os fados nostálgicos da Amália em noites de verão ameno e de ter ouvido o mar rugir em frente da rua dos Pescadores. A ela pouco importa se a minha avó existiu ou se chamava Sabina. O que conta é o que se lê, se agrada ou não, se evoca ou não, se cria ou não um clima, um estado de alma.

Eu sei que há pessoas em Sesimbra que não conhecem o Jorge Patrício nem o Chico. Sei que alguém disse preferir que eu evoque pessoas conhecidas. Ora a verdade é que não se trata de citar nomes apenas por citar. Importa que as pessoas em questão inspirem condições particulares. Aliás, a partir do momento em que as evoco, elas entram, de algum modo, na esfera da fantasia, deixam de ser o que eram para se tornarem personagens dos meus folhetins ingénuos. O Capitão Domingos deixa de ser o Domingos Nogueira para se tornar no Super-Homem das praias, nadador-salvador de olho de águia e braçada vertiginosa. O Vítor deixa de ser o dr. Sevilhano Ribeiro para se tornar no Fellini das noites de Cabíria, das encenações loucas no palco metafórico da padaria do Joaquim do Moinho, não nas barbas mas nos bigodes do Arménio, um Arménio que nasceu nas Caixas como a tia Luzia. A tia Luzia devia ter cerca de 95 anos e conheço-a desde que nasci. Sempre a conheci velha, viúva, vestida de preto com o rosto magro a desaparecer na escuridão de um lenço.

A tia Luzia era uma mulher sem idade, marcada pela vida, pelo sofrimento, pela labuta de quase um século.

A tia Luzia era a avó do Julinho, do João, da Maria Cremilda, da Maria Luzia, a avó de todos nós, miúdos que brincávamos trabalhando na ribeira dos Torrões. O tio Júlio aparelhava a magnífica mula preta chamada Mulata que era um diabo de animal (ao lado dela a Boneca, do tio Justino, era o mar calmo, a par da tempestade) e arrancávamos p’la manhã.

A tia Luzia já nesse tempo deixara de abalar para os campos e ficava na aldeia a organizar a lida da casa. Para mim ela é a boa velhinha que nos preparava os pãezinhos do campo em dia de cozedura. A tia Luzia é a minha meninice nas Caixas, todo um passado maravilhoso e simples como as coisas naturais.

Há uns dois anos tive uma surpresa extraordinária. Numa das minhas visitas ocasionais dei um salto às Caixas para ver os meus amigos. Quando perguntei à tia Clarisse pela mãe, receei que ela me dissesse que a tia Luzia já tivesse morrido. Era o meu receio de cada vez que procurava obter notícias. Afinal a tia Clarisse disse-me que ela estava boa e me ouvia todos os domingos. Confesso que não compreendi o que ela queria dizer e só depois deduzi que a tia Luzia, com os seus 92 anos, ouvia aos domingos as minhas crónicas na Renascença. Fiquei comovido pois nunca imaginara que uma pessoa daquela idade, que não sabia ler nem escrever, que nunca soube o que era um jogo de futebol, pudesse ouvir as minhas crónicas. Mas ouvia porque era eu. Não percebia o que eu dizia, não compreendia mas ouvia, era eu, o filho da tia Amália, que falava na telefonia.

E lá fui ver o pequeno aparelho que estava sobre uma mesa e, por cima, na parede uma fotografia grande da minha mãe.

Ao ouvir-me do fundo dos seus 92 anos a tia Luzia devia olhar a fotografia de minha mãe que ela conhecia também desde miúda. Nunca troquei com a tia Luzia mais do que três ou quatro frases triviais. Era uma mulher simples e boa, uma figura de um mundo que desapareceu.

Hoje ela deve evocar com a minha mãe, o meu tio Justino e a tia Maria Come-figos, cenas desse mundo de que só nos resta a recordação.

Lembro-me de ter visto passar na estrada das Caixas funerais estranhos. Nesse tempo ia-se a pé, caixão a pulso, até ao Castelo, quilómetros palmilhados, figuras insólitas de preto vestidas, na estrada poeirenta à torreira do sol.

Não sei como foi a tia Luzia para o Castelo. Não sei ao certo em que dia faleceu, mas sei que com ela se virou mais uma página no livro da minha vida.

A tia Luzia para mim é mais do que a simples notícia inscrita na rubrica necrológica deste Jornal. É um símbolo de uma época, uma figura insubstituível como o António do Porto, o tio Escuminha, o tio Vicente Faneca.

Por isso a arranco ao anonimato da sua lista de desaparecidos para lhe prestar a minha homenagem, para o adeus que não pude dizer-lhe a tempo.

Quando a Libinha fazia diabruras a tia Luzia ralhava assim: “a menina tem que apanhar!”. Mas a menina nunca apanhou e agora é tarde, a Libinha é adulta e a tia Luzia já não está connosco. Não está fisicamente mas continua a contemplar-nos e qualquer dia é capaz de aconselhar a Libinha quando uma filha desta for traquina. A menina tem que apanhar! – era a receita, a ameaça meiga de uma boa velhinha. Descansa em paz, Luzia Vitória.

Até um dia, tia Luzia.

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Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra em 1985.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 32



Ao ruído das motorizadas não há quem escape...
António Cagica Rapaz


[da série Gente, Nomes...]

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 40


À porta da praça

António Cagica Rapaz

Antigamente as tertúlias eram numerosas, o barbeiro, o café, a taberna, a loja de companha, a sociedade de recreio, as escadinhas, o muro da marginal, a esquina do Central, os bancos do jardim, a antecâmara das sentinas, a praça, o adro da igreja, o consultório do doutor Caramelo, o carro da carreira, o barco de Cacilhas. Em toda a parte se falava, com calor, com volúpia, sempre com aquele sotaque tão nosso, tão pexito, inspirado no murmúrio do vento leste, no ronco surdo do mar, na melodiosa cantilena das vagas suaves que vêm morrer na areia, nos gritos das gaivotas, nos berros do chamador...

O barbeiro era, por tradição, talvez por vocação inconsciente, um homem de comunicação, orador, confidente, professor, relações públicas, diplomata, alcoviteiro discreto, tudo isto em doses variáveis consoante a personalidade do freguês, o troco que dava e a adesão da assistência. A barbearia era, muitas vezes, palco de terapia de grupo, análise e introspecção no fio da navalha, almas aparadas, emoções desbastadas, angústias de risco ao lado, álcool para as feridas provocadas por derrotas benfiquistas, sublimado para desavenças conjugais, a vida à espera de vez.

Muitas vezes o meu pai me falou, com profunda admiração, no mestre Alfredo Batista, elogiando o talento de grande actor, sublinhando a inteireza do carácter, a coragem das opiniões políticas e, sobretudo, os invulgares dotes de orador.

A praça, abençoada instituição, sempre foi o local ideal para encontros, o que muitos designam por coscuvilhice, calhandrice, má língua e conversas de alcofa que não raro o são de alcova. Mas no fundo, bendita calhandrice esta que é bálsamo para a solidão, factor de aproximação entre as pessoas, diálogo saboroso, comunicação, presença, expressão de vida, de cumplicidade, de fraternidade, gente que se olha, que se fala, que se toca com as mãos, que partilha alguma coisa, o sol, a brisa, a esquina do tempo que uns oferecem aos outros, gente que está viva.

A praça cheira a flores, a fruta, a peixe, juntam-se as pessoas, é a nossa terra, a nossa gente. Talvez por isso, o Julzé parecesse embriagado por este sol e pelo calor que sentia à sua volta. Em cada Verão, volta da fria Alemanha para matar a sede de água salgada, a fome de sardinhas assadas, as saudades da rua da Fé, do cheiro do mar, dos amigos, da verdadeira vida, fruto das raízes que estão em nós, que nos fazem sentir que este é o nosso lugar, que pertencemos aqui. Lá longe, há-de sentir, de vez em quando, o apelo do mar, um aperto no coração e uma vontade louca de largar tudo e vir a correr para a borda d’água, andar à roleta, deixar que as vagas o envolvam, o cubram de espuma, o acariciem como a mãe faz em cada Verão em que ele chega sedento de mar e de ternura...

1998