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terça-feira, 13 de julho de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 12



Aquilo já era mania. Pôs a filha a fazer limpezas, o filho a angariar seguros, a mulher a vender fruta. Até o carro ele punha a trabalhar...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 12 de julho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 19


Azóia

António Cagica Rapaz

Há tempos fui jantar ao Meco e acabei em prolongada conversa com o senhor António que, tanto quanto eu imaginava, era do Meco. Tinha dele as melhores referências pela Eulália, sobrinha do professor Amável e pessoa entendida tanto em gastronomia como nas veredas da alma.

Imaginem o meu desapontamento quando fiquei a saber que o senhor António, afinal, não é do Meco nem sequer de Sesimbra, tendo nascido para os lados de Peniche, terra de estranhos amigos.

Mal refeito do choque, abalo para a Aiana e qual não é o meu espanto quando deparo com uma tabuleta na qual se vê Azóia, assim mesmo, com acento agudo. Se o Rafael ainda estivesse no castelo, enrolado na sua capa alentejana e na sua ciência, bem teria metido rodas a caminho. Assim, fiquei ali a cismar, como o Infante D. Henrique ou o João Manuel Pinhal, embuchado, macambúzio, desnorteado, apatetado, enfim, numa lástima. Ando eu há cinquenta anos a ouvir e a dizer Azoia, com o fechado, Azoia como poia ou saloia, para agora me aparecer um acento. Porquê? Quem deu ordem? Dir-me-ão, acento agudo não é coisa grave. Admito que não, mas se vamos por este caminho, qualquer dia temos Sântana, Cotóvia, Zambújal, Cabo Espíchel, Mecú, pode lá ser!?

Isto dos nomes tem que se lhe diga. O Zé Azoia jogou no Desportivo que, apesar de ser o clube de Sesimbra, teve nas suas fileiras Santana, Piedade, Caparica, Lagos, Laranjeiro. Este Lagos tem por alcunha Zé Broa, mas não é de Alfarim, mora na Corredoura. Vá lá a gente fiar-se em nomes...

Assim laçado resolvi prosseguir as minhas escavações toponímicas e procurei descobrir a origem de Aiana de Cima. Foi uma tarefa muito árdua pois nenhum habitante da simpática povoação parecia ser capaz de fornecer a menor pista. Até que o acaso me levou ao contacto com o senhor António, pai da Cidália, homem que tudo conhece como a palma da sua mão calejada. Depois de muitas hesitações, acabou por me revelar, em grande segredo, que havia lá na aldeia, há muitos anos, uma moçoila bonita, fresca e apetitosa chamada Ana. O marido era uma fraca figura, magro, esfalfado.

Uma vizinha, de olhos bem abertos e ouvido atento, suspeitava que a moçoila batia no marido. Garantia essa vizinha que, à noite, ouvia gritos e gemidos. Mais afiança que o marido repetia, com voz estrangulada: “Ai, Ana, ai Ana”.

Com um olho malicioso, o senhor António diz que há outra versão dos factos, ou seja, as palavras e os gemidos do marido são verdadeiros, mas não se tratava de pancadaria, a luta era outra. Mais acrescenta, com um sorriso pérfido, que o nome Aiana de Cima é uma deturpação de um grito mais violento numa noite de maior vibração, com o marido a proferir: “Sai Ana, sai Ana de cima”.

A verdade histórica poderá não ser rigorosamente esta, mas as lendas têm sempre um rasto de verdade. E o senhor António é um homem sério...

1994

sexta-feira, 9 de julho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 15

as crónicas da Eventos...





imagem tirada do blogue Sesimbra

Foi em 1962… Começava a década maravilhosa*

António Cagica Rapaz

O retiro na Arrábida era um ritual, evasão e recolhimento no fim de cada Verão, com a família e amigos escolhidos. Talvez por influência do cenário paradisíaco, pela harmonia com a Natureza, talvez porque o poeta Sebastião da Gama dissesse que pelo sonho é que vamos, a verdade é que o Chagas sonhava. Sonhava e fazia planos para o seu Ribamar, café a que a fortaleza impunha um limite, restringia os horizontes. E assim, no silêncio do Portinho, foi crescendo a ideia de um restaurante, projecto que lhe permitiria conciliar os seus anseios profissionais e a satisfação da sua velha paixão pela música, o gosto da festa e da confraternização calorosa.

Com o tempo, a máquina de discos calou-se, o bilhar deixou de ter bolas a girar e, na sala de cima, surgiram mesas e cadeiras, quadros pintados por artistas amigos, música típica de gravador e os petiscos da dona Cremilde, ajudada pelo Domingos.

Foram os primeiros passos do café em direcção ao restaurante, evolução natural do negócio e, sobretudo, etapa colorida no percurso que o Chagas idealizara. O Mário Regalado ia afinando os instrumentos dos futuros Galés, compondo e cantando em noites memoráveis em que havia no ar o perfume das lulinhas fritas e dos bifinhos de espadarte. Aos poucos, o velho café foi-se chegando para a porta, o rumo estava traçado, o Ribamar escolhera outra maré, o Chagas içava a vela maior, o restaurante era o bom bordo…

Assim nasceu em Sesimbra o que foi o primeiro restaurante digno desse nome, com o Chagas em “maitre”, animador de convívios, cicerone de sabores, anfitrião sorridente, alma e corpo de um Ribamar concebido à medida do seu espírito empreendedor e da sua concepção hedonista da vida. Foi em 1962, começava a década maravilhosa…

Fernando Farinha, o menino da Bica, foi o padrinho do novo Ribamar, nascido sob o signo do Fado. Sesimbra estava a tornar-se um destino muito procurado pelos turistas, sobretudo escandinavos, que se instalavam no hotel Espadarte e descobriam no Ribamar a excelência de uma cozinha rica de cores e aromas, à luz de uma vela e ao som de uma guitarra.

O Chagas, comunicador apaixonado, desdobrava-se entre as mesas e o microfone, mangas arregaçadas, sorriso permanente, todo ele paixão e alegria em noites inesquecíveis de uma Sesimbra que nunca lhe agradeceu o espírito inovador, o dinamismo e a audácia. Pelos anos fora, o Ribamar tornou-se uma segunda casa para a Maria Valejo, para o Helder António, para a Beatriz da Conceição e outros, não muitos, a casa era pequena, casa portuguesa, cada de família. Logo o folclore se juntou ao fado, e o Ribamar vinha para a rua de arquinho e balão, Sesimbra em festa, com os Galés.

O Helder herdou do pai o gosto pela música e tanto fazia coro com os Galés como parafraseava os “Bee Gees”. O rigor e a tenacidade que lhe vêm da mãe ajudaram-no a enfrentar a responsabilidade da sucessão. Primeiro, deitou a mão ao leme e enfrentou o mar. depois, olhou em frente e desafiou a fortaleza, evitando-a pela esquerda e criando o “Pedra Alta”.

Mais tarde, com o apoio e o incentivo do pai, foi mais longe no sonho ao erguer, bem de frente para o oceano, apenas com o horizonte por limite, um outro Ribamar, este mesmo onde nos encontramos, este mesmo onde celebramos, sempre em família, cinquenta anos de Ribamar, cinquenta anos de luta, de desafios, de paixão, de amor, de ousadia, de lágrimas, mas também de festa, em plena Festa das Chagas esta festa dos Chagas, festa do Helder, em nome do pai…

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* Publicado no n.º 9 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2000.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 19


A telefonia*

António Cagica Rapaz

A minha avó Sabina tinha uma taberna, na Rua dos Pescadores, onde havia uma telefonia que, nas minhas recordações, ficou como uma fábrica de fados. Recordo-me nebulosamente dos Companheiros da Alegria, do Zéquinha e da Lelé, mas a imagem sonora cujo eco perdura é a do fado. E o fado era a Amália com a sua voz nostálgica num pranto da Mouraria a arrastar-se na Rua dos Pescadores. O fado era a taberna, a da minha avó e as outras, de balcão, mesas e bancos de madeira, a gaiola dos canários ao desafio com as guitarras, a serradura no chão e a quartola arrimada. O fado era o refúgio na noite, os bancos cá fora, à porta, a garrafinha de cerveja meia de tinto, o pêssego a acompanhar, a luz alvadia da taberna a recortar-se no empedrado escorregadio da rua onde miúdos descalços brincavam às escondidas e ao «cócalha». Lá em baixo, o mar contornava suavemente a pedra alta aproximando-se das escadinhas para apanhar algum trinado, gravar na espuma o tom magoado que Deus pôs na voz da Amália e o levar para as sereias do mar da Pedra…

Mas o fado era também o sol glorioso da hora do almoço, a sardinha assada à porta no fogareiro, a telefonia em altos gritos com a Hermínia fadista, o Carlos Ramos roufenho, as mulheres chamando pelos filhos e os pimentos a fumegar nas brasas vivas.

O mar azul estendia-se até ao céu infinito, espelho deslumbrante onde se miravam as sereias que penteavam as loiras madeixas, cantarolando «Lá vai Lisboa». Era o fado, a poesia simples do povo, berço de sonho de espuma salgada que ajudava a esquecer vendavais, a alimentar a resignação fatalista habituada a uma miséria que o sol atenuava, o fumo das sardinhas disfarçava, o vinho diluía e a guitarra embalava.

Era a rua da minha avó, a Rua dos Pescadores onde nasci…

Depois fomos morar para a Rua da Fé numa casa do Gá, em frente da mercearia do Fernando Rasteiro e da mulher Aldegundes. Era um mundo diferente, as gentes eram outras. Cheiro a mar viria talvez do Pedro Boi que vendia peixe na praça e morava por cima. De resto, era o cheiro a campo com a cocheira do outro Rasteiro, ao lado da mercearia do Fernando onde cheirava a café torrado, linguiça, marmelada, feijão, pão e bacalhau demolhado. Ao lado ficava a padaria do João Henriques com o calor e o perfume do pão mole. Mas não cheirava a mar, apesar da praia ficar a uns duzentos metros, pois a Rua da Fé conduzia à lota depois de se passar em frente ao Justino das mobílias e ao Cabecinha.

Mas a Rua da Fé, pelo menos a parte de cima, virava as costas ao mar, não era o rumor das vagas a marcar o ritmo mas o relógio da torre da igreja de cima que tudo dominava. Aquela parte da vila movia-se à volta do largo da igreja que exercia um fascinante poder de captação com o sino a dar horas, a tocar a finados, a chamar p’rá missa, a badalar as novenas e a choramingar alegremente os baptizados. Lá no alto, a derradeira morada, o cemitério que contemplava o mar, deitando contas à morte, certo de que todos os que escapassem às garras do vendaval viriam cair-lhe no seio com dois baldes de cal no bucho.

Todos, igrejas, camionetas e cemitério, faziam concorrência ao mar atraindo as gentes, afastando-as da praia. O largo da igreja era a ida à missa, a viagem a Lisboa ou a estadia definitiva no cemitério onde o velho Pinhal cavava covas fundas, mais fundas do que as da maré cheia ao pé da pedra alta…

E, da telefonia da taberna da minha avó, passei à do café do tio Chico da «Comprativa» onde aos domingos à tarde sofríamos com as desgraças do Belenenses, numa decepção que não era só minha mas também do Amílcar e do tio Chico, pastéis refinados. Mas a telefonia do tio Chico evoca no meu espírito, de forma nítida e colorida, os relatos de hóquei em patins na época apaixonante da rendição da velha e gloriosa guarda do Emídio, Raio, Edgard, Jesus Correia e Correia dos Santos. Eram os torneios de Montreux e o despertar do Matos, Cruzeiro, Lisboa e Perdigão. À noite, a telefonia vinha para a rua e os golos de Portugal eram festejados com tal vibração que o Menino Jesus de vez em quando ia pedir ao padre João para acalmar a malta porque na igreja os santos não conseguiam pregar olho…

Quando fomos morar na casa do Justino, entre o Dr. Fernando Lopes e o velho Carlos Palmela, comprámos uma telefonia a prestações ao Manuel Estêvão. Às sete da manhã ecoavam em toda a casa as duas argoladas vigorosas que o Eduardo do leite aplicava. Era o litro do revigorante branco e o boletim meteorológico que o bom e saudoso Eduardo nos trazia da Cotovia, nesse tempo em que eu ainda não conhecia o Jorge Patrício, o mestre Jorge para quem não souber.
Às sete e meia, no decorrer do Talismã (o seu programa da manhã) chegava o folhetim desastroso em que todos os papéis eram interpretados por uma senhora chamada Manuela Reis. E eram só desgraças. Mais tarde viria o Tide e quejandos, sendo de destacar um palpitante, de acção empolgante (como dizia o Filipe ao anunciar os filmes) com os amores desavindos da Olga e do Henrique Sampaio que a minha mãe e a minha prima Judite acompanhavam de coração contrito. Os intérpretes eram o Vítor Marques (do Forno) e a mulher.

As preferências da D. Amália e da Judite iam inteirinhas para o programa dos doentes, transmitido a meio da tarde pela Rádio Voz de Lisboa onde havia uma locutora que dizia num tom muito doce «Esta é a Voz de Lisboa».

Era um a pieguice das antigas a que se seguia a dedicatória dos discos aos doentinhos dos hospitais dos Capuchos, da Estefânia, Curry Cabral, sala oito, piso nove, cama dez. Só faltava indicar a temperatura dos doentes e o nome dos medicamentos que tomavam. E lá vinha o Max a cantar o Sinal da Cruz que na pequena capelinha, da aldeia velha e branquinha dera à Maria da Luz. Uma cruz de pôr ao peito e o juramento foi feito por nós dois sobre essa cruz, etc.… Vejam lá vocês!

Depois era a Maria Amélia Canossa a dizer que anda o vira na minha rua, já me encheram a rua toda, oiço harmónios e cavaquinhos, cabeças à roda, uma festa.

E os doentinhos melhoravam ao ponto de dançarem o vira nas enfermarias.

Quem se tramava era o Joaquim Russo à espera do café enquanto a Judite ouvia os cavaquinhos…

Ao sábado à noite no Rádio Clube Português, às oito e meia, ia para o ar a «Onda Desportiva» apresentada por um tal Henrique Mendes, voz sem rosto nesse tempo em que a televisão ainda não entrava em nossas casas.

A última rubrica desse programa intitulava-se «Jogadas de Antecipação», com perguntas de Fernando Pires e respostas previsionais de Alves dos Santos.

O meu pai chamava a minha atenção para o bom-senso, a ponderação e os conhecimentos técnicos desse tal Alves dos Santos. O nome ficou-me e a admiração nasceu. Tinha eu os meus nove ou dez anos e mal sonhava que a vida me proporcionaria estar em contacto com ele e mereceu uma amizade que me enternece e honra. Hoje somos dois irmãos, dois amigos, dois compadres, pai e filho pelo espírito e pelo coração. Lá em cima, o meu pai há-de achar graça e sorrir de satisfação…

Da rádio desse tempo guardei muitas outras recordações que conservo intactas e dariam para encher algumas páginas, mas não quero abusar da vossa paciência.

Hoje quando faço os meus breves comentários na rádio, nessa rádio que sempre adorei, sinto a mesma fascinação da meninice, o deslumbramento com que ouvia o Teatro da Emissora, os apontamentos do dia do Américo Leite Rosa, as máximas do Lança Moreira, o jornal da APA, o Jorge Alves na Onda do Optimismo, as maluquices do José de Oliveira Cosme, as lendas da nossa terra, as aventuras do Zé Caracol no programa para crianças, da Maria Madalena Patacho.

E quando me sento numa mesa redonda, na Renascença, ao lado de Alves dos Santos, volto a ser o menino que lhe bebia as palavras nas jogadas de antecipação, encostado à telefonia que comprámos ao Manuel Estêvão. A telefonia é vida e é um fado maravilhoso…

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*Publicado originalmente em O Sesimbrense, na rubrica «Contos da Noite Velha».

terça-feira, 6 de julho de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 11



Quando fazem vendas a bordo, as hospedeiras avíão os passageiros...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 5 de julho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 18

foto tirada daqui



Maré de alcunhas

António Cagica Rapaz

No número de Fevereiro de “O Sesimbrense” apareceu uma notícia relativa a um lanço realizado por uma barca cujo arrais se chama Januário Florido Sebastião. Como o nome não identificasse devidamente o pescador, logo foi sentida a necessidade de acrescentar a sua alcunha, Dezanove. Eu já conhecia o Doze e a taberna do Treze, mas nunca ouvira falar do Dezanove...

As alcunhas na nossa terra são quase tantas como os nomes, as pessoas têm alcunhas, até as ruas têm alcunhas, a rua Direita, a rua do Saco, a rua do Norte, a rua de Alfenim, o largo do Canino, etc.

As alcunhas têm, em geral, uma conotação pejorativa, raramente são elogiosas. Aprendi a ler com a mestra do meu pai, a Rosa Manão e, mais tarde, tive por companheiro de escola um Papa-Rebuçados. Pelo lado materno, a minha família é Come-Figos e, neste mesmo registo, há uma Papa-Notas, já para não falar do Quilo e Meio de Papas. No fundo, cada um papa ou come o que pode, embora me intrigue, no caso das notas, como sairão os trocos...

Neste capítulo das alcunhas gastronómicas, tínhamos ainda Caldeirada, Cebola, Manel da Carne, Fartura, Marmita.

Outras não são propriamente alcunhas mas partículas identificativas, ligadas à profissão, como Costa da Bomba, Pinga Azeite, Domingos Barbeiro, Hernâni Sapateiro, Antero do Pão, Chico da Cooperativa, António do Carvão, Justino das Mobílias. Nestes casos não há qualquer segunda intenção, o menor intuito aviltoso, são simples particularidades.

Temos referências a aves, Zé Pardal, Pintassilgo, Canário, Pato Marreco, e muitas a peixes, Borrelho, Cavalinha, Faneca, Chaputa, Tarraco, Lareta, Badejo, Aguafaz, etc.

Há as que evocam regiões, António do Porto, Bragança, Braga, Adelino Beira Alta, e até a religião, Pai do Céu, Menino Jesus.

Algumas são colectivas, Cornetas, Palinhos, Palhinhas, Bebecas, Cagalhoças, Roupeiras, Charnequeiras. Outras insólitas, Pala-Pala, Chochinha, Guarda-Jóias, Má Figura, Má Ladrão, Zé Bébéu, Traçante, Rabo de Mula, Nhéu, Burrinhanha, Adeus ó Menina, Má Olho, Tiroliro, Zé Ptolas, Padre Batata, Casa Pia, Manilhas, Venta Roída, Pernas Gordas, Cu Arrastes, Còfinhas.

Esta evocação não tem qualquer intenção insultuosa e constitui apenas uma piscadela de olho, não um trabalho de pesquisa nem estudo aprofundado. Confesso que não me dei a esse esforço, foi um rudimentar exercício de memória, recordando o que ouvi à minha mãe. A verdade é que as alcunhas existem, muitas vezes são engraçadas e algumas ficam coladas às pessoas, substituindo os próprios nomes.

Interessante seria ir mais longe nesta abordagem e descobrir a origem de certas alcunhas, o porquê de Fogo à Peça ou Calhau da Mijona...

1981

sexta-feira, 2 de julho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 14

as crónicas da Eventos...




Maigret e a Patricius*

António Cagica Rapaz

As minhas primeiras leituras foram os livros da escola primária, os jornais desportivos e as histórias aos quadradinhos. Até que a D. Stella me ofereceu um livro sem imagens, mas com as aventuras do Corsário Negro, narradas por Emílio Salgari. Arrumei-o numa estante, remetendo para as calendas gregas a abordagem de tantas páginas assustadoramente desertas de desenhos. Um dia, porém, uma inofensiva gripe reteve-me na cama e, à falta de um Condor Popular ou Colecção Tigre, resolvi atirar-me ao Corsário Negro. Foi uma experiência surpreendente e apaixonante, devorei-o de uma ponta à outra, de um fôlego, com a rapidez do “Relâmpago” ao cruzar os mares das Caraíbas...

Teria uns onze ou doze anos quando conheci António Telmo que teve, então, a paciência e a bondade de me ensinar a jogar bilhar a sério, a premonição das trajectórias, o planeamento das sequências, a ciência dos efeitos, o realismo no juntar das bolas, mas também o gosto diletante pelo recorte artístico na ousadia de certas tacadas. Poderia o mestre ter-me iniciado noutras rates, noutros campos do conhecimento, mas era cedo de mais, para mim. Depois, na altura apropriada, outras bolas me levaram para longe, com o futebol a ajudar-me a entrar na Universidade, mas a roubar-me o tempo para convívios, pesquisas, reflexões mais profundas do que as obras de leitura obrigatória. Por estas razões, também por algumas limitações, provavelmente, e por certo comodismo, fiquei-me pelo instinto e pela rama de temas considerados basilares no panorama da intelectualidade.

Talvez por ter lido muitos livros por imposição, por exigências naturais num curso de Letras, cedo deixei de fazer esforço para ler, ou seja, só leio o que me dá prazer. Da mesma maneira (são faces da mesma moeda) só escrevo por gosto, quando a companha do barco é boa, com mar chão Eventos de feição. Confesso que mal comecei o “Ulisses”, de James Joyce. Será sacrílego um tal abandono e imperdoável desfaçatez esta revelação, mas é a verdade. Em contrapartida, há livros que já li quatro ou cinco vezes, e vou continuar a ler porque cada leitura é um prazer renovado. Não sei se estas coisas têm explicação nem se será útil (ou possível sequer) procurar razões para preferências. Eça de Queiroz é um deslumbramento e uma delícia, o seu conto “O Suave Milagre” é dos trechos mais belos que alguma vez li e o seu romance maior, “Os Maias”, é uma obra prima, em absoluto. Felizmente, a escolha é livre e abundante, não temos de obedecer a critérios exclusivistas de aferição, e ninguém nos obriga a optar entre Eça e Somerset Maugham ou Stefan Zweig. Nem entre “O livro de Saint Michel” e o “Quarteto de Alexandria” (Justine, Clea, Baltasar e Mountolive).

Importante é ler, com curiosidade, interesse e, se possível, paixão. No fundo, é uma questão de gosto, de sensibilidade, de afinidades. Por vezes encontramos o estilo que nos agrada, certa qualidade na narração, estrutura na intriga, consistência nas personagens, autenticidade e coerência na construção de um universo, de uma época, algumas das mil coisas capazes de nos seduzir e prender.

Curiosamente, os livros que mais prazer me proporcionaram são de autores franceses, tendo mantido com eles uma relação verdadeiramente afectiva. Primeiro foi Alphonse Daudet, com as “Cartas do meu moinho”, um hino à Natureza, à sua Provença. Guiado pela sensibilidade da D. Auzenda, foi-me mais fácil apreciar o bucolismo, a poesia, a caracterização de personagens e sentimentos fortes, à imagem da tragédia de Arles, com um suicídio por um amor maldito.

Mais tarde, vim a mergulhar de novo na atmosfera da Provença, pela mão genial, a arte de Marcel Pagnol que escreveu peças de teatro, vários romances e realizou filmes inesquecíveis. O colorido da linguagem, realçada por um sotaque delicioso, a panóplia de personagens, a prodigiosa imaginação, o palpitar de paixões e intrigas, a emoção autêntica que coloca em narrativas poeticamente autobiográficas e muito ligadas á infância, tudo torna gloriosa e fascinante a obra de Marcel Pagnol.

Por fim, Georges Simenon, o “pai” do Comissário Maigret. Em tempos, e em português, li “O homem que via passar os comboios”, não tendo ligado ao nome do autor. Anos volvidos, já em francês, descobri Maigret, reconheci o estilo e rendi-me ao talento de Simenon. Comprei todos os livros com o selo Maigret e atribuí-lhe a fisionomia e, sobretudo, a voz de Jean Gabin que vira num filme, no salão do João Mota. Nessa altura, eu não sabia quem era Jean Gabin e, muito menos, Maigret. Mas ficou-me na memória a silhueta maciça, a presença imponente, o peso daquela voz grave, pausada, impressionante.

Pouco a pouco, seduzido pela magia da escrita corrida de Simenon, familiarizei-me com o universo do Comissário Jules Maigret, aprendi a conhecê-lo, os seus gostos culinários, a sua filosofia de vida, os seus projectos para a reforma, os seus tiques, certas particularidades da sua vida conjugal, os nomes dos seus colaboradores e, até, de muitas personagens dos romances que já li cinco ou seis vezes. E que vou continuar a ler, tão grande é o prazer…

Não me custa imaginar o Comissário, na Cotovia, em mangas de camisa, o chapéu atirado para a nuca, à sombra do enorme pinheiro, fumando o seu eterno cachimbo, de olhos maliciosos semicerrados, tentando descobrir o cristalino mistério da maravilhosa cumplicidade entre o tio Jó e o Jorge. Nem duvido que se deixasse tentar por carapaus secos em dia de nevoeiro, no Outono, saboreando, para arrebater, um copinho de Patricius, sob o olhar divertido do nosso Jorge.

O milagre da leitura dá-se quando a escrita nos toca, nos envolve, nos arrebata, nos arrasta, quando sentimos que as pessoas ou as personagens fazem parte da nossa vida. Quer seja num livro, num jornal ou num opúsculo como este que tendes entre mãos e que aspira a ser um livrinho que vos fala da nossa terra, da nossa gente, das belezas naturais, do património cultural. E que aborda temas vários, ao sabor das vagas da inspiração desta companha que rema com gosto e alegria a favor da corrente, mas com igual vigor e convicção contra marés Eventos

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* Publicado no n.º 21 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2002.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 18


As grandes famílias*

António Cagica Rapaz
Há dias, ao arrumar alguns livros na biblioteca, deparei com os três volumes de uma obra admirável de Maurice Druon, membro da Academia das Artes e das Letras. O primeiro desses volumes intitula-se «As Grandes Famílias» e dele foi tirado um filme há alguns anos e, recentemente, uma série para a televisão.

A obra relata a grandeza e a miséria, o zénite e o crepúsculo, a glória e a decadência de uma grande família que se desfaz ao longo dos anos e das gerações, minada por erros e defeitos, vícios e fraquezas.

Ficou-me na memória a imagem do poder e da união na fase do esplendor e, depois, o degradante desmembramento físico e moral, material e espiritual, a agonia de um império. Uma grande família unida e autêntica será porventura o sonho de muitos de nós que pensamos que partilhar é a razão de ser, a base, a essência da nossa vida. Nós vivemos uns com os outros, damos e recebemos, trocamos, tudo e em permanência. Partilhar o melhor e o menos bom é viver melhor em comunidade, mas partilhar tem de ser plenamente, com espontaneidade e desejo sincero, sem cálculo, sem restrição, sem artifício.

Uma grande família é um universo maravilhoso, uma fortaleza, um jardim, um celeiro, uma imensa chaminé, um prado, uma floresta, um oásis.

Não pertenço a uma grande família. Pelo contrário, é reduzida e, infelizmente, desunida. Desde sempre tive a percepção da importância de uma grande família e acabei por fazer parte de duas grandes famílias, primeiro em Sesimbra e depois em Coimbra e no Porto.

Tive a felicidade em períodos diferentes, em fases importantes da minha vida, à saída da infância, à porta da adolescência e, mais tarde, na antecâmara da idade adulta, de encontrar abertas as portas da fraternidade.

Fui aceite nessas grandes famílias, contou muito para mim, não esqueci e hoje evoco, talvez porque o acaso me levou a percorrer a obra de Maurice Druon, talvez porque essas recordações tivessem voltado ao meu espírito como sempre acontece nesta quadra de Natal recente.

Foi nos anos cinquenta e trocámos a rua da Fé pela rua Monteiro, para irmos morar na casa do velho Justino das barracas, como era conhecido. A renda era de 425 escudos, enorme naquela altura. Como vizinhos, tínhamos duas das mais antigas e sólidas famílias de Sesimbra, a casa Palmela a norte e a farmácia Lopes a sul.

Ainda conheci o impressionante patriarca Carlos Palmela e cheguei a comer com ele à mesa quando fui aluno da D.ª Beatriz que, em tempos, havia sido professora da minha mãe e que continuava a meter-lhe medo como nos bancos da escola.

Por curiosidade, aprendi a ler com a boa Rosa Manão que, por sua vez, ensinara também o meu pai. Os extremos tocam-se, a vida dá muita volta.

Na casa Palmela o ambiente era austero, severo, pesado e frio. Não havia crianças, os únicos garotos eram os três alunos que transformavam a garagem em sala de aula.

Para sul outro vento soprava. Um muro separava (ou unia) a nossa casa e a do doutor Fernando Lopes. Na porta principal havia uma placa metálica na qual estava gravado «Fernando Figueiredo Lopes – Licenciado em Farmácia». Sóbrio mas impressionante para os meus oito anos, aluno da D.ª Emilinha, depois da D.ª Ernestina, até cair na garagem da D. Beatriz.
Cedo aprendi a saltar o muro para ir brincar com o Carlos Manuel, hoje o Eng.º Carlos Lopes, figura destacada da nossa terra.

O convívio com a família Lopes foi o primeiro contacto com outro escalão da sociedade, um universo desconhecido e deslumbrante onde se respirava segurança, conforto, serenidade, onde nos sentíamos protegidos, sem incertezas nem angústias, onde nada de mau parecia possível acontecer.

Quando o Eduardo do leite, vindo da Cotovia, dava duas badaladas na nossa porta às sete da manhã, era o leite fresco e o boletim meteorológico. Na cama, eu ouvia a voz forte do Eduardo anunciar a chuva que caía ou estava para vir. E a chuva era o pesadelo do meu pai, o cancro das pedreiras, paralisando o trabalho, estragando o que estava feito, uma angústia de cada dia.

Esta incerteza do amanhã, a que desde cedo me habituei, não a sentia em casa do meu amigo Carlos. E ainda bem para ele e para todos que me abriram as portas da sua intimidade naquele mundo de harmonia, beleza e bondade.

Assim entrei naquela família, naquela grande família que atingia a sua expressão maior na noite de Natal, em casa do tio Nuno.

Por vezes sentia tristeza natural, ao deixar os meus pais em casa para ir à missa do galo e depois à consoada do tio Nuno. Mas era tão reconfortante ser recebido no seio daquela família sem dela fazer parte por laços de sangue que voltava, Natal após Natal.

O tio Nuno foi das pessoas mais maravilhosas que conheci na minha vida, todo ele bondade, sensibilidade, ternura, espírito delicado, coração puro e uma alma de artista.

E se eu entrei em sua casa, se admirei o seu presépio de amor, se vivi verdadeiros Natais, foi porque saltei o muro do Carlos. E se o fiz foi porque me senti autorizado, porque sabia que ele estava à minha espera, sob o olhar bondoso da mãe, a D.ª Stella.

E eram intermináveis partidas de monopólio, a mercearia requintada na casa da lenha, os petiscos da Álvara, a groselha, todo um universo de sonho e uma convivência magnífica, saudável, sem uma única zanga, sem um só conflito tão frequente (e natural) entre rapazes. Comigo e com o Carlos nunca sucedeu. Houve sempre correcção e amizade sem atritos nem equívocos, talvez porque reinava naquela casa um clima de verdade, de disciplina salutar, um equilíbrio sereno entre o rigor do Dr. Fernando Lopes e a suavidade da D.ª Stella. Com o tempo, passei a fazer como os outros e a chamar-lhe Tia Stella. E é a tia Stella a pedra angular do edifício das minhas recordações ligadas à grande família. Pela sua mão (que já me abrira a sua própria porta) entrei em casa do tio Nuno e depois do tio Jojó. Os três constituem o triângulo da amizade que marcou a minha infância, a minha adolescência e quase a minha maioridade. E digo quase, porque em casa do tio Jojó não me sentia adulto mas o quarto filho que a D. Fernanda teve a bondade de aceitar.

Os domingos na Cotovia são talvez o melhor que tive na minha vida porque eram a partilha profunda que o tio Jojó cultivava, com verdade e alegria. Era a partilha da mesa, era a partilha da amizade e do prazer de estarmos juntos.

E tudo começou graças à tia Stella que iluminou esse período difícil da minha vida, com a sua bondade, a sua doçura, o seu olhar celestial, a sua compreensão, a sua beleza visível e a sua beleza interior.

Com ela rezei o terço, com ela aprendi noções da vida em sociedade, nela admirei a suavidade do trato, a luminosidade do sorriso, a bondade autêntica em cada gesto.

Com a minha mania das gravações, conservo uma cassete feita no natal de 72 e ouvindo-a há dias
senti vontade de evocar, de contar, de agradecer assim publicamente à tia Stella o muito que fez por mim. Todavia, não é só por isso que o faço porque exprimir aqui um ponto de vista ou um sentimento pessoal pouco interessa.

Mais do que isso, é uma homenagem que presto porque não é fácil encontrar alguém que reúna ao mesmo tempo tantas virtudes como a D.ª Stella Gouveia Lopes, beleza pura física e beleza interior, um rosto de santa, um coração bondoso e uma ternura, uma caridade real, efectiva, sentida, traduzida em actos concretos ao longo dos anos.

Deu-lhe Deus beleza, aquele olhar celestial, um marido excepcional, filhos exemplares e uma vida confortável porque sabia que era justo, merecido. Deus sabe que a D. Stella é boa, generosa, admirável. Por isso Deus foi generoso. E Deus não se engana.

Quis o destino que me fosse aos poucos afastando de Sesimbra. Primeiro foi o liceu de Setúbal, depois Coimbra, a seguir o Porto, por fim Paris.

O tempo e a distância levam-me a ver e sentir coisas e pessoas de outra maneira, com filtros naturais que retêm o supérfluo e o postiço.

Assim só conservo o melhor. E a tia Stella faz parte do melhor da minha vida. Beijo-lhe as mãos.
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* Publicado originalmente em O Sesimbrense em 1991.

terça-feira, 29 de junho de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 10



Morre sempre da mesma maneira, estrebucha e estica o pernil...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 28 de junho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 17


O cinema

António Cagica Rapaz

Na tela das minhas recordações, o cinema é o salão do João Mota, naquela rua que é um funil ventoso entre o largo do Central e o jardim. Das imagens mais longínquas que descubro ao rebuscar no sótão da memória, constam porteiros vigilantes, polícias bonacheirões e bombeiros tranquilos. A campainha anunciava o início iminente da sessão, enquanto lá de cima chegava o som dos tangos que constituíam a música ambiente. Adiós Pampa Mia, Caminito, La Cumparsita, El Choclo e outros...

Os miúdos tentavam pendurar-se em algum adulto bondoso quando o tio Libânio ou o Carlos Molhinho fechavam os olhos. Em dias de vendaval era ver os pescadores na contemplação dos cartazes, identificando os actores, comentando, recordando, sonhando. A predilecção ia para os filmes de “cow-boys”, piratas e mosqueteiros, Tarzan, Roflin, Zorro, O Facho e a Flecha, a par de filmes cómicos como Cantinflas, o Bote e Costelo ou o Bucha e Estica. A plateia custava cinco coroas, o balcão o dobro, ou seja, cinco paus. Para o balcão era preciso um bilhetinho para reservar e uma gorjeta para o Crespo, sem o que só havia filha H e o consequente pescoço torcido. Os namorados preferiam as filas A e B, questão de fé, não sei...

O velho Domingos Pacancas percorria as ruas, sem pressas, distribuindo os panfletos do cinema enquanto apregoava o jornal Distrito de Setúbal.

Depois da espreitadela aos cartazes, era a saltada ao campo do Desportivo sempre que havia treino. E assim chegava a hora do almoço...

O salão era o Inverno, o vento gelado que descia do campo para enrugar e azular o mar, enfiando-se naquela rua desamparada que o “Badejo” atravessava vezes sem conta para subir e descer as escadas da Repartição de Finanças. No Central, o sô Zé, imperturbável, servia mais um café, na manhã fria e soalheira...

Mas o cinema era, sobretudo, o Parque cuja abertura era aguardada com uma ansiedade só igualada pela chegada dos carrinhos e do carrocel, na festa das Chagas, e pela colocação dos primeiros brinquedos na montra do Lima. O Parque era o Verão, o céu estrelado, a evasão, a liberdade. O cinemascope foi o deslumbramento, com a dimensão, a cor e o som que nos faziam vibrar com mais intensidade nos grandes filmes históricos, respirar a plenos pulmões nas pradarias do Oeste, saltar à abordagem no galeão do pirata vermelho, dançar no estrado das sete noivas para sete irmãos...

A rapaziada de parcos recursos comprava uma geral, vinte cinco tostões, e, ao intervalo, passando pelos urinóis, infiltrava-se no sector dos bancos de madeira, laterais, a cinco escudos. A ousadia não chegava aos “fautelhos” que valiam seis escudos e um ou outro percevejo.

Ao intervalo, projectavam sempre um filme de publicidade ao Rajá. E, mesmo em noites de frio, o senhor Albano não tinha mãos a medir, Rajá fresquinho, fruta ou chocolate.

Na aldeia dos macacos e na geral, a festa vinha das piadas e outras brincadeiras de gosto mais ou menos duvidoso, pantomina pegada, com sons suspeitos que arrancavam gargalhadas e atormentavam o João Vaivém que percorria as filas à procura dos provocadores.

Por vezes, nem a chuva conseguia afastar o pessoal que continuava preso à intriga apaixonante do filme, como sucedeu com o “Otelo”. E o Castanho levou um filme inteiro com frio, apesar de ter a samarra dobrada nos joelhos. Só no final a vestiu, habituado que estava a fazer assim, no salão...

Ao Parque vinham também as “Vozes de Portugal” e fadistas de raça. Encostados ao Parque estavam os eucaliptos da cordoaria onde os incontáveis pardais só adormeciam quando o Filipe da luz começava a anunciar, de forma arrastada, o filme do dia seguinte que era sempre de acção empolgante. No Parque era também empulgante...

Acabada a sessão, juntávamo-nos na esplanada do Central, já às escuras, e a malandrice continuava. Certa vez, as praças da Guarda Republicana subiram, vagarosamente, a rua Direita, detiveram-se, demoradamente, e perguntaram ao Alfredo Filipe se tinha ouvido alguma coisa. O Alfredo, com ar angélico, garantiu que não. As praças da Guarda continuaram no seu passeio nocturno enquanto os pescadores começavam a passar para o mar. A noite acabava no Pinto & Pinto ou com pão mole do Joaquim do Moinho...

1982

sexta-feira, 25 de junho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 13

as crónicas da Eventos...



foto tirada do blogue Sesimbra


Para além da lota*

António Cagica Rapaz

Ao longo de décadas, barcos, barcas e traineiras habituaram-se a repousar, aconchegados entre a Pedra Alta e a Fortaleza, a poucas braças de terra, presos a uma fateixa simbólica e dispensável pois nenhum deles se atreveria a abalar, mar fora, sem o arrais ou o mestre a bordo.

Os pescadores, da porta ou da janela, costumavam deitar um olho protector à sua embarcação, antes de irem descansar umas horas, até que o moço os viesse chamar a meio da noite.

Os barcos alinhados em frente à praia eram figuras de um presépio onde a lota representava a gruta a que acorriam, diariamente, todas as personagens que compunham o agregado populacional da nossa vila. Ninguém ficava indiferente ao fascinante espectáculo da chegada dos barcos, escoltados por mil gaivotas, iluminados pelo sol poente que o farol reclamava. Vinham todos, funcionários públicos, professores, alunos, comerciantes, industriais, camponeses, terristas e marítimos de terra, ninguém resistia ao chamamento do mar.

Os pescadores chegavam ao fim da tarde, com as suas oferendas, frescas, viçosas, abundantes, colhidas no seio do mar, noite adentro, madrugada alta, com o sol a despontar a leste, para lá da ponta do Caneiro. As chatas ensaiavam já a sua coreografia ritmada pelos gritos de compradores, vendedores, pescadores, carregadores e curiosos que marcavam vez no muro.

Sesimbra vivia para a lota e, em boa parte, da lota. Ao fim da tarde todos os caminhos conduziam ao largo da Marinha, ruas a descer, vielas que vão dar ao mar, respondendo ao apelo da vida, aos gritos das gaivotas, à melodia dos vendedores, à celebração do milagre repetido que era o encontro entre o oceano e a terra, como todos os barcos em convergência, os homens de braços erguidos com os peixes pendurados, procurando com o olhar os familiares, os camaradas, os amigos que, do muro, lhes acenavam, para testemunhar a alegria do reencontro, a satisfação por uma boa safra ou, mais prosaicamente, a esperança num gesto generoso, teca para o jantar.

A lota era a materialização dos sonhos, da fé, do sentido da vida, último acto de uma representação sagrada que começava na loja, com o coro dos camaradas à volta das selhas a ensarrumar, prosseguia noite fora, mar adiante, num jogo de sedução e engano, com os peixes mistificados pelo isco, rendidos à arte do homem.

A festa do regresso triunfante tinha a sua celebração na areia da lota, sob o olhar admirativo, quase o aplauso da pequena multidão que ocupava o balcão de frente que era o muro. Mais atrás, Sesimbra preparava-se para a noite, com a curiosidade dos turistas que tinham um olhar diferente para o espectáculo do crepúsculo vendido em lotes, arrematado e arrebatado.

Alguns compradores, como o Valdemar e o Ernesto, caíam por vezes em tentação, esquecendo, momentaneamente, o seu papel na cena, negligenciando um ou outro “chui”, alheando-se do peixe estendido na areia para lançarem a rede na direcção do muro onde se debruçavam algumas sereias em busca de emoções fortes, ao candeio, no Espadarte Clube ou no Forno. Era outra Sesimbra, a boémia, com o profano a insinuar-se na sagração quotidiana da lota onde alguns mal podiam esperar que os archotes se apagassem para rumarem a outros mares. Mas também isso era a lota, palco de vida, coração a pulsar, ágora à borda d’água, pátio de milagres repetidos da multiplicação dos peixes, com a bênção do Senhor das Chagas, em cada dia de luta no mar que terminava na festa desenhada na areia alisada por suaves vagas que vinham beijar a protectora Fortaleza.

A lota mudou-se, o sonho acabou. Resta o meu primo Cristiano, contemplando o presépio abandonado, perscrutando, com vista trémula, a linha incerta do horizonte, em paciente espera pelo regresso dos reis Magos, encostado à Fortaleza, sentado num banco virado ao contrário.

Com o olhar perdido na lonjura, talvez se interrogue se acaso haverá vida para além da lota. Qualquer dia, pego num banquinho e vou tirar isso a limpo…

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*Publicado no n.º 24 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2003.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 17


Os velhos*

António Cagica Rapaz

Quando era miúdo acontecia-me acompanhar o meu pai e vê-lo conversar com amigos da sua geração. E recordo-me da curiosa impressão que me fizeram aqueles homens já entradotes que se tratavam com a mesma familiaridade, a mesma intimidade e ligeireza que nós, rapazes pequenos, utilizando diminutivos e alcunhas.

Era uma sensação estranha, havia a meus olhos um desfasamento, uma inadequação entre a idade e o tom, o fundo e a forma, a música e a letra, o gato e o rato, o santo e a senha, o facho e flecha, o bucha e o estica, a capa e a espada, a cigarra e a formiga, a noite e o dia, o céu e o mar, etc.. Resumindo (e mais a sério) parecia-me deslocada aquela linguagem, aquela jovialidade de escola primária em homens maduros.

E no entanto eu compreendia que, no fundo, era natural aquele prolongamento legítimo de uma cumplicidade com raízes na infância. Mas confesso que tinha certa dificuldade em os imaginar crianças como eu e a minha malta brava. Podia lá conceber aquele calmeirão do Duque, de calção, a brincar ao passarinho de alcatrão! Ou idealizar o Artur da raça a saltar às linhas! Um que eu via bem em catraio era o Farinha, leve, ágil, delgado. É certo que tinha em casa fotografias que provavam indubitavelmente que o meu pai, o Franco, o Abel Embaixador, o Zé Espada e outros malandros foram jovens esbeltos e figurões requintados. Mas seriam mesmo eles? Não seriam outros? No fundo eu nunca os vira mais magros nem mais novos. Só conheci o meu pai e os seus amigos quando todos eles palmilhavam já na casa dos quarenta.

E coloquei-os na galeria dos quarentões, como se fosse possível travar a marcha do tempo e decidir que certos indivíduos representam satisfatoriamente esta ou aquela categoria de idade. Esse modelos ficariam assim na prateleira, com uma etiqueta na qual se anotaria “Homem de 40 anos”.

Noutra prateleira colocaria os velhotes como o Varandas, o Humberto Braz, o gerente Rodrigues, o Ângelo Gaspar e mais um ou outro.

Eram homens que eu só conheci em idade avançada e eram os meus velhos do Central.

Outra categoria era a dos que abandonavam silenciosamente a casa dos vinte anos e entravam na antecâmara escorregadia dos trinta. Era a prateleira da plenitude, de alguma irreverência misturada com um ténue esboço de sisudez.

E havia os mais pequeninos, aqueles meninos adoráveis que deveriam ficar toda a vida crianças, preservando assim a ternura, a pureza, e o encanto dessa idade. Tal como existe o carteiro, o bombeiro, o funileiro, o pescador, o calafate, o marceneiro, assim deveria haver crianças sempre crianças, adultos sempre adultos e velhinhos que nunca morressem. A minha avó Sabina e a minha tia Francisca eram duas velhinhas maravilhosas. Conheci melhor a minha tia Francisca, mãe do Augusto Calisto, avó do Zé Calisto, dois belos músicos e dois malandrões divertidos. Na sua loja escura (onde hoje é a Pedra Alta do Helder Chagas) a minha tia Francisca foi mirrando com um sorriso encantador, uma doçura e uma resignação admiráveis. Velhinhas assim fazem falta no presépio da nossa vida. Por isso não deviam morrer e, para mim, não morreram porque as coloquei na prateleira das avós ideais.

O Zé, o filho mais novo do Carlos Magalhães, era um miúdo genial, com os seus cinco ou seis anos, vivo, meigo, malicioso, um parceiro fabuloso. Dávamos as nossas voltas, conversávamos muito e até tínhamos os nossos segredos. Há muitos anos que o não vejo mas o Zé era um rapazinho ideal. Vai p’rá prateleira.

Mais acima está o Aurélio protótipo do play-boy requintado, bom estudante, economista responsável, futebolista diletante, sorriso irónico e envolvente mas acima disso um camaradão generoso.

Outra figura de galarim era o Valdemar, rei da noite, na lota, à luz dos archotes e da média luz do Forno e do Espadarte Clube. Ao turismo de Sesimbra faria falta um Valdemar eterno, sempre jovem, folgazão, bom dançarino, ágil no movimento, hábil na manobra.

Os nossos pais eram amigos e amigos nós somos desde há muito. Sei quem ele é, ele é bom rapaz, um pouco tímido até. Ela andou comigo na escola da Rosa Manão. Ele é o Raul, ela a Maria Augusta. Com o seu ar britânico, de olhos azuis malandros como o cigano, o Raúlinho não fez mais estragos porque a Maria Augusta estava atenta à jogada e marcava-o em cima. Vou colocá-los na prateleira dos amores lendários, estilo Romeu e Julieta, Paulo e Virgínia ou simplesmente Maria… Augusta.

O dr. António Telmo, o Tó, filho do doutor do Registo, era o cientista do bilhar, mestre na tacada prodigiosa, intelectual, filósofo do Café Central e parceiro de sabatinas com o Rafael Monteiro, espécie de Sartre sesimbrense, freguês do Chagas.

Atrás do balcão do Central o sô Zé, com a sua fala macia, o cabelo branco e passo suave, era uma autêntica figura bíblica, a imagem perfeita da serenidade, da paz, na atmosfera morna dos domingos de manhã, depois da missa, com o perfume do café e sol de Inverno.

O Alfredo Filipe era o nadador hercúleo, de braçada vigorosa, peitaça imponente, herói de travessias de uma baía enfeitada com bandeirinhas e aiolas caprichosas. Com aquele cabedal todo, o Alfredo era um bailarino ligeiro, balanceado a preceito e os seus duetos com o Valdemar iluminaram as noites loucas do Espadarte Clube.

O Zé Brás é outra figura, como o Chagas, homens cheios de dinamismo, amor à terra, espíritos de iniciativa e contacto agradável.

O Alfredo é a noite da boémia, o último copo, o último tango nos braços do Deodato, com o Charuto a engatar, o Domingos a mangar e o Inverno a chegar, pé ante pé.

As marés descem e voltam, os barcos vão pescar cada vez mais longe, o porto de abrigo está de novo em obras, os anos passam e nós fingimos não ver.

Os meninos de ontem são os adultos de hoje, os velhinhos sentam-se no jardim e definham à sombra do tempo. Na igreja de cima dobra a finados, na quietude das tardes sem fim.

Por isso não adianta correr, atropelar, invejar, deturpar, odiar. Tudo é vão, tudo é efémero, tudo é transitório. Esta vida é apenas uma travessia da baía da ilusão. A verdadeira vida começa depois e essa sim é longa, longa, eterna.

Nas prateleiras e nos cofres ficam as aparências, os valores materiais. Connosco levamos apenas (e é o mais importante) aquilo que não há dinheiro que compre: o nosso espírito.

Por isso, mais ruga menos ruga, mais andar, menos automóvel, pouco importa.

Vamos todos devagar pela estrada da vida. Não vale a pena correr, a meta é certa. Temos tempo para descansar à sombra de uma oliveira, apanhar a espiga e ver nascer o sol.

Os nossos heróis de ontem, aos olhos dos meninos que nós éramos, surgem-nos hoje fatigados, usados, apagados. Sem darmos por isso nós ocupámos-lhes o lugar e em breve aparecerão outras crianças que terão dificuldade em imaginar que um dia fomos novos. É assim, nem sequer é triste. Triste é não saber aceitar. Afinal, quarenta é duas vezes vinte anos. E viva o velho!
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*Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra.

terça-feira, 22 de junho de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 9



Deixou os gladiadores de barriga vazia...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 21 de junho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 16




Capitão Domingos

António Cagica Rapaz

Pele tisnada pelo sol de muitos verões e pela ventania rija de invernos ásperos, camisola aos quadrados, boné de pala curta, é o capitão Domingos.

Os seus braços vigorosos tão depressa se colocavam ao serviço da barca, em terra, como se desnudavam para a faina estival. Durante a época balnear, o capitão Domingos vestia o seu belo calção vermelho e envergava a camiseta branca de nadador salvador. E era vê-lo, na borda d’água, a ensinar as crianças a nadar, a dar uma palavrinha marota às empregadas que assistiam menos para acompanharem os meninos do que para ouvirem o capitão Domingos que é homem de conversa fácil, sempre com a piada na ponta da língua. Capitão sem barco, ele manobrava com perícia, aiolas, chatas e charutos. Como certos homens dedicados a grandes causas, o capitão Domingos é celibatário. Casou com a barca, reparte-se pelo trabalho, pelo cinema do João Mota, deitou o ferro ao fundo no café do Alfredo. Capitão prudente, não embarca em aventuras, mas, como bom marinheiro, sabe gozar a vida, entre dois lances.

Quando o vento lhe parece de feição, larga a escota e zarpa rumo a Lisboa. Já correu meio mundo, em excursões do Isaac, e continua a ser muito procurado para exercer o seu talento para caldeiradas de que tem o segredo. Depois, amarra a aiola ao Pedra Alta onde é figura respeitada e considerada. O Hélder é dos nossos...

1983

sexta-feira, 18 de junho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 12

as crónicas da Eventos...




Hipocampo*

António Cagica Rapaz

Estava na mente que ias hoje à vila” – dizia-me tranquilamente, como se a expressão me fosse familiar. De outra vez, contava-me que dera tal tareia a um fulano que o danou todo. Eram os meus primeiros passos na descoberta de uma outra maneira de formular as ideias, de usar as palavras, muito antes de me interessar pela linguística e pela fonética. A verdade é que já reparava nas particularidades das formas de expressão das pessoas do campo e da vila. Mas era sobretudo a surpresa de observar como era diferente o ritmo da frase, a melodia, a entoação, o registo sonoro, a configuração gráfica do discurso.

Mais me apercebi, bem cedo, da rivalidade entre estas populações, sendo de sublinhar o orgulho dos camponeses na sua toada tão característica. Nada mais delicioso do que ouvir um camponês a imitar um pexito chalreiro. Em contrapartida, não me recordo de ter apreciado o inverso, ou seja, um sesimbrense falando a preceito à moda do campo. No pexito puro, tradicional, o tom da frase tende a subir até à estridência, em especial quando fala à distância ou quando faz uma pergunta. Esta sonoridade aguda e crescente dever-se-á porventura a um estilo de vida caracterizado por diálogos frequentes, com as mulheres elevando a voz a chamar os filhos ou falando de uma janela para a outra, quando não era de extremo a extremo da rua. Os homens falavam alto nas tabernas, discutiam muito, gritavam na loja ou no mar, de barco para barco. A lota fazia-se aos berros, desde os vendedores aos moços das padiolas, às vezes ao desafio com o zurrar dos burros. Só os compradores arrematavam num murmúrio discreto, ou não fosse o segredo a alma do negócio.

A vila, apesar de ser um espaço relativamente fechado e limitado, afinal foi sempre um mar aberto de convivência, com as casas pegadas umas às outras, na correnteza da rua, tudo propício à cavaqueira que se estendia ao muro da marginal, à praça (palco privilegiado da calhandrice), aos carros da carreira onde se fazia terapia de grupo, enfim, uma vida muito partilhada e comparticipada, com uma privacidade em permanente risco de violação a pretexto de um raminho de salsa.

No campo acontecia o inverso, casas isoladas, famílias fechadas, secretas, culto da propriedade privada, forte sentimento de posse, orgulho, princípios rígidos, tento na língua. Mais solitário, passando por vezes dias inteiros a amanhar a terra, a cuidar dos animais, o homem do campo habituou-se ao monólogo, ao silêncio e ao discurso conciso, com muito mais siso do que o pexito que fala pelos cotovelos, sendo a palavra mais ligeira do que o pensamento. O camponês é reflectido, mede e pesa o que diz, é hábil, matreiro, insinuante e elíptico. A frase começa num tom que vai baixando, sinal de prudência e segurança, não desperdiçando palavras, não falando apenas por falar. É mestre na ambiguidade, nos segundos sentidos, na ironia mordaz, fina e falsamente inocente. Chega a ser um verdadeiro jogo descodificar as mensagens escondidas nos meandros do discurso pausado.

Com o êxodo dos pexitos para o campo, as diferenças poderão vir a esbater-se um pouco, mas dificilmente o nosso bom camponês se deixará influenciar pelo falar pexito que considera risível. E é notável como, a escassos quilómetros de distância, convivem dois sotaques tão vincados e diferentes.

Não me admiraria que fosse camponês o autor do provérbio que diz que pela boca morre o pexito. E, se calhar, foi o mesmo que, para simbolizar a fraternidade vila-campo, propôs a imagem de um hipocampo, híbrida e mítica criatura metade cavalo metade peixe. Na verdade, pelos tempos que correm, com o sufoco que é andar nas ruas de Sesimbra, o melhor é hipocampo…

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Publicado no n.º 32 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2004.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 16


foto tirada do blogue Sesimbra


Caneiro*

António Cagica Rapaz

– No extremo leste da nossa tranquila baía para lá da Califórnia, de onde brota a água que faz voltar quem dela bebe, fica o lugar de Argeis, vulgarmente, designado por Caneiro.

Durante anos, a maldição pairou sobre tudo quanto vinha de leste e o Caneiro era bem o símbolo dessa condenação mais ou menos velada. O saudoso dr. Caramelo costumava brincar com essa situação quando aconselhava aos seus doentes masculinos um passeio até ao Caneiro. E ria-se porque achava ridículo que as pessoas honestíssimas da nossa terra se chocassem à simples evocação de tal palavra. Diz a lenda bem recente, que mulheres de porte inequivocamente duvidoso tomavam, pela calada da noite, o rumo de leste. Com a protecção da montanha, silenciosa e escura, essas mulheres desciam à praia da Califórnia. Os homens, assobiando despreocupados, simulando um passeio inocente, aproavam igualmente a leste. Alguns ignoravam a existência das suas próprias mulheres preferindo a sórdida aventura do leste que custava dez escudos, sinal dos bons tempos da vida barata. E aquelas mulheres ali passavam noites deitadas, embora não dormissem e antes fizessem quanto bastava para arruinar a saúde dos muitos jovens que buscavam na areia cálida uma emancipação precoce, uma afirmação ilusória.

E o Caneiro ficou como símbolo da vergonhosa e clandestina corrupção nocturna aqui e ali cortada por episódicas rusgas das autoridades que terminavam, regra geral, com a fuga das pecadoras no seio da montanha. E, ali mesmo, sobre aquela areia, berço de amores de dez escudos, os homens, (os mesmos, às vezes) vinham de manhã puxar as redes com o peixe de cada dia…

Qual peste que se não detém, a maldição subiu, por sua vez, a montanha nela se instalando sob as construções que tanta celeuma têm levantado. Do escuro da noite, passou-se ao escuro do dia em que nem mesmo a luz do sol iluminou capazmente a transformação da montanha árida em complexo turístico. Os dez escudos dos negócios miseráveis na praia subiram a serra para se transformarem em milhões.

A maldição é a mesma, só que as desgraçadas que se vendiam sobre a areia se perderam na noite da vida, enquanto o progresso fez o esplendor de outros que se não perderam, antes se acharam…

E o Caneiro ficou a ver os amorosos que o procuram para encontrarem um pouco de isolamento cada vez menos possível na frequência cansativa da nossa praia.

No outro extremo, bem se esforça o Farol mas os seus raios jamais conseguirão iluminar o Caneiro, destruindo a lenda dos seus sórdidos negócios.

Hoje, os homens que vão a leste não assobiam baixinho nem procuram disfarçar. Deslocam-se nos seus belos automóveis e até gostam que os vejam. E as rochas do Caneiro continuam sem cair…

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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.

terça-feira, 15 de junho de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 8

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Participou num concurso de circunstâncias e era das mais "tâncias" que lá apareceram...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 14 de junho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 15


Celestina

António Cagica Rapaz

O tio Mário fazia-me lembrar um velho chefe índio, sereno, imperturbável, de falas suaves, linguagem codificada, lacónico e discreto. Gostava de nos tratar por sócio e tinha uns olhos azuis profundos e inteligentes.

Eu gostava de ir ao sócio comer marisco, dar um beijinho à tia Mariana, trocar duas palavras com a Celestina que tinha sempre uma piscadela de olho maliciosa quando eu aparecia acompanhado.

A partir de certa altura habituei-me a ver por lá uma menina linda como os amores, cor de chocolate, com uns olhos de cigana feiticeira e um sorriso maroto de manhã de sol na Primavera.
A Silvana foi crescendo, bonita e encantadora, priminha linda que era um encanto...

A Celestina sempre teve uma sensibilidade desperta para as coisas belas e procura alargar os seus horizontes espirituais. De vez em quando escreve com suavidade e emoção, de forma singela e sentida. Há anos lancei um repto ao Manel António para se juntar a nós nesta cruzada inocente e sem pretensão, deixando ir à via a barca da nossa memória fugidia. O Manel não reagiu, mas a Celestina pegou no tema e mandou umas linhas cheias de ternura ao “chamador das ruas do silêncio”, evocando o universo da nossa rua dos Pescadores, um pôr do sol naquele cantinho onde ecoam os tamancos do Tá. Com ela recordo e reencontro o apelo do mar, ecos de fados da Amália, destroços de vendavais medonhos, as mil coisas que constituem uma espécie de inconsciente colectivo partilhado por uns quantos líricos que teimam em gostar do mar, da quietude do crepúsculo e de caminhar na praia em tardes de sábado ao sol minguante do Inverno.

Admirável Celestina que resiste a tanta adversidade, suportando a dor infinita da perda da Silvana, a filha em quem se revia, em quem renascia, unidas para além do amor, numa cumplicidade maravilhosa sob o olhar tranquilo do tio Mário, abençoada pelo mar que vinha beijar a Pedra Alta, em cada manhã, em marés cheias de uma felicidade que parecia eterna.

A Celestina pôs nos cabelos a espuma do mar, continua digna e bela, luta, reage, anda de cabeça erguida, só se inclinando, no silêncio da Capela, aos pés do Senhor das Chagas...

1996

domingo, 13 de junho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 15

no 66.º aniversário do nascimento de António Cagica Rapaz...





Junho*

António Cagica Rapaz

Agora posso dizer-vos, já passou, já não tem importância, já não vão a tempo. Imaginem que apanhei toda a gente distraída e fiz cinquenta anos. Claro, é exagero, imagem distorcida, ninguém faz assim, do pé para a mão, cinquenta anos de uma vez só como quem faz treze no totobola. Vamos fazendo ano após ano, adicionando, coleccionando, empilhando como os cubos que, em menino, vamos colocando uns sobre os outros, com tacto, com jeitinho, mais um, outro ainda, só mais este, até vir tudo por ali abaixo.

No fundo nós não fazemos anos, eles é que nos fazem velhos, gordos, carecas, engelhados, acabados. Eles passam por nós, marcam-nos, carimbam-nos, dão-nos pontapés para a cova e nós, pobres patetas, sorrimos, sopramos velas idiotas, batemos palminhas atabalhoadas e aceitamos parabéns como se tivéssemos algum mérito.

A verdade é que nascemos sem saber como, não é por iniciativa nossa, não nos cabe qualquer responsabilidade nem merecimento. Mandam-nos vir, às vezes sem querer, e depois contentamo-nos em andar por cá até chegar a nossa hora. E em regra voltamos a não ter voto na matéria, ninguém nos pede opinião nem concordância. Nessa altura já não são parabéns mas pêsames e não é a nós que são dados. Resta saber se não deveria ser ao contrário quando partir é um alívio…

Enquanto vivemos passamos pelo dia de anos como os jogadores de monopólio passam pela casinha da partida e lá arrancamos para nova corrida, nova viagem. Não adianta correr, podemos ficar sentados à beira da estrada, o tempo passa implacável e exacto até nos cair em cima, no dia dos anos, no dia de Natal, em cada passagem do ano, em cada barba frente ao espelho, em cada renovação do bilhete de identidade, em cada uma das mil ocasiões que o malvado tem para nos lembrar que estamos condenados.

Por tudo isto e por outras razões nunca liguei grande importância ao facto de, como se diz, fazer anos. O dia dos anos é outra coisa, pode dar lugar a outras considerações já que há dias e
dias, uns mais sonantes que outros. Por exemplo, 25 faz logo pensar em Dezembro ou Abril e nenhum deles é banal nem anódino.

Eu nasci a 13, número que está ligado a toda uma série de presunções, preconceitos e sentimentos relativos a superstições e preocupações mais ou menos metafísicas. Foi em Junho, há meia dúzia de dias, quem havia de dizer, não querem lá ver, parece «mintira», vejam lá vocês, ainda não estou em mim… e logo no dia de Santo António.

Parabéns mereceu a minha mãe por ter esperado pelas três da manhã e dar à luz da fogueira, na bela noite e já em dia de Santo António. Se calhar também tive algum mérito, ganhando tempo, não me apressando para sair, o que me evitou ter nascido a 12. Não é snobismo, mas 12 é apenas a véspera de 13 e uma véspera só existe à sombra do dia seguinte. Sem o d ia seguinte não haveria véspera, é evidente. Todavia a véspera de um dia é, por sua vez, o dia seguinte de outra véspera. E assim por diante ou por aí fora «per omnia secula seculorum», conforme dizia o nosso Padre João para nós rematarmos, certinhos e em coro, «amen».

Apesar destas reticências todas, eu gosto do dia dos meus anos e que não é o mesmo que gostar do meu dia de anos. Menino Hélio, está a perceber a diferença? Bom, adiante…

E gosto do dia dos meus anos porque é (como talvez já tenha dito, não sei) dia de santo António, o mais querido dos santos populares, não me levem os outros a mal.

Tal como os três mosqueteiros, os santos populares também são quatro pois não convém esquecer o São Marçal que é o último a chegar, sendo o meu o primeiro neste mês de Junho que, para mim, é o mais belo do ano. Maio é a festa das Chagas, a procissão, o arraial, o carrocel, os carrinhos, as farturas, a roupa estreada, a emoção do Senhor de braços abertos virados para o mar no largo da Marinha. Maio é ainda a quinta-feira de espiga, o trigo, as papoilas, o raminho de Oliveira, a peregrinação ao campo.

Junho era a transição para o Verão, o fim da escola, quando as professoras mandavam fazer em casa oitenta cópias, setenta ditados e mil cento e onze problemas durante os três meses e férias.

Junho, nas minhas recordações, cheira a alecrim, alfazema e rosmaninho. E a rua era de todos, os que estavam e os que passavam. Era porventura o mais bonito quadro de Sesimbra, franqueza e fraternidade à volta da fogueira, generosidade e bons petiscos, rasgos de polvo, sardinha assada e caldeirada entre os balões, os arcos, as bóias, os remos, os altares, o mar e a terra, o divino e o pagão, sonho de noites de Verão.

Talvez não fosse bem assim, talvez não fosse sempre assim, mas é o que quero conservar e por isso gosto do dia de Santo António e do mês de Junho.

Junho era conversa nos poiais, banquinhos à porta, calhandrice preguiçosa e saborosa, janelas abertas, o céu por tecto. Cada rua é um pátio, lá vai Lisboa, ó noite de Santo António!

Ficou em muitos de nós a imagem dos presépios em que se transformavam as ruas, cada uma com as suas figurinhas de barro, cada uma no seu lugar, à porta, à janela, à volta da fogueira, cada um tratando do seu cantinho, do seu poial, do seu passeio, brincando às casinhas, partilhando o espaço perfumado com alecrim, participando na festa, na cantiga da rua.

Junho tem o dia mais longo do ano, as noites são mornas, a torreira do sol é para mais tarde, a brisa é suave e, ao longe, ouve-se o eco do Ribolé.

Ainda hoje não é difícil ir à serra apanhar alecrim, alfazema e rosmaninho, a ruas enfeitadas e a fogueiras. Talvez o Eduardo se lembre que me está a dever uma posta de cherne desde o Verão passado, talvez o Zé António chegue da Alemanha a tempo, talvez o Valdemar se junte ao Rafael Piló e ao Dr. David Sequerra para uma finta de corpo e um passe em profundidade. E talvez, sobretudo, nos apercebamos de que mais um ano passou e que, durante esse tempo, fizemos isto e aquilo e até fizemos anos.

Mas não nos juntámos como combinámos, não nos escrevemos, não telefonámos, não foi por mal, é assim, é a vida, não calhou. Felizmente resta-nos a praça, a marginal, o muro, para nos cruzarmos e trocarmos frases soltas à esquina do tempo que passa por nós e nos dá a ilusão de que somos nós a fazer os anos.

E depois o tempo, os anos, a vida tem os seus meninos bonitos, as suas preferências e conserva o sorriso luminoso e a eterna juventude ao Zacarias, dá vigor ao Gil, esse adorador do mar, enquanto o Capitão Domingos vigia as jogatanas naquele largo onde o Helder colocou uma Pedra Alta na loja da minha tia Francisca e onde o Tony exibe, graças a Deus, o fulgor e a vitalidade que muitas noites de Julho lhe deram.

E é assim, António Luís, filho do ponta-esquerda Joel e neto do velho Fartura e, como eu, freguês do 13.

Já agora, e aqui entre nós, o cúmulo seria o 13 ter nascido a 14. Dá cá 12!!!

Não vos peço um tostãozinho para o Santo António, mas espero que ele me inspire. Desta já eu me safei, mas em Julho não faço anos e preciso de uma ideia para outra crónica. A menos que meta férias… Ora aí está uma boa ideia, obrigado Santo António!

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*Publicado originalmente na edição de Junho de 1994 de O Sesimbrense.

sábado, 12 de junho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 14

no décimo aniversário do lançamento de Noventa e Tal Contos...



Maria Amália

António Cagica Rapaz


A casa mais alta das Caixas pertencia à tia Maria Come-Figos que reinava na aldeia com o peso da sua autoridade e da sua imponência física. Era a madrasta da minha mãe e a minha avó do campo. Em Sesimbra tinha a minha avó Sabina, pequenina, consumida pelos desgostos, gasta pela vida...

A nossa casinha ficava perto da grande mansão da tia Maria e de frente para a estrada da qual nos separava o terreno do tio Meano que possuía o mais belo galo que ainda vi. Encostada ao palheiro do tio Meano esteve, durante anos, uma roda de carroça que era a primeira coisa que eu procurava com os olhos mal saltava da camioneta que o Pintassilgo parava à porta do Baratinha. Aquela roda era o tempo parado, relógio sem ponteiros, âncora lançada no mar da tranquilidade, o campo sem outra referência que não fosse o sol, o ritmo natural dos dias e das noites, carroças sonolentas, burros de passo curto, moinhos sem pressas, noites infinitas de céu estrelado...

Se a tia Maria era a rainha, a princesa era certamente a Maria Amália, afilhada da minha mãe e a cara mais bonita da aldeia. Bela moça trigueira, faces rosadas, olhos marotos, a Maria Amália parecia sair de um calendário antigo, ceifeira de chapéu de palha e lenço vermelho. Com os meus oito ou nove anos, eu via nela um fruto autêntico da terra, feito de trigo maduro, de sol cor de romã, de uva generosa, de bom pão amassado com amor e cozido em forno de tijolo moreno.

Nos bailes do Baratinha, a Maria Amália e o Licínio formavam um belo par, dava gosto vê-los, jovens, bonitos, felizes. A morte teve ciúmes e levou o Licínio, cedo de mais.

Ali a dois passos do salão de baile, parava a camioneta, ao fim da tarde e o meu pai descia, fardado de branco. Eu ia esperá-lo, feliz e orgulhoso. À noite, sentávamo-nos na rua e eram as narrativas, as odisseias a bordo do Bartolomeu Dias, a fascinação sob um céu de mil estrelas, à luz de um copo do nosso vinho feito de uva pisada no lagar do Tio Justino. Muitas vezes devo ter adormecido, exausto pela faina dos Torrões, pela brincadeira com o Julinho, embalado pela voz do meu pai e talvez a sonhar com a Maria Amália...

1992


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fac-simile do convite para o lançamento de Noventa e Tal Contos, em 12 de Junho de 2000

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 11

as crónicas da Eventos...


A nossa rua*

António Cagica Rapaz

À euforia do Carnaval seguiam-se o recolhimento da Quaresma e a celebração festiva da Páscoa. Breve nos começavam a chegar os cânticos distantes das novenas que prenunciavam os preparativos para a subida do Senhor das Chagas da capela até à Igreja Matriz de onde, ainda hoje, continua a sair no dia da procissão.

Mal os carrinhos e o carrossel abalavam, e já as atenções se viravam para a decoração das ruas, manifestação em que o carácter religioso e o ritual pagão se misturavam naquela atmosfera tão especial que representava o ponto mais alto da confraternização entre a gente da nossa terra.

As ruas de Sesimbra eram, décadas atrás, espaços com vida e identidade próprias. Cada uma tinha a sua personalidade, nome e, até, alcunha, como a rua do Saco, a rua de Alfenim, a rua do Norte, a rua do Forno. Por vezes, eram marcadas pela figura de moradores mais notáveis, como a rua da Lucinda…

Noutro tempo, as gerações sucediam-se, na mesma casa, na mesma rua onde cada um tinha as suas raízes, as suas âncoras, as suas marcas, as suas referências, o seu cantinho, o seu poial, a sua porta, conservando pela vida fora a memória de uma janela, do canto de um rouxinol, de um vaso de sardinheiras, de sol, de sombra, de mar, de vendaval, de vozes, de gritos, de gargalhadas, de choros, de cheiros, dos mil sinais de vida que enchiam o universo aconchegado que era a nossa rua.

Embora houvesse uma competição para a atribuição de prémios, talvez a decoração não constituísse o aspecto mais relevante das festividades. A verdadeira essência, o traço mais marcante seria, porventura, o clima de fraternidade, por um lado suscitado pela circunstância, mas realmente gerado pelos laços de amizade entre os moradores, fraternidade consolidada ao longo dos anos à sombra suave do Verão, em manhãs de sol de Inverno, em sardinhadas à porta, em intermináveis noites de calor, com o luar a espelhar o mar…

Os santos populares pelavam-se por esta quadra de convívio à volta das fogueiras, mas, lá bem no fundo, talvez esse culto prazenteiro fosse apenas o pretexto. Por razões misteriosas, vindas do fundo do tempo, é bem possível que a verdadeira força criadora, o impulso e o apelo brotassem da própria rua, de cada casa, de cada janela entreaberta, de cada poial que convidava à conversa, à partilha de um petisco, à vontade de saborear a amizade. E esse sentimento acabava por se estender a outras ruas, espécie de energia positiva, de brisa de ternura que envolvia a boa gente da nossa Sesimbra.

No fundo, a saudade que temos dos festejos dos Santos Populares talvez resida menos nas cantigas à volta das fogueiras, no perfume do alecrim, no fulgor dos balões, do que na imagem poética e idealizada da felicidade singela que se lia no rosto de cada um, à sua porta, oferecendo aos amigos, aos vizinhos e aos passantes, um pedaço de polvo, um copo de vinho, um instante de fraternidade.

Nos seus pequenos e modestos altares, o Santo António e o S. João contemplavam, sorrindo, a confraternização e a partilha, a mesa posta e oferecida, em cada rua que, por alguns dias, se transformava num verdadeiro presépio onde os pastores davam lugar aos pescadores, cada um com as suas oferendas. Afinal, com a bênção longínqua do Senhor das Chagas e a cumplicidade dos santinhos populares, as ruas não eram mero objecto, simples e passivo palco das nossas manifestações. Em verdade e pelo contrário, elas eram berço e fonte de inspiração, e enfeitavam, com alecrim, rosmaninho e amor, as nossas almas, os nossos corações.

Talvez por isso, com a idade e a melancolia que ela traz consigo, os velhos do mar que nós somos se vão chegando, de mansinho, ao muro, como barcos em busca do abrigo do porto. Perto da nossa rua…

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Publicado no n.º 19 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2002.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 14


Cinquenta*

António Cagica Rapaz

Cinquenta cópias, trinta ditados, oitenta problemas – era a tabela, a remessa para os três meses de férias, a imensidão do Verão à torreira do sol, a eternidade pela frente.

Pulando e rindo, as batas brancas deixaram para trás as grades da escola Conde de Ferreira, gritos de liberdade, fim de pesadelo, o apelo do mar, o ronco longínquo e dolente de uma barca, o cântico das gaivotas e o eco metálico dos martelos dos carpinteiros navais, na doca. Era Junho, acabava a escola, começava o Verão, a vida…

Cada mês tem para nós um significado, evoca qualquer coisa, inspira algum sentimento, traz consigo determinadas imagens. Por outro lado, habituámo-nos a eles e nem os olhamos com atenção, não reparamos que Setembro tem 7 na raiz, como Outubro tem 8, enquanto Novembro e Dezembro não podem esconder nove e dez.

No entanto faltam dois nesta contagem, pois Setembro não é o sétimo mas o nono mês do ano. Já tinham reparado nisto? Eu confesso que, apesar de gostar destas coisas, só há pouco tempo me apercebi da curiosidade. Mais confesso que não aprofundei a questão, não procurei a explicação. Olhem, aqui fica um desafio para os nossos leitores com mais tempo, em férias ou reformados. Em vez dos ditados, das cópias e dos problemas do caderno 1.111, deixo-vos o enigma dos quatro últimos meses do ano que levam duas casinhas de avanço no jogo da Glória do calendário…

Ah, as cinquenta, as oitenta, sei lá quantas cópias! Saíamos felizes da escola e logo no jardim, fazíamos planos. Os mais estudiosos, mais bem comportadinhos, de risco ao lado e bata limpinha, tratavam de afirmar que se atirariam de imediato ao trabalho, só começando verdadeiramente as férias quando tudo estivesse concluído e arrumadinho, em cima da mesinha do quarto, ao lado das colecções do Condor Popular, da Colecção Tigre, dos Sandokans e d’Os Cinco, lindos meninos. A maioria propunha-se ir fazendo, hoje uma cópia, amanhã um ditado, depois um problema de esteres e decasteres, assim, aos poucos, devagarinho, entre dois mergulhos, uma pescaria aos gavozes, no intervalo das jogatanas em frente à escola de Santa Joana...

E acabávamos por deixar tudo para a última semana de Setembro, quando já cheirava a Outono e o nevoeiro descia a serra para nosso contentamento, fartos de sol e calor e desejosos de vestir uma camisola grossa.

Outubro chegava e as batas brancas voltavam à Conde de Ferreira, enfiadas e comprometidas. “Fizeste as cópias? – Eu cá não, e tu? – Eu também não.”

Era meio alívio, culpa partilhada e diluída, mas lá vinha sempre um de risco ao lado, brilhantina e sorrisinho pérfido: “Eu fiz tudo, cópias, ditados e problemas. E mais um exercício de caligrafia!”

– “Maricas” – atirava-lhe o Clemente, irmão do Zacarias e cunhado do Maquino. O António Rodrigues Clemente morava na Fonte Nova e tinha uma pasta muito grande, apesar de pouco ligar aos livros. Gostava mais de bola e do Belenenses. Uma vez, na terceira classe, com a Dona Ernestina, teve uma paciência infinita para ir apanhando moscas, uma a uma, que enfiou na boca que o Alfredo costumava ter aberta. Este Alfredo distinguir-se-ia, mais tarde, por usar uma popa à Henrique Mendes..

Ah, como tudo isso vai longe, o Clemente a passar à minha porta, rua do Forno fora, morava eu na Rua da Fé. E lá seguíamos até à esquina do Fonseca em, busca da dona Emilinha e, depois, da Dona Ernestina Cifuentes.

O Clemente era da seita da Fonte Nova cujo chefe era o Cófinhas. Menos aventureiros eram o António Sebastião Vieira Fidalgo e o Carlos Manuel Ribeiro Carapinha, belenenses também, como eu era nessa idade ingénua.

O Fidalgo está na Suíça, o Clemente está de castigo a fazer as cópias todas, algures, no Céu ou no purgatório, não sei, deixou-nos há uns anos. O Carapinha continua perito na arte de cortar cabelos e de filosofar sobre política. Tem dons oratórios que se inscrevem na boa tradição do mestre Adelino e quem o garante é o Coronel Zé Arada a quem, para ser totalmente pexito, só falta um quinto do sotaque que a Mimi conserva em banho-maria…

Junho era assim, mas era sobretudo o mês dos santos populares. Não é possível escrever em Junho (e menos ainda sobre Junho) sem evocar o universo mágico das ruas enfeitadas, a sombra perfumada com alecrim, rua que passava a ser espaço comum, a casa de todos, de dia e de noite, até de madrugada. Há, assim, alturas do ano, o Natal, um pouco a Páscoa, e em especial o mês de Junho, em que se dilui a consciência do real, em que somos de todos os tempos, passado e presente misturados, momentos estranhos de alegria, melancolia e saudade.

E damos por nós a sorrir, com certa tristeza, diante de uma rua enfeitada com flores de plástico, sem alecrim nem rosmaninho. Em cima do passeio, carros, no meio da rua uma família a comer caldeirada e a ouvir música pimba, em altos berros, letras alarves, ostentação e mau gosto. É o que há, e é bem triste. E feio.

Ficamos com vontade de ir à serra, apanhar braçadas de alecrim, fazer uma fogueira, assar rodelas de polvo, juntar os amigos e ouvir com respeito e encanto a Dona Amália garantir que, enquanto houver Santo António, enquanto houver arraiais, Lisboa não morre mais.

Se calhar aparece algum Rover para estacionar à porta de casa ou alguma mota de ronco ensurdecedor. Se calhar já não há alecrim na serra e, mesmo os santos, por mais populares e pacientes que sejam, já perderam as ilusões…

Mas Junho volta, volta sempre. E lá acabamos por saltar a fogueira do temo a espalhar no mar as cinzas da saudade, inevitavelmente. É assim Junho, irresistível sortilégio. Por isso cá continuo a fazer, todos os meses, estas cópias que aqui vos entrego, trabalho de casa, por mim ditado. Não consegui fazer todos os problemas do caderno da vida, tenho muitos ainda por resolver.

Desde Maio de 92, esta é a quinquagésima cópia, missão cumprida. E comprida…

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*Publicado originalmente na edição de Junho de 1996 de O Sesimbrense.