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sexta-feira, 18 de junho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 12

as crónicas da Eventos...




Hipocampo*

António Cagica Rapaz

Estava na mente que ias hoje à vila” – dizia-me tranquilamente, como se a expressão me fosse familiar. De outra vez, contava-me que dera tal tareia a um fulano que o danou todo. Eram os meus primeiros passos na descoberta de uma outra maneira de formular as ideias, de usar as palavras, muito antes de me interessar pela linguística e pela fonética. A verdade é que já reparava nas particularidades das formas de expressão das pessoas do campo e da vila. Mas era sobretudo a surpresa de observar como era diferente o ritmo da frase, a melodia, a entoação, o registo sonoro, a configuração gráfica do discurso.

Mais me apercebi, bem cedo, da rivalidade entre estas populações, sendo de sublinhar o orgulho dos camponeses na sua toada tão característica. Nada mais delicioso do que ouvir um camponês a imitar um pexito chalreiro. Em contrapartida, não me recordo de ter apreciado o inverso, ou seja, um sesimbrense falando a preceito à moda do campo. No pexito puro, tradicional, o tom da frase tende a subir até à estridência, em especial quando fala à distância ou quando faz uma pergunta. Esta sonoridade aguda e crescente dever-se-á porventura a um estilo de vida caracterizado por diálogos frequentes, com as mulheres elevando a voz a chamar os filhos ou falando de uma janela para a outra, quando não era de extremo a extremo da rua. Os homens falavam alto nas tabernas, discutiam muito, gritavam na loja ou no mar, de barco para barco. A lota fazia-se aos berros, desde os vendedores aos moços das padiolas, às vezes ao desafio com o zurrar dos burros. Só os compradores arrematavam num murmúrio discreto, ou não fosse o segredo a alma do negócio.

A vila, apesar de ser um espaço relativamente fechado e limitado, afinal foi sempre um mar aberto de convivência, com as casas pegadas umas às outras, na correnteza da rua, tudo propício à cavaqueira que se estendia ao muro da marginal, à praça (palco privilegiado da calhandrice), aos carros da carreira onde se fazia terapia de grupo, enfim, uma vida muito partilhada e comparticipada, com uma privacidade em permanente risco de violação a pretexto de um raminho de salsa.

No campo acontecia o inverso, casas isoladas, famílias fechadas, secretas, culto da propriedade privada, forte sentimento de posse, orgulho, princípios rígidos, tento na língua. Mais solitário, passando por vezes dias inteiros a amanhar a terra, a cuidar dos animais, o homem do campo habituou-se ao monólogo, ao silêncio e ao discurso conciso, com muito mais siso do que o pexito que fala pelos cotovelos, sendo a palavra mais ligeira do que o pensamento. O camponês é reflectido, mede e pesa o que diz, é hábil, matreiro, insinuante e elíptico. A frase começa num tom que vai baixando, sinal de prudência e segurança, não desperdiçando palavras, não falando apenas por falar. É mestre na ambiguidade, nos segundos sentidos, na ironia mordaz, fina e falsamente inocente. Chega a ser um verdadeiro jogo descodificar as mensagens escondidas nos meandros do discurso pausado.

Com o êxodo dos pexitos para o campo, as diferenças poderão vir a esbater-se um pouco, mas dificilmente o nosso bom camponês se deixará influenciar pelo falar pexito que considera risível. E é notável como, a escassos quilómetros de distância, convivem dois sotaques tão vincados e diferentes.

Não me admiraria que fosse camponês o autor do provérbio que diz que pela boca morre o pexito. E, se calhar, foi o mesmo que, para simbolizar a fraternidade vila-campo, propôs a imagem de um hipocampo, híbrida e mítica criatura metade cavalo metade peixe. Na verdade, pelos tempos que correm, com o sufoco que é andar nas ruas de Sesimbra, o melhor é hipocampo…

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Publicado no n.º 32 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2004.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 16


foto tirada do blogue Sesimbra


Caneiro*

António Cagica Rapaz

– No extremo leste da nossa tranquila baía para lá da Califórnia, de onde brota a água que faz voltar quem dela bebe, fica o lugar de Argeis, vulgarmente, designado por Caneiro.

Durante anos, a maldição pairou sobre tudo quanto vinha de leste e o Caneiro era bem o símbolo dessa condenação mais ou menos velada. O saudoso dr. Caramelo costumava brincar com essa situação quando aconselhava aos seus doentes masculinos um passeio até ao Caneiro. E ria-se porque achava ridículo que as pessoas honestíssimas da nossa terra se chocassem à simples evocação de tal palavra. Diz a lenda bem recente, que mulheres de porte inequivocamente duvidoso tomavam, pela calada da noite, o rumo de leste. Com a protecção da montanha, silenciosa e escura, essas mulheres desciam à praia da Califórnia. Os homens, assobiando despreocupados, simulando um passeio inocente, aproavam igualmente a leste. Alguns ignoravam a existência das suas próprias mulheres preferindo a sórdida aventura do leste que custava dez escudos, sinal dos bons tempos da vida barata. E aquelas mulheres ali passavam noites deitadas, embora não dormissem e antes fizessem quanto bastava para arruinar a saúde dos muitos jovens que buscavam na areia cálida uma emancipação precoce, uma afirmação ilusória.

E o Caneiro ficou como símbolo da vergonhosa e clandestina corrupção nocturna aqui e ali cortada por episódicas rusgas das autoridades que terminavam, regra geral, com a fuga das pecadoras no seio da montanha. E, ali mesmo, sobre aquela areia, berço de amores de dez escudos, os homens, (os mesmos, às vezes) vinham de manhã puxar as redes com o peixe de cada dia…

Qual peste que se não detém, a maldição subiu, por sua vez, a montanha nela se instalando sob as construções que tanta celeuma têm levantado. Do escuro da noite, passou-se ao escuro do dia em que nem mesmo a luz do sol iluminou capazmente a transformação da montanha árida em complexo turístico. Os dez escudos dos negócios miseráveis na praia subiram a serra para se transformarem em milhões.

A maldição é a mesma, só que as desgraçadas que se vendiam sobre a areia se perderam na noite da vida, enquanto o progresso fez o esplendor de outros que se não perderam, antes se acharam…

E o Caneiro ficou a ver os amorosos que o procuram para encontrarem um pouco de isolamento cada vez menos possível na frequência cansativa da nossa praia.

No outro extremo, bem se esforça o Farol mas os seus raios jamais conseguirão iluminar o Caneiro, destruindo a lenda dos seus sórdidos negócios.

Hoje, os homens que vão a leste não assobiam baixinho nem procuram disfarçar. Deslocam-se nos seus belos automóveis e até gostam que os vejam. E as rochas do Caneiro continuam sem cair…

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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.

terça-feira, 15 de junho de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 8

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Participou num concurso de circunstâncias e era das mais "tâncias" que lá apareceram...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 14 de junho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 15


Celestina

António Cagica Rapaz

O tio Mário fazia-me lembrar um velho chefe índio, sereno, imperturbável, de falas suaves, linguagem codificada, lacónico e discreto. Gostava de nos tratar por sócio e tinha uns olhos azuis profundos e inteligentes.

Eu gostava de ir ao sócio comer marisco, dar um beijinho à tia Mariana, trocar duas palavras com a Celestina que tinha sempre uma piscadela de olho maliciosa quando eu aparecia acompanhado.

A partir de certa altura habituei-me a ver por lá uma menina linda como os amores, cor de chocolate, com uns olhos de cigana feiticeira e um sorriso maroto de manhã de sol na Primavera.
A Silvana foi crescendo, bonita e encantadora, priminha linda que era um encanto...

A Celestina sempre teve uma sensibilidade desperta para as coisas belas e procura alargar os seus horizontes espirituais. De vez em quando escreve com suavidade e emoção, de forma singela e sentida. Há anos lancei um repto ao Manel António para se juntar a nós nesta cruzada inocente e sem pretensão, deixando ir à via a barca da nossa memória fugidia. O Manel não reagiu, mas a Celestina pegou no tema e mandou umas linhas cheias de ternura ao “chamador das ruas do silêncio”, evocando o universo da nossa rua dos Pescadores, um pôr do sol naquele cantinho onde ecoam os tamancos do Tá. Com ela recordo e reencontro o apelo do mar, ecos de fados da Amália, destroços de vendavais medonhos, as mil coisas que constituem uma espécie de inconsciente colectivo partilhado por uns quantos líricos que teimam em gostar do mar, da quietude do crepúsculo e de caminhar na praia em tardes de sábado ao sol minguante do Inverno.

Admirável Celestina que resiste a tanta adversidade, suportando a dor infinita da perda da Silvana, a filha em quem se revia, em quem renascia, unidas para além do amor, numa cumplicidade maravilhosa sob o olhar tranquilo do tio Mário, abençoada pelo mar que vinha beijar a Pedra Alta, em cada manhã, em marés cheias de uma felicidade que parecia eterna.

A Celestina pôs nos cabelos a espuma do mar, continua digna e bela, luta, reage, anda de cabeça erguida, só se inclinando, no silêncio da Capela, aos pés do Senhor das Chagas...

1996

domingo, 13 de junho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 15

no 66.º aniversário do nascimento de António Cagica Rapaz...





Junho*

António Cagica Rapaz

Agora posso dizer-vos, já passou, já não tem importância, já não vão a tempo. Imaginem que apanhei toda a gente distraída e fiz cinquenta anos. Claro, é exagero, imagem distorcida, ninguém faz assim, do pé para a mão, cinquenta anos de uma vez só como quem faz treze no totobola. Vamos fazendo ano após ano, adicionando, coleccionando, empilhando como os cubos que, em menino, vamos colocando uns sobre os outros, com tacto, com jeitinho, mais um, outro ainda, só mais este, até vir tudo por ali abaixo.

No fundo nós não fazemos anos, eles é que nos fazem velhos, gordos, carecas, engelhados, acabados. Eles passam por nós, marcam-nos, carimbam-nos, dão-nos pontapés para a cova e nós, pobres patetas, sorrimos, sopramos velas idiotas, batemos palminhas atabalhoadas e aceitamos parabéns como se tivéssemos algum mérito.

A verdade é que nascemos sem saber como, não é por iniciativa nossa, não nos cabe qualquer responsabilidade nem merecimento. Mandam-nos vir, às vezes sem querer, e depois contentamo-nos em andar por cá até chegar a nossa hora. E em regra voltamos a não ter voto na matéria, ninguém nos pede opinião nem concordância. Nessa altura já não são parabéns mas pêsames e não é a nós que são dados. Resta saber se não deveria ser ao contrário quando partir é um alívio…

Enquanto vivemos passamos pelo dia de anos como os jogadores de monopólio passam pela casinha da partida e lá arrancamos para nova corrida, nova viagem. Não adianta correr, podemos ficar sentados à beira da estrada, o tempo passa implacável e exacto até nos cair em cima, no dia dos anos, no dia de Natal, em cada passagem do ano, em cada barba frente ao espelho, em cada renovação do bilhete de identidade, em cada uma das mil ocasiões que o malvado tem para nos lembrar que estamos condenados.

Por tudo isto e por outras razões nunca liguei grande importância ao facto de, como se diz, fazer anos. O dia dos anos é outra coisa, pode dar lugar a outras considerações já que há dias e
dias, uns mais sonantes que outros. Por exemplo, 25 faz logo pensar em Dezembro ou Abril e nenhum deles é banal nem anódino.

Eu nasci a 13, número que está ligado a toda uma série de presunções, preconceitos e sentimentos relativos a superstições e preocupações mais ou menos metafísicas. Foi em Junho, há meia dúzia de dias, quem havia de dizer, não querem lá ver, parece «mintira», vejam lá vocês, ainda não estou em mim… e logo no dia de Santo António.

Parabéns mereceu a minha mãe por ter esperado pelas três da manhã e dar à luz da fogueira, na bela noite e já em dia de Santo António. Se calhar também tive algum mérito, ganhando tempo, não me apressando para sair, o que me evitou ter nascido a 12. Não é snobismo, mas 12 é apenas a véspera de 13 e uma véspera só existe à sombra do dia seguinte. Sem o d ia seguinte não haveria véspera, é evidente. Todavia a véspera de um dia é, por sua vez, o dia seguinte de outra véspera. E assim por diante ou por aí fora «per omnia secula seculorum», conforme dizia o nosso Padre João para nós rematarmos, certinhos e em coro, «amen».

Apesar destas reticências todas, eu gosto do dia dos meus anos e que não é o mesmo que gostar do meu dia de anos. Menino Hélio, está a perceber a diferença? Bom, adiante…

E gosto do dia dos meus anos porque é (como talvez já tenha dito, não sei) dia de santo António, o mais querido dos santos populares, não me levem os outros a mal.

Tal como os três mosqueteiros, os santos populares também são quatro pois não convém esquecer o São Marçal que é o último a chegar, sendo o meu o primeiro neste mês de Junho que, para mim, é o mais belo do ano. Maio é a festa das Chagas, a procissão, o arraial, o carrocel, os carrinhos, as farturas, a roupa estreada, a emoção do Senhor de braços abertos virados para o mar no largo da Marinha. Maio é ainda a quinta-feira de espiga, o trigo, as papoilas, o raminho de Oliveira, a peregrinação ao campo.

Junho era a transição para o Verão, o fim da escola, quando as professoras mandavam fazer em casa oitenta cópias, setenta ditados e mil cento e onze problemas durante os três meses e férias.

Junho, nas minhas recordações, cheira a alecrim, alfazema e rosmaninho. E a rua era de todos, os que estavam e os que passavam. Era porventura o mais bonito quadro de Sesimbra, franqueza e fraternidade à volta da fogueira, generosidade e bons petiscos, rasgos de polvo, sardinha assada e caldeirada entre os balões, os arcos, as bóias, os remos, os altares, o mar e a terra, o divino e o pagão, sonho de noites de Verão.

Talvez não fosse bem assim, talvez não fosse sempre assim, mas é o que quero conservar e por isso gosto do dia de Santo António e do mês de Junho.

Junho era conversa nos poiais, banquinhos à porta, calhandrice preguiçosa e saborosa, janelas abertas, o céu por tecto. Cada rua é um pátio, lá vai Lisboa, ó noite de Santo António!

Ficou em muitos de nós a imagem dos presépios em que se transformavam as ruas, cada uma com as suas figurinhas de barro, cada uma no seu lugar, à porta, à janela, à volta da fogueira, cada um tratando do seu cantinho, do seu poial, do seu passeio, brincando às casinhas, partilhando o espaço perfumado com alecrim, participando na festa, na cantiga da rua.

Junho tem o dia mais longo do ano, as noites são mornas, a torreira do sol é para mais tarde, a brisa é suave e, ao longe, ouve-se o eco do Ribolé.

Ainda hoje não é difícil ir à serra apanhar alecrim, alfazema e rosmaninho, a ruas enfeitadas e a fogueiras. Talvez o Eduardo se lembre que me está a dever uma posta de cherne desde o Verão passado, talvez o Zé António chegue da Alemanha a tempo, talvez o Valdemar se junte ao Rafael Piló e ao Dr. David Sequerra para uma finta de corpo e um passe em profundidade. E talvez, sobretudo, nos apercebamos de que mais um ano passou e que, durante esse tempo, fizemos isto e aquilo e até fizemos anos.

Mas não nos juntámos como combinámos, não nos escrevemos, não telefonámos, não foi por mal, é assim, é a vida, não calhou. Felizmente resta-nos a praça, a marginal, o muro, para nos cruzarmos e trocarmos frases soltas à esquina do tempo que passa por nós e nos dá a ilusão de que somos nós a fazer os anos.

E depois o tempo, os anos, a vida tem os seus meninos bonitos, as suas preferências e conserva o sorriso luminoso e a eterna juventude ao Zacarias, dá vigor ao Gil, esse adorador do mar, enquanto o Capitão Domingos vigia as jogatanas naquele largo onde o Helder colocou uma Pedra Alta na loja da minha tia Francisca e onde o Tony exibe, graças a Deus, o fulgor e a vitalidade que muitas noites de Julho lhe deram.

E é assim, António Luís, filho do ponta-esquerda Joel e neto do velho Fartura e, como eu, freguês do 13.

Já agora, e aqui entre nós, o cúmulo seria o 13 ter nascido a 14. Dá cá 12!!!

Não vos peço um tostãozinho para o Santo António, mas espero que ele me inspire. Desta já eu me safei, mas em Julho não faço anos e preciso de uma ideia para outra crónica. A menos que meta férias… Ora aí está uma boa ideia, obrigado Santo António!

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*Publicado originalmente na edição de Junho de 1994 de O Sesimbrense.

sábado, 12 de junho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 14

no décimo aniversário do lançamento de Noventa e Tal Contos...



Maria Amália

António Cagica Rapaz


A casa mais alta das Caixas pertencia à tia Maria Come-Figos que reinava na aldeia com o peso da sua autoridade e da sua imponência física. Era a madrasta da minha mãe e a minha avó do campo. Em Sesimbra tinha a minha avó Sabina, pequenina, consumida pelos desgostos, gasta pela vida...

A nossa casinha ficava perto da grande mansão da tia Maria e de frente para a estrada da qual nos separava o terreno do tio Meano que possuía o mais belo galo que ainda vi. Encostada ao palheiro do tio Meano esteve, durante anos, uma roda de carroça que era a primeira coisa que eu procurava com os olhos mal saltava da camioneta que o Pintassilgo parava à porta do Baratinha. Aquela roda era o tempo parado, relógio sem ponteiros, âncora lançada no mar da tranquilidade, o campo sem outra referência que não fosse o sol, o ritmo natural dos dias e das noites, carroças sonolentas, burros de passo curto, moinhos sem pressas, noites infinitas de céu estrelado...

Se a tia Maria era a rainha, a princesa era certamente a Maria Amália, afilhada da minha mãe e a cara mais bonita da aldeia. Bela moça trigueira, faces rosadas, olhos marotos, a Maria Amália parecia sair de um calendário antigo, ceifeira de chapéu de palha e lenço vermelho. Com os meus oito ou nove anos, eu via nela um fruto autêntico da terra, feito de trigo maduro, de sol cor de romã, de uva generosa, de bom pão amassado com amor e cozido em forno de tijolo moreno.

Nos bailes do Baratinha, a Maria Amália e o Licínio formavam um belo par, dava gosto vê-los, jovens, bonitos, felizes. A morte teve ciúmes e levou o Licínio, cedo de mais.

Ali a dois passos do salão de baile, parava a camioneta, ao fim da tarde e o meu pai descia, fardado de branco. Eu ia esperá-lo, feliz e orgulhoso. À noite, sentávamo-nos na rua e eram as narrativas, as odisseias a bordo do Bartolomeu Dias, a fascinação sob um céu de mil estrelas, à luz de um copo do nosso vinho feito de uva pisada no lagar do Tio Justino. Muitas vezes devo ter adormecido, exausto pela faina dos Torrões, pela brincadeira com o Julinho, embalado pela voz do meu pai e talvez a sonhar com a Maria Amália...

1992


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fac-simile do convite para o lançamento de Noventa e Tal Contos, em 12 de Junho de 2000

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 11

as crónicas da Eventos...


A nossa rua*

António Cagica Rapaz

À euforia do Carnaval seguiam-se o recolhimento da Quaresma e a celebração festiva da Páscoa. Breve nos começavam a chegar os cânticos distantes das novenas que prenunciavam os preparativos para a subida do Senhor das Chagas da capela até à Igreja Matriz de onde, ainda hoje, continua a sair no dia da procissão.

Mal os carrinhos e o carrossel abalavam, e já as atenções se viravam para a decoração das ruas, manifestação em que o carácter religioso e o ritual pagão se misturavam naquela atmosfera tão especial que representava o ponto mais alto da confraternização entre a gente da nossa terra.

As ruas de Sesimbra eram, décadas atrás, espaços com vida e identidade próprias. Cada uma tinha a sua personalidade, nome e, até, alcunha, como a rua do Saco, a rua de Alfenim, a rua do Norte, a rua do Forno. Por vezes, eram marcadas pela figura de moradores mais notáveis, como a rua da Lucinda…

Noutro tempo, as gerações sucediam-se, na mesma casa, na mesma rua onde cada um tinha as suas raízes, as suas âncoras, as suas marcas, as suas referências, o seu cantinho, o seu poial, a sua porta, conservando pela vida fora a memória de uma janela, do canto de um rouxinol, de um vaso de sardinheiras, de sol, de sombra, de mar, de vendaval, de vozes, de gritos, de gargalhadas, de choros, de cheiros, dos mil sinais de vida que enchiam o universo aconchegado que era a nossa rua.

Embora houvesse uma competição para a atribuição de prémios, talvez a decoração não constituísse o aspecto mais relevante das festividades. A verdadeira essência, o traço mais marcante seria, porventura, o clima de fraternidade, por um lado suscitado pela circunstância, mas realmente gerado pelos laços de amizade entre os moradores, fraternidade consolidada ao longo dos anos à sombra suave do Verão, em manhãs de sol de Inverno, em sardinhadas à porta, em intermináveis noites de calor, com o luar a espelhar o mar…

Os santos populares pelavam-se por esta quadra de convívio à volta das fogueiras, mas, lá bem no fundo, talvez esse culto prazenteiro fosse apenas o pretexto. Por razões misteriosas, vindas do fundo do tempo, é bem possível que a verdadeira força criadora, o impulso e o apelo brotassem da própria rua, de cada casa, de cada janela entreaberta, de cada poial que convidava à conversa, à partilha de um petisco, à vontade de saborear a amizade. E esse sentimento acabava por se estender a outras ruas, espécie de energia positiva, de brisa de ternura que envolvia a boa gente da nossa Sesimbra.

No fundo, a saudade que temos dos festejos dos Santos Populares talvez resida menos nas cantigas à volta das fogueiras, no perfume do alecrim, no fulgor dos balões, do que na imagem poética e idealizada da felicidade singela que se lia no rosto de cada um, à sua porta, oferecendo aos amigos, aos vizinhos e aos passantes, um pedaço de polvo, um copo de vinho, um instante de fraternidade.

Nos seus pequenos e modestos altares, o Santo António e o S. João contemplavam, sorrindo, a confraternização e a partilha, a mesa posta e oferecida, em cada rua que, por alguns dias, se transformava num verdadeiro presépio onde os pastores davam lugar aos pescadores, cada um com as suas oferendas. Afinal, com a bênção longínqua do Senhor das Chagas e a cumplicidade dos santinhos populares, as ruas não eram mero objecto, simples e passivo palco das nossas manifestações. Em verdade e pelo contrário, elas eram berço e fonte de inspiração, e enfeitavam, com alecrim, rosmaninho e amor, as nossas almas, os nossos corações.

Talvez por isso, com a idade e a melancolia que ela traz consigo, os velhos do mar que nós somos se vão chegando, de mansinho, ao muro, como barcos em busca do abrigo do porto. Perto da nossa rua…

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Publicado no n.º 19 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2002.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 14


Cinquenta*

António Cagica Rapaz

Cinquenta cópias, trinta ditados, oitenta problemas – era a tabela, a remessa para os três meses de férias, a imensidão do Verão à torreira do sol, a eternidade pela frente.

Pulando e rindo, as batas brancas deixaram para trás as grades da escola Conde de Ferreira, gritos de liberdade, fim de pesadelo, o apelo do mar, o ronco longínquo e dolente de uma barca, o cântico das gaivotas e o eco metálico dos martelos dos carpinteiros navais, na doca. Era Junho, acabava a escola, começava o Verão, a vida…

Cada mês tem para nós um significado, evoca qualquer coisa, inspira algum sentimento, traz consigo determinadas imagens. Por outro lado, habituámo-nos a eles e nem os olhamos com atenção, não reparamos que Setembro tem 7 na raiz, como Outubro tem 8, enquanto Novembro e Dezembro não podem esconder nove e dez.

No entanto faltam dois nesta contagem, pois Setembro não é o sétimo mas o nono mês do ano. Já tinham reparado nisto? Eu confesso que, apesar de gostar destas coisas, só há pouco tempo me apercebi da curiosidade. Mais confesso que não aprofundei a questão, não procurei a explicação. Olhem, aqui fica um desafio para os nossos leitores com mais tempo, em férias ou reformados. Em vez dos ditados, das cópias e dos problemas do caderno 1.111, deixo-vos o enigma dos quatro últimos meses do ano que levam duas casinhas de avanço no jogo da Glória do calendário…

Ah, as cinquenta, as oitenta, sei lá quantas cópias! Saíamos felizes da escola e logo no jardim, fazíamos planos. Os mais estudiosos, mais bem comportadinhos, de risco ao lado e bata limpinha, tratavam de afirmar que se atirariam de imediato ao trabalho, só começando verdadeiramente as férias quando tudo estivesse concluído e arrumadinho, em cima da mesinha do quarto, ao lado das colecções do Condor Popular, da Colecção Tigre, dos Sandokans e d’Os Cinco, lindos meninos. A maioria propunha-se ir fazendo, hoje uma cópia, amanhã um ditado, depois um problema de esteres e decasteres, assim, aos poucos, devagarinho, entre dois mergulhos, uma pescaria aos gavozes, no intervalo das jogatanas em frente à escola de Santa Joana...

E acabávamos por deixar tudo para a última semana de Setembro, quando já cheirava a Outono e o nevoeiro descia a serra para nosso contentamento, fartos de sol e calor e desejosos de vestir uma camisola grossa.

Outubro chegava e as batas brancas voltavam à Conde de Ferreira, enfiadas e comprometidas. “Fizeste as cópias? – Eu cá não, e tu? – Eu também não.”

Era meio alívio, culpa partilhada e diluída, mas lá vinha sempre um de risco ao lado, brilhantina e sorrisinho pérfido: “Eu fiz tudo, cópias, ditados e problemas. E mais um exercício de caligrafia!”

– “Maricas” – atirava-lhe o Clemente, irmão do Zacarias e cunhado do Maquino. O António Rodrigues Clemente morava na Fonte Nova e tinha uma pasta muito grande, apesar de pouco ligar aos livros. Gostava mais de bola e do Belenenses. Uma vez, na terceira classe, com a Dona Ernestina, teve uma paciência infinita para ir apanhando moscas, uma a uma, que enfiou na boca que o Alfredo costumava ter aberta. Este Alfredo distinguir-se-ia, mais tarde, por usar uma popa à Henrique Mendes..

Ah, como tudo isso vai longe, o Clemente a passar à minha porta, rua do Forno fora, morava eu na Rua da Fé. E lá seguíamos até à esquina do Fonseca em, busca da dona Emilinha e, depois, da Dona Ernestina Cifuentes.

O Clemente era da seita da Fonte Nova cujo chefe era o Cófinhas. Menos aventureiros eram o António Sebastião Vieira Fidalgo e o Carlos Manuel Ribeiro Carapinha, belenenses também, como eu era nessa idade ingénua.

O Fidalgo está na Suíça, o Clemente está de castigo a fazer as cópias todas, algures, no Céu ou no purgatório, não sei, deixou-nos há uns anos. O Carapinha continua perito na arte de cortar cabelos e de filosofar sobre política. Tem dons oratórios que se inscrevem na boa tradição do mestre Adelino e quem o garante é o Coronel Zé Arada a quem, para ser totalmente pexito, só falta um quinto do sotaque que a Mimi conserva em banho-maria…

Junho era assim, mas era sobretudo o mês dos santos populares. Não é possível escrever em Junho (e menos ainda sobre Junho) sem evocar o universo mágico das ruas enfeitadas, a sombra perfumada com alecrim, rua que passava a ser espaço comum, a casa de todos, de dia e de noite, até de madrugada. Há, assim, alturas do ano, o Natal, um pouco a Páscoa, e em especial o mês de Junho, em que se dilui a consciência do real, em que somos de todos os tempos, passado e presente misturados, momentos estranhos de alegria, melancolia e saudade.

E damos por nós a sorrir, com certa tristeza, diante de uma rua enfeitada com flores de plástico, sem alecrim nem rosmaninho. Em cima do passeio, carros, no meio da rua uma família a comer caldeirada e a ouvir música pimba, em altos berros, letras alarves, ostentação e mau gosto. É o que há, e é bem triste. E feio.

Ficamos com vontade de ir à serra, apanhar braçadas de alecrim, fazer uma fogueira, assar rodelas de polvo, juntar os amigos e ouvir com respeito e encanto a Dona Amália garantir que, enquanto houver Santo António, enquanto houver arraiais, Lisboa não morre mais.

Se calhar aparece algum Rover para estacionar à porta de casa ou alguma mota de ronco ensurdecedor. Se calhar já não há alecrim na serra e, mesmo os santos, por mais populares e pacientes que sejam, já perderam as ilusões…

Mas Junho volta, volta sempre. E lá acabamos por saltar a fogueira do temo a espalhar no mar as cinzas da saudade, inevitavelmente. É assim Junho, irresistível sortilégio. Por isso cá continuo a fazer, todos os meses, estas cópias que aqui vos entrego, trabalho de casa, por mim ditado. Não consegui fazer todos os problemas do caderno da vida, tenho muitos ainda por resolver.

Desde Maio de 92, esta é a quinquagésima cópia, missão cumprida. E comprida…

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*Publicado originalmente na edição de Junho de 1996 de O Sesimbrense.

terça-feira, 8 de junho de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 7



Se a mágoa magoa, a tábua tá boa?
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 7 de junho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 13




A Festa das Chagas

António Cagica Rapaz

- Olha, o carrocel oito já chegou...

Os paus havia muito que tinham sido erguidos na avenida e as novenas estavam a chegar ao fim. Os miúdos mal se tinham apercebido de que o Senhor já tinha ido para cima, ansiosos e excitados que andavam, com os olhos postos na curva do Desportivo, junto ao ribeiro, na esperança de ver aparecer o primeiro camião carregado com o material para montar o Carrocel Ribatejano ou os carrinhos.

Era, porventura, o período mais apaixonante da festa, com os rapazolas a acompanharem de perto, mal saíam da escola, a montagem dos carrocéis, os motores potentes, as cadeiras, os bichos de madeira, todo um universo de sonho e mistério a crescer ali sob os seus olhos deslumbrados.

Em frente à escola de Santa Joana, aquele mesmo espaço onde jogávamos à bola, era posto à disposição do gigantesco carrocel oito, com as suas calhas entrelaçadas e sobrepostas, e com a bola de coiro pendurada em que os mais calmeirões aplicavam murros em cada passagem, à semelhança dos pugilistas quando treinam.

O Carrocel Ribatejano instalava-se ao lado, junto à escola feminina, e o dono, todo janota, repetia monocordicamente “Nova corrida, nova viagem, não subir nem descer com o carrocel em movimento, deixem parar fazem favor”.

Aos poucos o arraial ia ganhando forma, com as barracas, o poço da morte, os carrocéis, a música e as luzes que prolongavam o dia em noites mágicas.

- Ó simpático, vai um tirinho?

Era o convite malicioso, carregado de segundos sentidos, no olhar e no sorriso de mulheres provocantes, muito pintadas. Os mais novos mal se atreviam a aproximar daquelas barracas de perdição onde os adultos armavam em atiradores de elite, gastavam com ostentação, afinavam a pontaria, machos engatatões e fanfarrões.

As mulherzinhas das guloseimas passavam o tempo sentadas à espera que alguém tivesse a bondade de comprar um pacote de queijadas. Algumas metiam-me pena, coitadas, ali encolhidas, mal merecendo um olhar das pessoas que passavam, indiferentes. Outras não tinham mãos a medir na venda de algodão doce, pinhoadas e farturas.

Dos altifalantes jorrava música abundante e ensurdecedora, Ai Jalisco, Jalisco, Jalisco, tu tienes un’ nobia que es Guadalajara, aqui e ali um foguete, era Sesimbra em festa, dias abençoados de euforia colectiva, fatinhos a estrear, mealheiros a partir, para muitas voltas nos carrinhos e no carrocel.

No panorama das festividades populares da nossa terra, a Festa das Chagas sempre teve um estatuto e um clima muito especiais, associando, de alguma maneira, o recolhimento da Páscoa e a excitação do Carnaval, naquela mistura contagiante de devoção religiosa e de divertimento pagão. Por um lado, o silêncio contrito da capela, a emoção da procissão, o cumprimento das promessas, pés descalços atrás do andor, e, por outro, a preocupação dos vestidos novos, a exuberância das colchas nas janelas, a ostentação das incontáveis viagens nos carrinhos, as mil coisas inúteis compradas no arraial, as mariscadas pelos cafés e os petiscos no pavilhão dos Bombeiros.

Era uma dualidade curiosa, com a vila, de cabeça no chão, comovida e silenciosa, atrás do Senhor, para logo procurar a animação do arraial, o estrondo dos foguetes, de braço dado, avenida acima, carrocel abaixo, catrapiscando este, namoriscando aquela, ai Jalisco, Jalisco...

O largo do jardim era a antecâmara, e o coreto ali armado era outro pólo de atracção, com a exibição da Banda que, também ela, participava desta ambivalência, acompanhando recatadamente o Senhor através da vila, passo lento e arrastado, acordes pausados, no mesmo ritmo letárgico dos meninos da fragata D. Fernando, soldadinhos tristes de chumbo com tambor e cornetim. Mais tarde, a mesma Banda espevitava e atacava, com brio e jovialidade, trechos animados pela noite fora enquanto os miúdos adormeciam ao colo das mães, vencidos pelo sono, pelo cansaço, com a cabeça à roda e a barriga cheia de guloseimas.

Regressado à capela, o Senhor das Chagas só descansava quando o último camião abalava Santana acima, rumo a outra feira onde outros meninos estariam na mesma febrilidade que nós sentíamos em cada véspera de Maio. O desmanchar da feira trazia de volta a melancolia da quarta-feira de cinzas, era como desfazer o presépio. As crianças olhavam para o chão, as ervas pisadas, o local onde, poucas horas antes, estivera o carrocel, e mal queriam acreditar. Felizmente, a nossa tristeza durava pouco porque logo começavam os preparativos para enfeitar as ruas.

Perdiam-se ao longe os silvos das sirenes das traineiras ancoradas, o roncar das motas no poço da morte, a música e a lengalenga de nova corrida, nova viagem. Sesimbra já só pensava nos santos populares. E o Santo António é sempre o primeiro...

2000

sexta-feira, 4 de junho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 10

as crónicas da Eventos...


Musicantiga

António Cagica Rapaz

Não sei como chega aos compositores a inspiração, talvez seja sob a forma de melodia que se põe a bailar diante deles e se insinua nos seus ouvidos, vinda sabe-se lá de onde, dádiva de musa na génese da música…

A minha música é outra, é mais letra, fragmentos prosaicos, mosaicos de prosa, arabescos e arremedos de poesia com que, às vezes, me surpreendem palavras que escrevo. Em alguns casos é o ritmo, quando a harmonia suave de uma frase mais feliz acontece para meu contentamento. Noutras ocasiões são ideias, palavras ou expressões geradas num beco escuso do meu cérebro imprevisível que me caem nas mãos, deixando-me interdito, olhando em volta, dizendo para mim mesmo que talvez seja aproveitável, talvez dê alguma coisa, embora eu, naquele momento, não saiba o quê nem como. Quando acontece ter por perto um amigo, ainda posso obter dele uma primeira avaliação sobre o duvidoso mérito do meu achado, e foi o que sucedeu quando, há tempo, alvoroçado como um garoto que acaba de descobrir um ninho, comuniquei ao Pedro Martins que dera à luz uma palavra nova, musicantiga.

Generoso e condescendente, apadrinhou esta aglutinação de música, antiga, musa e cantiga. Depois, ficámos assim, ele foi à sua vida, eu guardei no bolso o compósito vocábulo e não voltei a pensar no assunto. Até que, há dias, o Pedro quis saber em que tom estava eu a ensaiar a musicantiga. Fiquei embarcado como um aluno que não fez os trabalhos de casa, e mal consegui balbuciar uma promessa desafinada de tentar dar corpo à ideia, desenvolver o conceito, fazer variações sobre o tema. E mais não disse…

Depois, senti-me na obrigação de respeitar o compromisso e sentei-me a reflectir, enquanto os passarinhos cantavam nos sobreiros frondosos da Aiana, na magia do entardecer. E os pássaros segredaram-me que a música que nos acompanha, está ligada a bons e maus momentos, desde a nossa meninice, com os sons da Natureza, o murmúrio doce das vagas, o assobio distante do vento, o chilrear dos pardais, os trinados de pintassilgos e rouxinóis nas gaiolas que alegravam as ruas frescas de Sesimbra em manhãs de Primavera. Nessas mesmas ruas, nas tabernas, ouvia-se o fado, a rádio era nossa companheira. Da alegria que nos dava, da saudade que deixava…

No fundo, talvez não seja errado pensar que a música vale pela melodia e pela emoção que em nós desperta, ficando associada a acontecimentos e fases da nossa vida, fazendo-nos muitas vezes sentir transportados no tempo, unicamente ao ouvirmos uma canção. Graças à tecnologia, a música e os seus intérpretes nunca morrem, e o verdadeiro milagre reside na sua capacidade de recriar uma atmosfera longínqua, resgatar um mundo distante, recompro um universo perdido…

Em Sesimbra sempre se cantou e dançou, à volta das fogueiras, nos bailes de Verão e pelo Carnaval. Havia espectáculos de variedades no salão da Vila Amália, vinham ao Parque as “Vozes de Portugal”, o Julião Benedito foi corpo e alma de uma bela revista, cantava-se pelas ruas, no Espadarte Clube, no Chagas, no Ribolé, os Galés e os Zambras animaram verões inesquecíveis nos anos sessenta e o Forno foi um marco na história das noites de Sesimbra.

No campo, havia os bailes coloridos da Quintola, na 5.ª feira de espiga, e no salão do Joaquim do Moinho, em 26 de Dezembro. Sem esquecer os bucólicos bailes “à do Baratinha”, nas Caixas, animados por um melancólico tocador que chegava e partia, de bicicleta, com o acordeão às costas.

Os anos sessenta foram um período de ouro na música nacional e mundial, com a viragem que começou no “Vou dar de beber à dor” até ao zénite que a carreira de Amália atingiu na fase dos grandes poetas e da música do fiel Alain. Foi também a afirmação de novos talentos como Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, José Mário Branco, Sérgio Godinho, José Afonso.

Lá de fora, chegavam-nos o génio insuperável dos Beatles, a voz única de Sinatra, a originalidade dos modelos dos Zambras (Bee Gees), a delícia da bossa nova, Vinicius de Moraes e António Carlos Jobim, o calor de Tom Jones, a sedução do “soul”, com Otis Redding, Aretha Franklin e outros. Não sei se a música antiga era melhor, nem isso é importante. E o que é música antiga? Sabemos apenas que há músicas que perduram. Sabemos que gostamos mais de certas músicas. Sabemos ainda que algumas fazem parte das nossas vidas.

Por acaso, muitas não são recentes, são antigas. E gostamos delas porque gostamos, é apenas isso. O resto é cantiga…

Há muitos anos, na escola, as raparigas costumavam cantar de roda, nos recreios. E, enquanto saltavam à corda, cantarolavam “Pomba, pimba, laranja, limão”. A pomba perdeu-se no céu longínquo da nossa juventude, perseguida por gaivotas portadoras de sinais nefastos, vendavais da vida. A laranja murchou na árvore do tempo. O limão deixou-nos na boca o sabor amargo da nostalgia. Ficou-nos a pimba, que não é música, é apenas uma coisa de que alguns têm o direito de gostar…

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*Publicado no n.º 14 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2001.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 13

Galhofa*

António Cagica Rapaz

– Boa tarde, ó mestre! Este caminho vai pra Sesimbra? E o Galhofa, que fora a Grândola ver jogar o Desportivo, tomou lugar na carroça que tem conhecido mais fama que uma diligência do fabuloso Far-West. Ao longo da sua narrativa, o Galhofa aparece a puxar a carroça, o burro ao lado do homem, depois o burro atrás, o homem a puxar e o Galhofa ao lado da mulher… Uma baralhada dos diabos.

O Galhofa tira a boina, lança-a contra a mesa e ameaça retirar-se. O Rafael, pachorrento, agarra-o pelo braço e obriga-o a ficar. O Rafael não se ri. Pede-lhe para recomeçar a narrativa. Ele aí vai outra vez:

– Boa tarde, ó mestre!

Depois, é a história do catre, a passagem dos muges, a ida à tropa, e tantas outras. O Galhofa canta o fado, imita um bêbado na perfeição e faz-nos bem ao fígado. A todos menos ao Rafael que puxa por ele e nunca se ri…

Junho de 1974

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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica «Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite».

terça-feira, 1 de junho de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 6


Era um empregado de sapataria muito autoritário. Quando lhe disse que o sapato estava apertado, foi buscar outro, e disse-me: "Calce-o". E eu calei-me...
António Cagica Rapaz


[da série Coisas]

segunda-feira, 31 de maio de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 12


Nevoeiro

António Cagica Rapaz

Os primeiros ruídos chegam-me distantes, abafados pelo nevoeiro que nasce no mar e se estende pela serra acima. É uma daquelas manhãs preguiçosas, arrastadas, em que, depois do pequeno almoço, apetece voltar para a cama, deixando que lá fora o mundo prossiga a sua marcha sem se preocupar connosco, a gente já vai, é só mais um bocadinho...

Ao sair para a escola deparo com o tio Zé David ali à minha porta, na rua Monteiro, a dar instruções ao seu pessoal que vem arranjar o passeio um tanto maltratado pelas chuvadas do mês passado. As camionetas do Covas e do “Caretas” ainda não passam na minha rua, ficam-se pelo largo da igreja de cima onde a “Ginjinha Coelho” é o ponto de encontro, o porto de abrigo e a torre de controlo da operação rodoviária. O tio Chico da Cooperativa é o faroleiro que instalou o relógio de ponto para viajantes, motoristas, cobradores, revisores, moços de fretes, todo um mundo que se agita à sua volta. A minha mãe é uma especialista, chega sempre atrasada porque, depois de fechar a porta de casa à chave, ainda volta atrás uma ou duas vezes para se assegurar de que ficou bem fechada. Claro, depois chega lá a cima a deitar os bofes pela boca, com o meu pai impaciente e o carro em cima das sete, às aceleradelas, mais do que pronto para arrancar.

O tio Zé David vem das Pedreiras acompanhado pelo seu pessoal, tudo gente do campo. É um tempo vagaroso, sem pressas, com a lentidão do nevoeiro que, de mansinho, desce sobre a vila, envolvendo a fortaleza e o castelo no seu manto cinzento, macio e denso como um cobertor de papa. A Judite lá vai, com o café e a carcaça para o Jaquim Ruço que está na loja a encher bóias. Lentamente, os homens encostam os carrinhos de mão à parede e deles tiram pás, picaretas, martelos, maços, vassouras, areia, todo um arsenal de ferramentas, utensílios e apetrechos que me deixam mais desejoso de ficar ali, em vez de ir fazer ditados ou resolver problemas de áreas, esteres ou metros cúbicos, na escola. Os homens da Câmara penduram a roupa no muro da minha casa enquanto a minha mãe rega as flores e me repete que já são horas de ir andando. Lá em baixo é a cordoaria, com os eucaliptos gigantescos, pegada à fábrica do gelo que fica em frente da escola de Santa Joana onde aquela malta brava, de cabelo à escovinha, ensaboa o juízo à heróica Cecília Cruz cujo vozeirão já se ouve, apesar da distância e do nevoeiro. Os homens da Câmara ainda não cuspiram nas mãos nem sequer despejaram a areia amarela que vai aconchegar os cubozinhos de pedra do meu passeio. Ah, agora sim, um já abriu a maleta de cabedal. Vai talvez tirar alguma colher de serventia. Ah, não, é uma marmita. Olha, outra, e mais outra ainda...

O mais novito vai apanhar uns pauzitos junto ao muro da escola das raparigas e começa a preparar o recanto onde há-de pôr a caldeira ao lume. Daqui a pouco um fumo suave vai elevar-se para se juntar ao nevoeiro, e tudo isto se desenrola com a lentidão de um sonho agradável, na preguiça filosófica de um tempo que se escoa ao ritmo imperturbável dos barcos a remos, dos burros, das carroças e das velas dos moinhos de vento. Admirável época esta em que há tempo para olhar em redor, colocar cada cubo de pedra no buraco de areia, devagarinho, carinhosamente, aconchegando-o com o martelo, quase com ternura. Com a mão alisa-se, sacode-se a areia, sem pressas, pedra a pedra, gesto a gesto, há todo o tempo do mundo. Lá longe, na doca, outros homens raspam o casco dos barcos, metem a estopa, cobrem com breu, pintam, conversam pela manhã adiante até acharem que é tempo de voltar a pé dessa lonjura que é o porto de abrigo para o almoço que as mulheres já puseram ao lume.

Observo esta gente rija do campo que fala a meia voz, arrastadamente. Aquele mais alto, ali, enrola tranquilamente o tabaco na mortalha e agora vai pedir um fósforo, não, agarra um pau que arde. Acende o cigarro, aspira profundamente, fecha os olhos com prazer e expele o fumo que lá vai, também ele, com lentidão, juntar-se ao nevoeiro. Já devem ser suas onze horas, não querem lá ver. E se a gente começasse a tirar daqui estas pedritas?

A minha mãe deu um ramito de hortelã ao rapaz das marmitas, enquanto do fundo do quintal chega a música do Talismã. Olha, já há marmitas a ferver. Parece mentira como o tempo passa quando se trabalha. Logo despeja-se a areia, coloca-se mais umas pedras, fuma-se um cigarrito, dá-se um jeito com o maço e depois toca a arrumar as ferramentas que se faz tarde. Subir Santana leva o seu tempo, vamos com Deus.

Nevoeiro é tempo de mistério, de sonho, de obras sem pressa, de vida tranquila que, se calhar, só existe na nossa imaginação. Na sexta-feira, com muito esforço, lá para o fim da tarde, o passeio fica pronto, infelizmente. Os homens da Câmara acabarão por arrumar as ferramentas nos carrinhos de mão e desmancha-se o presépio. Fica o passeio e a memória de um tempo...

1994

domingo, 30 de maio de 2010

TALVEZ POESIA..., 4

Vendaval

António Cagica Rapaz

Na janela do velho sótão,
Eu ficava a olhar o mar,
Gostava do vendaval.
O vento, noite e dia, assobiava
E as nuvens negras levavam
Água salgada do mar,
P’ra longe, p’ra lá da serra.
As ondas grandes, enormes,
Sempre iguais, a rebentar…
Na taberna joga-se às cartas,
Cospe-se nos dedos grossos,
Risca-se a mesa com giz.
As malhas do burro caem
Sobre as tábuas, repetidas,
Como as ondas, atrevidas,
Que chegam às escadinhas.
Os copos de vidro espesso,
O vinho, as cartas, o giz,
As ondas, o vendaval…
O tio Lúcio bebe aguardente,
Queima as entranhas e a mente.
Eu ponho areia nas tábuas
E as malhas escorregam.
Mas as ondas nunca param.
Nas escadas, ao pé da Sopa,
Os homens olham o mar.
As rugas juntam-se todas
À volta dos olhos cansados
De olhar o mar e a espuma
Que se eleva para o céu,
Um céu negro e carregado
De tormenta e amargura.
Os homens olham as cartas,
Mas elas não dizem nada.
E à noite, noite de breu
Como o céu
Que marca o destino incerto,
Ouve-se a voz do Gilberto,
Falando baixinho ao mar,
Esse mar que ele adorava
E só a ele escutava…
Guardadas foram as cartas,
O burro, as malhas, o giz,
O vendaval acabou,
Deus ouviu, Gilberto o quis.
Os barcos voltam ao mar,
A chuva no ar secou
E a espuma já não toca
As folhas da velha Sopa…

sexta-feira, 28 de maio de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 9

as crónicas da Eventos...




Sesimbra e ventos*

António Cagica Rapaz

Julho costumava trazer alguns ventos que pacificavam a canícula, brisas desgarradas que ninguém levava a sério, filhas do Mistral que sopra na Provença e do Sirocco que nos vem do Norte de África. Vento de Verão mais parecia animação programada para quebrar a monotonia de dias de sol, céu sem nuvens e água morna. De repente, um sussurro, um estremecimento quase imperceptível, uma breve agitação, um colchão de borracha que se vira, um toldo que se solta, a jangada a baloiçar, areia em remoinho, toalhas e chapéus a esvoaçar, um simulacro de pânico divertido, interlúdio comparável a um dia de nevoeiro em Agosto, pretexto para ir à gaveta buscar uma camisola impaciente, o prazer delicioso do Outono antecipado…

Mas vento mesmo é seco e frio quando dos quadrantes Norte e Leste, húmido e tenebroso quando, vindo do Sul, carrega nuvens negras de chuva roubada ao mar. O vento do Norte empurrava os pescadores para o mar, obrigando-os a procurar a protecção do muro e a rabeça incomparável do sol de Inverno. Esse vento gelado vinha da serra e abanava os eucaliptos do campo do Desportivo onde os jogadores mal chegavam a aquecer, ronhas na ginástica, aplicados só atrás da bola.

Frias eram sempre as manhãs de cada 1.º de Dezembro, com os lingrinhas fardados da Mocidade Portuguesa a tiritar, mas empertigados, de mangas arregaçadas, a Pátria podia dormir descansada, nada atemorizava aqueles heróis do mar rasinho.

O mesmo vento de rachar pedra varria a minha rua Monteiro e arrastava consigo a Judite que ia levar o café e uma carcaça ao marido, o Jaquim Ruço, que muito cedo abalara para a loja.
Depois de passar em frente do jardim, o vento era canalizado para a rua do velho salão do João Mota, fustigando os curiosos que consultavam os cartazes das fitas que, três vezes por semana, ajudavam a esquecer o vendaval e a fome. A plateia custava vinte cinco tostões, preço da evasão e do sonho…

No seu turbilhão imparável, o mesmo vento passava pelo Central, onde o sô Zé conservava as portas bem fechadas, e mal incomodava o Ribamar, mais abrigado, de costas para terra, de frente para a fortaleza. Era aí, no café do Chagas, que o Rafael, ignorando as forças dominantes que frequentavam o Central e o Grémio, se refugiava para pensar, embrulhado no fumo do cigarro, para ler no fundo da chávena de café, para falar, para ouvir os pescadores e os seus companheiros de tertúlia contestatária.

Ventos de incompreensão o exilaram no Castelo onde foi amontoando privações e solidão, mas também saber e paixão, construindo a sua imagem de investigador, filósofo, pensador, dono de uma ciência que as ameias ajudaram a conservar. O isolamento de que sofreu, sobretudo nos últimos anos da sua vida, acrescentou-lhe aquela partícula de mistério que ainda envolve a sua figura de sábio, asceta, eremita, dono de ciências concretas e ocultas, consignadas em manuscritos raros como os que se encontravam na biblioteca proibida, ferozmente protegida pelos monges de “O nome da rosa”.

O seu valor está a ser muito justa e empenhadamente reconhecido e o seu nome já se tornou uma referência e um símbolo. Infelizmente, no caso de personalidades e personagens desta dimensão, como o Rafael ou o António Telmo, a sucessão é mais do que problemática.

Quem dará continuidade ao trabalho do Rafael? Quem, neste burgo amorfo, poderá vir a ser o guardião do conhecimento, o condutor do pensamento? Nem tudo está perdido e, se maus ventos não o desviarem, há aí um jovem jurista que me parece digno do mestre…

Ventos de incúria e ganância começaram, há quarenta anos, a cavar a sepultura das espécies costeiras, com a apanha de algas para os japoneses.

Ventos de má fortuna, de políticas e compromissos de cedências obrigaram os nossos pescadores a buscar longe o que, em parte, não puderam, mas que, por outro lado, também não souberam preservar à nossa porta.

Ventos de desgraça trouxeram marés de droga, morte, degradação física e moral.

Ventos de incompetência e águas paradas de conformismo destruíram a harmonia da nossa baía.

Ventos de modernidade duvidosa, mau gosto gritante e interesses inconfessados têm acelerado a descaracterização desta nossa terra cada vez mais afogada na cova onde vamos vivendo, com vento da terra, com vento do mar, com vento do cabo, com vento da Arrábida…

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*Publicado no n.º 11 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2001.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 12


Manhã de Primavera*

António Cagica Rapaz

São onze horas. Só tenho escola logo à tarde e a minha professora é a D. Ernestina. Como já fiz os trabalhos de casa vou brincar um bocado. Em frente da minha casa fica a escola das raparigas que estão no intervalo e fazem rodas cantando quadras populares. Umas vão ao jardim da Celeste, gira o flé, flé, flá. Outras acham que rosa branca ao peito a todas vai bem, à menina Isabel olaré melhor que a ninguém.

As batas brancas, lavadas com sabão de amêndoa e enxutas ao sol, cruzam o verde dos cedros e os gritos das crianças são cânticos de vida na primavera que desponta, nos campos e nas almas.

Manhã serena, de sol ameno em céu muito azul. As traineiras já chegaram há pedaço. De vez em quando um carro passa à minha porta e lá em baixo, em frente da cordoaria, o Zé do Olho acompanha o burro carregado com as latas p’rós porcos. As mulheres começam a chegar da praça com as alcofas carregadas e a cada porta há dois dedos de conversa. E hoje há treino do Desportivo…

Já vi passar o Isidro, em fato macaco da oficina do Brandão, com o Zacarias e o Santana. Os jogadores gostam de ir ao treino e eu gosto de ver. Os pescadores até se pelam por assistir aos treinos e enquanto uns se põem à rabeça, outros preferem a frescura dos eucaliptos. E ali ficam, na galhofa, a ver os jogadores que dão voltas ao campo, largando aqui e mais logo a sua graçola quando algum faz ronha na ginástica. Segue-se um pequeno conjunto, o mister Desidério insiste com o Zacarias para ele atirar «p’rá braca», a malta regala-se e vai abrindo o apetite para o almoço que já está ao lume. Do jantar de ontem sobrou feijão com massa, chaputa frita em cima e já está que até cheira a ratos.

O bocado de linguiça vai dentro do papo-seco para um copo na taberna do Zé Carelas enquanto o mister fica ainda a treinar o Ilídio e o Palhete que nem se pode mexer. Logo à tarde há machuchas p’ra safar e a caçada a iscar. O aviso é p’rás nove…

A escola da manhã acabou. As raparigas vão para casa e algumas encontram os pais que voltam do treino. A mãe já veio à porta duas vezes, uma para pedir um raminho de salsa à vizinha do lado e outra para espreitar o marido que não deve tardar.

O mar azul é como um lago de paz. As gaivotas bóiam em frente da pedra alta e, lá longe, passa um barco de guerra. Na taberna do tio Domingos avia-se o vinho e ouve-se o fado. Os jogadores do Desportivo, de cabelo molhado do duche frio revigorante, correm para casa cheios de fome.

E eu também vou almoçar para depois ir para a escola aprender a geografia e a história e sonhar com o barco de guerra e a bola de «catechumbo»…

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*Publicado originalmente em O Sesimbrense, na rubrica «Contos da Noite Velha».

terça-feira, 25 de maio de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 5



Era um médico muito autoritário. Quando lhe perguntei que medicamento devia tomar, gritou-me: "Cálcio". E eu calei-me...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]

segunda-feira, 24 de maio de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 11




Zé Brandão

António Cagica Rapaz

O jornal que recebi exibia uma fotografia tradicional, acompanhada do habitual testemunho de gratidão. Falecera José António Preto Júnior, o nosso Zé Brandão, velho mestre de armas, coronel das Índias que conduzia as tropas pela noite fora. Companheiro bem disposto, modelo de correcção e cordialidade, deve ter-se sentido muitas vezes alvo de críticas fundadas em preconceitos postiços. Um homem daquela idade, diziam as almas piedosas e pudicas, devia era ter juízo e não andar naquelas vidas. Bem ele fez ao aproveitar os últimos anos para respirar a plenos pulmões a alegria bonacheirona da boémia singela da companha que embarcava na traineira da Marisqueira, lançava redes no Chagas e atracava no Espadarte Clube. Muitos dos que criticavam passavam as mesmas noites em convés de fumo, batendo as cartas em sintéticos de má sorte...

O Zé Brandão era o chefe de fila de uma velha guarda bem humorada e sem outra pretensão que não fosse rir e dar ao pé, sem convicções ilusórias de conquistadores de fotonovela barata.

Fica para a história local a epopeia, o mano a mano arrebatado entre o Zé Brandão e o Ernesto Corneta na rábula da peixaria e da oficina. E ficam na memória de todos nós o sorriso permanente e a figura simpática do velho mestre. O Zé Brandão continua a ser cá dos nossos...

1982

sexta-feira, 21 de maio de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 8

As crónicas da Eventos...




E co’a dor*

António Cagica Rapaz

O primeiro desafio era mais connosco próprios do que com o mar, quando tentávamos imitar os mais velhos, indo fora de pé, nadando à cão antes da braçada tímida até uma barca ancorada por perto ou na prudente proximidade da Passagem, na maré cheia.

A etapa seguinte era a ousadia da lonjura da jangada, evitando a mancha sombria dos destroços do “Numância”, para um ou outro mergulho temerário da primeira prancha ou um salto a pés da segunda.

A competição foi posterior, nos tempos da nossa Mocidade, graças à dedicação e ao entusiasmo contagiante do João Salgueiro e do Chico Batista, com os despiques coloridos entre vanguardistas A e B, a rábula inesquecível do Castanho e do Carlos Alberto, na prova de 66 metros-costas, e com a silhueta inconfundível do Fidalgo, de longe o melhor de nós, sulcando as águas, elegante no estilo, surpreendente na resistência e decisivo na rapidez.

Mas o mar era também a tentação da pesca. A minhoca comprávamo-la numa mercearia que ficava no fim da rua do Forno, de frente para o largo da Fonte Nova, e a pita era adquirida na loja do Palhinhas onde o Lucindo tinha uma paciência infinita para empatar os anzóis aos pescadores aselhas que nós éramos, mais ranhosos do que os gavozes que desdenhávamos, especializados que estávamos nos “paxões” e nas fanecas que só apareciam depois de o sol se pôr.

Era ali, algures entre a assustadora mas tentadora carcaça do “Numância” e a pedra de Zé Manel, limites para a temeridade e o espírito aventureiro da nossa guarnição constituída por corsários da Pedra Alta sem cédula nem bússola, sem sextante nem tira-linhas, apenas a paixão do mar, sem riscos nem sobressaltos, a duas braças da praia. Não longe das nossas águas, outros mais velhos já demandavam a fundura, equipados com óculos, tubo, barbatanas e espingarda com arpão mortífero.

Mais para leste, soberba e majestosa, a Fortaleza dominava a baía e mal sonhava que um dia viria a ser palco de cerimónias festivas de um Campeonato do Mundo de Caça Submarina.
Tal como nenhum de nós imaginava que aquelas pescarias rudimentares e incipientes pudessem vir a dar lugar a competições oficiais, a nível internacional, nas quais o Clube Naval de Sesimbra tão boa figura tem feito.

Com o passar dos anos, e com o mar por imutável testemunha, os vanguardistas, os pescadores à linha, os futebolistas da praia, todos envelhecemos e muitos ficaram já pelo caminho nesta competição com a morte, combate que todos perderemos, é apenas uma questão de tempo, de maré...

A morte é sempre cruel, injusta, prematura, e nunca se está preparado para ela, para a nossa ou a de alguém próximo. Todos fingimos ignorar que estamos condenados desde que nascemos, e não nos convencemos de que a nossa vez acabará por chegar. Quando atingimos uma idade mais avançada, começamos a assistir à partida de parentes e amigos, muitos dos quais tiveram um lugar importante nas nossas vidas. Juntamo-nos no funeral, trocamos meia dúzia de frases banais, por vezes até conseguimos dizer uma laracha para disfarçar e aliviar a emoção, e lá voltamos para os nossos afazeres. Porque assim tem de ser, porque a vida continua para os que ficam. Até um dia...

Quase sempre, começa por um rumor, discreto, insinuante, tímido. Há, em geral, certa forma de receio ou de relutância em referir a fonte da informação, espécie de recusa em assumir uma hipotética responsabilidade. Por isso, apenas adiantamos que ouvimos dizer já não sabemos a quem e passamos a palavra.

“Parece que quem não está nada bem é fulano”. É o rastilho, a novidade espalha-se, é tema de conversas de esquina. Depois, os dias sucedem-se, as semanas passam, a notícia perde-se ao largo, sai-nos do pensamento. Até ao capítulo seguinte. Desta vez é mais concreto, está internado, fez uma TAC, ressonância magnética ou algo com a mesma conotação inquietante. Não se conhece ainda os resultados, mas já corre com insistência a suspeita de ser coisa ruim. Segue-se novo período de silêncio...

Os amigos e conhecidos têm a sua vida para viver, não podem ficar ali no muro à espera de novas informações. Têm os seus empregos, a sua família, as suas distracções, têm pena, obviamente, mas ninguém pode viver a vida dos outros. Aliás, já lá vão dois meses e nada mais se soube. Seria realmente tão grave?

Em alguns o silêncio reacende a esperança, ao passo que para outros, morbidamente curiosos, é quase uma decepção.

Lenta e quase inconscientemente, vamos integrando a ideia, despedimo-nos um pouco em cada dia sem notícias. E mal nos apercebemos de que, enquanto o nosso amigo luta contra a morte, nós continuamos sentados na mesma esplanada onde tantas vezes conversámos, olhando o mar que ele adora. Em alguns casos, pela idade ou pela ausência de verdadeira intimidade, aceitamos quase com naturalidade, mas outros tocam-nos mais, quando são pessoas com quem partilhámos pedaços de vida, peripécias da juventude, sonhos, ideais, paixões, laços que ficaram na idade madura. Esses custa-nos mais ver partir e não os esquecemos, mesmo quando parecemos alheios, contemplando o mar, numa atitude que pode sugerir desprendimento ou indiferença. Mas não, é apenas a vida que é assim feita, que se não detém. O próprio mar, além de traiçoeiro, é infiel, serve novos senhores, barcos de recreio luxuosos, lanchas rápidas, motas-de-água vertiginosas, esquecendo as aiolas da pesca à linha, as barcas de aparelho, os nomes dos velhos pescadores. O mar é cada vez mais um condomínio aberto à exuberância de novos-ricos, a poesia já não vai ao reminho pela borda d’água. Ninguém se iluda, não restará um só nome escrito na areia, o mar apaga tudo.

Os mais chegados, os familiares directos, sofrem de outra maneira, mesmo quando procuram convencer-se de que, naquelas condições, foi melhor assim. Os outros, os que cá ficam, por enquanto, refugiam-se na contemplação do oceano antes de mergulharem na leitura de um policial da Agatha Christie ou do romance tropical do Miguel Sousa Tavares. Porque, sem esquecer, temos de continuar, temos de ir vivendo, com o mar, com o sol, com outros amigos.
Mas também com a ausência, com a saudade. E co’a dor...

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*Publicado no n.º 33 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2004.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 11




À porta do «CENTRAL»

António Cagica Rapaz

A nostalgia não é doença de velhos nem angústia de quem está longe. Apenas sucede que nós vivemos a correr sem olhar para trás. Até que um dia, cansados ou tomados de súbita consciência, paramos para reflectir. Olhamos à nossa volta e sentimo-nos estranhos, isolados, perdidos num mundo que não é o nosso, apesar de nele termos vivido dia após dia, colaborando na sua transformação.

Na nossa infância aprendemos a olhar o mundo, a descobri-lo, a penetrar nele com avidez, com a fome da descoberta, da aprendizagem. Desse universo não aprendemos senão as aparências, postais ilustrados que representam casas bonitas de cujos habitantes ignoramos tudo, as suas alegrias, as suas paixões, os seus problemas. E fica-nos uma sucessão de imagens. Umas em que há movimento, outras rígidas, impenetráveis. É assim que vemos o tempo da nossa infância, com imagens plenas, ricas, expressivas e outras sem alma, sem vida, apenas um rosto, uma paisagem…

O mundo evolui, nós acompanhamos o progresso, felizes, deslumbrados mas, cedo ou tarde, lamentamos ou evocamos com saudade o velho mundo que foi o nosso. Então sentamo-nos à beira do caminho que foi o nosso e vemos passar as pessoas que correm atrás do tempo, arrastados no turbilhão. A nostalgia não é doença de velhos…

Em todas as épocas o fenómeno se repete. Já o meu pai contava com saudade a sua meninice. De geração em geração a tecnologia progride, tudo vai mais depressa, foi o telefone, a rádio, a televisão agora a cores, a estereofonia, eu sei lá.

Longe vai o tempo em que ir ao banho à Prainha, à Água-doce era uma aventura maravilhosa, ir a pé até à longínqua doca, que delícia!

Como eram agradáveis as brincadeiras em frente ao «Central», o passarinho de alcatrão, as noites na esplanada…

A calma, a tranquilidade, a qualidade de vida perdeu-se ano após ano. Dão-nos grelhadores eléctricos, frigoríficos e congeladores, mas já não há petinga e quando o velho pescador vai para instalar o fogareiro a carvão no passeio já não pode porque está um carro estacionado, encostado ao poial. Maldito progresso!

Sem condenarmos o progresso de forma global e simplista (o que seria injusto e insensato) vamos ainda assim recordar, recriar, reviver. É minha intenção, de vez em quando, vir aqui sentar-me à porta do «Central», do velho «Central» que conheceu várias gerações, e evocar à minha maneira, pessoas e coisas de um passado que conservo presente. Para começar aqui vos deixo um apontamento com duas versões de férias que o tempo tornou diferentes. Quando eu era menino de bibe ia passar as férias grandes às Caixas, o que para mim e a minha irmã era motivo de grande alegria.

Às cinco da manhã a Rua dos Pescadores dormia a sono solto quando a minha mãe entrava no nosso quarto. Era em Junho, mês dos santos amigos, das fogueiras e dos fogareiros à porta, dos primeiros calores do Verão. Era a alvorada p’ra ir p’rás Caixas. À exclamação desta palavra mágica saltávamos da cama com um entusiasmo bem diferente do despertar arrastado dos dias de escola.

A evocação das Caixas enchia-nos o espírito de trigo, de batatas com pele, de vindima, de trigo da debulha, de moinho velho, de pão caseiro, de ribeiro dos Torrões, de sonho e alegria.

A minha mãe carregada com as malas e nós carregados de sono, atravessámos a vila que ainda se voltava para o outro lado. No largo da igreja, o Pintassilgo punha a trabalhar a velha «Panhard» e antes que o padre João desse os bons dias ao Menino Jesus já nós íamos Santana acima, Zambujal abaixo, aos solavancos na estrada poeirenta, de olhos bem abertos. O sono ficara em Sesimbra, o sonho começava com o Pintassilgo cujo trinado se acelerava na estrada do troço da Quinta. À porta do Baratinha parava a camioneta e começavam as férias…

Às 4 da manhã do dia 31 de Agosto de 1980, o Nicolas e a Samantha acordaram. Só a excitação dos meus filhos era igual à da minha meninice porque às 4,30 em ponto o táxi estava à porta e às 6 horas embarcávamos no aeroporto Charles de Gaulle num Boeing 707 rumo ao Algarve. Lá em cima, no azul do céu, o sol nascia da mesma maneira e, a certa altura, quando o comandante falou, pareceu-me que dizia: - «Senhores passageiros, o comandante Pintassilgo dá-vos as boas-vindas a bordo do «Santa Cruz». A nossa viagem para as Caixas durará 30 anos, voaremos a uma altitude igual à da torre da igreja de cima e a nossa velocidade de cruzeiro será igual à da carroça do tio Júlio a caminho dos Torrões».

O Nicolas dormia e eu sonhava…

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* Publicado originalmente na edição de Outubro de 1981 de O Sesimbrense.

terça-feira, 18 de maio de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 4



O abastado lavrador resolveu exibir os seus inúmeros tractores à população da aldeia. Fê-los desfilar sem preocupações de tamanho, cor, ou valor.
Não se ralou com isso porque, como dizia, a ordem dos tractores é arbitrária...
António Cagica Rapaz



[da série Coisas]