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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 37

as crónicas da Eventos...



Super-homens*

António Cagica Rapaz

Na penumbra do velho salão do João Mota, presos à intriga do filme policial ou arrebatados pelas proezas do Robin dos Bosques, mal dávamos pela presença do bombeiro a nosso lado, deslocando-se silenciosamente, colado à parede, como os detectives privados na peugada dos criminosos.

Do outro lado, um polícia igualmente discreto completava a dupla de segurança que nos permitia ver a fita descansados. As suas silhuetas, diluídas no escuro, acabavam por nos chamar à realidade, agora e mais logo, arrancando-nos à magia do cinema, interrompendo o sonho, por vezes, mas tranquilizando-nos também a meio de algum filme de terror.

Era um pouco o que sucede quando, madrugada alta, temos uma vaga consciência de estar a sonhar e hesitamos entre prolongar a viagem virtual e despertar. Por vezes, deixamo-nos levar, flutuamos, andamos à roleta na borda d’água suave, macia, envoltos na espuma de uma semi-fantasia controlada, com um pé no sonho e outro na realidade. Em qualquer momento podemos pôr um termo à evasão, não corremos riscos, é uma preguiça deliciosa.

E, tal como no cinema eles exerciam a vigilância, garantiam a tranquilidade e representavam o nexo com o mundo real, assim ao longo das nossas vidas nos habituámos a que os bombeiros sejam os nossos anjos da guarda. Talvez nem sempre lhes demos o devido valor, quase acabamos por achar que é normal tê-los assim, perto de nós, sempre atentos, disponíveis e dedicados, como se tal nos fosse devido. Chegávamos a invejá-los porque viam os filmes de graça, e talvez tivesse nascido no salão, da fantasia e da fascinação do cinema, a imagem mítica que, inconscientemente, fomos construindo à volta da figura do bombeiro. Em muitos filmes de aventuras e acção empolgante (como anunciava invariavelmente o Filipe) o herói era um cidadão comum que, de repente, se transformava em Super-Homem, Capitão Marvel ou Zorro, para nosso deslumbramento e admirativo entusiasmo.

Da mesma maneira, aquele bombeiro, de capacete, cinto largo com fivela forte e machado de Viking (sobretudo um calmeirão como o Westerman) no lusco-fusco do salão, acabava por se aproximar do universo de quimera da tela e ganhar aos nossos olhos de miúdos uma dimensão impressionante.

Depois, no dia seguinte, era o regresso à banalidade do quotidiano, desfazia-se o encanto quando, na rua, víamos o Zé Tucha a vender castanhas, o Albano de fato de ganga, a fazer aiolas, o Aldeia na oficina, de fato macaco, ou o Emídio no talho, de avental branco. Os heróis forjados pela nossa ingénua fantasia na penumbra do cinema voltavam à trivialidade das suas ocupações rotineiras, embora atrás da porta estivessem sempre a postos a farda e o equipamento, tudo pronto para a acção comandada pelo lancinante silvo da sirene que punha a vila em alvoroço.

Mal esta soava, toda a gente vinha para a rua, num reflexo ditado pela curiosidade e pela angústia. O ritmo e a cadência do toque indicavam se o fogo era na vila ou no campo, e logo os homens corriam de farda na mão, capacete enfiado no braço, em direcção ao quartel dos Bombeiros, situado lá no alto, longe para quem tem de subir e pressa de acudir.

Os tranquilos e modestos cidadãos tornavam a ser os destemidos defensores das nossas vidas e dos nossos bens, como se uma simples farda azul e um capacete lhes transmitissem energia, audácia, destreza, coragem e abnegação por artes mágicas.

Podemos interrogar-nos sobre as motivações profundas que levam estes homens a colocarem-se ao serviço dos seus semelhantes de forma generosa e por verdadeiro altruísmo. Talvez retirem alguma satisfação dos olhares de reconhecimento e admiração que lhes são dirigidos, o que é normal e mais do que compreensível. É natural que se sintam felizes por contribuírem para o bem-estar dos seus conterrâneos, e é muito provável que se sintam transformados quando a sirene chama por eles. Aquela farda aparentemente banal dá-lhes certamente um ânimo e um ideal reforçados porque os investe de uma responsabilidade nova, os torna, muitas vezes, braços do destino, agentes de vida, combatentes da morte, da destruição e da desgraça.

É uma missão transcendente, um desafio repetido mas sempre novo, um mundo de expectativa, temor e ansiedade que se abre diante deles a cada toque de sirene. E o contacto com a farda, o afivelar do capacete, um gesto simples pode ser o suficiente para transformar o pacato carpinteiro machado num lutador audaz e infatigável.

Mas, contrariamente aos heróis do cinema, os nossos bombeiros não actuam isoladamente, não são heróis solitários. Pelo contrário, muita da sua força e da sua intrepidez deve-se ao espírito de corpo, à união, à fraternidade e à solidariedade que constituem o cimento que conserva e reforça o carácter, a grandeza e o ideal desta corporação humanitária.

Há dias, na Cotovia, um menino dizia-me, com recatado orgulho, que toca caixa na fanfarra dos Bombeiros. E a irmã, pouco mais velha, também. Quando vemos grande parte da nossa juventude agarrada à televisão, presa a computadores e, às vezes, à droga, é reconfortante ficar a saber que ainda há jovens capazes de abraçar causas e valores como os dos Bombeiros.

Nunca serão super-homens como os heróis de ficção da nossa meninice, mas é bom que sejam generosos, sinal de que nem tudo está reduzido a cinzas, que ainda há quem conserve o fogo sagrado, o único que os nossos bombeiros se recusam a combater…

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*Publicado no n.º 26 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2003.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 41


A Tia Luzia*

António Cagica Rapaz

“Faleceram no nosso Concelho no período de 23/1/85 a 27/2/85 as seguintes pessoas: Luzia Vitória, Caixas, etc.”.

Assim começava a rubrica “Falecimentos” do nosso número de Fevereiro.

É assim a informação fria, distante, quase impessoal. Aqui a dois mil quilómetros, recebo desta forma uma lista de falecidos e tento ligar os nomes às pessoas o que raramente consigo.

Desta vez não fui além do primeiro nome da lista: Luzia Vitória.

Para a grande maioria dos leitores este nome nada evoca. Quem é esta Luzia Vitória das Caixas? Eu conto.

Mais do que uma vez me têm perguntado onde vou buscar os temas destas crónicas breves que tendes a paciência de ler. Ora eu penso que a resposta está aqui nesta situação concreta. Há num jornal notícias secas, despidas de sentimento, áridas, agrestes por vezes. São os dados estatísticos ou as publicações dos cartórios notariais. Mas o Jornal é o espelho da terra, tem de preocupar-se com a nossa terra e nesta nada é mais importante do que as pessoas. As ruas com buracos, os abusos camarários, os problemas de trânsito, tudo isso é acessório, secundário, insignificante quando comparado com as pessoas que, boas ou más, são a alma da terra.

Ora pessoalmente julgo que pouco nos preocupamos com as figuras da nossa colectividade. Tratamos de política a nível local e (exageradamente) a nível nacional, fazemos artigos teóricos sem apontar a dedo os que se distinguem negativamente, sem chamar as coisas nem as pessoas pelos seus nomes.

Por isso procuro fazer desfilar por estas colunas pessoas que, na minha opinião, merecem um certo destaque, pelo que são, pelo que valem, pelo que fazem, pelo que significam, pelo que representam a meus olhos.

É evidente que a admiração que eu possa ter por determinada pessoa não tem forçosamente de ser partilhada pelos leitores.

Por outro lado, não é sequer importante que aquilo que eu conto seja inteiramente verdadeiro. Posso até inventar personagens, pintá-las com as cores da minha imaginação e da minha sensibilidade. O leitor não deve preocupar-se com a autenticidade nem com o fundamento das minhas narrativas. A única cosia que deve contar para ele é se a crónica lhe agrada ou não, se lhe dá ou não prazer o que escrevo. Por isso, quando eu falo do meu amigo Alfredo (do Pinto e Pinto) não é para vos dar a notícia da nossa amizade (que pouco vos interessará) mas sim para evocar uma certa atmosfera vivida numa época recente à luz de tonalidades suaves, tudo descrito de forma que possa tocar a vossa sensibilidade. A amizade é um pretexto à partida e o objectivo é um testemunho que constitua um pedaço de prosa saboroso. Essa é a minha intenção.

Dizia-me o Manuel António há tempos que dera a ler a uma amiga uma crónica intitulada “A telefonia”. Ora essa amiga (que não conhecia Sesimbra), depois de ler, confessava que tinha a sensação de ter conhecido a taberna da minha avó Sabina, de ter ouvido os fados nostálgicos da Amália em noites de verão ameno e de ter ouvido o mar rugir em frente da rua dos Pescadores. A ela pouco importa se a minha avó existiu ou se chamava Sabina. O que conta é o que se lê, se agrada ou não, se evoca ou não, se cria ou não um clima, um estado de alma.

Eu sei que há pessoas em Sesimbra que não conhecem o Jorge Patrício nem o Chico. Sei que alguém disse preferir que eu evoque pessoas conhecidas. Ora a verdade é que não se trata de citar nomes apenas por citar. Importa que as pessoas em questão inspirem condições particulares. Aliás, a partir do momento em que as evoco, elas entram, de algum modo, na esfera da fantasia, deixam de ser o que eram para se tornarem personagens dos meus folhetins ingénuos. O Capitão Domingos deixa de ser o Domingos Nogueira para se tornar no Super-Homem das praias, nadador-salvador de olho de águia e braçada vertiginosa. O Vítor deixa de ser o dr. Sevilhano Ribeiro para se tornar no Fellini das noites de Cabíria, das encenações loucas no palco metafórico da padaria do Joaquim do Moinho, não nas barbas mas nos bigodes do Arménio, um Arménio que nasceu nas Caixas como a tia Luzia. A tia Luzia devia ter cerca de 95 anos e conheço-a desde que nasci. Sempre a conheci velha, viúva, vestida de preto com o rosto magro a desaparecer na escuridão de um lenço.

A tia Luzia era uma mulher sem idade, marcada pela vida, pelo sofrimento, pela labuta de quase um século.

A tia Luzia era a avó do Julinho, do João, da Maria Cremilda, da Maria Luzia, a avó de todos nós, miúdos que brincávamos trabalhando na ribeira dos Torrões. O tio Júlio aparelhava a magnífica mula preta chamada Mulata que era um diabo de animal (ao lado dela a Boneca, do tio Justino, era o mar calmo, a par da tempestade) e arrancávamos p’la manhã.

A tia Luzia já nesse tempo deixara de abalar para os campos e ficava na aldeia a organizar a lida da casa. Para mim ela é a boa velhinha que nos preparava os pãezinhos do campo em dia de cozedura. A tia Luzia é a minha meninice nas Caixas, todo um passado maravilhoso e simples como as coisas naturais.

Há uns dois anos tive uma surpresa extraordinária. Numa das minhas visitas ocasionais dei um salto às Caixas para ver os meus amigos. Quando perguntei à tia Clarisse pela mãe, receei que ela me dissesse que a tia Luzia já tivesse morrido. Era o meu receio de cada vez que procurava obter notícias. Afinal a tia Clarisse disse-me que ela estava boa e me ouvia todos os domingos. Confesso que não compreendi o que ela queria dizer e só depois deduzi que a tia Luzia, com os seus 92 anos, ouvia aos domingos as minhas crónicas na Renascença. Fiquei comovido pois nunca imaginara que uma pessoa daquela idade, que não sabia ler nem escrever, que nunca soube o que era um jogo de futebol, pudesse ouvir as minhas crónicas. Mas ouvia porque era eu. Não percebia o que eu dizia, não compreendia mas ouvia, era eu, o filho da tia Amália, que falava na telefonia.

E lá fui ver o pequeno aparelho que estava sobre uma mesa e, por cima, na parede uma fotografia grande da minha mãe.

Ao ouvir-me do fundo dos seus 92 anos a tia Luzia devia olhar a fotografia de minha mãe que ela conhecia também desde miúda. Nunca troquei com a tia Luzia mais do que três ou quatro frases triviais. Era uma mulher simples e boa, uma figura de um mundo que desapareceu.

Hoje ela deve evocar com a minha mãe, o meu tio Justino e a tia Maria Come-figos, cenas desse mundo de que só nos resta a recordação.

Lembro-me de ter visto passar na estrada das Caixas funerais estranhos. Nesse tempo ia-se a pé, caixão a pulso, até ao Castelo, quilómetros palmilhados, figuras insólitas de preto vestidas, na estrada poeirenta à torreira do sol.

Não sei como foi a tia Luzia para o Castelo. Não sei ao certo em que dia faleceu, mas sei que com ela se virou mais uma página no livro da minha vida.

A tia Luzia para mim é mais do que a simples notícia inscrita na rubrica necrológica deste Jornal. É um símbolo de uma época, uma figura insubstituível como o António do Porto, o tio Escuminha, o tio Vicente Faneca.

Por isso a arranco ao anonimato da sua lista de desaparecidos para lhe prestar a minha homenagem, para o adeus que não pude dizer-lhe a tempo.

Quando a Libinha fazia diabruras a tia Luzia ralhava assim: “a menina tem que apanhar!”. Mas a menina nunca apanhou e agora é tarde, a Libinha é adulta e a tia Luzia já não está connosco. Não está fisicamente mas continua a contemplar-nos e qualquer dia é capaz de aconselhar a Libinha quando uma filha desta for traquina. A menina tem que apanhar! – era a receita, a ameaça meiga de uma boa velhinha. Descansa em paz, Luzia Vitória.

Até um dia, tia Luzia.

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Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra em 1985.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 32



Ao ruído das motorizadas não há quem escape...
António Cagica Rapaz


[da série Gente, Nomes...]

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 40


À porta da praça

António Cagica Rapaz

Antigamente as tertúlias eram numerosas, o barbeiro, o café, a taberna, a loja de companha, a sociedade de recreio, as escadinhas, o muro da marginal, a esquina do Central, os bancos do jardim, a antecâmara das sentinas, a praça, o adro da igreja, o consultório do doutor Caramelo, o carro da carreira, o barco de Cacilhas. Em toda a parte se falava, com calor, com volúpia, sempre com aquele sotaque tão nosso, tão pexito, inspirado no murmúrio do vento leste, no ronco surdo do mar, na melodiosa cantilena das vagas suaves que vêm morrer na areia, nos gritos das gaivotas, nos berros do chamador...

O barbeiro era, por tradição, talvez por vocação inconsciente, um homem de comunicação, orador, confidente, professor, relações públicas, diplomata, alcoviteiro discreto, tudo isto em doses variáveis consoante a personalidade do freguês, o troco que dava e a adesão da assistência. A barbearia era, muitas vezes, palco de terapia de grupo, análise e introspecção no fio da navalha, almas aparadas, emoções desbastadas, angústias de risco ao lado, álcool para as feridas provocadas por derrotas benfiquistas, sublimado para desavenças conjugais, a vida à espera de vez.

Muitas vezes o meu pai me falou, com profunda admiração, no mestre Alfredo Batista, elogiando o talento de grande actor, sublinhando a inteireza do carácter, a coragem das opiniões políticas e, sobretudo, os invulgares dotes de orador.

A praça, abençoada instituição, sempre foi o local ideal para encontros, o que muitos designam por coscuvilhice, calhandrice, má língua e conversas de alcofa que não raro o são de alcova. Mas no fundo, bendita calhandrice esta que é bálsamo para a solidão, factor de aproximação entre as pessoas, diálogo saboroso, comunicação, presença, expressão de vida, de cumplicidade, de fraternidade, gente que se olha, que se fala, que se toca com as mãos, que partilha alguma coisa, o sol, a brisa, a esquina do tempo que uns oferecem aos outros, gente que está viva.

A praça cheira a flores, a fruta, a peixe, juntam-se as pessoas, é a nossa terra, a nossa gente. Talvez por isso, o Julzé parecesse embriagado por este sol e pelo calor que sentia à sua volta. Em cada Verão, volta da fria Alemanha para matar a sede de água salgada, a fome de sardinhas assadas, as saudades da rua da Fé, do cheiro do mar, dos amigos, da verdadeira vida, fruto das raízes que estão em nós, que nos fazem sentir que este é o nosso lugar, que pertencemos aqui. Lá longe, há-de sentir, de vez em quando, o apelo do mar, um aperto no coração e uma vontade louca de largar tudo e vir a correr para a borda d’água, andar à roleta, deixar que as vagas o envolvam, o cubram de espuma, o acariciem como a mãe faz em cada Verão em que ele chega sedento de mar e de ternura...

1998

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 36

as crónicas da Eventos...



A toalha do Justino*

António Cagica Rapaz

É natural que a juventude dos nossos dias se entusiasme com um futebol transformado num espectáculo televisivo que, além disso, ainda enche páginas de três jornais diários e ocupa horas na rádio.

É compreensível que gostem do que lhes é oferecido pela tecnologia do seu tempo e ninguém lhes peça sequer para tentar imaginar o que terá sido a aventura dos amantes de futebol sem cobertura televisiva, com uma rádio incipiente e meia dúzia de jornais semanais. Como poderão eles entender a febre de quem jogava em campos pelados e ásperos, com bolas duras, pesadas, com atilhos e botas de tortura?

Aliás ninguém lhes pode pedir tal exercício de regressão no tempo. Cada um vive na sua época e boa filosofia será sermos capazes de gostar do que temos. Parece simples, mas não é assim tanto…

Hoje, o futebol desperta e alimenta paixões, mas de uma natureza diferente. Hoje, só a vitória conta, o espectador não procura qualidade, exige que a sua equipa ganhe, de qualquer maneira, até legalmente. Os dirigentes tudo fazem para conquistar triunfos porque há milhões em jogo, porque o futebol (além de constituir forte factor de alienação) gera protagonismo, dinheiro, e poder, mesmo contrapoder político. Este não é o meu futebol, o futebol que quero recordar, o futebol da paixão vibrante, forma de expressão de orgulho e até de honra que começava em cada rua para atingir o ponto mais alto na defesa da camisola cerise do nosso Desportivo.

Antes disso, foi a rivalidade acesa, a confrontação aguerrida, por vezes violenta, entre os clubes que acabaram na fusão. Não sei se o Desportivo terá sido a soma real das vontades, do empenhamento, da garra e dos sonhos de quantos o fundaram. Aqui e ali terá, porventura, ficado algum ressentimento, certa frustração, porque se é verdade que o Desportivo nasceu, não é menos exacto que os outros morreram…

Cada um de nós olhará o universo do futebol à luz da sua experiência pessoal e ninguém poderá abordar este tema de forma exaustiva, focando cada um dos mil aspectos relevantes que ele encerra. Pela minha parte, a primeira visão que tive foi a epopeia apaixonante do Pátria, através das narrativas do meu pai. E o que me ficou foi a imagem da paixão, da solidariedade, da perseverança, do amor próprio. O Pátria não foi o maior dos clubes de Sesimbra, mas foi uma causa a que um punhado de homens se entregou de alma e coração.

Depois veio o Desportivo que acompanhei com intensidade, assistindo a treinos e jogos, de reservas e primeira categoria. Via passar à minha porta os jogadores, olhava-os com admiração, tentava compreender a metamorfose das botas d’água em botas de traves, acariciava alguma bola que, no treino, me vinha parar às mãos, vendo nela um objecto mágico.

Ao mesmo tempo, ia começando a gostar do Belenenses, e o meu ídolo era o Matateu. Mas no meu espírito cedo arranjei espaço para juntar os famosos jogadores do Belenenses, ídolos distantes e quase irreais, e os meus heróis caseiros, o Manel Santana, o Izidro, o Rogério, o Zacarias…

Quando comecei a jogar nos juniores, tive como treinadores dois antigos extremos, um esquerdo, Carlos Santos, e outro direito, José Filipe. Foi um tempo heróico, de improvisação, de euforia, de arrebatamento, felizes e deslumbrados com a honra de envergar a camisola do Desportivo, jogar com uma bola a sério, num campo com marcações a cal, redes e tudo, calçar botas de traves, viver a quase inacreditável aventura.

Quis o destino que tivesse tido a oportunidade de chegar à Divisão maior, de vestir a camisola da Académica, de defrontar alguns dos ídolos da minha meninice. Jogar na Luz contra o Eusébio terá sido a glória suprema, defrontar o grande Matateu foi a mais tocante das experiências.

Cada coisa tem, na nossa memória, o seu lugar e o seu valor, há espaço para todas, por isso não é necessário estabelecer hierarquias. Porém, com o decorrer dos anos, há imagens cujos contornos se vão esbatendo mais do que outras e é verdade que fica um perfume de ternura pelo período da infância e da adolescência. Não só por sermos jovens, mas porque esse foi o tempo único não da nossa inocência mas do sonho, do arrebatamento, da explosão do nosso entusiasmo, da descoberta e do encantamento.

Enquanto coleccionávamos recortes de jornais no livro da primeira classe, o Fidalgo e eu olhávamos com admiração os jogadores do Desportivo, um dos quais, o Izidro, era tio dele. Anos depois, fomos companheiros nos juniores. Jogávamos de manhã, e à tarde estávamos a ver de perto os grandes jogadores que arrebatavam a multidão que enchia o minúsculo campo da Vila Amália.

Crescemos a vibrar com os duelos à chuva, com o mar ao longe a rugir, sob um céu de chumbo como o pé do Baeta, e com a eira do Valada suspensa da luta desigual e arrebatadora entre o Justino e os nossos heróis. Na baliza do Ginásio de Cacilhas, o Justino era um gigante, homem de uma cana, defendia tudo, limpava as mãos à toalha pendurada nas malhas, desafiava, irritava a assistência, negava o golo mil vezes, resistia sozinho, só tombava ao cair do pano. Era épico, dramático, inesquecível.

Provavelmente, mais do que uma vez, marcado o golo da vitória, os exaustos assaltantes do nosso Desportivo terão atirado bolas para o ribeiro, para ganhar tempo. Conservo nítida e viva a imagem de um Justino quase imbatível, que jogava de raiva, que tinha uma sorte que parecia bruxedo, que fazia defesas impossíveis e que encontrava na lama, nas traves, no vento, aliados cínicos e poderosos.

Anos mais tarde, fiz o meu segundo jogo pela Académica, na Póvoa do Varzim. Na baliza dos poveiros, o mesmo Justino e na minha memória, naquela tarde como hoje ainda, lá estava a figura esguia, felina, elástica. E talvez estivesse também, pendurada nas malhas, uma toalha que simbolizava o desafio que ele lançava, irónico e confiante, ao Desportivo, a Sesimbra inteira.

Era outro tempo, não sei se melhor, mas certamente de paixão mais autêntica, no universo estreito das nossas ruas, de emoções partilhadas, de sonhos contidos, de certa forma de pureza. Nem tudo seria perfeito, mas os gestos feios ficaram pelo caminho, sorrateiramente apagámo-los do quadro preto da escola, enterrámo-los na areia da praia do tio Abel, limpámo-los à toalha do Justino…

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* Publicado no n.º 27 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2003.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 39


O nosso Jorge

António Cagica Rapaz

As raízes da minha infância no campo encontram-se nas Caixas, no tempo do ribeiro dos Torrões, da cozedura do pão, da debulha na eira e da vindima. Muitos anos depois, já adulto, o meu campo passou a ser mais a Cotovia, por bondade do tio Jojó. E lá fui encontrar uma figura notável, o Jorge Patrício, irmão do tio Sebastião, da Sopa, meu velho conhecido da rua dos Pescadores.
O Jorge é uma figura, uma personagem invulgar, com uma filosofia de vida bem sua, sabendo dosear o esforço, repartindo-o entre obrigações e prazer com uma sabedoria admirável. Era homem para cuspir nas mãos e cavar dobrado, de sol a sol, e também sabia manobrar o martelo, a serra, o alicate e a turquês, a pá e o balde. Compunha aqui, desenrascava ali, dava um jeito (um toque cabazeiro, como ele dizia), e aí tínhamos o nosso Jorge, hábil de mãos, vivo de espírito, sempre tranquilo, sem pressas, com um sorriso permanente e um olhar maroto. O Jorge era um homem de uma só peça, da linhagem dos Patrícios, fino recorte de aristocrata da terra, cabelinho branco e curto, risco ao lado nítido, porte seguro, passo ágil, gesto franco, ironia subtil, nobreza de carácter. O Jorge sabia gozar a vida, sabia apreciar. E gostava de partilhar. A sua bagaceira, baptizada “Patricius”, pelo tio Jojó, era um néctar delicioso, a saborear no cálice da amizade. Ao domingo, já almoçado, o Jorge aparecia em casa do tio Jojó, barbinha feita, todo catita. Após múltiplas insistências, acabava por aceitar um pedaço de queijo e uma pinga, para nos dar prazer, para fazer companhia, sob o olhar divertido do tio Nuno e para satisfação do tio Jojó que tinha pelo Jorge uma ternura infinita.

O Jorge foi o último de uma raça, símbolo de um tempo que se finou. Com ele foi-se o romantismo, a visão idealizada da vida campestre, a neblina poética que envolvia a Cotovia nas manhãs de Outono quando o Inverno já espreita e começa a apetecer carapaus secos com batatas, regados com o azeite que o senhor Braguez costumava trazer à Carolina. Como vai longe esse tempo e que vazio à nossa volta!

Resta-nos o Chico, que é a imagem fiel do Jorge. Graças a ele, o Jorge não partiu totalmente. Se forem ao Casal e ele não estiver é porque foi à da Carmelinda. Se lá não o encontrarem é porque foi à Carrasqueira, com o Chico. Se lá não o virem, se não estiver, não procurem mais, ele pode estar em qualquer sítio. De certeza está é nos nossos corações, o nosso Jorge.

1983

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 31



O Luís Preto, o Castanho, o Encarnadinho e o Branquinho acaso serão filhos da Aurora Boreal?
António Cagica Rapaz


[da série Gente, Nomes...]

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 40


Naquele tempo*

António Cagica Rapaz

Um novo ano começa e com ele se ultrapassa largamente o primeiro terço deste século 21. De facto, 2039 é um marco histórico, há um século começava a segunda guerra mundial. Apetece-me hoje reflectir um pouco sobre a fragilidade das nossas convicções e conceitos, muito mais passíveis de evolução e alteração do que nós imaginávamos. O que ontem parecia certo e irreversível surge-nos hoje ultrapassado, obsoleto e desajustado.

Na última década do século 20, aí por volta de 1994-95, mais coisa menos coisa, o nosso “Sesimbra Tribune” chamava-se prosaicamente “O Sesimbrense” e era apenas constituído por folhas de papel. Nessa altura estava-se a dar os primeiros passos, hesitantes e incrédulos, na Internet, espécie de pré-história da actual Rede Sideral Interplanetária. E lembro-me de ler nesse jornal de papel (dá vontade de sorrir) que sujava os dedos e amarelecia com o tempo, certos artigos de tonalidade saudosista, recordações, evocações e variações em torno do tema glosado e estafado dos “bons velhos tempos”.

Nessa altura, teria eu os meus sete ou oito anos, o mundo circundante parecia-me maravilhoso, «curtia bué» como se dizia então. Era o apogeu dos vídeos, computadores, televisão por cabo, moto de água, moto-quatro, jipes infernais, Mac Donalds, ketch-up e Coca Cola, o paraíso acelerado. Por isso me parecia aberrante, insuportável e irritante ler as lamúrias de alguns piegas que vinham com histórias do tempo da Maria Cachucha, as armações, as ruas enfeitadas, a lota encostada à Fortaleza, eu sei lá, baboseiras, lamechices bolorentas e bafientas.

Ora hoje, mais de quarenta anos volvidos, eis-me aqui a dar a mão à palmatória, a fazer a minha penitência porque, apesar dos inacreditáveis progressos tecnológicos, confesso ter saudades dos anos 90, desse inesquecível fim de século. E compreendo agora que os velhos piegas dessa altura pudessem recordar, enternecidos, os seus anos 50 e 60. É verdade, agora entendo e explico porquê. Hoje há tudo, absolutamente tudo quanto é imaginável, útil, supérfluo, perfeito, prático, eficaz. Mas a qualidade de vida não é o que foi…

Por exemplo, os actuais engenhos individuais de transporte organizado (também designados por EITO) são eficientes, rápidos, mas inegavelmente assustadores. Por isso se diz que hoje toda a gente se desloca com facilidade, mas anda tudo a EITO. Comparadas com estas máquinas diabólicas, as motorizadas dos anos 90 são como triciclos a pedais ao pé das SUSUKI e/ou YAMAHA daquela época. Dizem que nesse tempo a Guarda chamada Republicana só andava perto do jardim e no largo da Marinha a multar automobilistas distraídos enquanto as motos roncavam marginal fora e as motorizadas de escape ruidoso circulavam em total impunidade. Hoje é o mesmo com as Patrulhas Espaciais que nada fazem perante a velocidade louca e a proliferação incontrolável dos engenhos. Ainda me lembro de certos aceleras na antiga marginal, quando ia pela mão do meu pai a uma esplanada pequena virada para o mar. Era do senhor João (ainda é vivo, julgo eu), era o café Martelo e no seu lugar está hoje o “Pronto a despir”, ou seja, o “strep-tease” misto colectivo.

Ali perto ficava a Fortaleza que, em tempos idos, albergou a Guarda Fiscal, instituição arcaica desmantelada tardiamente. Hoje é o Casino Ibérico, com esplanada reservada ao estacionamento dos famosos ENA, ou seja, engenhos navais aéreos, anfíbios de descolagem vertical. Tão bonita e majestosa, a Fortaleza transformou-se num antro de perdição e desbragamento.

E a lota? Já não é do meu tempo a lota à beira da Fortaleza, só conheci a que funcionava na doca. Recordo-me, aliás, da celeuma levantada pelas obras de aterragem que desfiguraram o velho porto de abrigo, a justa revolta e a batalha vigorosa travada por um tal Filipe (bela figura de cabelos brancos) e um Batista que rejuvenescia com o seu bairrismo e ardor polémico. Ambos foram pilares vitais do velho “Sesimbrense” durante anos. Hoje já não há lota, já não há o chui dos compradores, nada. Como sabeis, os barcos estão todos equipados com a aparelhagem adequada à pesca, amanho e congelamento imediato. O peixe transita depois, directamente, das câmaras frigoríficas dos barcos para os contentores que o levam para o Super Hiper Market, de 4 pisos, construído pelo presidente Ezequiel Júnior no local da antiga praça. Ai que saudades das sardinhas do Júlio Galgão, das navalhas do Bacalhau, do espadarte do Álvaro!

Ali perto, onde se erguia o monumento ao Pescador, está agora uma estátua ao Tony da Marisqueira, figura emblemática da boémia que transformou um modesto café num restaurante requintado. Fez isso e muito mais, ao longo de uma vida de trabalho e malandrice nos braços da noite velha. Ouvi contar, é quase uma lenda, que o seu bigode fez furor e muitas cócegas, não sei. Dizem que era um calmeirão simpático, de gargalhada sonora e que na antiga Marisqueira ainda entraram lobos do mar autênticos, de pele tisnada e boné de pala curta, um tal capitão John (não garanto que fosse irlandês) e o tio Escuminha. Aliás, tudo isto vem na página TONY que pode ser consultada nos terminais da biblioteca municipal Rafael Monteiro, no Forum Cultural do Castelo. Lá se encontra igualmente uma colectânea de todas as crónicas que vinham na última página do velho “Sesimbrense”, não me ocorre agora o nome do autor…

Mas vejam só como são as coisas. Consta que, durante anos, um homenzinho de boné, calça branca e camiseta de cavas, vendeu bolos e pastéis na praia. Era, salvo erro, um tal Zé Tucha que, pelo tarde, se converteu aos ideias de Jeová. Foi a pedra sobre a qual foi construído o que hoje é designado pelo “Colectivo Espiritual OLARAJÁ” e que ocupa as instalações que na origem eram o Hotel do Mar, em frente ao actual pontão Explorer. Este pontão começou por ser, nos anos 90, um amontoado de pedregulhos monstruosos e hoje é um dos sete que funcionam como suporte e enquadramento da marina.

Junto ao jardim havia o lar de idosos, hoje chamado Antecâmara. A liberalização da eutanásia, aprovada há dez anos pelo Parlamento Municipal, permitiu colocar à disposição de cada pessoa o comprimido que abre. Sem dor e instantaneamente, as portas do além. Também legal é, há muito tempo, o consumo de droga, distribuída, aliás, gratuitamente em qualquer supermarket. As autoridades e o público em geral, todos concordam ter sido uma boa decisão. Os mais viciados não resistiram à tentação nem à overdose. Os outros não ligam porque já não é fruto proibido. Ficam-se, alguns raros, por umas coisas leves a que ninguém chama droga, mas sim Pó de Evasão Individual para Devaneio Onírico, isto é, simples veículo de sonho, como o nome é muito comprido toda a gente o conhece pelas iniciais…

Em matéria de transportes colectivos, é de referir o admirável progresso verificado com o “OverTejo” que, em dez minutos, nos leva da plataforma da Alfarrobeira à Espiral de Neptuno, antiga Praça de Espanha.

Quem anda muito triste e acabrunhado é um velhote que, em tempos, teve o melhor restaurante de Sesimbra e que ia aos arames com as motorizadas barulhentas. Um dia entendeu que o único remédio era dar-lhes com um remo no capacete (ou nos cornos, já não sei bem) e, desde então, começou a empreender, a empreender, a cismar. Passa os dias no muro, de remo na mão à espera de motorizadas e não ouve quando se lhe diz que motorizadas só no museu da Cilindrada.

E é assim, temos de viver com o nosso tempo, mas por vezes custa. Hoje a vida será mais fácil, mas perdeu-se poesia e romantismo. Só conta a eficácia, o que prevalece é a ténica. Ténica? Mas onde é que eu já li isto?...

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Publicado originalmente em O Sesimbrense.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 35

as crónicas da Eventos...



Pauwels e o milagre*

António Cagica Rapaz

Em 1979, o mundo foi abalado pelo segundo choque petrolífero e a tecnologia de ponta dava passos de cujo alcance poucos tiveram uma consciência tão nítida como Louis Pauwels.

Pressentia-se o fim do reino do aristocrático presidente que foi Valéry Giscard’Estaing e começava o maquiavélico e despudorado François Miterrand a preparar o rol de irresponsáveis e incontáveis promessas em que o supostamente arguto povo francês acreditou. Nesse tempo, o número de desempregados andava pelos 300.000 e Miterrand nem pestanejou (como era seu tique) ao afiançar que iria criar um milhão de postos de trabalho. Só para jovens. Poucos anos volvidos, a França, fatalmente, chegava aos três milhões de desempregados e Mitterrand, pressionado pelos jornalistas, apenas declarou que a culpa era dos seus peritos que se tinham enganado nos cálculos. E passou a outro assunto. Privilégios, arrogância e impunidade destes príncipes que nos governam.

Foi há uns bons vinte anos e os políticos de hoje não são melhores…

Num dos seus brilhantes editoriais no “Figaro Magazine”, Louis Pauwels terá sido, porventura, o primeiro a dizer que a rainha ia nua. A rainha era a nova ordem mundial caracterizada pelo crescente papel da informática, da robótica, da modernidade que ia criando e instalando máquinas que atiravam para um desemprego galopante e dramático pessoas tornadas desnecessárias, fardos a eliminar em nome da rentabilidade.

Com uma lucidez implacável, Pauwels explicava (em 1979, é importante recordar) esta coisa simples e evidente: a máquina cria riqueza porque faz melhor, mais depressa e com menor custo o trabalho até então desempenhado por homens. Inevitavelmente, iria haver cada vez mais pessoas que perderiam o seu emprego e outras que muito dificilmente ou nunca teriam acesso ao mundo do trabalho. Esta era a realidade, cruel e inegável a não ser para os políticos que não só recusavam a evidência mas dela se aproveitavam com criminosa hipocrisia.

Louis Pauwels é um homem de rara inteligência, grande coragem e uma visão do Cosmos que vai muito mais longe que as sórdidas lutas por um poder tão transitório como irrisório. Assumidamente de direita, revelou uma grandeza admirável ao avançar uma forma de atenuar o drama do desemprego. Em linhas gerais, sugeria que a riqueza criada pelas máquinas não ficasse maciçamente nas mãos dos patrões, mas que fosse distribuída por forma a permitir aos milhões de excluídos viver com dignidade. Será isto socialismo? Será solidariedade? No fundo, ele bem sabia que era uma visão lírica, beatífica e utópica deste mundo que nada tem de admirável e onde os grandes grupos económcios, ao longo destes vinte e tal anos, têm utilizado cada vez mais as máquinas, explorando e humilhando trabalhadores angustiados e resignados a aceitar baixos salários e horários abusivos. A riqueza produzida pelas máquinas continua a entrar nos cofres dos patrões, enquanto os custos decorrentes dos despedimentos ficam para o Estado, ou seja, para os contribuintes…

Pauwels referia ainda quanto de paradoxal existe ainda nesta busca desesperada de trabalho, quando o próprio do homem não é trabalhar, mas sim ter actividades, passear, escrever, pintar, ir à pesca, estudar, conviver. Mas para isso, precisa de um rendimento mínimo que não lhe é proporcionado porque a repartição da riqueza continua a ser injusta.

Louis Pauwels é co-autor do “Despertar dos Mágicos” e de “Histórias Fantásticas”, homem da metafísica e de visões transcendentais. Mas não é louco, nem visionário, nem ingénuo ao ponto de acreditar que os ricos alguma vez se preocuparão com os pobres. E já então percebia que o poder político está totalmente manietado pelo poder económico.

No nosso país, continuamos sem levantar o sigilo bancário; sem averiguar a partir dos sinais exteriores de riqueza; sem ter mão pesada para as fugas ao fisco; sem investigar falências duvidosas; sem acabar com empresas familiares que só são constituídas para se ter carro, gasolina, almoços, férias pagos, com o dinheiro que deveria ir para o IRS; sem prescindir de mil privilégios e mordomias como reformas antecipadas, assessores pagos a peso de oiro, empregos para camaradas de partido; sem coragem para punir exemplarmente os poluidores, responsáveis por descargas criminosas e cobardes que as televisões mostraram mas cujos autores permanecem impunes; sem dotações orçamentais para a saúde, para a educação ou para as pensões, mas com fartura para a megalomania dos dez estádios do Euro 2004.

Louis Pauwels não se enganou e o desemprego continua a ser o mal maior, causa principal de angústia, desespero, violência, criminalidade, insegurança, cancros que minam a Humanidade. Porque não há esperança de um futuro melhor, porque os valores éticos, morais, humanitários, são esquecidos e pisados, porque se mata por petróleo e se morre voluntariamente em nome da religião.

Depois, nas sociedades modernas, o consumo é religião, cultiva-se a ostentação, os hipermercados multiplicam-se, o crédito é acessível. E são os carros, as câmaras de vídeo, os televisores, o cabo, a Internet, os telemóveis de terceira geração, as aparelhagens de alta fidelidade, as férias a prestações, a ilusão que conduz ao drama do endividamento incontrolável. Os mais pobres, os excluídos, em particular os mais jovens, arregalam os olhos. E muitos caem em tentação, roubos, assaltos, delinquência e criminalidade inevitáveis.

Depois, a televisão mostra tudo, não há tabus nem pudor. Censura-se um comentador político por ser incómodo e dá-se rédea larga à vacalhada da Quinta. Os estudantes revoltam-se contra o pagamento de propinas, mas têm automóvel, telemóvel sofisticado que dá para tudo, até para falar. Encharcam-se em álcool em noitadas abundantemente exaltadas em revistas pirosas e até em semanários que pretendem ser sérios. Em tempo de Queima das Fitas, as inocentes cervejeiras deste país oferecem milhares de barris de onde saem, misturados com a espuma, bebedeiras monumentais e comas etílicos sem conta, para grande gáudio da televisão e perante a indiferença do poder político.

Nas nossas estradas morre-se desgraçadamente porque ignoramos o Código, não respeitamos os outros condutores, queremos chegar à frente, vencer, ser mais espertos.

Se Louis Pauwels vivesse em Portugal, se calhar ia rever a sua teoria, ao verificar que continuamos a fabricar, às toneladas, doutores desenquadrados das necessidades do mercado de trabalho, tanto em qualificação como em número. Mais observaria que, no nosso país, as máquinas não substituem os homens, já que ao volante de cada uma vai sempre um condutor. E em algumas zonas industriais onde a crise grassa, há grandes máquinas, Ferrari, Maseratti e outras, nas mãos de empresários “falidos”.

Louis Pauwels teve razão, talvez cedo de mais. De facto, não é possível alcançar-se a paz, a harmonia social, o bem-estar da Humanidade, sem uma verdadeira e alargada solidariedade, através de uma mais justa redistribuição da riqueza, por forma a assegurar um mínimo de justiça social e equilíbrio entre os povos. E sem uma urgente e efectiva acção de protecção da Natureza, uma luta corajosa contra a poluição, em defesa do Ambiente.

Pessoalmente não acredito em tal milagre e receio bem que o Homem acabe por destruir o Mundo em que vamos vivendo cada vez pior, com a intolerância, a ganância, a indiferença, a exclusão, a solidão, a guerra, o terrorismo, a sida e a droga. Mas a teoria está certa e se o milagre de Pauwels se der, então sim, os homens dispensados pelas máquinas poderão viver com dignidade e ter as tais ocupações, ler, passear, pintar ou ir à pesca.

Têm é que se despachar porque, qualquer dia, já não há peixe…

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*Publicado no n.º 34 de Sesimbra Eventos, de Natal/Ano Novo de 2004-2005.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 39




Soledade Welch*

António Cagica Rapaz

Durante anos longe de Sesimbra tenho escrito muitas dezenas de crónicas que são a expressão de certos estados de alma, a revelação de um rolo infinito de “fotografias” que fiz ao longo de muitos anos. Tal como as cores impressionam a película, também eu fiquei impressionado com a beleza, a ternura, a gentileza, a lealdade, a fraternidade, a inveja, a maldade, a baixeza e com tantos outros sentimentos, emoções e situações que encontrei, conheci e observei.

Aconteceu comigo como sucede com todos os seres humanos, de Sesimbra e de algures.

Do que vi e vivi guardei certas recordações como cada um de vós terá as suas. Muito cedo senti vontade de as expor em praça pública, pelo gosto da escrita e por pensar que bom número de pessoas as lê com grado.

Naturalmente, nem tudo se pode contar, porque todos temos o nosso jardim secreto, certo pudor e respeito por outras pessoas que poderiam não apreciar as minhas revelações.

Por outro lado, não utilizo esta forma de expressão pública para atacar ou denegrir alguém, o que não significa que não tome posição em relação a situações de interesse geral, pois tenho opinião e julgo ser capaz de a apresentar correctamente.

No fundo, muitos sesimbrenses poderiam colaborar nos nossos dois jornais, havendo certamente muita coisa interessante e importante a dizer. Tal como sucede com o tal pó de lavar a roupa, também um dia eu direi que julgava que as minhas recordações eram belas antes de ler as tuas.

Um amigo perguntava-me há tempos se não haverá quem pense que eu distribuo notas às pessoas como os júris dos festivais da canção, proclamando quem é bom e deixando os outros na sombra. O tema é interessante e direi que não sou árbitro nem juiz nem patriarca nem modelo de virtudes, longe disso.

Não possuo as tábuas da lei nem a cartilha das qualidades excelsas. Por isso ninguém é bom só porque essa é a minha opinião. Por tudo e porque posso enganar-me.

Aliás, o importante para o leitor não é que eu chegue aqui escrevendo apenas que o Carlinhos da Rã é um bom rapaz. Não se trata de distribuir medalhas nem certidões de bom comportamento, muito menos registos criminais.

Dizia Sartre que escritor não é quem escreve certas coisas mas quem escreve de certa maneira. Ora o que eu escrevo (mesmo sem ser escritor) pouco importa, o que conta é que o faça de certa maneira, de forma a proporcionar leitura agradável. Claro, se houver um fundo de verdade, um fio pelo menos, se falar de situações e pessoas conhecidas, melhor ainda, mas vale menos pelo fundo do que pela forma.

E se não falo de todos quantos pensam que lhes poderia arranjar aqui um lugar como na geral do Parque, a verdade é que para isso há a lista telefónica. Não posso ter de todos a mesma imagem, a mesma impressão gravada no meu espírito. Uns estão no primeiro plano das tais fotografias, outros no segundo plano e outros não aparecem porque não cabem, não entram no campo visual da minha máquina fotográfica que, por vezes, pode não funcionar tão bem como a do Américo fotógrafo que tinha como modelo, na loja, a Lucinda.

O mestre Adelino, de navalha na mão, de vez em quando deitava um olho à Lucinda e lá ficava o desgraçado do freguês com uma patilha mais curta. Podem acreditar, é pura mentira…

Por isso (e respondo ao meu amigo) as pessoas e as situações não são melhores ou piores porque eu decido, julgo ou afianço (não sou aferidor como o filho do tio Chico Carteiro) e apenas dou os meus pontos de vista, as minhas impressões, como o Damião poderia ter dado se resolvesse contar o que viu e ouviu naquele Grémio onde o seu café ficou famoso.

Muito sabem o Damião, o Charuto e o Alfredo que teriam mil histórias para contar. Como eles não o fazem, avanço eu com pouca cerimónia, com um desplante quase igual ao do Valdemar, com a pouca vergonha do meu tio Justino Come-figos, sem o talento do meu antigo Professor Vitorino Nemésio, sem a pureza de estilo do meu compadre Alves dos Santos e apenas com algumas ideias, certa forma de contar e a vontade de estar convosco.

Quando no Diário de Lisboa ou no Record coloquei os nomes do Deodato ou do Capitão Domingos, intriguei muita gente por esse país fora, mas sobretudo dei-lhes alguma satisfação, certo orgulho comedido. E tornei mais viva e concreta a narrativa pois se falo de um café nada custa acrescentar que é do Zé Filipe ou do Alfredo. Se era um cinema, claro, era o do João Mota, quanto mais não fosse porque a Soledade é minha prima e o Rui casou com a Rosa Maria que também é minha prima. Claro que estes pormenores são de pouco interesse (a não ser para as pessoas visadas) e se o faço é apenas por brincadeira e para evocar as pessoas que nas fotografias e na televisão agitam a mão para saudar a família, os amigos e os vizinhos de patamar. Assim eu saúdo os primos e as primas. Escuso de lhes escrever, poupo o selo, economia de tempo e vantagem que retiro desta correspondência.

Tudo isto é apenas devaneio, conversa de passeata entre o Central e o Espadarte, porque na vida há coisas graves que devem ser tratadas de outra forma. Porém, há um tempo para cada coisa e, por vezes, é bom distrairmos o espírito, abordar com ligeireza e aparente frivolidade outros temas porque a vida se encarrega de nos colocar uma cruz sobre os ombros. Para uns ela é leve, outros arrastam-se sob o peso da amargura anos e anos.

Por isso, se pudermos sorrir com alguma ternura, daí não virá mal ao mundo. Não é verdade, Candinha?

Escrevo o que me passa pela cabeça, enquanto sentir vontade e enquanto souber que não aborreço muito os leitores.

E imaginem que hoje, ao iniciar esta crónica, pensava falar-vos da Sofia Loren, da Raquel Welch, da Brigitte Bardot e outras vedetas que tive a ocasião de ver pessoalmente, aqui em Paris, de perto, como daqui àquela cadeira.

E afinal fugiu-me a veia para a rua do Saco fundo, vieram à tona da inspiração outras ideias e a Sofia Loren fica para a próxima.

O pior é que tive de arranjar outro título, porque o que previra já não encaixa. A culpa é vossa, do Carlinhos da Rã e dos outros que me distraíram de tal forma que acabei por falar da minha prima Soledade em vez da Raquel Welch. Não presta, sabes?!!

É assim, são fraquezas, são franquezas, é o que vem à rede…

E, já agora, confessem lá, o título deixou-vos intrigados, não deixou?
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* Publicado originalmente em O Sesimbrense.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 30



Foi há uns bons quarenta anos. Quando o oculista lhe perguntou se queria trocar de armação, respondeu que não senhor, gostava de estar no Burgau...
António Cagica Rapaz


[da série Gente, Nomes...]

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 38



Forno

António Cagica Rapaz

Na alvorada dos anos 60, abriu em Sesimbra uma boîte, coisa insólita quase à margem de uma lei ferrugenta e de uma moral cheia de teias de aranha. Ficava em frente da cocheira do Zé Dolfo e chamava-se Forno. O dono era um tal Vítor Marques, figura insinuante das sortidas de veraneio, pessoa requintada, homem do mundo.

O Forno aparecia como um lugar de perdição, antro diabólico, célula viciada de Sodoma e Gomorra, palco de mirabolâncias musicais e depravações de luzes indirectas. A entrada deste templo de Belzebu era guardada por um D. Quixote esguio, de bigodaça autoritária, conhecido por Fachadas, velho malandro de Cascais, especialista de portarias tenebrosas, filho da noite, rufia reformado, espadachim de cartolina, hussardo de opereta, marialva de becos escusos, artista de sonhos desfeitos. O Forno era a magia do Verão, a embriaguez da música, o calor da voz do Tom Jones, fábrica de romances de uma noite. O Vítor Marques era o mestre de cerimónias, o inspirador, um toque de classe que muitos invejavam...

No Inverno, Sesimbra voltava a ser uma terra sombria, fustigada pelo vento sul e pela chuva. E eu gostava de ir até ao Forno, vazio, mas ainda impregnado do perfume do Verão. E lá passei horas infinitas a conversar com o Vítor Marques, com a música a meia haste, na evocação das mil histórias da noite. Ele era, ao mesmo tempo, locutor de Rádio, programas, anúncios e, até, um folhetim que fez as delícias da minha mãe e da minha prima Judite. Foi em 1956, por aí, e era patrocinado pelo Polycolor. “Se aos seus cabelos quer dar outra cor, lave a cabeça com Polycolor. Acabam-se as mágoas e chega o amor, depois de usar o Polycolor”. Os heróis desse folhetim (Henrique e Olga Sampaio) eram interpretados pelo Vítor Marques e a mulher, Manuela. Porém, os nomes dos intérpretes não eram anunciados e só alguns anos depois, numa dessas noites de Inverno, fiquei a saber. Quase imagino a minha mãe ir esperar-me ao Forno, de braço dado com a Judite, para ficarem a conhecer o Henrique Sampaio da voz suave.

O Forno ficou como um marco na história marialva de Sesimbra, e o Vítor Marques era um fidalgo de botão na lapela, copo na mão, presença distinta, observador mordaz. Nos labirintos da noite havia rivalidades de estimação e o Vítor Marques não escondia certa antipatia pelo Tony. Dizia ele que cada um é para o que nasce e que o lugar do Tony era atrás do balcão da Marisqueira, de mangas arregaçadas, a dar gargalhadas. Mauzinho, mas exemplar...

1983

sábado, 25 de dezembro de 2010

TALVEZ POESIA..., 8

Esperança


António Cagica Rapaz

Farol incerto
Na noite,
Bastão frágil
Na jornada,
Fracos braços
Pr'a remar...
É bem pouco
O que valemos,
Mas aqui estamos
Comvosco, para dizer
Que é preciso acreditar,
Que é preciso olhar o mar.
O vosso barquinho avança,
Vai vencer o vendaval,
Por que a vontade é maior,
Porque é grande o vosso amor.
O vosso barquinho avança,
Vai vencer o vendaval.
Volta a sorrir a criança
Porque é grande
A vossa esperança,
Porque há Deus e é Natal.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 34

as crónicas da Eventos...


foto tirada
daqui
. clique para a ampliar


Presépios*
António Cagica Rapaz

Quando éramos crianças, a véspera do Natal era o dia mais longo, tão grande era a nossa ansiedade…

A escola começava em 7 de Outubro e, muito rapidamente, o Natal emergia das brumas de Novembro para ir ganhando contornos nítidos, à medida que na montra do Lima iam aparecendo
brinquedos.

A Igreja ocupava um lugar importante na nossa vida, no nosso quotidiano, em virtude da religiosidade ancestral da vila e, sobretudo, pela relação afectiva que todos tínhamos com o padre João. As imagens do catecismo, a poesia e o suave encanto que envolviam aquela quadra maravilhosa levavam-nos a construir presépios à medida da nossa emoção e da nossa fantasia.

O primeiro passo era o namoro às cortiças. Eu costumava valer-me da bondade do tio Zé Francisco, mandador das armações do Risco e do Burgau, pai do Fernando Viola, que sempre acabava por fornecer o mágico adereço que servia de suporte ao nosso universo de inocente deslumbramento. Por milagre caseiro, a cortiça transformava-se em montes, encostas, grutas, leito de riachos e lagos, outeiro de moleiro, planície longínqua, miragem de reis magos.

Da praia vinha a areia, do ribeiro alguma verdura e, aos poucos, o presépio ia ganhando forma. A guardadora de patos, junto ao espelho, que fingia ser lago ou riacho, contemplava o lenhador que, de molho às costas, se dirigia para a casinha diluída na encosta de cortiça.

Em cada dia, todo aquele mundo se agitava, os camelos avançavam um centímetro, o moleiro aproximava-se das velas alvas do moinho, as ovelhas dispersavam-se sob o olhar do pastor fleumático e do cão vigilante, bucolismo enternecedor, ali a dois palmos da gruta onde o Menino se mantinha caladinho e aconchegado nas palhinhas, que Deus o benzia.
Ali ao lado ia crescendo a seara, verde e frágil, verdadeira magia dos grãos de trigo, milagre da Natureza, materialização singela, clara e concreta do simbolismo que o presépio encerra…

Em muitos países, o ornamento preferido é a árvore de Natal, decorada com mil berloques e rodeada de presentes que, cada vez mais, foram constituindo a maior razão de ser de uma celebração irremediavelmente profana.

Em Portugal, a tradição do presépio foi cedendo terreno à facilidade do pinheiro enfeitado, sinal evidente da adulteração dos valores espirituais que caracterizavam os Natais do passado. O presépio era a partilha do sonho, a construção de um universo poético, ideal, fascinação repetida em cada Dezembro da nossa inocência.

Ao longo dos anos continuámos a compor, a retocar o presépio da nossa vida, nele colocando algumas das figuras que fomos elegendo, à luz da nossa sensibilidade, em função dos nossos afectos, na escola, na oficina, na barca, na tropa, no escritório, na nossa rua, colocando mais alto ou mais baixo, mais perto ou mais longe, mas sempre próximo do nosso coração. Em cada círculo de convivência fomos construindo uma cabana para nos abrigarmos das turbulências da vida, reunindo pastores pachorrentos, moleiros tranquilos, guardadoras de patos maliciosas, reis magos bondosos, estrelas amigas para iluminarem o nosso caminho.

Sesimbra é um imenso presépio que vai do Caneiro à doca, enquanto houver missa do galo o espírito de Natal perdurará.

O André e o Álvaro Bizarro teimam em preservar a poesia dos presépios da nossa meninice porque o progresso afundou as armações e já não temos cortiças. Uma vez por ano, há no ar um perfume de fraternidade, um brilho diferente nos olhos, não é como foi, é o que é, mas é Natal. Com pinheiro enfeitado, com presépio de plástico, sem seara, mas é Natal. Triste é a solidão, a secura de quem se limita a comprar, a dar e receber prendas, sem amor, por tradição mal vivida.
Pior será quando deixarmos de nos reunir, quando nos limitarmos a trocar mensagens de “Feliz Internetal”…

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* Publicado no n.º 10 de Sesimbra Eventos, Natal/Ano Novo de 2000-2001.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 38




Carta ao Fernando Viola*

António Cagica Rapaz

É provável que o Fernando Viola tenha lido a carta ao capitão Domingos. E não é impossível que tenha sentido alguma decepção quando verificou que eu fiz uma breve alusão a uma conversa com o Augusto do Salva-vidas e não mencionei que ele Fernando se juntara a nós a certa altura.

O Fernando Viola da minha infância não tinha aquele bigodinho à Errol Flynn. Era o Fernando Manuel da Encarnação Viola aluno do Colégio no Dr. Costa Marques ou melhor António da Costa Marques e tanto ele como eu obedecíamos aos toques de campainha do Manuel Figueiredo Elisbão. É curioso como nos ficam na memória os nomes completos dos nossos camaradas de escola.

O meu amigo mais antigo é o Carlinhos ou seja o Carlos Rafael Carapinha Pólvora que continua a ser o mesmo rapaz correcto e atencioso, nas bombas da Sacor.

Alguma confusão se estabelecia com o Carlos Manuel Ribeiro Carapinha, barbeiro artista, belenense dos antigos, e que na escola era apenas o Carapinha, vizinho do António da Silva Clemente e do António Sebastião Vieira Fidalgo.

Outros Antónios, o António Fernando Batalha Alves, o António José Saraiva Preto e o Pedro António Rosa Gonçalves, sem falar no Luís Filipe Dias Cagica Pinto, no Joaquim Manuel da Silva Penim, no meu capicua Manuel António Alves Pinto ou no Julião Gomes António morador no Casal das Boiças, para quem não souber.

Mas voltemos ao Fernando Viola que morava numa viela escondida, à sombra da Fortaleza, à beira da Rua de Alfenim.

A Rua de Alfenim evoca os Santos Populares e nunca esquecerei um ronda, uma volta à Vila em 1968 com um grupo de malandros do qual fazia parte o nosso António do Porto que largou uma “bomba de S. João” em plena Rua de Alfenim causando espanto inaudito. Foi um lance inesperado de efeito espectacular.

O António viu o Helder Chagas no poial de uma porta a fazer uma serenata a duas donzelas que moravam na Calçada e perguntou-lhe se ele acompanhava aquele ritmo. Palavras não era ditas já ele saltava com a sua agilidade incrível e, todo no ar, largou a “bomba”. Parou a roda, não à falta de haver quem cantasse mas pela surpresa que paralisou os folgazões de mão dada à volta da fogueira. Só visto ou só ouvido…

É uma perda e uma pena não termos ruas enfeitadas como nesse tempo. As ruas enfeitadas eram o perfume do verão, o alecrim e o rosmaninho, a poesia e a fraternidade, o esforço de muitos meses, a entreajuda, a comunidade de espírito, a amizade à volta da fogueira.

A simplicidade de certas decorações em nada diminuía o mérito de todos quantos generosamente participavam na criação. A rua passava a ser a casa de todos, a sala comum, o pátio das cantigas.

De dia a rua era fresca porque as decorações protegiam do sol e, à noite, era o deslumbramento das velas, das luzes e das estrelas. A fogueira era o vulcão de alegria pela madrugada dentro. O rasgo do polvo, a batata na cinza, o petisco à porta, o vinho alegre, Sesimbra dava as mãos à amizade e à alegria, saudável e sincera.

O tema dominante, a fonte de inspiração era o mar e os motivos ligados à pesca ocupavam um espaço tradicionalmente vasto. Mas havia quem gostasse de variar. Era o caso da minha tia Lucinda que decorava a rua com um requinte admirável, através dos seus dons artísticos excepcionais.

Se tivesse nascido no sei de outra família ou noutra terra, a minha tia Lucinda poderia ter sido uma artista porque nasceu com o toque de génio que não se aprende mas apenas se aperfeiçoa ou trabalha. Ela desenha e pinta na perfeição, canta, assobia, faz versos, corta, cose, compõe, arma, sei lá que mais. A sua rua nunca ganhou um prémio por não respeitar os temas piscatórios mas era sempre a mais bonita.

Nas ruas havia sempre quadras de sabor popular e seria interessante fazer-se uma recolha dessa expressão tão rica e autêntica.

Uma das quadras mais características, era alusiva ao St.º António e rezava assim:

Santo António era bom santo
Pôs os pés no alcatrão
Jogou à porrada c’o mestre de terra
Foi-se embora da armação
Era no tempo em que havia armações. E o pai do Fernando Vila, o tio Zé Francisco, era mestre de uma delas mas não creio que tenha sido ele o opositor do St.º António. Certa vez fiz umas quantas quadras para a rua de Alfenim precisamente e uma delas ficou-me na memória porque era bem ao gosto picante da nossa gente. Era assim

Não há rua por mais pobre
Que uma fogueira não tenha
Mas para tanta labareda
É precisa muita lenha

Destas e doutras é que o nosso bom povo gosta, sempre pronto para a galhofa, de chalaça em riste, com a piada na ponta da língua.

E vejam só até onde o Fernando Viola já nos levou, nesta divagação ao correr da pena, de arquinho e balão, lá vamos na marcha.

E no entanto a imagem que conservo do Viola não está ligada ás ruas enfeitadas nem ao verão. Pelo contrário, num dos instantâneos que dele guardo, o Fernando é o filho do homem que me dava as cortiças para o presépio.

Quando Dezembro chegava, cheirava a Natal. Logo que os primeiros brinquedos apareciam na montra do Lima o sortilégio do Natal crescia em nós.

E começavam as visitas ao tio Zé Francisco para namorar as cortiças da armação. Uma hoje, amanhã outra e, pouco a pouco, o presépio tomava forma. Depois era a disposição das figuras, o musgo macio e a poesia do presépio cristão.

Lá em cima, o padre João orientava a decoração da igreja para a missa do galo e em todos nós havia uma febre maravilhosa, uma expectativa angelical, uma curiosidade inocente e um entusiasmo contagiante.

No verão enfeitavam-se as ruas, no Natal era o presépio com as cortiças do tio Zé Francisco, o pai do Fernando Viola que encontrei noutro dia na rua Direita, às nove da manhã.

Falámos a fugir, disto e daquilo, de banalidades porque estas coisas não se dizem às nove da manhã na rua Direita.

E nem o Fernando sonhava que a evocação desses instantes nos levaria a esta digressão através de ruas enfeitadas onde a roda está para da à falta de haver quem cante. Ora agora cantei eu, mas a roda não segue avante porque a tradição das ruas enfeitadas se esfumou como as armações e tantas outras coisas.

Hoje há aparelhagens estereofónicas nas lojas de “companha”, há quem enjoe o marisco apesar do preço, há abastança onde ontem havia necessidades, muitas coisas mudaram, o progresso traz consigo o proveito de alguns quando o ideal seria o bem estar de todos.

Tanto melhor para os que beneficiam mas agravou-se a diferença. E perdem-se valores morais e culturais, vive-se a correr, já não há lugar nem tempo para a poesia.

Restam as cinzas de fogueiras apagadas. Que ao menos as não apaguemos na nossa memória.

Desculpa, Fernando, ter agarrado em ti tornando-te testemunha, depois de teres sido inspirador desta excursão saudosa.

Muito se devem aborrecer agora os Santos populares e eles não mereciam este esquecimento.
Pelo menos por um, ponho eu as mãos na fogueira e, diz a quadra, St.º António era bom santo…
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* Publicado na edição de 25 de Maio de 1984 do Jornal de Sesimbra.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 29



Ainda hei-de calar a boca da noite...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 37


Os Zambras

António Cagica Rapaz

Eram quatro como as estações do ano, como os pontos cardeais, como os naipes das cartas, como os Beatles e como os três mosqueteiros. Quatro eram os Zambras que, na década de 60, constituíram um conjunto de apreciável valia, aposta ousada, inspirados na melodia xaroposa dos Bee Gees.

A esplanada da Marisqueira era tímida, meia dúzia de mesas e cadeiras diante da porta, mais estalagem de corsários de má morte do que bar selecto ou restaurante requintado. A dois passos ficava o café do Joaquim Pólvora, antigo extremo-esquerdo do Desportivo que foi rendido pelo Hermínio Pinhal, também ele à frente de um café, o Martelo, berço dos Galés. Ao lado do Pólvora, pai do Eliseu, a minha tia-avó Francisca ia ficando cada vez mais mirrada naquela cova funda onde está hoje o restaurante Pedra Alta. Mas nunca perdeu o olhar vivo, de brilho intenso, malicioso e lúcido. Era irmã da minha avó Sabina que também passou anos atrás de um balcão, na rua dos Pescadores.

Sesimbra vivia uma época de fulgor e euforia, com a epopeia do Desportivo, o esplendor da lota, a animação da esplanada do Central, o cartaz folclórico do Chagas, a roda viva de barcas e traineiras em bailado garrido em frente da fortaleza, o rodopio das gaivotas, a festa saudável do Verão que os Galés cantavam pela noite fora, enquanto durava o fôlego do António do Porto, o homem da gaita. O Hotel do Mar era a excelência, templo inacessível, mistério e fascínio, com as suas paredes de inspiração monacal, o requinte despojado, o santuário de uma boîte de configuração insólita, com várias pistas de dança, caverna das mil e uma noites de sedução e fantasia.

Os Zambras tinham o mesmo espírito folgazão dos Galés, mas tocavam uma oitava acima, não vestiam camisola aos quadrados, empunhavam guitarra eléctrica e exibiam-se no universo sofisticado do Hotel do Mar, consagração para os nossos artistas que lá iam safando Massachussets e dizendo Words à média luz, em murmúrio suave.

Mal acabava a função, era vê-los com o António do Porto, na rua de Alfenim, de roda da fogueira, com o Helder, de guitarra cúmplice, em enlevada serenata a uma menina da Calçada.

Mal ele sonhava que, um dia, viria a ter o Pedra Alta ali mesmo ao lado do café do pai do Eliseu. Nem o Valdemar imaginava vir a suceder ao Cabecinha. O quarto elemento, o Zé Costa, deu os primeiros passos na boémia saindo, em bicos de pés, da mercearia do tio Arlindo para levantar, hesitante, a cortina do Espadarte Clube onde o Zé Manel e o Júlio Silva se enfrentavam, noite após noite, em despiques fadistas animados e vibrantes. Os Zambras ficaram na nossa memória como o eco distante de um tempo feliz, verões coloridos, festa na rua, Sesimbra sentada à porta até a noite se extinguir nos últimos acordes da gaita de beiços do António do Porto...

1998

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 33

as crónicas da Eventos....




Da eira do Valada ao planalto dos Macondes*

António Cagica Rapaz

O Joaquim Manuel nunca precisou da eira do Valada para ver jogar o Desportivo. Miúdos como éramos, cabíamos por entre as grades da esquelética vedação ou arranjávamos sempre uma alma caridosa que nos acolhia sob a sua protecção. E lá entrávamos para ver de perto os nossos heróis, o Manel Santana, o Isidro, o Zé Broa, o Baeta, o Rogério, e esperar o fim do jogo para saltarmos para o campo, com as redes ainda postas, a cal bem viva e as marcas das traves das botas no pelado áspero. Era a nossa vez, presos à magia do futebol, sonho deslumbrado ao cair da noite…

O Joaquim Manuel não esteve connosco nos dois últimos anos da prodigiosa década de sessenta. Convocaram-no para um jogo cujas regras não lhe explicaram, equiparam-no e mandaram-no para um campo desconhecido para defrontar e eliminar um adversário escondido. Era a guerra colonial, e o local dos encontros era algures em Moçambique, terra do Matateu, ídolo do Belenenses da nossa infância…

Por essa altura, com a camisola da CUF, tive a honra de jogar com o velho Lucas, o nosso Matateu, a quem não me ocorreu perguntar se tinha algum parente para as bandas de Nangololo, algum amigo que pudesse proteger o Joaquim Manuel. Um ano depois dele, em Outubro de 69, entrei eu na tropa, em Mafra, mas não fui ao Ultramar, e nunca hei-de saber avaliar como foi bom ter escapado.

O Joaquim Manuel começou por escrever um diário, talvez para passar o tempo, para registar factos que, paradoxalmente, preferiria nunca ter presenciado. Quem sabe se, ao escrever, não tentava diluir a crueldade daquela guerra, transportando-a para um universo de ficção. Mais tarde, acabou por desenterrar o diário e reviver a guerra, os medos, a angústia, a revolta, a incompreensão, mas também a força da camaradagem, o sabor da vida permanentemente ameaçada, a abençoada excitação provocada pela chegada do correio que lhe levava mensagens de amor, de amizade, de saudade.

“No Planalto dos Macondes” conta a guerra, a vida e a morte, lá longe, para onde foi sem ter pedido, para matar quem nunca vira ou ser morto por quem nunca ouvira falar do tio Amadeu nem sabia que ele era do Belenenses, clube dos manos Vicente e Matateu, moçambicanos como aqueles que se escondiam, preparando mortíferas emboscadas para mutilar ou roubar a vida a jovens condenados a uma luta cega e injusta.

É longe Moçambique, mas diante dos olhos do Joaquim Manuel estava sempre Sesimbra, a família, a namorada, os amigos, a praia, a vida, a verdadeira vida, não a que ele e os camaradas arriscavam ingloriamente em terras que não eram deles. Dele, Joaquim Manuel, era a nossa Sesimbra evocada ao longo das página desta admirável narrativa que deveria ser lida por todos quantos possam estar interessados em saber como se lutou, como se sofreu, como se morreu e como se sobreviveu no horror da guerra, tudo contado com realismo, lucidez e, mesmo, humor. Cada militar tinha a sua aldeia no coração, mas raros são os que falam dos seus sentimentos, menos ainda os que escrevem. Mas o Joaquim Manuel fê-lo e nós ficamos felizes por ele, por ter sobrevivido, por estar entre nós, por ser nosso amigo e por ter sido capaz de nos deixar este valioso testemunho, olhando a guerra à distância, recordando quadros de morte para melhor saborear a vida.

Sabe Deus em que pensará hoje o Joaquim Manuel nas suas caminhadas ao longo da Marginal. Talvez lhe chegue, vindo de longe, o cheiro da mata, o chilrear dos pássaros em cada alvorada, tudo misturado com o perfume suave dos eucaliptos do campo do Desportivo que quase tapavam a vista da eira do Valada…

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* Publicado no n.º 32 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2004.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 36



Valdemar, sempre ele

António Cagica Rapaz

- É inglesa, mas é do campo!

Tal foi o veredicto do juiz Valdemar Laranjeiro dos Santos no supremo tribunal da malandrice que era o Espadarte Clube. Numa noite de rambóia, na mesa comprida do canto, o belo Valdemar apreciava o estranho estilo de uma mocetona que dançava desajeitadamente. Após breve análise, saiu a sentença:

“Eh pá, esta gaja é do campo!”

- Tás maluco, pá – replica o Alfredo Filipe.

- Já te disse, é do campo. Já viste como ela dança, parece que anda aos bordos, toda desengonçada. A malvada vai à zinga! Vai por mim, é do campo.

- Não pode ser, pá, a mulher tá no Espadarte, é inglesa.

- Tá bem, é inglesa, mas é do campo, que lá também há campo.

Genial desarrincanço este do Valdemar, notável, de facto. Em Inglaterra também há campo, campo e bailes, algures em Quintola Road ou em Caixas Cottage. Portanto, o Valdemar tinha razão. Aliás, às duas da manhã, à luz mortiça das velas, à sombra dos barrotes do Espadarte Clube, depois do Pinhal ter posto o Rose garden, I beg your pardon pela décima vez, o Valdemar tinha sempre razão, a razão do mais forte, do mais descontraído, do mais hábil num flamengo improvisado ou num samba endiabrado. Nos anos 60, o Verão era uma festa permanente para o Valdemar que nem por isso faltava na lota para ganhar o peixe de cada dia. Até chegar a noite, as noites de aventuras, de ousadias, escaramuças no Forno, abordagens na Marisqueira, emboscadas no Hotel do Mar.

Na lota, à beira da fortaleza, pimpão e galgão, com um olho vigiava o peixe que vinha do mar e, com outro, o peixe de terra que se encostava ao muro com olhares meigos e sorrisos cheios de promessas.

- Hello, Val! – lá estavam elas à espera que na lota soasse o último chui para embarcarem na traineira da noite que largava as amarras e ia perder-se no mar da bruma.

O seu inglês era modesto, mas o Valdemar não tinha complexos e, com meia de italiano mais um toque de espanhol, boa noite, ó mestre, vamos lá atão.

Em vida anterior, o Valdemar terá sido, provavelmente, pirata da Jamaica, aventureiro de Maracaíbo, garrafa de rum, chapéu de aba larga e pluma ao vento, gesto largo, palavra fácil, uma mulher em cada porto.

No futebol podia ter ido longe, mas não quis, não sentiu que valesse a pena, era outro tempo. O Valdemar foi sempre cigarra, filho da noite. Por ela se perdeu, com ela viveu plenamente, intensamente, a noite, sim, mas também o sol, as vitórias do Desportivo. Bebeu essas taças que empunhou com ambas as mãos, mergulhou nelas, fez espuma, regalou-se, viveu.

A lota fugiu para a doca, o Espadarte Clube morreu, as marés levaram a nossa mocidade. Mas o Valdemar aí está, quase na mesma, sempre ele, como diria o meu compadre Alves do Santos se tivesse de comentar os lances da vida deste Valdemar que é uma legenda de uma certa Sesimbra.

Hello, Val, Valdemar, sempre ele...

1984

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 28



A rapariga, quase analfabeta, casara com o padeiro a quem punha os palitos. E escreveu a uma amiga, justificando a sua conduta: o padeiro tinha sempre pãu mole...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NOTAS & NOTÍCIAS, 5


Saudade: a homenagem de Linda
Tocante a homenagem de Linda a António Cagica Rapaz, um ano depois da sua morte, no blogue A Bela Sesimbra. Para ler e ouvir aqui.

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 37

Saudade: António Cagica Rapaz partiu faz hoje um ano.


António Reis Marques e António Cagica Rapaz em Sesimbra, em Fevereiro de 2009. Foto de João Aldeia.


Carta ao Tó Manel*

António Cagica Rapaz

Todos aqueles que têm tido a amabilidade de acompanhar as minhas divagações neste cantinho da última página, sabem que a certa altura me deu para dirigir cartas a este e aquele. A primeira foi enviada ao meu ilustre primo Domingos, o nosso Capitão Domingos. Depois, foi a vez do Fernando Viola, do Luís Rafael Pinto Cascais (mais conhecido pelo Luís Papa-rebuçados) que faz o favor de não se zangar comigo apesar do descaramento que aqui confesso sem remorsos.

Ora, depois de ter escrito a tanta gente, depois de ter feito desfilar nestas colunas milhentas personagens da nossa terra, chegou a altura de vos revelar um grande segredo. Aqui no andar de cima aparece a minha fotografia e o nome do autor das crónicas. E toda a gente julga que o autor destas linhas é o António Cagica Rapaz, mas não é verdade. É chegado o momento de vos revelar que o verdadeiro autor destas epístolas é o Tó Manel, filho do António Rapaz e da Amália Come-figos, sobrinho da minha tia Lucinda, que tem um jeitão para escrever, desenhar, pintar e assobiar, uma artista consumada que não saiu do anonimato por modéstia.

Hoje resolvi repor a verdade, fazer justiça e agradecer ao Tó Manel porque sem ele estas crónicas nunca teriam existido. Nascemos ambos ao mesmo tempo, na noite de Santo António, na Rua dos Pescadores, como recordou recentemente a minha prima Celestina, com ternura e poesia.

Na nossa terra todos começamos por ser o filho do fulano ou da beltrana. Eu não escapei à regra e, durante muitos anos, fui o filho do António Rapaz.

É assim e está muito bem. Não escolhi pai nem mãe (como nenhum de vós escolheu) mas sinto orgulho nos pais que Deus me deu.

Dito isto, temos de reconhecer que esta coisa de nomes e alcunhas tem muito que se lhe diga.

Trata-se de um assunto complicado, curioso e, muitas vezes, saboroso.

Segundo a minha mãe me contou (mas que isto fique entre nós) eu estava destinado a chamar-me apenas Manuel como o meu tio que morreu na horta do Faria. Porém quiseram os fados que eu tivesse nascido na noite de Satatónhe (também conhecido por Santo António) e daí este António Manuel ou Tó Manel que vocências têm aturado aqui (e algures) mês após mês, neste folhetim de trazer por casa e a conservar em banho Maria. Explicados os nomes passemos aos apelidos. Da minha mãe herdei o Rosa que vinha do meu avô João Come-figos. Do lado paterno recebi Cagica Rapaz com a curiosidade de no bilhete de identidade do meu pai figurar António Manuel Rapaz. Cagica nada. Mistério profundo? Não. Apenas um engano na altura da tropa, tendo sido suprimido Cagica e substituído por Manuel já que inicialmente o meu pai se chamava António Cagica Rapaz. Aliás descobri não há muito tempo um cartão de visita do meu pai com este nome e a menção de carpinteiro como profissão. É uma relíquia que conservo religiosamente.

A minha mãe não morria de amores por este nome Cagica que considerava supérfluo.

Ora ele é perfeitamente justificado já que a minha avó Sabina era Cagica.

Seja como for, a verdade é que até aos 18 anos não me considerei Cagica. Cagicas eram os Chicos, pai e filho, o Cristino, o Lucindo e os outros, filhos daqueles. A minha mãe contou-me uma história muito complicada que metia Galanduchas e que nunca entendi muito bem. Certo é que o Galucha, que andou comigo na escola, se chama Cagica Amigo (se não estou em erro) e tem uma irmã, cujo nome ignoro, que é uma das mais bonitas raparigas que Sesimbra viu nascer.

Quando, aos 16 anos, fui para o liceu de Setúbal, já lá andava o Joaquim Fernando, filho do Cristino Cagica e assim foi que passaram a tratar-me por Cagica também.

Ao dar os primeiros pontapés na bola, em Coimbra, foi Cagica o nome de guerra, o que não encheu de entusiasmo a minha mãe que queria que eu fosse António Rapaz, filho do pai. Porque Cagica é um nome invulgar (de origem africana?) muitas vezes aparecia mal escrito nos jornais o que me levou a mudar ocasionalmente para Rapaz acabando por ficar Cagica umas vezes e Cagica Rapaz outras vezes. Está entendido? Ninguém tem dúvidas? Quem tiver alguma dúvida, levante o braço. Bom, ninguém? Vamos adiante…

E assim foi que o Tó Manel se transformou em António Cagica Rapaz que escreve estas e outras crónicas anacrónicas graças à memória e à imaginação do Tó Manel.

O Tó Manel ficou em Sesimbra enquanto o Cagica começou o seu afastamento no Liceu de Setúbal, depois em Coimbra, Lisboa, Porto e agora em França, onde é conhecido por Monsieur Cagica com acentos nos dois aa. É a vida, com os seus apelos, com as opções a que nos obriga, os caminhos que nos leva a percorrer.

Nascido a 13 de Junho, sob o signo Gémeos esta dualidade é mais que natural. O António Cagica Rapaz escreve o que o Tó Manel lhe segreda. Dá-lhe o toque e o ritmo da sua sensibilidade, mas a essência assenta nas recordações do Tó Manel que ficou aí no Café do Alfredo, à esquina do Central, na loja do Maquino, na Taberna do Mestre Adelino, no Colégio do Costa Marques, no Palco da Vila Amália, nesse berço fascinante que vai do Caneiro à Doca.

Desculpem se desta vez falo de mim. E perdoem-me todos aqueles que tenho trazido a estas páginas sem lhes pedir autorização em meia folha de papel selado, com assinatura reconhecida pela Dona Bárbara ou pela Delmina.

É um atrevimento que tenho tido vezes sem conta ao longo de alguns anos já que dura esta cavaqueira mensal.

As ideias surgem-me por vezes estranhas, bizarras, insólitas. Hoje deu-me para escrever ao outro eu, ao meu gémeo. No fundo é justiça que faço ao Tó Manel que não vejo há muito tempo. De vez em quando vou a Lisboa. Ainda aí estive no mês passado. Vi o Manel António e cruzei-me com o João Salgueiro, antes das nove da manhã, como sucede quase sempre quando vou a Lisboa. O Tó Manel não vi porque (como já vos disse) ele ficou em Sesimbra e, nas minhas visitas a correr, não tenho tempo de ir ao muro da lota nem à beira da pedra alta.

Por isso, e para terminar, peço-lhes um favor. Se o virem, digam-lhe que qualquer dia apareço. Se o virem digam-lhe o que pensam das ideias que ele me manda e que eu transformo em crónicas breves. Se o virem dêem-lhe um abraço. O Tó Manel é bom Rapaz…

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*Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra.