__________________________________________________________________

Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 37


Os Zambras

António Cagica Rapaz

Eram quatro como as estações do ano, como os pontos cardeais, como os naipes das cartas, como os Beatles e como os três mosqueteiros. Quatro eram os Zambras que, na década de 60, constituíram um conjunto de apreciável valia, aposta ousada, inspirados na melodia xaroposa dos Bee Gees.

A esplanada da Marisqueira era tímida, meia dúzia de mesas e cadeiras diante da porta, mais estalagem de corsários de má morte do que bar selecto ou restaurante requintado. A dois passos ficava o café do Joaquim Pólvora, antigo extremo-esquerdo do Desportivo que foi rendido pelo Hermínio Pinhal, também ele à frente de um café, o Martelo, berço dos Galés. Ao lado do Pólvora, pai do Eliseu, a minha tia-avó Francisca ia ficando cada vez mais mirrada naquela cova funda onde está hoje o restaurante Pedra Alta. Mas nunca perdeu o olhar vivo, de brilho intenso, malicioso e lúcido. Era irmã da minha avó Sabina que também passou anos atrás de um balcão, na rua dos Pescadores.

Sesimbra vivia uma época de fulgor e euforia, com a epopeia do Desportivo, o esplendor da lota, a animação da esplanada do Central, o cartaz folclórico do Chagas, a roda viva de barcas e traineiras em bailado garrido em frente da fortaleza, o rodopio das gaivotas, a festa saudável do Verão que os Galés cantavam pela noite fora, enquanto durava o fôlego do António do Porto, o homem da gaita. O Hotel do Mar era a excelência, templo inacessível, mistério e fascínio, com as suas paredes de inspiração monacal, o requinte despojado, o santuário de uma boîte de configuração insólita, com várias pistas de dança, caverna das mil e uma noites de sedução e fantasia.

Os Zambras tinham o mesmo espírito folgazão dos Galés, mas tocavam uma oitava acima, não vestiam camisola aos quadrados, empunhavam guitarra eléctrica e exibiam-se no universo sofisticado do Hotel do Mar, consagração para os nossos artistas que lá iam safando Massachussets e dizendo Words à média luz, em murmúrio suave.

Mal acabava a função, era vê-los com o António do Porto, na rua de Alfenim, de roda da fogueira, com o Helder, de guitarra cúmplice, em enlevada serenata a uma menina da Calçada.

Mal ele sonhava que, um dia, viria a ter o Pedra Alta ali mesmo ao lado do café do pai do Eliseu. Nem o Valdemar imaginava vir a suceder ao Cabecinha. O quarto elemento, o Zé Costa, deu os primeiros passos na boémia saindo, em bicos de pés, da mercearia do tio Arlindo para levantar, hesitante, a cortina do Espadarte Clube onde o Zé Manel e o Júlio Silva se enfrentavam, noite após noite, em despiques fadistas animados e vibrantes. Os Zambras ficaram na nossa memória como o eco distante de um tempo feliz, verões coloridos, festa na rua, Sesimbra sentada à porta até a noite se extinguir nos últimos acordes da gaita de beiços do António do Porto...

1998

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 33

as crónicas da Eventos....




Da eira do Valada ao planalto dos Macondes*

António Cagica Rapaz

O Joaquim Manuel nunca precisou da eira do Valada para ver jogar o Desportivo. Miúdos como éramos, cabíamos por entre as grades da esquelética vedação ou arranjávamos sempre uma alma caridosa que nos acolhia sob a sua protecção. E lá entrávamos para ver de perto os nossos heróis, o Manel Santana, o Isidro, o Zé Broa, o Baeta, o Rogério, e esperar o fim do jogo para saltarmos para o campo, com as redes ainda postas, a cal bem viva e as marcas das traves das botas no pelado áspero. Era a nossa vez, presos à magia do futebol, sonho deslumbrado ao cair da noite…

O Joaquim Manuel não esteve connosco nos dois últimos anos da prodigiosa década de sessenta. Convocaram-no para um jogo cujas regras não lhe explicaram, equiparam-no e mandaram-no para um campo desconhecido para defrontar e eliminar um adversário escondido. Era a guerra colonial, e o local dos encontros era algures em Moçambique, terra do Matateu, ídolo do Belenenses da nossa infância…

Por essa altura, com a camisola da CUF, tive a honra de jogar com o velho Lucas, o nosso Matateu, a quem não me ocorreu perguntar se tinha algum parente para as bandas de Nangololo, algum amigo que pudesse proteger o Joaquim Manuel. Um ano depois dele, em Outubro de 69, entrei eu na tropa, em Mafra, mas não fui ao Ultramar, e nunca hei-de saber avaliar como foi bom ter escapado.

O Joaquim Manuel começou por escrever um diário, talvez para passar o tempo, para registar factos que, paradoxalmente, preferiria nunca ter presenciado. Quem sabe se, ao escrever, não tentava diluir a crueldade daquela guerra, transportando-a para um universo de ficção. Mais tarde, acabou por desenterrar o diário e reviver a guerra, os medos, a angústia, a revolta, a incompreensão, mas também a força da camaradagem, o sabor da vida permanentemente ameaçada, a abençoada excitação provocada pela chegada do correio que lhe levava mensagens de amor, de amizade, de saudade.

“No Planalto dos Macondes” conta a guerra, a vida e a morte, lá longe, para onde foi sem ter pedido, para matar quem nunca vira ou ser morto por quem nunca ouvira falar do tio Amadeu nem sabia que ele era do Belenenses, clube dos manos Vicente e Matateu, moçambicanos como aqueles que se escondiam, preparando mortíferas emboscadas para mutilar ou roubar a vida a jovens condenados a uma luta cega e injusta.

É longe Moçambique, mas diante dos olhos do Joaquim Manuel estava sempre Sesimbra, a família, a namorada, os amigos, a praia, a vida, a verdadeira vida, não a que ele e os camaradas arriscavam ingloriamente em terras que não eram deles. Dele, Joaquim Manuel, era a nossa Sesimbra evocada ao longo das página desta admirável narrativa que deveria ser lida por todos quantos possam estar interessados em saber como se lutou, como se sofreu, como se morreu e como se sobreviveu no horror da guerra, tudo contado com realismo, lucidez e, mesmo, humor. Cada militar tinha a sua aldeia no coração, mas raros são os que falam dos seus sentimentos, menos ainda os que escrevem. Mas o Joaquim Manuel fê-lo e nós ficamos felizes por ele, por ter sobrevivido, por estar entre nós, por ser nosso amigo e por ter sido capaz de nos deixar este valioso testemunho, olhando a guerra à distância, recordando quadros de morte para melhor saborear a vida.

Sabe Deus em que pensará hoje o Joaquim Manuel nas suas caminhadas ao longo da Marginal. Talvez lhe chegue, vindo de longe, o cheiro da mata, o chilrear dos pássaros em cada alvorada, tudo misturado com o perfume suave dos eucaliptos do campo do Desportivo que quase tapavam a vista da eira do Valada…

____________
* Publicado no n.º 32 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2004.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 36



Valdemar, sempre ele

António Cagica Rapaz

- É inglesa, mas é do campo!

Tal foi o veredicto do juiz Valdemar Laranjeiro dos Santos no supremo tribunal da malandrice que era o Espadarte Clube. Numa noite de rambóia, na mesa comprida do canto, o belo Valdemar apreciava o estranho estilo de uma mocetona que dançava desajeitadamente. Após breve análise, saiu a sentença:

“Eh pá, esta gaja é do campo!”

- Tás maluco, pá – replica o Alfredo Filipe.

- Já te disse, é do campo. Já viste como ela dança, parece que anda aos bordos, toda desengonçada. A malvada vai à zinga! Vai por mim, é do campo.

- Não pode ser, pá, a mulher tá no Espadarte, é inglesa.

- Tá bem, é inglesa, mas é do campo, que lá também há campo.

Genial desarrincanço este do Valdemar, notável, de facto. Em Inglaterra também há campo, campo e bailes, algures em Quintola Road ou em Caixas Cottage. Portanto, o Valdemar tinha razão. Aliás, às duas da manhã, à luz mortiça das velas, à sombra dos barrotes do Espadarte Clube, depois do Pinhal ter posto o Rose garden, I beg your pardon pela décima vez, o Valdemar tinha sempre razão, a razão do mais forte, do mais descontraído, do mais hábil num flamengo improvisado ou num samba endiabrado. Nos anos 60, o Verão era uma festa permanente para o Valdemar que nem por isso faltava na lota para ganhar o peixe de cada dia. Até chegar a noite, as noites de aventuras, de ousadias, escaramuças no Forno, abordagens na Marisqueira, emboscadas no Hotel do Mar.

Na lota, à beira da fortaleza, pimpão e galgão, com um olho vigiava o peixe que vinha do mar e, com outro, o peixe de terra que se encostava ao muro com olhares meigos e sorrisos cheios de promessas.

- Hello, Val! – lá estavam elas à espera que na lota soasse o último chui para embarcarem na traineira da noite que largava as amarras e ia perder-se no mar da bruma.

O seu inglês era modesto, mas o Valdemar não tinha complexos e, com meia de italiano mais um toque de espanhol, boa noite, ó mestre, vamos lá atão.

Em vida anterior, o Valdemar terá sido, provavelmente, pirata da Jamaica, aventureiro de Maracaíbo, garrafa de rum, chapéu de aba larga e pluma ao vento, gesto largo, palavra fácil, uma mulher em cada porto.

No futebol podia ter ido longe, mas não quis, não sentiu que valesse a pena, era outro tempo. O Valdemar foi sempre cigarra, filho da noite. Por ela se perdeu, com ela viveu plenamente, intensamente, a noite, sim, mas também o sol, as vitórias do Desportivo. Bebeu essas taças que empunhou com ambas as mãos, mergulhou nelas, fez espuma, regalou-se, viveu.

A lota fugiu para a doca, o Espadarte Clube morreu, as marés levaram a nossa mocidade. Mas o Valdemar aí está, quase na mesma, sempre ele, como diria o meu compadre Alves do Santos se tivesse de comentar os lances da vida deste Valdemar que é uma legenda de uma certa Sesimbra.

Hello, Val, Valdemar, sempre ele...

1984

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 37

Saudade: António Cagica Rapaz partiu faz hoje um ano.


António Reis Marques e António Cagica Rapaz em Sesimbra, em Fevereiro de 2009. Foto de João Aldeia.


Carta ao Tó Manel*

António Cagica Rapaz

Todos aqueles que têm tido a amabilidade de acompanhar as minhas divagações neste cantinho da última página, sabem que a certa altura me deu para dirigir cartas a este e aquele. A primeira foi enviada ao meu ilustre primo Domingos, o nosso Capitão Domingos. Depois, foi a vez do Fernando Viola, do Luís Rafael Pinto Cascais (mais conhecido pelo Luís Papa-rebuçados) que faz o favor de não se zangar comigo apesar do descaramento que aqui confesso sem remorsos.

Ora, depois de ter escrito a tanta gente, depois de ter feito desfilar nestas colunas milhentas personagens da nossa terra, chegou a altura de vos revelar um grande segredo. Aqui no andar de cima aparece a minha fotografia e o nome do autor das crónicas. E toda a gente julga que o autor destas linhas é o António Cagica Rapaz, mas não é verdade. É chegado o momento de vos revelar que o verdadeiro autor destas epístolas é o Tó Manel, filho do António Rapaz e da Amália Come-figos, sobrinho da minha tia Lucinda, que tem um jeitão para escrever, desenhar, pintar e assobiar, uma artista consumada que não saiu do anonimato por modéstia.

Hoje resolvi repor a verdade, fazer justiça e agradecer ao Tó Manel porque sem ele estas crónicas nunca teriam existido. Nascemos ambos ao mesmo tempo, na noite de Santo António, na Rua dos Pescadores, como recordou recentemente a minha prima Celestina, com ternura e poesia.

Na nossa terra todos começamos por ser o filho do fulano ou da beltrana. Eu não escapei à regra e, durante muitos anos, fui o filho do António Rapaz.

É assim e está muito bem. Não escolhi pai nem mãe (como nenhum de vós escolheu) mas sinto orgulho nos pais que Deus me deu.

Dito isto, temos de reconhecer que esta coisa de nomes e alcunhas tem muito que se lhe diga.

Trata-se de um assunto complicado, curioso e, muitas vezes, saboroso.

Segundo a minha mãe me contou (mas que isto fique entre nós) eu estava destinado a chamar-me apenas Manuel como o meu tio que morreu na horta do Faria. Porém quiseram os fados que eu tivesse nascido na noite de Satatónhe (também conhecido por Santo António) e daí este António Manuel ou Tó Manel que vocências têm aturado aqui (e algures) mês após mês, neste folhetim de trazer por casa e a conservar em banho Maria. Explicados os nomes passemos aos apelidos. Da minha mãe herdei o Rosa que vinha do meu avô João Come-figos. Do lado paterno recebi Cagica Rapaz com a curiosidade de no bilhete de identidade do meu pai figurar António Manuel Rapaz. Cagica nada. Mistério profundo? Não. Apenas um engano na altura da tropa, tendo sido suprimido Cagica e substituído por Manuel já que inicialmente o meu pai se chamava António Cagica Rapaz. Aliás descobri não há muito tempo um cartão de visita do meu pai com este nome e a menção de carpinteiro como profissão. É uma relíquia que conservo religiosamente.

A minha mãe não morria de amores por este nome Cagica que considerava supérfluo.

Ora ele é perfeitamente justificado já que a minha avó Sabina era Cagica.

Seja como for, a verdade é que até aos 18 anos não me considerei Cagica. Cagicas eram os Chicos, pai e filho, o Cristino, o Lucindo e os outros, filhos daqueles. A minha mãe contou-me uma história muito complicada que metia Galanduchas e que nunca entendi muito bem. Certo é que o Galucha, que andou comigo na escola, se chama Cagica Amigo (se não estou em erro) e tem uma irmã, cujo nome ignoro, que é uma das mais bonitas raparigas que Sesimbra viu nascer.

Quando, aos 16 anos, fui para o liceu de Setúbal, já lá andava o Joaquim Fernando, filho do Cristino Cagica e assim foi que passaram a tratar-me por Cagica também.

Ao dar os primeiros pontapés na bola, em Coimbra, foi Cagica o nome de guerra, o que não encheu de entusiasmo a minha mãe que queria que eu fosse António Rapaz, filho do pai. Porque Cagica é um nome invulgar (de origem africana?) muitas vezes aparecia mal escrito nos jornais o que me levou a mudar ocasionalmente para Rapaz acabando por ficar Cagica umas vezes e Cagica Rapaz outras vezes. Está entendido? Ninguém tem dúvidas? Quem tiver alguma dúvida, levante o braço. Bom, ninguém? Vamos adiante…

E assim foi que o Tó Manel se transformou em António Cagica Rapaz que escreve estas e outras crónicas anacrónicas graças à memória e à imaginação do Tó Manel.

O Tó Manel ficou em Sesimbra enquanto o Cagica começou o seu afastamento no Liceu de Setúbal, depois em Coimbra, Lisboa, Porto e agora em França, onde é conhecido por Monsieur Cagica com acentos nos dois aa. É a vida, com os seus apelos, com as opções a que nos obriga, os caminhos que nos leva a percorrer.

Nascido a 13 de Junho, sob o signo Gémeos esta dualidade é mais que natural. O António Cagica Rapaz escreve o que o Tó Manel lhe segreda. Dá-lhe o toque e o ritmo da sua sensibilidade, mas a essência assenta nas recordações do Tó Manel que ficou aí no Café do Alfredo, à esquina do Central, na loja do Maquino, na Taberna do Mestre Adelino, no Colégio do Costa Marques, no Palco da Vila Amália, nesse berço fascinante que vai do Caneiro à Doca.

Desculpem se desta vez falo de mim. E perdoem-me todos aqueles que tenho trazido a estas páginas sem lhes pedir autorização em meia folha de papel selado, com assinatura reconhecida pela Dona Bárbara ou pela Delmina.

É um atrevimento que tenho tido vezes sem conta ao longo de alguns anos já que dura esta cavaqueira mensal.

As ideias surgem-me por vezes estranhas, bizarras, insólitas. Hoje deu-me para escrever ao outro eu, ao meu gémeo. No fundo é justiça que faço ao Tó Manel que não vejo há muito tempo. De vez em quando vou a Lisboa. Ainda aí estive no mês passado. Vi o Manel António e cruzei-me com o João Salgueiro, antes das nove da manhã, como sucede quase sempre quando vou a Lisboa. O Tó Manel não vi porque (como já vos disse) ele ficou em Sesimbra e, nas minhas visitas a correr, não tenho tempo de ir ao muro da lota nem à beira da pedra alta.

Por isso, e para terminar, peço-lhes um favor. Se o virem, digam-lhe que qualquer dia apareço. Se o virem digam-lhe o que pensam das ideias que ele me manda e que eu transformo em crónicas breves. Se o virem dêem-lhe um abraço. O Tó Manel é bom Rapaz…

____________
*Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 32

as crónicas da Eventos...


foto tirada daqui


“Num’ânsia”*

António Cagica Rapaz

Há muitos anos encalhado na maré vazia, o Numância gerou e alimentou lendas e fantasias, foi centro de atenções, presença insólita, navio fantasma, antro de conquistadores, contrabandistas, espiões infiltrados, porões de mistério, nau de corsários na praia do tio Abel.

A rapaziada olhava, com respeito e temor, as cavernas sombrias, ninhos de polvos gigantescos, safios temíveis, moreias dilacerantes, refúgio do capitão Nemo saído das “Vinte Mil Léguas Submarinas” que nos deslumbraram a toda a largura da tela do cinemascope, milagre que o Parque proporcionava em cada noite calma, enquanto baloiçavam os eucaliptos da cordoaria. Os aventureiros do colchão de borracha armavam-se até aos dentes, com baldes, pás e bóias à cintura, para a expedição da última esperança de encontrar uma sereia na casa das máquinas ou um polvo enrolado na barra de leme. Os limos enormes, linguados castanhos, criavam raízes na estrutura de chapa ferrugenta e formavam uma barreira assustadora.

O Numância era o nosso Adamastor, a nossa Atlântida, palco de aparições quiméricas do enigmático cavaleiro Emílio da Rocha Negra, senhor de Vintemilhas, mais conhecido pelo Corsário Negro que, ao leme do seu “Relâmpago”, rasgava a noite a coberto da espessa bruma do mar dos Ursos, rumo à ilha das Tartarugas…

Quando caíam os primeiros nevoeiros de Setembro que o Rafael soprava das ameias do Castelo, o Numância parecia emergir das profundezas medonhas. Mãos e barbatanas fustigavam as águas com redobrado vigor, acelerando o regresso do colchão de borracha, fugindo à borrasca, em busca da praia, “num’ânsia” de segurança que só acalmava quando, do alto da gávea, o gajeiro gritava “Já há pé!”. Extenuados, corações a bater, só descansávamos quando víamos surgir no horizonte a silhueta branca do Zé Tucha, apregoando “Há bolos ò pastéis!”.

Logo os corsários da pedra de Zé Manel interrogavam: “Então e pastéis também não são bolos?”.
O bom do Zé Tucha, pacientemente, lá nos ia explicando que não, que há diferenças, pastéis são pastéis, bolos são bolos. Porém, os malandrins queriam era conversa e, no dia seguinte, voltavam com a provocação. Mal soava o pregão “Há bolos ò pastéis” surgia a interrogação irritante: Então e pastéis também não são bolos?”.

Com o tempo, esgotavam-se os bolos, os pastéis e, naturalmente, também se esgotava a paciência do Zé Tucha, que respondia, fleumática e pragmaticamente: “A puta da tua mãe!”…
Era assim, na praia dos piratas, no golfo de Maracaíbo, linguagem rude, espada na liga, gancho afiado, pala preta no olho esquerdo, brinco e lenço, barba hirsuta, chapéu de pluma, perna de pau, bandeira içada com a implacável caveira ao vento, canhões assestados e nós assustados, vem aí o cabo do mar, esconde a bola, chuta prà água.

O Numância foi desmantelado pelo mar e pela dinamite, lenda diluída, sonho desfeito, presépio desmontado. A praia do tio Abel mudou-se para o Espadarte, rumo à Califórnia. E nós abalámos para a vida que a muitos arrastou para o largo. Às tantas voltamos ao porto, um tanto à deriva. Atracamos como podemos, a carta de navegação está desactualizada, a bússola tresloucada, fiamo-nos no instinto e na memória enferrujada, e mal reconhecemos as tabernas do cais. Só o mar não mudou…

1997

____________
* Publicado no n.º 40 de Sesimbra Eventos, de Outubro/Novembro de 2005.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 36



Forno*

António Cagica Rapaz

Quando Sesimbra acordou para a boémia, todos os caminhos conduziam ao Forno. Em frente da cocheira do Zé Dolfo, símbolo de um provincianismo a quatro patas, o Forno abriu as suas portas para um mundo novo: o mundo da noite.

Os turistas invadiram Sesimbra, agarraram os indígenas pelo braço e iniciaram-nos nos ritmos novos, nas luzes indirectas que conduzem directamente a ritos novos de artes antigas.

No «Forno», paixões ardentes cresceram e só se apaziguaram na areia morna da Califórnia. Por vezes, a Dona Ernestina batia lá de cima, mas a música não pode parar. O Forno ficou na história de Sesimbra by night, como pioneiro e como expoente mais alto.

Hoje restam as cinzas. A figura simpática do Vítor Marques não mais enquadrará o bar. O Forno arrefece lentamente...

Junho de 1974
____________
* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica "Quando morre a madrugada - Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite".

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 35



E agora?*

António Cagica Rapaz

- Olhe, já agora, ponha-me aí mais um bocado de fiambre, que a minha filha comeu tudo, só deixou uma fatia.

A senhora ouviu o pedido da freguesa e enquanto cortava as rodelas de chourição e as fatias de queijo ia-nos relatando o que sabia desta tragédia que nos deixou a todos destroçados. Uns mais do que outros, é evidente, porque assim é a vida, assim é a natureza humana. Felizmente, porque senão poucos de nós poderíamos sobreviver a tanto drama, a tanta desgraça que em cada dia acontece por este mundo fora.

- O pior é para os que morreram, coitadinhos. Os que cá ficam, melhor ou pior, com mais ou menos empurrão, hão-de recompor-se. Quem um filho tem não o vai pôr à porta de ninguém – concluiu filosoficamente a freguesa, de lágrimas nos olhos.

Era no domingo de manhã, na praça, onde, apesar do choque e do desgosto, a vida continuava.

Era sincera e visível a emoção da senhora que nos ia dando pormenores sobre as identidades dos pescadores desaparecidos, os parentescos, os laços de família. Havia certa impressão de culpa, certo mal-estar quando, perante um drama tão grande, se pudesse continuar a pensar no fiambre e no queijo, pesar e pagar, o comércio não pára, a vida continua.

Do outro lado da rua moram a Zézinha Nogueira e o Máximo que continuam a chorar a perda da filha, tal como o Rasteiro chora o filho, ambos mortos no mesmo acidente.

Para quem é pior, para os que se vão ou para os que ficam? As opiniões dividem-se, mas ninguém sabe nem é importante saber. Só que é preciso dizer alguma coisa, é preciso procurar explicações, consolação, derivativo, réstias de esperança no meio da tragédia.

A morte toca-nos a todos mas a cada um de modo diferente, fundamentalmente consoante a proximidade afectiva, primeiro, e física, depois.

O mar já levou muitos filhos de Sesimbra, mas nunca levara tantos de uma só vez. A morte é sempre medonha e cada um reage como pode, como consegue, como sabe, como é capaz. Quando perdemos um ser querido a morte agride-nos, ameaça-nos, destrói-nos, torna-nos frágeis, deixa-nos indefesos, enfraquece-nos, coloca-nos à beira do abismo. Por isso há quem feche os olhos, recue, fuja, se endureça, se desfaça, se desintegre, chore com e sem lágrimas, se consuma por dentro, aos poucos, lentamente.

Mas uma morte ainda nós podemos compreender, conseguimos imaginar, perceber. Mas vinte, meu Deus!

Ficamos a olhar o mar, aqui, mansinho, à beira da Fortaleza e não percebemos, não acreditamos, não conseguimos realizar. Não foi aqui, foi lá longe, em Marrocos, eram vinte homens, amigos, companheiros, vinte irmãos, vinte, como foi possível?

Os nossos pescadores juntam-se em grupos em frente ao mar, ouvem, contam, e repetem, o que sabem, o que julgam saber, o que a memória antiga lhes deixou, o ciclone, outros vendavais, mas nada, nada é igual a esta monstruosidade dilacerante.

Os homens falam e olham para o mar, este aqui, o nosso, como que à espera que ele revele alguma coisa, explique o inacreditável, se justifique, peça perdão.

A guerra por esse mundo faz milhares de vítimas todos os dias. Outros dramas terríveis chegam ao nosso conhecimento, centenas de mortos, há tempos, no afundamento de um barco, algures no mar do Norte. Abriu-se a porta da frente por onde entram os carros e o barco enfiou-se mar abaixo, vertiginosa e abruptamente, na negridão da noite. Morreram largas centenas de pessoas, foi um horror, mas um horror longínquo porque foi não sei onde no norte da Europa e não conhecíamos uma só das vítimas. O telejornal mostrou logo a seguir uma passagem de modelos ou os jogos do campeonato italiano. Nós, durante uns segundos, dissemos “ai coitadinhos, que coisa horrível” e depois passámos a outro assunto. É assim, é natural, não podemos sentir na carne cada uma das mil desgraças que acontecem a cada instante no Mundo.

Mas agora foi aqui, foram os nossos amigos, os nossos familiares, os nossos vizinhos, vinte, da nossa terra, da nossa gente. É o horror e a incompreensão.

No ano passado, em desastres de viação, terão morrido cerca de uma dezena de jovens do nosso concelho, dois irmãos de motorizada, dois amigos de automóvel, dois de cada vez.

Não há peso nem medidas, graus nem escalas na dor, no sofrimento das famílias e amigos. Não há dores maiores ou menores, cada um é que sabe, ninguém pode comparar nem (ainda menos) estabelecer hierarquias.

Mas em certos casos as pessoas são levadas a esboçar tentativas de explicação. No caso dos desastres lamentam, sofrem, mas acabem por admitir que houve porventura (mais ou menos) imprudência, inconsciência ou gosto pelo risco. Não é uma condenação póstuma, não será recriminação maldosa, é apenas a necessidade que temos de compreender, de explicar, de perceber e até de desculpar ou consolar.

Nisso também este drama foi excepcional, não houve imprudência nem erro de manobra, foi uma calamidade incontrolável, imprevisível, devastadora, crueldade cega e inexplicável.

Onde estava Deus naquele momento? Como foi possível? Será que a protecção do Senhor das Chagas não chega tão longe?

Os órfãos, as viúvas, os parentes, os amigos, não sabem, não pensam, só sofrem.

A loja do Ginja é ali na Galé, a barca do Ginja era uma família, foram ao mar e não voltaram.

Da Galé avista-se o mar sem fim e desta vez o mar foi o fim, um fim monstruoso. E nós não percebemos, só choramos.

O mar levou tudo, levou-os todos, nem um corpo devolveu para um beijo derradeiro. Só ficam a dor e a saudade.

Chorava aquela mulher, sinceramente, mas lá foi pedindo fiambre para a filha. É assim, é a vida que continua para os que ficam.

E agora? Como vamos viver? Como vamos olhar para o mar? Como vão os outros pescadores olhar para o mar, este, o nosso, aqui, o dos Açores, o assassino de Marrocos?

Como vamos olhar uns para os outros? E, sobretudo, como vamos olhar uns pelos outros, pelos órfãos todos que são os que ficaram? Os que ficaram vivos, os que ficaram em terra, os que ficaram sem pai, sem filho, sem marido.

E Deus onde estava? Explique-lhes, senhor padre, eu bem gostaria, mas não sou capaz.
____________
* Publicado na edição de Janeiro de 1995 de O Sesimbrense. António Cagica Rapaz refere-se nesta crónica à tragédia do Menino Deus, embarcação sesimbrense que havia naufragado no início daquele mês, ao largo de Marrocos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 34


A Natureza faz bem as coisas

António Cagica Rapaz

Há no nosso quotidiano pequenas coisas, gestos que repetimos e a que não atribuimos valor especial. Porém, alguns deles vão ganhando, lenta e subtilmente, no nosso espírito, contornos e significados que, um dia, sem sabermos como, se tornam claros e impressivos. Abrir e fechar uma janela é gesto que podemos realizar mil vezes, uma vida inteira, sem lhes juntarmos a menor partícula de emoção. Mas pode muito bem suceder que, de repente, tomemos consciência de que uma janela que se abre é muito mais do que um fecho que puxamos e duas portadas que afastamos. Aos poucos, foi surgindo em nós um sentimento insinuante associado àquele gesto que adquiriu, sem nos darmos conta, um simbolismo inesperado e maravilhoso. E então apercebemo-nos de que abrir uma janela pode ser como abrir o nosso coração para uma paisagem, para um cantinho do nosso mundo, para a vida, para o amor. Abrir uma janela é como um pai que abre os braços para aconchegar no peito o filho que corre para ele. Como abraçarmos a mulher que amamos ou o amigo leal. Abrir uma janela pode ser fechar os olhos por um instante, deixar entrar o perfume do campo ou a brisa do mar. E voltar a abri-los para contemplarmos, longa e silenciosamente, o ondular do trigo, o oceano a perder de vista, o céu infinito, rodeando pela cintura alguém que partilha connosco esse momento abençoado. Uma andorinha que passa, em voo rasante, interrompe a contemplação e, com febrilidade, vamos abrindo, uma a uma, todas as janelas, com a excitação de crianças às voltas com os brinquedos em manhã de Natal. Fechar uma janela é estar de partida, a penumbra que já invade a casa e a nossa casa. Foi ao fechar uma janela que vi a Cidália...

Acenei-lhe e trocámos duas frases de saudação. Por aí teríamos ficado se ela não tivesse acrescentado, com voz inquieta:

- O homem está no hospital.

O homem podia ser o marido, mas é o pai, o patriarca, o carvalho austero que a Soraia transforma em frágil vime com um olhar meigo ou beicinho sentido. A sua voz sonora faz coro com a natureza, ouvi-lo à distância tranquiliza, estamos com a nossa gente, está tudo no seu lugar. Não preciso de o ver para saber que está, ainda agora o ouvi chamar pelo Rodrigo. O Fernando foi buscar lenha à Raposa, o Inverno não tarda, os sobreiros protegem do vento oeste, os cães já se enroscaram, o pão está cozido, o dia vai chegando ao fim. E o homem está lá...

A Soraia não percebe, revolta-se contra os médicos que não deixam o avô sair do hospital. É a primeira vez que sente receio, finge não compreender, para afastar aquele sentimento estranho, aquela forma de medo vago, impalpável, muito diferente do que sente quando matam o porco.

A Natureza não se engana, nós estamos habituados a uma certa ordem e aquele quadro só faz sentido com o patriarca a comandar as operações do labor quotidiano ou arrimado à casa, contemplando o pôr do sol.

Agora, a Soraia vai brincando aos comerinhos, às casinhas, forma que tem de afugentar angústias. O Rodrigo senta-se horas esquecidas no tractor, imitando o pai. O quadro não é o mesmo, falta a figura maior do presépio. Mas tudo vai voltar ao seu lugar, o homem vai regressar não tarda, a Natureza faz bem as coisas...

1998

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 34



Isabel*

António Cagica Rapaz

A autoestrada é um longo tapete que se vai desenrolando à nossa frente, cinzento e interminável, monótono e eficaz. Por vezes temos mesmo a sensação dos ciclistas que pedalam numa bicicleta colocada sobre rolos, andamos muito sem sair do mesmo sítio. E, de repente, apercebemo-nos de que chegámos, porque pagamos a portagem e porque estamos no fim do percurso. Nesse momento sentimos uma mistura de alívio e decepção. Alívio, porque chegámos bem e depressa. Decepção, porque passámos ao lado, longe dos caminhos antigos. Durante anos percorremos itinerários, habituámo-nos a atravessar povoações, a identificar curvas, rectas, subidas, cruzamentos, a descortinar paisagens, vales frondosos, uma casinha no alto do monte, um moinho, pessoas na berma da estrada ou à volta das casas, os mil pormenores que constituíam o quadro da nossa viagem.

Viajar de carro não era apenas avançar por uma estrada. Pelo contrário esta fazia parte de um espaço global, era um dos seus elementos. Seria menos funcional, menos rápido, menos eficaz, mas mais humano, mais bonito, mais poético.

Com os anos, fomos integrando aquelas imagens no nosso universo cognitivo, aquele café antes da curva, aquela fonte a meio da subida, aquele outeiro para lá do riacho…

Da mesma forma integramos no nosso universo afectivo as pessoas que conhecemos, de quem gostamos. A partir de certa altura elas vão ocupando um lugar determinado no nosso presépio interior, estão cá dentro, fazem parte de nós, habituamo-nos a viver com elas, estão em nós. Como os brinquedos da nossa meninice que conservamos na prateleira imaginária do nosso quarto. Estão ali, estão bem…

A vida leva-nos para aqui e para ali e acontece-nos recusar a estrada antiga, desprezar a paisagem encantadora, perdemos de vista o carro de bois a caminho da eira e lá vamos, a alta velocidade, cheios de pressa de chegar. Para depressa partirmos. A viagem, o espaço e o tempo, tudo morreu. Só conta chegar e partir…

Que tristeza se um dia rasgarem uma pista infernal entre Sesimbra e Setúbal que nos roube o encanto do Alto das Vinhas, o perfume próximo da Arrábida, a frescura da Aldeia de Irmãos, o recato de Oleiros. Quando preferimos a autoestrada cedemos à tentação, desumanizamo-nos um pouco.

O mesmo sucede com a amizade, quando a distância se coloca entre nós, quando começamos a ver-nos só espaçadamente. É certo que os nossos amigos continuam cá dentro, fazem parte de nós, mas, de algum modo, vão-se transformando em estatuetas, entidades difusas, imagens fixas, padrões, símbolos, pouco mais que irreais. No fundo, é uma forma derrapante, se não de esquecimento, pelo menos de letargia e diluição. Como alguém que sabe que o mar é azul e bonito e, por isso, resolve que não é preciso vê-lo todos os dias…

Meu caro António, todas estas ideias me atravessaram o espírito, assim, confusamente, desordenadamente, há tempos, numa autoestrada, algures, perto de Leiria. Por associação de recordações, lembrei-me de Coimbra, da estrada antiga, do comboio que parava em todas, Albergaria dos Doze, Alfarelos, Taveiro. Lembrei-me de Coimbra, lembrei-me de vocês, lembrei-me intensamente da Isabel…

Há muito não me acontecia, chorei e sorri, porque a imagem da Isabel é sempre um sorriso luminoso, maravilhoso, resplendente. Chorei enquanto conduzia, enquanto desfilavam à minha frente quilómetros e recordações, avançando na estrada, recuando no tempo.

Quando deixei, pela primeira vez, a minha casa fui por essa estrada fora, a caminho de Coimbra aproveitando a boleia de uns amigos que iam para o Porto. Esse mesmo Porto onde anos depois vocês viveriam e onde nos voltaríamos a reunir.

Praticamente saí da minha para a vossa casa, fui de imediato adoptado, passei a ser o filho mais velho. Tive a sensação de entrar num romance de Eça de Queirós, com as vossas raízes beirãs, a memória de Oliveira do Conde, a presença do senhor abade Varandas, a nobreza natural da avó Natália de sorriso bondoso, os fortes laços familiares, o calor da lareira junto da qual o Kari se enroscava até o Zé Manel o desafiar para as diabruras próprias da sua idade traquina.

E pensar eu que não fui mais cedo a vossa casa porque imaginava que um director de fábrica de cerveja tinha de ser velho e barrigudo! Felizmente o Afonso apareceu e obrigou-me a acompanhá-lo, levou-me até vós. E a Isabel, logo no primeiro dia, ditou a sentença, fiquei obrigado a visitar-vos todos os dias. Conivente, o trolley que vinha do Calhabé conhecia bem a estrada da Beira e, ao fim da tarde, depois do treino da Académica, parava à vossa porta. Só me custava, mais tarde, ter de subir a rua do Quebra Costas, do arco de Almedina até ao largo da Sé Velha, para chegar ao meu quarto, na travessa do Cabido. Era Coimbra…

Anos depois foi o Porto, outra etapa na carreira profissional do António e, para mim, paragem ocasional durante o serviço militar. Assim voltei ao seio da família Fonseca. O Kari crescera menos que o Zé Manel, mas ladrava alegremente quando brincava connosco. A Graça começava a refugiar-se na Ressaca, café fronteiro ao mar, ali na Foz. Era em 1970…

Depois foi a desintegração, cada um para seu lado, a avó Natália disse-nos um adeus derradeiro, o padre Varandas afastou-se, subindo na hierarquia, o António Afonso abalou para a vida, eu ausentei-me demoradamente. Ficaram vocês, o António e a Isabel, a energia calorosa e a ternura frágil, a bondade vigorosa e o sorriso enternecedor.

O António gosta de música suave, aprecia a bossa nova. Recordo-me da poética confissão do desafinado: “fotografei você na minha Rolleiflex, revelou-se sua enorme ingratidão”. De alguma maneira, foi o que fiz, fotografei-vos, fiquei com vocês cá dentro, mas a ingratidão terá sido minha porque não fiz tanto esforço quanto deveria para vos ver mais vezes. Contentei-me com o sorriso da Isabel, a recordação da sua bondade, da sua ternura, das manifestações de afecto que conservo intactas. É bom sabermos, sentirmos que gostam de nós, é bom termos amigos assim, é bom gostar de pessoas como vocês, mas é preciso dizê-lo, é preciso mostrar essa amizade, praticá-la, fortalecê-la, saboreá-la, apertarmo-nos nos braços, estarmos juntos, partilharmos emoções. Não chega sabermos, não chega termos a certeza dessa amizade, é preciso vivê-la. Porque um dia o telefone toca em nossa casa e não é a Isabel, não será nunca mais a Isabel, a Isabel já não está, nunca mais estará. E só então percebemos … Julgamos que nos habituamos à ideia da fatalidade, do inevitável, julgamos que é assim, quase aceitamos que é a ordem natural das coisas. E fomos colocando a Isabel na tal galeria de recordações queridas. Queridas mas distantes, prematura e estupidamente distantes. E, de repente, em plena autoestrada, algures, acordamos, tomamos consciência, temos a revelação fulgurante da proximidade e da verdadeira importância que uma pessoa tem na nossa vida. Com maravilhosa intensidade senti, recordei o sorriso luminoso da Isabel. Recordo nitidamente a sua voz, as expressões tão suas, agora que a fui buscar, sem saber como, à galeria onde a tinha colocado, também inconscientemente.

A amizade não é chegar, é viajar, percorrer passo a passo, de mão dada, de braço dado, de abraço em abraço, próximos, presentes, todos.

Amizade não é acenar de longe, é parar, para abraçar, para dizer com e sem palavras que gostamos. Não sei se vos disse, se fui capaz de vos dizer, como gostaria e como devia, quanto gosto de vocês. Desculpa António, perdoa-me Isabel…

____________
*Publicado na edição de Setembro de 1995 de O Sesimbrense.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 33




Vítor Batista

António Cagica Rapaz

O sol iluminava a baía de Sesimbra e os nadadores lançavam-se à água lá no Caneiro tentando acertar o ritmo da braçada na travessia anual organizada pelo Clube Naval.

O Alfredo Filipe, no seu estilo pujante e elegante, deslizava como um golfinho, embora soubesse que o vencedor seria o Vaz Jorge ou outro especialista do Algés e Dafundo. A travessia da baía era a única prova grande e uma bela festa na nossa terra, com o Zé Brás de megafone em punho, as barcas e as aiolas enfeitadas, o almoço colorido no Hotel Espadarte. Havia quem alinhasse à partida, nadasse até à Califórnia e desistisse, garantindo assim um lugar, se não na meta de chegada, pelo menos à mesa do almoço...

Era o Verão calmo e quente, numa Sesimbra tranquila. E era o defeso do futebol. Porém a febre da bola subia nessa maré de tréguas e o Desportivo organizava torneios populares que apaixonavam a vila e revelavam talentos. Clubes de bairro, rivalidade de rua, orgulho, paixão, Marítimo, Malta Brava, SAC, Horta, Espadarte, Albano, Bacalhau, Zé Barbeiro, Gato, Hélio, Manel Rosa, Zé António e Vítor Batista.

O primeiro com equipamentos a rigor e pretensões a bordo foi o Espadarte, sob o impulso do Vítor Batista. Na família, jogador a sério fora o irmão, o Zé, belíssimo avançado-centro, rápido, ágil, hábil no jogo de cabeça, que poderia ter feito carreira se não tivesse perdido o controlo e agredido o árbitro, num jogo com o Seixal.

Prematuramente privado da competição oficial, o Zé Batista saltava de contente e marcava golos em série com a camisola do Espadarte, onde pontificava o José António, excelente defesa central que a burocracia não deixou ir mais longe. Na baliza, o Palhete, o elegante Cardim, abria a boca e exibia um estilo inconfundível, enquanto o dinâmico João Pedroto varria o meio campo. Mas o maestro era o Vítor Batista, de bigode à Germano e entradas, de cabelo, à Vasques.

Assim nasceu para o futebol este Vítor que haveria de envergar, durante muitos anos, a camisola do Desportivo, com o número onze nas costas e a braçadeira de capitão. Estava o Sesimbra na terceira divisão e o Vítor armava jogo na esquerda, acabando sempre por centrar para a cabeça demolidora do Zé Serafim.

As finais com o Farense foram autênticas epopeias, partidas de arrasar que culminaram com uma negra em Beja. O Desportivo venceu por um a zero, golo do Vítor Batista. Era a subida à segunda divisão, a festa durou dias. Os peixes estranharam a ausência de barcos e ninguém lhes explicou que Sesimbra estava em delírio...

Durante anos, o Vítor Batista foi o cérebro de uma equipa onde o Fragata era um leão. Como tantos amadores, o Vítor não se considerava um jogador da bola como os que aparecem nos jornais. Depois dos treinos, retornava à sua mercearia e voltava a ser o cidadão anónimo, leitor interessado dos jornais desportivos, todo ele paixão ingénua e sincera. À segunda-feira, o Vítor já não era o capitão do Desportivo mas o sócio do Benfica que criticava o árbitro que roubou um penalty ao seu clube. E falava do Eusébio com a admiração de qualquer profano que nunca calçou botas de futebol. Regularmente, ia à Luz ver o glorioso, com o Hélio e os outros, repartia-se entre o Desportivo, a mercearia, as piadas do Gil e os ditos do Zé Barbeiro, lagarto até às patilhas.

Depois de uma dessas partidas europeias, o Vítor regressou a casa, cansado. E, nessa noite, morreu, suavemente, discretamente, como vivera, menos de quarenta anos.

O Benfica continua a jogar, o Sesimbra já desceu e voltou a subir à segunda divisão, a bola não deixou de rolar. O Gil deve sentir-lhe a falta em cada segunda-feira de manhã, na altura do rescaldo da jornada.

O Vítor Batista saiu do futebol e da vida com a discrição e a humildade com que comandava o Espadarte nas tardes quentes de um Verão que vai ficando longe na memória e na saudade...

1981

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 29

as crónicas da Eventos...



Carlos*

António Cagica Rapaz

No início dos anos 50, nós morávamos no prédio do Gá, na rua da Fé, quando o Pedro Muleta (filho do velho Justino das barracas da praia da doca) procurou o meu pai para lhe pedir emprestados três mil escudos. Recordo-me das suas palavras, podia ter falado em três contos, mas não, foi três mil escudos que disse, talvez numa tentativa tão eufemística de suavizar a dimensão do pedido. Na altura, era uma quantia avultada, e o bom do Pedro ter-se-á fiado no aparato das pedreiras de gesso, ignorando que, na realidade, elas não passavam de ilusão e de abismos onde o meu pai só escavou desgraça. Por isso mesmo, despediu-se como entrara, cabisbaixo e amargurado, como todos quantos, por infortúnio seu, precisam de pedir…

Da conversa, porém, resultou a nossa mudança para o rés-do-chão da moradia da família Justino, situada entre as vivendas do patriarca Palmela, a norte, e do Dr. Fernando Lopes, a sul. Pouco tempo depois, a necessidade obrigaria à venda da moradia que foi comprada pela família Palmela por uns magros 48 contos.

A D. Beatriz foi marcante no panorama do ensino primário, tendo-se distinguido pela sua competência e pela forma como castigava os alunos. Foi professora da minha mãe e minha também. Cheguei a comer à sua mesa, intimidado, quase aterrorizado, entre a D. Beatriz e o austero Palmela. Era um ambiente de pesadelo e, anos mais tarde, essa sensação viria a confirmar-se quando o herdeiro intentou contra a minha mãe um vergonhoso processo de despejo por (como justificou) precisar da casa para passar férias…

Felizmente, a sul, o horizonte era bem diferente, e a casa do dr. Fernando Lopes e da D. Stella foi, para mim e para a minha irmã, um oásis de paz e conforto, um verdadeiro porto de abrigo. Teria eu uns oito anos quando conheci o Carlos Manuel Gouveia Lopes, um rapazinho amoroso, com quatro anos e cabelo encaracolado…

O muro que separava as nossas casas declinava na extremidade próxima da rua, na zona da varanda, e cedo aprendi a saltá-lo para ir brincar com o Carlos, naquele universo deslumbrante que era uma casa bonita e abastada onde fui tratado com inesquecível ternura por essa Senhora maravilhosa que era a D. Stella.

Com o Carlos, brincávamos horas infinitas, em intermináveis partidas de monopólio, aos caixeiros-viajantes que se deslocavam de triciclo, ao mecano e ao lego, às mil diabruras próprias da idade. Nunca tivemos a menor disputa, nunca teve caprichos de menino rico, nunca me fez sentir diferente, e no seio daquela família encontrei hospitalidade, protecção e ajuda afectiva.

Depressa compreendi que a vida é assim feita, uma sociedade sem classes só existe no reino da utopia. E esta realidade até nem custa a aceitar quando sentimos a nosso lado pessoas como a D. Stella que não se limitava a rezar o terço que nós, enfadados, acompanhávamos murmurando “rogai por nós”. Ela era a bondade, a gentileza, a doçura, o amor, tudo reunido numa pessoa de rara beleza, física e espiritual.

Às quintas-feiras, infalivelmente, o dr. Fernando Lopes e a D. Stella iam a Lisboa e para nós era dia de festa porque, como dois principezinhos, almoçávamos na varanda, servidos pela Álvara. Depois, entregávamo-nos ao nosso desporto favorito, de cócoras, como os guarda-redes do hóquei, tendo os vasos por balizas e utilizando uma raqueta de ping-pong. Assim íamos marcando uns golitos até à hora do lanche que incluía sempre um copo de deliciosa groselha. Certa noite, clandestinamente, abusámos da “Marie Brizard” e acabámos no quintal, eufóricos e incansáveis, escarranchados em cadeiras de praia que, uma vez fechadas, faziam de mota ou de cavalo. Tudo era novidade e regalo para mim, pelava-me por tão boas coisas. Partilhei a intimidade da família, brinquei, convivi e aprendi a viver em casa da tia Stella, como me habituei a tratá-la, em particular desde que conheci o tio Nuno e o tio Jó…

Certo dia, o Carlos teve uma saída que já deixava entrever um espírito fino e imaginativo. Ao ver passar o meu pai e desconhecendo o seu nome, saudou-o desta forma original e afectuosa: “Boa tarde, senhor pai do Tó Manel”. A nossa cumplicidade foi sempre sem falha, a nossa amizade sem mácula. O Carlos teve a felicidade de ter nascido no seio de uma família maravilhosa, entre o amor e o carinho da mãe e a presença forte, tranquilizadora de um pai que garantia estabilidade e segurança. O futuro foi, para ele, desde muito cedo, um mar tranquilo a perder de vista, sem incógnitas nem angústias, feliz e merecidamente.

Andámos juntos no colégio, e o Carlos foi meu cúmplice num namoro que marcou a minha vida. Mais tarde, acompanhei de perto os primeiros passos rumo a um casamento que haveria de fazer dele um jovem avô feliz.

Dois anos depois, foi a vez do Carlos e da Ana apadrinharem o meu casamento, era a continuação da nossa boa cumplicidade…

Com os anos que por ele passam sem deixar marcas, o Carlos ganhou a atitude segura do pai e conservou o encanto da mãe. Apesar de ser herdeiro de um nome, de um estatuto social e de um património, soube escolher o seu caminho, criar um estilo, afirmar-se. O tempo foi sublinhando uma distinção com o seu quê de britânica, uma elegância descontraída, uma classe natural, um toque aristocrático a que nem faltou, durante anos, um bonito bigode. Não precisou o Carlos de aprender a seduzir nem a colocar a voz bem timbrada para entrar na política, opção que foi para mim uma surpresa, talvez por saber que não tem a menor necessidade de favores nem de benesses, porventura por o julgar (ou imaginar) tímido, imagens de infância que nós teimamos em conservar inalteradas, como se o menino que brincava com o mecano não fosse agora um homem feito, um engenheiro com carreira.

O Carlos é, há vários anos, uma figura pública prestigiada e nunca deixou de ser um homem encantador e caloroso. Nem a política o estragou…
____________
*Publicado no n.º 29 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2004.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 33


Breve*

António Cagica Rapaz

Tal como sucedera há dois anos, os alunos do Dr. Costa Marques reuniram-se num almoço de confraternização. Desta vez foi na Maçã, no Concorde, e comeu-se ainda pior do que nas Villas de Sesimbra. Não por culpa das incansáveis organizadoras nem do meu bom amigo Carlos Farinha ausente em parte incerta, algures nos confins do Oriente, segundo rezam escrituras de faquires, encantadores de serpentes e engolidores de navalhas de barba.

Antes do parco e porco almoço houve missa e romagem ao cemitério onde repousam tantos dos nossos familiares e amigos. Na véspera, mais um fora levado à sua última morada, como eufemísticamente se diz, de seu nome Augusto Sobral, um homem que participou significativamente na vida associativa e cultural da nossa terra, no Desportivo e neste Jornal, poeta popular de raiz vincadamente sesimbrense.

Na despedida, no recolhimento das pessoas mais chegadas, lá esteve o Pedro Filipe, companheiro de várias frentes e que lhe lançou, com um sorriso cheio de ternura, “Teimoso!”

E foi. Augusto Sobral foi teimoso, senhor das suas opiniões, porventura pouco tolerante, um tanto amargo, em dissonância com o mundo, remando contra uma maré invisível. Pouco contacto tivemos, mas ficou-me a sensação de um certo desperdício, alguma frustração pelo que ele poderia ter feito se tivesse sido capaz de outra abertura aos outros, pois talento, inteligência e conhecimentos tinha.

Melhor conheci o irmão, Joaquim, certamente menos lido, sem preocupações intelectuais, mas de bela feitura humana, franco e caloroso. O tio Joaquim está na minha caderneta, na galeria singela das minhas figuras preferidas, com o avental sobre os joelhos, os banquinhos de madeira na loja minúscula a cheirar a cabedal, a gaiola dos trinados luminosos nas manhãs frescas da rua à espera do sol.

Já vos contei da sua paciência ao escutar as minhas narrativas inocentes e excitadas de verões heróicos na ribeira dos Torrões, as expedições ao velho moinho para trocar um saco de trigo montado num burro capaz de pedir meças ao “Rocinante” do D. Quixote.

Enquanto me ouvia, sorrindo, lá ia colocando umas biqueiras nos sapatos estafados nas correrias infindáveis atrás da bola. Depois era a minha vez de me deliciar com as suas descrições pausadas de pescarias mágicas das segundas-feiras, saltando de rocha em penedo, de cana comprida na mão, na lonjura do Caneiro. Era o empatar minucioso dos anzóis, o segredo do engodo, a escolha criteriosa do local, o tempo certo da maré, a certeza no lançar, a sensibilidade na cana que prolonga o braço, o fascínio da água lusa, a paixão do infinito, o apelo da madrugada. Não sei nem importa se ele me contou estas coisas, se as contou assim, creio bem que não, mas foi o que me ficou, é a imagem (porventura idealizada) que conservo do tio Joaquim Sobral que largava o avental, a sovela e o martelo ao raiar da aurora, de balde na mão, homem de uma cana, a caminho das rochas, para ver nascer o sol, abraçar o mar, respirar a vida. E pescar…

O irmão Augusto também foi hábil pescador, mais explicado, mais científico, mais elaborado. Indesmentível era o seu amor a Sesimbra e talvez ele pudesse ter ajudado a lutar contra esta descaracterização, esta perda progressiva da identidade da nossa terra incapaz de conservar o perfume do alecrim nas ruas enfeitadas e desfigurada por escolas de samba que nada têm de português e, menos ainda, de sesimbrense. Fica-nos o sabor de uma obra inacabada, mas cada um faz o que pode, como pode e como sabe. Foi-se Augusto Sobral e o tio Joaquim está com graves problemas de visão. É o nosso universo que se vai desmoronando, janelas sobre a vida, sobre o passado, que se vão fechando, aqui e ali. Depois da despedida, ao sair da capela, cruzei-me com o Eduardo Marques, ainda visivelmente afectado pelo drama que enlutou Sesimbra, ao afundar-se o seu barco. O filho do Eduardo é internacional de hóquei em patins para nosso orgulho e satisfação. Daí que me veio a recordação do pesadelo que era para o velho Elias ver chegar a rapaziada de (raros) patins na mão à esplanada dos bombeiros, o único sítio onde improvisadamente se patinava.

Nem sonhar em jogar hóquei pois não havia sticks e havia vidros frágeis. Às vezes lá fazíamos umas simulações, protegidos pela presença do Luís Filipe Batista, filho do Comandante.
Pois o filho do tio Elias, o mais velho, o Diamantino, casou com a filha do nosso Joaquim Sobral. O mundo é de facto pequeno. E no almoço dos alunos do Dr. Costa Marques lá estavam o Luís Conceição e a minha prima Carolina, pais de outro internacional de hóquei, o Mário Rui.

Os saudosistas encartados, ferrenhos e assanhados, levam a vida a dizer que antigamente é que era bom, mas veja-se o caso do Ginásio Sede que permite não só a prática de múltiplas modalidades mas também a revelação e a afirmação de talentos como o Eduardo e o Mário. Talento tinha também o pai Luís, mas não levou o futebol a sério. O pai Eduardo chegou a internacional júnior, ali, que nem ginjas…!

Ora este Ginásio é uma obra que se deve à abnegação de um punhado de sesimbrenses entre os quais Augusto Sobral, referência justa que se enquadra nesta reflexão contrastada, misto de melancolia e reconhecimento.

Foi com grande alegria que revi o padre Carlos que me baptizou e que (numa ausência pontual do padre Abílio) haveria de baptizar igualmente a minha filha.

Disse-lhe do meu sincero apreço pelos seus escritos no Jornal de Sesimbra, ricos de erudição e tonalidade poética e trocámos impressões linguísticas com o Dr. Nabais.

E lá foi prosseguindo o almoço da saudade com o habitual rosário de exclamações, a contemplação disfarçada dos efeitos devastadores do tempo, a hipocrisia simpática das avaliações recíprocas, a consolação de que há sempre quem esteja pior.

Há os que estão mais velhos, mais gordos, mais esquisitos. E há os que já não estão, connosco, entre nós, como a Maria Irene e a Silvana que lá de cima devem ter rido das nossas figuras, sorrido com alguma saudade. Pelo Augusto Sobral terão ficado a saber as últimas desta terra que pisamos e que nos há-de pisar um dia.

Chegou a Primavera, o Verão não vai tardar, qualquer dia é o nevoeiro do Outono das folhas que caem no regaço do Inverno. É a vida breve, a nossa fragilidade, a nossa insignificância, o pouco que somos, o nada que valemos, o muito que nos julgamos.

Aos poucos vão-se as figuras do nosso presépio, fecham-se as janelas das nossas recordações, em cada confraternização há ausentes, sentimos-lhes a falta, marcamos-lhes falta.

Por isso é bom apertarmo-nos nos braços uns dos outros, olharmo-nos sem querermos ver rugas nem os cabelos brancos. É uma ilusão colectiva, benigna e inocente, não faz mal, estamos todos na mesma, fingimos acreditar. Ficam as promessas e um sabor a pouco. Depois cada um mete-se no seu carro e desaparece.

Ninguém tem culpa, somos todos culpados. É a vida que nos aproxima na escola, no catecismo, na Mocidade. É a vida que nos afasta na tropa, no casamento, nos empregos.

É isto, é aquilo, é o tempo que passa e não chega senão para nos vermos uma vez por ano, para nos olharmos, para nos abraçarmos, para rirmos e comermos mal.

Se calhar é o castigo para o prazer destes reencontros, o tributo a pagar.

Depois somos aspirados de novo pela vida e voltamos a ser como as paralelas que nunca se encontram.

Por isso é bom comer mal mas estar com amigos, reencontramo-nos, a nós próprios e aos outros, voltarmos a ser jovens por umas horas de ilusão.

Foi assim, foi bom, foi breve, como breve é a vida…
____________
*Publicado na edição de Abril de 1995 de O Sesimbrense.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 28

as crónicas da Eventos....


Gente do campo*

António Cagica Rapaz

Os chamadores já iam no segundo sono quando a tia Amália se preparava para nos despertar, pelas cinco da manhã. Na realidade, tanto a minha irmã como eu estávamos de olho bem aberto, ansiosos pela alvorada, naquela sublime excitação que nos assaltava sempre que se tratava de abalar para as férias grandes nas Caixas.

Atravessávamos uma Sesimbra vazia, no lusco-fusco silencioso, carregados com as malas, com o coração a palpitar de ansiedade, passo cauteloso mas apressado, como se receássemos ver recusado, no último instante, o visto de saída. No largo da igreja de cima, à porta do “Chico da Cooperativa”, o Pintassilgo esperava por nós para pôr a trabalhar a velha “Panhard” que nos levava penosamente Santana acima para depois contornar o posto da Polícia e se lançar desaustinadamente na recta das Covas da Raposa a caminho do Zambujal onde se começa a descer rumo às Caixas.

Como um náufrago que avista terra, assim nós ficávamos febris quando descíamos na paragem em frente à taberna do Baratinha. Atravessada a estrada, lá estavam o eterno palheiro com a roda de carroça arrimada, e o galo do tio Meano que nos dava as boas-vindas enquanto aguardava o primeiro raio de sol para encher a peitaça e a manhã com o seu cantar triunfal. Era outro mundo, era um deslumbramento, estávamos nas Caixas.

A nossa casinha era modesta e, como as outras, tinha o chão de terra batida, não havia água corrente nem luz eléctrica. Mas havia o poço da Quinta, havia estrelas e uma lua redonda e branca. Tudo era perfeito, foi um tempo muito feliz…

Num raio de vinte metros, contávamos com quatro fornos onde os nossos vizinhos e amigos coziam alternadamente o pão, aquele bendito pão do campo que nos habituámos a considerar um bem precioso e prova tangível da existência de uma entidade superior que regulava a Natureza, concedendo a chuva, acendendo o sol, fertilizando a terra, prodigalizando o trigo, abençoando a farinha.

O Pintassilgo dava meia volta em Alfarim, parava de novo à porta do Baratinha e arrancava rumo a Sesimbra para só regressar ao fim da tarde, quase ao sol-pôr, para trazer o meu pai, vindo do Alfeite, imponente na sua farda branca, para meu contentamento e orgulho. Muitas vezes eu não podia estar à espera dele por me encontrar nos Torrões ou noutro sítio, empenhado nas mil tarefas que partilhava com o Julinho, sob o olhar atento do pai Júlio ou do tio Justino. Era com prazenteiro entusiasmo que começava o dia recolhendo ovos já postos ou enfiando o dedo no orifício adequado das galinhas para detectar a proximidade de nova postura. A seguir, aparelhava e dava de beber à “Boneca”, a mansa mula do tio Justino, mas nunca ousei aproximar-me da escultural “mulata”, a mula preta do tio Júlio que tinha tanto de bela como de brava. Nos Torrões, regávamos os talhões das couves, nabos e cenouras, com a água tirada à picota pelo tio Júlio, antes de brincarmos no ribeiro que desagua na praia do Meco.

Entre outras coisas, amassávamos a comida dos porcos, cavalgávamos o trilho da debulha, vindimávamos e ajudávamos a pisar a uva, juntávamos a camarinheira para aquecer e perfumar o forno e íamos ao moinho trocar um saco de trigo por outro de farinha. Esta era a missão mais nobre e apetecida. Íamos no burro, um à frente, outro ao rabicho e era com curiosidade e receio que nos aproximávamos daquele local misterioso, lá no alto, as velas gigantescas e ameaçadoras, o vento a uivar nos vasos de barro com um furo no fundo e, por fim, o milagre branco da farinha que trazíamos para casa, felizes e orgulhosos.

Ao longo daqueles meses de vida partilhada, eu sentia-me igual ao Julinho, éramos como irmãos, vivíamos ao ritmo do sol, em total intimidade. Os dias nos Torrões constituem uma recordação maravilhosa, era um cantinho do paraíso, com a água puríssima da fonte, um ribeiro de brincar com as rãs enquanto armávamos aos pássaros até a tia Clarisse gritar para irmos comer a sopa de pão, batatas, tomate e ovo. À sexta-feira, voltávamos tarde para casa, a pé, atrás da carroça carregada com a venda que iam levar a Almada ou ao Seixal. Cansados e mal dormidos, abalavam a meio da noite, para uma interminável viagem, por uns magros tostões. Conhecendo bem a dureza da vida no campo, revoltava-me, por vezes, na praça de Sesimbra ao ver algumas pessoas regatearem o preço do que representava tanto sacrifício.

Desse tempo ficou-me uma enorme admiração por esta gente trabalhadora, agarrada a valores, rica de conhecimento e sabedoria, carregada de malícia, temente a Deus e amante da Natureza. Gente que vive a dois passos de Sesimbra e que consegue ser diferente, na maneira de falar, de pensar, de encarar a vida, de agir.

Tenho a felicidade de ter nascido na borda d’água, na rua dos Pescadores, e de ter partilhado a vida das pessoas do que nós chamamos o campo. Tenho agora a sorte de possuir um cantinho na Aiana onde reencontro o cheiro da terra e do pão, o chilrear dos pássaros e a ilusão de que nada mudou. De vez em quando, ainda passa uma velhinha montada num burro que deve ser o último que resta e que me parece o mesmo que nos levava ao moinho, a mim e ao Júlio que mora ali adiante, em frente à escola.

É bom estar na Galé, a ver o mar. Igualmente bom é estarmos com os nossos amigos, a nossa gente que, muitas vezes, é gente do campo…

____________
* Publicado no nº 32 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2004.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 32



O colégio do Costa Marques*

António Cagica Rapaz

O colégio do Costa Marques ficava ali mesmo na minha rua, quase à minha porta diante da qual me habituei a ver passar a Mininha, a Maria Emília, o Fernando Gaspar, a Maria Helena, o David Saloio, o Gil e tantos outros.

Até que um dia chegou a minha vez. Concluídas a 4.ª classe e a admissão aos liceus troquei um abraço apertado com o Luís Papa-Rebuçados (que preferiu a traineira do pai) e abalei para o colégio onde no primeiro ano tive como colegas o Pedro, o Batalha, o Farto, as primas Ana Maria e Maria José Cheis, a Ermelinda, a Elisabeth, entre outros e outras. Os meus dois comparsas Luís Filipe e Penim entraram no ano seguinte. O Colégio era uma pequena casa de uma grande família onde os professores nos tratavam como filhos o que não impedia (até explicava) que o Costa Marques enfiasse aqui e ali a sua bolachada e aplicasse a sua palmatoada rigorosa.

O certo é que a malta estudava, aprendia, sabia e, nos intervalos, disputava renhidas partidas nas traseiras. No período que antecedia os exames, a começar por alturas da festa das Chagas, o estudo principiava às sete e meia com um único intervalo até às dez e meia. À noite, para alguns, era até às tantas. Esta ponta final valia oiro, era a chave do sucesso nos exames, orgulho do dr. Costa Marques e fruto de uma dedicação sem limites e uma competência reconhecida e comprovada. A certa altura o Costa Marques (raramente dizíamos doutor Costa Marques) ensinava, ao mesmo tempo, Francês, Português, História, Geografia e Matemática.

Nem tudo foram rosas, mas o Costa Marques fez muito pela formação de base da nossa juventude. Os professores que tive ficaram-me na memória. Primeiro, claro, o próprio dr. Costa Marques com o seu nariz proeminente, as suas sardas, a sua cara de pau mas uma competência e uma autoridade indiscutíveis.

O Padre João, o inesquecível Padre João Honório Ferreira (que é feito, padrinho do Crisma?), era o nosso professor de Moral e Canto Coral. Para cantar não era tão bom como o seu sucessor Padre Abílio e, quanto à Religião e Moral, nós pouco ligávamos às atribulações dos Judeus e Fariseus. O principal é que o padre João era uma camaradão que irradiava simpatia e nos conquistava a todos.

Com ele fiz a Comunhão Solene e o Crisma ou Confirmação para em seguida ter a honra e o prazer de ler a missa das crianças em português visto nesse tempo ela ser dita em latim. Essa leitura era partilhada com o Pedro e muito nos divertíamos com as rasteiras que nos pregávamos reciprocamente durante a alocução das epístolas, intróitos e evangelhos.

Um dia o Padre João levantou ferro rumo à longínqua Ericeira numa altura em que realizámos um espectáculo teatral com um drama romano intitulado «Mãos Vermelhas» cujo primeiro encenador foi o catedrático Augusto Formiga que abandonou a função porque eu faltei (ou cheguei atrasado a uns ensaios) por causa da televisão que dava os primeiros passos e me retinha no Grémio. Foi-se o Formiga, ficou o «Piolho» João, a peça foi para a frente e, na noite de estreia e homenagem ao Padre João a representação foi um êxito. Eu era o herói da tragédia, jovem varão romano que imaginava ser filho da irmã do João Salgueiro e afinal era filho da bela escrava Anunciação. No final morria no circo despedaçado pelos leões. Nos olhos da assistência havia lágrimas sentidas, rebeldes, incontroláveis. E foi nesse banho de lágrimas que o padre João nos disse adeus o que não nos impediu de levarmos o nosso espectáculo à Ericeira onde demos duas – representações – duas, «Mãos Vermelhas» em duas mãos…

Esclareço que os intérpretes das «Mãos Vermelhas» não pertenciam a qualquer partido…

Figura inconfundível, silhueta inesquecível, saudade de todos nós, o nosso mestre de galanteria e ciências da natureza, Artur Maria da Silva Costa, Chefe das Finanças, orador fluente e colorido, construtor de imagens deliciosas. Dele ficou o célebre intróito «Senhoras minhas e meus senhores» que anunciava cada um dos belos discursos com que nos presenteava. Com a sua imaginação, a sua linguagem pitoresca e um dom inato de comunicar, as aulas de Ciências eram um deslumbramento. Ninguém mais esqueceu o que era um eclipse quando ele nos explicava que a cabeçorra do Farto era a Terra, a do Pedro a Lua e a do Batalha o Sol. E quando saíamos das aulas dele, à boca da noite, caminhávamos com os olhos fixos no firmamento que tão bem nos descrevera. Um homem admirável e um professor fascinante, o Silva Costa. E quando digo o Silva Costa ou o Costa Marques não há qualquer resquício de degradação. A ausência de título é sim sinal de afectividade, familiaridade respeitosa.

O senhor Major tratava todas as moças por Maria. Era folgazão e generoso pois nas aulas de inglês ele fazia tudo por nós, lia, traduzia, formulava perguntas e respostas, só nos restando dizer «Yes, sir».

A dr.ª Maria Amélia Covas foi uma magnífica professora de desenho, física e matemática e muito lhe devo pois sempre fui um nabo em desenho enquanto nas outras duas disciplinas me comportei com correcção mas sem paixão.

O dr. Nabais chegou-nos no 5.º ano e teve a ingrata missão de substituir o mestre Costa Marques em Português e História. Os Lusíadas deram-lhe água pela barba do Adamastor. Mas foi uma belíssima aquisição para a equipa do colégio…

O colégio do Costa Marques foi um ponto de convergência, numa primeira fase sentido como símbolo de privilégio. Muitos dos filhos de pescadores não tinham nesse tempo possibilidades de o frequentar. Outros podiam, como o Luís, mas não quiseram. De lá seguimos quase todos para o Liceu de Setúbal e alguns chegaram à Universidade onde eu nunca teria posto os pés se não desse uns pontapés na bola.

Mas em todos nós ficou uma mística que será mais ou menos sensível, com as aulas, o estudo, os teatros da Mocidade Portuguesa, o desporto, o Café Central, a tasca do Adelino. Todos lemos pela mesma cartilha, pela mão do dr. António da Costa Marques, um homem a quem Sesimbra muito deve, e que, infelizmente, desapareceu demasiado cedo da nossa convivência.

Na minha rua deixaram de passar as batas azuis salpicadas de branco, a campainha do Manuel Elisão emudeceu e os matraquilhos do mestre Adelino (primo do Costa Marques) sentiram a falta da malta do colégio.

O Colégio do Costa Marques é uma página virada, um capítulo sem sequência, um acto acabado. Mas não esquecido…

____________
* Publicado originalmente na edição de Agosto de 1982 de O Sesimbrense, na rubrica «Contos da Noite Velha».

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 31


A “ténica” e a pertinácia

António Cagica Rapaz

A paixão pelo futebol exercia-se em dois planos, um virtual, na esfera distante da primeira divisão, outro real, ou seja, a modesta competição regional e bairrista. Por outras palavras, gostar do Benfica não impedia a paixão pelo Desportivo, sofrer agarrado ao transístor não significava desprezo pelo despique renhido dos nossos rapazes contra o Costa da Caparica ou o Ginásio de Cacilhas. Aquela era outra paixão, vivida à distância, através dos jornais, da rádio e, a partir de 1957, da televisão.

O futebol é um encontro, não só para os que jogam mas, igualmente, para os que vibram com ele, os que, naquele tempo, o acompanhavam, que se reuniam nas lojas de companha, no muro, nas tabernas, nos cafés, para falar de bola. Era assim e era apaixonante...

O meu primeiro barbeiro foi o Zé Carapinha, belenense convicto, na minha fase azul, da rua da Fé e do Chico da Cooperativa. Mais tarde, transferi-me para o Central e para a polivalência do mestre Adelino. Para a estudantada do Costa Marques, a taberna do mestre Adelino era ponto de reunião obrigatório para as sandes do Lopes, a consulta de “A Bola”, os matraquilhos e a cavaqueira na barbearia. Enquanto manejava tesoura, pente e navalha, o mestre Adelino rapava a nuca (vulgo caldinho) ao Otto Glória, escanhoava os frangos do Costa Pereira e aparava o bigode do Germano. Os fregueses até cediam a vez para ficarem mais tempo a ouvir as apreciações críticas do mestre, na sua linguagem explicada, medida, esclarecedora, definitiva e de certo recorte teatral. Ah, a “ténica”, a bela “ténica” do mestre Adelino! Era a dimensão familiar, o futebol de pantufas, o sermão de pároco de aldeia para a meia dúzia de fiéis com as quotas em dia.

Paralelamente, ilustrava-se outro mestre, Alves dos Santos, o primeiro e mais prestigiado comentador de rádio e televisão, que trazia o país suspenso das suas palavras nos breves minutos do “Domingo Desportivo” e, sobretudo, da magia das gloriosas e históricas quartas-feiras europeias. Era a dimensão nacional, milhões de ouvintes e telespectadores, um nome, um estilo, sempre a palavra exacta, o rigor, a ciência de um comentário desenhado num português irrepreensível e de cunho muito próprio. Ah, a pertinácia, a bela pertinácia do mestre Alves dos Santos. Na vastidão do seu vocabulário cuidado, vernáculo, escorreito e inconfundível, “pertinácia” ficou como um símbolo de erudição, de originalidade, de requinte literário, figura de estilo muito pessoal que suscitava alguma estranheza, talvez, mas, sobretudo, admiração. Equivalia a assinatura reconhecida.

Não sei se alguma vez os fregueses do mestre Adelino terão estabelecido este paralelo entre os dois comentadores, o da capelinha da barbearia e o da catedral da televisão. Não sei se o mestre Adelino terá, aqui ou ali, aparado as patilhas de Alves dos Santos, agastado por alguma referência menos abonatória para o seu Benfica.

No fundo, eram dois comentadores, cada um com a sua dimensão, a sua audiência, o seu perfil, a sua bagagem, diferentes, mas, ao mesmo tempo, comparáveis, parecidos, no gosto e no talento para a comunicação, no conhecimento, no dom da palavra e na seriedade da opinião. Um à escala da barbearia, outro no plano nacional, mas a mesma paixão, a mesma convicção, a mesma intenção didáctica.

Por vezes imagino como teria sido um diálogo entre eles. Certamente saboroso como foi aquele inesquecível almoço com o António Casa Pia, outro comunicador admirável.

Talvez o mestre Adelino, com um sorriso prazenteiro, tivesse perguntado:

- Então, senhor José, como vamos de pertinácia?

Alves dos Santos teria sorrido, com o seu ar sereno, e respondido, com bonomia:

- Menos mal, mestre Adelino, questão de hábito, por certo, mas também questão de “ténica”...

1995

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 27

as crónicas da Eventos...


João Mau*

António Cagica Rapaz

– Vamos para o campo do Desportivo. A discussão teve lugar na sede da Mocidade Portuguesa, ao fim da tarde, e os protagonistas eram o António Júlio, filho do mestre da Música, e o João Mau, ambos graduados da instituição. Porque as palavras tivessem sido insuficientes para pôr termo ao conflito, decidiram passar a vias de facto, serena e quase cordialmente. A sugestão veio do João Mau, e os dois antagonistas, quais duelistas de outro tempo, puseram-se a caminho do campo do Desportivo, lado a lado, sem provocação nem altercações, acompanhados por três ou quatro rapazolas que foram testemunhas. Ordeiramente, puseram-se em tronco nu e lealmente afrontaram-se a murro. O João Mau protegia a cara, deixando o tronco a descoberto, facilidade que o seu opositor aproveitou para lhe socar a peitaça. Sem se descontrolar, o João esperou o momento propício para aplicar um directo que deixou o António Júlio a sangrar do nariz, circunstância que ambos aceitaram como final para a peleja, com honra para as duas partes. Caía a noite quando todos abandonámos o campo do Desportivo que, naquele tempo, cheirava bem a eucalipto…

Sesimbra era terra de seitas, cada uma delas com os seus chefes. A rivalidade entre bandas e bandos provocava frequentes desacatos, combates à pedrada pela conquista de quartéis ou pela ambição de dominar o território. Talvez pela bravura demonstrada, puseram ao João a alcunha de Mau, epíteto que não corresponde em nada à sua natureza temperamental. Certa vez, feito prisioneiro por seita adversa, foi amarrado à porta do cemitério onde ficou noite adentro, transido de frio e de algum temor.

Na Mocidade Portuguesa distinguiu-se pela generosidade, pelo entusiasmo, pela dedicação, pela participação e pelo exemplo, um verdadeiro camarada para todos, em especial os mais novos. No teatro, não brilhou pelo talento, tendo apenas ficado na nossa memória pela sua actuação num papel que lhe ia a matar. O herói da peça chamava-se João e era um homem de quem todos gostavam, sempre pronto a ajudar o próximo. Mas o que o deixará para todo o sempre na história breve do nosso teatrinho de bolso, é o facto de ter proporcionado ao Jonas a célebre e insuperável tirada, no seu papel de moleiro agradecido: “Obrigado, João, és um bom rapaz, arranjaste umas velas para o meu moinho”. Que se cale um tal Villaret com a “Toada de Portalegre” ou o “Mostrengo”. Não insistam na sublime intensidade dramática do “Menino de sua mãe” que jaz morto e apodrece, preso às malhas que o Império tece. Por favor, tragam o Jonas e o João à boca de cena e prestem-lhes a homenagem que merecem…

No início da década de 60, não sei se embriagado pelo canto de algumas sereias louras, o nosso João resolveu abalar à descoberta do mítico paraíso sueco. Juntou-se ao Jorge Martelo e a o outro António Júlio, filho do Domingos barbeiro, e rumaram a norte. Concretizaram um sonho, viveram uma verdadeira aventura, ousaram, partiram. E voltaram…

Nunca assisti a uma aula dada pelo João Chagas, mas sei que gostaria de ter tido um professor assim, daqueles que podem não saber tudo, mas sabem, com toda a certeza, pôr a alma e o coração em cada lição, abrir a janela dos sonhos, da poesia e da imaginação. E também levá-las a pensar, a gostar do que estudam, a amar a terra, o mar, a Natureza, e a ter ideais na vida.

O João foi sempre uma espécie de cavaleiro andante, um D. Quixote inconformado, de lança em riste pela verdade em que acredita, pela honradez e pela sua grei, a sua Sesimbra, o seu mar, as suas raízes, o seu património afectivo e cultural. Sonhador, arrebatado, ingénuo, o João terá porventura sido, numa vida anterior, um daqueles bravos sesimbrenses que se fizeram ao desconhecido, desafiando os Adamastores de má morte.

Nesta quadra em que se festeja o 25 de Abril, apeteceu-me evocar a figura do João António Carapinha Chagas porque é um dos mais puros e autênticos sesimbrenses, daqueles que amam, profunda e desinteressadamente, a sua terra. E porque tem vivido sempre segundo ideais e valores que constituem o que de melhor podemos encontrar no chamado espírito de Abril. O João foi sempre anticonformista, rebelde, incómodo. Foi sempre um homem de Abril, na coerência de uma atitude marcada pelas convicções, coragem, poesia e até certa forma de inocência ou utopia. Conseguiu mesmo um estatuto que não se obtém com exercícios patéticos de elevação em bicos de pés. Por muito que desagrade a alguns, a grande verdade é que o João Mau é uma figura. Isso mesmo, uma figura. Homem de uma cana que põe ao serviço do Clube Naval, ainda arranja tempo para estudar, investigar, escrever, dar espia solta às suas paixões, sempre com o mar nas veias e a terra no coração…

____________
* Publicado no n.º 30 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2004.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 30



Charuto
António Cagica Rapaz
“Já cá devia estar!”. Mas não estava porque ninguém adivinhava a que horas o Rafael entraria no café do Alfredo, muito embora os filhos da noite estivessem habituados a vê-lo chegar por volta das duas da manhã. Colocava o livro das quotas sobre a mesa e, mesmo que estivesse muito calor, nunca tirava o boné.

Homem estranho, o noctívago mais acordado de Sesimbra, nunca dorme mais de três horas por noite. Recebia as quotas do Desportivo sem precisar de perguntar o número de sócio, tinha tudo de memória. Não sabe ler manuscritos, só letra de imprensa. O rosto magro, a cor macilenta de quem vive de noite, Charuto era já a alcunha do pai. Come pouco, só bebe cerveja, joga cartas com arte, é hábil de mãos, ágil de pensamento, fino na observação. Podia ter aprendido muito mais do que os números dos sócios, mas nasceu em berço pobre. Este autêntico morcego só morrerá quando se deitar às horas dos outros mortais.

Nas longas noites de Inverno, quando os turistas vão morrer longe, o Alfredo senta-se na nossa mesa e, às cinco da manhã, ainda falta contar muita coisa de um passado que nada tem a ver com a Sesimbra by night. Quando a tempestade se faz ouvir é só nossa, não é para turista ver. E vamos beber a última cerveja no muro, ver as ondas fustigarem a muralha, enchendo-nos de espuma. Aquele mar é nosso, é o mar que o Gilberto cantou. E o Gilberto era um grande amigo do Rafael...

1980

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 26

as crónicas da Eventos...



A suave mentira*

António Cagica Rapaz

Estávamos na intimidade da capela do Senhor das Chagas, e o corpo presente era o do João, em família, com os amigos e a bênção do padre Agostinho, quando a Maria Ermelinda me surpreendeu pedindo-me para ler um texto durante a missa. Muito embora não seja grande adepto deste tipo de participações externas, aceitei sem hesitação e, lá fui ler uma passagem cuja última frase era “Palavra do Senhor”.

Nessa altura, dei por mim a recordar outro tempo, o da minha juventude, quando, noutro altar, na igreja de cima, diante de um microfone parecido com aquele e a meias com o Pedro António, eu lia a versão portuguesa da missa das crianças enquanto outro João, o inesquecível padre João Ferreira, oficiava em latim.

Terminada a leitura, senti uma súbita vontade de continuar ali, de olhar todos quantos tinham vindo dar um último abraço ao João e dizer algumas palavras simples, depois da solenidade e da profundidade da palavra do Senhor. Mas, talvez por não estar preparado, não me atrevi. A verdade é que, por vezes, tenho receio de certos impulsos que podem não ser bem interpretados, sobretudo em momentos dolorosos. Lembrei-me de uma situação semelhante no filme “Quatro casamentos e um funeral”, tão iguais são a ficção e a realidade, e admiti que o João teria gostado que alguém dissesse duas palavras, na nossa linguagem, com a proximidade, o afecto e a cumplicidade que nos uniam. Acabei por ficar em silêncio e, hoje, tenho pena. Felizmente, resta-me este cantinho da “Eventos” para voltar a falar do João, porque é preciso ir um pouco além das fórmulas de circunstância. Ele merece mais do que recolhimento e prostração, porque não se limitou a cruzar-se connosco na marginal. O João fez efectiva e duradouramente parte das vidas de muitos de nós.

Há pouco tempo, embora não explicitamente nomeado, ele foi a figura central de um escrito que intitulei “E co’a dor” e no qual tentei abordar o difícil tema da dificuldade que todos sentimos em lidar com a perspectiva de uma morte que sabemos ou pressentimos inevitável; com a tristeza, a revolta e a impotência; também com a vontade de não abandonarmos os nossos amigos; mas igualmente com o apelo da vida que nos leva a apertar, por uns momentos, a mão do doente e, logo depois, irmos jantar fora, ao cinema ou ao futebol. Porque a vida é assim mesmo, porque não podemos chamar a nós todos os dramas do nosso círculo de amizades. Os familiares chegados, esses é que não podem alhear-se um só momento.

Nós, os amigos, podemos estar presentes, a espaços, falar disto e daquilo, deixar mensagens de ternura embrulhadas em palavras aparentemente banais, desanuviar o ambiente, ousar trivialidades, às vezes, uma laracha, fingir que acreditamos na recuperação, enquanto eles, na sua incerta consciência, fingem crer em nós, num jogo assente em cumplicidades inconfessadas, em que uma palavra despropositada pode ser devastadora.

Quando nos despedimos, quando viramos costas, sentimo-nos aliviados, cumprimos a nossa obrigação, respiramos fundo e olhamos o céu azul, dando graças a Deus por estarmos de volta à nossa realidade. Mas, quando somos verdadeiramente amigos, não podemos deixar de sentir o coração apertado. E sentimos alguma culpa, apesar de tudo.

Depois, o tempo vai passando, com uma ou outra ilusão de esperança, a angústia de um agravamento insuportável e um cada vez menos convicto discurso que mais não consegue ser do que uma tímida e suave mentira. Um dia, farão o mesmo connosco, e também nós fingiremos acreditar…

O João deixa em todos quantos o conheceram uma recordação muito forte, pela bondade, pela gentileza, pela lealdade, pela honestidade, pela autenticidade, pelo entusiasmo, pelos ideais, pelos sonhos que perseguiu.

Nos momentos derradeiros, o padre Agostinho serenou-o, assegurando-lhe que podia partir tranquilo porque cumpriu a sua missão, deixa uma grande saudade nos seus alunos, nos seus amigos, nas gentes da nossa terra. De cada vez, e muitas são, que vou ao porto de abrigo, penso nele, no seu amor pela natureza, pela vida. Em cada aiola, em cada barca de aparelho, por este mar fora, ele deixou o seu olhar e a sua paixão, o nosso João…

____________
*Publicado no n.º 37 de Sesimbra Eventos, de Abril/Maio de 2005.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 30


«Técnico»*

António Cagica Rapaz

Uma das sortes mais típicas da magia do progresso consiste em colocar uma capa sobre um velho estabelecimento, deitar uns pós de perlimpimpim, umas notas de mil e, maravilha das maravilhas, surge uma agência bancária…

Foi o que aconteceu à loja do mestre Adelino.

Na evolução natural das coisas, as tabernas deram lugar aos cafés que, por sua vez, se transformaram em bancos.

A taberna do mestre Adelino foi uma curiosa excepção. Primeiro, manteve durante muitos anos a sua modesta mas mui digna condição de taberna, aliás frequentada por uma clientela muito especial, variada, com pescadores, empregados de comércio, estudantes e até um encantador de serpentes.

Depois passou a Banco sem ter sido café…

A casa tinha dois centros de atracção. De um lado, na taberna, o jogo dos matraquilhos que funcionava dia e noite com as bolas a entrar, as moedas a cair e a malta a discutir. No princípio era a cinco tostões a jogatana.

Um belo dia, o «estádio» foi levado para reparação e no seu lugar foi colocado outro que só funcionava com moedas de escudo. Uma tal inflação assustou o pessoal, mas o mestre Adelino apressou-se a acalmar os espíritos explicando que era provisório. O vício, porém, era grande e o jogo continuou no mesmo ritmo apesar do preço haver duplicado. Resultado: o provisório virou definitivo e, se não fosse o banco, a esta hora ainda a maralha martelaria os matraquilhos do mestre Adelino.

Ao lado da taberna, com comunicação pelo fundo, ficava a barbearia onde o Raul começou a afiar a navalha com a qual era tão hábil como nos matraquilhos, a par do Lopes que, diga-se desde já, preparava umas sandes atuchadinhas de atum que eram um regalo.

Para além de rapar a nuca (vulgo caldinho) o mestre Adelino dava todos os dias lições de futebol. E era ver os benfiquistas reunirem-se para ouvirem o mestre fazer o balanço da jornada anterior ou as previsões para o domingo seguinte.

Cada um é como cada qual e o Mestre Adelino tinha a sua particularidade linguística: na palavra «técnica» ele pegava na navalha e escanhoava o «c». Daí que da sua boca saísse, por tudo e por nada, uma «ténica» repetida naquela orgulhosa convicção de que só ele pronunciava correctamente e os outros estavam todos errados. E era ténica para a direita, ténica para a esquerda e às vezes pelo centro…

A palavra caiu no goto de certo núcleo de malandragem e, a breve trecho, o Mestre Adelino passou a ser conhecido pelo Ténico.

O Carnaval começava ali com as brincadeiras da praxe, o «lápis do Lopes» guardado na caixa atrás da porta da barbearia, os porta-moedas pregados ao alcatrão que faziam as mulherzinhas do campo descer dos burros e tantas outras. A malta continha-se, silenciosa, com ar de quem não quer a coisa, mas quando alguém se baixava para apanhar o porta-moedas saltava o coro. «Larga Larga»! Era o susto, a surpresa, o vexame das mulherzinhas que, recuperado o ânimo, davam respostas adequadas, sugerindo mesmo lugares onde poderíamos meter os ditos porta-moedas.

Um dia, quem caiu na armadilha foi o «João-Vai-Vem». Aos gritos de «Larga! Larga!», o Fedor entusiasmou-se e clamou: «Larga, urso»!

Rescaldo: cento e sessenta escudos de multa. E vá lá, vá lá…

O mestre Adelino tem saudades da sua casa, do ruído dos matraquilhos, da algazarra da freguesia, das histórias de «lenha», dos penaltyes roubados ao Benfica…

As mulheres do campo escolheram outro rumo, os matraquilhos calaram-se e o Raul contempla, nos Açores, o oceano. O mesmo oceano que ele aprendeu a amar na rua dos Pescadores onde nasceu…
____________
* Publicado na edição de 25 de Junho de 1980 do Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.