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terça-feira, 23 de novembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 25



Andava radiante com o novo relógio, desejoso que lhe perguntassem as horas. E logo respondia:
"Duas e um quartzo".
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 33




Vítor Batista

António Cagica Rapaz

O sol iluminava a baía de Sesimbra e os nadadores lançavam-se à água lá no Caneiro tentando acertar o ritmo da braçada na travessia anual organizada pelo Clube Naval.

O Alfredo Filipe, no seu estilo pujante e elegante, deslizava como um golfinho, embora soubesse que o vencedor seria o Vaz Jorge ou outro especialista do Algés e Dafundo. A travessia da baía era a única prova grande e uma bela festa na nossa terra, com o Zé Brás de megafone em punho, as barcas e as aiolas enfeitadas, o almoço colorido no Hotel Espadarte. Havia quem alinhasse à partida, nadasse até à Califórnia e desistisse, garantindo assim um lugar, se não na meta de chegada, pelo menos à mesa do almoço...

Era o Verão calmo e quente, numa Sesimbra tranquila. E era o defeso do futebol. Porém a febre da bola subia nessa maré de tréguas e o Desportivo organizava torneios populares que apaixonavam a vila e revelavam talentos. Clubes de bairro, rivalidade de rua, orgulho, paixão, Marítimo, Malta Brava, SAC, Horta, Espadarte, Albano, Bacalhau, Zé Barbeiro, Gato, Hélio, Manel Rosa, Zé António e Vítor Batista.

O primeiro com equipamentos a rigor e pretensões a bordo foi o Espadarte, sob o impulso do Vítor Batista. Na família, jogador a sério fora o irmão, o Zé, belíssimo avançado-centro, rápido, ágil, hábil no jogo de cabeça, que poderia ter feito carreira se não tivesse perdido o controlo e agredido o árbitro, num jogo com o Seixal.

Prematuramente privado da competição oficial, o Zé Batista saltava de contente e marcava golos em série com a camisola do Espadarte, onde pontificava o José António, excelente defesa central que a burocracia não deixou ir mais longe. Na baliza, o Palhete, o elegante Cardim, abria a boca e exibia um estilo inconfundível, enquanto o dinâmico João Pedroto varria o meio campo. Mas o maestro era o Vítor Batista, de bigode à Germano e entradas, de cabelo, à Vasques.

Assim nasceu para o futebol este Vítor que haveria de envergar, durante muitos anos, a camisola do Desportivo, com o número onze nas costas e a braçadeira de capitão. Estava o Sesimbra na terceira divisão e o Vítor armava jogo na esquerda, acabando sempre por centrar para a cabeça demolidora do Zé Serafim.

As finais com o Farense foram autênticas epopeias, partidas de arrasar que culminaram com uma negra em Beja. O Desportivo venceu por um a zero, golo do Vítor Batista. Era a subida à segunda divisão, a festa durou dias. Os peixes estranharam a ausência de barcos e ninguém lhes explicou que Sesimbra estava em delírio...

Durante anos, o Vítor Batista foi o cérebro de uma equipa onde o Fragata era um leão. Como tantos amadores, o Vítor não se considerava um jogador da bola como os que aparecem nos jornais. Depois dos treinos, retornava à sua mercearia e voltava a ser o cidadão anónimo, leitor interessado dos jornais desportivos, todo ele paixão ingénua e sincera. À segunda-feira, o Vítor já não era o capitão do Desportivo mas o sócio do Benfica que criticava o árbitro que roubou um penalty ao seu clube. E falava do Eusébio com a admiração de qualquer profano que nunca calçou botas de futebol. Regularmente, ia à Luz ver o glorioso, com o Hélio e os outros, repartia-se entre o Desportivo, a mercearia, as piadas do Gil e os ditos do Zé Barbeiro, lagarto até às patilhas.

Depois de uma dessas partidas europeias, o Vítor regressou a casa, cansado. E, nessa noite, morreu, suavemente, discretamente, como vivera, menos de quarenta anos.

O Benfica continua a jogar, o Sesimbra já desceu e voltou a subir à segunda divisão, a bola não deixou de rolar. O Gil deve sentir-lhe a falta em cada segunda-feira de manhã, na altura do rescaldo da jornada.

O Vítor Batista saiu do futebol e da vida com a discrição e a humildade com que comandava o Espadarte nas tardes quentes de um Verão que vai ficando longe na memória e na saudade...

1981

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 29

as crónicas da Eventos...



Carlos*

António Cagica Rapaz

No início dos anos 50, nós morávamos no prédio do Gá, na rua da Fé, quando o Pedro Muleta (filho do velho Justino das barracas da praia da doca) procurou o meu pai para lhe pedir emprestados três mil escudos. Recordo-me das suas palavras, podia ter falado em três contos, mas não, foi três mil escudos que disse, talvez numa tentativa tão eufemística de suavizar a dimensão do pedido. Na altura, era uma quantia avultada, e o bom do Pedro ter-se-á fiado no aparato das pedreiras de gesso, ignorando que, na realidade, elas não passavam de ilusão e de abismos onde o meu pai só escavou desgraça. Por isso mesmo, despediu-se como entrara, cabisbaixo e amargurado, como todos quantos, por infortúnio seu, precisam de pedir…

Da conversa, porém, resultou a nossa mudança para o rés-do-chão da moradia da família Justino, situada entre as vivendas do patriarca Palmela, a norte, e do Dr. Fernando Lopes, a sul. Pouco tempo depois, a necessidade obrigaria à venda da moradia que foi comprada pela família Palmela por uns magros 48 contos.

A D. Beatriz foi marcante no panorama do ensino primário, tendo-se distinguido pela sua competência e pela forma como castigava os alunos. Foi professora da minha mãe e minha também. Cheguei a comer à sua mesa, intimidado, quase aterrorizado, entre a D. Beatriz e o austero Palmela. Era um ambiente de pesadelo e, anos mais tarde, essa sensação viria a confirmar-se quando o herdeiro intentou contra a minha mãe um vergonhoso processo de despejo por (como justificou) precisar da casa para passar férias…

Felizmente, a sul, o horizonte era bem diferente, e a casa do dr. Fernando Lopes e da D. Stella foi, para mim e para a minha irmã, um oásis de paz e conforto, um verdadeiro porto de abrigo. Teria eu uns oito anos quando conheci o Carlos Manuel Gouveia Lopes, um rapazinho amoroso, com quatro anos e cabelo encaracolado…

O muro que separava as nossas casas declinava na extremidade próxima da rua, na zona da varanda, e cedo aprendi a saltá-lo para ir brincar com o Carlos, naquele universo deslumbrante que era uma casa bonita e abastada onde fui tratado com inesquecível ternura por essa Senhora maravilhosa que era a D. Stella.

Com o Carlos, brincávamos horas infinitas, em intermináveis partidas de monopólio, aos caixeiros-viajantes que se deslocavam de triciclo, ao mecano e ao lego, às mil diabruras próprias da idade. Nunca tivemos a menor disputa, nunca teve caprichos de menino rico, nunca me fez sentir diferente, e no seio daquela família encontrei hospitalidade, protecção e ajuda afectiva.

Depressa compreendi que a vida é assim feita, uma sociedade sem classes só existe no reino da utopia. E esta realidade até nem custa a aceitar quando sentimos a nosso lado pessoas como a D. Stella que não se limitava a rezar o terço que nós, enfadados, acompanhávamos murmurando “rogai por nós”. Ela era a bondade, a gentileza, a doçura, o amor, tudo reunido numa pessoa de rara beleza, física e espiritual.

Às quintas-feiras, infalivelmente, o dr. Fernando Lopes e a D. Stella iam a Lisboa e para nós era dia de festa porque, como dois principezinhos, almoçávamos na varanda, servidos pela Álvara. Depois, entregávamo-nos ao nosso desporto favorito, de cócoras, como os guarda-redes do hóquei, tendo os vasos por balizas e utilizando uma raqueta de ping-pong. Assim íamos marcando uns golitos até à hora do lanche que incluía sempre um copo de deliciosa groselha. Certa noite, clandestinamente, abusámos da “Marie Brizard” e acabámos no quintal, eufóricos e incansáveis, escarranchados em cadeiras de praia que, uma vez fechadas, faziam de mota ou de cavalo. Tudo era novidade e regalo para mim, pelava-me por tão boas coisas. Partilhei a intimidade da família, brinquei, convivi e aprendi a viver em casa da tia Stella, como me habituei a tratá-la, em particular desde que conheci o tio Nuno e o tio Jó…

Certo dia, o Carlos teve uma saída que já deixava entrever um espírito fino e imaginativo. Ao ver passar o meu pai e desconhecendo o seu nome, saudou-o desta forma original e afectuosa: “Boa tarde, senhor pai do Tó Manel”. A nossa cumplicidade foi sempre sem falha, a nossa amizade sem mácula. O Carlos teve a felicidade de ter nascido no seio de uma família maravilhosa, entre o amor e o carinho da mãe e a presença forte, tranquilizadora de um pai que garantia estabilidade e segurança. O futuro foi, para ele, desde muito cedo, um mar tranquilo a perder de vista, sem incógnitas nem angústias, feliz e merecidamente.

Andámos juntos no colégio, e o Carlos foi meu cúmplice num namoro que marcou a minha vida. Mais tarde, acompanhei de perto os primeiros passos rumo a um casamento que haveria de fazer dele um jovem avô feliz.

Dois anos depois, foi a vez do Carlos e da Ana apadrinharem o meu casamento, era a continuação da nossa boa cumplicidade…

Com os anos que por ele passam sem deixar marcas, o Carlos ganhou a atitude segura do pai e conservou o encanto da mãe. Apesar de ser herdeiro de um nome, de um estatuto social e de um património, soube escolher o seu caminho, criar um estilo, afirmar-se. O tempo foi sublinhando uma distinção com o seu quê de britânica, uma elegância descontraída, uma classe natural, um toque aristocrático a que nem faltou, durante anos, um bonito bigode. Não precisou o Carlos de aprender a seduzir nem a colocar a voz bem timbrada para entrar na política, opção que foi para mim uma surpresa, talvez por saber que não tem a menor necessidade de favores nem de benesses, porventura por o julgar (ou imaginar) tímido, imagens de infância que nós teimamos em conservar inalteradas, como se o menino que brincava com o mecano não fosse agora um homem feito, um engenheiro com carreira.

O Carlos é, há vários anos, uma figura pública prestigiada e nunca deixou de ser um homem encantador e caloroso. Nem a política o estragou…
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*Publicado no n.º 29 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2004.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 33


Breve*

António Cagica Rapaz

Tal como sucedera há dois anos, os alunos do Dr. Costa Marques reuniram-se num almoço de confraternização. Desta vez foi na Maçã, no Concorde, e comeu-se ainda pior do que nas Villas de Sesimbra. Não por culpa das incansáveis organizadoras nem do meu bom amigo Carlos Farinha ausente em parte incerta, algures nos confins do Oriente, segundo rezam escrituras de faquires, encantadores de serpentes e engolidores de navalhas de barba.

Antes do parco e porco almoço houve missa e romagem ao cemitério onde repousam tantos dos nossos familiares e amigos. Na véspera, mais um fora levado à sua última morada, como eufemísticamente se diz, de seu nome Augusto Sobral, um homem que participou significativamente na vida associativa e cultural da nossa terra, no Desportivo e neste Jornal, poeta popular de raiz vincadamente sesimbrense.

Na despedida, no recolhimento das pessoas mais chegadas, lá esteve o Pedro Filipe, companheiro de várias frentes e que lhe lançou, com um sorriso cheio de ternura, “Teimoso!”

E foi. Augusto Sobral foi teimoso, senhor das suas opiniões, porventura pouco tolerante, um tanto amargo, em dissonância com o mundo, remando contra uma maré invisível. Pouco contacto tivemos, mas ficou-me a sensação de um certo desperdício, alguma frustração pelo que ele poderia ter feito se tivesse sido capaz de outra abertura aos outros, pois talento, inteligência e conhecimentos tinha.

Melhor conheci o irmão, Joaquim, certamente menos lido, sem preocupações intelectuais, mas de bela feitura humana, franco e caloroso. O tio Joaquim está na minha caderneta, na galeria singela das minhas figuras preferidas, com o avental sobre os joelhos, os banquinhos de madeira na loja minúscula a cheirar a cabedal, a gaiola dos trinados luminosos nas manhãs frescas da rua à espera do sol.

Já vos contei da sua paciência ao escutar as minhas narrativas inocentes e excitadas de verões heróicos na ribeira dos Torrões, as expedições ao velho moinho para trocar um saco de trigo montado num burro capaz de pedir meças ao “Rocinante” do D. Quixote.

Enquanto me ouvia, sorrindo, lá ia colocando umas biqueiras nos sapatos estafados nas correrias infindáveis atrás da bola. Depois era a minha vez de me deliciar com as suas descrições pausadas de pescarias mágicas das segundas-feiras, saltando de rocha em penedo, de cana comprida na mão, na lonjura do Caneiro. Era o empatar minucioso dos anzóis, o segredo do engodo, a escolha criteriosa do local, o tempo certo da maré, a certeza no lançar, a sensibilidade na cana que prolonga o braço, o fascínio da água lusa, a paixão do infinito, o apelo da madrugada. Não sei nem importa se ele me contou estas coisas, se as contou assim, creio bem que não, mas foi o que me ficou, é a imagem (porventura idealizada) que conservo do tio Joaquim Sobral que largava o avental, a sovela e o martelo ao raiar da aurora, de balde na mão, homem de uma cana, a caminho das rochas, para ver nascer o sol, abraçar o mar, respirar a vida. E pescar…

O irmão Augusto também foi hábil pescador, mais explicado, mais científico, mais elaborado. Indesmentível era o seu amor a Sesimbra e talvez ele pudesse ter ajudado a lutar contra esta descaracterização, esta perda progressiva da identidade da nossa terra incapaz de conservar o perfume do alecrim nas ruas enfeitadas e desfigurada por escolas de samba que nada têm de português e, menos ainda, de sesimbrense. Fica-nos o sabor de uma obra inacabada, mas cada um faz o que pode, como pode e como sabe. Foi-se Augusto Sobral e o tio Joaquim está com graves problemas de visão. É o nosso universo que se vai desmoronando, janelas sobre a vida, sobre o passado, que se vão fechando, aqui e ali. Depois da despedida, ao sair da capela, cruzei-me com o Eduardo Marques, ainda visivelmente afectado pelo drama que enlutou Sesimbra, ao afundar-se o seu barco. O filho do Eduardo é internacional de hóquei em patins para nosso orgulho e satisfação. Daí que me veio a recordação do pesadelo que era para o velho Elias ver chegar a rapaziada de (raros) patins na mão à esplanada dos bombeiros, o único sítio onde improvisadamente se patinava.

Nem sonhar em jogar hóquei pois não havia sticks e havia vidros frágeis. Às vezes lá fazíamos umas simulações, protegidos pela presença do Luís Filipe Batista, filho do Comandante.
Pois o filho do tio Elias, o mais velho, o Diamantino, casou com a filha do nosso Joaquim Sobral. O mundo é de facto pequeno. E no almoço dos alunos do Dr. Costa Marques lá estavam o Luís Conceição e a minha prima Carolina, pais de outro internacional de hóquei, o Mário Rui.

Os saudosistas encartados, ferrenhos e assanhados, levam a vida a dizer que antigamente é que era bom, mas veja-se o caso do Ginásio Sede que permite não só a prática de múltiplas modalidades mas também a revelação e a afirmação de talentos como o Eduardo e o Mário. Talento tinha também o pai Luís, mas não levou o futebol a sério. O pai Eduardo chegou a internacional júnior, ali, que nem ginjas…!

Ora este Ginásio é uma obra que se deve à abnegação de um punhado de sesimbrenses entre os quais Augusto Sobral, referência justa que se enquadra nesta reflexão contrastada, misto de melancolia e reconhecimento.

Foi com grande alegria que revi o padre Carlos que me baptizou e que (numa ausência pontual do padre Abílio) haveria de baptizar igualmente a minha filha.

Disse-lhe do meu sincero apreço pelos seus escritos no Jornal de Sesimbra, ricos de erudição e tonalidade poética e trocámos impressões linguísticas com o Dr. Nabais.

E lá foi prosseguindo o almoço da saudade com o habitual rosário de exclamações, a contemplação disfarçada dos efeitos devastadores do tempo, a hipocrisia simpática das avaliações recíprocas, a consolação de que há sempre quem esteja pior.

Há os que estão mais velhos, mais gordos, mais esquisitos. E há os que já não estão, connosco, entre nós, como a Maria Irene e a Silvana que lá de cima devem ter rido das nossas figuras, sorrido com alguma saudade. Pelo Augusto Sobral terão ficado a saber as últimas desta terra que pisamos e que nos há-de pisar um dia.

Chegou a Primavera, o Verão não vai tardar, qualquer dia é o nevoeiro do Outono das folhas que caem no regaço do Inverno. É a vida breve, a nossa fragilidade, a nossa insignificância, o pouco que somos, o nada que valemos, o muito que nos julgamos.

Aos poucos vão-se as figuras do nosso presépio, fecham-se as janelas das nossas recordações, em cada confraternização há ausentes, sentimos-lhes a falta, marcamos-lhes falta.

Por isso é bom apertarmo-nos nos braços uns dos outros, olharmo-nos sem querermos ver rugas nem os cabelos brancos. É uma ilusão colectiva, benigna e inocente, não faz mal, estamos todos na mesma, fingimos acreditar. Ficam as promessas e um sabor a pouco. Depois cada um mete-se no seu carro e desaparece.

Ninguém tem culpa, somos todos culpados. É a vida que nos aproxima na escola, no catecismo, na Mocidade. É a vida que nos afasta na tropa, no casamento, nos empregos.

É isto, é aquilo, é o tempo que passa e não chega senão para nos vermos uma vez por ano, para nos olharmos, para nos abraçarmos, para rirmos e comermos mal.

Se calhar é o castigo para o prazer destes reencontros, o tributo a pagar.

Depois somos aspirados de novo pela vida e voltamos a ser como as paralelas que nunca se encontram.

Por isso é bom comer mal mas estar com amigos, reencontramo-nos, a nós próprios e aos outros, voltarmos a ser jovens por umas horas de ilusão.

Foi assim, foi bom, foi breve, como breve é a vida…
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*Publicado na edição de Abril de 1995 de O Sesimbrense.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 24



As voltas que a vida dá. Antes do 25 de Abril, suspeitava-se que era agente da passiva. Hoje é um sujeito importante, até lhe gabam os predicados...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 32


O tocador

António Cagica Rapaz

Nos anos cinquenta, a povoação das Caixas era uma aglomeração tranquila, escala rotineira da carreira do Covas entre Sesimbra e Alfarim. À beira da estrada, a taberna do Baratinha era o apeadeiro, o ponto de referência, o farol da aldeia. Ao lado, o palheiro do tio Meano, com a roda de carroça encostada.

A estrada poeirenta animava-se duas vezes por dia, na alvura da manhã e na suavidade do entardecer, à passagem da velha Panhard conduzida pelo Pintassilgo. Ao raiar do dia, a camioneta parava em frente da taberna do Baratinha e, por trás dos vidros embaciados, surgia a trémula claridade do candeeiro a petróleo do ti Manel. Era um novo dia que despertava, saudado pelo galo do tio Meano, imperial e tonitruante.

Ao fim da tarde apeavam-se “à do Baratinha” as pessoas que tinham ido à vila, a longínqua Sesimbra, onde havia, segundo constava, uma imensidão de água chamada mar. Dele vinha o peixe que chegava ao campo em caixas manhosas, em equilíbrio periclitante na traseira de bicicleta velha ou motorizada cavernosa. O peixeiro sacava da gaita e tocava a reunir à volta de meia dúzia de cavalas, carapaus moiros, fains e laretas. As mulheres das Caixas iam a Sesimbra vender couves, cenouras, nabos arrancados à terra, de véspera, nas ribeiras húmidas dos Torrões ou da Amieira. Saíam de casa às quatro da manhã, palmilhando atrás do burro, estrada fora, com o tempo que Deus desse. Depois de aturarem, com paciência e resignação, as regateiras das pexitas que tentavam tirar dois tostões num molhinho de grelos ou num raminho de salsa, comiam uma bucha e voltavam a casa, agora montadas nos burricos, Santana acima, Covas da Raposa adiante, Zambujal abaixo, até avistarem o moinho das Caixas de velas dolentes que giravam tranquilamente, ronronando em voz baixa, moendo o trigo, na paz do Senhor...

Ao lado da taberna do Baratinha ficava uma espécie de armazém, de terra batida, com um palanque ao fundo. Era o salão de baile. O Verão era o tempo da debulha, das vindimas e das corridas de bicicleta. O melhor corredor era o Licínio, namorado da Maria Amália, mocetona trigueira de olhos pestanudos, a mais bonita da aldeia e redondezas. O Verão era também a época dos bailes “à do Baratinha”. Os preparativos começavam no sábado. O Manel Pedro andava na armação, mas, em certas ocasiões, exercia a função de barbeiro da aldeia. Instalava-se no salão de baile e toca a rapar nucas e aparar patilhas. Lá fora, as malhas do chinquilho iam caindo com estrondo nos tabuleiros...

No domingo, após o almoço, começavam a aparecer os rapazes, de bicicleta à corredor, risco ao lado, brilhantina, fatinho à papo-seco, calça recolhida por uma mola, de prevenção contra o óleo da corrente. Na recta comprida que se estende até à curva do lagar, é o desfile das bicicletas, pequenas corridas, esticões ao desafio até ao poço da quinta, picardias e larachas, um certo perfume de rivalidade, é dia de festa, há baile nas Caixas.

O salão é salpicado com precaução, para não fazer poeira, e as janelas permanecem fechadas para conservar a frescura. As bicicletas volteiam como abelhas em torno da colmeia. As raparigas, excitadas mas tímidas, correm de casa em casa, compondo um saiote, retocando o penteado, disfarçando o nervosismo. A expectativa cresce, entre o martelar do chinquilho e o carrocel das bicicletas. Os miúdos passam dedos sonhadores pelo guiador, acariciam o selim, correm à estrada e olham com ansiedade a curva do lagar onde esperam ver surgir o mago, o alquimista, o génio capaz de transformar o barracão de terra batida no salão dourado da fantasia de uma juventude modesta. A emoção atinge o seu ponto mais alto quando o João Canito chega, ofegante, a anunciar: - Já lá vem, vem aí o tocador!

O tocador! Na lonjura da estrada, envolto em poeira, dançando, desengonçado, sobre a bicicleta, com o acordeão às costas, ei-lo que chega. Aos poucos, aquela figura de contornos imprecisos, diluída na distância e no ar quente da tarde, vai ganhando consistência. O chinquilho emudece, os rapazes, com as bicicletas pela mão, abrem alas, a miudagem observa, deslumbrada, a aproximação do homem do acordeão que pedala devagar, até cortar a meta da ansiedade.

Os miúdos rodeiam-no, tocam-lhe nos braços, nas mãos mágicas, no acordeão misterioso, com os seus mil botões, o seu fole colorido.

O tocador desapeia-se em silêncio, encosta a bicicleta e coloca o instrumento sobre o palanque, na penumbra do salão de baile. A notícia já correu a aldeia, Deus seja louvado, o tocador chegou. Os primeiros acordes provocam sorrisos de tranquilidade e certa efervescência radiosa. As raparigas começam a chegar, aos grupinhos, vigiadas por mães severas...

Lá no alto, as velas do moinho continuam a girar ao som do acordeão, o chinquilho adormece, as bicicletas repousam, os miúdos espreitam, fascinados, a tarde cai na aldeia, é dia de festa, o tocador é artista, há baile “à do Baratinha”.

Ao cair da noite, cada um regressa a casa para uma ceia animada. Os candeeiros a petróleo apagam-se cedo, o dia foi de excitação, amanhã há que levantar cedo, recomeça a dura labuta. A festa acabou e ninguém se lembra já do tocador que, cansado e solitário, pedala estrada fora no silêncio da noite, com o acordeão mudo a pesar-lhe nas costas e nas pernas. O carro do Pintassilgo só volta quando o galo do tio Meano anunciar a alvorada...

1985

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 28

as crónicas da Eventos....


Gente do campo*

António Cagica Rapaz

Os chamadores já iam no segundo sono quando a tia Amália se preparava para nos despertar, pelas cinco da manhã. Na realidade, tanto a minha irmã como eu estávamos de olho bem aberto, ansiosos pela alvorada, naquela sublime excitação que nos assaltava sempre que se tratava de abalar para as férias grandes nas Caixas.

Atravessávamos uma Sesimbra vazia, no lusco-fusco silencioso, carregados com as malas, com o coração a palpitar de ansiedade, passo cauteloso mas apressado, como se receássemos ver recusado, no último instante, o visto de saída. No largo da igreja de cima, à porta do “Chico da Cooperativa”, o Pintassilgo esperava por nós para pôr a trabalhar a velha “Panhard” que nos levava penosamente Santana acima para depois contornar o posto da Polícia e se lançar desaustinadamente na recta das Covas da Raposa a caminho do Zambujal onde se começa a descer rumo às Caixas.

Como um náufrago que avista terra, assim nós ficávamos febris quando descíamos na paragem em frente à taberna do Baratinha. Atravessada a estrada, lá estavam o eterno palheiro com a roda de carroça arrimada, e o galo do tio Meano que nos dava as boas-vindas enquanto aguardava o primeiro raio de sol para encher a peitaça e a manhã com o seu cantar triunfal. Era outro mundo, era um deslumbramento, estávamos nas Caixas.

A nossa casinha era modesta e, como as outras, tinha o chão de terra batida, não havia água corrente nem luz eléctrica. Mas havia o poço da Quinta, havia estrelas e uma lua redonda e branca. Tudo era perfeito, foi um tempo muito feliz…

Num raio de vinte metros, contávamos com quatro fornos onde os nossos vizinhos e amigos coziam alternadamente o pão, aquele bendito pão do campo que nos habituámos a considerar um bem precioso e prova tangível da existência de uma entidade superior que regulava a Natureza, concedendo a chuva, acendendo o sol, fertilizando a terra, prodigalizando o trigo, abençoando a farinha.

O Pintassilgo dava meia volta em Alfarim, parava de novo à porta do Baratinha e arrancava rumo a Sesimbra para só regressar ao fim da tarde, quase ao sol-pôr, para trazer o meu pai, vindo do Alfeite, imponente na sua farda branca, para meu contentamento e orgulho. Muitas vezes eu não podia estar à espera dele por me encontrar nos Torrões ou noutro sítio, empenhado nas mil tarefas que partilhava com o Julinho, sob o olhar atento do pai Júlio ou do tio Justino. Era com prazenteiro entusiasmo que começava o dia recolhendo ovos já postos ou enfiando o dedo no orifício adequado das galinhas para detectar a proximidade de nova postura. A seguir, aparelhava e dava de beber à “Boneca”, a mansa mula do tio Justino, mas nunca ousei aproximar-me da escultural “mulata”, a mula preta do tio Júlio que tinha tanto de bela como de brava. Nos Torrões, regávamos os talhões das couves, nabos e cenouras, com a água tirada à picota pelo tio Júlio, antes de brincarmos no ribeiro que desagua na praia do Meco.

Entre outras coisas, amassávamos a comida dos porcos, cavalgávamos o trilho da debulha, vindimávamos e ajudávamos a pisar a uva, juntávamos a camarinheira para aquecer e perfumar o forno e íamos ao moinho trocar um saco de trigo por outro de farinha. Esta era a missão mais nobre e apetecida. Íamos no burro, um à frente, outro ao rabicho e era com curiosidade e receio que nos aproximávamos daquele local misterioso, lá no alto, as velas gigantescas e ameaçadoras, o vento a uivar nos vasos de barro com um furo no fundo e, por fim, o milagre branco da farinha que trazíamos para casa, felizes e orgulhosos.

Ao longo daqueles meses de vida partilhada, eu sentia-me igual ao Julinho, éramos como irmãos, vivíamos ao ritmo do sol, em total intimidade. Os dias nos Torrões constituem uma recordação maravilhosa, era um cantinho do paraíso, com a água puríssima da fonte, um ribeiro de brincar com as rãs enquanto armávamos aos pássaros até a tia Clarisse gritar para irmos comer a sopa de pão, batatas, tomate e ovo. À sexta-feira, voltávamos tarde para casa, a pé, atrás da carroça carregada com a venda que iam levar a Almada ou ao Seixal. Cansados e mal dormidos, abalavam a meio da noite, para uma interminável viagem, por uns magros tostões. Conhecendo bem a dureza da vida no campo, revoltava-me, por vezes, na praça de Sesimbra ao ver algumas pessoas regatearem o preço do que representava tanto sacrifício.

Desse tempo ficou-me uma enorme admiração por esta gente trabalhadora, agarrada a valores, rica de conhecimento e sabedoria, carregada de malícia, temente a Deus e amante da Natureza. Gente que vive a dois passos de Sesimbra e que consegue ser diferente, na maneira de falar, de pensar, de encarar a vida, de agir.

Tenho a felicidade de ter nascido na borda d’água, na rua dos Pescadores, e de ter partilhado a vida das pessoas do que nós chamamos o campo. Tenho agora a sorte de possuir um cantinho na Aiana onde reencontro o cheiro da terra e do pão, o chilrear dos pássaros e a ilusão de que nada mudou. De vez em quando, ainda passa uma velhinha montada num burro que deve ser o último que resta e que me parece o mesmo que nos levava ao moinho, a mim e ao Júlio que mora ali adiante, em frente à escola.

É bom estar na Galé, a ver o mar. Igualmente bom é estarmos com os nossos amigos, a nossa gente que, muitas vezes, é gente do campo…

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* Publicado no nº 32 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2004.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 32



O colégio do Costa Marques*

António Cagica Rapaz

O colégio do Costa Marques ficava ali mesmo na minha rua, quase à minha porta diante da qual me habituei a ver passar a Mininha, a Maria Emília, o Fernando Gaspar, a Maria Helena, o David Saloio, o Gil e tantos outros.

Até que um dia chegou a minha vez. Concluídas a 4.ª classe e a admissão aos liceus troquei um abraço apertado com o Luís Papa-Rebuçados (que preferiu a traineira do pai) e abalei para o colégio onde no primeiro ano tive como colegas o Pedro, o Batalha, o Farto, as primas Ana Maria e Maria José Cheis, a Ermelinda, a Elisabeth, entre outros e outras. Os meus dois comparsas Luís Filipe e Penim entraram no ano seguinte. O Colégio era uma pequena casa de uma grande família onde os professores nos tratavam como filhos o que não impedia (até explicava) que o Costa Marques enfiasse aqui e ali a sua bolachada e aplicasse a sua palmatoada rigorosa.

O certo é que a malta estudava, aprendia, sabia e, nos intervalos, disputava renhidas partidas nas traseiras. No período que antecedia os exames, a começar por alturas da festa das Chagas, o estudo principiava às sete e meia com um único intervalo até às dez e meia. À noite, para alguns, era até às tantas. Esta ponta final valia oiro, era a chave do sucesso nos exames, orgulho do dr. Costa Marques e fruto de uma dedicação sem limites e uma competência reconhecida e comprovada. A certa altura o Costa Marques (raramente dizíamos doutor Costa Marques) ensinava, ao mesmo tempo, Francês, Português, História, Geografia e Matemática.

Nem tudo foram rosas, mas o Costa Marques fez muito pela formação de base da nossa juventude. Os professores que tive ficaram-me na memória. Primeiro, claro, o próprio dr. Costa Marques com o seu nariz proeminente, as suas sardas, a sua cara de pau mas uma competência e uma autoridade indiscutíveis.

O Padre João, o inesquecível Padre João Honório Ferreira (que é feito, padrinho do Crisma?), era o nosso professor de Moral e Canto Coral. Para cantar não era tão bom como o seu sucessor Padre Abílio e, quanto à Religião e Moral, nós pouco ligávamos às atribulações dos Judeus e Fariseus. O principal é que o padre João era uma camaradão que irradiava simpatia e nos conquistava a todos.

Com ele fiz a Comunhão Solene e o Crisma ou Confirmação para em seguida ter a honra e o prazer de ler a missa das crianças em português visto nesse tempo ela ser dita em latim. Essa leitura era partilhada com o Pedro e muito nos divertíamos com as rasteiras que nos pregávamos reciprocamente durante a alocução das epístolas, intróitos e evangelhos.

Um dia o Padre João levantou ferro rumo à longínqua Ericeira numa altura em que realizámos um espectáculo teatral com um drama romano intitulado «Mãos Vermelhas» cujo primeiro encenador foi o catedrático Augusto Formiga que abandonou a função porque eu faltei (ou cheguei atrasado a uns ensaios) por causa da televisão que dava os primeiros passos e me retinha no Grémio. Foi-se o Formiga, ficou o «Piolho» João, a peça foi para a frente e, na noite de estreia e homenagem ao Padre João a representação foi um êxito. Eu era o herói da tragédia, jovem varão romano que imaginava ser filho da irmã do João Salgueiro e afinal era filho da bela escrava Anunciação. No final morria no circo despedaçado pelos leões. Nos olhos da assistência havia lágrimas sentidas, rebeldes, incontroláveis. E foi nesse banho de lágrimas que o padre João nos disse adeus o que não nos impediu de levarmos o nosso espectáculo à Ericeira onde demos duas – representações – duas, «Mãos Vermelhas» em duas mãos…

Esclareço que os intérpretes das «Mãos Vermelhas» não pertenciam a qualquer partido…

Figura inconfundível, silhueta inesquecível, saudade de todos nós, o nosso mestre de galanteria e ciências da natureza, Artur Maria da Silva Costa, Chefe das Finanças, orador fluente e colorido, construtor de imagens deliciosas. Dele ficou o célebre intróito «Senhoras minhas e meus senhores» que anunciava cada um dos belos discursos com que nos presenteava. Com a sua imaginação, a sua linguagem pitoresca e um dom inato de comunicar, as aulas de Ciências eram um deslumbramento. Ninguém mais esqueceu o que era um eclipse quando ele nos explicava que a cabeçorra do Farto era a Terra, a do Pedro a Lua e a do Batalha o Sol. E quando saíamos das aulas dele, à boca da noite, caminhávamos com os olhos fixos no firmamento que tão bem nos descrevera. Um homem admirável e um professor fascinante, o Silva Costa. E quando digo o Silva Costa ou o Costa Marques não há qualquer resquício de degradação. A ausência de título é sim sinal de afectividade, familiaridade respeitosa.

O senhor Major tratava todas as moças por Maria. Era folgazão e generoso pois nas aulas de inglês ele fazia tudo por nós, lia, traduzia, formulava perguntas e respostas, só nos restando dizer «Yes, sir».

A dr.ª Maria Amélia Covas foi uma magnífica professora de desenho, física e matemática e muito lhe devo pois sempre fui um nabo em desenho enquanto nas outras duas disciplinas me comportei com correcção mas sem paixão.

O dr. Nabais chegou-nos no 5.º ano e teve a ingrata missão de substituir o mestre Costa Marques em Português e História. Os Lusíadas deram-lhe água pela barba do Adamastor. Mas foi uma belíssima aquisição para a equipa do colégio…

O colégio do Costa Marques foi um ponto de convergência, numa primeira fase sentido como símbolo de privilégio. Muitos dos filhos de pescadores não tinham nesse tempo possibilidades de o frequentar. Outros podiam, como o Luís, mas não quiseram. De lá seguimos quase todos para o Liceu de Setúbal e alguns chegaram à Universidade onde eu nunca teria posto os pés se não desse uns pontapés na bola.

Mas em todos nós ficou uma mística que será mais ou menos sensível, com as aulas, o estudo, os teatros da Mocidade Portuguesa, o desporto, o Café Central, a tasca do Adelino. Todos lemos pela mesma cartilha, pela mão do dr. António da Costa Marques, um homem a quem Sesimbra muito deve, e que, infelizmente, desapareceu demasiado cedo da nossa convivência.

Na minha rua deixaram de passar as batas azuis salpicadas de branco, a campainha do Manuel Elisão emudeceu e os matraquilhos do mestre Adelino (primo do Costa Marques) sentiram a falta da malta do colégio.

O Colégio do Costa Marques é uma página virada, um capítulo sem sequência, um acto acabado. Mas não esquecido…

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* Publicado originalmente na edição de Agosto de 1982 de O Sesimbrense, na rubrica «Contos da Noite Velha».

terça-feira, 9 de novembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 23



Apesar das sucessivas lesões, a atleta continua ávida de vitórias. Enquanto ávida há esperança...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 31


A “ténica” e a pertinácia

António Cagica Rapaz

A paixão pelo futebol exercia-se em dois planos, um virtual, na esfera distante da primeira divisão, outro real, ou seja, a modesta competição regional e bairrista. Por outras palavras, gostar do Benfica não impedia a paixão pelo Desportivo, sofrer agarrado ao transístor não significava desprezo pelo despique renhido dos nossos rapazes contra o Costa da Caparica ou o Ginásio de Cacilhas. Aquela era outra paixão, vivida à distância, através dos jornais, da rádio e, a partir de 1957, da televisão.

O futebol é um encontro, não só para os que jogam mas, igualmente, para os que vibram com ele, os que, naquele tempo, o acompanhavam, que se reuniam nas lojas de companha, no muro, nas tabernas, nos cafés, para falar de bola. Era assim e era apaixonante...

O meu primeiro barbeiro foi o Zé Carapinha, belenense convicto, na minha fase azul, da rua da Fé e do Chico da Cooperativa. Mais tarde, transferi-me para o Central e para a polivalência do mestre Adelino. Para a estudantada do Costa Marques, a taberna do mestre Adelino era ponto de reunião obrigatório para as sandes do Lopes, a consulta de “A Bola”, os matraquilhos e a cavaqueira na barbearia. Enquanto manejava tesoura, pente e navalha, o mestre Adelino rapava a nuca (vulgo caldinho) ao Otto Glória, escanhoava os frangos do Costa Pereira e aparava o bigode do Germano. Os fregueses até cediam a vez para ficarem mais tempo a ouvir as apreciações críticas do mestre, na sua linguagem explicada, medida, esclarecedora, definitiva e de certo recorte teatral. Ah, a “ténica”, a bela “ténica” do mestre Adelino! Era a dimensão familiar, o futebol de pantufas, o sermão de pároco de aldeia para a meia dúzia de fiéis com as quotas em dia.

Paralelamente, ilustrava-se outro mestre, Alves dos Santos, o primeiro e mais prestigiado comentador de rádio e televisão, que trazia o país suspenso das suas palavras nos breves minutos do “Domingo Desportivo” e, sobretudo, da magia das gloriosas e históricas quartas-feiras europeias. Era a dimensão nacional, milhões de ouvintes e telespectadores, um nome, um estilo, sempre a palavra exacta, o rigor, a ciência de um comentário desenhado num português irrepreensível e de cunho muito próprio. Ah, a pertinácia, a bela pertinácia do mestre Alves dos Santos. Na vastidão do seu vocabulário cuidado, vernáculo, escorreito e inconfundível, “pertinácia” ficou como um símbolo de erudição, de originalidade, de requinte literário, figura de estilo muito pessoal que suscitava alguma estranheza, talvez, mas, sobretudo, admiração. Equivalia a assinatura reconhecida.

Não sei se alguma vez os fregueses do mestre Adelino terão estabelecido este paralelo entre os dois comentadores, o da capelinha da barbearia e o da catedral da televisão. Não sei se o mestre Adelino terá, aqui ou ali, aparado as patilhas de Alves dos Santos, agastado por alguma referência menos abonatória para o seu Benfica.

No fundo, eram dois comentadores, cada um com a sua dimensão, a sua audiência, o seu perfil, a sua bagagem, diferentes, mas, ao mesmo tempo, comparáveis, parecidos, no gosto e no talento para a comunicação, no conhecimento, no dom da palavra e na seriedade da opinião. Um à escala da barbearia, outro no plano nacional, mas a mesma paixão, a mesma convicção, a mesma intenção didáctica.

Por vezes imagino como teria sido um diálogo entre eles. Certamente saboroso como foi aquele inesquecível almoço com o António Casa Pia, outro comunicador admirável.

Talvez o mestre Adelino, com um sorriso prazenteiro, tivesse perguntado:

- Então, senhor José, como vamos de pertinácia?

Alves dos Santos teria sorrido, com o seu ar sereno, e respondido, com bonomia:

- Menos mal, mestre Adelino, questão de hábito, por certo, mas também questão de “ténica”...

1995

domingo, 7 de novembro de 2010

TALVEZ POESIA..., 6


Morre-se

António Cagica Rapaz

Morre-se aos poucos
Em cada adeus
Em cada desilusão.
Morre-se devagar
Em cada frustração
Longe do mar
Levados pelo vento.
Morre-se ainda
Em cada desalento
Tristeza infinda.
Morre-se de fugida
De borco no deserto
É o peso da vida
A morte mais perto...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 27

as crónicas da Eventos...


João Mau*

António Cagica Rapaz

– Vamos para o campo do Desportivo. A discussão teve lugar na sede da Mocidade Portuguesa, ao fim da tarde, e os protagonistas eram o António Júlio, filho do mestre da Música, e o João Mau, ambos graduados da instituição. Porque as palavras tivessem sido insuficientes para pôr termo ao conflito, decidiram passar a vias de facto, serena e quase cordialmente. A sugestão veio do João Mau, e os dois antagonistas, quais duelistas de outro tempo, puseram-se a caminho do campo do Desportivo, lado a lado, sem provocação nem altercações, acompanhados por três ou quatro rapazolas que foram testemunhas. Ordeiramente, puseram-se em tronco nu e lealmente afrontaram-se a murro. O João Mau protegia a cara, deixando o tronco a descoberto, facilidade que o seu opositor aproveitou para lhe socar a peitaça. Sem se descontrolar, o João esperou o momento propício para aplicar um directo que deixou o António Júlio a sangrar do nariz, circunstância que ambos aceitaram como final para a peleja, com honra para as duas partes. Caía a noite quando todos abandonámos o campo do Desportivo que, naquele tempo, cheirava bem a eucalipto…

Sesimbra era terra de seitas, cada uma delas com os seus chefes. A rivalidade entre bandas e bandos provocava frequentes desacatos, combates à pedrada pela conquista de quartéis ou pela ambição de dominar o território. Talvez pela bravura demonstrada, puseram ao João a alcunha de Mau, epíteto que não corresponde em nada à sua natureza temperamental. Certa vez, feito prisioneiro por seita adversa, foi amarrado à porta do cemitério onde ficou noite adentro, transido de frio e de algum temor.

Na Mocidade Portuguesa distinguiu-se pela generosidade, pelo entusiasmo, pela dedicação, pela participação e pelo exemplo, um verdadeiro camarada para todos, em especial os mais novos. No teatro, não brilhou pelo talento, tendo apenas ficado na nossa memória pela sua actuação num papel que lhe ia a matar. O herói da peça chamava-se João e era um homem de quem todos gostavam, sempre pronto a ajudar o próximo. Mas o que o deixará para todo o sempre na história breve do nosso teatrinho de bolso, é o facto de ter proporcionado ao Jonas a célebre e insuperável tirada, no seu papel de moleiro agradecido: “Obrigado, João, és um bom rapaz, arranjaste umas velas para o meu moinho”. Que se cale um tal Villaret com a “Toada de Portalegre” ou o “Mostrengo”. Não insistam na sublime intensidade dramática do “Menino de sua mãe” que jaz morto e apodrece, preso às malhas que o Império tece. Por favor, tragam o Jonas e o João à boca de cena e prestem-lhes a homenagem que merecem…

No início da década de 60, não sei se embriagado pelo canto de algumas sereias louras, o nosso João resolveu abalar à descoberta do mítico paraíso sueco. Juntou-se ao Jorge Martelo e a o outro António Júlio, filho do Domingos barbeiro, e rumaram a norte. Concretizaram um sonho, viveram uma verdadeira aventura, ousaram, partiram. E voltaram…

Nunca assisti a uma aula dada pelo João Chagas, mas sei que gostaria de ter tido um professor assim, daqueles que podem não saber tudo, mas sabem, com toda a certeza, pôr a alma e o coração em cada lição, abrir a janela dos sonhos, da poesia e da imaginação. E também levá-las a pensar, a gostar do que estudam, a amar a terra, o mar, a Natureza, e a ter ideais na vida.

O João foi sempre uma espécie de cavaleiro andante, um D. Quixote inconformado, de lança em riste pela verdade em que acredita, pela honradez e pela sua grei, a sua Sesimbra, o seu mar, as suas raízes, o seu património afectivo e cultural. Sonhador, arrebatado, ingénuo, o João terá porventura sido, numa vida anterior, um daqueles bravos sesimbrenses que se fizeram ao desconhecido, desafiando os Adamastores de má morte.

Nesta quadra em que se festeja o 25 de Abril, apeteceu-me evocar a figura do João António Carapinha Chagas porque é um dos mais puros e autênticos sesimbrenses, daqueles que amam, profunda e desinteressadamente, a sua terra. E porque tem vivido sempre segundo ideais e valores que constituem o que de melhor podemos encontrar no chamado espírito de Abril. O João foi sempre anticonformista, rebelde, incómodo. Foi sempre um homem de Abril, na coerência de uma atitude marcada pelas convicções, coragem, poesia e até certa forma de inocência ou utopia. Conseguiu mesmo um estatuto que não se obtém com exercícios patéticos de elevação em bicos de pés. Por muito que desagrade a alguns, a grande verdade é que o João Mau é uma figura. Isso mesmo, uma figura. Homem de uma cana que põe ao serviço do Clube Naval, ainda arranja tempo para estudar, investigar, escrever, dar espia solta às suas paixões, sempre com o mar nas veias e a terra no coração…

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* Publicado no n.º 30 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2004.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 31


Vazio*

António Cagica Rapaz

Os automóveis são vários como largos são os contos em dinheiro e os outros que passam de boca em ouvido sobre os ditos. O homem chega e as mãos estendem-se, os bonés elevam-se das cabeças em gestos repetidos.

Ninguém se atreve a convidá-lo para a mesa. Deixam-no instalar-se e, então, é ele quem comanda, convidando este ou aquele a tomar lugar a seu lado. É o privilégio dos ricos e a miséria moral de alguns quase pobres que se vendem por um copo e a honra flácida de partilhar uma mesa.

O homem fala lá do alto e bebe de baixo para cima até encher. Quando tem a sua conta, levanta-se, paga tudo ou manda tomar nota, cumprimenta a assistência com um gesto largo e sai. Os sorrisos apagam-se nas suas costas. Sorrisos acendem-se no seu rosto comentando o copo que leva a mais…

A solidão afagada, a companhia comprada, o vazio que não é só dos pobres…

Junho de 1974

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*Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 22



Zangaram-se, ele deu-lhe com uma mesa na cabeça, e ela morreu.
Foi o móvel do crime...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 30



Charuto
António Cagica Rapaz
“Já cá devia estar!”. Mas não estava porque ninguém adivinhava a que horas o Rafael entraria no café do Alfredo, muito embora os filhos da noite estivessem habituados a vê-lo chegar por volta das duas da manhã. Colocava o livro das quotas sobre a mesa e, mesmo que estivesse muito calor, nunca tirava o boné.

Homem estranho, o noctívago mais acordado de Sesimbra, nunca dorme mais de três horas por noite. Recebia as quotas do Desportivo sem precisar de perguntar o número de sócio, tinha tudo de memória. Não sabe ler manuscritos, só letra de imprensa. O rosto magro, a cor macilenta de quem vive de noite, Charuto era já a alcunha do pai. Come pouco, só bebe cerveja, joga cartas com arte, é hábil de mãos, ágil de pensamento, fino na observação. Podia ter aprendido muito mais do que os números dos sócios, mas nasceu em berço pobre. Este autêntico morcego só morrerá quando se deitar às horas dos outros mortais.

Nas longas noites de Inverno, quando os turistas vão morrer longe, o Alfredo senta-se na nossa mesa e, às cinco da manhã, ainda falta contar muita coisa de um passado que nada tem a ver com a Sesimbra by night. Quando a tempestade se faz ouvir é só nossa, não é para turista ver. E vamos beber a última cerveja no muro, ver as ondas fustigarem a muralha, enchendo-nos de espuma. Aquele mar é nosso, é o mar que o Gilberto cantou. E o Gilberto era um grande amigo do Rafael...

1980

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 26

as crónicas da Eventos...



A suave mentira*

António Cagica Rapaz

Estávamos na intimidade da capela do Senhor das Chagas, e o corpo presente era o do João, em família, com os amigos e a bênção do padre Agostinho, quando a Maria Ermelinda me surpreendeu pedindo-me para ler um texto durante a missa. Muito embora não seja grande adepto deste tipo de participações externas, aceitei sem hesitação e, lá fui ler uma passagem cuja última frase era “Palavra do Senhor”.

Nessa altura, dei por mim a recordar outro tempo, o da minha juventude, quando, noutro altar, na igreja de cima, diante de um microfone parecido com aquele e a meias com o Pedro António, eu lia a versão portuguesa da missa das crianças enquanto outro João, o inesquecível padre João Ferreira, oficiava em latim.

Terminada a leitura, senti uma súbita vontade de continuar ali, de olhar todos quantos tinham vindo dar um último abraço ao João e dizer algumas palavras simples, depois da solenidade e da profundidade da palavra do Senhor. Mas, talvez por não estar preparado, não me atrevi. A verdade é que, por vezes, tenho receio de certos impulsos que podem não ser bem interpretados, sobretudo em momentos dolorosos. Lembrei-me de uma situação semelhante no filme “Quatro casamentos e um funeral”, tão iguais são a ficção e a realidade, e admiti que o João teria gostado que alguém dissesse duas palavras, na nossa linguagem, com a proximidade, o afecto e a cumplicidade que nos uniam. Acabei por ficar em silêncio e, hoje, tenho pena. Felizmente, resta-me este cantinho da “Eventos” para voltar a falar do João, porque é preciso ir um pouco além das fórmulas de circunstância. Ele merece mais do que recolhimento e prostração, porque não se limitou a cruzar-se connosco na marginal. O João fez efectiva e duradouramente parte das vidas de muitos de nós.

Há pouco tempo, embora não explicitamente nomeado, ele foi a figura central de um escrito que intitulei “E co’a dor” e no qual tentei abordar o difícil tema da dificuldade que todos sentimos em lidar com a perspectiva de uma morte que sabemos ou pressentimos inevitável; com a tristeza, a revolta e a impotência; também com a vontade de não abandonarmos os nossos amigos; mas igualmente com o apelo da vida que nos leva a apertar, por uns momentos, a mão do doente e, logo depois, irmos jantar fora, ao cinema ou ao futebol. Porque a vida é assim mesmo, porque não podemos chamar a nós todos os dramas do nosso círculo de amizades. Os familiares chegados, esses é que não podem alhear-se um só momento.

Nós, os amigos, podemos estar presentes, a espaços, falar disto e daquilo, deixar mensagens de ternura embrulhadas em palavras aparentemente banais, desanuviar o ambiente, ousar trivialidades, às vezes, uma laracha, fingir que acreditamos na recuperação, enquanto eles, na sua incerta consciência, fingem crer em nós, num jogo assente em cumplicidades inconfessadas, em que uma palavra despropositada pode ser devastadora.

Quando nos despedimos, quando viramos costas, sentimo-nos aliviados, cumprimos a nossa obrigação, respiramos fundo e olhamos o céu azul, dando graças a Deus por estarmos de volta à nossa realidade. Mas, quando somos verdadeiramente amigos, não podemos deixar de sentir o coração apertado. E sentimos alguma culpa, apesar de tudo.

Depois, o tempo vai passando, com uma ou outra ilusão de esperança, a angústia de um agravamento insuportável e um cada vez menos convicto discurso que mais não consegue ser do que uma tímida e suave mentira. Um dia, farão o mesmo connosco, e também nós fingiremos acreditar…

O João deixa em todos quantos o conheceram uma recordação muito forte, pela bondade, pela gentileza, pela lealdade, pela honestidade, pela autenticidade, pelo entusiasmo, pelos ideais, pelos sonhos que perseguiu.

Nos momentos derradeiros, o padre Agostinho serenou-o, assegurando-lhe que podia partir tranquilo porque cumpriu a sua missão, deixa uma grande saudade nos seus alunos, nos seus amigos, nas gentes da nossa terra. De cada vez, e muitas são, que vou ao porto de abrigo, penso nele, no seu amor pela natureza, pela vida. Em cada aiola, em cada barca de aparelho, por este mar fora, ele deixou o seu olhar e a sua paixão, o nosso João…

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*Publicado no n.º 37 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2005.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 30


«Técnico»*

António Cagica Rapaz

Uma das sortes mais típicas da magia do progresso consiste em colocar uma capa sobre um velho estabelecimento, deitar uns pós de perlimpimpim, umas notas de mil e, maravilha das maravilhas, surge uma agência bancária…

Foi o que aconteceu à loja do mestre Adelino.

Na evolução natural das coisas, as tabernas deram lugar aos cafés que, por sua vez, se transformaram em bancos.

A taberna do mestre Adelino foi uma curiosa excepção. Primeiro, manteve durante muitos anos a sua modesta mas mui digna condição de taberna, aliás frequentada por uma clientela muito especial, variada, com pescadores, empregados de comércio, estudantes e até um encantador de serpentes.

Depois passou a Banco sem ter sido café…

A casa tinha dois centros de atracção. De um lado, na taberna, o jogo dos matraquilhos que funcionava dia e noite com as bolas a entrar, as moedas a cair e a malta a discutir. No princípio era a cinco tostões a jogatana.

Um belo dia, o «estádio» foi levado para reparação e no seu lugar foi colocado outro que só funcionava com moedas de escudo. Uma tal inflação assustou o pessoal, mas o mestre Adelino apressou-se a acalmar os espíritos explicando que era provisório. O vício, porém, era grande e o jogo continuou no mesmo ritmo apesar do preço haver duplicado. Resultado: o provisório virou definitivo e, se não fosse o banco, a esta hora ainda a maralha martelaria os matraquilhos do mestre Adelino.

Ao lado da taberna, com comunicação pelo fundo, ficava a barbearia onde o Raul começou a afiar a navalha com a qual era tão hábil como nos matraquilhos, a par do Lopes que, diga-se desde já, preparava umas sandes atuchadinhas de atum que eram um regalo.

Para além de rapar a nuca (vulgo caldinho) o mestre Adelino dava todos os dias lições de futebol. E era ver os benfiquistas reunirem-se para ouvirem o mestre fazer o balanço da jornada anterior ou as previsões para o domingo seguinte.

Cada um é como cada qual e o Mestre Adelino tinha a sua particularidade linguística: na palavra «técnica» ele pegava na navalha e escanhoava o «c». Daí que da sua boca saísse, por tudo e por nada, uma «ténica» repetida naquela orgulhosa convicção de que só ele pronunciava correctamente e os outros estavam todos errados. E era ténica para a direita, ténica para a esquerda e às vezes pelo centro…

A palavra caiu no goto de certo núcleo de malandragem e, a breve trecho, o Mestre Adelino passou a ser conhecido pelo Ténico.

O Carnaval começava ali com as brincadeiras da praxe, o «lápis do Lopes» guardado na caixa atrás da porta da barbearia, os porta-moedas pregados ao alcatrão que faziam as mulherzinhas do campo descer dos burros e tantas outras. A malta continha-se, silenciosa, com ar de quem não quer a coisa, mas quando alguém se baixava para apanhar o porta-moedas saltava o coro. «Larga Larga»! Era o susto, a surpresa, o vexame das mulherzinhas que, recuperado o ânimo, davam respostas adequadas, sugerindo mesmo lugares onde poderíamos meter os ditos porta-moedas.

Um dia, quem caiu na armadilha foi o «João-Vai-Vem». Aos gritos de «Larga! Larga!», o Fedor entusiasmou-se e clamou: «Larga, urso»!

Rescaldo: cento e sessenta escudos de multa. E vá lá, vá lá…

O mestre Adelino tem saudades da sua casa, do ruído dos matraquilhos, da algazarra da freguesia, das histórias de «lenha», dos penaltyes roubados ao Benfica…

As mulheres do campo escolheram outro rumo, os matraquilhos calaram-se e o Raul contempla, nos Açores, o oceano. O mesmo oceano que ele aprendeu a amar na rua dos Pescadores onde nasceu…
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* Publicado na edição de 25 de Junho de 1980 do Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 21



Estraguei aquele bonito relógio de marca italiano. Azzaro meu...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 29


Lenha

António Cagica Rapaz

Nasceram na mesma rua, quase na mesma casa. Os pais enfrentaram juntos vendavais sucessivos, conheceram invernos de angústia, compraram fiado na mercearia, foram à sopa, comeram açorda e peixe fresco sem azeite.

Começaram a namorar na escola, na escada, à volta da fogueira nas noites quentes de S. João, sob os balões da rua enfeitada. A rua estreita os aproximou até ao casamento, natural, quase inevitável. Ele, bom rapaz, amigo dela, trabalhador. Ela, jeitosa, asseada, boa dona de casa...

Marés subiram e desceram, a lua passeou sobre o oceano, o farol iluminou noites sem conta, os barcos saíram ao mar e voltaram mil vezes. Erguida foi a muralha no porto de abrigo, apareceu o nylon, arribou a cavala, albacora à patada, pescada aos montes, o vento varreu os invernos difíceis e o sol da fortuna começou a brilhar com mais intensidade numa vida nova.

Em casa nada falta, rádio, televisão, frigorífico, máquinas de lavar. Ele, sempre bom rapaz, cada vez mais trabalhador. Ela começou a ler “Caprichos e Ilusões”, a escutar folhetins, a ir ao cabeleireiro, a usar toilettes caras, a não saber sair sem mala, a não passar sem fazer compras em Lisboa, instalando-se progressivamente num mundo onde vai havendo cada vez menos lugar para um marido que cheira a peixe, que só fala de talas, braças e nordeste, que a ama sem uma palavra doce, sem lhe dar prazer. Uma vez, outra e mais outra, fica a vê-lo virar-lhe as costas e adormecer enquanto ela fica bem acordada na sua frustração.

Ao domingo passeiam os dois, ele à vontade, ela toda aperaltada, em grande estilo. Vão comer marisco e ele vai para o mar às dez horas. Ela fica à janela a ver os namorados que se beijam, furtivamente, no calor da noite...

Os barcos vão pescar cada vez mais longe, as viagens são demoradas, longas são as esperas. Os lances sucedem-se, as vagas da vida afastam aqueles dois seres que nasceram na mesma rua, que vivem sob o mesmo tecto, mas que cada vez têm menos em comum. Até que um dia...

Ninguém sabe quem descobriu, o boato nasce do vento e fere pelas costas. No café, na loja, na barca, uma só palavra, venenosa, irónica: Lenha!

Perguntam-se as comadres como foi aquilo possível, que mau espírito se apossou daquela rapariga. Ele, tão amigo dela, não lhe faltava com nada em casa. Que mais queria ela?

A luz pálida no mastro mais alto da traineira que se afasta na noite é o limite impreciso entre a ilusão e a realidade. Que mais queria ela?

Perguntem à brisa morna do Verão que aquece o sangue e sopra as velas da barca dos sonhos...

1981

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 25

as crónicas da Eventos...



A Festa das Chagas*

António Cagica Rapaz

- Olha, o carrocel oito já chegou...

Os paus havia muito que tinham sido erguidos na avenida e as novenas estavam a chegar ao fim. Os miúdos mal se tinham apercebido de que o Senhor já tinha ido para cima, ansiosos e excitados que andavam, com os olhos postos na curva do Desportivo, junto ao ribeiro, na esperança de ver aparecer o primeiro camião carregado com o material para montar o Carrocel Ribatejano ou os carrinhos.

Era, porventura, o período mais apaixonante da festa, com os rapazolas a acompanharem de perto, mal saíam da escola, a montagem dos carrocéis, os motores potentes, as cadeiras, os bichos de madeira, todo um universo de sonho e mistério a crescer ali sob os seus olhos deslumbrados.

Em frente à escola de Santa Joana, aquele mesmo espaço onde jogávamos à bola, era posto à disposição do gigantesco carrocel oito, com as suas calhas entrelaçadas e sobrepostas, e com a bola de coiro pendurada em que os mais calmeirões aplicavam murros em cada passagem, à semelhança dos pugilistas quando treinam.

O Carrocel Ribatejano instalava-se ao lado, junto à escola feminina, e o dono, todo janota, repetia monocordicamente “Nova corrida, nova viagem, não subir nem descer com o carrocel em movimento, deixem parar fazem favor”.Aos poucos o arraial ia ganhando forma, com as barracas, o poço da morte, os carrocéis, a música e as luzes que prolongavam o dia em noites mágicas.

- Ó simpático, vai um tirinho?

Era o convite malicioso, carregado de segundos sentidos, no olhar e no sorriso de mulheres provocantes, muito pintadas. Os mais novos mal se atreviam a aproximar daquelas barracas de perdição onde os adultos armavam em atiradores de elite, gastavam com ostentação, afinavam a pontaria, machos engatatões e fanfarrões.As mulherzinhas das guloseimas passavam o tempo sentadas à espera que alguém tivesse a bondade de comprar um pacote de queijadas. Algumas metiam-me pena, coitadas, ali encolhidas, mal merecendo um olhar das pessoas que passavam, indiferentes. Outras não tinham mãos a medir na venda de algodão doce, pinhoadas e farturas.

Dos altifalantes jorrava música abundante e ensurdecedora, Ai Jalisco, Jalisco, Jalisco, tu tienes un’ nobia que es Guadalajara, aqui e ali um foguete, era Sesimbra em festa, dias abençoados de euforia colectiva, fatinhos a estrear, mealheiros a partir, para muitas voltas nos carrinhos e no carrocel.

No panorama das festividades populares da nossa terra, a Festa das Chagas sempre teve um estatuto e um clima muito especiais, associando, de alguma maneira, o recolhimento da Páscoa e a excitação do Carnaval, naquela mistura contagiante de devoção religiosa e de divertimento pagão. Por um lado, o silêncio contrito da capela, a emoção da procissão, o cumprimento das promessas, pés descalços atrás do andor, e, por outro, a preocupação dos vestidos novos, a exuberância das colchas nas janelas, a ostentação das incontáveis viagens nos carrinhos, as mil coisas inúteis compradas no arraial, as mariscadas pelos cafés e os petiscos no pavilhão dos Bombeiros.

Era uma dualidade curiosa, com a vila, de cabeça no chão, comovida e silenciosa, atrás do Senhor, para logo procurar a animação do arraial, o estrondo dos foguetes, de braço dado, avenida acima, carrocel abaixo, catrapiscando este, namoriscando aquela, ai Jalisco, Jalisco...

O largo do jardim era a antecâmara, e o coreto ali armado era outro pólo de atracção, com a exibição da Banda que, também ela, participava desta ambivalência, acompanhando recatadamente o Senhor através da vila, passo lento e arrastado, acordes pausados, no mesmo ritmo letárgico dos meninos da fragata D. Fernando, soldadinhos tristes de chumbo com tambor e cornetim. Mais tarde, a mesma Banda espevitava e atacava, com brio e jovialidade, trechos animados pela noite fora enquanto os miúdos adormeciam ao colo das mães, vencidos pelo sono, pelo cansaço, com a cabeça à roda e a barriga cheia de guloseimas.Regressado à capela, o Senhor das Chagas só descansava quando o último camião abalava Santana acima, rumo a outra feira onde outros meninos estariam na mesma febrilidade que nós sentíamos em cada véspera de Maio. O desmanchar da feira trazia de volta a melancolia da quarta-feira de cinzas, era como desfazer o presépio. As crianças olhavam para o chão, as ervas pisadas, o local onde, poucas horas antes, estivera o carrocel, e mal queriam acreditar. Felizmente, a nossa tristeza durava pouco porque logo começavam os preparativos para enfeitar as ruas.

Perdiam-se ao longe os silvos das sirenes das traineiras ancoradas, o roncar das motas no poço da morte, a música e a lengalenga de nova corrida, nova viagem. Sesimbra já só pensava nos santos populares. E o Santo António é sempre o primeiro...

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* Publicado no n.º 6 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2000.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 29


Lota*

António Cagica Rapaz

O peixe que o mar dá, o homem recolhe, o homem mata, o homem compra, vende e come. O mar que o homem trespassa com as quilhas dos barcos que se agigantam para alcançarem lonjuras e profundidades antes julgadas no outro lado do mundo, fora do seu alcance.

Mar que recolhe os homens, que o violam com os seus anzóis e redes de malhas apertadas. Que recolhe e guarda esses homens lá em baixo para se vingar e alimentar os mesmos peixes que o homem come…

Peixe objecto, peixe mercadoria, mas ainda peixe espectáculo que morreu, não quando cedeu à tentação do anzol, mas quando os projectores da Fortaleza se apagaram porque já não adiantava iluminarem a área vazia da que fora a Lota onde o fluxo e refluxo das minúsculas ondas se assemelha a um canto nostálgico, evocando as longas noites de verão em que a Lota durava até às tantas e às vezes mais com a canção dos vendedores, os apelos dos compradores, o zigue-zague dos homens das paviolas, o deslumbramento dos curiosos empoleirados no muro…

Os projectores da Fortaleza que descobriram o sortilégio da Lota fecharam os olhos, deixaram cair os braços pois o porto de abrigo fica demasiado longe e a poesia foi sacrificada ao progresso.

Felizmente que, mesmo na doca, continua a ouvir-se a voz forte e tão especial do Cristiano.

Por trás da nova lota, nas costas do Farol, morre o Sol em cada fim de tarde, quando as gaivotas começam a voltear por cima das traineiras que não tardam a fazer-se ao mar…

Duas das maiores atracções de Sesimbra estavam tão intimamente ligadas que quando uma morreu, a outra faleceu.

A descida da Rua Cândido dos Reis, tão perigosa para os automóveis e peões, conduz, virando à direita (evitando assim embater na Fortaleza) e roçando a pastelaria do Tomé, ao largo da Lota. Hoje «tá» largo mas não «tá» lota…

A primeira atracção era o muro, o muro da Lota, sobre o qual os curiosos se inclinavam para ver o belo peixe estendido na areia, à espera do «chui», espécie de juízo final sobre o preço. Debruçadas as pessoas naquela janela p’ró mar virada, visíveis ficavam os respectivos traseiros cujo maior ou menor interesse advinha do sexo e idade dos seus proprietários. O espectáculo começava para cá do muro e para além se prolongava. Havia autênticos e fervorosos apaixonados dessas decorações murais pouco morais e cujos nomes aqui não cito por compreensíveis pudor e discrição...

Ao fim da tarde, um lugar no muro da Lota era quase tão difícil de arranjar como um balcão de frente, sem gorjeta, no velho Salão do João Mota.

Ponto de observação sobre o mercado do peixe, objecto de olhares gulosos de passantes, era ainda o muro posto de controlo do picadeiro de domingo.

Nesse santo dia, ao cair da tarde, as pessoas descobrem o desejo de sair a passear. E tudo se passa como nas corridas de estafetas. Uns dão lugar aos outros, à medida que as pernas revelam fadiga. Então sentam-se no muro e começam a cortar nas casacas dominicais daqueles que prosseguem na lenta maratona entre o Hotel do Mar e o Espadarte, ao longo da marginal.

O Domingo (para quem não souber) é o dia em que as criancinhas vão à missa, os papás ao futebol e, antes do jantar, toda a família passeia que é um regalo ver-se. No resto da semana, marido e mulher raramente são vistos juntos na rua…

Com a mudança do mercado do peixe para o Porto de Abrigo, a nossa vila perdeu o que seria, porventura, o seu mais significativo centro de atracção. Cá de cima do muro os mirones regalavam-se com a cantilena dos vendedores, autênticas metralhadoras despejando números sob o ouvido atento dos compradores.

Alguns faziam-se ouvir claramente, mesmo à distância, mais notavelmente o Alfredo Filipe e o Zé Pardal…

Perdeu Sesimbra a lota, perdemos nós o espectáculo, mas ganhou o Maquino que montou uma peixaria ali ao pé. O seu peixe é fresco, a conversa agradável e o negócio próspero. Dizem os invejosos que ele está a fazer fortuna. Mas, às quatro da manhã, enquanto uns ressonam e outros bebem whisky, ele toma o volante e os faróis da sua carrinha rasgam a noite em direcção a Lisboa…
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Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 20



Invariavelmente, sempre que a discussão filosófica não lhe agrada, muda de tema, fala de futebol, desvia para Kant...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]