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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 29


Lota*

António Cagica Rapaz

O peixe que o mar dá, o homem recolhe, o homem mata, o homem compra, vende e come. O mar que o homem trespassa com as quilhas dos barcos que se agigantam para alcançarem lonjuras e profundidades antes julgadas no outro lado do mundo, fora do seu alcance.

Mar que recolhe os homens, que o violam com os seus anzóis e redes de malhas apertadas. Que recolhe e guarda esses homens lá em baixo para se vingar e alimentar os mesmos peixes que o homem come…

Peixe objecto, peixe mercadoria, mas ainda peixe espectáculo que morreu, não quando cedeu à tentação do anzol, mas quando os projectores da Fortaleza se apagaram porque já não adiantava iluminarem a área vazia da que fora a Lota onde o fluxo e refluxo das minúsculas ondas se assemelha a um canto nostálgico, evocando as longas noites de verão em que a Lota durava até às tantas e às vezes mais com a canção dos vendedores, os apelos dos compradores, o zigue-zague dos homens das paviolas, o deslumbramento dos curiosos empoleirados no muro…

Os projectores da Fortaleza que descobriram o sortilégio da Lota fecharam os olhos, deixaram cair os braços pois o porto de abrigo fica demasiado longe e a poesia foi sacrificada ao progresso.

Felizmente que, mesmo na doca, continua a ouvir-se a voz forte e tão especial do Cristiano.

Por trás da nova lota, nas costas do Farol, morre o Sol em cada fim de tarde, quando as gaivotas começam a voltear por cima das traineiras que não tardam a fazer-se ao mar…

Duas das maiores atracções de Sesimbra estavam tão intimamente ligadas que quando uma morreu, a outra faleceu.

A descida da Rua Cândido dos Reis, tão perigosa para os automóveis e peões, conduz, virando à direita (evitando assim embater na Fortaleza) e roçando a pastelaria do Tomé, ao largo da Lota. Hoje «tá» largo mas não «tá» lota…

A primeira atracção era o muro, o muro da Lota, sobre o qual os curiosos se inclinavam para ver o belo peixe estendido na areia, à espera do «chui», espécie de juízo final sobre o preço. Debruçadas as pessoas naquela janela p’ró mar virada, visíveis ficavam os respectivos traseiros cujo maior ou menor interesse advinha do sexo e idade dos seus proprietários. O espectáculo começava para cá do muro e para além se prolongava. Havia autênticos e fervorosos apaixonados dessas decorações murais pouco morais e cujos nomes aqui não cito por compreensíveis pudor e discrição...

Ao fim da tarde, um lugar no muro da Lota era quase tão difícil de arranjar como um balcão de frente, sem gorjeta, no velho Salão do João Mota.

Ponto de observação sobre o mercado do peixe, objecto de olhares gulosos de passantes, era ainda o muro posto de controlo do picadeiro de domingo.

Nesse santo dia, ao cair da tarde, as pessoas descobrem o desejo de sair a passear. E tudo se passa como nas corridas de estafetas. Uns dão lugar aos outros, à medida que as pernas revelam fadiga. Então sentam-se no muro e começam a cortar nas casacas dominicais daqueles que prosseguem na lenta maratona entre o Hotel do Mar e o Espadarte, ao longo da marginal.

O Domingo (para quem não souber) é o dia em que as criancinhas vão à missa, os papás ao futebol e, antes do jantar, toda a família passeia que é um regalo ver-se. No resto da semana, marido e mulher raramente são vistos juntos na rua…

Com a mudança do mercado do peixe para o Porto de Abrigo, a nossa vila perdeu o que seria, porventura, o seu mais significativo centro de atracção. Cá de cima do muro os mirones regalavam-se com a cantilena dos vendedores, autênticas metralhadoras despejando números sob o ouvido atento dos compradores.

Alguns faziam-se ouvir claramente, mesmo à distância, mais notavelmente o Alfredo Filipe e o Zé Pardal…

Perdeu Sesimbra a lota, perdemos nós o espectáculo, mas ganhou o Maquino que montou uma peixaria ali ao pé. O seu peixe é fresco, a conversa agradável e o negócio próspero. Dizem os invejosos que ele está a fazer fortuna. Mas, às quatro da manhã, enquanto uns ressonam e outros bebem whisky, ele toma o volante e os faróis da sua carrinha rasgam a noite em direcção a Lisboa…
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Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 20



Invariavelmente, sempre que a discussão filosófica não lhe agrada, muda de tema, fala de futebol, desvia para Kant...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 28


clique na imagem para a ampliar: Fragata é o segundo, em pé, a contar da esquerda.


Fragata

António Cagica Rapaz

Quem via o Fragata na rua, com a sua boina e camisola aos quadrados, tinha muita dificuldade em imaginar ser ele aquele número 3 todo nervo, todo músculo, todo energia, que subia às alturas para ganhar lances de cabeça aos calmeirões, que antecipava com fulgor, que dobrava os companheiros na hora exacta, que ia a todas, a queimar, a rasgar, a dar a cara, com coragem e abnegação, que ainda arranjava forças e engenho para arrancar, campo fora, driblando curto, progredindo sempre, arrastando a equipa para o ataque.

Era empolgante, um verdadeiro espectáculo...

Não cheguei a ver jogar o Marcos, mas assisti a muitos jogos desse futebolista impressionante que foi o Manuel Santana. O Fragata veio a seguir para se tornar uma referência, um símbolo, um valor muito dificilmente superável. Por tudo, pela sua capacidade invulgar, pelo ardor, pela vibração posta em defesa da camisola do Desportivo, pelo exemplo, pelo excepcional nível de desempenho que atingia em cada jogo, a par de uma longevidade rara.

Ao Fragata faltou apenas confiança ou estofo psicológico para sair de Sesimbra a tempo de fazer a carreira que estava ao seu alcance. Mas acabou por ficar, como ficaram o Santana, o Valdemar e outros. Hoje, olhando para trás, talvez não sinta remorsos nem frustração porque teve a glória à medida da sua ambição tão modesta que cabia inteirinha numa selha de aparelho. Sabe Deus se teria sido mais feliz se tivesse abalado.

De qualquer modo, tenho pena que, por este país fora, nos maiores estádios, os bons apreciadores de futebol não tenham tido a oportunidade de admirar o jogador portentoso que foi o Fragata...

1982

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 24

as crónicas da Eventos...




Coisas de velhos*

António Cagica Rapaz

Levados por peregrinos e líricos devaneios exalados à beira-mar, ao lusco-fusco, em tardes lúgubres de vendaval, os portugueses decidiram reclamar direitos de autor pelo sentimento que designam por saudade e que, garantem com esfíngico orgulho, os restantes povos do Mundo ignoram.

Esta original e benfazeja presunção encontra, porventura, algum fundamento na generalizada ideia de que a saudade decorre da ausência, da solidão e da distância.

Ora, sendo como é sabido que demos novos mundos ao Mundo e encurtámos as distâncias, nenhum outro povo terá melhores razões para reivindicar a paternidade ou a maternidade da saudade. Generosos como somos, espalhámos a Fé, o Império, a língua e incontáveis mestiços pelas sete partidas que pregámos por esse Mundo fora, em particular no Brasil e em África, concedendo a muitos milhões de mal agradecidos o direito e a bem-aventurança de usar como sua a nossa palavra saudade. Não custa imaginar (como tão bem garante o sublime Régio) que um “português marinheiro, dos sete mares andarilho” cantasse o fado, à proa de uma nau, definhando de saudade, lá longe, perdido entre céu e mar.

Aliás, nem é preciso ir tão longe para sentir melancolia e nostalgia, dós de alma que são irmãs gémeas da saudade e companheiras igualmente fiéis dos nossos pescadores que, em cada sortida, mal dobram o Espichel já estão ansiosos por dar meia volta, ancorar o barco em frente à sua rua e voltar para casa, sendo cada regresso uma festa celebrada pelas gaivotas logo que a traineira começa a contornar o molhe do porto de abrigo. Sempre assim foi, ontem como hoje, e a imagem que ficou em muitos de nós, é a silhueta da “Sesimbrense” recortada na contraluz do entardecer, enquanto ao longe se ouve a melodia dos Galés. É uma visão idealizada, admito, mas que nos aquece a alma, permanecendo como símbolo de um tempo que, se calhar, nem foi tão bom como isso. Havia a guerra do Ultramar, as perseguições da Pide, a nostalgia não tem por força de ser ingénua…

Nos dias que correm, a generalidade das pessoas deixa transparecer desencanto e pessimismo, havendo a sensação, mais ou menos nítida, de que o Mundo está a caminhar para a sua destruição, em parte devido a convulsões naturais incontroláveis, como o “tsunami” que devastou dramaticamente o sudoeste asiático, mas, especialmente, pela acção irresponsável e criminosa do homem.

O fim do Mundo vai chegando, muito lentamente, quase imperceptivelmente, pela mão de quantos, a diferentes níveis, das mais variadas maneiras, vão assassinando o Planeta. Nunca somos nós, são sempre os outros. Nós preocupamo-nos com as emissões de gases tóxicos, com o buraco da camada de ozono, com o aquecimento da Terra, com a violação da Amazónia, com a queima dos resíduos industriais perigosos, separamos o lixo, mas sentimo-nos impotentes para travar a loucura e o egoísmo das grandes potências. O pior é que, à nossa porta, à nossa escala, fazemos o mesmo. Nós não, os outros. Nós, os que temos um mínimo de civismo só podemos sentir vergonha, tristeza e revolta quando deparamos com lixo e entulho que os outros deixam por todo o lado, nas serras, nos pinhais, até em sítios quase inacessíveis.

Em verdade, este nosso mundo moderno é um paradoxo incompreensível. A ciência dá passos gigantescos, alcança progressos fabulosos que ultrapassam expectativas e excedem necessidades básicas. Porém, essa marcha a caminho da perfeição é acompanhada por um processo paralelo e simultâneo de degeneração e destruição, com a droga, a fome, a guerra, o desemprego, a exclusão social, o pessimismo dos jovens e a amarga indigência de tantas pessoas idosas. A nova ordem mundial apenas beneficia minorias. Os valores e os ideais desaparecem ou são subvertidos. Mata-se em nome da democracia, da religião ou do petróleo enquanto os governos se curvam perante os novos senhores do Mundo, os grandes grupos económicos.

Neste cenário, os políticos fingem que detêm o poder, prometem o que não está nas suas mãos nem na sua competência e apenas se preocupam com os seus privilégios, com os interesses dos amigos. E reformam-se (confortavelmente) ao fim de dois mandatos de quatro anos. No nosso país, eternizam-se os incêndios de origem criminosa, continuam as descargas de suiniculturas e outras actividades poluidoras, a suspeita de corrupção paira sobre os diversos agentes sociais, na política, nas administrações públicas, na justiça, no futebol. A fuga ao fisco, a golpada, a transgressão, eis o que caracteriza o portuga vivaço. É a conversa da treta, o falar para nada dizer, o culto do vazio, o elogio do “chico-esperto”. Caem as pontes, morrem crianças num esgoto ou num semáforo, há imediato e indecoroso alvoroço nas televisões, mas depois nada acontece, a impunidade triunfa sempre, o crime afinal compensa.

Vivemos num país estranho que aceita com naturalidade e pateguice que cada telejornal inclua, obrigatoriamente, notícias alargadas dos treinos dos chamados três grandes do jogo da bola; um país que acha normal um banal jogo de futebol ser classificado de alto risco; um país que não se incomoda quando vê a claque de um clube ser escoltada e enquadrada pela polícia de choque, ao chegar ao estádio. Serão gladiadores a entrar no circo? O jogo, o tal de alto risco, afinal tem lugar no relvado ou nas bancadas? Murmura-se, suspeita-se que há violência, doping, arbitragens condicionadas, sorteios habilidosos. Mas ninguém abre o livro, menos ainda os que andam lá dentro, os que sabem se é verdade ou mentira. No fundo, “eles” vivem bem no casulo do tal “sistema” enquanto nós, os papalvos que pagamos quotas, compramos jornais, camisolas e cachecóis, apenas queremos é que o nosso clube ganhe. Além dos dez sumptuosos (e dispensáveis) estádios e dos gastos faraónicos, que ficou do Euro 2004?

A terra por cultivar seca ao sol do abandono, o mar está exangue, mas tal não impede que na nossa costa continuem a ser utilizadas redes de malhas apertadíssima. Não é por ordem dos burocratas imbecis de Bruxelas, somos nós, a nossa gente, aqui nas praias do nosso concelho. Agora os barcos de pesca são grandes, equipados com tecnologia requintada, mas o peixe continua a desaparecer e a culpa morre afogada à vista de toda a gente, esmagada pelas toneladas de peixe deitado ao mar.

Falamos mal e escrevemos pior a nossa língua que se vê invadida por estrangeirismos desnecessários, desfigurada por neologismos impróprios e minada pela praga das abreviaturas. Abundam as frases feitas, as conversas são formatadas, previsíveis, macaqueadas. Fala-se por monossílabos, às vezes por grunhidos. O grande semanário de referência consagra, infalivelmente, duas páginas ao culto da noite, às discotecas, aos copos, à gente dita bonita.
Daqui a vinte anos, esta geração do telemóvel, do gel, das discotecas, dos “shots”, do ecstasy, das mil licenciaturas a fingir, dos óculos vanguardistas, vai ter saudades de quê?

É possível que, entre outras coisas, recordem melancolicamente as discotecas onde começam a chegar às horas a que nós saíamos das “bóîtes” do nosso tempo. Vá lá saber-se, a cada um a sua saudade. Afinal, talvez esta visão desencantada não passe de uma cantilena para nos ajudar a aceitar melhor, com certa forma de filosofia e alguma resignação, a nossa própria degradação, o cair das folhas do Outono das nossas vidas. Coisas de velhos…

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*Publicado no n.º 37 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2005.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 28

Fortaleza*

António Cagica Rapaz

«A guarda morre mas não se rende».

Alguém o disse e a Guarda Fiscal tomou aquilo a sério. O Primeiro, Segundo, Terceiro e Praças ali estão para ficar.

Quando todos os esforços se conjugam para eliminar toda e qualquer acção militar, quando os olhos se viram para o futuro a construir, para as potencialidades a aproveitar e desenvolver, parece razoável pensar-se que o Turismo poderá ser uma magnífica fonte de receita para o nosso país.

As muralhas da Fortaleza não poderiam melhor enquadrar um complexo turístico do que albergar meia dúzia de guardas?

Quando a Fortaleza abrir um portão de estilo medieval, bem de frente, bem no fim da ladeira, mais nenhum automobilista se esmagará contra a parede obstinada. Poderia ser o primeiro passo para um turismo mais realista, mas enquanto a Guarda marcar passo adentro das muralhas da Fortaleza, não avançaremos no caminho do futuro…
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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 19



Varrida após as eleições, vai batendo a todas, na esperança que alguma porta ZITA SEABRA...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 27



O mar não chega à Aiana

António Cagica Rapaz

Entrámos na igreja de cima com o deslumbramento humilde e a inocência da nossa infância, com a serenidade que nos invade de cada vez que visitamos a casa onde entrámos para o catecismo pela mão do padre João, onde nos habituámos ao êxtase da missa da meia noite, à voz sonora do padre Abílio, ao relógio da torre e à procissão do Senhor das Chagas.

A igreja vazia, Deus só para nós, a paz, a luz doce dos vitrais, a frescura límpida da pia baptismal, o perfume suave dos altares, o tempo suspenso, tudo nos recorda a insignificância do que somos, o nada que valemos. O silêncio tem um peso de eternidade...´

Ao sair, olhámos o sol de frente e vimos o mar, para lá dos telhados, das mil antenas de televisão, monotonamente azul na indiferença que o hábito gera em quem nasceu com os pés na cova funda, à beira da Pedra Alta.

Sesimbra acorda tarde nas manhãs de cada domingo que vê a rua Cândido dos Reis afunilar os carros até à fortaleza para depois os despachar para a esquerda e para a direita, marginal adiante, restaurantes adentro.

A areia rija de Inverno, lavada pelo vendaval, temperada por marés mais vivas, as gaivotas circundantes, o barco solitário na quietude fresca da baía, o sol generoso irmão do mar, é domingo em Sesimbra, um hino à vida que ecoa na rua da Esperança e chega ao largo da igreja. Lá em baixo, na capela, o Senhor das Chagas aguarda a visita dos velhos pescadores que amarraram as aiolas aos bancos do jardim e se aquecem ao sol do Inverno das suas vidas.

Entre as manhãs gloriosas que vão do Caneiro à doca e o pôr do sol no Meco fica a poesia da Aiana. Ao cair da noite, a tia Fernanda acende o forno e, lá por essas dez horas, coze o pão que amassou e acariciou pela tarde fora.

No céu estrelado eleva-se um fumo de paz e cheira a pão, o bom pão da tia Fernanda. E a vontade que eu tenho é ficar à espera que ela coza, como nos anos distantes da minha infância, ali perto, nas Caixas, eu esperava, com o Julinho, que a tia Clarisse fizesse o seu pão, o nosso pão, com a farinha que eu ia buscar, orgulhoso e deslumbrado, a um moinho de que hoje apenas resta uma saudade desfeita nas paredes destroçadas, no silêncio da mó, no vento inútil que sopra por entre os escombros e dispersa a memória.

A vida é feita de coisas simples e boas, como a água cristalina do ribeiro dos Torrões, o pão do campo, o céu azul. E o mar que não chega à Aiana...

1993

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 23

as crónicas da Eventos...





AZEite*

António Cagica Rapaz

Quando fui para o Liceu de Setúbal, com 16 anos, não era propriamente uma criança, mas nem por isso deixei de me sentir pequenino naquele átrio de entrada que, na altura, me pareceu imenso. Era, provavelmente, o contraste com o colégio do Dr. Costa Marques que funcionava numa vivenda, enorme para uma família mas acanhada para um estabelecimento de ensino. Este universo quase familiar terá sido, porventura, o segredo da alta qualidade e dos tão notáveis resultados alcançados, anos a fio, sob o comando firme e competente do Dr. Costa Marques que foi, sem dúvida, um grande homem da nossa terra.

Há poucos anos voltei ao liceu de Setúbal e não pude deixar de observar que, afinal, aquele átrio era bem mais pequeno do que a recordação que dele conservara. Todos nós já conhecemos situações semelhantes, já sentimos este tipo de estranheza, a decepção perante espaços, coisas e, às vezes, pessoas que sobredimensionámos, ingénua e involuntariamente. Lembro-me de uma crónica que escrevi sobre o Duque e que conclui dizendo que acabou o tempo dos grandes homens. Aqui chegado, poderia interrogar-me: terá o Duque realmente sido um grande homem ou essa impressão deve-se à inexperiência da minha juventude? Por outras palavras, se eu tivesse pertencido à geração do Duque, será que o teria visto da mesma maneira, com os mesmos olhos?

Na mesma ordem de ideias, até que ponto somos capazes de reconhecer o mérito, o talento, a capacidade dos nossos parceiros de infância, dos nossos parceiros de escola, dos nossos vizinhos de rua, dos nossos companheiros do desporto, dos nossos colegas de trabalho? Teremos nós a franqueza, o desassombro, a grandeza de espírito ou, simplesmente, a honestidade suficiente para admitirmos, sem nos sentirmos ofuscados, ou diminuídos, que alguns dos nossos amigos e conhecidos são pessoas de valor? Às vezes não é por mal, por inveja ou despeito, mas apenas porque continuamos a ver-nos como éramos, sem sermos capazes de parar o filme, fixar a imagem, dar dois passos atrás e tomar consciência de que aquele rapaz já é um homem, maduro, feito, digno de admiração.

Foi assim, nestas coisas que me passam pela cabeça, que, de repente, tive uma percepção mais nítida da emergência e da dimensão intelectual e humana de um homem que eu teria certamente apreciado se o tivesse contemplado com os meus olhos de adolescente, como me aconteceu relativamente a seu pai, João Baptista Gouveia. O Zé, pois é dele que se trata, sempre viveu em harmonia com a natureza, desde os tempos mais felizes do alto da Cotovia. Por isso, não estranhámos vê-lo partir rumo à escola de Regentes Agrícolas de Santarém. Depois, foi a ascensão brilhante no Instituto Superior de Agronomia, concluída com licenciatura e culminada com doutoramento decorrente de uma tese resplendente sobre o azeite.

Podia ser o pão, o vinho ou o trigo, mas foi o azeite, esse dom maravilhoso da Natureza que alumiou as nossas casas e as nossas igrejas, até se tornar uma presença indispensável à nossa mesa, cada vez mais, reconhecidos que estão a ser os méritos da chamada cozinha mediterrânica. Há anos, em França, à falta de manteiga, resolvi estrelar ovos com um fio de azeite. Improvisação que me trouxe uma revelação comovente, ao reencontrar um gosto de infância, o dos ovos assim feitos pela minha mãe. Ainda vejo o António, na mercearia do senhor Arménio, a dar à bomba, igual à da gasolina, para encher o cilindro transparente logo iluminado por aquele líquido verde, espesso, feito de mil bolhinhas fascinante. Bem fez o Professor José Gouveia ao escolher o azeite, a menos que tenha sido o azeite a escolhê-lo, nomeando-o sacerdote do templo, celebrante supremo de um culto que talvez tenha entrado na sua vida pela mão fina e generosa do senhor Braguez, pai da Carolina, linhagem distinta do Alentejo. O azeite conferia gosto e nobreza aos míticos carapaus secos da nossa idolatração, cozidos de água e sal ou, melhor ainda, grelhados na brasa como me presenteou o Jorge, num domingo de chuva, na velha adega, em Outubro de 69. No alambique caía, pingo a pingo, a inigualável “Patricius”, o dedo do mestre Jorge, a assinatura do tio Jó…

O Professor catedrático José Gouveia atingiu um estatuto elevado, é hoje uma autoridade reconhecida internacionalmente.

Mas isso pouco importaria se ele não fosse como é, um homem admirável, digno da imagem que todos conservamos do pai.

Ao mesmo tempo, casado com a doutora Cristina, pai de quatro filhos, participando empenhadamente na vida colectiva, sempre em contacto com a natureza, no seu trabalho, no lazer e prazer da caça, o Zé tornou-se, sem querer, sem dar por isso e por sua vez, num patriarca tranquilo, com o Chico a seu lado tal como o pai tinha o Jorge, no mesmo círculo de amizade e afinidades, a mesma filosofia de vida.

O Jorge teria gostado mais de ver o Zé consagrar-se ao vinho que nos põe calorzinho da alma, brilhozinho no olhar e, às vezes, um grãozinho na asa. O Chico é uma personagem maravilhosa, o único à altura do tio Jorge, um amigo tão puro como o azeite extra virgem…
Com a sua aura, o seu olhar sereno, a dignidade, o Zé Gouveia é uma personalidade destacada que honra a nossa terra. E, ainda por cima, tem um belo rosto de profeta ou príncipe árabe, o malandro. É verdade, uma verdade que está bem patente, que vem, ao de cima, como o azeite.

Afinal, o tempo dos grandes homens não acabou…
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*Publicado no n.º 12 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2001.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

NOTAS & NOTÍCIAS, 4

Um lapso

Por lapso, a crónica aqui publicada na passada segunda-feira - A "ténica" e a pertinácia - na rubrica Noventa e Tal Contos ainda não era a devida segundo a ordem que resulta deste livro, e que temos vindo a observar. Foi já, por isso, substituída por aquela que devia agora ser publicada: Os Cantoneiros. Aos leitores, e em particular ao Luís Milheiro, que havia já comentado o escrito, as nossas desculpas.

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 27


Outono*


António Cagica Rapaz

A vida tem destas curiosidades e sucedeu-me aprender a ler com a professora do meu pai, D. Rosa Manão, vindo a fazer a 4.ª classe com a mestra de minha mãe. D. Beatriz Palmela.

Na Rua de Alfenim havia duas escolas particulares, a da Rosa Manão e a da Maria da Arrábida, vizinhas e rivais. À beira delas morava o António José Parada Gomes (e se a memória não me falha) que sonhava vir a ser um grande guarda-redes, como o Carlos Gomes. Teve a terminação e ficou pelo sonho…

Sonho bonito foi também o da Maria Augusta e do Raul que lá começaram a namoriscar até formarem um casal modelo, exemplo admirável das coisas bonitas que a vida por vezes proporciona. Começaram muito cedo e não resistiram ao desgaste dos anos…

E foi pena, por eles e por nós que assim vimos esfumar-se um pouco do sonho, da admiração e da ternura que sentíamos.

Não se trata de emitir juízos nem atribuir culpas (com que direito?) porque nestes casos perdem os dois. E perdemos nós que gostamos deles. É um pouco como quando descobrimos que o Pai Natal afinal não existe. Ou que não adianta ir com o banquinho de madeira até aos Bombeiros esperar uns reis que nunca virão…

Da Rua de Alfenim fui para a escola Conde de Ferreira onde me esperava na 1.ª classe uma sala enorme e o perfil de águia do Professor Amável.

Na intimidade da casa sombria, a Rosa Manão era uma galinha velhota que protegia os pintainhos mijões que passavam o dia a pedir «Minha senhora, posso ir lá dentro?» Lá dentro era a tigela da casa…

A escola Conde de Ferreira era outro universo, com as suas grades, as batas brancas, escola oficial, quase tropa.

O meu parceiro de carteira era o António Sebastião Vieira Fidalgo que, mais tarde, viria a ser meu companheiro de equipa de juniores e cúmplice de namoro. O Professor Amável era um olhar penetrante, gesto seco, discurso breve e cortante, régua violenta e bofetada pronta. O terror. Muitas vezes abalava para o Café Central para discutir futebol e deixava o Acácio Gaspar de espia, de pé, no estrado a ver quem falava. E a apontar no quadro os nomes. Bem lhe dizíamos que é feio apontar, mas ele apontava. E quando o Professor voltava era tudo menos Amável para com as vítimas…

Métodos de outros tempos que apenas nos deixaram uma vaga noção de disciplina imposta pelo medo da régua e um perfume de nostalgia que nem chega a ser amarga porque, a esta distância, só nos lembramos do sol, das tangerinas, das jogatanas e da praia. Nunca mais voltaremos a ter sete anos…

Depois tive a meiga D. Emilinha, a metódica D. Ernestina Cifuentes e, por fim, a temível D. Beatriz.

A escola feminina, em frente da minha casa, albergava no Verão colónias balneares e as meninas desfilavam entre a escola e a praia cantando tristemente «Eu não vou para o meu pai nem tão-pouco para a minha mãe, a senhora D. Alice trata a gente muito bem…»

Talvez nem fosse Alice, mas não faz mal. Importante é conservar esta e outras recordações. Talvez valesse a pena que cada um puxasse pela memória e enviasse para o nosso jornal quadras cantadas nas rodas do recreio ou à volta das fogueiras, o «Jardim da Celeste», Adelaide Adelaidinha tua mãe está-te a chamar», Rosa branca ao peito a todos vai bem, à menina Candinha olaré melhor que a ninguém»…

Estas e muitas outras são peças do nosso património cultural e, sobretudo, afectivo. Não serão talvez criação local, talvez pertençam ao cancioneiro popular nacional, mas eram cantadas nas nossas escolas, nas nossas ruas, fazem parte da nossa vida.

Por isso volto a fazer a sugestão à minha tia Lucinda e a todos quantos conhecem quadras e cantigas. Não as levem para a cova, deixem-nas cá, elas fazem-nos falta…

Por vezes penso que estas coisas podem parecer um bocadinho piegas, em especial quando lidas num café barulhento, com a televisão aos berros, as conversas ruidosas, a agitação ensurdecedora deste tempo que atropela a poesia. Mas um jornal como o nosso também fica um mês na mesinha da sala, naquele canto onde nos refugiamos quando queremos viajar no mundo dos sonhos e das recordações. Os leitores que vivem longe de Sesimbra precisam de reviver, reencontrar um paraíso distante, um rosto, um nome, poeira de um universo que é o arco-íris, caleidoscópio, filme em trinta e uma partes, com o cheiro da lota, os gritos das gaivotas, o recorte da jangada, a água doce, os passadiços, o Parque, o pão quente nas madrugadas da lonjura no tempo…

É isto e muito mais, é o que cada um conservou em si, de forma mais ou menos consciente. O nosso jornal é particularmente importante para os leitores que estão longe, que o abrem com avidez e febrilidade, procurando notícias de Sesimbra, talvez das sessões da Câmara, mas muito mais certamente das pessoas, da gente da nossa terra.

As pessoas são o pior e o melhor que existe em Sesimbra. O pior quando só vemos a inveja, as intrigas, o rei na barriga e a carteira no mastro mais alto. O melhor quando sentimos a franqueza, a fraternidade, o amor pelo mar, o apego a valores simples e o gosto por coisas belas que gostam de partilhar. Por isso, meu caro Doutor e amigo David Sequerra, permita-me que acrescente algo à sua sugestão relativamente às «Figuras Inesquecíveis».

Por mim, simplificaria a fórmula, nem esquecidas nem inesquecíveis, apenas Figuras. «Figuras» de ontem, «Figuras» de hoje e mesmo «Figuras» de amanhã, pois seria bom irmos transmitindo aos nossos jovens aquilo que, talvez ingenuamente, pensamos ser uma certa filosofia ou culto de Sesimbra, que vai dos azulejos à sopinha de pelim, do Senhor das Chagas à Senhora do Cabo, do alecrim ao peixe seco, das sacadas extintas ao fantasma das armações que continuam a chegar à tardinha à praia da nossa saudade…

O Capitão Domingos é uma Figura, o Duque é uma Figura, o David Saloio é outra Figura. E o Luís Passos Leite, o Zé Bagaço, o Aurélio, o Zé Manel Torres Batista, o Jorge Aranha, o Chagas, o Eng.º Eduardo Pereira, o Jacinto «Maneta», a Felicidade, a Manuela do Caminhão, o Alfredo Pinto, cada um deles, à sua maneira, evoca algo de importante, para alguns de nós, faz parte do nosso passado e do nosso imaginário, como agora se diz. Há mil Figuras e Sesimbra vive por elas, através delas, graças a elas.

Elas são Sesimbra.

É certo que o presente não é só droga e desencanto. É claro que o passado não foi o paraíso que idealizamos com retoques saudosistas. E é evidente que somos uns piegas desgraçados. Mas como é bom ser pequenino (como cantava o Zé Manel), como é bom ser piegas (como repetia o António do Porto) e como é bom Sesimbra no Outono…

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* Publicado originalmente em O Sesimbrense em Dezembro de 1992.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 18



Se não são utilizados, os instrumentos desafinam e depreciam-se. Por isso mesmo, Nero, que raramente tocava, deixou desvalorizar a lira...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 26




Os cantoneiros

António Cagica Rapaz

O carro do Caretas, conduzido pelo Manel Estêvão, arranca do largo da igreja às oito e vinte. Vai em primeira até passar em frente da porta da sacristia e, aí chegado, enfia a segunda que o motor recebe com alívio, ganhando ânimo novo. Para trás ficam o Chico da Cooperativa e a rua Cândido dos Reis que desce até à praia onde a lota já se agita.

As traineiras começam a chegar e as gaivotas volteiam, enchendo a manhã com os seus gritos de festa. Os guardas-fiscais, em passo pausado, descem da fortaleza enquanto as mulheres do campo vão chegando à praça onde o Cebola já arrumou os caixotes da fruta. E o carro do Caretas segue rumo a Cacilhas. Depois da paragem em frente da pastelaria das delícias, em Santana, é o posto da polícia que surge no horizonte. O Mau-Mau consulta o relógio, verifica a pontualidade e vira as costas, com o ar ameaçador do costume. A Cotovia já está à vista e, antes da Venda Nova, o carro da carreira ultrapassa um ciclista de chapéu de aba larga. É um cantoneiro...

Um pouco mais à frente, dois homens arrumam as ferramentas, tranquilamente, junto a um soberbo pinheiro manso. Na suavidade da manhã, o sol já brilha sobre os cumes da serra da Arrábida, e o Manel Estêvão acelera. Os cantoneiros ficam, o tempo parou ali...

Na carreira vão os apressados empregados de escritório, como o Guedes, marido da Dona Ernestina que, a essa hora, está a entrar na escola Conde de Ferreira. Vão também os doentes com consulta marcada no hospital dos Capuchos. Os cantoneiros ficam. Para eles o relógio é o sol que viaja devagar no céu azul, acariciando as nuvens, aquecendo o mar, do Caneiro à doca. Um deles vai buscar uns cavaquitos enquanto outro já coloca as pedras em posição de suportar as marmitas. Os carros do peixe não vão tardar a passar em direcção a Lisboa, deixando no alcatrão um rasto de água salgada e gelo a derreter. Sentados, em equilíbrio nos taipais, vão o Zé Baúte e o Manão. Os cantoneiros ficam...

No Verão, o calor do sol e do alcatrão da estrada são um tormento, mas nas manhãs frias de Inverno sabe bem fazer uma fogueira. O garfo atravessa as batatas, o bacalhau está cozido. Os chapéus de abas largas são colocados ao lado, as ferramentas encostadas. A garrafa de tinto à mão de semear, o frasco do azeite, o dente d’alho, a fatia de pão caseiro, o ar puro dos pinhais e o silêncio da estrada adormecida. A essa hora, os empregados de escritório correm para o restaurante habitual na rua dos Sapateiros e os doentes definham na sala de espera dos hospitais...

A tarde desce morna e serena, a estrada retoma o seu movimento enquanto os cantoneiros prosseguem, tranquilamente, o seu trabalho entre duas frases e uma pausa, junto à berma. Para eles, o tempo escoa-se docemente. O carro da carreira está de regresso e já ataca, ruidoso, a subida para a Cotovia. Depois será Santana e, por fim, Sesimbra, à hora da lota, desta vez com o sol a esconder-se por trás do farol.

Os empregados de escritório regressam esgotados, dormem o caminho todo. Os doentes contam, em voz bem alta, os pormenores das doenças, dos medicamentos e do enjoo no barco de Cacilhas. Um bebé chora e o Manel Estêvão acelera. Pela beira da estrada, no crepúsculo ameno que Deus dá, os cantoneiros levam pela mão a bicicleta dolente. A patroa já pôs o jantar ao lume e, na Charneca da Cotovia, uma ligeira neblina começa a descer sobre os telhados de cujas chaminés se eleva um fumo alvadio que anuncia o calor do lar e convida a regressar a casa...

Os carros rolam cada vez mais depressa nas estradas cujas bermas os cantoneiros desbravam e arranjam. Os homens correm e olham em frente, mais depressa, sempre mais depressa, sem se darem o tempo de apreciar o nascer do sol, o voo das aves. Os cantoneiros ficam a beira da estrada e, de vez em quando, têm um olhar nostálgico onde haverá, porventura, uma recôndita vontade de partir. Mas acabam por ficar, por rotina, por medo do desconhecido, dos desafios da vida. E nunca saberão que, com eles, fica a poesia...

1982

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 22

as crónicas da Eventos...





O stick mais alto que o ombro*

António Cagica Rapaz

Era em Maio, o defeso começava a ameaçar o futebol e chegava a época do hóquei em patins. E é em tudo assim, cada coisa a seu tempo…

Ao longo do ano, mão invisível inscrevia em paredes irreais o calendário das brincadeiras. Ninguém sabia como acontecia, quem dava a voz de comando, mas os períodos sucediam-se, ordenadamente, como as estações do ano, como as marés, agora era a placa, amanhã as bolas de aço, depois o arco e a gancheta, mais logo o alho, as linhas, o còcalha…

O jogo da placa requeria uma escolha prévia dos passeios e a consequente selecção dos módulos a utilizar consoante as características do piso e do fim em vista. As mais “santinhas” de todas as placas (em Lisboa chamavam-lhe caricas) eram as das garrafas de Água de Castelo, recheadas com casca de laranja, papel ou, até, chumbo derretido.

Cada placa tinha uma missão específica, conforme a largura, o comprimento, a inclinação e o acidentado da berma. Umas eram leves e ágeis, galgavam as barreiras formadas pelas placas dos adversários e cortavam a meta distante de um só fôlego. Outras, como as de chumbo, serviam para avançar cautelosamente em pisos escorregadios e irregulares, bem como para desafiar as mais leves que, após o embate, iam pela borda fora, rumo à sarjeta, por vezes. Mal dávamos por nós e já a tal mão invisível apontava o caminho da escola de Santa Joana de onde começava a chegar o som metálico das bolas de aço movimentadas pelas palhetas hábeis dos “borrugas”, especialistas nos cabos e nas embocadelas, prudentes a evitar a “marré” e certeiros nos lançamentos à bola que até estalava na “muda”…

Mas, não divaguemos, Maio era o hóquei em patins, o fascínio dos torneios de Montreux, o deslumbramento da rapaziada e dos adultos, todos unidos na grande aventura, presos aos relatos da Emissora, à porta do tio Chico da Cooperativa. Solta só a fantasia, na vã tentativa de imaginar o ambiente escaldante e empolgante daquele ringue mítico onde a equipa suíça jogava com o apoio do seu público e com algumas tímidas ilusões justificadas pela valia dos irmãos Pierre e Marcel Monney. Os italianos eram os eternos terceiros, apesar da galhardia dos guarda-redes Bólis e Cataletto, do Prinz, do Brezigar, do Marcheto ou do Panagini.

A final colocava sempre frente a frente Portugal e Espanha, a temível Espanha, com o insuperável guardião Zabalia, Soteras, Trias, Más, o lendário Orpinelli, o talentoso Puigbó, o Gallen e outros valorosos jogadores. Na geração seguinte pontificaram, na baliza, o imenso largo e, na frente, o diabólico Rocca. Do nosso lado estavam todos quantos figuravam naquela enorme fotografia que o tio Chico tinha na cave do ping-pong e do négus. Eram o Emídio, o Cipriano, o raio, o Edgar, os primos Jesus Correia e Correia dos Santos, o Sidónio. O resto era a paixão, a vibração delirante com os golos de Portugal nas vozes arrebatadoras do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas que ecoavam no silêncio da igreja de cima, pela noite fora.

No dia seguinte, íamos, timidamente, até aos Bombeiros onde o tio Elias observava com desconfiança e severidade os quatro ou cinco felizardos que possuíam patins e se exibiam enquanto os outros ficavam à espera de um gesto bondoso para uma voltinha apressada. Jogar hóquei estava fora de questão, não havia espaço nem patins suficientes. Algumas tentativas à revelia do Tio Elias acabavam com vidros partidos e debandada precipitada… Restava-nos o mistério e a sedução dos relatos, um perfume de magia na vertigem da velocidade dos hoquistas, o malabarismo, a execução fulminante, os golos em catadupa, sempre goooooolos de Portugal. A geração seguinte, com o Matos, Edgar (ainda), Cruzeiro, Lisboa e Perdigão também nos entusiasmou. Mas o mais fabuloso foi o quarteto laurentino formado por Moreira, Adrião, Velasco e Bouçós, a que se juntavam o eterno Edgar e, definitivamente, o admirável Vaz Guedes.

Por vezes, dou por mim a pensar que os jovens de hoje têm muita sorte porque lhes são oferecidas todas as condições para a prática do belo desporto que é o hóquei em patins. Contudo, não sei se alguma vez os terei invejado. É verdade que eles dispõem de ringue, patins, sticks, tudo como deve ser, real e concreto. Mas nós tínhamos o sonho, a fantasia, a imaginação que nos levava a improvisar apetrechos, a inventar golpes duplos na marca de canto à porta da escola de Santa Joana, a anular golos porque o Pedro levantara o stick mais alto que o ombro. Em verdade, nunca chegaremos a saber ao certo se, lá bem na linha de fundo, apenas fingimos ou se acreditamos mesmo que aquele sonho de meninos pobres é melhor do que a realidade actual. Provável é que só procuremos consolação, irrecuperável é a mocidade que perdemos, ao longe, no mar. Sorte terá, porventura, o Amílcar que conserva o mesmo papagaio que o pai Chico tinha no café, com poleiro na primeira fila, testemunha privilegiada de acontecimentos memoráveis. O Amílcar já dobrou o caso dos setenta, é um bocadinho mais velho que o “louro”, e quando passa no largo da igreja, a caminho de casa, mal consegue disfarçar a emoção diante da “Ginjinha Coelho” para sempre encerrada. E não me admira que, a meio da noite, ainda acorde, de vez em quando, com o papagaio a gritar “Goooooolo de Portugal”. Então, o bom Amílcar corre, excitado, a acender a velha telefonia, sintoniza a Emissora e põe o som bem alto, mais alto que o ombro, mais alto que o sonho…

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*Publicado no n.º 9 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2000.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 26




O Doutor Aurélio*

António Cagica Rapaz

Nos tempos heróicos da minha infância os doutores eram raros em Sesimbra e esses títulos correspondiam a personalidades marcantes. O dr. Costa estava já no ocaso e o meu médico era o inesquecível dr. João Pacheco Caramelo, figura inconfundível da nossa terra, meio cientista distraído, meio chefe de orquestra inventivo, mas antes de tudo um grande médico e um homem de bem.

O dr. Fernando Lopes era já uma autoridade em farmácia e, mais tarde, tive a oportunidade de o conhecer de perto e admirar a sua extraordinária capacidade de trabalho, a sua consciência profissional, o método, o rigor, no dia a dia, em família e no trabalho. Figuras mais decorativas e transitórias eram os doutores da Alfândega, das finanças e do registo, gente de fora que adorava viver em Sesimbra.

Eram todos eles forças vivas da terra, com lugar marcado no anfiteatro do Café Central. Desse tempo ficou-me a imagem de respeito e consideração que envolvia tais personagens, autênticos seres de excepção. O senhor doutor era o senhor doutor!

Mas os tempos mudaram e o prestígio do canudo diluiu-se por deixar de ser raridade.

Hoje em Sesimbra, entre os filhos da terra, não faltam doutores e engenheiros. Apesar desta perda de solenidade, a doutoriedade dos valores autênticos não se obscureceu. Pelo contrário um homem como o dr. Fernando Lopes aparece hoje com uma merecida auréola de catedrático.

Esta democratização ou proliferação trouxe consigo uma mudança de estilo, produziu um tipo novo, uma nova raça de doutores. Já não são as celebridades de pedestal, mas homens e rapazolas como nós, de risco ao lado, de fatinho do Zé marujo.

O primeiro desta nova vaga foi, a meus olhos, o Aurélio de Sousa. A mais longínqua recordação que dele tenho foi o meu pai que ma transmitiu quando um dia me relatou que o filho do Joaquim de Santana, um miúdo, guiava de pé as camionetas do pai. Nunca mais esqueci esta peripécia da qual, por sinal, nunca falei ao Aurélio. Anos mais tarde o estudante Aurélio de Sousa aparecia em Sesimbra, de vez em quando, de capa e batina, indumentária insólita e intrigante.

Receei que tivesse entrado no seminário, mas tal não foi o caso. Aliás o seu temperamento não era o mais adequado ao celibato sacerdotal. Era o tempo do feitiço cigano…

E o belo Aurélio lá ia estudando as economias e finanças ao mesmo tempo que se desmarcava para receber os passes em profundidade que o Valdemar lançava no espaço vazio. O futuro senhor doutor (que ainda por cima era de Santana, portanto, gente do campo) não hesitava em dar o corpo ao manifesto, generosa e galhardamente, no meio dos plebeus chutadores do Desportivo.

Por essa altura dava eu os primeiros pontapés e, na idade dos sonhos, imaginava-me de capa e batina e camisola da Académica ao peito. Da mesma forma que todos os rapazes sonhavam com o Robin dos Bosques e o Zorro. A única (e importante) diferença é que o Aurélio foi um estudante que para se distrair e por gosto jogava futebol enquanto eu tive de jogar futebol para poder estudar. Felizmente o futebol proporcionou-me ir além do sétimo ano, pois sem ele nunca teria posto os pés na universidade, por falta de recursos económicos. Essa mesma falta me impediu de comprar uma capa e uma batina. As poucas vezes que as vesti foi por empréstimo, mas isso são outros contos. Em Coimbra nem tudo foram rosas nem serenatas, longe disso, mas ali comecei o que era o sonho natural, ingénuo e beatífico dos meus pais: a licenciatura. A minha mãe gostava de ter um filho doutor. Graças ao futebol assim aconteceu e, embora não encha o peito, sinto certa satisfação.

Foi nessa fase de futebol e estudos que mais convivi com o Aurélio, um tanto por acção inicial aproximativa do Valdemar, rei da boémia em Sesimbra by night.

O Aurélio era já senhor doutor, mas, na mesa linha de comportamento, deixava o título na gaveta e era cá dos nossos, sem preconceitos de classe nem pruridos intelectuais. Era o tempo dos sábados de tarde vizinha da noite de aventuras de fins de semana. O Aurélio chegava de Lisboa e, antes de jantar, vinha cá abaixo dar uma volta, trocar dois dedos de conversa e alinhavar o programa para a noite que não raramente se resumia a compridas passeatas, com conversa larga e um copo pelo meio. Havia, claro, o Forno e o resto, mas a base era uma troca de experiências, uma convivência curiosa e rica. Eu trazia o saco cheio de histórias românticas e vibrantes, fruto da idade, enquanto o Aurélio, mestre na arte, ouvia e revivia, compreendia e refreava o entusiasmo, com paciência e certa filosofia.

Depois o Aurélio tinha a delicadeza oportuna, detectava o que me daria prazer e sugeria, avançava sem que eu pedisse.

Eu tinha carta mas não tinha carro e logo ele criou o ritual da voltinha à doca ao sábado à tarde, no seu velho Morris 850. Uma vez até cometeu a loucura de me deixar guiar, à noite, até à Caparica. Para mim era uma felicidade aquela voltinha, um gosto aparentemente banal mas que pessoas mais próximas nunca tiveram.

Entre nós estabeleceu-se uma boa cumplicidade, havendo da sua parte uma certa tolerância e um prazer maroto nas encruzilhadas do verão em cujas vielas cruzámos lanças com um sorriso diletante, conferindo a cada emboscada romântica o tom prazenteiro, jovial e brejeiro que convinha, sem exagerar nas doses da intriga amorosa nem nos juramentos de sangue.

O Aurélio, instalado na vida, seguro de si, apreciador de bons momentos, era um parceiro leal e ideal. Decorria o verão inesquecível de 1966…

Era a época em que ele dizia amiúde “efectivamente” e o doutor Aurélio foi uma figura que efectivamente me marcou de forma precisa e impressiva.

Um novo Aurélio apareceu em Sesimbra uns anos depois. Era um marado chamado Vítor que, a bordo de um velho Fiat 500, se tornou o mentor dos Zambras e conquistou um lugar invejável na rambóia de Sesimbra.

Rei do Carnaval, ao lado do Fedor, do Zé Batata, do Arménio e quejandos, o Vítor no dia seguinte punha a gravata e voltava a ser “como o Aurélio” o doutor Sevilhano Ribeiro, especialista em economia e finanças.

Hoje é dos valores mais seguros no campo de formação de gestores que existe neste nosso pobre país. Mas isso não o impede de lançar o pânico e o desassossego ao ritmo da música trepidante e da improvisação criativa. Tudo isto no ambiente de camaradagem saudável que cria à sua volta. O Zé Inácio tem orgulho legítimo no genro. É compreensível e visível. E ainda bem porque o doutor Vítor é um figurão notável.

Hoje há doutores, muitos doutores, é exacto. Mas, se alguns são medíocres, a verdade é que o seriam mesmo se não fossem doutores. Por outro lado, se ser doutor não é uma marca de distinção suprema também não é defeito nenhum.

O Aurélio e o Vítor pertencem a duas épocas mas respiram o mesmo ar, vivem ao mesmo ritmo, são da mesma escola.

E o Zé Inácio não é doutor mas é Embaixador…

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* Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 17



Perito em andamentos, era um bom sinfónico. Quando tocava a copos, era um bom gintónico...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 25


O Capitão John

António Cagica Rapaz

Calça azul, camisola azul, boné azul, mas sangue vermelho, apesar do convívio com as altas personagens que cruzam a baía em barcos de recreio. O Capitão John janta cedo. A patroa, com a idade e a tensão alta, deita-se a boas horas. Ele levanta-se da mesa, põe o boné na cabeça e sai, fechando a porta devagar. A Marisqueira é já ali em baixo, qual porto que acolhe os barcos que a nortada atirou para a costa. O Capitão John é figura popular, meio lobo do mar, meio contador de histórias de pescas fabulosas para entreter meninos ricos. Os estrangeiros baptizaram-no de Capitão John e ele traz às mesas da Marisqueira a brisa fresca do leste, o gosto vigoroso da espuma, a bandeirinha verde que tremula no mastro da fantasia. O Capitão John é o mar, o oceano inteiro que entra pela Marisqueira adentro e as pessoas olham-no como se ele tivesse vencido mil vendavais, arpoado cem baleias, pescado duzentos espadartes. O João Bizarro aprendeu os sinais de liques em inglês, navega em águas internacionais. Quem o quiser encontrar só tem de ir ao reminho pela borda d’água até à Marisqueira. Do alto do seu rochedo, o Capitão John passeia o seu olhar sobre o mar de aventuras que esta noite traz consigo. Este corsário do mar da Pedra ancora de mansinho a sua aiola...

1983

domingo, 26 de setembro de 2010

TALVEZ POESIA..., 5

Setembro


António Cagica Rapaz

Talvez fosse em Setembro,
Não sei, não me lembro.
Talvez houvesse nevoeiro,
Cheiro a maresia, solidão,
Vagas de fim de estação,
Outono a chegar mais cedo,
Melancolia e o medo
De ver morrer o Verão…
Talvez fosse em Setembro
Que partiste sem deixar
Rasto, sinal, gesto vago,
Só esta dor que ainda trago
Cravada nas mãos cansadas
De te buscar, praia fora,
No mar, no céu, na lonjura,
Na febre de quem procura
Vencido p’lo desalento,
Alheio à chuva e ao vento.
Foi talvez no Verão passado
Ou então há muito tempo,
Pode ter sido em Setembro,
Mas já não sei, não me lembro…

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 21

as crónicas da Eventos...


Batas brancas e capas pretas*

António Cagica Rapaz

Para quem vivia à borda d’água, o regresso à escola, após três longos meses de rédea solta, à torreira do sol, era a expulsão do paraíso e o caminho do cativeiro. Porém, passadas as primeiras emoções, instalava-se entre as grades da escola Conde de Ferreira um clima de certa resignação e algum reconforto nascido da tomada progressiva de consciência de alguma saturação de tanta liberdade. Aos poucos, íamo-nos sentindo tranquilos e seguros, precisados que estávamos de um pouco de ordem, de disciplina, e talvez mais saudosos do que queríamos confessar do reencontro com os companheiros, do cheiro das velhas carteiras e do contacto com livros de leitura e cadernos.

As batas brancas esbatiam, mas só até certo ponto, as diferenças sociais, pois todos sabiam o que estava por baixo e ninguém ignorava que algumas seriam sempre mais brancas que outras. Para a maioria, o destino estava traçado desde o berço, a vida académica acabava ali, à beira do jardim, com o exame da quarta classe feito pelo Professor Leal ou pela Dona Paula. Outros alimentavam uma trémula esperança de uma oportunidade no colégio do Dr. Costa Marques, etapa só certa e garantida para uns quantos que cedo percebiam que não seria por falta de recursos económicos que não tirariam um curso superior. Para estes, os das batas mais brancas, a escola oficial era apenas o primeiro degrau. Para outros era a obrigação fastidiosa e frustrante porque preferiam brincar ou trabalhar na barca, na mercearia ou na oficina. Mais sombrio ainda era o universo da escola dos órfãos, de meninos tristes, de batas escuras e cabelo à escovinha.

Ao lado, ficava a sede da Mocidade Portuguesa onde os mais crescidos iam aprendendo a conjugar o verbo marchar ao ritmo da trilogia Deus, Pátria e Família, cantando e rindo, abençoado tempo. No horizonte distante dos tempos de escola e colégio, revejo a figura do Aurélio que, de vez em quando, aparecia em Sesimbra envergando capa e batina, silhueta insólita que nos fazia sonhar. Mais tarde, ele seria um jovem senhor doutor, estatuto invejável, quase inacessível, só ao alcance dos filhos de famílias abastadas que, desde muito cedo, proporcionavam aos meninos a segurança tranquila e a perspectiva risonha de um futuro garantido. Pelo meio ficavam uns híbridos, como eu, pobres com aparência de remediados, sem a certeza de conseguirem chegar sequer ao curso dos Liceus.

O Aurélio haveria de jogar futebol no Desportivo para se distrair dos estudos, por puro prazer. Curiosamente, eu segui um percurso desviado, cheguei aos estudos superiores graças ao futebol. Mas nunca comprei capa nem batina, limitei-me a pedi-las emprestadas sempre que precisei. E lá acabei por concluir o curso, aos pontapés, na bola, na tropa, na vida, passando mais tempo em estágios do que nas bibliotecas. Por falta de tempo, por um lado, e por certa preguiça intelectual, por outro, nunca aprofundei verdadeiramente os conhecimentos. Daí que me tenha ficado uma grande admiração por quem sabe, por quem conhece as origens, o curso da História, os segredos da alma, os nomes das flores, os tons da pintura, os andamentos das sinfonias, os ângulos das esculturas, os mistérios das religiões, a cor dos sentimentos, o sentido oculto das palavras, os pensamentos filosóficos, itinerários e obras, autores e intérpretes, tudo quanto eu apenas sobrevoo, quanto pressinto, quanto esboço desajeitadamente e mal consigo aflorar.

Não obstante, ao longo dos anos, desde o colégio e passando por vários jornais, fui escrevendo, fazendo redacções como esta, a pretexto disto ou daquilo, na ingénua convicção de que cada texto é uma malha da rede da nossa convivência, um balde de areia na construção do castelo da nossa ilusão de partilha de fraternidade, folhetos que acabam sob um qualquer capacho ou perdidos pelas ruas como os panfletos que, antigamente, o velho Domingos Pacancas distribuía por toda a vila, para anunciar os filmes do salão do João Mota.

A vida tem destas coincidências e quis o acaso que o ciclo se fechasse naquela mesma escola, agora transformada em Auditório, quando nos reunimos para a apresentação da colectânea de noventa e tal redacções. Lá estiveram, numa noite de Santo António, amigos e familiares, como antes acontecia quando fazíamos exames da quarta classe.

Na escala dos patamares da excelência, a minha modesta obra não passa disso mesmo, de um livrinho de instrução muito primária. Não rende dinheiro, não dá honrarias, mas foi um maravilhoso pretexto para juntar naquela sala algumas das pessoas que ocuparam um lugar, desempenharam um papel, marcaram a minha vida.

Desta aventura de cinquenta anos fica-me a convicção de não ter copiado senão pela vida e de ter procurado não dar muitos erros de interpretação. Segui mais o coração do que a razão e, instintivamente, adoptei uma filosofia singela assente numa noção simples e nítida do que é importante, do que vale realmente a pena. É algo que dificilmente se explica, um sentimento que se dilui, uma música que se insinua entre as palavras, uma impressão que nos invade quando contemplamos aquele quadro ingénuo de suavidade poética do luar de Agosto, no livro da terceira classe, com a família do lavrador que volta para casa.

No fundo, a grande verdade é que pouco valemos, doutores, lavradores ou pescadores, se não formos capazes de amar, de sonhar, de enfrentar o mar da vida e de saborear o regresso à praia quando o sol se despede do farol…

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*Publicado no n.º 15 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2001.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 25


Há mais DavidES na Terra*

António Cagica Rapaz

No sótão da nossa memória conservámos recordações que revestem múltiplas e variadas formas. É a cor prateada do mar em dias de sol intenso ou a púrpura do crepúsculo; é o cheiro do pão mole, do peixe seco ou da cantina da escola das raparigas; são os gritos estridentes das gaivotas; é o som metálico do escopro e do martelo dos carpinteiros navais nas manhãs frescas na doca; é uma estrela de papel, canas e cordel no céu escuro dos dias de vendaval como dantes havia…

Todos nós guardámos estas e outras imagens e, de vez em quando, subimos a escada, abrimos a pequena janela, olhamos o mar e mergulhamos no passado.

A alguns, como eu, dá-lhes para contar enquanto outros se fecham lá no sótão e revivem em silêncio, viajam solitários nas águas profundas do tempo que se foi na maré vazia…

Uma outra imagem que me ficou foi a das traves, não as de alguma vedação nem certa casa, nem sequer as das balizas, mas as traves das botas dos jogadores do Desportivo. E as botas em si.

Naquele tempo, nos anos cinquenta, os balneários ficavam a uns bons cem metros do campo recortado entre os eucaliptos e à beira do ribeiro.

Lá em cima era o terceiro anel da eira do Valada.

As botas tinham traves por baixo, ressoavam no cimento e fascinavam o miúdo que eu era quando assistia aos treinos do Desportivo. Vindos do mar, os homens trocavam as botas de água pelas botas com traves e lá iam dar voltas ao campo, meia dúzia de exercícios, muita ronha na ginástica e, por fim, a apetecida bolinha a saltitar entre o contentamento do pessoal que ali vinha fazer horas para o almoço, relatar dois lances da barca à mistura com piadas aos jogadores.

Uns vinham de fato macaco, do gelo ou da oficina, outros de camisola grossa, mas depois eram todos iguais, de calções e botas com traves.

Quando alguma bola ultrapassava a vedação, a rapaziada corria-lhe atrás, para a apanhar, acariciar e despachar com um frágil pontapé, próprio de quem só estava habituado a bolas de borracha e a alguma em «catechumbo» manhoso das caixas de rebuçados do tio Chico da Comprativa…

Era uma festa naquelas manhãs que cheiravam a eucalipto, com as loucuras do Ilídio, a queixada proeminente do Baeta pé-de-chumbo, a peitaça do Manel Santana, a cara séria do Miguel, a leveza do Izidro, a velocidade do Zé Filipe, a força do Zé Broa, a presença do Jesus, os dribles do Barlona…

Ao domingo, mesmo com chuva, não perdia a segunda parte das reservas, depois de comer à pressa o infalível bacalhau com grão enquanto ouvíamos o José de Oliveira Cosme que nos dizia que «A vida é assim».

Nas minhas recordações, o campo está sempre cheio de lama e na baliza o Zé do Olho com as suas defesas acrobáticas. O pessoal está em pulgas e pouco liga ao João Manão, ao Zé Azoia, ao Baguinho, ao Carlos Rosa ou ao Joel Fartura. Já viram as camisolas cerise limpinhas da primeira categoria, a laranjinha nas mãos do Manel Santana e querem é que as reservas acabem depressa. A eira do Valada está à cunha e as nuvens negras sobem a serra, vindas do mar aonde ninguém se arrisca nesse tempo de vendaval.

E, por fim, lá vinham eles, vigorosos e viçosos, com o público em peso a aplaudir e a gritar, comandado pelo «Algarvio» no peão e pelo João Mota, na bancada. E todos eles calçavam botas com traves que, a meus olhos, tinham virtudes mágicas como as botas de sete léguas ou as de cano alto do Corsário Negro ou do D’Artagnan. Era como se elas possuíssem o íman que atrai a bola, a bússola que a dirige e o canhão que a dispara. Tal como o sapatinho da Cinderela, as botas transformariam pés rugosos e desajeitados em tentáculos engenhosos, garras temíveis e cascos velozes. Calçar aquelas botas com atilhos brancos e traves que ressoavam no cimento, tal era o meu sonho. Afinal foi uma grande desilusão. Depois das intermináveis partidas contra o Canino, em frente à escola de Santa Joana, foram as sapatilhas das “Esperanças” nos torneios populares de verão e, enfim, as botas de traves nos juniores, com o nosso Carlos Marques. O sonho era bonito, mas as botas eram duras e remendadas, refugo das primeiras, apesar da boa vontade do tio Carlos Seromenho. Mesmo assim lá fomos percorrendo o distrito com o entusiasmo e o deslumbramento da nossa mocidade, mal dormindo antes dos jogos, levados pelo sonho e pelos carros do Covas. Era o tempo dos milagres do Ferreira que conseguiu que o Julião fosse júnior até aos trinta anos e levou o Olímpio à selecção de Setúbal com o cartão do Gato.

O capitão dessa selecção era o Luís Preto e dele herdei a braçadeira, em 1962, no tradicional torneio de Leiria. Vencemos Coimbra e nesse mesmo ano fui para a Académica…

Nesse tempo costumava ler os jornais desportivos que o meu pai comprava e os que encontrava na loja do mestre Adelino. Os jornalistas eram figuras prestigiosas e já nessa altura se distinguia o (ainda não) dr. David Sequerra que pontificava no «Mundo Desportivo» e que foi seleccionador nacional dos juniores campeões europeus. Sabia-o muito ligado a Sesimbra mas nunca nos tínhamos falado. Um dia, José Maria Pedroto lembrou-se de me pôr a jogar a libero, atrás do dr. Torres e do Piscas. Foi na Luz, diante de Eusébio e companhia, na catedral do futebol, como dizia o Hélio.

Depois repetimos a ferrolhada nas Antas e empatámos, apesar do talento do Hernâni, imenso jogador que era.

Esse modesto destaque deu ao dr. David Sequerra o pretexto para ajudar o sesimbrense que calçava botas sem traves não à beira do ribeiro e dos eucaliptos mas do Mondego e do choupal. E foi a minha primeira entrevista, feita nas bancadas do campo do Calhabé.

Enquanto joguei tive sempre da sua parte uma palavra de apreço, um incentivo e uma crítica simpática. Cruzámo-nos na Faculdade de Letras onde eu ia alinhando em Românicas e ele cursando História, com a Conceição Cheis.

E agora aqui estamos lado a lado nestas tabelinhas saudosas, puxando pela cabeça para arranjar uma ideia por mês, coisa nem sempre fácil.

Temos uma geração de diferença, levo uma volta de atraso (ou de avanço, não sei bem), mas ambos sentimos a necessidade de não deixar morrer o passado. Vamos correndo, discorrendo, recorrendo à memória e à sensibilidade que pessoas e situações nos inspiram enquanto apelamos para outros que bem poderiam, pelo menos de vez em quando, fazer uma perninha.

Ontem foi um DS (David Saloio), hoje é outro DS e amanhã poderá ser um AS como o Aurélio de Sousa a quem o Valdemar metia bolas em profundidade quando ele preferia jogo curto, bolinha no pé, prazer do drible, recreio diletante. O doutor Aurélio trazia pelos ombros a primeira capa de estudante que vi de perto e bem poderia dar aqui uns toques connosco, na borda d’água onde a areia é mais lisinha e as palavras saem soltas, repetidas como as vagas vagarosas…

Bem fez o dr. David Sequerra ao retomar as suas crónicas aqui na página ao lado, neste desafio saudável que não só é de leitura extremamente saborosa como, ainda por cima, me deu a ideia para a ladainha que aqui vos deixo.

Desta já me safei e agora toca a pensar na próxima que pode surgir de uma conversa com a Micá ou a Madalena, de uma bica cheia de mar servida pelo João ou do lugar que o Rafael deixou vazio no Central. Quem sabe?

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* Publicado originalmente em O Sesimbrense em 1993.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 16



Com tanta veia poética, ou sou filho de Pessoa ou soneto de Camões...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 24


As botas de traves


António Cagica Rapaz

Nos anos cinquenta, o balneário do Desportivo ficava junto à escola dos rapazes, a uns bons cem metros do campo cercado por eucaliptos, junto ao ribeiro. Lá em cima era o terceiro anel, a eira do Valada...

As botas tinham traves que ressoavam no cimento e fascinavam o miúdo que eu era, quando assistia aos treinos do Desportivo. Vindos do mar, os homens trocavam as botas de água pelas botas de traves e lá iam dar umas voltas ao campo, meia dúzia de exercícios, muita ronha na ginástica e, por fim, a bolinha a saltitar, para contentamento do pessoal que lá ia para fazer horas para o almoço e relatar dois lances da barca, à mistura com piadas aos jogadores que vinham de fato-macaco, os que trabalhavam no gelo ou na oficina, outros de camisola grossa. Depois eram todos iguais, de calções e botas com traves arranjadas pelo tio Carlos Soromenho.

Quando a bola ultrapassava a vedação, a rapaziada corria-lhe atrás, para a apanhar, para a acariciar e, a contragosto, a despachar com um débil pontapé, próprio de quem só estava habituado a bolas de borracha e, excepcionalmente, a alguma de “catechumbo” manhoso das caixas de rebuçados do tio Chico da Cooperativa.

Era uma festa naquelas manhãs que cheiravam a eucalipto, com as maluqueiras do Ilídio, a queixada proeminente do Baeta “Pé-de-Chumbo”, a peitaça do Manel Santana, a cara de pau do Miguel, a leveza do Isidro, o virtuosismo e a fragilidade do Zacarias, a velocidade do Zé Filipe, os petardos do Zé Broa, a presença do Jesus, os dribles do Barlona, as mãos de ferro e a preguiça do Rogério, o massacre do treino aos guarda-redes com que terminava cada sessão...

Ao domingo, mesmo com chuva, cumpria-se o ritual: almoço de bacalhau com grão, ouvindo “A Vida é Assim”, de José de Oliveira Cosme, no Rádio Clube Português, e corrida ligeira para ainda assistir à segunda parte das reservas. No filme das minhas recordações, o campo está sempre cheio de lama, mal se vêem as marcações e, na baliza, o intrépido Zé do Olho das defesas acrobáticas. O pessoal pouco liga ao João Manão, ao Azoia, ao Carlos Rosa, ao Joel Fartura ou ao Baguinho, as atenções já estão concentradas na primeira categoria. As vedetas aquecem, as reservas arrastam-se na lama, o Carlos Soromenho já tem o balde da cal à feição para compor os riscos, a eira do Valada impacienta-se, as nuvens negras sobem a serra vindas do mar onde ninguém se arrisca em tempo de vendaval.

Finalmente, ei-los que aparecem no topo da escada de madeira, por trás da baliza de baixo, o Santana à frente, o calção branco imaculado, a camisola cerise luminosa, a bola, a laranjinha, nas mãos. O público despede os reservistas e aplaude os heróis que vão enfrentar o Amora, lutar com garra. O Desportivo era uma questão de honra. Do peão chegam os gritos do Algarvio e na bancada soa a voz de trovão do João Mota...

Eu assistia, hipnotizado, só tinha olhos para a laranjinha, para as botas com traves, bem pretas de graxa, botas que me pareciam mágicas, com as de sete léguas ou as de cano alto do Corsário Negro ou do D’Artagnan. Era como se elas possuíssem íman para atrair a bola, bússola para a dirigir e canhão para a disparar à baliza. Calçar aquelas botas com atilhos brancos e traves que ressoavam no cimento era o meu sonho. Afinal, essa experiência viria a ser uma grande decepção. Nos juniores do Desportivo calcei, finalmente, as botas com traves, umas botas duras, remendadas, refugo das reservas, apesar da boa vontade do tio Carlos Soromenho. Mesmo assim, lá fomos percorrendo o distrito com o entusiasmo e o deslumbramento da nossa mocidade, mal dormindo antes de cada jogo, levados pelo sonho e pelos carros mais velhos do Covas. Era o tempo das ilusões, era bonito. Nunca mais haverá outro...

1993

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 20

as crónicas da Eventos...


Foto tirada daqui.


Do Caneiro à Doca*

António Cagica Rapaz

Eu só tomei consciência de viver numa vila quando comecei a passar férias na aldeia das Caixas e me fui habituando à expressão “ir à vila”. Naquele tempo, na década de cinquenta, para uma pessoa do campo, ir à vila era o mesmo que, para alguém de Sesimbra, ir a Lisboa. O campo era outro mundo, outra gente, outra fala, e certo distanciamento orgulhoso ditado por uma rivalidade ancestral e alguma antipatia à flor da pele. Eu era um intruso, vinha da vila, embora não tivesse sotaque comprometedor, não falava à pexito. E gostava tanto daquela aldeia, daquele universo, que fui adoptando usos, gestos e expressões que iam apagando os poucos traços de pexito que, eventualmente, me restassem. E foi neste processo de integração que aprendi a olhar de fora, da lonjura de uma dúzia de quilómetros, a nossa terra, a vila de Sesimbra.

Hoje, à procura de assunto e recuando mais de cinquenta anos, chego à conclusão de que, quando migrava para as Caixas durante os três meses das férias de Verão, eu deixava o meu frágil bairrismo enterrado na praia, junto à Pedra Alta. Não era propriamente uma infidelidade, mas sim a fascinação perante uma realidade totalmente diferente da relativa monotonia da praia e do mar, a dois passos da rua dos Pescadores.

Caixas era sinónimo de aventura, de descoberta, selar uma mula, dar-lhe de beber, participar nos trabalhos do amanho da terra, ir ao moinho trocar trigo por farinha, correr atrás do trilho da debulha, comer batatas com pele e pão acabado de sair do forno da tia Clarisse, armar aos pássaros, fazer a vindima e beber água-pé pelo tacho de barro, o deslumbramento da Natureza, o nascer e o pôr-do-sol, o contacto com os animais…

Sesimbra só começou a fazer-me falta e a ganhar importância na minha vida quando dela me fui afastando. As primeiras crises de nostalgia surgiram em Lisboa, aos vinte e poucos anos, na década de sessenta. Atacavam-me, normalmente, ao fim da tarde e assumiam a forma de um desejo súbito e forte de me meter no carro e abalar, ponte fora, levado pelo apelo do mar. Era como se me faltasse o oxigénio e precisasse de ir a correr até ao muro da marginal para inspirar demoradamente o ar do mar, o cheiro a maresia, e ver o sol a declinar por trás do farol. Todavia, e curiosamente, talvez o melhor não fosse satisfazer aquela necessidade imperiosa, cedendo à deliciosa tentação de ir ao encontro do mar e de Sesimbra. Se calhar, o melhor era a ideia que, de repente, e de forma mais ou menos nebulosa, se desenhava no meu espírito. Então, algures em Lisboa, no meio do trânsito, em casa a estudar ou no barco vindo do Barreiro, como num sonho, eu via a praia, as gaivotas, o mar azul sem fim, naquela hora mágica do entardecer, toda feita de poesia, suavidade e mistério. Provavelmente, a imagem que eu, quase involuntariamente, criava no meu espírito excederia a realidade que ia encontrar, mas o milagre era a euforia do impulso que me levava a procurar a borda d’água como um náufrago do deserto…

Estar longe, verdadeiramente longe, reconcilia-nos com tudo quanto esteja ligado à nossa terra, em particular quando se tem a felicidade, como nós temos, de ter nascido em Sesimbra. É um lugar comum, mas nem por isso menos verdadeiro, dizer-se que só damos valor às coisas quando as perdemos. Há muita gente que aqui nasceu e nunca esteve longe, o que talvez explique certa forma de alheamento ou de indiferença perante a beleza da nossa terra. Mas não se trata apenas do recorte paisagístico, é muito mais do que isso, é a magia do mar, é tudo aquilo que ele nos inspira, que nos enfeitiça, que nos prende, que nos marca para toda a vida.

Os camponeses gostam de zombar do sotaque dos pexitos que, temos de reconhecer, não é propriamente bonito. Contudo, é nosso e, mesmo que não o exibamos permanentemente, há ocasiões em que se torna saboroso e desopilante falar à nossa moda. Quando vivia em França, de cada vez que vinha a Lisboa, raramente não estava com o Manel António. E mais raramente ainda não íamos jantar ao Bairro Alto. Quem nos via, a meio da refeição, felizes e exuberantes, havia de estranhar aquele sotaque esquisito e, sobretudo, as mil expressões pitorescas que ambos cultivamos com ternura e calor. E em cada frase colorida, em cada lance da nossa barca da amostra generosa de ternura e fraternidade, era uma rede cheia da nossa mocidade, da nossa cumplicidade, daquilo que nos une e identifica, a começar pelo sentimento profundo de pertencermos ali, àquela terra cujo falar copiado das gaivotas e amolado pelo vento constitui uma bandeira que, em tantas ocasiões, desenrolamos e exibimos com orgulho. E numa qualquer tasca simpática do velho Bairro, não era Lisboa que cantava, era Sesimbra que enchia a casa, eram as gargalhadas vibrantes do Manel e a minha reencontrada alegria, por estar de volta, por estar em casa, por estar com o meu amigo. E era uma festa, sempre, de cada vez que eu podia vir a correr de Paris, coma mesma crise de nostalgia que, noutro tempo, me levava a atravessar a ponte, Apostiça abaixo, Alfarrobeira por fim, à procura do mar.

Entretanto, enquanto eu estava longe, Sesimbra aproveitava para se desfigurar, para se deixar possuir por construções disformes. Parece que se modernizou, mas, como certas mulheres demasiado retocadas, envelheceu mal. O Manel dizia-me quanto lhe doía a alma, e virava a cara para não ver o massacre dos Passadiços. Eu percebi, mas estava longe. E, à distância, a nossa Sesimbra continuava a ter o mesmo ar de menina que nada perdera da sua pureza nem da sua beleza. Por isso, eu fingia não saber e escrevia, escrevia, trincheira que ergui e atrás da qual me contive para não desatar a correr por aí fora em cada fim de tarde, guiado por uma estrela que me mostrava a nossa terra, inteirinha, beijada pelo mar que nos envolve e abraça, de uma ponta à outra, do Caneiro à doca…

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* Publicado no n.º 31 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2004.