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sexta-feira, 23 de abril de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 4

as crónicas da Eventos...


Carta ao pai da tal*

António Cagica Rapaz

Espero que esta o vá encontrar de boa saúde que eu cá vou indo menos mal grassas adeus. Primeiro pesso imença desculpa ao senhor Fernando pela minha ozadia e pelas calinadas porque não concigo escrever direito por linhas porcas ou lá como se costuma dizer. Mas como o outro que diz quem não risca não petisca cá vai e seja o que Deus quizer.

Os meus amigos dizem que eu sou assim a modos que prafrentex mas olhe o senhor Fernando que me vi à rasca pra me resolver a escrever. O senhor Fernando deve saber quem eu sou, pode é não ligar o nome à peçoa ou se calhar é pouco previsto como o meu pai que andou da escola com o senhor Fernando. Ele chama-se Jaquim e tinha a alcunha do Gasosa por causa do gargolide que fazia dentro dágua quando andava ao banho. Tá a ver, não tá, senhor Fernando, fazia bolinhas, não lhe dava com as mãos. E ficou o Gasosa.

Não leve a mal eu lembrar as partes do meu pai que é como quem diz quem sai aos seus não regenera ou lá como se diz que eu nunca fui grande coisa em ditados dava muitos erros. Mas vamos ó que intressa.

Talvez o senhor Fernando já tenha reparado em mim eu costumo estar na esplanada onde você costuma ir e fico as mais das vezes centado na mesa ó pé da parede da junta. Ao domingo trago sempre não falha um fato de treino incarnado com riscas azuis à Benfica que eu sei que o senhor Fernando é do Benfica também.

Não é pra me gabar mas o fato de treino fica-me bem tem cá uma pinta mas como ia a dizer senhor Fernando eu costumo ficar ali por causa da sua filha mais nova a Tânia Vaneça que eu estou apaixonado por ela.

Prontos é assim não vale a pena estar com mais conversa eu sou franco senhor Fernando estou apaixonado pela Tânia Vaneça, prontos. O pior é que não concigo falar com ela, sou acanhado nestas coisas. Os meus amigos já toparam tudo e andam sempre a mangar comigo atão já falastes ca tal, ainda andas atrás da tal, já engatastes a tal, tá a preceber senhor Fernando.

Por acaso deste dia, olhe foi no dia do Benfica – Passos de Ferreira que deu na telvisão, estive quase vai não vai para lhe oferecer uma aveleda. Quando o Zóvique marcou o golo estive mesmo quase porque eu já reparei que o senhor Fernando é como eu gosta de uma aveleda para arrebater. Às vezes também amando abaixo um isquezinho um xivas é dos bons e dos mais caros.

Sim porque eu senhor Fernando não é para me gabar mas tenho-me safo bem já ganhei umas croas boas e acho que é altura de construir famila afundar um lar como se costuma dizer não é. Há por aí muita rapariga geitosa mas eu engrassei com a Tânia Vaneça prontos e dali não tiro o sentido. Às vezes vou às descotecas e até tenho uma garrafa de xivas em todas à minha orde e olho pra ela a dançar com os outros que eu não me afoito a pedir-lhe. Custa-me um bucado quando toca os slôs aquelas músicas mais paradas. A gente sabe como é esta malta os de fora atão são uns abuzadores mas ela não dá preferença a nenhum dança com todos. Eu estranhava que ela dançaçe assim um bucado encustada mas disse-me o disco joca que é mesmo assim é da música tem de ser encustado senão não dá sai do ritmo, o disco joca sabe destas coisas.

E depois assim como assim digo cá pra mim que se ela tiver já batida sabe mais e pode esculher melhor, digo eu não sei. Salvo seja até já ouvi dizer que certas mulheres da vida quando casam até são as melhores, salvo seja, não é senhor Fernando.

Pois como ia dizendo senhor Fernando a vida tem-me corrido bem.

Com o que ganhei na barca comprei uma butique de artezanate e recordassões e tou na maior.
Vou muitas vezes lá fora comprar coisas e há tempos arranjei um bescate que tem dado massa como milho e não custa nada. Isto fica só entre a gente que o rapaz pediu-me segrede. Mas como se calhar qualquer dia já somos famila vou-le contar.

O Libório, aquele da padeiria, aqui á tempos pediu-me se eu não me importava de lhe trazer uma incomenda de Badajoz, coisa pouca, um quilo se tanto. Disse-me que era uma farinha especial que dá bom gosto ao pão e cá não há. Como ele pagou bem o geito fui lá mais vezes e deste dia desconfiei da fartura e abri o pacote. Era mesmo farinha por sinal bem branquinha mas palpita-me que aquilo não é só para o pão. Vai daí afoitei-me e pedi mais dinheiro. O gajo ficou à rasca disse logo é pá fala baixo, toma lá se precisares mais avisa. Olhe senhor Fernando aquilo é uma mina já comprei um jipe e aparelhages esterofónicas tenho três. Cá pra mim que não sou parvo aquela farinha é algum produto milagrozo que o gajo vende bem vendido a gajos de certa idade que já não têm… precebe senhor Fernando… que já não chegam lá. Já tenho ouvido falar em coisas assim e há por aí malta entradota cheia de massa que quer gozar a vida e já não consegue. Cá pra mim é isso e o negócio tá a dar. O Libório tá cheio dele e não é a vender carcassas e bolinhos que se ganha tanto cacau. Mas eu como não sou parvo não quero complicassões só trago a farinha e vou sacando o meu. Como vê senhor Fernando sou um home trabalhador, desenrascado e tenho com que me governar. Por isso pesso-lhe o favor de apalpar o terreno se achar que dou um bom genro. No domingo não falha tou lá caído outra vez com o meu fatinho de treino que é um mimo. Vou encomendar logo uma aveleda para o senhor Fernando que pago eu. Se o senhor Fernando achar que tenho uma chansse é só fazer sinal e eu vou pra sua mesa.

Obrigado senhor Fernando e olhe que não se há-de arrepender conte comigo e se precisar arranjo-lhe um bocadinho de farinha da boa, da tal. Os amigos são prás ocaziões, não é, senhor Fernando.

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*Publicado no n.º 23 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2003.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 7



Pedra Alta: foto tirada do blogue Sesimbra.


Se calhar…*

António Cagica Rapaz

Naquele tempo o Belenenses procurava avidamente um segundo título nacional e foi buscar três reforços à Argentina. Chamavam-se Perez, Di Pace e Benitez, três magníficos avançados que vieram juntar-se ao fabuloso Lucas Matateu, sob o comando do chileno Fernando Riera. Dizia-se que o melhor dos três era o Benitez que teve muito pouca sorte, vítima do talento que possuía e da selvajaria dos adversários. Primeiro foi um Gato, defesa do Benfica, e depois foi Pinto Vieira, do Braga, que lhe partiu a perna de tal forma que o pobre Benitez ficou incapacitado para o futebol e para a vida inteira.

Recordo-me da enorme bigodaça de Benitez que regressou triste e amargurado à sua Argentina, nome da filha do Matateu, curiosidade saudosista.

Passava-se isto no ano da graça de 1953 ou 54. E Graça era e é o nome do dono de outro imponente bigode parecido com o do Benitez. Talvez por isso eu os associei, o Benitez e o Graça, de sua graça Jacinto, mais conhecido por Jacinto Maneta, enquanto o Benitez ficou coxo.

O Jacinto tinha o braço esquerdo um tanto chegado ao corpo, sem que tal lhe diminuísse o engenho nem a destreza com que manobrava o pincel.

E na areia lisinha da doca o belo Jacinto dava toques cheios de habilidade, pureza técnica e suavidade artística.

Da vida ele tinha e tem uma concepção muito sua, original e filosófica. Poucos terão como ele saboreado as delícias da nossa terra, o sol, o mar, a praia, o cântico das gaivotas, o balanceamento indolente dos barcos na doca, o tempo que se escoa languidamente, a vaga sonolenta atrás da qual outra virá, o Inverno que sempre acaba por trazer pela mão a Primavera, amanhã também é dia…

Os nossos contactos foram espaçados, mas tive sempre a sensação de que o Jacinto terá sido das pessoas que conheço uma das que melhor sabe saborear a vida. Filósofo à sua maneira o Jacinto é especialista do trocadilho, da frase sibilina, da insinuação subentendida. Por vezes tinha dificuldade em saber do que me falava, a quem se referia naquela sua linguagem hermética e codificada.

Naquele tempo eu tinha 17 anos acabadinhos de fazer e sonhava com futebóis mais além. Bruxo, o Jacinto surpreendeu-me quando se propôs levar-me a treinar ao Sporting porque conhecia o Juca, na altura técnico dos juniores.

Comigo foi o Fidalgo e foi a primeira vez que andámos de metropolitano. Creio que foi o Jacinto que pagou, já não sei bem. Só sei que teve essa iniciativa generosa quando afinal não éramos sequer amigos chegados.

Foi um gesto bonito e não esqueci…

Propunha-se o Sporting pagar-me treinos, prémios de jogos, os estudos e a pensão. Era tentador e hesitei bastante. E lembro-me de ter dormido no Lar do Sporting na Rua do Passadiço, no quarto de um basquetebolista, Garranha ou Valente, não sei bem. E vejo-me ainda, sentado num banco, nos Restauradores, olhando à minha volta, envolto no manto da noite de Lisboa. E tive medo, medo de Lisboa, medo de não triunfar, incapaz de cortar amarras, perdido, longe de Sesimbra. Nessa noite olhei à minha volta e Lisboa pareceu-me o fim do mundo, senti-me pequenino, à deriva, longe do Central, do Pinto e Pinto, da Pedra Alta, da taberna do mestre Adelino…

E fiquei em Sesimbra, mais um ano, com o velho Carlos Marques, o Leão, o Fidalgo, o Arlindo, o Áureo e os outros, em casa, em família.

Um ano depois acabei por partir para Coimbra. Depois vim para Lisboa, estive no Porto na tropa e por fim estou em Paris há 19 anos.

A percepção que nós temos das pessoas e da nossa terra tem muito a ver com o tempo e a distância.

Ao longo da nossa vida há períodos que nos marcam mais, em que somos mais permeáveis, mais receptivos. Ficamos marcados por imagens que, anos depois, talvez não nos impressionassem. Nós mudamos como a nossa terra muda embora cada um de nós conserve em si imagens ideais de um paraíso perdido. A nossa terra vai sofrendo alterações, transformações, renovações, embelezamentos, deformações enquanto nós vamos envelhecendo. Mas continuamos a fingir que acreditamos que nada ou pouco mudou, que Sesimbra é a mesma e que estamos bem conservados.

No fundo não há uma Sesimbra, há milhares de Sesimbras, uma para cada um de nós. Já o meu pai (e com certeza o pai dele, o tio Zé da Angélica) se queixava da agitação que perturbava a vida pachorrenta da nossa terra, nos tempos idílicos dos charutos na praia do tio Abel, do Numância bem composto, das peregrinações à Arrábida, das caldeiradas monumentais que terminavam com as histórias rocambolescas narradas pelo Antero do Pão. Era a idade de ouro, era Sesimbra longe de Lisboa, fora do mundo, a leste do paraíso…

Cada geração teve a sua Sesimbra, cada geração perdeu a sua Sesimbra mas ficou agarrada a uma recordação ideal, poetizada, retocada pela necessidade que todos temos de acreditar em alguma coisa, de nos agarrarmos a certas coisas.

Por isso continuamos a ir atrás da procissão e a sentir uma emoção intensa quando vemos o Senhor das Chagas ao ritmo compassado dos tambores dos meninos tristes da fragata D. Fernando.

Nesse instante preciso, os nossos olhos enchem-se de lágrimas, o nosso coração bate com mais força e sentimo-nos de novo crianças impressionadas pela máscara dolorosa do Senhor. E revivemos a ansiedade da chegada do primeiro camião com o material do carrossel oito, os carrinhos e as farturas, as ruas cobertas de pétalas, as colchas nas janelas, a melancolia da vila deserta no fim da procissão.

Sesimbra hoje não tem passeios, só carros a cada porta, esplanadas que devoram os largos, boutiques e restaurantes, motorizadas, ruído, agitação, praia assassinada, o Espadarte a agonizar, a droga a cada esquina…

E esta Sesimbra é bela, cheia de vida, de juventude, moderna, com os excessos próprios da mocidade. E será certamente recordada com saudade pelos jovens de hoje que não conheceram as armações, que nunca viram as barcas fundeadas de cada lado da Fortaleza, que nunca ouviram o chui na lota, que nunca presenciaram a azáfama das chatas dos almocreves, dos burros e dos curiosos num fim de tarde com o peixe estendido na areia e a noite a cair serenamente por trás do farol.

É esta a Sesimbra deles e é tão bela como a nossa, a que cada um de nós conserva em si.

Talvez possamos sentir e amar Sesimbra com mais intensidade quando vivemos longe porque dela só vemos o que nos convém, só guardamos o melhor. E se calhar amamos uma Sesimbra que já não existe se é que alguma vez existiu a não ser na nossa imaginação. A mulher que amamos é a mais bela do mundo. Para nós…

Se calhar não foi uma boa ideia terem desfigurado a Pedra Alta colocando nela uma placa cuja inscrição ninguém consegue ler e que estaria melhor cá em cima no muro, mais acessível e com a vantagem de não ter manchado a nossa Pedra. Por outro lado uma placa é como um carimbo que torna oficial, coloca o selo da realidade, mata a poesia, o sonho e a lenda.

Se calhar o erro é pensarmos que só nós possuímos bom gosto e bom senso. Não sei, se calhar o melhor é esperarmos que o verão passe, sentarmo-nos ao fim da tarde nos degraus, lá em cima a contemplar o mar que é o único que não muda, o único que é fiel, que volta em cada maré, beijando os pés à nossa terra, levando e trazendo sonhos.

A Sesimbra que eu trazia em mim naquela noite nos Restauradores é a mesma que eu vejo de Paris, imagino-a, retoco-a, amarro-a na doca da minha saudade, coloco-a no cenário do palco da Vila Amália.

Depois faço desfilar as personagens deste universo que vou recriando, vamos todos de braço dado, de rua em rua enfeitada. Que importa se já não somos assim, se Sesimbra mudou como nós que estamos acabados. Fazemos de conta e vamos andando. O Jacinto continua com ar de profeta e não sei se o Benitez era o melhor dos três argentinos. Sei que o Belenenses não voltou a ser campeão, que o Matateu está no Canadá e que a Pedra Alta perdeu a virgindade.

Mas Sesimbra será Sesimbra, um para cada um de nós, e a Pedra Alta, com ou sem placa, será sempre a Pedra Alta. Porque precisamos de lenda, precisamos de poesia e, sobretudo, de sonho…

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* Publicado originalmente na edição de Junho de 1993 de O Sesimbrense.

terça-feira, 20 de abril de 2010

DEVANEIOS & TROCADILHOS, 1


Morreu sem se despedir. Só disse a Deus...
António Cagica Rapaz

[da série Coisas]

segunda-feira, 19 de abril de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 6




Boa noite, ó mestre!

António Cagica Rapaz

Quando o sol se põe para lá do farol, deixando no céu tons de púrpura, quando os pescadores, de saco aviado, se encaminham lentamente para a doca, a noite turística de luzes retocadas instala-se na esplanada da Marisqueira. É o intróito, convém chegar cedo para ocupar um lugar estratégico, com a bica e uma Aveleda, o maço de cigarros e o isqueiro, armas da emboscada que começa a ser montada.

Em frente, para lá das bombas da Sacor, estende-se o mar, enrugado como a pele do tio Vicente Faneca. As traineiras já lá vão, sombras que correm sobre as águas, luzes que tremulam no alto dos mastros. Nostálgico, o jovem pescador procura com os olhos a esplanada da Marisqueira onde já foram servidas mais bicas e mais isqueiros foram colocados com negligente ostentação sobre as mesas de ferro como âncora que se lança ao fundo. O lugar está marcado, a noite ainda mal começou, tudo pode acontecer…

- Coffee, please, and two brandies – começa a chegar o material, todos atentos à jogada. Aí está o Capitão John que não é capitão nem John, sorrisos, saudações, vai um copo? Boa noite, ó mestre! A bordo da traineira vai um turista estrangeiro encantado com a perspectiva da pesca e que tomou dois comprimidos contra o enjoo. A mulher ficou em terra, não tomou comprimidos mas já vai no terceiro whisky, na esplanada. Ela não enjoa…

1980

domingo, 18 de abril de 2010

TALVEZ POESIA..., 2


Quisera

António Cagica Rapaz

Quisera ser poeta
E não forjar versos
Que se amontoam,
Dispersos,
Sem a centelha do génio,
Que a indiferença esqueceu.
Quisera ser pintor
E não sujar telas,
Forçando o próprio luar
A um brilho sem esplendor.
Quisera ser asceta,
Músico, escultor.
Quisera ser poeta,
Mas não sou.
E não tenho o teu amor…


sexta-feira, 16 de abril de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 3

as crónicas da Eventos...



Arrábida, aldeia de irmãos*

António Cagica Rapaz

Encolhida entre as penedias abruptas do Caneiro e a luz protectora mas confinante do farol, Sesimbra sufocava de ansiedade e sonhava com a aventura a que o mar convidava.

No horizonte recortava-se a costa alentejana, América inacessível, Índias impensáveis para os nossos antepassados que contemplavam o oceano infinito entre dois balanços das suas frágeis embarcações.

Por terra, a Alfarrobeira era o limite do real conhecido e dominado. Para além da curva, era o risco de uma aventura que passava pelo Castelo, território de gente com outro falar, mais arrastado, homens vergados sobre a terra, vivendo com animais à beira, hordas que desciam à borda d’água, no pino do Verão, de alcofa na mão, demandando a armação...

Mas a negridão do Inverno também chegava a obrigar homens, mulheres e crianças do nosso burgo a subir a serra, a bater à porta dessa gente de falar estranho, pedindo uma côdea de pão, alguma fruta, naco de toucinho ou um fio de azeite. Era a fome, a miséria de dias sem fim em que o mar negava o sustento, em que a vida ficava presa a uma enfiada de carapaus secos e o estômago era enganado com magras sopas de café.

O homem sofria, rezava e sonhava. E acabou por se fazer ao mar. Cautelosamente, junto à costa, palmo a palmo, a curtas braças, Calhau a Calhau, dobrou o Cabo, enfrentou tormentas, até chegar à Arrábida, ao paraíso, como Ulisses chegou a Ítaca.

E desde então compreendeu que não está isolado e que ali fica outra terra prometida, na imensidão da serra, no deslumbramento da vegetação, na embriaguez dos odores, no êxtase do silêncio, presépio que os deuses quiseram desenhar, moldar, construir, aqui tão perto.

Com o tempo, e embora Sesimbra fosse a nossa bela terra, a verdade é que o apelo se revelou, para sucessivas gerações, irresistível. A magia, o fascínio da Arrábida era como um cântico de sereias, melodia de fim de Verão, sortilégio de Setembro quando certas famílias encetavam a sua peregrinação, lenta e preguiçosa, gozando o deleite do prenúncio do Outono, na paz e no encantamento do Portinho. Entre tufos de alfazema, alecrim e tomilho, era um tempo de recolhimento místico só quebrado pela festança profana de caldeiradas memoráveis. Sentimentos, odores e sabores de fraternidade, na quietude de um cenário idílico, tradição saudosa de caminhantes devotos ante a senhora del Carmen. Arrábida de poetas, comunhão perfeita com uma natureza que nos deslumbra e comove, que nos une na contemplação da beleza suprema. Arrábida, verdadeira aldeia de irmãos, onde sempre voltamos, nessa busca incessante do tal paraíso perdido. Como alguns seguem a estrela do pastor, como outros vão a Meca...

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*Publicado no n.º 29 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2004.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 6

Zé Tucha: foto tirada do blogue Sesimbra


No fundo*

António Cagica Rapaz

Há tempos, numa gloriosa manhã de domingo, bateram-nos à porta, na Aiana, dois mensageiros de Jeová. Chovera durante toda a semana e aquele sol radioso, o perfume da terra molhada, o ar puríssimo e a luminosidade do céu lavado pela chuva benfazeja, tudo isso fazia daquele domingo uma prova suficiente da existência de Deus, de Jeová, de Maomé ou de Buda, à escolha, segunda as crenças.

Não calhou ser eu a ir à porta, e abstive-me de intervir na ladainha dos pacientes e pertinazes pregadores, tendo apenas retido uma frase que me deixou pensativo. Fiquei a saber que, para as testemunhas de Jeová, a alma morre com o corpo. Admito que haja alguma ambiguidade entre os conceitos de alma e espírito, que conviria aprofundar a reflexão, mas não desejei esclarecer o assunto e apenas aproveito o mote para divagação.

Esta convicção dos seguidores de Jeová (a menos de outra interpretação) parece encerrar uma mensagem tenebrosa, e deixa-me alguma curiosidade quanto à maneira como encaixarão esta ideia num quadro positivo de vida. Seria certamente interessante ouvir a argumentação que utilizam para conseguirem transmitir esperança e optimismo, encontrar sentido para uma vida sem prolongamento para além da morte.

Se, de facto, a alma morre com o corpo, o nosso horizonte é curto, o fim do filme da nossa vida não traz qualquer surpresa nem a menor expectativa, muito menos uma esperançazinha de eternidade. Como todos sabemos, estamos condenados a morrer, é mesmo a única certeza que a vida nos dá. Ora, se uma religião nos diz que a morte é o fim, do físico e do espiritual, que sentido poderemos encontrar para a vida?

Este tipo de congeminações poderia tornar-nos pessimistas e macambúzios, pelo que é aconselhável certa prudência na aproximação a assuntos desta natureza morta.

Há tempos, deparei na praça (palco privilegiado de todos os encontros) com o José Embaixador, figura notável da nossa terra, bombeiro, mercador de matacões, bolos e pastéis, e também patriarca dos servidores de Jeová.

Confesso que nunca vislumbrara no nosso Zé Tucha preocupações de ordem espiritual, mas admito perfeitamente que em qualquer altura possamos ser levados por uma onda de misticismo. Cada um tem o direito de acreditar, pregar ou prestar culto segundo as suas convicções, desde que respeite o seu próximo a quem deve reconhecer igual liberdade de pensamento e de expressão. Apesar de tocado pela graça de Jeová, o Zé Tucha não perdeu a outra graça, a sua verve malandra, o bom humor que sempre lhe conhecemos. E disso me apercebi no nosso diálogo na praça. Na sua linguagem pitoresca e metafórica, lá me foi dando conta da sua saúde que já não é o que foi, tendo sido obrigado a usar um “pace maker” para manter o coração a funcionar em bom ritmo. Mas não se ficam por aí os seus constrangimentos. Mais inconformado ainda me pareceu quando rematou, em confidência e desabafo: “Olha, o pior é que já nem vou à tona”.

Habituado às suas excêntricas figuras de retórica, deduzi que já não se sentisse em forma, à tona de água, menos vigoroso, com menos destreza, enfim, algo parecido. Porém o seu sorriso maroto deixou-me, mais tarde, a impressão de ter ouvido mal…

Seja como for, a brejeirice lendária do Zé Tucha mostra que não está muito preocupado com a dicotomia alma-espírito e que conserva uma perspectiva optimista e hedonista da vida.

Aqui chegados, coloca-se-me a angustiante e obsidiante dúvida sobre o rumo a dar a este escrito, hesitante que estou entre a tonalidade mística e a toada maliciosa que o Zé Tucha, impenitente inveterado, me segreda ao ouvido, a mim, frágil criatura impoluta, menino de coro e decoro, nada dado a essas maléficas pantominices. Ainda sinto na pele a valente reprimenda da minha boa amiga Doutora Auzenda que não gostou nada das minhas divagações marotas inspiradas pelo despudorado Camilo José Cela. Em verdade, não estou arrependido, mas que isto fique apenas entre nós…

Voltando às minhas dúvidas quanto ao tom a dar a esta narrativa, pergunto-me se vale a pena abordar assuntos graves. Recentemente escrevi duas crónicas sobre coisas essenciais como são a vida e a morte, as linhas da mão, a força do destino, tudo assente em convicções e experiências pessoais.

E, afinal, para quê? Para encontra a habitual ausência de reacções, isto é, para ficar com a sensação de que é indiferente escrever sobre coisas sérias ou alinhavar escritos triviais. Há uns três anos, contei** de que maneira consegui, em 1971, no Campo de Tiro da Serra da Carregueira, restituir às suas famílias alguns rapazes destinados à guerra colonial. No fundo, talvez não o tenha feito tanto por ideais políticos, como por sentir que era uma guerra absurda, e porque assim ditavam a minha consciência e a minha dignidade. Posto isto, naquele período de guerra, era muito arriscado para mim contornar as regras, furar as malhas da lei, ainda que iníqua e cínica.

A prisão era «a recompensa» para o meu atrevimento, se a falsificação fosse detectada. E não era difícil, bastava que alguém, por acaso ou por curiosidade, tivesse comparado com o original os processos aldrabados que enviei. Afinal, podia ter encolhido os ombros e deixado andar, como fazia, com egoísmo e desprezo, um tenente do quartel da Amadora, um tal Luís.

Mas achei que devia tentar. E consegui. Só conheço um dos rapazes que pude ajudar. É das Caixas, chama-se Bernardino, e a mãe, a tia Líbia, agradeceu-me, com muita emoção e um coelho…

Nunca reclamei medalhas nem cartão do clube dos lutadores anti-fascistas que saíram, apressadamente, das tocas logo no dia 26 de Abril. Apenas observei que esta narrativa não despertou qualquer curiosidade, ninguém achou útil aprofundar a questão, apesar de não ter sido propriamente uma banalidade o que se passou na Carregueira. A maioria desses abnegados resistentes nunca foi além da conspiração de café, à volta da bica e do bagaço, sem jamais ter elevado a voz ou tido um gesto que se visse. Não me considero herói, mas não teria sido de mais se alguém tivesse condescendido em me dirigir uma palavra ou um sorriso de simpatia, procurado, ao menos, saber se tinha sido verdade, se não seria gabarolice ou mistificação. Mas não, nada. Foi como se aquela crónica fosse apenas ficção pura e delirante como “O molho à espanhola” que tratava de uma louca invasão para repor os irmãos Filipes no poder. No fundo, tanto faz escrever sobre a vida para além da morte como sobre a falta de cavala no mar dos Ursos. Mas, ao fazer esta observação, não estou a manifestar surpresa nem estranheza, muito menos decepção.

Gosto de brincar, divirto-me com algumas pinceladas irreverentes, apraz-me misturar melancolia, sonho e poesia, mas não sou ingénuo nem lírico.

Há muito que me habituei a esta relação de sentido (quase) único, marcadamente direccional que existe entre quem escreve e quem lê, embora isso não me impeça de sublinhar que seria desejável que houvesse diálogo, mais intervenção dos leitores, escrevendo para o nosso jornal, tornando-o participado, mais vivo e rico.

Não faz sentido e é frustrante pensar-se que de um lado estão os que escrevem e do outro os que lêem. Ao fazermos o jornal, estendemos a mão, damos um passo, lançamos um olhar, vamos ao vosso encontro. E gostaríamos de vos ver, de vos ouvir, de vos ler.

Só assim o nosso jornal cumprirá a sua missão de nos juntar a todos, leitores e escribas, à volta da mesma causa que é a nossa terra, nas suas múltiplas facetas, as pessoas, as coisas, a economia, o ambiente, a segurança, a pesca, o turismo, a droga, a educação, etc.

As pessoas, de maneira geral, só escrevem para o jornal quando se sentem atacadas, nos seus interesses ou na sua dignidade. É pena, porque a certa altura pode haver o risco de desalento, de desmotivação por parte de quem se sinta cansado de erguer a voz em defesa do nosso mar e dos nossos pescadores, por exemplo. Por alguma razão, recentemente, o Pedro Filipe pedia aos sesimbrenses para acordarem. Um dos sinais desse adormecimento é a posição de alheamento e comodismo, sem se manifestarem, sem se pronunciarem, contra ou em apoio, sobre as causas que o jornal defende com carolice, com bairrismo, certamente, mas também com conhecimento e noção de responsabilidade. No fundo, um jornal é um meio de comunicação e esta faz-se nos dois sentidos.

Por mim, apenas observo, registo, não me queixo, não vale a pena, tudo isto mais não é do que pretexto para a nossa cavaqueira mensal. Afinal, o que escrevo quase sempre se situa na esfera do acessório. Mesmo quando falo da vida e da morte. Ou da guerra que, muitas vezes, nos leva de uma à outra…

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*Publicado originalmente na edição de Maio de 1999 de O Sesimbrense.
** [nota do editor] Na crónica Superveniente, publicada na edição de Dezembro de 1995 de O Sesimbrense. Com o mesmo título, e versando o mesmo assunto, publicou António Cagica Rapaz uma narrativa no livro Janela com Escritos (Sete Caminhos, 2006).

segunda-feira, 12 de abril de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 5




O barco

António Cagica Rapaz

A estibordo o campo de pessegueiros, o recorte dos castanheiros, o declive do ribeiro seco, o pinhal e os caminhos que vão dar ao mar. A bombordo, a estrada estreita, recta esticada à beira da vinha cansada, os cães acorrentados, mais assustados que agressivos, prontos a ladrar ao menor sinal de presença humana.

A proa é cortante, ângulo muito agudo, capaz de sulcar a terra em travessias silenciosas, em noites de lua encoberta por nuvens que o mar carregou de sombras e mistério. A amurada de bombordo acompanha a estrada, desliza-lhe paralela e suave, para não acordar os cães, e o barco lá vai, envolto em bruma macia, com a proa em jeito de esporão qual Nautilus do capitão Nemo que cortava pelo meio navios incrédulos, semeando o terror e desafiando a imaginação em toda a extensão das vinte mil léguas submarinas.

O barco tem a forma, o perfil esguio de uma embarcação costeira, embora não se possa confundir com uma péniche, barcaça como as há em França, batelões que carregam sal, carvão, areia, rios abaixo, de comporta em represa. Costumam transportar bicicletas e mesmo carros, à popa, junto à cabina que serve de casa ao mestre, cortinados nas janelas, vasos com sardinheiras, o fumo suave a diluir-se, rio fora, deixando no ar um perfume de comida caseira. À popa do barco também há um carro, e a encimar o camarote imponente uma chaminé bem erguida ao céu, reforçada por pedra robusta. Na realidade, o barco é uma pequena propriedade de forma triangular, paralela à estrada, na Aiana, cercada por um muro caiadinho de branco que remata, a sul, um ângulo agudo pronunciado que dá ao conjunto uma forma que sugere um barco, fantasia que me passou pela cabeça. Como passamos por ali, com alguma frequência, habituámo-nos a observar se a casa está ou não fechada, se há luz, se a tripulação sobe ao tombadilho. E, assim, o barco entrou na nossa linguagem codificada. Por vezes, quando nos aproximamos, vemos o comandante e a sua companheira entregues à faina de mareantes, ele subindo à gávea, compondo as vergas, aparando a roseira, arrancando as ervas ruins, ela baldeando o convés, estendendo cobertores, abrindo as janelas de par em par, virando de bordo rumo ao sol, a favor da brisa de leste. O barco tornou-se uma curiosidade, quase um mistério adensado pela discrição das pessoas que habitam aquela casa ancorada na curva, rodeada de cães, à falta de gaivotas, quase atracada à muralha do Zé do Justo. Que gente será aquela, terão filhos, virão de Lisboa, que fazem na vida além de embarcar nos fins-de-semana? Nunca vimos grumetes no convés, não me recordo de grande animação a bordo, sardinhada, caldeirada, piratas de perna de pau, apenas o comandante e a companheira, discretos na manobra, mecanizados numa rotina que deixa entrever uma cumplicidade forjada em muitos anos de navegação a dois, sem grandes falas, com silêncios eloquentes, movimentos combinados, acções encadeadas. Não estou certo de os reconhecer se os encontrar noutros mares, noutras paragens, no mercado de escravos de Azeitão, na venda dos arcabuzes ou na tenda das especiarias.

No fundo, levamos a vida a construir o nosso barco, o nosso quartel, o nosso quintal, o cantinho onde nos sentimos ao abrigo das tempestades da vida. Nem sempre conseguimos, mas já é bom tentar, viver de esperança, ir fazendo, calafetando, remendando uma vela, raspando o casco, cosendo a rede, semeando, regando, queimando silvas, procurando a estrela do pastor ao voltar a casa, quando o fumo se eleva das chaminés, os cães ladram ao longe e a terra arrefece lentamente.

O mar e os barcos fazem parte da nossa vida, dos nossos sonhos. Por isso, no campo, mesmo sem searas a ondular, nos parece ver barcos onde, afinal, só há uma casa cercada por um muro pontiagudo, à beira da estrada.

D. Quixote de la Mancha também via gigantes onde apenas havia moinhos de vento. Do moinho das Caixas restam ruínas, vestígios mudos e tristes, de um tempo distante em que eu lá ia, montado num burrico, trocar um saco de trigo por outro de farinha. Foi-se o tempo, fica-nos a fantasia e a memória vacilante…

1997

sexta-feira, 9 de abril de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 2

as crónicas da Eventos...




A paixão de Cristo

António Cagica Rapaz

Há cerca de cinquenta anos, havia um Jesus e um Cristo na linha avançada do Desportivo de Sesimbra, terra muito votada ao culto do Senhor das Chagas.

Era um tempo bendito de inocência e sonho, vivido num universo de forte religiosidade, na companhia do nosso amigo e companheiro, o padre João, que tanto nos reunia no adro da igreja como no campo do Desportivo. Não sei se, na nossa infância tão povoada de ideais e de sonhos, o futebol terá chegado a aproximar-se da grande área da religião, mas foi certamente uma grande paixão.

E eu, como os outros, era um menino posto em adoração perante uma bola de futebol e em admiração diante dos jogadores do nosso Desportivo que passavam à minha porta a caminho dos treinos a que eu assistia sempre que a escola permitia.

Paralelamente, havia os ídolos distantes, quase irreais, de um Belenenses que o meu pai, sem esforço nem mentalização particular, me ajudara a preferir.

O Matateu morava connosco, ocupando uma moldura que pendurei na parede de onde ele me sorria com os dentes tão brancos como os cordões que sobressaíam no azul do céu da camisola com a Cruz de Cristo, tinha de ser…

Os anos passaram e quiseram os fados que me fossem proporcionadas a alegria de jogar futebol a sério e a honra de defrontar muitos dos ídolos da minha meninice. Porém, nem nos mais arrojados devaneios oníricos eu me atrevi a imaginar que, um dia, viria a jogar com o Lucas Sebastião. Afinal aconteceu, embora não fosse bem o Lucas da minha moldura, mas outro muito parecido que envergava as cores do Atlético. Felizmente, para meu grande contentamento e recatado orgulho, era o mesmo Matateu…

Ao longo da nossa vida, no futebol e no resto, vamos perdendo ilusões, com o desfazer de mitos e a degradação de valores. E a desilusão é tanto maior quanto mais perto estamos da realidade. Quem vive o futebol de longe, não sabe ou finge ignorar quanta mentira o envolve.

Há muitos anos que ficou para trás a idade da inocência e que me tornei convictamente céptico quanto à existência de verdade e transparência no mundo da bola. Não é, mas até podia ser uma questão de fé, pois também milhões de pessoas acreditam na existência de Deus sem dela possuírem qualquer prova irrefutável.

Ora, e aqui reside o fascinante mistério, apesar do muito que está por apurar sobre arbitragem, suspeitos aditivos vitamínicos, negócios duvidosos, promiscuidades e cumplicidades, o certo é que não deixamos de vibrar com a magia dos artistas, o entusiasmo da multidão ingénua, a euforia do golo e a alegria genuína da vitória.

E, apesar das sombras que pairam sobre os estádios, continuamos a gostar de futebol, presos ao sortilégio da bola, embora não seja como nos tempos do romântico quarto de hora à Belenenses ou das gestas heróicas de Jesus, de Cristo e tantos outros fiéis de lenço atado à volta das cabeças que metiam a rudes bolas com atilhos e que sofriam autênticas flagelações em campos pedregosos que percorriam calçados com botas de traves impiedosas.

Em verdade vos digo que os templos estão infestados de vendilhões mas, na sua essência, o jogo é o mesmo, a paixão não morreu, e esse é o admirável milagre do futebol…

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*Publicado no n.º 33 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2004.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 5




Ícaro

António Cagica Rapaz

“– Ah, quem anda a escrever um romance é o Tomás.”

Era uma tarde deliciosa como só acontecem ao sábado, daquelas tardes em que o sol acaba por se pôr, vermelho em brasa, por trás da casa da Mafalda. Nessas alturas, gostaria de poder estar, ao mesmo tempo, no muro da lota e ver aquela bola de púrpura cair devagar para lá do farol. E voltar, a correr, para a Aiana…

O Miguel viera visitar-nos, o que sucede menos quando esperamos do que sempre que lhe apetece. E está muito bem assim. Viera deitar um olho à velha vinha revigorada por tardias chuvas e conversámos vagarosamente à espera do crepúsculo e das línguas de bacalhau.

O Tomás é publicitário, companheiro de infância do Miguel, cresceram juntos, e, com eles, cresceu também uma bela e saudável amizade, daquelas em que há partilha, confiança, cumplicidade, fraternidade e tudo quanto se sente sem se conseguir nem precisar definir.

“ – Já me deu a ler dois capítulos, é muito interessante. É uma história que mete um português de origem céltica e mafiosos espanhóis. Não é autobiográfica mas, curiosamente, há muito do Tomás no que li. Não sei como explicar, mas acho que aquilo é ele, é assim.”

O Tomás e o Miguel fazem-me, remotamente, pensar no D. Quixote e no Sancho Pança, aquele mais sonhador, figura esgalgada, pronto a desbravar mundos ao volante do seu decrépito e romântico “2 cavalos”. O Miguel é realista, desconfia de moinhos de vento, é seguro e determinado, positivo e estruturado. Os dois formam uma parelha admirável…

Ficou-me no ouvido a alusão às marcas, ao rasto da personalidade, do espírito do Tomás que se adivinha ou pressente naquilo que escreve.

Ao mesmo tempo, ocorreu-me a ideia de que o leitor que conhece o autor não é imparcial, antes procura (talvez até de forma inconsciente) sinais, referências, vincos pessoais de quem escreve. No fundo, a relação pessoal com o autor rouba neutralidade ao leitor, impede-o de mergulhar sem preconceitos na ficção, aguça-lhe a curiosidade, coloca-lhe uma lupa na mão.

Esta relação de proximidade pode falsear as perspectivas e destruir o equilíbrio e a equidistância indispensáveis a uma apreciação correcta.

Neste processo, cada um tem o seu lugar, e certa forma de intimidade pode afectar, tornar-se perniciosa. Ícaro queimou as asas de cera por se ter aproximado demasiado do sol…

Não sei se será bem assim, mas ocorreu-me a ideia de que o leitor, tal como o espectador do cinema, por exemplo, têm de fazer concessões, têm de se prestar ao jogo, aceitar as regras da ilusão e da ficção. Nenhum de nós espera que, em palco ou no filme, os actores morram de verdade. Ou que o realizador utilize sangue real em vez de um qualquer líquido avermelhado. Ninguém deve preocupar-se com a autenticidade do que nos é relatado, se o Edmond Dantès viveu ou não em Marselha, se o Conde de Monte Cristo existiu ou não. Talvez outro Miguel, amigo de Alexandre Dumas, tenha encontrado traços da personalidade do escritor na figura do Conde.

No fundo, o juízo de valor que fazemos de uma obra, seja qual for a sua natureza, é influenciado ou condicionado pelo facto de conhecermos o autor. E o nosso olhar não é imparcial.

Por outro lado, talvez devêssemos contentar-nos em representar cada um o seu papel, ou seja, mantermos uma certa distância em relação ao artista. Podemos admirar um actor durante anos ou perder essa admiração porque um dia o vimos perdido de bêbado numa discoteca. Há relações de ordem afectiva que funcionam bem enquanto cada um fica no seu lugar, até se ultrapassar o limiar perigoso da intimidade. Ou se arrancar a máscara, pondo um termo à ilusão e ao mistério.

Uma das razões do enorme fascínio que o carnaval de Sesimbra exercia, advinha do jogo de ambiguidade, dos lances cruzados de luz e sombra, realidade e mistificação, provocação e irreverência. A queda da máscara punha fim ao sonho, à delícia da sugestão e da fantasia, ao devolver-nos à crua banalidade do quotidiano. O fim da ilusão acontece, por vezes, quando acaba o namoro e se entra na rotina, sem flores, sem poesia, sem ternura, sem romance. Quando deixamos o nosso lugar na plateia ou na bancada lateral, quando passamos para o outro lado, quando saltamos para o palco, quando furamos a tela, quando nos equipamos no balneário e vemos de perto aqueles que foram nossos ídolos, então, aí, caem-nos os braços de desalento, ficamos mortalmente desiludidos. Recordo uma tarde, no estádio da Luz, em jogo contra o Benfica, em que ouvi jogadores da camisola gloriosa gozarem (à distância, claro) os ingénuos e apaixonados adeptos do clube. Já os cultores da Arte pela Arte achavam que o contacto com a realidade avilta o artista. O mesmo pode ser válido para qualquer de nós, quando entramos em círculos de maior intimidade, correndo fortes riscos de desilusão.

Ao conhecer por dentro o mundo do futebol (que tanto me deslumbrava na meninice) vi caírem inúmeras máscaras. Nas nossas vidas, com os nossos familiares, com os nossos amigos, a fronteira da desilusão situa-se muitas vezes no campo minado dos cifrões, das coisas materiais que provocam, em muitos casos, a queda das máscaras. E então ou há a dignidade da ruptura ou se afivela nova máscara, para um faz de conta, paz podre ou harmonia postiça. Por isso, deixemos trabalhar os artistas, limitemo-nos a vê-los em cena, maquilhados, equipados, fazendo malabarismos com a bola, maravilhas com o pincel, primores com as palavras, fascinação com a voz. Não procuremos saber se a pistola do actor dispara bala real ou pólvora seca, não nos preocupemos em apurar se Sinatra era ou não mafioso. Contentemo-nos em deixar esvoaçar o sonho e a ilusão, ouvindo a voz incomparável do Francis Albert em crepúsculos mágicos de sábado.

Que importa saber se o Tomás tem ou não origem céltica ou se a sua sombra se recorta por trás esta ou daquela personagem. Não me perguntem se o Tomás existe ou se tudo isto não passa de pura invenção. Vivamos a vida como ela vem, não nos aproximemos demasiado do sol…

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*Publicado originalmente na edição de Abril de 1999 de O Sesimbrense.

terça-feira, 6 de abril de 2010

NOTAS & NOTÍCIAS, 1





Como comprar os livros de António Cagica Rapaz

Cinco dos livros da bibliografia de António Cagica Rapaz - aqueles que, entre 2003 e 2009, foram editados com as chancelas da Garrido, da Sete Caminhos e da Fonte da Palavra - podem ser adquiridos junto desta última editora (para tanto, deve consultar aqui o respectivo portal).

No concelho de Sesimbra, Líbero e Directo, As Bonecas Russas, Janela Com Escritos, Que País é Este? e Tratar da Vida estão à venda na Papelaria Cotovia, situada nesta localidade da freguesia do Castelo.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 4


foto tirada daqui

Mar novo

António Cagica Rapaz

Os pescadores costumavam sentar-se nos degraus, ao pé da Sopa, a olhar as ondas repetidas de vendavais intermináveis enquanto a miudagem lançava estrelas que subiam muito no céu escuro, iam mais longe do que os sonhos de esperança daqueles homens para quem o mar era a vida e, às vezes, a morte.

Hoje o mar não é o mesmo, nem os homens. O mar é menos cruel mas menos pródigo também. Os homens souberam meter as mãos pelas entranhas do mar até lhe arrancarem o último peixe dourado e já não temem os vendavais agora transformados em pausa apetecível. Acabou a angústia de esperar o fim da tempestade para retornar à faina, matar a fome aos filhos. O mar cansou-se e encosta-se de mansinho aos rochedos, adormece antes do Verão para os barcos de cruzeiro, para o turismo. Os homens deixaram de olhar o mar e observam os que vêm contemplá-lo, saborear o sol que brilha no céu limpo das nuvens negras de outrora. O mar não galgou a muralha, mas o novo mar é em terra onde há cada vez mais pescadores e peixes mais ou menos frescos. Neste mar novo não há arrais demasiado exigentes e tudo o que vem à rede é peixe…

1980

quinta-feira, 1 de abril de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 1

as crónicas da Eventos...



Estranheza*

António Cagica Rapaz

Muitas pessoas crescem, vivem e morrem na terra onde nasceram. Nem sequer acham isso natural, por nunca lhes ter passado pela cabeça a hipótese de mudar de vida e de localidade. Menos ainda imaginam o que representa, o que implica começar de novo, adaptar-se, estabelecer relacionamentos, arranjar novas referências, criar hábitos, integrar-se.

As motivações que nos levam a deixar a terra natal podem ser múltiplas, mas admito como provável que uma tal decisão possa resultar da confrontação entre dois factores principais. De um lado, a força dos laços afectivos que nos prendem aos familiares, aos amigos, ao universo da nossa infância. E, do outro, a premência do apelo externo, sentimental, profissional, por exemplo.
Em geral, todos gostamos das nossas terras, mas não é menos verdade que algumas, como é o caso de Sesimbra, reúnem mais predicados do que outras. Por isso, acredito que possamos deixar sem grande mágoa (e até com alívio) localidades menos interessantes.

E é isso que me leva a olhar com incompreensão o facto de muitos amigos de infância viverem hoje longe da nossa terra sem que tal pareça afectá-los. É estranho...

Alguma estranheza é igualmente o que sentimos num primeiro olhar sobre a Quinta do Conde, terra de ninguém cheia de gente, ponto de encontro de quem não combinou juntar-se.

Habituados às nossas ruas estreitas que descem para o mar, à proximidade de portas contíguas e janelas indiscretas, à intimidade, até ao desrespeito pela privacidade, sentimo-nos incomodados com aquelas estradas largas, intermináveis, aquelas casas protegidas por muros, propriedade privada, vidas escondidas. O denominador comum é a sombra dos pinheiros, o aliado é o tempo. Só ele vai aproximando as pessoas, no mercado, na farmácia, nos cafés. A desconfiança esbate-se, as línguas soltam-se, os portões abrem-se, os muros diluem-se sob as roseiras e as buganvílias.

A grande Lisboa será, para a maioria, a esperança de um emprego, enquanto um lote de terreno poderá ter constituído, para outros, um investimento para a velhice. Depois, Setúbal também não é longe, as praias ficam perto, a localização é privilegiada, a convergência natural. O ar é saudável, as condições de base existem, resta fazer o mais difícil, a criação de um património cultural comum, uma identidade e, em último estádio, raízes. Já não será para esta geração, há que apostar na juventude.

Sesimbra, a velha senhora posta a banhos num mar de agitado desenvolvimento urbanístico, rebenta pelas costuras, sufocada por carros, invadida por incontáveis e insaciáveis esplanadas, está a passar por um processo algo semelhante, igualmente invadida por estranhos, mas com a diferença que estes estão, por norma, em trânsito, vêm pela praia, pelas caldeiradas, e depois vão-se embora. As casas que eles ocupam durante a época balnear ficam fechadas o resto do ano, pelo que os nossos jovens têm de ir morar para o campo, em pequenas Quintas do Conde onde só não se sentem estranhos porque a escala é menor e há sempre um parente, um amigo, o nosso mundo é pequeno.

Por este andar, dentro de poucos anos, a Quinta do Conde terá ganho consciência e proveito da sua dimensão e do seu potencial. E Sesimbra poderá tornar-se não uma Quinta mas um quintal à borda d’água...

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*Publicado no n.º 38 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2005.

terça-feira, 30 de março de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 4




Águeda*

António Cagica Rapaz

Era uma manhã bonita, cheia de sol, gente na rua, disponível, disposta à cavaqueira, no ar um perfume de maresia suave, sábado glorioso.

O sábado é o melhor dia da semana, vale por dois, temos uma sensação de eternidade, liberdade, tempo infinito, a manhã pode espreguiçar-se, o almoço pode esperar, a tarde envolve-se com a noite e esta não tem fim, amanhã é domingo.

O Carlos Batista ia às compras, mas ficou por ali, sem pressas, na conversa, por pouco deixava fechar a praça, enrolado nas malhas do diálogo saboroso, deleitado na frescura da manhã. Era um daqueles momentos que nos apetecia prolongar, mas nem mesmo aos sábados fugimos às obrigações. E foi durante aquela conversa que me entregou fotocópia da carta de uma leitora que vive na África do Sul. Meti-a no bolso, para leitura posterior, na Aiana, à sombra dos sobreiros, sem imaginar de quem fosse.

Ora, a autora da carta tem um nome invulgar, Águeda, nome de terra, e não me pareceu familiar, a não ser quando se referiu ao irmão. Então, sim, pude situar no tempo as imagens que vinham desde a rua da Fé, passavam pela rua do Forno e acabavam na garagem da Dona Beatriz que servia de escola onde tive por bom companheiro o Luís, rapazola cujo pai teria um fraco pelos rebuçados… Teve a Águeda a bondade e a paciência de escrever ao Director deste jornal e de me dirigir algumas palavras simpáticas que não só me deram muito prazer como me forneceram assunto a que tento dar forma aceitável, assim mesmo, sem rede, perante vocências, neste namoro que vamos mantendo uma vez por mês, da rua para a janela da mercearia do senhor Arménio onde ficam expostas dias a fio, à torreira do sol, coitadinhas, ao pé do bacalhau demolhado, a primeira e a última páginas d’O SESIMBRENSE, que é um dó d’alma, coisas do Carlos Batista a que o António fecha os olhos e abre a montra. É um namoro à antiga, à distância, com pudor e circunspecção, o respeitinho é muito bonito.

Ah, a rua da Fé, o inesquecível e inconfundível perfume da mercearia do Fernando Rasteiro e da Dona Aldegundes.

Era um cenário único, a cocheira ao lado, a mula e a carroça, o campo e a vila a dois passos do mar, à sombra da torre da igreja de cima. A caminho da escola, rua do Forno fora, habituei-me a passar em frente à oficina do tio Elias, parando sempre à porta para respirar fundo e aspirar o cheirinho da madeira, contemplar o universo fascinante que aprendi a conhecer com o meu pai que, de vez em quando, me levava ao Corpo de Marinheiros. Era uma excitação maravilhosa, ia no carro da carreira, de pé, ao lado do motorista, quando era um compincha que me deixava carregar com o pé no botão da buzina ruidosa, antes das curvas fechadas. O pior era o Mau-Mau, em Santana, no posto da Polícia. E lá voltava eu ao meu lugar. Depois era o desfilar dos pinheiros, estrada fora, até ao Laranjeiro e a entrada ufana pelo Portão Verde. Miúdo deslumbrado, brinquei dias inteiros na oficina sob o olhar atento e ternurento do meu pai, sargento artífice carpinteiro, todo eu orgulho e felicidade com perfume a madeira.

Ora, na rua do Forno, ao lado da oficina do tio Elias, havia uma casinha onde trabalhava um sapateiro a quem eu deitava um olho apressado, porque o meu sapateiro era o tio Joaquim Sobral e eu permanecia fiel ao seu estaminé pequenino, com os banquinhos minúsculos de escola infantil, os passarinhos na gaiola, o cheiro a cabedal e as canas de pesca lá dentro, à espera da segunda-feira, dia sagrado de epopeias nos rochedos do Caneiro.

Pois este sapateiro da rua do Forno tinha duas filhas, uma que viria a casar com o Cabecinha e outra com o Júlio Laranjeiro dos Santos, mais conhecido por Júlio Galgão, meu amigo de longa data. Mas tinha também o nosso homem um filho, um calmeirão de físico impressionante, com ombros largos, tronco em V, um atleta admirável que namorava a irmã do Luís, meu companheiro de infortúnio na escola-garagem da D. Beatriz. Era em 1954, talvez, numa altura em que o Camilo não sonhava com o restaurante Baía. Era carpinteiro naval e o único serviço de restaurante era assegurado pela mulher que, a meio da manhã, ia levar uma cafeteira de leite e um pãozinho com manteiga ao menino Luís que entrava às sete. Não, não insistam, não volto a narrar o mistério das flores que murcharam prematuramente nem outras histórias sombrias…

Lembro-me do falecimento da mãe do Luís e da partida para África da irmã, a Águeda, que casou com o calmeirão musculoso e esbelto.

Tanto quanto me recordo, ela era magrinha e cheguei a pensar que se quebraria em mil bocados nos braços poderosos daquele colosso. Pelos vistos (e lidos na carta) não só sobreviveu como lhe deu três filhos. E, sobretudo, é feliz, Deus os continue a ajudar. Teve ainda a Águeda força e ânimo para nos escrever, grande ideia, porque nós pensamos em todos os sesimbrenses que vivem longe, sabemos como é agradável receberem o nosso jornal.

Por estas e outras razões, a nossa modesta gazeta pode chegar a ser desejada, por trazer em si um pouco de todos nós, porque é nossa, porque nos diz respeito, fala de nós, nos chama pelos nomes, pelos apelidos e, até, pelas alcunhas, nos põe na berlinda, nos desafia para a desgarrada, nos empurra do Passadiço na maré cheia, nos dá uma amona, nos bate nas costas, nos dá um abraço, vai connosco atrás da procissão, faz parte da nossa vida. Por tudo isso, nos preocupamos com ela, procuramos fazê-la bem, deixando-a pronta para sair, de risco ao lado, páginas com vinco, toda catita na sua fatiota de plástico.

Se nos falta assunto, olhamos em volta, basta isso. Há pouco tempo, caminhava eu junto ao muro da antiga lota quando ouvi alguém cantar o fado, baixinho. Aproximei-me e meti conversa com o homem. Falámos disto e daquilo e, entre duas frases, lá ia mais meia de fado, sempre com um sorriso tranquilo. Tem 94 anos, quase um século às costas que virava ao mar, ali no muro da lota, num domingo de manhã, sorrindo à vida. Neste mundo de descrença, de desamor e de vazio, é quase um milagre. Era o pai do João Mau…

Nós sabemos que, friamente vistas as coisas, pouco ou nada valemos nem representamos neste universo a abarrotar de jornais diários, semanários, múltiplas revistas, inúmeras rádios, canais de televisão e Internetes. Não tenhamos ilusões, somos uma gota de água, insignificante e frágil, é a nossa fraqueza. Mas é água da Califórnia, água pura, com o sabor das nossas raízes, da nossa memória, da nossa paixão, do nosso mundo interior e anterior. É a nossa força.

E quem recebe o nosso jornal, lá longe, fecha os olhos, vê o mar a beijar a areia, o farol a piscar o olho ao cair da noite, e o castelo recortado no nevoeiro de um Setembro farto de sol. Mas quem está longe também aborda com receio e certa angústia a página da necrofilia. Abruptamente, pode dar com o nome ou a fotografia de um familiar, um amigo, o companheiro de carteira da segunda classe. Quem vive em Sesimbra passa junto à montra d’O Sesimbrense e fica a saber quem morreu.

O Zé de Matos andava feliz, enfim reformado, livre para poder saborear Sesimbra fora de horas e de dias de constrangimento. Livre para ver partir os visitantes ao domingo, pela tardinha, e no fim do Verão. Livre para ir com o Gil, o António Mateus e o Júlio Galgão, ao banho, na praia deserta das segundas-feiras, sem pressas, sem encontro marcado a não ser com as marés cheias de amizade e nostalgia, regresso ao desprendimento, às manhãs benditas que só acabam na Galé, com pimentos e peixe-assado. O Zé de Matos lia o nosso jornal e, de vez em quando, no muro da lota, na esplanada do Central, dava-me dois dedos de conversa, com futebol à mistura.

Há bem pouco tempo ainda, falava-me dos nossos pais, sugeria-me que não esquecesse, um dia, de referir que eram amigos. Prometi fazê-lo quando arranjasse ideia que permitisse encaixar essa nota. Nunca pensei que fosse tão cedo, que tão cedo se fosse o Zé de Matos, que tão cedo tivesse de falar dele no pretérito. Mas é assim, acontece, de repente, quando a vida parece ser um caminho ainda longo a percorrer.

E essa mesma (será?) vida vai continuar, sem ele, sem todos quantos nos vão deixando. E o nosso jornal?

O nosso jornal só obedece aos apelos do coração e basta-nos saber que algures, na África do Sul, a Águeda e os seus nos lêem com prazer.

E imagino o Zé António, na fria Alemanha, percorrendo O SESIMBRENSE, à procura de um nome conhecido, de uma referência à Torrinha, às imperiais e às navalheiras do Gil, aos rescaldos dos jogos do Benfica em debates quentes com o Hélio e o Vítor Batista, ao perfume dos eucaliptos do campo do Desportivo, com a camisola do Espadarte e o elegante Cardim na baliza.

Por isso, por eles, por outros, vamos escrevendo, enquanto é tempo, admitindo que não será inútil, aproveitando temas e ideias, inventando, sonhando, improvisando, tudo para que o nosso jornal continue a ser o toldo do jogo do prego, as escadinhas da rabeça…

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*Publicado originalmente na edição de Maio de 1997 de O Sesimbrense.

segunda-feira, 29 de março de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 3




Portão verde

António Cagica Rapaz

O pátio é pequeno, pavimentado a cimento bruto, o pio da roupa num canto, um armário velho perto da janela, a gaiola do pintassilgo junto à porta e meia dúzia de vasos alinhados contra a parede.

De Inverno, o menino costumava encostar-se às vidraças, a olhar a chuva, horas a fio. A água escoava-se pelo rego, era a descer, para a rua, até ao mar que rugia lá em baixo, na cova funda. Por vezes, em dias de vendaval, quando as ondas galgavam a muralha, imaginava que o mar pudesse subir a rua e entrar pela casa dentro. Mas logo se sentia reconfortado e em segurança, ao contemplar o portão verde, de madeira rija, que resistira ao ciclone.

O pátio era o seu mundo, trazia do quarto os barcos de madeira e de cortiça, o carro de corda, os cubos da Majora, os livros velhos do pai, as bolas de aço e a palheta, as placas e os botões. Instalou o quartel num canto, junto à janela do quarto, armado com tábuas e folhas de zinco da Sopa. Isolou com barro amassado, a chuva não entra. Lá fora, o vento medonho, o mar estrondoso. E ele no quartel, aconchegado e seguro. Que viesse chuva, que roncassem as vagas, que assobiasse o vento, ele estava a salvo, no pátio, a casa ao pé, a mãe na cozinha, com o candeeiro aceso, o feijão com arroz ao lume. Só faltava o pai chegar para o mundo ser perfeito…

O portão da escola também era verde, mas de ferro. E havia grades à volta deste outro pátio, o de recreio. À sala de aulas, pelas janelas abertas, chegavam o chilrear dos pássaros, no jardim, vozes de mulheres que voltavam da praça e o ruído do motor de algum carro vagaroso. Ao longe, a serra, a tentação da evasão, olhares rápidos, ânsias de liberdade, apelos da praia, medos da régua, êxtases proibidos pela tabuada e pelos ditados. No livro de leitura, a contemplação repetida e sonhadora da página da lição sobre o luar de Agosto, o lavrador e a família, de mãos dadas, em contraluz, a bola branca enorme no céu azul escuro, imagem ideal, a paz, a pureza das coisas belas e simples…

O portão verde fecha-se à boca da noite. Pela janela da cozinha escoa-se uma luz doce que ilumina parte do pátio. A mãe já chamou, já é noite, está a arrefecer. Depois de jantar, o menino espreita pela janela do quarto. No canto, lá está o quartel, berço de sonhos, domínio intransponível, barca de navegações imaginárias, cantinho, retiro, esconderijo, jardim secreto. O mar está calmo, o céu sereno, e o portão verde, eterno e forte, protege a casa, garante a paz, aconchega e tranquiliza. O menino adormece com um sorriso nos lábios…

1998

sábado, 27 de março de 2010

TALVEZ POESIA..., 1


Rua das Janelas Verdes*

António Cagica Rapaz

É minha esta rua esguia
Triste e nua,
Mais sombria
Do que a tua,
Lavada em cada manhã
Por um sol de Primavera.
Melhor sorte eu tivera
Se, por acaso, nascera
Na tua rua, não era?
Se, por acaso me deixassem
Ter uma casa daquelas
Onde os meus pais me esperassem
E fossem verdes as janelas...

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* Recolhido no capítulo Talvez em Setembro, Talvez Poesia..., do livro Conversas Com Versos e Com Ventos, de 2008, este poema, seguramente um dos últimos escritos pelo autor, surgiu inicialmente publicado, com ligeiras variantes (que abrangem o próprio título), no blogue Sesimbra e Ventos, no dia 25 de Abril de 2006.

quinta-feira, 25 de março de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 3


A Cotovia* (2.ª e última parte)

António Cagica Rapaz

Por uma bela tarde de verão, a tia Stella tomou corajosamente o volante do velho Anglia preto e a expedição arrancou com destino à longínqua Cotovia. Estaríamos talvez em 1953 e o tio Jójó tivera a insólita ideia de construir uma casa naquele ermo, longe do mundo civilizado que assentava arraiais no Central e no Grémio. No seu desejo de evasão fora acompanhado pelo tio Né, o Hernâni Baptista, garboso comandante dos Bombeiros que no meu espírito evocava igualmente a fábrica de conservas da Caveira.

A Cotovia era outro mundo, um castelo de aventuras dos cinco que em casa do tio Jójó eram três. Com o Luís Filipe eram quatro, como os três mosqueteiros. O Luís Filipe era o pupilo do Exército muito digno no seu uniforme, sempre de sobrancelha carregada e dons apreciáveis para o desporto. Eu desembarcava naquele universo, com admiração e deslumbramento. As bicicletas, as espingardas de pressão de ar, os mil brinquedos que nunca tive, uma lareira, um ar de festa, uma felicidade contagiante, tudo me deixava seduzido.

Mas a vida é cruel e naquela Cotovia maravilhosa, apesar da protecção sadia dos pinheiros, naquele presépio de sonho, o Luís Filipe viu partir a mãe numa idade em que se não é suficientemente forte para achar normal nem tão infantil que não se fique traumatizado. Vi e senti a alguma distância o seu drama, a sua revolta, a injustiça de um destino que parecia cor-de-rosa…

Nas nossas corajosas pescarias na doca, encavalitados num colchão de borracha (sem sabermos nadar), ou perto do calhau da Cova com o Padre João, nunca nos debruçámos sobre questões de ordem metafísica. Apenas nos habituámos a entender-nos sem grandes conversas, numa complementaridade que não mudou. Ele fala pouco, eu não me calo e ambos pensamos o mesmo, sentindo de igual forma. Chama-se a isto amizade, cumplicidade. Regista-se. Não se explica. Terá sido essa cumplicidade que me levou a ficar em sua casa nessa tarde em que, como dizia, a tia Stella conduziu a expedição à misteriosa Cotovia. O entusiasmo foi enorme e alguém lançou a ideia de irmos armar aos pássaros no dia seguinte, de manhã. Para tanto era melhor ficarmos para dormir. E ficámos. A minha irmã até acabou por ficar na família. Para mim era mais difícil, já que eles eram todos machos, na Cotovia…

Aí nasceu a minha paixão pela Cotovia, ou melhor, por uma certa forma de vida, por uma atmosfera especial que ali se respirava. A Cotovia era a fuga ao bulício de Lisboa durante a semana e à agitação de Sesimbra ao sábado e domingo. Era um retiro, um paraíso, uma estalagem, um convento, uma coutada, uma mansão, um oásis.

As primeiras chuvas do Outono desencorajavam os últimos turistas. Era o momento de voltar a vestir as camisolas grossas que a tia Fernanda fazia à mão. O vento, arauto do inverno, trazia consigo um gosto impreciso que a chuva revelava. Era chegado o tempo do peixe seco, dos carapaus doirados ao sol do verão. O apelo era irresistível e aposto que o tio Jójó não trocaria os primeiros carapaus secos do Outono por uma lata de caviar. A tradição venceu os anos e passei dos melhores domingos da minha vida na Cotovia com os da casa e o Luís Filipe que vinha dar uns toques cabazeiros nos matraquilhos onde ele e o Joca era fregueses certos do Zé e deste vosso servidor. Enquanto a Carmelinda e a tia Fernanda limpam a loiça, o António adormece agarrado à telefonia a ouvir o relato e o tio Jójó troca dois dedos de conversa com o Jorge até o Chico chegar.

O compadre Artur não deve tardar e o tio Nuno vê-se aflito com a «Miss» que procura cravar o dente no pudim que vai acompanhar o café por sua vez iluminado pela espectacular bagaceira «Patricius», segredo do mestre Jorge. O Jorge é o último fidalgo proletário da Cotovia, o último patrício de casta antiga, com a sua filosofia pura da vida que ele manobra com fleumática e cativante sabedoria.

O tio Jójó é o meu senhor feudal que não ergue a ponte levadiça como fazia Conrado, o lobo, o vilão das aventuras do Cavaleiro Branco, Jean de Dardemont, que eu devorava com avidez.

Na Cotovia eu encontrava recriado o ambiente medieval com um senhor feudal bondoso, apaixonado pela caça e pelas artes. O seu castelo estava sempre aberto aos amigos, vassalos ou suzeranos, peregrinos (como eu) de passagem ou membros da numerosa família.

O Jorge nunca tinha fome, já tinha sempre comido mas acabava infalivelmente por petiscar qualquer coisa connosco.

O compadre Artur deixou ao António uma recordação inolvidável com as sardinhas que trouxe de Cascais naquela almoçarada pantagruélica em que o admirável Duque se juntou à nobreza da casa.

O serviço militar é uma viragem na nossa vida. Em vésperas de entrar em Mafra almocei carapaus secos com o Jorge no Casal, à beira do alambique. Foi o fim de uma época, de um capítulo de aventuras, como se eu, leitor do «Cavaleiro Andante», tivesse por artes mágicas penetrado no universo de Jean de Dardemont para viver a seu lado o fragor das lides, percorrido o caminho exaltante da epopeia.

O tio Jójó lá continua, Deus o conserve por muitos anos com a sua bondade, a sua linhagem de figura nobre, o seu sentido estético da vida e o gosto sensível pelas coisas e valores autênticos.

Como Afonso da Maia, o tio Jójó encerra um ciclo. O Jorge é o seu velho mestre de armas que conhece os cantos á casa, as tocas, os abrigos, a direcção do vento, o canto dos pássaros, que maneja a enxada, o martelo, a acha e o pichel.

Protejam o tio Jójó, aguentem-me esse maravilhoso Jorge, não matem a Cotovia…
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*Publicado originalmente na edição de Novembro de 1982 de O Sesimbrense, na rubrica «Contos da Noite Velha».

quarta-feira, 24 de março de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 2


A Cotovia* (1.ª parte)

António Cagica Rapaz

Durante muitos anos a Cotovia nada mais representava na teia das minhas recordações do que uma paragem no itinerário pachorrento do carro de Cacilhas.

Depois da subida soluçante, ruidosa e fumarenta, até Santana, quase sempre atrás de uma camioneta do peixe (daquelas que vão deixando na estrada um rasto salgado), contornando o posto da Polícia onde o Mau-Mau controlava o horário com severidade, rasgava-se um horizonte novo na frescura da manhã. Era a Cotovia. Sesimbra ficava lá em baixo, na cova funda, meia adormecida, com as «beatas» vestidas de preto a saírem da missa das sete e a juntarem-se em grupinhos no jardim, em frente da capela, os miúdos de saco branco com as carcaças quentes para o pai que está na loja e espera o café da manhã. As mulheres do campo começam a chegar com os burros carregados para a praça. Nas tabernas cheira a bagaço e a abafadinho. Os velhos pescadores sentam-se no muro olhando o mar azul, procurando a rabeça do sol que já se eleva por cima do Caneiro. Uma barca cruza a baía, o motor ronrona e o fumo perde-se no céu sem nuvens. O Mau-Mau volta p’rá barraca e o Manel Estêvão mete a quarta, Cotovia abaixo…

A Cotovia era, para mim, apenas uma paragem do carro da carreira, uma aldeia escondida onde, à hora a que eu passava devorando a paisagem com os olhos escancarados de miúdo curioso, o tio Sebastião da Sopa abalara já estrada abaixo enquanto o Jorge bebia uma tigela de café que a Joaninha lhe preparava. Mas nessa altura eu ainda não conhecia o Jorge, só conhecia o Tio Sebastião porque o via muitas vezes na «Sopa», de fato de ganga azul e boné. Para a criança que eu era, o tio Sebastião era um homenzarrão que eu achava parecido com o meu pai, com a mesma estatura, o mesmo aspecto franco e vigoroso. Só que o tio Sebastião ainda desce ao jardim, aconselha o Jerónimo, ajuda o Fernando, caminhando pausadamente, atravessando o tempo sem pressas…

A Cotovia é campo mas um campo diferente do meu. O João Pedro, o meu sobrinho, chamava-lhe o campo da Carmelinda (filha do Jorge). Mas o meu campo era as Caixas, ficava no lado oposto. A Cotovia era menos campo, estava mais perto de Sesimbra e, como ficava na estrada de Cacilhas, cheirava a Lisboa. O meu campo era diferente, a estrada era de terra batida, de macadame, só havia uma carreira de manhã e outra à noite. E a camioneta reservada à carreira de Alfarim era a mais ranhosa do Covas.

A minha paixão pelo campo, pelas Caixas, prolongou-se pelos primeiros anos da minha infância em que virei as costas à praia e só gostava dos porcos, das galinhas, das mulas, da debulha, do pão no forno, dos pinhões, do moinho, da vindima, da água-pé, daquela vida dura mas saudável, com manhãs luminosas, a alvorada anunciada pelo galo garboso do tio Meano, com crepúsculos suaves, com o dia a perder-se na curva da estrada onde desaparecia o carro da carreira que regressava a Sesimbra. Cansado das lides diárias, em que participava com ardor, eu adormecia beatificamente enquanto o meu pai ficava à porta em conversa sem fim com o tio Júlio e o tio Justino que o ouviam com prazer e admiração. Ao longe, confundindo-se com as estrelas, viam-se as luzes trémulas da costa do Estoril, de Lisboa, dessa Lisboa que nos obrigava a passar na Cotovia. E acabei por conhecer a Cotovia, na minha adolescência e já homem capaz de saborear o bagaço do Jorge. Assim aprendi a gostar de outro campo mas as minhas raízes ficaram nas Caixas, na água límpida da fonte dos Torrões, na sopa de tomate e batata com pele, no pão amassado pela tia Clarisse, nas vindimas da Roça, na farda branca do meu pai emergindo da poeira levantada pelo carro da carreira, na corrida atrás do trilho na eira, na melancolia do regresso a Sesimbra após as primeiras chuvas de Outubro e o apelo da escola.

E anos volvidos voltei a encontrar o tio Sebastião que já não me pareceu tão grande. Quando o conheci, em pequenino, não imaginava que ele fosse da Cotovia. Para mim ele era o tio Sebastião da «Sopa», velha mansão que as chapas de zinco protegiam da maresia. E o tio Sebastião simbolizava a sopa, o inverno, o vendaval, a rua dos Pescadores. E afinal ele é da Cotovia, quis Deus que fosse irmão do Jorge. E o Jorge, no meu espírito, é a Cotovia, a Cotovia é o Jorge. Lá iremos…

(continua)
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*Publicado originalmente na edição de 24 de Outubro de 1982 de O Sesimbrense, na rubrica «Contos da Noite Velha».

terça-feira, 23 de março de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 2

O mar do campo

António Cagica Rapaz

Era no início dos anos 50. O ribeiro dos Torrões ia desaguar na praia, mas nós, exploradores de palmo e meio, ignorávamos o destino daquele fio de água límpida que retínhamos, aqui e ali, em represas improvisadas para mergulhos frustrados e caça inocente a rãs saltitantes.

Depois de termos encaminhado para os talhões, um após o outro, a água que o tio Júlio tirava à picota, íamos, o Julinho e eu, encosta acima, armar aos pássaros. Chegados ao alto, contemplávamos, num misto de estranheza e respeito, aquele mar imenso e revolto, com vagas poderosas que se desenrolavam com fragor na areia rija da praia a perder de vista. Ficávamos em silêncio tempos infindos naquela contemplação, maravilhados e intimidados. O Julinho nunca tinha ido a Sesimbra e eu tinha dificuldades em lhe explicar o nosso mar, o verdadeiro mar, o da Pedra Alta, ali mesmo em frente da rua dos Pescadores, quase à nossa porta, o porto de abrigo, os passadiços, a água doce, os destroços do Numância, a imponência da fortaleza, as aiolas baloiçando, dolentes, amarradas à popa das barcas ancoradas na baía, na quietude da manhã apenas quebrada pelo sino da igreja de cima. Esse, sim, era o mar, não aquela imensidão tumultuosa de ondas a rebentar em praia deserta a dois passos do pinhal. Não fazia sentido, ali era o campo, céu de pardais, não de gaivotas. Por isso lhe virávamos costas, em corrida vertiginosa, ladeira abaixo, até à cabana de canas de onde a tia Clarisse já nos chamava porque a sopa de tomate e batatas com pele esperava por nós. A minha mãe enchia-me, regularmente, a marmita com batatas fritas com ovos que eu partilhava com o Julinho. De tarde, íamos lavar as cenouras e os nabos, para a venda no Seixal quando, para lá do cabeço, a noite ia caindo sobre o mar e a neblina já se estendia sobre a praia do Meco…

1983

segunda-feira, 22 de março de 2010

IN MEMORIAM, 3





A última carta (3.ª e última parte)

João Flamino

Foi nesses almoços que descobrimos bons vinhos (vá-se lá saber o motivo de a carta dos vinhos me vir parar sempre às mãos! Devo ter cara de alcoolizado mental! Ou então, bastava-me ser virtualmente o Zé Cuscopos para tudo isso se tornar tão natural como a nossa sede!), e longas foram as referências aos Calços do Tanha, que nos deram margem de manobra para muitos trocadilhos, daqueles feitos pelo Mestre António ou por nós próprios, e que nos deliciavam intensamente, tão espontâneos eram os sorrisos, os olhares de cumplicidade na marotice e a brejeirice inofensiva que o inundavam e o rodeavam.

Recordo, igualmente, o dia em que lhe comuniquei que iria dar-lhe um abraço à Feira do Livro de Sesimbra, que se realizava na Fortaleza e onde também viria a encontrar a Ana, que por lá passou para nos ver e dar um abraço de incentivo ao nosso António, mesmo sabendo nós que estava ela própria a viver um momento difícil na vida pessoal, com a doença grave de um familiar muito próximo. Passado pouco tempo estava a receber um telefonema seu a dizer que iria petiscar a uma famosa esplanada, local com uma vista única para o mar de Sesimbra, com a Margarida, e que teria muito gosto que eu e a minha mulher também participássemos nesse petisco. Que fizeram questão de nos oferecer, antes de rumarmos, todos, às instalações da Feira do Livro, em mais uma demonstração da personalidade do casal. Foram totalmente infrutíferas as minhas tentativas para pagar a despesa e, para além do prazer da companhia, da qualidade das ovas, das amêijoas e dos caracóis e da inenarrável sensação que nos assolou a todos quando o sol começou a aproximar-se da linha do horizonte, conferindo tons únicos à pintura paisagística que apenas um génio poderia saber traçar, ainda teve tempo para me presentear com um livro, que comprara de propósito para mim. Guardo-o com uma estima tal que até me custa relembrar a gargalhada sincera que soltei quando li o seu título: Com os copos, de Miguel Esteves Cardoso. Logo seguida da emoção sentida, na mestria da palavra, quando dei por mim a ler a dedicatória, escrita pelo seu próprio punho, que reza da seguinte maneira: “Para o João… ou o Zé… ou lá como é, com um grande abraço do Caghica . Agosto 2009.”.

Como ele bem sabia, todos os meus textos jocosos, com muita ironia à mistura, e mesmo os mais sérios, que publicava no meu blogue, sob o disfarce de Zé Cuscopos, terminavam com a expressão, matreira, Hic Hic Hurra. Daí à brincadeira, puramente fabulosa, com o próprio nome foi apenas um pequeno passo de mestre.

Depois, estive presente com o Joaquim e com o Pedro na apresentação do seu último livro, feito de forma genial com um passeio de barco ao largo de Sesimbra, terra que sempre transportou no peito, num coração onde o sangue era também mar. Recordo o brilhante discurso do Pedro e as palavras, sempre sensatas e sábias, do António, num momento em que nada poderia fazer prever o que se seguiria, num ápice.

É que, no dia 30 de Outubro de 2009, a confraria teve a última ceia em redor do seu mestre. Já nesse dia, em que o António chegou atrasado (o que nele não era normal), e vinha acompanhado da Margarida (o que, isso sim, já era normal), logo nos primeiros contactos, e sem que o tivéssemos revelado até ao final do almoço, tanto eu como o Joaquim ficámos muito apreensivos. Havia ali qualquer coisa que não estava bem no António. O seu olhar estava mais ausente. A sua fala mais pesada e longa. A exposição das suas ideias não era feita com aquela garra, aquela energia, aquela vivacidade e força de vida que dele brotava normalmente. Aliás, durante todo o almoço manteve-se muito mais sereno do que o habitual, participando apenas esporadicamente nas conversas, como se estivesse um bocado afastado do que o rodeava ou extremamente cansado.

O certo é que, findo o almoço, tanto eu como o Joaquim, numa pequena conversa a dois, demonstrámos a nossa estupefacção pelo que tínhamos acabado de presenciar e decidimos averiguar. Essa foi a razão para o meu telefonema para o Pedro que, igualmente, de nada sabia e que apontou como possíveis causas as dores de costas que o assolavam e a falta de descanso.
Foi o Joaquim quem me comunicou a recepção de uma mensagem, por correio electrónico, dirigida a todos nós, recebida pouco depois, em que o António informava que lhe tinha sido diagnosticado um tumor no cérebro e que iria dar entrada num hospital de Lisboa para uma intervenção cirúrgica. Nela, para além de justificar o sucedido através da expressão “as coisas são o que são”, ainda estava presente a vontade de nos voltarmos a reunir para almoçar, uma vez tudo ultrapassado, como que a dar-nos a nós força para o que se seguia.

O que se seguiu foi tão violento como rápido.

O António embarcou para a grande e derradeira viagem em 13 de Dezembro de 2009.

Foi o Pedro, com quem mantive os maiores contactos nessa fase difícil para todos, quem me telefonou a dar a notícia que nunca, nenhum de nós, quis receber.

Deixou-nos, a todos, mais pobres, por já não o termos entre nós, mas tornou nossas vidas muito mais ricas durante o tempo em que nelas permaneceu.

Era uma pessoa notável e de quem eu gostava como se fosse meu irmão mais velho, e se o escrevo agora é para que não fiquem dúvidas daquilo que sentia por ele.

O António não era só isso, era muito mais do que isso. Era um ser humano fora de série e que, no momento em que escrevo estas linhas, me faz deixar escapar uma lágrima de saudade profunda. Estou imensamente grato ao destino por ter tornado possível que as estradas de nossas vidas se cruzassem a dado momento, mas estou igualmente triste por não nos ter deixado caminhar nelas, lado a lado, durante mais tempo.

Penso, também, que não existirão muitas palavras capazes de o descrever com propriedade. E todos os meus esforços nesse sentido se revelariam inúteis ou ficariam muito aquém do desejado.
Resta-me, pois, sentir a tua falta, querido AMIGO, na certeza de que estarás para sempre presente em meu coração e na minha mente ao longo da linha que me conduzirá, inevitavelmente, até onde já te encontras.

É o meu único consolo, sabes?

Acreditar que quando não te encontrar, por já ter parado o meu coração e a minha mente não conseguir suportar mais a vida em meu corpo físico, terei do outro lado, à minha espera, alguém para me receber de braços abertos e me levar, por entre um trocadilho e outro, de sorriso aberto no rosto, ao destino final das almas, mostrando-me os cantos à casa…

Obrigado, António, por tudo e… boa noite, ó mestre!!!

Escrito em Lisboa, entre os dias 16 e 17 de Março de 2010.

domingo, 21 de março de 2010

IN MEMORIAM, 2


A última carta (2.ª parte)

João Flamino
Regressando ao António, aos poucos fomos voltando a encontrar-nos, sempre com o Joaquim a, orgulhosamente (para ele e para nós), marcar presença e, logo num desses primeiros reencontros, agendámos um almoço para um restaurante perto da Casa dos Bicos. A localização era explicada pela presença do seu companheiro de blogue, o Escriba, a quem dava mais jeito o almoço por aquelas bandas. Nada a objectar, o que interessava era o convívio e ainda tinha o créme de la créme que era conhecer quem partilhava as linhas com o António Carteiro, pois sabe-se que gente de bem atrai a si mais gente de bem.

À boa maneira das fitas de cowboys, onde as surpresas agradáveis nos estão reservadas para o final, eis que pouco depois chega o tão esperado Escriba, o Pedro. Ele olha para mim, eu olho para ele e à sua saudação inicial eu apenas respondo, com um sorriso estampado no rosto: “- Olá Pedro!”. De repente, o Pedro olha mais aprofundadamente para mim e diz: “- Mas eu não te conheço?...”. Em mais uma das reviravoltas da vida, numa daquelas coincidências em que ela é tão pródiga, o Escriba que ali estava, ao lado do nosso Carteiro, era um velho conhecido dos tempos em que ambos frequentávamos os corredores sombrios e poeirentos de uma Faculdade lisboeta. Nessas alturas os nossos contactos tinham sido esporádicos, mas foi um enorme prazer, para a alma, voltar a vê-lo e poder reatar o contacto perdido. É verdade, afinal o amigo do peito de quem o António me falara emocionado, dizendo (verdadeiras) maravilhas a seu respeito, era comum. E nenhum de nós o suspeitara sequer…

E os almoços que inicialmente eram a três, passaram a realizar-se a quatro, estendendo-se assim a confraria em momentos que, para todos, eram de puro repasto para o corpo e para o espírito, se bem que, em determinadas alturas, por imperativos laborais, o Pedro não tenha podido estar presente.

E foi numa dessas alturas em que outro curioso episódio sucede. O António, o Joaquim e eu fomos almoçar à Churrasqueira do Campo Grande, onde tivemos de nos bater com um bacalhau assado com batatas a murro e feijão frade, regado a bom tinto e, por entre as deliciosas histórias com que o António nos ia brindando, surge uma a respeito daquele que ele considerava um verdadeiro felino entre os postes. Chamava-se (e ainda se chama, felizmente) Vítor Manuel e, para melhor esclarecer quem nos lê, jogou ao lado do nosso António que teve uma passagem distinta por vários clubes de futebol, desde o Grupo Desportivo de Sesimbra (onde começou), passando pela Académica de Coimbra (clube que muito o marcou), pela CUF e pelo seu amado Belenenses, onde terminou a sua carreira de futebolista. Ora, o caso do Vítor Manuel prendeu logo as nossas atenções, não apenas pelos rasgados elogios às suas capacidades feitas pelo nosso António, mas sobretudo por este ter sofrido, num fatídico jogo em Matosinhos, contra o Leixões, uma lesão de tal maneira grave que o incapacitou definitivamente para a prática do futebol (numa disputa de bola, num lance perfeitamente inofensivo, um jogador do Leixões lança-se contra o Vítor e dá-lhe uma violenta joelhada na cabeça, deixando-o logo inanimado e relegando-o para um estado de coma). No meio daquele episódio ficou a pena de não saber o que teria sido feito do Vítor Manuel.

Ora bem, voltando às coincidências, o meu compadre Joaquim é um homem do fado (e não se limita a ouvi-lo) e, nessa mesma noite, vai a uma sessão de fados à Tasca do Chico, no Bairro Alto. Conversa puxa conversa e quem é que ele descobre lá, a cantar o fado? Exactamente, o Vítor Manuel, de quem estivéramos a falar à hora do almoço. Aproveitou a ocasião para lhe falar do Tó Manuel (nome pelo qual era carinhosamente conhecido o António) e logo ali ficou alinhavado reencontro, que se deu no almoço seguinte que realizámos, novamente naquele restaurante perto da Casa dos Bicos. Foi bonito, pois o António nem suspeitava e apenas sabia que viria um homem do fado almoçar connosco, o que nem estranhou por saber que o Joaquim era um homem desse meio.

Não voltou a ser possível ter o Vítor em mais almoços nossos, mas foi muito gratificante poder assistir ao abraço dos dois.

Almoços esses que se foram tornando num costume, à razão de um por mês, para não se perder o contacto, e que foram, igualmente, sendo alargados a outros convivas.

Um deles foi a Ana. Que, como é evidente e tal como todos nós, também logo se deixou encantar pelo nosso António. Resta referir que a Ana também chegou do meio virtual e é pessoa que, tendo-se deixado encantar por nós, também logo nos encantou, pela sua maneira de estar, pela sua esmerada educação, pela sua simpatia e bondade e por, no fundo, estar em perfeita comunhão com o espírito de grande alegria e amizade que enchiam verdadeiramente a mesa nos dias dos almoços (a comida e a bebida eram apenas o pretexto).

Com tantos interesses em comum, e com a amizade a fortalecer-se, foi normal que, em breve, o grupo de quatro habituais convivas tivesse passado a cinco (com a chegada da Ana, que passou a participar em todas as iniciativas comensais que se seguiram) e fosse, esporadicamente, sendo alargado em virtude das circunstâncias.

Foi assim que, em determinada altura, o nosso António nos informa que vai trazer duas surpresas para um dos almoços (o mais concorrido de sempre). E essas agradáveis surpresas foram, nem mais nem menos, que a Margarida, sua simpática mulher, e o seu melhor amigo, dos tempos de infância, o Manuel António, que a todos, novamente, nos souberam encantar. António Manuel e Manuel António, os velhos amigos de sempre, ali estiveram a partilhar alegrias e histórias, juntando-se naturalmente ao convívio e bom ambiente que era já habitual naqueles momentos de pura delícia para todos os que neles tinham o orgulho e prazer de participar.
É um facto que as coisas boas desta vida são tão simples que, por vezes, só à distância e quando já não nos é possível repeti-las, pelo menos com todos os intervenientes fisicamente presentes, é que lhe reconhecemos qualidades suficientemente fortes que nos levam a recordá-las com os sentimentos à flor da pele. Talvez tenha sido o que sucedeu com os almoços, com os nossos almoços, que eram tão alegres, tão bons, tão intensos e perfeitos na sua simplicidade.

(continua)