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terça-feira, 12 de outubro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 19



Varrida após as eleições, vai batendo a todas, na esperança que alguma porta ZITA SEABRA...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 27



O mar não chega à Aiana

António Cagica Rapaz

Entrámos na igreja de cima com o deslumbramento humilde e a inocência da nossa infância, com a serenidade que nos invade de cada vez que visitamos a casa onde entrámos para o catecismo pela mão do padre João, onde nos habituámos ao êxtase da missa da meia noite, à voz sonora do padre Abílio, ao relógio da torre e à procissão do Senhor das Chagas.

A igreja vazia, Deus só para nós, a paz, a luz doce dos vitrais, a frescura límpida da pia baptismal, o perfume suave dos altares, o tempo suspenso, tudo nos recorda a insignificância do que somos, o nada que valemos. O silêncio tem um peso de eternidade...´

Ao sair, olhámos o sol de frente e vimos o mar, para lá dos telhados, das mil antenas de televisão, monotonamente azul na indiferença que o hábito gera em quem nasceu com os pés na cova funda, à beira da Pedra Alta.

Sesimbra acorda tarde nas manhãs de cada domingo que vê a rua Cândido dos Reis afunilar os carros até à fortaleza para depois os despachar para a esquerda e para a direita, marginal adiante, restaurantes adentro.

A areia rija de Inverno, lavada pelo vendaval, temperada por marés mais vivas, as gaivotas circundantes, o barco solitário na quietude fresca da baía, o sol generoso irmão do mar, é domingo em Sesimbra, um hino à vida que ecoa na rua da Esperança e chega ao largo da igreja. Lá em baixo, na capela, o Senhor das Chagas aguarda a visita dos velhos pescadores que amarraram as aiolas aos bancos do jardim e se aquecem ao sol do Inverno das suas vidas.

Entre as manhãs gloriosas que vão do Caneiro à doca e o pôr do sol no Meco fica a poesia da Aiana. Ao cair da noite, a tia Fernanda acende o forno e, lá por essas dez horas, coze o pão que amassou e acariciou pela tarde fora.

No céu estrelado eleva-se um fumo de paz e cheira a pão, o bom pão da tia Fernanda. E a vontade que eu tenho é ficar à espera que ela coza, como nos anos distantes da minha infância, ali perto, nas Caixas, eu esperava, com o Julinho, que a tia Clarisse fizesse o seu pão, o nosso pão, com a farinha que eu ia buscar, orgulhoso e deslumbrado, a um moinho de que hoje apenas resta uma saudade desfeita nas paredes destroçadas, no silêncio da mó, no vento inútil que sopra por entre os escombros e dispersa a memória.

A vida é feita de coisas simples e boas, como a água cristalina do ribeiro dos Torrões, o pão do campo, o céu azul. E o mar que não chega à Aiana...

1993

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 23

as crónicas da Eventos...





AZEite*

António Cagica Rapaz

Quando fui para o Liceu de Setúbal, com 16 anos, não era propriamente uma criança, mas nem por isso deixei de me sentir pequenino naquele átrio de entrada que, na altura, me pareceu imenso. Era, provavelmente, o contraste com o colégio do Dr. Costa Marques que funcionava numa vivenda, enorme para uma família mas acanhada para um estabelecimento de ensino. Este universo quase familiar terá sido, porventura, o segredo da alta qualidade e dos tão notáveis resultados alcançados, anos a fio, sob o comando firme e competente do Dr. Costa Marques que foi, sem dúvida, um grande homem da nossa terra.

Há poucos anos voltei ao liceu de Setúbal e não pude deixar de observar que, afinal, aquele átrio era bem mais pequeno do que a recordação que dele conservara. Todos nós já conhecemos situações semelhantes, já sentimos este tipo de estranheza, a decepção perante espaços, coisas e, às vezes, pessoas que sobredimensionámos, ingénua e involuntariamente. Lembro-me de uma crónica que escrevi sobre o Duque e que conclui dizendo que acabou o tempo dos grandes homens. Aqui chegado, poderia interrogar-me: terá o Duque realmente sido um grande homem ou essa impressão deve-se à inexperiência da minha juventude? Por outras palavras, se eu tivesse pertencido à geração do Duque, será que o teria visto da mesma maneira, com os mesmos olhos?

Na mesma ordem de ideias, até que ponto somos capazes de reconhecer o mérito, o talento, a capacidade dos nossos parceiros de infância, dos nossos parceiros de escola, dos nossos vizinhos de rua, dos nossos companheiros do desporto, dos nossos colegas de trabalho? Teremos nós a franqueza, o desassombro, a grandeza de espírito ou, simplesmente, a honestidade suficiente para admitirmos, sem nos sentirmos ofuscados, ou diminuídos, que alguns dos nossos amigos e conhecidos são pessoas de valor? Às vezes não é por mal, por inveja ou despeito, mas apenas porque continuamos a ver-nos como éramos, sem sermos capazes de parar o filme, fixar a imagem, dar dois passos atrás e tomar consciência de que aquele rapaz já é um homem, maduro, feito, digno de admiração.

Foi assim, nestas coisas que me passam pela cabeça, que, de repente, tive uma percepção mais nítida da emergência e da dimensão intelectual e humana de um homem que eu teria certamente apreciado se o tivesse contemplado com os meus olhos de adolescente, como me aconteceu relativamente a seu pai, João Baptista Gouveia. O Zé, pois é dele que se trata, sempre viveu em harmonia com a natureza, desde os tempos mais felizes do alto da Cotovia. Por isso, não estranhámos vê-lo partir rumo à escola de Regentes Agrícolas de Santarém. Depois, foi a ascensão brilhante no Instituto Superior de Agronomia, concluída com licenciatura e culminada com doutoramento decorrente de uma tese resplendente sobre o azeite.

Podia ser o pão, o vinho ou o trigo, mas foi o azeite, esse dom maravilhoso da Natureza que alumiou as nossas casas e as nossas igrejas, até se tornar uma presença indispensável à nossa mesa, cada vez mais, reconhecidos que estão a ser os méritos da chamada cozinha mediterrânica. Há anos, em França, à falta de manteiga, resolvi estrelar ovos com um fio de azeite. Improvisação que me trouxe uma revelação comovente, ao reencontrar um gosto de infância, o dos ovos assim feitos pela minha mãe. Ainda vejo o António, na mercearia do senhor Arménio, a dar à bomba, igual à da gasolina, para encher o cilindro transparente logo iluminado por aquele líquido verde, espesso, feito de mil bolhinhas fascinante. Bem fez o Professor José Gouveia ao escolher o azeite, a menos que tenha sido o azeite a escolhê-lo, nomeando-o sacerdote do templo, celebrante supremo de um culto que talvez tenha entrado na sua vida pela mão fina e generosa do senhor Braguez, pai da Carolina, linhagem distinta do Alentejo. O azeite conferia gosto e nobreza aos míticos carapaus secos da nossa idolatração, cozidos de água e sal ou, melhor ainda, grelhados na brasa como me presenteou o Jorge, num domingo de chuva, na velha adega, em Outubro de 69. No alambique caía, pingo a pingo, a inigualável “Patricius”, o dedo do mestre Jorge, a assinatura do tio Jó…

O Professor catedrático José Gouveia atingiu um estatuto elevado, é hoje uma autoridade reconhecida internacionalmente.

Mas isso pouco importaria se ele não fosse como é, um homem admirável, digno da imagem que todos conservamos do pai.

Ao mesmo tempo, casado com a doutora Cristina, pai de quatro filhos, participando empenhadamente na vida colectiva, sempre em contacto com a natureza, no seu trabalho, no lazer e prazer da caça, o Zé tornou-se, sem querer, sem dar por isso e por sua vez, num patriarca tranquilo, com o Chico a seu lado tal como o pai tinha o Jorge, no mesmo círculo de amizade e afinidades, a mesma filosofia de vida.

O Jorge teria gostado mais de ver o Zé consagrar-se ao vinho que nos põe calorzinho da alma, brilhozinho no olhar e, às vezes, um grãozinho na asa. O Chico é uma personagem maravilhosa, o único à altura do tio Jorge, um amigo tão puro como o azeite extra virgem…
Com a sua aura, o seu olhar sereno, a dignidade, o Zé Gouveia é uma personalidade destacada que honra a nossa terra. E, ainda por cima, tem um belo rosto de profeta ou príncipe árabe, o malandro. É verdade, uma verdade que está bem patente, que vem, ao de cima, como o azeite.

Afinal, o tempo dos grandes homens não acabou…
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*Publicado no n.º 12 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2001.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

NOTAS & NOTÍCIAS, 4

Um lapso

Por lapso, a crónica aqui publicada na passada segunda-feira - A "ténica" e a pertinácia - na rubrica Noventa e Tal Contos ainda não era a devida segundo a ordem que resulta deste livro, e que temos vindo a observar. Foi já, por isso, substituída por aquela que devia agora ser publicada: Os Cantoneiros. Aos leitores, e em particular ao Luís Milheiro, que havia já comentado o escrito, as nossas desculpas.

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 27


Outono*


António Cagica Rapaz

A vida tem destas curiosidades e sucedeu-me aprender a ler com a professora do meu pai, D. Rosa Manão, vindo a fazer a 4.ª classe com a mestra de minha mãe. D. Beatriz Palmela.

Na Rua de Alfenim havia duas escolas particulares, a da Rosa Manão e a da Maria da Arrábida, vizinhas e rivais. À beira delas morava o António José Parada Gomes (e se a memória não me falha) que sonhava vir a ser um grande guarda-redes, como o Carlos Gomes. Teve a terminação e ficou pelo sonho…

Sonho bonito foi também o da Maria Augusta e do Raul que lá começaram a namoriscar até formarem um casal modelo, exemplo admirável das coisas bonitas que a vida por vezes proporciona. Começaram muito cedo e não resistiram ao desgaste dos anos…

E foi pena, por eles e por nós que assim vimos esfumar-se um pouco do sonho, da admiração e da ternura que sentíamos.

Não se trata de emitir juízos nem atribuir culpas (com que direito?) porque nestes casos perdem os dois. E perdemos nós que gostamos deles. É um pouco como quando descobrimos que o Pai Natal afinal não existe. Ou que não adianta ir com o banquinho de madeira até aos Bombeiros esperar uns reis que nunca virão…

Da Rua de Alfenim fui para a escola Conde de Ferreira onde me esperava na 1.ª classe uma sala enorme e o perfil de águia do Professor Amável.

Na intimidade da casa sombria, a Rosa Manão era uma galinha velhota que protegia os pintainhos mijões que passavam o dia a pedir «Minha senhora, posso ir lá dentro?» Lá dentro era a tigela da casa…

A escola Conde de Ferreira era outro universo, com as suas grades, as batas brancas, escola oficial, quase tropa.

O meu parceiro de carteira era o António Sebastião Vieira Fidalgo que, mais tarde, viria a ser meu companheiro de equipa de juniores e cúmplice de namoro. O Professor Amável era um olhar penetrante, gesto seco, discurso breve e cortante, régua violenta e bofetada pronta. O terror. Muitas vezes abalava para o Café Central para discutir futebol e deixava o Acácio Gaspar de espia, de pé, no estrado a ver quem falava. E a apontar no quadro os nomes. Bem lhe dizíamos que é feio apontar, mas ele apontava. E quando o Professor voltava era tudo menos Amável para com as vítimas…

Métodos de outros tempos que apenas nos deixaram uma vaga noção de disciplina imposta pelo medo da régua e um perfume de nostalgia que nem chega a ser amarga porque, a esta distância, só nos lembramos do sol, das tangerinas, das jogatanas e da praia. Nunca mais voltaremos a ter sete anos…

Depois tive a meiga D. Emilinha, a metódica D. Ernestina Cifuentes e, por fim, a temível D. Beatriz.

A escola feminina, em frente da minha casa, albergava no Verão colónias balneares e as meninas desfilavam entre a escola e a praia cantando tristemente «Eu não vou para o meu pai nem tão-pouco para a minha mãe, a senhora D. Alice trata a gente muito bem…»

Talvez nem fosse Alice, mas não faz mal. Importante é conservar esta e outras recordações. Talvez valesse a pena que cada um puxasse pela memória e enviasse para o nosso jornal quadras cantadas nas rodas do recreio ou à volta das fogueiras, o «Jardim da Celeste», Adelaide Adelaidinha tua mãe está-te a chamar», Rosa branca ao peito a todos vai bem, à menina Candinha olaré melhor que a ninguém»…

Estas e muitas outras são peças do nosso património cultural e, sobretudo, afectivo. Não serão talvez criação local, talvez pertençam ao cancioneiro popular nacional, mas eram cantadas nas nossas escolas, nas nossas ruas, fazem parte da nossa vida.

Por isso volto a fazer a sugestão à minha tia Lucinda e a todos quantos conhecem quadras e cantigas. Não as levem para a cova, deixem-nas cá, elas fazem-nos falta…

Por vezes penso que estas coisas podem parecer um bocadinho piegas, em especial quando lidas num café barulhento, com a televisão aos berros, as conversas ruidosas, a agitação ensurdecedora deste tempo que atropela a poesia. Mas um jornal como o nosso também fica um mês na mesinha da sala, naquele canto onde nos refugiamos quando queremos viajar no mundo dos sonhos e das recordações. Os leitores que vivem longe de Sesimbra precisam de reviver, reencontrar um paraíso distante, um rosto, um nome, poeira de um universo que é o arco-íris, caleidoscópio, filme em trinta e uma partes, com o cheiro da lota, os gritos das gaivotas, o recorte da jangada, a água doce, os passadiços, o Parque, o pão quente nas madrugadas da lonjura no tempo…

É isto e muito mais, é o que cada um conservou em si, de forma mais ou menos consciente. O nosso jornal é particularmente importante para os leitores que estão longe, que o abrem com avidez e febrilidade, procurando notícias de Sesimbra, talvez das sessões da Câmara, mas muito mais certamente das pessoas, da gente da nossa terra.

As pessoas são o pior e o melhor que existe em Sesimbra. O pior quando só vemos a inveja, as intrigas, o rei na barriga e a carteira no mastro mais alto. O melhor quando sentimos a franqueza, a fraternidade, o amor pelo mar, o apego a valores simples e o gosto por coisas belas que gostam de partilhar. Por isso, meu caro Doutor e amigo David Sequerra, permita-me que acrescente algo à sua sugestão relativamente às «Figuras Inesquecíveis».

Por mim, simplificaria a fórmula, nem esquecidas nem inesquecíveis, apenas Figuras. «Figuras» de ontem, «Figuras» de hoje e mesmo «Figuras» de amanhã, pois seria bom irmos transmitindo aos nossos jovens aquilo que, talvez ingenuamente, pensamos ser uma certa filosofia ou culto de Sesimbra, que vai dos azulejos à sopinha de pelim, do Senhor das Chagas à Senhora do Cabo, do alecrim ao peixe seco, das sacadas extintas ao fantasma das armações que continuam a chegar à tardinha à praia da nossa saudade…

O Capitão Domingos é uma Figura, o Duque é uma Figura, o David Saloio é outra Figura. E o Luís Passos Leite, o Zé Bagaço, o Aurélio, o Zé Manel Torres Batista, o Jorge Aranha, o Chagas, o Eng.º Eduardo Pereira, o Jacinto «Maneta», a Felicidade, a Manuela do Caminhão, o Alfredo Pinto, cada um deles, à sua maneira, evoca algo de importante, para alguns de nós, faz parte do nosso passado e do nosso imaginário, como agora se diz. Há mil Figuras e Sesimbra vive por elas, através delas, graças a elas.

Elas são Sesimbra.

É certo que o presente não é só droga e desencanto. É claro que o passado não foi o paraíso que idealizamos com retoques saudosistas. E é evidente que somos uns piegas desgraçados. Mas como é bom ser pequenino (como cantava o Zé Manel), como é bom ser piegas (como repetia o António do Porto) e como é bom Sesimbra no Outono…

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* Publicado originalmente em O Sesimbrense em Dezembro de 1992.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 18



Se não são utilizados, os instrumentos desafinam e depreciam-se. Por isso mesmo, Nero, que raramente tocava, deixou desvalorizar a lira...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 26




Os cantoneiros

António Cagica Rapaz

O carro do Caretas, conduzido pelo Manel Estêvão, arranca do largo da igreja às oito e vinte. Vai em primeira até passar em frente da porta da sacristia e, aí chegado, enfia a segunda que o motor recebe com alívio, ganhando ânimo novo. Para trás ficam o Chico da Cooperativa e a rua Cândido dos Reis que desce até à praia onde a lota já se agita.

As traineiras começam a chegar e as gaivotas volteiam, enchendo a manhã com os seus gritos de festa. Os guardas-fiscais, em passo pausado, descem da fortaleza enquanto as mulheres do campo vão chegando à praça onde o Cebola já arrumou os caixotes da fruta. E o carro do Caretas segue rumo a Cacilhas. Depois da paragem em frente da pastelaria das delícias, em Santana, é o posto da polícia que surge no horizonte. O Mau-Mau consulta o relógio, verifica a pontualidade e vira as costas, com o ar ameaçador do costume. A Cotovia já está à vista e, antes da Venda Nova, o carro da carreira ultrapassa um ciclista de chapéu de aba larga. É um cantoneiro...

Um pouco mais à frente, dois homens arrumam as ferramentas, tranquilamente, junto a um soberbo pinheiro manso. Na suavidade da manhã, o sol já brilha sobre os cumes da serra da Arrábida, e o Manel Estêvão acelera. Os cantoneiros ficam, o tempo parou ali...

Na carreira vão os apressados empregados de escritório, como o Guedes, marido da Dona Ernestina que, a essa hora, está a entrar na escola Conde de Ferreira. Vão também os doentes com consulta marcada no hospital dos Capuchos. Os cantoneiros ficam. Para eles o relógio é o sol que viaja devagar no céu azul, acariciando as nuvens, aquecendo o mar, do Caneiro à doca. Um deles vai buscar uns cavaquitos enquanto outro já coloca as pedras em posição de suportar as marmitas. Os carros do peixe não vão tardar a passar em direcção a Lisboa, deixando no alcatrão um rasto de água salgada e gelo a derreter. Sentados, em equilíbrio nos taipais, vão o Zé Baúte e o Manão. Os cantoneiros ficam...

No Verão, o calor do sol e do alcatrão da estrada são um tormento, mas nas manhãs frias de Inverno sabe bem fazer uma fogueira. O garfo atravessa as batatas, o bacalhau está cozido. Os chapéus de abas largas são colocados ao lado, as ferramentas encostadas. A garrafa de tinto à mão de semear, o frasco do azeite, o dente d’alho, a fatia de pão caseiro, o ar puro dos pinhais e o silêncio da estrada adormecida. A essa hora, os empregados de escritório correm para o restaurante habitual na rua dos Sapateiros e os doentes definham na sala de espera dos hospitais...

A tarde desce morna e serena, a estrada retoma o seu movimento enquanto os cantoneiros prosseguem, tranquilamente, o seu trabalho entre duas frases e uma pausa, junto à berma. Para eles, o tempo escoa-se docemente. O carro da carreira está de regresso e já ataca, ruidoso, a subida para a Cotovia. Depois será Santana e, por fim, Sesimbra, à hora da lota, desta vez com o sol a esconder-se por trás do farol.

Os empregados de escritório regressam esgotados, dormem o caminho todo. Os doentes contam, em voz bem alta, os pormenores das doenças, dos medicamentos e do enjoo no barco de Cacilhas. Um bebé chora e o Manel Estêvão acelera. Pela beira da estrada, no crepúsculo ameno que Deus dá, os cantoneiros levam pela mão a bicicleta dolente. A patroa já pôs o jantar ao lume e, na Charneca da Cotovia, uma ligeira neblina começa a descer sobre os telhados de cujas chaminés se eleva um fumo alvadio que anuncia o calor do lar e convida a regressar a casa...

Os carros rolam cada vez mais depressa nas estradas cujas bermas os cantoneiros desbravam e arranjam. Os homens correm e olham em frente, mais depressa, sempre mais depressa, sem se darem o tempo de apreciar o nascer do sol, o voo das aves. Os cantoneiros ficam a beira da estrada e, de vez em quando, têm um olhar nostálgico onde haverá, porventura, uma recôndita vontade de partir. Mas acabam por ficar, por rotina, por medo do desconhecido, dos desafios da vida. E nunca saberão que, com eles, fica a poesia...

1982

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 22

as crónicas da Eventos...





O stick mais alto que o ombro*

António Cagica Rapaz

Era em Maio, o defeso começava a ameaçar o futebol e chegava a época do hóquei em patins. E é em tudo assim, cada coisa a seu tempo…

Ao longo do ano, mão invisível inscrevia em paredes irreais o calendário das brincadeiras. Ninguém sabia como acontecia, quem dava a voz de comando, mas os períodos sucediam-se, ordenadamente, como as estações do ano, como as marés, agora era a placa, amanhã as bolas de aço, depois o arco e a gancheta, mais logo o alho, as linhas, o còcalha…

O jogo da placa requeria uma escolha prévia dos passeios e a consequente selecção dos módulos a utilizar consoante as características do piso e do fim em vista. As mais “santinhas” de todas as placas (em Lisboa chamavam-lhe caricas) eram as das garrafas de Água de Castelo, recheadas com casca de laranja, papel ou, até, chumbo derretido.

Cada placa tinha uma missão específica, conforme a largura, o comprimento, a inclinação e o acidentado da berma. Umas eram leves e ágeis, galgavam as barreiras formadas pelas placas dos adversários e cortavam a meta distante de um só fôlego. Outras, como as de chumbo, serviam para avançar cautelosamente em pisos escorregadios e irregulares, bem como para desafiar as mais leves que, após o embate, iam pela borda fora, rumo à sarjeta, por vezes. Mal dávamos por nós e já a tal mão invisível apontava o caminho da escola de Santa Joana de onde começava a chegar o som metálico das bolas de aço movimentadas pelas palhetas hábeis dos “borrugas”, especialistas nos cabos e nas embocadelas, prudentes a evitar a “marré” e certeiros nos lançamentos à bola que até estalava na “muda”…

Mas, não divaguemos, Maio era o hóquei em patins, o fascínio dos torneios de Montreux, o deslumbramento da rapaziada e dos adultos, todos unidos na grande aventura, presos aos relatos da Emissora, à porta do tio Chico da Cooperativa. Solta só a fantasia, na vã tentativa de imaginar o ambiente escaldante e empolgante daquele ringue mítico onde a equipa suíça jogava com o apoio do seu público e com algumas tímidas ilusões justificadas pela valia dos irmãos Pierre e Marcel Monney. Os italianos eram os eternos terceiros, apesar da galhardia dos guarda-redes Bólis e Cataletto, do Prinz, do Brezigar, do Marcheto ou do Panagini.

A final colocava sempre frente a frente Portugal e Espanha, a temível Espanha, com o insuperável guardião Zabalia, Soteras, Trias, Más, o lendário Orpinelli, o talentoso Puigbó, o Gallen e outros valorosos jogadores. Na geração seguinte pontificaram, na baliza, o imenso largo e, na frente, o diabólico Rocca. Do nosso lado estavam todos quantos figuravam naquela enorme fotografia que o tio Chico tinha na cave do ping-pong e do négus. Eram o Emídio, o Cipriano, o raio, o Edgar, os primos Jesus Correia e Correia dos Santos, o Sidónio. O resto era a paixão, a vibração delirante com os golos de Portugal nas vozes arrebatadoras do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas que ecoavam no silêncio da igreja de cima, pela noite fora.

No dia seguinte, íamos, timidamente, até aos Bombeiros onde o tio Elias observava com desconfiança e severidade os quatro ou cinco felizardos que possuíam patins e se exibiam enquanto os outros ficavam à espera de um gesto bondoso para uma voltinha apressada. Jogar hóquei estava fora de questão, não havia espaço nem patins suficientes. Algumas tentativas à revelia do Tio Elias acabavam com vidros partidos e debandada precipitada… Restava-nos o mistério e a sedução dos relatos, um perfume de magia na vertigem da velocidade dos hoquistas, o malabarismo, a execução fulminante, os golos em catadupa, sempre goooooolos de Portugal. A geração seguinte, com o Matos, Edgar (ainda), Cruzeiro, Lisboa e Perdigão também nos entusiasmou. Mas o mais fabuloso foi o quarteto laurentino formado por Moreira, Adrião, Velasco e Bouçós, a que se juntavam o eterno Edgar e, definitivamente, o admirável Vaz Guedes.

Por vezes, dou por mim a pensar que os jovens de hoje têm muita sorte porque lhes são oferecidas todas as condições para a prática do belo desporto que é o hóquei em patins. Contudo, não sei se alguma vez os terei invejado. É verdade que eles dispõem de ringue, patins, sticks, tudo como deve ser, real e concreto. Mas nós tínhamos o sonho, a fantasia, a imaginação que nos levava a improvisar apetrechos, a inventar golpes duplos na marca de canto à porta da escola de Santa Joana, a anular golos porque o Pedro levantara o stick mais alto que o ombro. Em verdade, nunca chegaremos a saber ao certo se, lá bem na linha de fundo, apenas fingimos ou se acreditamos mesmo que aquele sonho de meninos pobres é melhor do que a realidade actual. Provável é que só procuremos consolação, irrecuperável é a mocidade que perdemos, ao longe, no mar. Sorte terá, porventura, o Amílcar que conserva o mesmo papagaio que o pai Chico tinha no café, com poleiro na primeira fila, testemunha privilegiada de acontecimentos memoráveis. O Amílcar já dobrou o caso dos setenta, é um bocadinho mais velho que o “louro”, e quando passa no largo da igreja, a caminho de casa, mal consegue disfarçar a emoção diante da “Ginjinha Coelho” para sempre encerrada. E não me admira que, a meio da noite, ainda acorde, de vez em quando, com o papagaio a gritar “Goooooolo de Portugal”. Então, o bom Amílcar corre, excitado, a acender a velha telefonia, sintoniza a Emissora e põe o som bem alto, mais alto que o ombro, mais alto que o sonho…

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*Publicado no n.º 9 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2000.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 26




O Doutor Aurélio*

António Cagica Rapaz

Nos tempos heróicos da minha infância os doutores eram raros em Sesimbra e esses títulos correspondiam a personalidades marcantes. O dr. Costa estava já no ocaso e o meu médico era o inesquecível dr. João Pacheco Caramelo, figura inconfundível da nossa terra, meio cientista distraído, meio chefe de orquestra inventivo, mas antes de tudo um grande médico e um homem de bem.

O dr. Fernando Lopes era já uma autoridade em farmácia e, mais tarde, tive a oportunidade de o conhecer de perto e admirar a sua extraordinária capacidade de trabalho, a sua consciência profissional, o método, o rigor, no dia a dia, em família e no trabalho. Figuras mais decorativas e transitórias eram os doutores da Alfândega, das finanças e do registo, gente de fora que adorava viver em Sesimbra.

Eram todos eles forças vivas da terra, com lugar marcado no anfiteatro do Café Central. Desse tempo ficou-me a imagem de respeito e consideração que envolvia tais personagens, autênticos seres de excepção. O senhor doutor era o senhor doutor!

Mas os tempos mudaram e o prestígio do canudo diluiu-se por deixar de ser raridade.

Hoje em Sesimbra, entre os filhos da terra, não faltam doutores e engenheiros. Apesar desta perda de solenidade, a doutoriedade dos valores autênticos não se obscureceu. Pelo contrário um homem como o dr. Fernando Lopes aparece hoje com uma merecida auréola de catedrático.

Esta democratização ou proliferação trouxe consigo uma mudança de estilo, produziu um tipo novo, uma nova raça de doutores. Já não são as celebridades de pedestal, mas homens e rapazolas como nós, de risco ao lado, de fatinho do Zé marujo.

O primeiro desta nova vaga foi, a meus olhos, o Aurélio de Sousa. A mais longínqua recordação que dele tenho foi o meu pai que ma transmitiu quando um dia me relatou que o filho do Joaquim de Santana, um miúdo, guiava de pé as camionetas do pai. Nunca mais esqueci esta peripécia da qual, por sinal, nunca falei ao Aurélio. Anos mais tarde o estudante Aurélio de Sousa aparecia em Sesimbra, de vez em quando, de capa e batina, indumentária insólita e intrigante.

Receei que tivesse entrado no seminário, mas tal não foi o caso. Aliás o seu temperamento não era o mais adequado ao celibato sacerdotal. Era o tempo do feitiço cigano…

E o belo Aurélio lá ia estudando as economias e finanças ao mesmo tempo que se desmarcava para receber os passes em profundidade que o Valdemar lançava no espaço vazio. O futuro senhor doutor (que ainda por cima era de Santana, portanto, gente do campo) não hesitava em dar o corpo ao manifesto, generosa e galhardamente, no meio dos plebeus chutadores do Desportivo.

Por essa altura dava eu os primeiros pontapés e, na idade dos sonhos, imaginava-me de capa e batina e camisola da Académica ao peito. Da mesma forma que todos os rapazes sonhavam com o Robin dos Bosques e o Zorro. A única (e importante) diferença é que o Aurélio foi um estudante que para se distrair e por gosto jogava futebol enquanto eu tive de jogar futebol para poder estudar. Felizmente o futebol proporcionou-me ir além do sétimo ano, pois sem ele nunca teria posto os pés na universidade, por falta de recursos económicos. Essa mesma falta me impediu de comprar uma capa e uma batina. As poucas vezes que as vesti foi por empréstimo, mas isso são outros contos. Em Coimbra nem tudo foram rosas nem serenatas, longe disso, mas ali comecei o que era o sonho natural, ingénuo e beatífico dos meus pais: a licenciatura. A minha mãe gostava de ter um filho doutor. Graças ao futebol assim aconteceu e, embora não encha o peito, sinto certa satisfação.

Foi nessa fase de futebol e estudos que mais convivi com o Aurélio, um tanto por acção inicial aproximativa do Valdemar, rei da boémia em Sesimbra by night.

O Aurélio era já senhor doutor, mas, na mesa linha de comportamento, deixava o título na gaveta e era cá dos nossos, sem preconceitos de classe nem pruridos intelectuais. Era o tempo dos sábados de tarde vizinha da noite de aventuras de fins de semana. O Aurélio chegava de Lisboa e, antes de jantar, vinha cá abaixo dar uma volta, trocar dois dedos de conversa e alinhavar o programa para a noite que não raramente se resumia a compridas passeatas, com conversa larga e um copo pelo meio. Havia, claro, o Forno e o resto, mas a base era uma troca de experiências, uma convivência curiosa e rica. Eu trazia o saco cheio de histórias românticas e vibrantes, fruto da idade, enquanto o Aurélio, mestre na arte, ouvia e revivia, compreendia e refreava o entusiasmo, com paciência e certa filosofia.

Depois o Aurélio tinha a delicadeza oportuna, detectava o que me daria prazer e sugeria, avançava sem que eu pedisse.

Eu tinha carta mas não tinha carro e logo ele criou o ritual da voltinha à doca ao sábado à tarde, no seu velho Morris 850. Uma vez até cometeu a loucura de me deixar guiar, à noite, até à Caparica. Para mim era uma felicidade aquela voltinha, um gosto aparentemente banal mas que pessoas mais próximas nunca tiveram.

Entre nós estabeleceu-se uma boa cumplicidade, havendo da sua parte uma certa tolerância e um prazer maroto nas encruzilhadas do verão em cujas vielas cruzámos lanças com um sorriso diletante, conferindo a cada emboscada romântica o tom prazenteiro, jovial e brejeiro que convinha, sem exagerar nas doses da intriga amorosa nem nos juramentos de sangue.

O Aurélio, instalado na vida, seguro de si, apreciador de bons momentos, era um parceiro leal e ideal. Decorria o verão inesquecível de 1966…

Era a época em que ele dizia amiúde “efectivamente” e o doutor Aurélio foi uma figura que efectivamente me marcou de forma precisa e impressiva.

Um novo Aurélio apareceu em Sesimbra uns anos depois. Era um marado chamado Vítor que, a bordo de um velho Fiat 500, se tornou o mentor dos Zambras e conquistou um lugar invejável na rambóia de Sesimbra.

Rei do Carnaval, ao lado do Fedor, do Zé Batata, do Arménio e quejandos, o Vítor no dia seguinte punha a gravata e voltava a ser “como o Aurélio” o doutor Sevilhano Ribeiro, especialista em economia e finanças.

Hoje é dos valores mais seguros no campo de formação de gestores que existe neste nosso pobre país. Mas isso não o impede de lançar o pânico e o desassossego ao ritmo da música trepidante e da improvisação criativa. Tudo isto no ambiente de camaradagem saudável que cria à sua volta. O Zé Inácio tem orgulho legítimo no genro. É compreensível e visível. E ainda bem porque o doutor Vítor é um figurão notável.

Hoje há doutores, muitos doutores, é exacto. Mas, se alguns são medíocres, a verdade é que o seriam mesmo se não fossem doutores. Por outro lado, se ser doutor não é uma marca de distinção suprema também não é defeito nenhum.

O Aurélio e o Vítor pertencem a duas épocas mas respiram o mesmo ar, vivem ao mesmo ritmo, são da mesma escola.

E o Zé Inácio não é doutor mas é Embaixador…

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* Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 17



Perito em andamentos, era um bom sinfónico. Quando tocava a copos, era um bom gintónico...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 25


O Capitão John

António Cagica Rapaz

Calça azul, camisola azul, boné azul, mas sangue vermelho, apesar do convívio com as altas personagens que cruzam a baía em barcos de recreio. O Capitão John janta cedo. A patroa, com a idade e a tensão alta, deita-se a boas horas. Ele levanta-se da mesa, põe o boné na cabeça e sai, fechando a porta devagar. A Marisqueira é já ali em baixo, qual porto que acolhe os barcos que a nortada atirou para a costa. O Capitão John é figura popular, meio lobo do mar, meio contador de histórias de pescas fabulosas para entreter meninos ricos. Os estrangeiros baptizaram-no de Capitão John e ele traz às mesas da Marisqueira a brisa fresca do leste, o gosto vigoroso da espuma, a bandeirinha verde que tremula no mastro da fantasia. O Capitão John é o mar, o oceano inteiro que entra pela Marisqueira adentro e as pessoas olham-no como se ele tivesse vencido mil vendavais, arpoado cem baleias, pescado duzentos espadartes. O João Bizarro aprendeu os sinais de liques em inglês, navega em águas internacionais. Quem o quiser encontrar só tem de ir ao reminho pela borda d’água até à Marisqueira. Do alto do seu rochedo, o Capitão John passeia o seu olhar sobre o mar de aventuras que esta noite traz consigo. Este corsário do mar da Pedra ancora de mansinho a sua aiola...

1983

domingo, 26 de setembro de 2010

TALVEZ POESIA..., 5

Setembro


António Cagica Rapaz

Talvez fosse em Setembro,
Não sei, não me lembro.
Talvez houvesse nevoeiro,
Cheiro a maresia, solidão,
Vagas de fim de estação,
Outono a chegar mais cedo,
Melancolia e o medo
De ver morrer o Verão…
Talvez fosse em Setembro
Que partiste sem deixar
Rasto, sinal, gesto vago,
Só esta dor que ainda trago
Cravada nas mãos cansadas
De te buscar, praia fora,
No mar, no céu, na lonjura,
Na febre de quem procura
Vencido p’lo desalento,
Alheio à chuva e ao vento.
Foi talvez no Verão passado
Ou então há muito tempo,
Pode ter sido em Setembro,
Mas já não sei, não me lembro…

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 21

as crónicas da Eventos...


Batas brancas e capas pretas*

António Cagica Rapaz

Para quem vivia à borda d’água, o regresso à escola, após três longos meses de rédea solta, à torreira do sol, era a expulsão do paraíso e o caminho do cativeiro. Porém, passadas as primeiras emoções, instalava-se entre as grades da escola Conde de Ferreira um clima de certa resignação e algum reconforto nascido da tomada progressiva de consciência de alguma saturação de tanta liberdade. Aos poucos, íamo-nos sentindo tranquilos e seguros, precisados que estávamos de um pouco de ordem, de disciplina, e talvez mais saudosos do que queríamos confessar do reencontro com os companheiros, do cheiro das velhas carteiras e do contacto com livros de leitura e cadernos.

As batas brancas esbatiam, mas só até certo ponto, as diferenças sociais, pois todos sabiam o que estava por baixo e ninguém ignorava que algumas seriam sempre mais brancas que outras. Para a maioria, o destino estava traçado desde o berço, a vida académica acabava ali, à beira do jardim, com o exame da quarta classe feito pelo Professor Leal ou pela Dona Paula. Outros alimentavam uma trémula esperança de uma oportunidade no colégio do Dr. Costa Marques, etapa só certa e garantida para uns quantos que cedo percebiam que não seria por falta de recursos económicos que não tirariam um curso superior. Para estes, os das batas mais brancas, a escola oficial era apenas o primeiro degrau. Para outros era a obrigação fastidiosa e frustrante porque preferiam brincar ou trabalhar na barca, na mercearia ou na oficina. Mais sombrio ainda era o universo da escola dos órfãos, de meninos tristes, de batas escuras e cabelo à escovinha.

Ao lado, ficava a sede da Mocidade Portuguesa onde os mais crescidos iam aprendendo a conjugar o verbo marchar ao ritmo da trilogia Deus, Pátria e Família, cantando e rindo, abençoado tempo. No horizonte distante dos tempos de escola e colégio, revejo a figura do Aurélio que, de vez em quando, aparecia em Sesimbra envergando capa e batina, silhueta insólita que nos fazia sonhar. Mais tarde, ele seria um jovem senhor doutor, estatuto invejável, quase inacessível, só ao alcance dos filhos de famílias abastadas que, desde muito cedo, proporcionavam aos meninos a segurança tranquila e a perspectiva risonha de um futuro garantido. Pelo meio ficavam uns híbridos, como eu, pobres com aparência de remediados, sem a certeza de conseguirem chegar sequer ao curso dos Liceus.

O Aurélio haveria de jogar futebol no Desportivo para se distrair dos estudos, por puro prazer. Curiosamente, eu segui um percurso desviado, cheguei aos estudos superiores graças ao futebol. Mas nunca comprei capa nem batina, limitei-me a pedi-las emprestadas sempre que precisei. E lá acabei por concluir o curso, aos pontapés, na bola, na tropa, na vida, passando mais tempo em estágios do que nas bibliotecas. Por falta de tempo, por um lado, e por certa preguiça intelectual, por outro, nunca aprofundei verdadeiramente os conhecimentos. Daí que me tenha ficado uma grande admiração por quem sabe, por quem conhece as origens, o curso da História, os segredos da alma, os nomes das flores, os tons da pintura, os andamentos das sinfonias, os ângulos das esculturas, os mistérios das religiões, a cor dos sentimentos, o sentido oculto das palavras, os pensamentos filosóficos, itinerários e obras, autores e intérpretes, tudo quanto eu apenas sobrevoo, quanto pressinto, quanto esboço desajeitadamente e mal consigo aflorar.

Não obstante, ao longo dos anos, desde o colégio e passando por vários jornais, fui escrevendo, fazendo redacções como esta, a pretexto disto ou daquilo, na ingénua convicção de que cada texto é uma malha da rede da nossa convivência, um balde de areia na construção do castelo da nossa ilusão de partilha de fraternidade, folhetos que acabam sob um qualquer capacho ou perdidos pelas ruas como os panfletos que, antigamente, o velho Domingos Pacancas distribuía por toda a vila, para anunciar os filmes do salão do João Mota.

A vida tem destas coincidências e quis o acaso que o ciclo se fechasse naquela mesma escola, agora transformada em Auditório, quando nos reunimos para a apresentação da colectânea de noventa e tal redacções. Lá estiveram, numa noite de Santo António, amigos e familiares, como antes acontecia quando fazíamos exames da quarta classe.

Na escala dos patamares da excelência, a minha modesta obra não passa disso mesmo, de um livrinho de instrução muito primária. Não rende dinheiro, não dá honrarias, mas foi um maravilhoso pretexto para juntar naquela sala algumas das pessoas que ocuparam um lugar, desempenharam um papel, marcaram a minha vida.

Desta aventura de cinquenta anos fica-me a convicção de não ter copiado senão pela vida e de ter procurado não dar muitos erros de interpretação. Segui mais o coração do que a razão e, instintivamente, adoptei uma filosofia singela assente numa noção simples e nítida do que é importante, do que vale realmente a pena. É algo que dificilmente se explica, um sentimento que se dilui, uma música que se insinua entre as palavras, uma impressão que nos invade quando contemplamos aquele quadro ingénuo de suavidade poética do luar de Agosto, no livro da terceira classe, com a família do lavrador que volta para casa.

No fundo, a grande verdade é que pouco valemos, doutores, lavradores ou pescadores, se não formos capazes de amar, de sonhar, de enfrentar o mar da vida e de saborear o regresso à praia quando o sol se despede do farol…

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*Publicado no n.º 15 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2001.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 25


Há mais DavidES na Terra*

António Cagica Rapaz

No sótão da nossa memória conservámos recordações que revestem múltiplas e variadas formas. É a cor prateada do mar em dias de sol intenso ou a púrpura do crepúsculo; é o cheiro do pão mole, do peixe seco ou da cantina da escola das raparigas; são os gritos estridentes das gaivotas; é o som metálico do escopro e do martelo dos carpinteiros navais nas manhãs frescas na doca; é uma estrela de papel, canas e cordel no céu escuro dos dias de vendaval como dantes havia…

Todos nós guardámos estas e outras imagens e, de vez em quando, subimos a escada, abrimos a pequena janela, olhamos o mar e mergulhamos no passado.

A alguns, como eu, dá-lhes para contar enquanto outros se fecham lá no sótão e revivem em silêncio, viajam solitários nas águas profundas do tempo que se foi na maré vazia…

Uma outra imagem que me ficou foi a das traves, não as de alguma vedação nem certa casa, nem sequer as das balizas, mas as traves das botas dos jogadores do Desportivo. E as botas em si.

Naquele tempo, nos anos cinquenta, os balneários ficavam a uns bons cem metros do campo recortado entre os eucaliptos e à beira do ribeiro.

Lá em cima era o terceiro anel da eira do Valada.

As botas tinham traves por baixo, ressoavam no cimento e fascinavam o miúdo que eu era quando assistia aos treinos do Desportivo. Vindos do mar, os homens trocavam as botas de água pelas botas com traves e lá iam dar voltas ao campo, meia dúzia de exercícios, muita ronha na ginástica e, por fim, a apetecida bolinha a saltitar entre o contentamento do pessoal que ali vinha fazer horas para o almoço, relatar dois lances da barca à mistura com piadas aos jogadores.

Uns vinham de fato macaco, do gelo ou da oficina, outros de camisola grossa, mas depois eram todos iguais, de calções e botas com traves.

Quando alguma bola ultrapassava a vedação, a rapaziada corria-lhe atrás, para a apanhar, acariciar e despachar com um frágil pontapé, próprio de quem só estava habituado a bolas de borracha e a alguma em «catechumbo» manhoso das caixas de rebuçados do tio Chico da Comprativa…

Era uma festa naquelas manhãs que cheiravam a eucalipto, com as loucuras do Ilídio, a queixada proeminente do Baeta pé-de-chumbo, a peitaça do Manel Santana, a cara séria do Miguel, a leveza do Izidro, a velocidade do Zé Filipe, a força do Zé Broa, a presença do Jesus, os dribles do Barlona…

Ao domingo, mesmo com chuva, não perdia a segunda parte das reservas, depois de comer à pressa o infalível bacalhau com grão enquanto ouvíamos o José de Oliveira Cosme que nos dizia que «A vida é assim».

Nas minhas recordações, o campo está sempre cheio de lama e na baliza o Zé do Olho com as suas defesas acrobáticas. O pessoal está em pulgas e pouco liga ao João Manão, ao Zé Azoia, ao Baguinho, ao Carlos Rosa ou ao Joel Fartura. Já viram as camisolas cerise limpinhas da primeira categoria, a laranjinha nas mãos do Manel Santana e querem é que as reservas acabem depressa. A eira do Valada está à cunha e as nuvens negras sobem a serra, vindas do mar aonde ninguém se arrisca nesse tempo de vendaval.

E, por fim, lá vinham eles, vigorosos e viçosos, com o público em peso a aplaudir e a gritar, comandado pelo «Algarvio» no peão e pelo João Mota, na bancada. E todos eles calçavam botas com traves que, a meus olhos, tinham virtudes mágicas como as botas de sete léguas ou as de cano alto do Corsário Negro ou do D’Artagnan. Era como se elas possuíssem o íman que atrai a bola, a bússola que a dirige e o canhão que a dispara. Tal como o sapatinho da Cinderela, as botas transformariam pés rugosos e desajeitados em tentáculos engenhosos, garras temíveis e cascos velozes. Calçar aquelas botas com atilhos brancos e traves que ressoavam no cimento, tal era o meu sonho. Afinal foi uma grande desilusão. Depois das intermináveis partidas contra o Canino, em frente à escola de Santa Joana, foram as sapatilhas das “Esperanças” nos torneios populares de verão e, enfim, as botas de traves nos juniores, com o nosso Carlos Marques. O sonho era bonito, mas as botas eram duras e remendadas, refugo das primeiras, apesar da boa vontade do tio Carlos Seromenho. Mesmo assim lá fomos percorrendo o distrito com o entusiasmo e o deslumbramento da nossa mocidade, mal dormindo antes dos jogos, levados pelo sonho e pelos carros do Covas. Era o tempo dos milagres do Ferreira que conseguiu que o Julião fosse júnior até aos trinta anos e levou o Olímpio à selecção de Setúbal com o cartão do Gato.

O capitão dessa selecção era o Luís Preto e dele herdei a braçadeira, em 1962, no tradicional torneio de Leiria. Vencemos Coimbra e nesse mesmo ano fui para a Académica…

Nesse tempo costumava ler os jornais desportivos que o meu pai comprava e os que encontrava na loja do mestre Adelino. Os jornalistas eram figuras prestigiosas e já nessa altura se distinguia o (ainda não) dr. David Sequerra que pontificava no «Mundo Desportivo» e que foi seleccionador nacional dos juniores campeões europeus. Sabia-o muito ligado a Sesimbra mas nunca nos tínhamos falado. Um dia, José Maria Pedroto lembrou-se de me pôr a jogar a libero, atrás do dr. Torres e do Piscas. Foi na Luz, diante de Eusébio e companhia, na catedral do futebol, como dizia o Hélio.

Depois repetimos a ferrolhada nas Antas e empatámos, apesar do talento do Hernâni, imenso jogador que era.

Esse modesto destaque deu ao dr. David Sequerra o pretexto para ajudar o sesimbrense que calçava botas sem traves não à beira do ribeiro e dos eucaliptos mas do Mondego e do choupal. E foi a minha primeira entrevista, feita nas bancadas do campo do Calhabé.

Enquanto joguei tive sempre da sua parte uma palavra de apreço, um incentivo e uma crítica simpática. Cruzámo-nos na Faculdade de Letras onde eu ia alinhando em Românicas e ele cursando História, com a Conceição Cheis.

E agora aqui estamos lado a lado nestas tabelinhas saudosas, puxando pela cabeça para arranjar uma ideia por mês, coisa nem sempre fácil.

Temos uma geração de diferença, levo uma volta de atraso (ou de avanço, não sei bem), mas ambos sentimos a necessidade de não deixar morrer o passado. Vamos correndo, discorrendo, recorrendo à memória e à sensibilidade que pessoas e situações nos inspiram enquanto apelamos para outros que bem poderiam, pelo menos de vez em quando, fazer uma perninha.

Ontem foi um DS (David Saloio), hoje é outro DS e amanhã poderá ser um AS como o Aurélio de Sousa a quem o Valdemar metia bolas em profundidade quando ele preferia jogo curto, bolinha no pé, prazer do drible, recreio diletante. O doutor Aurélio trazia pelos ombros a primeira capa de estudante que vi de perto e bem poderia dar aqui uns toques connosco, na borda d’água onde a areia é mais lisinha e as palavras saem soltas, repetidas como as vagas vagarosas…

Bem fez o dr. David Sequerra ao retomar as suas crónicas aqui na página ao lado, neste desafio saudável que não só é de leitura extremamente saborosa como, ainda por cima, me deu a ideia para a ladainha que aqui vos deixo.

Desta já me safei e agora toca a pensar na próxima que pode surgir de uma conversa com a Micá ou a Madalena, de uma bica cheia de mar servida pelo João ou do lugar que o Rafael deixou vazio no Central. Quem sabe?

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* Publicado originalmente em O Sesimbrense em 1993.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 16



Com tanta veia poética, ou sou filho de Pessoa ou soneto de Camões...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 24


As botas de traves


António Cagica Rapaz

Nos anos cinquenta, o balneário do Desportivo ficava junto à escola dos rapazes, a uns bons cem metros do campo cercado por eucaliptos, junto ao ribeiro. Lá em cima era o terceiro anel, a eira do Valada...

As botas tinham traves que ressoavam no cimento e fascinavam o miúdo que eu era, quando assistia aos treinos do Desportivo. Vindos do mar, os homens trocavam as botas de água pelas botas de traves e lá iam dar umas voltas ao campo, meia dúzia de exercícios, muita ronha na ginástica e, por fim, a bolinha a saltitar, para contentamento do pessoal que lá ia para fazer horas para o almoço e relatar dois lances da barca, à mistura com piadas aos jogadores que vinham de fato-macaco, os que trabalhavam no gelo ou na oficina, outros de camisola grossa. Depois eram todos iguais, de calções e botas com traves arranjadas pelo tio Carlos Soromenho.

Quando a bola ultrapassava a vedação, a rapaziada corria-lhe atrás, para a apanhar, para a acariciar e, a contragosto, a despachar com um débil pontapé, próprio de quem só estava habituado a bolas de borracha e, excepcionalmente, a alguma de “catechumbo” manhoso das caixas de rebuçados do tio Chico da Cooperativa.

Era uma festa naquelas manhãs que cheiravam a eucalipto, com as maluqueiras do Ilídio, a queixada proeminente do Baeta “Pé-de-Chumbo”, a peitaça do Manel Santana, a cara de pau do Miguel, a leveza do Isidro, o virtuosismo e a fragilidade do Zacarias, a velocidade do Zé Filipe, os petardos do Zé Broa, a presença do Jesus, os dribles do Barlona, as mãos de ferro e a preguiça do Rogério, o massacre do treino aos guarda-redes com que terminava cada sessão...

Ao domingo, mesmo com chuva, cumpria-se o ritual: almoço de bacalhau com grão, ouvindo “A Vida é Assim”, de José de Oliveira Cosme, no Rádio Clube Português, e corrida ligeira para ainda assistir à segunda parte das reservas. No filme das minhas recordações, o campo está sempre cheio de lama, mal se vêem as marcações e, na baliza, o intrépido Zé do Olho das defesas acrobáticas. O pessoal pouco liga ao João Manão, ao Azoia, ao Carlos Rosa, ao Joel Fartura ou ao Baguinho, as atenções já estão concentradas na primeira categoria. As vedetas aquecem, as reservas arrastam-se na lama, o Carlos Soromenho já tem o balde da cal à feição para compor os riscos, a eira do Valada impacienta-se, as nuvens negras sobem a serra vindas do mar onde ninguém se arrisca em tempo de vendaval.

Finalmente, ei-los que aparecem no topo da escada de madeira, por trás da baliza de baixo, o Santana à frente, o calção branco imaculado, a camisola cerise luminosa, a bola, a laranjinha, nas mãos. O público despede os reservistas e aplaude os heróis que vão enfrentar o Amora, lutar com garra. O Desportivo era uma questão de honra. Do peão chegam os gritos do Algarvio e na bancada soa a voz de trovão do João Mota...

Eu assistia, hipnotizado, só tinha olhos para a laranjinha, para as botas com traves, bem pretas de graxa, botas que me pareciam mágicas, com as de sete léguas ou as de cano alto do Corsário Negro ou do D’Artagnan. Era como se elas possuíssem íman para atrair a bola, bússola para a dirigir e canhão para a disparar à baliza. Calçar aquelas botas com atilhos brancos e traves que ressoavam no cimento era o meu sonho. Afinal, essa experiência viria a ser uma grande decepção. Nos juniores do Desportivo calcei, finalmente, as botas com traves, umas botas duras, remendadas, refugo das reservas, apesar da boa vontade do tio Carlos Soromenho. Mesmo assim, lá fomos percorrendo o distrito com o entusiasmo e o deslumbramento da nossa mocidade, mal dormindo antes de cada jogo, levados pelo sonho e pelos carros mais velhos do Covas. Era o tempo das ilusões, era bonito. Nunca mais haverá outro...

1993

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 20

as crónicas da Eventos...


Foto tirada daqui.


Do Caneiro à Doca*

António Cagica Rapaz

Eu só tomei consciência de viver numa vila quando comecei a passar férias na aldeia das Caixas e me fui habituando à expressão “ir à vila”. Naquele tempo, na década de cinquenta, para uma pessoa do campo, ir à vila era o mesmo que, para alguém de Sesimbra, ir a Lisboa. O campo era outro mundo, outra gente, outra fala, e certo distanciamento orgulhoso ditado por uma rivalidade ancestral e alguma antipatia à flor da pele. Eu era um intruso, vinha da vila, embora não tivesse sotaque comprometedor, não falava à pexito. E gostava tanto daquela aldeia, daquele universo, que fui adoptando usos, gestos e expressões que iam apagando os poucos traços de pexito que, eventualmente, me restassem. E foi neste processo de integração que aprendi a olhar de fora, da lonjura de uma dúzia de quilómetros, a nossa terra, a vila de Sesimbra.

Hoje, à procura de assunto e recuando mais de cinquenta anos, chego à conclusão de que, quando migrava para as Caixas durante os três meses das férias de Verão, eu deixava o meu frágil bairrismo enterrado na praia, junto à Pedra Alta. Não era propriamente uma infidelidade, mas sim a fascinação perante uma realidade totalmente diferente da relativa monotonia da praia e do mar, a dois passos da rua dos Pescadores.

Caixas era sinónimo de aventura, de descoberta, selar uma mula, dar-lhe de beber, participar nos trabalhos do amanho da terra, ir ao moinho trocar trigo por farinha, correr atrás do trilho da debulha, comer batatas com pele e pão acabado de sair do forno da tia Clarisse, armar aos pássaros, fazer a vindima e beber água-pé pelo tacho de barro, o deslumbramento da Natureza, o nascer e o pôr-do-sol, o contacto com os animais…

Sesimbra só começou a fazer-me falta e a ganhar importância na minha vida quando dela me fui afastando. As primeiras crises de nostalgia surgiram em Lisboa, aos vinte e poucos anos, na década de sessenta. Atacavam-me, normalmente, ao fim da tarde e assumiam a forma de um desejo súbito e forte de me meter no carro e abalar, ponte fora, levado pelo apelo do mar. Era como se me faltasse o oxigénio e precisasse de ir a correr até ao muro da marginal para inspirar demoradamente o ar do mar, o cheiro a maresia, e ver o sol a declinar por trás do farol. Todavia, e curiosamente, talvez o melhor não fosse satisfazer aquela necessidade imperiosa, cedendo à deliciosa tentação de ir ao encontro do mar e de Sesimbra. Se calhar, o melhor era a ideia que, de repente, e de forma mais ou menos nebulosa, se desenhava no meu espírito. Então, algures em Lisboa, no meio do trânsito, em casa a estudar ou no barco vindo do Barreiro, como num sonho, eu via a praia, as gaivotas, o mar azul sem fim, naquela hora mágica do entardecer, toda feita de poesia, suavidade e mistério. Provavelmente, a imagem que eu, quase involuntariamente, criava no meu espírito excederia a realidade que ia encontrar, mas o milagre era a euforia do impulso que me levava a procurar a borda d’água como um náufrago do deserto…

Estar longe, verdadeiramente longe, reconcilia-nos com tudo quanto esteja ligado à nossa terra, em particular quando se tem a felicidade, como nós temos, de ter nascido em Sesimbra. É um lugar comum, mas nem por isso menos verdadeiro, dizer-se que só damos valor às coisas quando as perdemos. Há muita gente que aqui nasceu e nunca esteve longe, o que talvez explique certa forma de alheamento ou de indiferença perante a beleza da nossa terra. Mas não se trata apenas do recorte paisagístico, é muito mais do que isso, é a magia do mar, é tudo aquilo que ele nos inspira, que nos enfeitiça, que nos prende, que nos marca para toda a vida.

Os camponeses gostam de zombar do sotaque dos pexitos que, temos de reconhecer, não é propriamente bonito. Contudo, é nosso e, mesmo que não o exibamos permanentemente, há ocasiões em que se torna saboroso e desopilante falar à nossa moda. Quando vivia em França, de cada vez que vinha a Lisboa, raramente não estava com o Manel António. E mais raramente ainda não íamos jantar ao Bairro Alto. Quem nos via, a meio da refeição, felizes e exuberantes, havia de estranhar aquele sotaque esquisito e, sobretudo, as mil expressões pitorescas que ambos cultivamos com ternura e calor. E em cada frase colorida, em cada lance da nossa barca da amostra generosa de ternura e fraternidade, era uma rede cheia da nossa mocidade, da nossa cumplicidade, daquilo que nos une e identifica, a começar pelo sentimento profundo de pertencermos ali, àquela terra cujo falar copiado das gaivotas e amolado pelo vento constitui uma bandeira que, em tantas ocasiões, desenrolamos e exibimos com orgulho. E numa qualquer tasca simpática do velho Bairro, não era Lisboa que cantava, era Sesimbra que enchia a casa, eram as gargalhadas vibrantes do Manel e a minha reencontrada alegria, por estar de volta, por estar em casa, por estar com o meu amigo. E era uma festa, sempre, de cada vez que eu podia vir a correr de Paris, coma mesma crise de nostalgia que, noutro tempo, me levava a atravessar a ponte, Apostiça abaixo, Alfarrobeira por fim, à procura do mar.

Entretanto, enquanto eu estava longe, Sesimbra aproveitava para se desfigurar, para se deixar possuir por construções disformes. Parece que se modernizou, mas, como certas mulheres demasiado retocadas, envelheceu mal. O Manel dizia-me quanto lhe doía a alma, e virava a cara para não ver o massacre dos Passadiços. Eu percebi, mas estava longe. E, à distância, a nossa Sesimbra continuava a ter o mesmo ar de menina que nada perdera da sua pureza nem da sua beleza. Por isso, eu fingia não saber e escrevia, escrevia, trincheira que ergui e atrás da qual me contive para não desatar a correr por aí fora em cada fim de tarde, guiado por uma estrela que me mostrava a nossa terra, inteirinha, beijada pelo mar que nos envolve e abraça, de uma ponta à outra, do Caneiro à doca…

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* Publicado no n.º 31 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2004.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 24




David Saloio*

António Cagica Rapaz

«Santo, santo é o Senhor Deus dos exércitos, o céu e a terra estão cheios da Vossa glória, hossana nas alturas, bendito o que vem em nome do Senhor, hossana nas alturas.»

Das muitas dezenas de vezes que li a missa das crianças ao lado do padre João, ficaram-me na memória trechos inteiros como esta passagem que, salvo erro, se recitava no ofertório, momento de recolhimento e emoção, com as trombetas sonoras a ecoar na igreja matriz nas manhãs frias e saudosas dos primeiros de Dezembro da nossa Mocidade distante…

De véspera íamos buscar a farda que envergávamos com sentido orgulho, mangas arregaçadas, indiferentes às baixas temperaturas. Os heróis não têm frio e nós desfilávamos de peito inchado, cabeça levantada, dispostos a morrer pela Pátria, mas só depois da missa e nunca antes do almoço, por causa da festa na Vila Amália.

As vozes de comando eram dadas pelo João Salgueiro, pelo Cagica, pelo João Mau, pelo David e outros companheiros mais velhos e graduados.

E a tropa fandanga entrava com grave solenidade na igreja, com o fervor dos Cruzados em véspera de partida para a Terra Santa.

Depois do «ite, missa est», era o destroçar confuso, a confraternização no adro e a corrida para o salão onde havia a sessão de cinema gratuita, primeiro acto da jornada cultural.

E à tarde, a meio da tarde, era o milagre da festa na Vila Amália, ponto mais alto, desejado, apetecido, aguardado com ansiedade semanas a fio por todos quantos viveram a maravilhosa e ingénua aventura dos ensaios com o Dr. Costa Marques. Os ensaios, só por si, dariam matéria para uma crónica saborosa, mas não há agora vagar.

Enquanto uns aprendiam a entrar pela esquerda e afinavam a réplica, alguns decoravam poemas e outros dançavam o vira. Era o universo deslumbrante dos aprendizes de saltimbanco que nós éramos, felizes e embriagados pelo sortilégio do teatro, pela fascinação do palco, pela vertigem de uma sala às escuras onde a assistência murmura de impaciência e de ternura pelos artistas de papelão que nós éramos.

O soalho do velho palco, o eterno cenário que servia para todas as peças, a ilusão, o sonho, a prodigiosa epopeia das tardes inesquecíveis da Vila Amália onde o João Mau foi moleiro e anjo da guarda.

Bendita pieguice desse bom tempo em que a sede da Mocidade era a casa de todos nós, que lá nos reuníamos para conviver, jogar ping-pong, ver televisão, ler, fazer um jornal de parede, jogar bilhar, jogar matraquilhos…

O estilo espectacular do Manel Elisbão era garantia de partidas emocionantes com o estilista Zé António ou o Carlos Alberto. As proezas do Castanho ficaram na história da natação e do atletismo, uma das muitas modalidades praticadas pelo António Justiniano (qual alcunha?) que ainda hoje possui grande arte no bilhar.

O Colégio do Costa Marques e a Mocidade funcionavam em paralelo e o David era figura marcante nos dois lados. De Santana descia na sua bela motorizada, samarra e cara ao vento enquanto o Gato voava de bicicleta Alfarrobeira abaixo para se desmontar no momento exacto em que o Manel Elisbão, implacavelmente, tocava para entrar. Era às 8 e vinte.

Por baixo da Vila Amália ficava o Centro da Mocidade e, ao lado deste, a escola de Santa Joana (também conhecida pela escola dos órfãos) onde a boa mestra Cecília Cruz, com a sua voz grave, infinita paciência e rara bondade proporcionava aos mais desfavorecidos uma sopa quente, a cartilha, a tabuada, e muito calor humano.

Como o (nosso) mundo é pequeno, o sobrinho da boa Cecília andava na Mocidade, era aluno do colégio e, ainda por cima, colega de turma do nosso David. Tratava-se do António Júlio que é, desde há anos, figura de proa (expressão apropriada) da caça submarina em Portugal, mas que naquele tempo era simplesmente o filho do mestre da Música, porque o era e para distinguir do António Júlio, filho do Domingos barbeiro e futuro sogro do Zé António, campeão de ping-pong e rival do Manel Elisbão, que tocava para entrar às 8 e vinte. Simples, não é?

Pois o belo António Júlio, além de tocar piano, tinha aspirações a faquir e, um dia, resolveu imitar os cuspidores de fogo das feiras.

Vai daí, aspirou gasolina da moto do David, acendeu um fósforo, cuspiu e queimou o queixo. Quase parecia o Adamastor, o tal que à volta da nau rodou três vezes, três vezes rodou imundo e grosso, como declamava o David com a garra, a paixão e o talento com que deliciava a plateia da Vila Amália.

Com a face rosada de bebé, o David era o menino bonito das festas, grande vedeta da declamação. «Não sei por onde vou, só sei que não vou por aí», concluía ele uma das melhores composições cujo fulgor só era igualado pelo célebre remate «Ó meu amor, antes fosse ceguinha!»

E vibrava o David, vibrava a sala, era um triunfo em cada Dezembro desses Invernos do nosso contentamento de pequenos heróis do mar da Pedra…

Admirável David que foi sempre um óptimo companheiro, uma vocação de missionário ou assistente social que continua a desempenhar no banco onde trabalha com devoção, paciência, paixão e entrega absoluta.

A terrível Eulália, com a sua lucidez rara e o seu humor transcendente, diz que o David é um verdadeiro pai para certos clientes, explica tudo, esclarece, faz as contas, tira a prova dos nove, reconhece a assinatura, embrulha, aconchega, dá trocado, só lhe falta ir à boca da noite a casa de cada cliente levar o dinheiro ou o livro de cheques, com a fleuma dos gaiteiros que fazem o peditório para a Senhora da Atalaia… Talvez a Eulália não tenha dito tudo isto, mas pensou de certeza.

Em Sesimbra ainda não se achou ser tempo ou haver lugar para se dar o nome do Dr. Costa Marques a um beco escuro. Às vezes, depois de mortas, as pessoas ganham mérito, despertam reconhecimento, mas o nosso bom mestre nem assim. É estranho, muito estranho…

Muito fez também o João Salgueiro pela nossa mocidade naquela Mocidade. à sua dedicação e ao seu talento se deve muito do pouco de bom que se fez no teatro em Sesimbra. Bem haja por tudo.
Dei-lhe água pela barba com a minha irreverência que fez abalar o lendário Augusto Formiga, deixando dois actos por aprender e ensaiar numa semana… Era o dramalhão das «Mãos Vermelhas» e foi um grande sucesso, na despedida do Padre João, a caminho da Ericeira.

Vermelhos ficaram muitos olhos…

Para o David não peço medalhas, placas nem estátua, apenas lhe deixo aqui o meu apreço pelo muito que fez por nós, por nos ter ajudado a acertar o passo, a armar barracas no Castelo, a acender a chama da Pátria nesse tempo longínquo em que lá íamos cantando e rindo.

E por ter sido a voz de poetas e símbolo de uma camaradagem que ficou pela vida fora.

O David só tem o defeito de não ser pexito, mas ninguém é perfeito. Com a sua cara de menino eterno, o seu olhar bondoso e os cabelos brancos de bom pastor, o David continua a descer Santana levando a Sesimbra o ar sadio, a simpatia, a modéstia e a gentileza que graças a Deus conserva.

Vai sendo raro, mas ainda as há, pessoas assim, gente do campo…

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* Publicado originalmente em O Sesimbrense em Fevereiro de 1993.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 15



De uma ponta à outra da mesa só havia pêssegos estragados. Já desesperava quando acabou por encontrar na extrema um são...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 23




Sofia

António Cagica Rapaz

Vieram ambos da Galiza e começaram por trabalhar no Chagas, no final dos anos cinquenta. Um era alto, o Chico, qual D. Quixote, cavaleiro da triste figura, herói fantasmagórico de Cervantes. O outro era baixo, mas não gordo como Sancho Pança, bem pelo contrário, chamava-se Ângelo. Ambos deixaram Sesimbra, bem cedo. O Ângelo ficou por Santana onde abriu um restaurante que ganhou nomeada graças à originalidade da fondue e ao apoio da Vera Lagoa. O Chico encontrou a sua Dulcineia na pessoa da Sofia e, numa noite brumosa, selou o Rocinante, abalou Apostiça abaixo, Aranjuez e Guadalquivir pelas costas, só parou na Suíça...

Anos volvidos, a Sofia deixou o Chico Quixote aos seus moinhos de vento e foi viver para França, algures no leste, na imensidão imponente dos Alpes onde ecoa o ronco tenebroso das trovoadas de montanha.

Nos Alpes há sol e céu azul, estrelas luzindo, lagos que gelam no Inverno, neve imaculada, mas não há mar, não cheira a peixe, não há areia macia nem água da Califórnia. Por isso, não é difícil imaginar a alegria da Sofia quando o facteur, o carteiro lá do sítio, deposita com suavidade o nosso jornal na caixa do correio. Com ele, é o mar a envolver a montanha, as gaivotas em algazarra à volta da casa, a nostalgia das armações, o eco da lota, a sombra da fortaleza, as conchas da prainha, as algas dos passadiços, o alecrim das ruas enfeitadas, a procissão das Chagas, os cânticos da missa do galo, os eucaliptos do Desportivo, o gosto forte do peixe seco, a poesia da quinta-feira da espiga, os perfumes, os sabores, os sons e ruídos, quadros que nos ficaram gravados no espírito, imagens que conservámos, coisas que andamos há anos a embelezar, a retocar, a idealizar, que já não sabemos se vivemos se sonhámos, se existem ou se inventámos.

Por vezes, penso que é melhor estar longe, reconstruindo como queremos, esbatendo sofrimentos, suavizando frustrações, atenuando tristezas, pintando, fingindo, dando corda à estrela que lançámos ao vento da fantasia, em busca do infinito, na fuga à realidade.

Estar longe é o risco de voltar, olhar em volta sem reconhecer, buscar confirmações numa voz, numa sombra, num eco, acordar no desengano de uma madrugada impiedosa. Mas estar longe também pode proporcionar a deslumbrante concretização de um sonho, a ansiedade luminosa de um reencontro com o mesmo crepúsculo suave, a mesma luz fresca da nossa rua, a mesma paz que nos invade na contemplação da imagem do Senhor das Chagas e que nos devolve a pureza das comunhões purificadoras pela mão do padre João. Se alguma vez, Sofia, sentiste uma pequena parcela de quanto imagino, terá valido a pena ter ajudado a fazer este jornal...

1998

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 19

as crónicas da Eventos...



De certa maneira, a quinta-feira…*

António Cagica Rapaz

As matizes e padrões sociais, morais e religiosos que regiam a nossa boa vila, algumas décadas atrás, apontavam aos adolescentes um caminho prévia e rigorosamente traçado que os conduzia do namorico ao casamento através de etapas sem surpresas, sem desvios, audazes nem atalhos atrevidos.

O percurso, qual jogo da Glória, começava no pedido atabalhoado de namoro cuja aceitação era oficializada através de um passeio de mão dada na marginal e celebrado com um beijo furtivo na escuridão cúmplice do cinema ou no mar, atrás de algum barco protector. Mais tarde, os pais autorizavam o mancebo a ir namorar lá a casa, em geral a dia fixo, quase sempre à quinta-feira, porque às quartas havia a Taça dos Campeões Europeus. Aqui chegado, o rapaz podia considerar-se arrumado, agarrado, adeus liberdade, aventuras nem pensar, libertinagem nem sonhar. O casamento era uma tradição, um passo natural e inevitável. O namoro era a via sacra arrastada ao longo da qual definhava a fantasia, murchava a imaginação. A sexualidade era assunto inabordável, tabu preservado, embora muitas noivas chegassem ao altar menos esbeltas do que convinha na circunstância. As comadres segredavam, cochichavam, mas nenhuma atirava a primeira pedra porque quase todas tinham aproveitado a sonolência ou a distracção voluntária dos pais em noites frias de quinta-feira…

O longo Inverno convidava ao conforto e ao aconchego do namoro, mas o drama era a chegada do Verão, tempo diabólico, terror das meninas e das mães que viam surgir no horizonte a panóplia das tentações, solicitações, sol escaldante, águas dolentes, o feitiço e o sortilégio do luar de Agosto. E, sobretudo, as banhistas, bronzeadas, insinuantes, disponíveis. Havia as famílias alentejanas, com ranchos de filhos, eles e elas, recatadas e vigiadas por pais, avós e tias. De Lisboa e arredores outros banhistas alugavam casa em Sesimbra, um mês e mais, gente fina e abastada. Muitos maridos retomavam o trabalho ao fim da quinzena, deixando mulher e filhas em deliciosa e lânguida preguiça, à sombra do toldo, nas esplanadas do Central ou do Filipe, nas noites mornas do Parque…

Os jovens indígenas, de mão dada com a namorada, seguidos de perto pelas futuras sogras, não podiam deixar de deitar um olho malicioso, disfarçado e frustrado, mas a verdade é que nem só os rapazes cediam à tentação. É sabido que muitas meninas se derretiam todas diante de jovens de Lisboa, seguros de si, endinheirados, modernos, convencidos e, em cada um deles, algumas raparigas de Sesimbra julgavam encontra o príncipe encantado, não percebendo que eles apenas procuravam divertir-se em férias. Muitas mães fecharam os olhos, tão iludias como as filhas, mas a vida acabava por retomar o seu curso, reatando-se o namoro à quinta-feira…

Mas foi o aparecimento maciço das estrangeiras que provocou um verdadeiro terramoto na nossa terra, com suíças, finlandesas, inglesas, alemãs, a desembarcar no espadarte, a encher a praia, a invadir cafés e locais de diversão, a incendiar as noites. Outras mentalidades, mulheres desinibidas, sem complexos, sem preconceitos nem teias de aranha, maridos tolerantes ou indiferentes, um culto vibrante do prazer, da vida, das férias, do sol, do mar, da festa, sem interrogações nem restrições. Como não havia sida, todas as ousadias eram permitidas e a febre a aventura contagiou Sesimbra, para desespero de namoradas e mulheres casadas com homens que nunca haviam conhecidos senão a trivial banalidade de quintas-feiras monótonas. Para muitos, foi então e enfim o deslumbramento, a sensação de renascer, de reinventar a vida, a embriaguez da aventura, a vertigem do desconhecido em cada noite imprevisível, palpitante, mesmo quando nada acontecia. No fundo, terá sido apenas o arrancar das vendas, o retomar do Carnaval em pleno Verão, e cara destapada, mergulhados em idêntica euforia, com mulheres que não disfarçavam a voz, como faziam as máscaras, mas diziam palavras estranhas, incompreensíveis. Felizmente, havia a música, a festa, as bebidas, os olhares, os gestos, o desejo. E o Verão…

Mas reduzir a festa que foi a década de 60 a conquistas de marialvas da borda d’água, a aventuras desbragadas, é caricatura infeliz, desconhecer ou ignorar o lado mais interessante ilustrado por inesquecíveis cenas divertidas, picarescas, a par de pequenos dramas de ciúmes, romances de amor bonitos e efémeros, condenados a morrer na maré vazia, separações lancinantes, melancolia no Outono, convivência saudável, camaradagem e troca de experiências, afectivas, culturais, até. Se a memória não nos atraiçoa, terá sido um tempo feliz, com o Desportivo a subir à 2.ª divisão, o esplendor das traineiras, a plenitude da lota, a melodia suave da bossa nova, os Beatles e Sinatra a rivalizarem com os Galés, Strangers in the Night a bordo da Pastorinha, o Forno ao rubro, a Marisqueira covil de corsários do mar da Pedra, o Júlio e o Zé Manel à desgarrada no Espadarte Clube e tudo a acabar no Pinto & Pinto. Foi um tempo delirante, à imagem do Valdemar que, observando a maneira de dançar da pequena, decretou que ela era do campo. Inglesa, sim senhor, mas do campo, porque lá também há campo. Passou-se no Espadarte Clube, e é exemplar, como outras do Ernesto Corneta e do Zé Brandão, traduz com ingénua naturalidade o espírito bonacheirão, a espontaneidade e certa forma de inocência malandra que caracterizou aquele universo de boémia. Mais palavras, para quê? Houve um artista que conseguiu que a mulher o deixasse andar todas as noites na farra, desde que fosse só com estrangeiras. Para a recompensar, ao domingo, levava-a a jantar fora. Ternurento, não é? Sobretudo porque é rigorosamente verdade, embora tudo isto, com o tempo e a distância, ganhe contornos de quimera ou sonho de muitas noites de Verão.

As mulheres esqueceram, os homens nem por isso...

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*Publicado no n.º 20 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2002.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 23


Esplanada do Café Central. Foto tirada daqui.


Elizabeth*

António Cagica Rapaz

Ainda o Turismo dava as primeiras voltas no berço de Sesimbra quando ela fez a sua aparição.

A esplanada do café Central emudeceu. Os homens acotovelaram-se e as senhoras interromperam as rendas e as conversas de veraneio.

A vila habituou-se a ela, com a cobiça dos homens e o despeito das mulheres.

Verão após Verão, a Elizabeth não falta para nos recordar que mais um ano passou para nós, já que ela é sempre Verão, o tempo passa-lhe ao largo…

No relógio da sua vida, os meses frios da Alemanha são grãos de areia que ela espalha, alegremente, na nossa praia. Quando chega, vira o relógio ao contrário e o tempo recua. Ela vive de dia e diverte-se à noite.

A sua filosofia é muito simples. Não se vive trezentos anos. Cada dia pode ser a véspera do último, a vida é para ser vivida sem hesitações, sem restrições nem preconceitos. Enquanto a maioria pergunta «Porquê??», ela sorri, levanta o copo, brindando a um deus seu conhecido e diz apenas «Porque não?»

Os outros falam, olham, criticam um bagaço a mais, uma gargalhada ruidosa e ficam presos à terra lamacenta da inveja, do puritanismo bolorento e da frustração. Quando acabam de comentar, ela já não está, perdeu-se na noite que antecede um novo dia que é para ser vivido com a mesma alegria, a mesma loucura, a mesma frenética vontade de agarrar a vida com as duas mãos, gozar do Sol até que o último raio desapareça por trás do mar.

A Elizabeth embriaga-se de vida…

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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.