*Publicado em O Sesimbrense de Outubro de 1993.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 53
*Publicado em O Sesimbrense de Outubro de 1993.
quarta-feira, 30 de março de 2011
AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 52
Central: a meio do sono*
António Cagica Rapaz
O Carlinhos da Rã levantou-se, pegou na garrafa de água e no copo, veio até à nossa mesa, pousou copo e garrafa, sentou-se e, passado um bom bocado, perguntou de forma mais afirmativa que interrogativa se não incomodava…
Foi no Central, num domingo à tarde, a hora morta, quando o Manel Zé conseguiu enfim almoçar. Noutro tempo as mães preocupavam-se com a torreira do sol, recomendavam a sesta à miudagem ou impunham o chapéu de palha, inestético mas útil. O Carlinhos da Rã usava boina, uma boina preta, enorme, enfiada pela cabeça abaixo, quase tão grande como a do outro Carlinhos que morava na calçada. Fiel ao Central há muitos anos, o Carlinhos ancora por ali desde miúdo. Por isso se infiltra com grande destreza por entre as mesas, com o copo e a garrafa na mão, conhece as correntes, escolhe as marés, navega à bolina até chegar de gargalhete à nossa mesa. Só podia ser no Central, só podia ser o Carlinhos da Rã…
Para quem, como eu, tem andado por outros mares, reencontrar o Central é ver a luzinha vermelha do farol em noite de tempestade, alcançar o porto de abrigo em dia de mar feio. Era domingo, a meio da tarde, a meio da vida, a meio da saudade, a meio do sonho que o Central sempre representou a meus olhos. Com o Manel Zé recordámos figuras que passaram pelo Central. Cada um de nós conserva as suas imagens, as suas emoções e o tempo vai retocando, adoçando o contorno.
Fazia falta este Central, com o peso do seu historial, a sua memória colectiva, a sua imponência, o seu simbolismo, marco de uma tradição.
Os tempos são outros, o snooker terá mais procura do que o bilhar e compreende-se a opção. Contudo, bem gostaria de fazer duas bolas a girar como o meu mestre António Vitorino me ensinou.
O bilhar era a disciplina do professor Arménio que, dono da casa, possuía o seu taco, as suas bolas e a autoridade do cientista. As suas lições eram quase tão raras como as exibições do Chico Cagica, todo ele talento, no bilhar e em todos os desportos. Excepcional em tudo.
O bilhar era o «tacho» nas tardes de chuva, com o Orlando dos táxis sempre a chorar, a fazer-se mais azelha do que de facto era e o João Mota, pontapé p’rà frente, a gritar como um trovão. O Leste era um artista, gostava do jogo bonito, com adornos e enfeites, o prazer do floreado, arte pela arte. E depois perdia com o Pai do Céu, de tacada triste, económica, deslavada, sem risco nem fantasia. Espectacular era o dueto Zé Romão-António Casa Pia, com as prelecções do mestre António, os seus passes requebrados, verónicas e manuelinas a acompanhar o movimento caprichoso das bolas…
Era a meio da tarde, a meio da chuva, a meio do Inverno, a meio da melancolia de um tempo que foi. Que foi melhor, pior, não sei. Apenas sei que nos ficou cá dentro, bem fundo, a nostalgia do Central, do sô Zé, do cafezinho, da esquina…
A esquina do Central é um sítio histórico, monumento repertoriado, referência, marco, fronteira, poço de rumores, fonte de intrigas, berço de manigâncias, torre de controlo, ponto de passagem, portagem, malandragem, calhandragem.
O Central ocupou um lugar muito importante na vida de todos nós. E a vida é assim, perdemos o Chagas, voltou o Central…
À noite, na esplanada, houve música, um ar de festa, a ressurreição daquele espaço outrora meio mundano, mas sempre simpático e agradável.
Faltavam os chapéus-do-sol, as janelas do Grémio abertas de par em par, os xailes de renda branca das senhoras bronzeadas. E faltava a silhueta inconfundível da Isabel…
Mas lá estava o Mário Martelo, vértice de um triângulo fascinante constituído pelo seu café, pelo café Filipe e pelo Central. O Mário Martelo é, no meu álbum, o parceiro do Zé Ângelo, uma bigodaça ocasional, irreverente, do tempo em que a lota era uma feira franca e fresca, com o peixe alinhado na areia, com as chatas a carregar das barcas para a praia, com o Pala-Pala num corrupio. O Largo da Marinha era o pátio dos Milagres, homens, burros e camionetas, turistas e curiosos, a tarde a entrar pela noite adentro. O café do Zé Filipe era o verão da lota, o Central era o verão balnear. O Mário Martelo era uma traineira, um café, uma boémia requintada e um belo sorriso que seduziu a Pepita.
Na mesma mesa estava o Luís Preto (também conhecido por Conceição), com uns quilos a mais e a boa disposição de sempre. Poderia ter sido um futebolista de alto nível, se tivesse querido. Outros tempos, menos incentivos que hoje e também uma negligência manifesta, privilégio de talento inato.
O «Ginja» era um miúdo tímido cujo futuro cunhado, o Horta, fazia parte da nossa equipa de juniores, sob o comando do nosso Carlos Marques.
Quando jogávamos fora, lá vinha o menino Eduardo, encostado ao cunhado, para ter lugar na camioneta que nos levava até campos nunca dantes pisados, em regiões inóspitas como o Montijo, o Barreiro ou a Cova da Piedade. Era a idade dos sonhos, para ele e para nós todos que esperávamos, sem grande convicção, um dia ser futebolistas a sério.
O Eduardo cresceu, fez-se um homem e bom jogador. Foi para a CUF, onde eu estava, ao tempo treinada por Costa Pereira, ídolo da nossa meninice.
E assim o Eduardo voltou a percorrer o caminho para o Barreiro, não nas velhas camionetas do Covas, mas no seu pequeno Austin, não para ver os outros, mas para jogar e travar duelos acesos, nos treinos, com o Castro, herói de Sarilhos, gigante à altura de um Fragata com quem se bateu em pelejas de criar bicho.
Os anos passam e certas coisas boas ficam. O Eduardo, hoje homem feito, lá estava também com o Mário e o Luís. Olho-o e continuo a ver um bom companheiro de equipa, sobretudo o miúdo calado, agarrado ao Horta, com olhos de sonho, com olhos de sono, aquele sonho maravilhoso que só a infância nos dá e atrás do qual às vezes corremos a vida inteira…
Foi tudo isto o Central naquele domingo, à tarde com o Carlinhos da Rã, navegador sem complexos, e à noite a poesia de uma esplanada ressuscitada, de um passado ressurgido. Não sei se são melodias de sempre, passadismo a tiracolo, só sei que é bom reencontrar um universo que contou na nossa vida. E estas coisas acontecem a cada passo, a cada esquina. Fiquei com pena de não ter podido falar mais com o Zacarias que me dizia, com um sorriso ternurento «Tenho tanta coisa para te dizer…!».
Também eu, Zacarias, tenho muita coisa para te dizer, recordações que conservam o cheiro a eucalipto do campo do Desportivo, o cheiro a mar que o Rogério (o meu guardião preferido) e o João Caparica traziam ao passar à minha porta, o cheiro ao gelo do Chanoca agarrado ao fato-macaco desse admirável Manuel Santana, o cheiro da oficina do Brandão que não largava o Isidro. Disso e muito mais gostaria de te falar, Zacarias, porque tu foste um menino de ouro naquela equipa de homens rudes, substituíste o grande Jesus, deste de bandeja ao Zé Broa, lançaste o Zé Baptista, tinhas a arte fina dos predestinados. Tudo isto e muito mais te diria, mas não digo para não ficares babado…
E é assim, vê bem, o que faz o Central, para onde me levou o arrais Carlinhos. Menos admirável ficará a minha prima Carolina, mulher do Luís, já habituada às divagações delirantes do pai Justino e à veia poética da nossa tia Lucinda.
Estamos em Agosto, é preciso sonhar porque o tempo é vento e de repente nos apercebemos de que a vida nos fugiu. Os verões são como a vida, passam. E às vezes bruscamente…
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* Publicado em O Sesimbrense de Agosto de 1992.
quarta-feira, 23 de março de 2011
AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 51

Passa por mim no Central*
António Cagica Rapaz
O café Central foi durante muitos anos o coração da terra, ponto de reunião e de passagem, vizinho do velho cinema, parceiro do Grémio, teatro de partidas memoráveis de bilhar, salão de cavaqueira dos homens notáveis de Sesimbra. O café, qualquer café, era coisa de homens e o Central não fugia à regra, pelo menos no Inverno, já que no Verão a esplanada enchia de cor e animação o largo, num vai-vém entre as imperiais do António Luís e o cafezinho concorrente do Damião.
O Central do Inverno era a atmosfera acolhedora dos domingos de manhã, o vozeirão do Doutor Maurício, o cheirinho da bica que o Sô Zé tirava com tranquila suavidade, o jornal na mão, a barbinha feita, um certo ar de festa, a voltinha ao Espadarte, ver o mar, o mar e o sol, o sol de Inverno.
De Verão, era a sombra do Grémio e das árvores, de manhã, e o colorido dos chapéus de sol à tarde, as rendas das senhoras, a amenidade do crepúsculo e o saltinho ao muro da lota.
Era o ritmo certinho das estações, os Invernos chuvosos, com o Central a ver o pagode passar para a bola ou a sair da matinée do salão.
O Central era ainda a rabeça depois do almoço, com a rapaziada da oficina do Brandão, de fato macaco, laracha pegada, tangerinas saborosas, dois toques em bolas improvisadas, a vila tranquila, a vida desfila em passo vagaroso à imagem do Sô Zé, imperturbável, magnífico de dignidade com os seus cabelos brancos, o olhar doce e malicioso, o porte nobre, verdadeiro profeta, apóstolo dono do tempo, senhor do templo que era o Central.
A magia do bilhar seduzia-me. Olhei com admiração a fina execução do senhor Arménio, o talento genial do Chico Cagica, a arte do Dr. António Vitorino (meu mestre e amigo) e fui treinando manhãs a fio, no café do Chagas onde o bom João do Hospital me deixava jogar, às escondidas, sem pagar. Ia ouvindo o Talismã (o seu programa da manhã) e fazendo bolas a girar, com efeito do lado da cocheira do Fartura, avô do Manel Campino.
O Central era a minha segunda casa. A minha mãe telefonava, à boca da noite, nem dizia quem era, limitando-se a fórmulas simplistas do estilo
«É para dizer ao meu filho que venha jantar». Concisa, sintética e directa. Era assim a Dona Amália. E o Hernâni, o nosso admirável inspector Cachopa, nem precisava de grandes investigações para saber quem lançava o apelo telefónico. Se mãe há só uma, filho um só há. E o veloz Hernâni (belo companheiro dos matraquilhos na tasca do Mestre Adelino) transmitia-me a mensagem. Era outro tempo, outro Central.
Há dias, em fugida curta, passei à porta do Central e voltei a vê-lo como uma igreja sombria, um quarto escuro de casa antiga com um oratório em cima da cómoda e um relógio de pêndulo de tic-tac monótono que só dá horas sem sorte…
O Julião chamou-me e encostei-me à montra como anos atrás. O António Luís lá estava, ao balcão, enquanto o Cândido ia e vinha. Noutro tempo, o Cândido folgava à quarta-feira e ia à pesca. O Hernâni talvez preferisse os romances policiais enquanto o António da mercearia nem parecia folgar pois estava lá sempre, entre duas postas de bacalhau demolhado e um quilo de açúcar amarelo. O meu primo Rui (do João Mota) por lá passou e fez das boas a uma pobre surda que nem sonhava o que ele lhe dizia ao fingir falar de linguiça e de feijão fradinho.
Com o Julião estava o João Mau, professor primário, filósofo da Pedra Alta, herói de guerras lendárias entre seitas desta e daquela banda, refém amarrado à porta do cemitério, companheiro fixe, inesquecível intérprete da célebre peça na qual o Jonas lhe dizia «Obrigado João, és um bom rapaz, arranjaste umas velas para o meu moinho».
A famosa réplica «Ninguém» do Romeiro, no Frei Luís de Sousa, não é nada comparada com a tirada do Jonas. Era na Vila Amália, era a Mocidade, era a nossa mocidade, era o João Mau que um dia abalou para a Suécia, com o António Júlio e o Jorge Martelo, três mosqueteiros, três aventureiros que regressaram como Ulisses voltou a Ítaca. O João Mau foi anticonformista, rebelde, contestatário, mas um coração puro e uma generosidade autêntica.
Juntou-se-nos o Alfredo Filipe e a malandrice insinuante veio com ele, agravada com a chegada do Ernesto Corneta, seco de carnes, pronto para proezas que tenho pudor de revelar, porque sou tímido por natureza, sisudo por parte do meu pai e pouco abelhudo por banda da minha mãe que (não sei se sabem) costumava telefonar para o Central. Ah, já tinha dito?
Desculpem lá, «tenho andado com a cabeça tão esvaída», como diz a Judite, prima da minha mãe que costumava... Pronto, pronto, não se fala mais nisso!
Esta visão de um Central sombrio pode vir da minha imaginação em dia cinzento. E o que pensará, talvez, o Quim, do João Alemão, ao ler estas linhas em Agosto, com Sesimbra cheia de cor, de movimento, algazarra, azáfama dos mil comerciantes que a terra tem, boutique sim, restaurante não, carros em cima dos passeios onde já não se passeia só se passa, entalado entre a Fortaleza incontornável e a modernidade que nos asfixia.
Na oficina do Brandão já não estão o Doze nem o Chico Diabo a quem eu pedia esferas para jogar às bolas, cabos de palheta que até estalava.
Era no tempo em que a oficina cheirava a mar, com os pescadores que vinham ver se o motor estava arranjado, antes de abalarem até à longínqua doca, estafa garantida, à torreira do sol, marginal adiante que só começava a descer depois do Álvaro Tanoeiro.
A oficina hoje é o comércio moderno, montras coloridas, gente que se cruza e se acotovela ao som da música que substituiu a cadência da bigorna e do martelo e de luzes menos cintilantes que as do bico de soldadura.
Felizmente lá está a minha adorável amiga, fada maravilhosa dos produtos biológicos, tão naturais como o seu sorriso luminoso.
Esta metamorfose da Oficina é a grande mudança que Sesimbra sofreu. Para melhor, para pior? É difícil dizer, é assim, é inevitável, é a vida que passa por nós como nós passamos pelo Central.
Eu passei e olhei, para dentro e para trás, até ao fundo das recordações.
O Augusto do «Salva-Vidas» também por lá passou e com ele a evocação de outras peregrinações entre o campo do Desportivo e a doca, com paragem na Capitania. E aqui tens, João António Carapinha Chagas, caro João Mau, como nascem estas crónicas breves, escritas (como disse recentemente) ao correr da pena que tenho de não saber fazer melhor.
É assim, é o mar que chama por mim. O mar, o Central e o Manel que está comigo em todas, do Caneiro à Doca, este magnífico Manel António, chamador das ruas do silêncio que teria gostado que eu falasse aqui das lições do Pila («amanhê», «despois d’amanhê») do mano a mano entre o Ernesto (com a peixaria) e o mestre Zé Brandão a abrir a porta da oficina. E do fantasma chamado Leonarda que aparecia no Grémio, ali à beira do Central, este Central que se vai perdendo na bruma do tempo, como barco engolido pelo nevoeiro. Este Central que me dizem estar em vias de trespasse, palavra ambígua que significa mudança comercial e também morte. Talvez por isso vi um Central escuro, de fumo na montra e noite da alma. O Central está de luto, pela esplanada que era um pátio de cantigas e sonhos de Verão, um teatro de comédias de arte estival, palco, feira de vaidades um pouco, mas mais que tudo quadro admirável de cores vivas, os grandes chapéus de sol, os vestidos das senhoras, o encanto discreto de um tempo trespassado.
O Central está de luto pela lota, pela doca, pela vila, pela vida, por nós, pela nossa juventude, pelas nossas ilusões. O Central era o coração de Sesimbra e está cansado, arrasta-se como os últimos passos do Sô Zé, carregados de anos e melancolia, como os velhos que, nos bancos do jardim, contam as badaladas do sino da igreja de cima, até lhes tocar a vez, a finados.
Entretanto, Manel, vai passando no Central. Lá ficou um pedaço de mim…
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*Publicado em O Sesimbrense de Agosto de 1991.
quarta-feira, 9 de março de 2011
AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 49
António Cagica Rapaz
Há uma dúzia de anos que não me era dado assistir ao Carnaval na nossa terra. Aconteceu este ano por simples coincidência de férias escolares em França com a festa das escolas de Samba, outra escola, outro ritmo, outro recreio.
O Carnaval é como sempre foi, um mundo de contrastes, uma festa imposta pelo calendário que nos leva a rir e folgar do dia tal ao dia tantos, com crise ou sem ela. É o Entrudo, é a tradição, as cinzas do quotidiano vêm depois.
Ora este ano tenho de chegar a uma conclusão e hesito: o Carnaval mudou ou eu, com a idade, não o vejo da mesma maneira. Ou talvez haja uma dose de cada.
Com os meus filhos pela mão, não me preocupei com as máscaras nem com o tumulto dos grupos animados. Olhei à minha volta e, enquanto o Carnaval passava, a vida continuava com o Nuno no hospital recuperando lentamente da operação. Os pais não se meteram em apertos para ver as escolas de samba, antes correram para Setúbal todos os dias, cruzando na estrada molhada os folgazões de circunstância. No café Central lá estava aquele marido angustiado com a mulher internada há um mês sem saber que doença a consome. Não há calendário nem decreto-lei que suprima os dias tristes de melancolia.
Há alguns anos talvez eu não me tivesse apercebido destas situações de pequenos dramas à margem da euforia geral pois no meio da agitação colectiva não há tempo nem espaço para nos determos, consagrando um minuto ao nosso vizinho, ao nosso amigo.
E muitos ao longo do ano vivem assim, sem ligarem, sem se aperceberem do que acontece na vida dos que o rodeiam.
Claro, também vi Carnaval à antiga. Lá estive na padaria do Joaquim do Moinho assistindo à caracterização, à maquilhagem das viúvas laironas de mamas abundantes, falsas e generosas, que eram o Zé Júlio (qual alcunha?), o Jofre, o Zé Duarte, o Arménio, o Mota e o mestre Vítor inspirador do movimento, poeta de veia em riste, navegador de sextante infalível, profeta de uma noite, barítono da maré vazia, irresistível forasteiro. No Toni entraram três loucas (autênticas, à fé de quem sou) que ao verem as viúvas laironas de bigodes farfalhudos, baixaram os braços amaneirados diante de uma concorrência insuperável.
O Vítor (y sus muchachos) é o último moicano, o último exemplar de um Carnaval antigo de improvisação organizada, de génio criador, de espontaneidade, de originalidade, de erupção prazenteira. O Carnaval de Sesimbra está a entrar na era industrial com a quantidade a ocupar o lugar da qualidade, com as massas a empurrarem pela borda fora o folião individual, o arauto da paródia, o menestral da risota.
Ao acaso de uma visita à antiga oficina dos Brandões (daqui saúdo o mestre Zé, uma saudade sorridente) e deparei com o Ernesto (mas qual alcunha?) que me confessou ter havido choros com a cassete que eu fiz com as histórias dos filhos da noite. Da mesma cassete me falou o Alfredo na noite dos pares de cornos, enormes e alambazados, que o Urbino e o seu comparsa nos puseram (ao Alfredo e a mim) para uma fotografia carregada de lenha e de malandrice.
A história desta cassete dará para outra crónica onde se falará do Alfredo, do Toni, do Ernesto, do Charuto e do Júlio Silva, o meu rico Júlio, o John português que matava o cavalo na feira da Agualva.
Pois o meu rico Júlio ficou com a cassete que eu fizera para o Alfredo, a tal cassete que (segundo as línguas indiscretas dos filhos da noite) arrancou uma lágrima rebelde a muitos dos malandros que julgavam que os homens não choram.
O Alfredo, com o coração grande como a serra da Arrábida, contou à minha mulher a partida do dominó sem pedras e os anzóis empatados sem fita nem anzóis, enquanto o Charuto transformava a realidade criando um clima mágico entre duas vagas cavernosas, com a chuva a fustigar a vidraça, na hora sombria em que o dia ameaça e se fina a madrugada.
O Toni amadurece com a sua bigodaça monumental e uma serenidade surpreendente.
Há trinta anos no Clube Naval o miúdo que eu era, do alto dos seus dez anos, almoçava com um amigo mais velho e era servido por um empregado atlético a quem o meu amigo chamava Tarzan. Era o Toni o Tarzan com o seu cabedal a aparecer por baixo do casaco branco e a sua vaga semelhança com o actor francês Jean Marais. Só que o Jean Marais não é cá dos nossos e o Toni bem pelo contrário.
Foi um longo caminho para o Toni, anos e anos atrás do balcão da Marisqueira, noitadas de trabalho e de malandrice, de dispepsia e parafusos mas sempre ao leme da barca, sempre a iscar a caçada, sempre a comandar as operações.
E aí temos o Toni bem na vida graças ao seu esforço e ao sorriso permanente, à bonomia, à simpatia bonacheirona, tudo com um olho vigilante e uma presença constante.
O Toni é um cartaz de Sesimbra e uma figura notável.
Os tambores calaram-se, os trajes dormem em caixas de papelão, as luzes apagaram-se. A vida continua…
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* Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra.
sexta-feira, 4 de março de 2011
CONFRARIA MÍNIMA, 44

Bem te conheço, ó máscara!*
António Cagica Rapaz
O Carnaval de Sesimbra, antes do 25 de Abril, deixou em muitos de nós mil recordações e muita saudade, mas não podemos fazer uma evocação correcta sem integrarmos aquelas folias no seu contexto, ou seja, sem as enquadrarmos no clima sócio-cultural da época.
Naquele tempo, nos anos cinquenta e sessenta, a sociedade portuguesa regia-se por normas, regras e valores bem diferentes dos que hoje predominam. As mentalidades eram mais rígidas, a influência da Igreja muito mais sensível, e o Carnaval surgia como um curto período de libertação de convenções, espartilhos morais e preconceitos sociais. E, sem cair em exageros, Sesimbra divertia-se...
O meu pai contava-me brincadeiras de gosto mais ou menos duvidoso, roubos de galinhas, besuntadelas mal cheirosas no corrimão do Grémio ou na fechadura da porta de determinado senhor que costumava colar os lábios no orifício para chamar pela mulher. Todos nós pregámos partidas nem sempre recomendáveis, mas era assim, é Carnaval não se leva a mal.
Com o tempo, acabamos por ver as coisas com outros olhos e, muito provavelmente, o R. não voltaria a queimar aquele pedaço de malagueta numa tampa de caixa de pomada para o calçado. Foi no Grémio e o fumo asfixiante e tóxico produziu efeitos tais que o R. chegou a ter receio, perante o quadro dantesco de olhos inflamados, tosse, espirros e outras ventosidades ruidosas que deixaram prostrados alguns prezados consócios.
Recordo-me de ter subido ao sótão do mesmo Grémio e ter despejado cá para baixo pós de espirrar sobre a mesa à volta da qual se disputava animada partida de “sintético”. O festival de espirros, imprecações e recriminações foi indescritível, tendo o Alfredo Filipe escapado por uma unha negra ao linchamento.
O mesmo lhe sucedeu em tarde chuvosa, num Central fechado e cheio de fregueses encostados aos bilhares numa cavaqueira que os pós de espirrar transformaram num inferno. E também desta vez o Alfredo estava inocente. Outros pecados teria, porventura, por confessar...
Estes episódios ocorriam com frequência naquele triângulo das Bermudas localizado entre o Grémio, o Central e o estabelecimento do mestre Adelino. A taberna e a barbearia constituíam um autêntico covil de malandrice, palco e fonte de brincadeiras hilariantes, o lápis do Lopes, os rabos pendurados a preceito e, sobretudo, os porta-moedas pregados no alcatrão. As mulherzinhas do campo vinham vender à praça montadas em burros de que desciam para deitar a mão ao porta-moedas. Logo a impiedosa rapaziada saltava, gritando em coro “Larga! Larga!”, o que provocava a cólera e o despeito das pacatas camponesas que perdiam a cabeça e nos insultavam abundantemente, sugerindo até locais onde poderíamos meter os ditos porta-moedas.
Um dia, quem caiu foi o bom João Vaivém que se baixou para apanhar um relógio. No calor da reacção, o Zé Júlio gritou “Larga, urso” e foi multado em trezentos mil réis que a irmandade ajudou a pagar.
Escasso é este espaço para tanta libertinagem, pelo que aconselhável se torna passarmos ao capítulo dos bailes, prato de resistência do nosso Carnaval. Dificilmente se poderá contestar que, naquele tempo de austeros costumes, os bailaricos eram a grande oportunidade para aproximações entre pessoas do sexo oposto, a pretexto hipócrita de um passo de dança. Em verdade, era (sobretudo para raparigas e mulheres) a ocasião tão desejada de dar largas a todo um leque de apetites, sedução, intrigas, mistérios, mistificações, enredos e aventuras mais ou menos arrojadas, chamemos as coisas pelos nomes. A máscara desinibia, dava confiança, soltava as línguas, estimulava a imaginação, alargava horizontes, excitava os sentidos, dava corda ao diabinho que existe em cada um de nós. Porém, os casos de maior atrevimento não passavam de inocentes brincadeiras quando comparadas com o que vemos nos dias de hoje, à nossa volta, à luz do dia, de cara destapada, o ano inteiro...
Por isso, o que ficou em nós foi, sobretudo, a recordação de um clima mágico, de excitação e fascinação, expectativa e fantasia, com o engenho e a irreverência das raparigas que faziam, elas próprias, os trajes que depois trocavam por forma a porem a cabeça à roda aos rapazolas atrevidos. Mil episódios haveria para contar, a peça de cerâmica do Júlio Mouco, o cartucho de papel, com água, com que a Maria Vitória assustou o António Vidal, a ida da Carlota parteira a minha casa, os telefonemas intrigantes, eu sei lá.
Ficaram para a história quadros deliciosos como o Zé António da Parteira a dançar, desvairadamente apertado, mordendo o lábio, com uma máscara que não era outro senão o Zé Albano.
A magia burlesca do Carnaval atinge um alto expoente no engano em que viveu durante três noites uma figura grada da terra, o Doutor J., que dançou e tentou seduzir uma máscara que, afinal, era a velha D., magra, seca, enrugada, mulher a dias do serviço do próprio Dr. J.. A tia D. comeu, bebeu e dançou durante três noites, Cinderela galhofeira. Brincou realmente ao Carnaval e ajudou a consolidar aquilo que era a sua essência, o mistério e a ilusão...
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* Publicado no n.º 5 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2000. Trata-se da estreia de António Cagica Rapaz nesta publicação.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
CONFRARIA MÍNIMA, 43
~Apalpando rábulas*
António Cagica Rapaz
Despedimo-nos de 2001 abordando um tema grave e transcendente (Deus) para entrarmos neste novo ano a brincar, talvez para variar, quem sabe se por efeito perverso da capicua 2002. Muitas vezes caímos na facilidade da generalização, afirmando que os portugueses são sorumbáticos, tristonhos, vergados ao peso do Fado. Não sei se será bem assim, antes me parece que somos é mais de marés, de altos e baixos, de quartos crescentes e minguantes. O que não impede que tenhamos uma admirável veia irreverente, espontânea e bem humorada.
Em Sesimbra sempre se cultivou a brincadeira, a paródia, a chalaça, a partidinha marota, dentro e fora do período carnavalesco. Brincar e jogar são faces da mesma moeda, verbos diferentes que noutras línguas são um só, para significar várias coisas. O francês jouer, tal como o inglês play, tanto querem dizer brincar, como jogar, como tocar um instrumento ou representar um papel no teatro ou no cinema.
Na nossa terra sempre se brincou e jogou, à bola, ao alho, ao prego, ao ringue, às linhas, às bolas, ao arco, ao ping-pong, às cartas, aos matraquilhos, ao bilhar, ao não-te-irrites, às malhas, às prendas, à berlinda ou ao passarinho de alcatrão. Brincava-se no Verão, na praia, nas ruas enfeitadas, à volta da fogueira, e, em particular, pelo Carnaval.
Salvo erro, foi Napoleão que disse que o melhor da História são as anedotas, ou seja, as peripécias engraçadas. E a verdade é que, com a passagem dos anos, nas cavaqueiras entre amigos, vamo-nos apercebendo de que as brincadeiras da nossa mocidade constituem o núcleo mais persistente das nossas recordações.
De facto, se é verdade que na nossa vida há um tempo para cada coisa, sem perdermos a noção das proporções e das conveniências, não é menos certo que não vale a pena levarmo-nos demasiado a sério pois tudo é efémero. Por isso, a tradição da brincadeira se tem mantido, embora vá assumindo formas diferentes, os tempos são outros.
Em Sesimbra, o Carnaval era o palco natural da paródia, com as partidas clássicas dos rabos, dos badalos, dos telefonemas misteriosos, dos pós de espirrar e tantas outras.
Porém, o que sempre me apaixonou foi o repentismo, o rasgo súbito da fantasia, da improvisação ditada pelas circunstâncias do momento. Por vezes, havia alguma pontinha de maldade, mas é mesmo assim, tem de haver uma vítima. Certa vez formei parelha com o J. que colocava, silenciosamente, no chão uma lata de conserva amarrada a um cordel que, na outra extremidade, tinha uma mola da roupa. O meu papel era prender essa mola no casaco da “vítima” que ia arrastando a lata, para gozo da malta. Um de nós ia acompanhando e, se a marosca era detectada, pisava a lata. A mola caía, recolhia-se o cordel, apanhava-se a lata e desandava-se rapidamente. Às tantas, o belo J. aspirou a maior protagonismo e quis ser ele a prender a mola. Ainda estou a ver, foi junto aos degraus do adro da farmácia de cima, a “vítima”, uma mulher de língua afiada. O J. aproximou-se pé ante pé, braço tenso, gesto cauteloso. No momento em que ele ia cravar a bandarilha, ou seja, prender a mola no cinto do casaco, eu não resisti. Velhaca e traiçoeiramente, atirei a lata aos pés da mulher que se virou, num salto de susto e surpresa. Ao ver o J., de mola na mão, boca aberta de medo e de raiva, a “vítima” arrematou-o dos pés à cabeça, sugerindo mesmo sítios onde poderia enfiar a mola. Confesso e reconheço a deslealdade, mas foi um momento inesquecível, a partida dentro da partida, coisa infame que me passou pela cabeça. Mas que gozo me deu!
Numa tarde de 3.ª feira de Carnaval, em 1967, na esplanada do Central, a ideia surgiu, inesperada e fulgurante. Meia hora depois, da arrecadação do pai Rasteiro, saía um grupo de turistas estrangeiros de visita a Sesimbra, com um guia-locutor (um japonês ia filmando para a TV) e um pescador-intérprete “pilaglota”. Tudo começou com uma entrevista ao velho Jul Mouco, à porta, perante a curiosidade dos populares (como dizem na televisão) que começavam a juntar-se. A seguir descemos até à nossa tertúlia, a taberna e a barbearia do mestre Adelino, palco e fonte de mil malandrices arrebatadoras. A rua chamava por nós, o cortejo engrossava, a pantomina assumia proporções delirantes. E fomos andando, parando aqui e ali, interpelando este e aquele, dando rédea solta à nossa imaginação e à nossa irreverência. As ruas encheram-se de gente, intrigada, suspensa, seduzida, na expectativa de piruetas, réplicas e tréplicas, tudo ao sabor dos encontros e da nossa louca improvisação. Foi um triunfo retumbante, uma imensa paródia, uma tarde memorável. Felizmente, restam as fotografias, já que o microfone era uma batata com um fio de cordel e a máquina de filmar do “japonês” uma caixa de papelão com um canudo…
Um ano antes, o almirante Américo Tomás veio inaugurar a Marconi, e o cortejo, ao descer, passou em frente do Espadarte, interrompendo o restante trânsito. Na circunstância, vinha o Manel António a meu lado, no jipe que o Carlos Farinha tinha a bondade de me emprestar. De repente, mal o cortejo acabara de passar, enfiámos atrás e eis que o Manel se põe de pé, toalha enrolada na cabeça em genuíno turbante, e braços abertos, agradecendo os aplausos que os “populares” continuavam a dispensar à comitiva. A poucos metros dos últimos motociclistas, a brincadeira podia ter saído cara. Mas correu tudo bem e foi outra rábula saborosa, repentina e ousada. Era um tempo feliz que nós saboreámos com a avidez de quem pouco tinha, a não ser o sol, o mar, alguma fantasia e uma bela amizade. Hoje, a caminho dos sessenta anos, como fugir a alguma nostalgia dos anos sessenta? Felizmente, graças aos desafios deste e de outros Eventos, graças sobretudo a um grupinho admirável que estamos a consolidar, alguns de nós vão envelhecendo mais devagar, com um sorriso, recordando aventuras, revivendo brincadeiras, apalpando rábulas…
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* Publicado no n.º 17 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2002.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
CONFRARIA MÍNIMA, 40
O Grémio começava no Central, era mesmo sua a esplanada que acabou ao serviço do Café. Mas ficou tudo em família, os frequentadores do Central eram, na sua grande maioria, sócios do Grémio e a ambivalência quase roçou a concorrência quando o Damião começou a fazer um delicioso cafezinho, de aroma refinado e sabor requintado…
Nada escapava ao olho de lince, à perspicácia do Damião, o que se passava na sala, o que se pressentia na esplanada, o que ia na rua, na praia, na noite. Gavião implacável, o Damião tinha um sexto sentido, um periscópio invisível, um radar infalível, adivinhava o que as cartas escondiam, descodificava gestos e olhares, era um espírito fino, malicioso, discreto, astuto e arguto…
A cultura teve em Augusto Formiga um dos seus vultos maiores e quase me envergonho de ter provocado o seu afastamento da encenação de que tanto gostava. Era Verão, a televisão uma novidade irresistível e havia que ensaiar uma peça que constituía o ponto alto de uma festa de adeus ao padre João, de abalada para a Ericeira. Ora os meus atrasos acabaram por exasperar mestre Formiga que abandonou o palco da Vila Amália a uma semana do espectáculo, apenas com um único dos três actos sabidos. Ficou o João Salgueiro com as “Mãos Vermelhas” (era o título da peça) para ensaiar e aplaudir o nosso padre João.
Mas o sinal mais visível da presunção vigente era a obrigação grotesca e inflexível do uso de fato e gravata nas noites tórridas de Carnaval. Para fugir a essa ridícula tirania, eu costumava mascarar-me de “Tó Manel”, ou seja, à vontade, manga curta, usando com único e frágil disfarce um mascarim minúsculo que mal cobria o contorno dos olhos. Ora, certa vez, por essas quatro da manhã, e como ter mascarim ou nada era igual, resolvi tirá-lo. Eis senão quando se precipita sobre mim um “ayatollah” da Direcção, guardião do templo da virtude, de galões em riste, lançando-me um ultimato fulminante: ou repunha o mascarim ou ia vestir fato e gravata. Felizmente o ridículo não mata, senão o Grémio seria um vasto cemitério…
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*Publicado no n.º 23 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2003.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
NOVENTA E TAL CONTOS, 43
O Central era o café por excelência, conservador, tradicional, sede das forças vivas da terra, da burguesia recatada, o médico, o chefe das Finanças, o doutor da Alfândega...
A sua imagem estava muito ligada à do Grémio, colectividade um tanto aristocrática de que parecia constituir um prolongamento ou um anexo. Durante anos só os grandes patrões da pesca eram sócios do Grémio, não os comuns camaradas. No Central, em contrapartida, muitos clientes eram pescadores, como o Jorge Coxo, o Leste, o Pai de Céu, o Eduardo Submarino ou o Papa-Rebuçados.
1981
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
NOVENTA E TAL CONTOS, 42

António Cagica Rapaz
Nos anos cinquenta e sessenta, a sociedade portuguesa regia-se por normas, regras e valores bem diferentes dos que hoje predominam. As mentalidades eram mais rígidas, a influência da Igreja muito mais sensível, e o Carnaval surgia como um curto período de libertação de convenções, espartilhos morais e preconceitos sociais. E, sem cair em exageros, Sesimbra divertia-se...
O meu pai contava-me brincadeiras de gosto mais ou menos duvidoso, roubos de galinhas, besuntadelas mal cheirosas no corrimão do Grémio ou na fechadura da porta de determinado senhor que costumava colar os lábios no orifício para chamar pela mulher. Todos nós pregámos partidas nem sempre muito recomendáveis, mas era assim, é Carnaval não se leva a mal.
Com o tempo, acabamos por ver as coisas com outros olhos e, muito provavelmente, o R. não voltaria a queimar aquele pedaço de malagueta numa tampa de caixa de pomada para o calçado. Foi no Grémio e o fumo asfixiante e tóxico produziu efeitos tais que o R. chegou a ter receio, perante o quadro dantesco de olhos inflamados, tosse, espirros e outras ventosidades ruidosas que deixaram prostrados alguns prezados consócios.
Recordo-me de ter subido ao sótão do mesmo Grémio e ter despejado cá para baixo pós de espirrar sobre a mesa à volta da qual se disputava animada partida de “sintético”. O festival de espirros, imprecações e recriminações foi indescritível, tendo o Alfredo Filipe escapado por uma unha negra ao linchamento.
O mesmo lhe sucedeu em tarde chuvosa, num Central fechado e cheio de fregueses encostados aos bilhares numa cavaqueira que os pós de espirrar transformaram num inferno. E também desta vez o Alfredo estava inocente. Outros pecados teria, porventura, por confessar...
Estes episódios ocorriam com frequência naquele triângulo das Bermudas localizado entre o Grémio, o Central e o estabelecimento do mestre Adelino. A taberna e a barbearia constituíam um autêntico covil de malandrice, palco e fonte de brincadeiras hilariantes, o lápis do Lopes, os rabos pendurados a preceito e, sobretudo, os porta-moedas pregados no alcatrão. As mulherzinhas do campo vinham vender à praça montadas em burros de que desciam para deitar a mão ao porta-moedas. Logo a impiedosa rapaziada saltava, gritando em coro “Larga! Larga!”, o que provocava a cólera e o despeito das pacatas camponesas que perdiam a cabeça e nos insultavam abundantemente, sugerindo até locais onde poderíamos meter os ditos porta-moedas.
Um dia, quem caiu foi o bom João Vaivém que se baixou para apanhar um relógio. No calor da reacção, o Zé Júlio gritou “Larga, urso” e foi multado em trezentos mil réis que a irmandade ajudou a pagar.
Escasso é este espaço para tanta libertinagem, pelo que aconselhável se torna passarmos ao capítulo dos bailes, prato de resistência do nosso Carnaval. Dificilmente se poderá contestar que, naquele tempo de austeros costumes, os bailaricos eram a grande oportunidade para aproximações entre pessoas do sexo oposto, a pretexto hipócrita de um passo de dança. Em verdade, era (sobretudo para raparigas e mulheres) a ocasião tão desejada de dar largas a todo um leque de apetites, sedução, intrigas, mistérios, mistificações, enredos e aventuras mais ou menos arrojadas, chamemos as coisas pelos nomes. A máscara desinibia, dava confiança, soltava as línguas, estimulava a imaginação, alargava horizontes, excitava os sentidos, dava corda ao diabinho que existe em cada um de nós.
Porém, os casos de maior atrevimento não passavam de inocentes brincadeiras quando comparadas com o que vemos nos dias de hoje, à nossa volta, à luz do dia, de cara destapada, o ano inteiro...
Por isso, o que ficou em nós foi, sobretudo, a recordação de um clima mágico, de excitação e fascinação, expectativa e fantasia, com o engenho e a irreverência das raparigas que faziam, elas próprias, os trajes que depois trocavam por forma a porem a cabeça à roda aos rapazolas atrevidos. Mil episódios haveria para contar, a peça de cerâmica do Júlio Mouco, o cartucho de papel, com água, com que a Maria Vitória assustou o António Vidal, a ida da Carlota parteira a minha casa, os telefonemas intrigantes, eu sei lá.
Ficaram para a história quadros deliciosos como o Zé António da Parteira a dançar, desvairadamente apertado, mordendo o lábio, com uma máscara que não era outro senão o Zé Albano.
A magia burlesca do Carnaval atinge um alto expoente no engano em que viveu durante três noites uma figura grada da terra, o Doutor J., que dançou e tentou seduzir uma máscara que, afinal, era a velha D., magra, seca, enrugada, mulher a dias do serviço do próprio Dr. J.. A tia D. comeu, bebeu e dançou durante três noites, Cinderela galhofeira. Brincou realmente ao Carnaval e ajudou a consolidar aquilo que era a sua essência, o mistério e a ilusão...
2000
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
NOVENTA E TAL CONTOS, 41

Os Maurícios
António Cagica Rapaz
Quando os Maurícios chegaram a Sesimbra um vento novo soprou no Colégio do Costa Marques. A nossa terra não estava habituada a ver desembarcar assim, de forma definitiva, tão grande família. No Verão, sim, era a costumada invasão dos alentejanos, com uma carrada de filhos, a pele tisnada e o sotaque vagaroso.
Os Maurícios eram uma catrefa, um regimento de saltimbancos coloridos, ruidosos e simpáticos. Fiquei deslumbrado com a camarata em que foi transformado o quarto, camas sobrepostas, um certo ar de caserna numa casa que marchava à voz de comando do patriarca Maurício, com o seu nariz arrebitado, a boquilha de quilómetro e o Peugeot 203 que ancorava à porta do Central às onze e meia da manhã, já almoçado. Comia-se cedo em casa dos Maurícios, e o Central aquecia com a chegada do comprido Doutor cujo vozeirão enchia de pavor o suave sô Zé da fala mansa.
O Afonso seria o mais doente e entusiasta, mas todos eles eram da Académica e traziam consigo um perfume nostálgico de Coimbra, cheiravam a capas e batinas lendárias, a choupal outonal. O Henrique ofereceu-me um minúsculo emblema da Briosa e talvez tenha nascido assim o meu sonho de Coimbra. No fundo, todos quantos estudávamos e jogávamos à bola sonhávamos com a Académica, mas vestir um dia a camisola preta era tão irreal, estava tão longe dos nossos horizontes como as aventuras do Luís Euripo, do João Tempestade, do Bronco Bustin, do Rúben Quirino, do Jerry Spring, do Cisco Kid, heróis do Condor Popular de que cheguei a ter uma razoável colecção ofertada pelo Manel Elisbão.
Menos o Luís, que era meu parceiro de turma, mais o Henrique e, sobretudo, o inefável Afonso foram despertando em mim aquele desejo secreto. Juntamente com os exemplares do “Condor Popular”, recordo-me de ter tido um ou outro número da colecção “Ídolos do Desporto”, entre os quais o de um jovem macaense chamado Augusto Rocha, um jogador genial que era o menino bonito de Coimbra, cidade maravilhosa, universo mítico de greves estudantis de 61, com o sortilégio das capas negras e o romantismo das serenatas. A Académica era a irreverência, a transcendência de um futebol diletante, claques apaixonadas, a mística e o sonho. Com o Afonso a descrever e a retocar aquele mundo admirável, o sonho foi crescendo.
Quiseram o acaso e o destino que acabasse por ir para Coimbra e para a Académica onde viria a encontrar-me com o Afonso que me levou a casa dos tios em cuja família entrei e de que continuo a fazer parte, pela grande amizade que nos liga.
O Luís e a Luísa já nos deixaram, o doutor Maurício teria hoje muita dificuldade em estacionar o Peugeot 203 em frente do seu café, o nosso Central, o Henrique raramente vem a Sesimbra, o João e o Jorge tornaram-se verdadeiros pexitos enquanto o Afonso se esconde no campo, poucas vezes nos dando a alegria da sua presença e da sua imaginação exuberante.
Era uma grande família, foi-se fragmentando com o tempo, ficam-nos as recordações aqui e ali reavivadas, como sucedeu em Oliveira do Conde, com o admirável Jorge, cenoura simpático, senhor de fino humor, um grãozinho de fantasia, a encantar o tio António e a enternecer-me quando evocou a figura do pai Maurício. Vieram, ficaram, são dos nossos, os Maurícios...
1992
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
NOVENTA E TAL CONTOS, 31
António Cagica Rapaz
A paixão pelo futebol exercia-se em dois planos, um virtual, na esfera distante da primeira divisão, outro real, ou seja, a modesta competição regional e bairrista. Por outras palavras, gostar do Benfica não impedia a paixão pelo Desportivo, sofrer agarrado ao transístor não significava desprezo pelo despique renhido dos nossos rapazes contra o Costa da Caparica ou o Ginásio de Cacilhas. Aquela era outra paixão, vivida à distância, através dos jornais, da rádio e, a partir de 1957, da televisão.
O meu primeiro barbeiro foi o Zé Carapinha, belenense convicto, na minha fase azul, da rua da Fé e do Chico da Cooperativa. Mais tarde, transferi-me para o Central e para a polivalência do mestre Adelino. Para a estudantada do Costa Marques, a taberna do mestre Adelino era ponto de reunião obrigatório para as sandes do Lopes, a consulta de “A Bola”, os matraquilhos e a cavaqueira na barbearia. Enquanto manejava tesoura, pente e navalha, o mestre Adelino rapava a nuca (vulgo caldinho) ao Otto Glória, escanhoava os frangos do Costa Pereira e aparava o bigode do Germano. Os fregueses até cediam a vez para ficarem mais tempo a ouvir as apreciações críticas do mestre, na sua linguagem explicada, medida, esclarecedora, definitiva e de certo recorte teatral. Ah, a “ténica”, a bela “ténica” do mestre Adelino! Era a dimensão familiar, o futebol de pantufas, o sermão de pároco de aldeia para a meia dúzia de fiéis com as quotas em dia.
Paralelamente, ilustrava-se outro mestre, Alves dos Santos, o primeiro e mais prestigiado comentador de rádio e televisão, que trazia o país suspenso das suas palavras nos breves minutos do “Domingo Desportivo” e, sobretudo, da magia das gloriosas e históricas quartas-feiras europeias. Era a dimensão nacional, milhões de ouvintes e telespectadores, um nome, um estilo, sempre a palavra exacta, o rigor, a ciência de um comentário desenhado num português irrepreensível e de cunho muito próprio. Ah, a pertinácia, a bela pertinácia do mestre Alves dos Santos. Na vastidão do seu vocabulário cuidado, vernáculo, escorreito e inconfundível, “pertinácia” ficou como um símbolo de erudição, de originalidade, de requinte literário, figura de estilo muito pessoal que suscitava alguma estranheza, talvez, mas, sobretudo, admiração. Equivalia a assinatura reconhecida.
Não sei se alguma vez os fregueses do mestre Adelino terão estabelecido este paralelo entre os dois comentadores, o da capelinha da barbearia e o da catedral da televisão. Não sei se o mestre Adelino terá, aqui ou ali, aparado as patilhas de Alves dos Santos, agastado por alguma referência menos abonatória para o seu Benfica.
Alves dos Santos teria sorrido, com o seu ar sereno, e respondido, com bonomia:
1995
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 27

Outono*
António Cagica Rapaz
A vida tem destas curiosidades e sucedeu-me aprender a ler com a professora do meu pai, D. Rosa Manão, vindo a fazer a 4.ª classe com a mestra de minha mãe. D. Beatriz Palmela.
Na Rua de Alfenim havia duas escolas particulares, a da Rosa Manão e a da Maria da Arrábida, vizinhas e rivais. À beira delas morava o António José Parada Gomes (e se a memória não me falha) que sonhava vir a ser um grande guarda-redes, como o Carlos Gomes. Teve a terminação e ficou pelo sonho…
Sonho bonito foi também o da Maria Augusta e do Raul que lá começaram a namoriscar até formarem um casal modelo, exemplo admirável das coisas bonitas que a vida por vezes proporciona. Começaram muito cedo e não resistiram ao desgaste dos anos…
E foi pena, por eles e por nós que assim vimos esfumar-se um pouco do sonho, da admiração e da ternura que sentíamos.
Não se trata de emitir juízos nem atribuir culpas (com que direito?) porque nestes casos perdem os dois. E perdemos nós que gostamos deles. É um pouco como quando descobrimos que o Pai Natal afinal não existe. Ou que não adianta ir com o banquinho de madeira até aos Bombeiros esperar uns reis que nunca virão…
Da Rua de Alfenim fui para a escola Conde de Ferreira onde me esperava na 1.ª classe uma sala enorme e o perfil de águia do Professor Amável.
Na intimidade da casa sombria, a Rosa Manão era uma galinha velhota que protegia os pintainhos mijões que passavam o dia a pedir «Minha senhora, posso ir lá dentro?» Lá dentro era a tigela da casa…
A escola Conde de Ferreira era outro universo, com as suas grades, as batas brancas, escola oficial, quase tropa.
O meu parceiro de carteira era o António Sebastião Vieira Fidalgo que, mais tarde, viria a ser meu companheiro de equipa de juniores e cúmplice de namoro. O Professor Amável era um olhar penetrante, gesto seco, discurso breve e cortante, régua violenta e bofetada pronta. O terror. Muitas vezes abalava para o Café Central para discutir futebol e deixava o Acácio Gaspar de espia, de pé, no estrado a ver quem falava. E a apontar no quadro os nomes. Bem lhe dizíamos que é feio apontar, mas ele apontava. E quando o Professor voltava era tudo menos Amável para com as vítimas…
Métodos de outros tempos que apenas nos deixaram uma vaga noção de disciplina imposta pelo medo da régua e um perfume de nostalgia que nem chega a ser amarga porque, a esta distância, só nos lembramos do sol, das tangerinas, das jogatanas e da praia. Nunca mais voltaremos a ter sete anos…
Depois tive a meiga D. Emilinha, a metódica D. Ernestina Cifuentes e, por fim, a temível D. Beatriz.
A escola feminina, em frente da minha casa, albergava no Verão colónias balneares e as meninas desfilavam entre a escola e a praia cantando tristemente «Eu não vou para o meu pai nem tão-pouco para a minha mãe, a senhora D. Alice trata a gente muito bem…»
Talvez nem fosse Alice, mas não faz mal. Importante é conservar esta e outras recordações. Talvez valesse a pena que cada um puxasse pela memória e enviasse para o nosso jornal quadras cantadas nas rodas do recreio ou à volta das fogueiras, o «Jardim da Celeste», Adelaide Adelaidinha tua mãe está-te a chamar», Rosa branca ao peito a todos vai bem, à menina Candinha olaré melhor que a ninguém»…
Estas e muitas outras são peças do nosso património cultural e, sobretudo, afectivo. Não serão talvez criação local, talvez pertençam ao cancioneiro popular nacional, mas eram cantadas nas nossas escolas, nas nossas ruas, fazem parte da nossa vida.
Por isso volto a fazer a sugestão à minha tia Lucinda e a todos quantos conhecem quadras e cantigas. Não as levem para a cova, deixem-nas cá, elas fazem-nos falta…
Por vezes penso que estas coisas podem parecer um bocadinho piegas, em especial quando lidas num café barulhento, com a televisão aos berros, as conversas ruidosas, a agitação ensurdecedora deste tempo que atropela a poesia. Mas um jornal como o nosso também fica um mês na mesinha da sala, naquele canto onde nos refugiamos quando queremos viajar no mundo dos sonhos e das recordações. Os leitores que vivem longe de Sesimbra precisam de reviver, reencontrar um paraíso distante, um rosto, um nome, poeira de um universo que é o arco-íris, caleidoscópio, filme em trinta e uma partes, com o cheiro da lota, os gritos das gaivotas, o recorte da jangada, a água doce, os passadiços, o Parque, o pão quente nas madrugadas da lonjura no tempo…
É isto e muito mais, é o que cada um conservou em si, de forma mais ou menos consciente. O nosso jornal é particularmente importante para os leitores que estão longe, que o abrem com avidez e febrilidade, procurando notícias de Sesimbra, talvez das sessões da Câmara, mas muito mais certamente das pessoas, da gente da nossa terra.
As pessoas são o pior e o melhor que existe em Sesimbra. O pior quando só vemos a inveja, as intrigas, o rei na barriga e a carteira no mastro mais alto. O melhor quando sentimos a franqueza, a fraternidade, o amor pelo mar, o apego a valores simples e o gosto por coisas belas que gostam de partilhar. Por isso, meu caro Doutor e amigo David Sequerra, permita-me que acrescente algo à sua sugestão relativamente às «Figuras Inesquecíveis».
Por mim, simplificaria a fórmula, nem esquecidas nem inesquecíveis, apenas Figuras. «Figuras» de ontem, «Figuras» de hoje e mesmo «Figuras» de amanhã, pois seria bom irmos transmitindo aos nossos jovens aquilo que, talvez ingenuamente, pensamos ser uma certa filosofia ou culto de Sesimbra, que vai dos azulejos à sopinha de pelim, do Senhor das Chagas à Senhora do Cabo, do alecrim ao peixe seco, das sacadas extintas ao fantasma das armações que continuam a chegar à tardinha à praia da nossa saudade…
O Capitão Domingos é uma Figura, o Duque é uma Figura, o David Saloio é outra Figura. E o Luís Passos Leite, o Zé Bagaço, o Aurélio, o Zé Manel Torres Batista, o Jorge Aranha, o Chagas, o Eng.º Eduardo Pereira, o Jacinto «Maneta», a Felicidade, a Manuela do Caminhão, o Alfredo Pinto, cada um deles, à sua maneira, evoca algo de importante, para alguns de nós, faz parte do nosso passado e do nosso imaginário, como agora se diz. Há mil Figuras e Sesimbra vive por elas, através delas, graças a elas.
Elas são Sesimbra.
É certo que o presente não é só droga e desencanto. É claro que o passado não foi o paraíso que idealizamos com retoques saudosistas. E é evidente que somos uns piegas desgraçados. Mas como é bom ser pequenino (como cantava o Zé Manel), como é bom ser piegas (como repetia o António do Porto) e como é bom Sesimbra no Outono…
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* Publicado originalmente em O Sesimbrense em Dezembro de 1992.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 26

O Doutor Aurélio*
António Cagica Rapaz
Nos tempos heróicos da minha infância os doutores eram raros em Sesimbra e esses títulos correspondiam a personalidades marcantes. O dr. Costa estava já no ocaso e o meu médico era o inesquecível dr. João Pacheco Caramelo, figura inconfundível da nossa terra, meio cientista distraído, meio chefe de orquestra inventivo, mas antes de tudo um grande médico e um homem de bem.
O dr. Fernando Lopes era já uma autoridade em farmácia e, mais tarde, tive a oportunidade de o conhecer de perto e admirar a sua extraordinária capacidade de trabalho, a sua consciência profissional, o método, o rigor, no dia a dia, em família e no trabalho. Figuras mais decorativas e transitórias eram os doutores da Alfândega, das finanças e do registo, gente de fora que adorava viver em Sesimbra.
Eram todos eles forças vivas da terra, com lugar marcado no anfiteatro do Café Central. Desse tempo ficou-me a imagem de respeito e consideração que envolvia tais personagens, autênticos seres de excepção. O senhor doutor era o senhor doutor!
Mas os tempos mudaram e o prestígio do canudo diluiu-se por deixar de ser raridade.
Hoje em Sesimbra, entre os filhos da terra, não faltam doutores e engenheiros. Apesar desta perda de solenidade, a doutoriedade dos valores autênticos não se obscureceu. Pelo contrário um homem como o dr. Fernando Lopes aparece hoje com uma merecida auréola de catedrático.
Esta democratização ou proliferação trouxe consigo uma mudança de estilo, produziu um tipo novo, uma nova raça de doutores. Já não são as celebridades de pedestal, mas homens e rapazolas como nós, de risco ao lado, de fatinho do Zé marujo.
O primeiro desta nova vaga foi, a meus olhos, o Aurélio de Sousa. A mais longínqua recordação que dele tenho foi o meu pai que ma transmitiu quando um dia me relatou que o filho do Joaquim de Santana, um miúdo, guiava de pé as camionetas do pai. Nunca mais esqueci esta peripécia da qual, por sinal, nunca falei ao Aurélio. Anos mais tarde o estudante Aurélio de Sousa aparecia em Sesimbra, de vez em quando, de capa e batina, indumentária insólita e intrigante.
Receei que tivesse entrado no seminário, mas tal não foi o caso. Aliás o seu temperamento não era o mais adequado ao celibato sacerdotal. Era o tempo do feitiço cigano…
E o belo Aurélio lá ia estudando as economias e finanças ao mesmo tempo que se desmarcava para receber os passes em profundidade que o Valdemar lançava no espaço vazio. O futuro senhor doutor (que ainda por cima era de Santana, portanto, gente do campo) não hesitava em dar o corpo ao manifesto, generosa e galhardamente, no meio dos plebeus chutadores do Desportivo.
Por essa altura dava eu os primeiros pontapés e, na idade dos sonhos, imaginava-me de capa e batina e camisola da Académica ao peito. Da mesma forma que todos os rapazes sonhavam com o Robin dos Bosques e o Zorro. A única (e importante) diferença é que o Aurélio foi um estudante que para se distrair e por gosto jogava futebol enquanto eu tive de jogar futebol para poder estudar. Felizmente o futebol proporcionou-me ir além do sétimo ano, pois sem ele nunca teria posto os pés na universidade, por falta de recursos económicos. Essa mesma falta me impediu de comprar uma capa e uma batina. As poucas vezes que as vesti foi por empréstimo, mas isso são outros contos. Em Coimbra nem tudo foram rosas nem serenatas, longe disso, mas ali comecei o que era o sonho natural, ingénuo e beatífico dos meus pais: a licenciatura. A minha mãe gostava de ter um filho doutor. Graças ao futebol assim aconteceu e, embora não encha o peito, sinto certa satisfação.
Foi nessa fase de futebol e estudos que mais convivi com o Aurélio, um tanto por acção inicial aproximativa do Valdemar, rei da boémia em Sesimbra by night.
O Aurélio era já senhor doutor, mas, na mesa linha de comportamento, deixava o título na gaveta e era cá dos nossos, sem preconceitos de classe nem pruridos intelectuais. Era o tempo dos sábados de tarde vizinha da noite de aventuras de fins de semana. O Aurélio chegava de Lisboa e, antes de jantar, vinha cá abaixo dar uma volta, trocar dois dedos de conversa e alinhavar o programa para a noite que não raramente se resumia a compridas passeatas, com conversa larga e um copo pelo meio. Havia, claro, o Forno e o resto, mas a base era uma troca de experiências, uma convivência curiosa e rica. Eu trazia o saco cheio de histórias românticas e vibrantes, fruto da idade, enquanto o Aurélio, mestre na arte, ouvia e revivia, compreendia e refreava o entusiasmo, com paciência e certa filosofia.
Depois o Aurélio tinha a delicadeza oportuna, detectava o que me daria prazer e sugeria, avançava sem que eu pedisse.
Eu tinha carta mas não tinha carro e logo ele criou o ritual da voltinha à doca ao sábado à tarde, no seu velho Morris 850. Uma vez até cometeu a loucura de me deixar guiar, à noite, até à Caparica. Para mim era uma felicidade aquela voltinha, um gosto aparentemente banal mas que pessoas mais próximas nunca tiveram.
Entre nós estabeleceu-se uma boa cumplicidade, havendo da sua parte uma certa tolerância e um prazer maroto nas encruzilhadas do verão em cujas vielas cruzámos lanças com um sorriso diletante, conferindo a cada emboscada romântica o tom prazenteiro, jovial e brejeiro que convinha, sem exagerar nas doses da intriga amorosa nem nos juramentos de sangue.
O Aurélio, instalado na vida, seguro de si, apreciador de bons momentos, era um parceiro leal e ideal. Decorria o verão inesquecível de 1966…
Era a época em que ele dizia amiúde “efectivamente” e o doutor Aurélio foi uma figura que efectivamente me marcou de forma precisa e impressiva.
Um novo Aurélio apareceu em Sesimbra uns anos depois. Era um marado chamado Vítor que, a bordo de um velho Fiat 500, se tornou o mentor dos Zambras e conquistou um lugar invejável na rambóia de Sesimbra.
Rei do Carnaval, ao lado do Fedor, do Zé Batata, do Arménio e quejandos, o Vítor no dia seguinte punha a gravata e voltava a ser “como o Aurélio” o doutor Sevilhano Ribeiro, especialista em economia e finanças.
Hoje é dos valores mais seguros no campo de formação de gestores que existe neste nosso pobre país. Mas isso não o impede de lançar o pânico e o desassossego ao ritmo da música trepidante e da improvisação criativa. Tudo isto no ambiente de camaradagem saudável que cria à sua volta. O Zé Inácio tem orgulho legítimo no genro. É compreensível e visível. E ainda bem porque o doutor Vítor é um figurão notável.
Hoje há doutores, muitos doutores, é exacto. Mas, se alguns são medíocres, a verdade é que o seriam mesmo se não fossem doutores. Por outro lado, se ser doutor não é uma marca de distinção suprema também não é defeito nenhum.
O Aurélio e o Vítor pertencem a duas épocas mas respiram o mesmo ar, vivem ao mesmo ritmo, são da mesma escola.
E o Zé Inácio não é doutor mas é Embaixador…
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* Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
CONFRARIA MÍNIMA, 19

De certa maneira, a quinta-feira…*
António Cagica Rapaz
As matizes e padrões sociais, morais e religiosos que regiam a nossa boa vila, algumas décadas atrás, apontavam aos adolescentes um caminho prévia e rigorosamente traçado que os conduzia do namorico ao casamento através de etapas sem surpresas, sem desvios, audazes nem atalhos atrevidos.
O percurso, qual jogo da Glória, começava no pedido atabalhoado de namoro cuja aceitação era oficializada através de um passeio de mão dada na marginal e celebrado com um beijo furtivo na escuridão cúmplice do cinema ou no mar, atrás de algum barco protector. Mais tarde, os pais autorizavam o mancebo a ir namorar lá a casa, em geral a dia fixo, quase sempre à quinta-feira, porque às quartas havia a Taça dos Campeões Europeus. Aqui chegado, o rapaz podia considerar-se arrumado, agarrado, adeus liberdade, aventuras nem pensar, libertinagem nem sonhar. O casamento era uma tradição, um passo natural e inevitável. O namoro era a via sacra arrastada ao longo da qual definhava a fantasia, murchava a imaginação. A sexualidade era assunto inabordável, tabu preservado, embora muitas noivas chegassem ao altar menos esbeltas do que convinha na circunstância. As comadres segredavam, cochichavam, mas nenhuma atirava a primeira pedra porque quase todas tinham aproveitado a sonolência ou a distracção voluntária dos pais em noites frias de quinta-feira…
O longo Inverno convidava ao conforto e ao aconchego do namoro, mas o drama era a chegada do Verão, tempo diabólico, terror das meninas e das mães que viam surgir no horizonte a panóplia das tentações, solicitações, sol escaldante, águas dolentes, o feitiço e o sortilégio do luar de Agosto. E, sobretudo, as banhistas, bronzeadas, insinuantes, disponíveis. Havia as famílias alentejanas, com ranchos de filhos, eles e elas, recatadas e vigiadas por pais, avós e tias. De Lisboa e arredores outros banhistas alugavam casa em Sesimbra, um mês e mais, gente fina e abastada. Muitos maridos retomavam o trabalho ao fim da quinzena, deixando mulher e filhas em deliciosa e lânguida preguiça, à sombra do toldo, nas esplanadas do Central ou do Filipe, nas noites mornas do Parque…
Os jovens indígenas, de mão dada com a namorada, seguidos de perto pelas futuras sogras, não podiam deixar de deitar um olho malicioso, disfarçado e frustrado, mas a verdade é que nem só os rapazes cediam à tentação. É sabido que muitas meninas se derretiam todas diante de jovens de Lisboa, seguros de si, endinheirados, modernos, convencidos e, em cada um deles, algumas raparigas de Sesimbra julgavam encontra o príncipe encantado, não percebendo que eles apenas procuravam divertir-se em férias. Muitas mães fecharam os olhos, tão iludias como as filhas, mas a vida acabava por retomar o seu curso, reatando-se o namoro à quinta-feira…
Mas foi o aparecimento maciço das estrangeiras que provocou um verdadeiro terramoto na nossa terra, com suíças, finlandesas, inglesas, alemãs, a desembarcar no espadarte, a encher a praia, a invadir cafés e locais de diversão, a incendiar as noites. Outras mentalidades, mulheres desinibidas, sem complexos, sem preconceitos nem teias de aranha, maridos tolerantes ou indiferentes, um culto vibrante do prazer, da vida, das férias, do sol, do mar, da festa, sem interrogações nem restrições. Como não havia sida, todas as ousadias eram permitidas e a febre a aventura contagiou Sesimbra, para desespero de namoradas e mulheres casadas com homens que nunca haviam conhecidos senão a trivial banalidade de quintas-feiras monótonas. Para muitos, foi então e enfim o deslumbramento, a sensação de renascer, de reinventar a vida, a embriaguez da aventura, a vertigem do desconhecido em cada noite imprevisível, palpitante, mesmo quando nada acontecia. No fundo, terá sido apenas o arrancar das vendas, o retomar do Carnaval em pleno Verão, e cara destapada, mergulhados em idêntica euforia, com mulheres que não disfarçavam a voz, como faziam as máscaras, mas diziam palavras estranhas, incompreensíveis. Felizmente, havia a música, a festa, as bebidas, os olhares, os gestos, o desejo. E o Verão…
Mas reduzir a festa que foi a década de 60 a conquistas de marialvas da borda d’água, a aventuras desbragadas, é caricatura infeliz, desconhecer ou ignorar o lado mais interessante ilustrado por inesquecíveis cenas divertidas, picarescas, a par de pequenos dramas de ciúmes, romances de amor bonitos e efémeros, condenados a morrer na maré vazia, separações lancinantes, melancolia no Outono, convivência saudável, camaradagem e troca de experiências, afectivas, culturais, até. Se a memória não nos atraiçoa, terá sido um tempo feliz, com o Desportivo a subir à 2.ª divisão, o esplendor das traineiras, a plenitude da lota, a melodia suave da bossa nova, os Beatles e Sinatra a rivalizarem com os Galés, Strangers in the Night a bordo da Pastorinha, o Forno ao rubro, a Marisqueira covil de corsários do mar da Pedra, o Júlio e o Zé Manel à desgarrada no Espadarte Clube e tudo a acabar no Pinto & Pinto. Foi um tempo delirante, à imagem do Valdemar que, observando a maneira de dançar da pequena, decretou que ela era do campo. Inglesa, sim senhor, mas do campo, porque lá também há campo. Passou-se no Espadarte Clube, e é exemplar, como outras do Ernesto Corneta e do Zé Brandão, traduz com ingénua naturalidade o espírito bonacheirão, a espontaneidade e certa forma de inocência malandra que caracterizou aquele universo de boémia. Mais palavras, para quê? Houve um artista que conseguiu que a mulher o deixasse andar todas as noites na farra, desde que fosse só com estrangeiras. Para a recompensar, ao domingo, levava-a a jantar fora. Ternurento, não é? Sobretudo porque é rigorosamente verdade, embora tudo isto, com o tempo e a distância, ganhe contornos de quimera ou sonho de muitas noites de Verão.
As mulheres esqueceram, os homens nem por isso...
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*Publicado no n.º 20 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2002.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 23

António Cagica Rapaz
Ainda o Turismo dava as primeiras voltas no berço de Sesimbra quando ela fez a sua aparição.
A esplanada do café Central emudeceu. Os homens acotovelaram-se e as senhoras interromperam as rendas e as conversas de veraneio.
A vila habituou-se a ela, com a cobiça dos homens e o despeito das mulheres.
Verão após Verão, a Elizabeth não falta para nos recordar que mais um ano passou para nós, já que ela é sempre Verão, o tempo passa-lhe ao largo…
No relógio da sua vida, os meses frios da Alemanha são grãos de areia que ela espalha, alegremente, na nossa praia. Quando chega, vira o relógio ao contrário e o tempo recua. Ela vive de dia e diverte-se à noite.
A sua filosofia é muito simples. Não se vive trezentos anos. Cada dia pode ser a véspera do último, a vida é para ser vivida sem hesitações, sem restrições nem preconceitos. Enquanto a maioria pergunta «Porquê??», ela sorri, levanta o copo, brindando a um deus seu conhecido e diz apenas «Porque não?»
Os outros falam, olham, criticam um bagaço a mais, uma gargalhada ruidosa e ficam presos à terra lamacenta da inveja, do puritanismo bolorento e da frustração. Quando acabam de comentar, ela já não está, perdeu-se na noite que antecede um novo dia que é para ser vivido com a mesma alegria, a mesma loucura, a mesma frenética vontade de agarrar a vida com as duas mãos, gozar do Sol até que o último raio desapareça por trás do mar.
A Elizabeth embriaga-se de vida…
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* Publicado no Jornal de Sesimbra, na rubrica “Quando morre a madrugada – Retrato de uma Certa Sesimbra: Aos filhos da noite”.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
NOVENTA E TAL CONTOS, 22
O Duque
António Cagica Rapaz
O pai era Aquiles, raiz grega contrabalançada pela aura latina de Deocleciano Lúcio. Para simplificar, sempre lhe chamaram Duque, diminutivo que não lhe roubou carácter antes lhe acentuou a nobreza. Na verdade, tudo na sua figura revela altivez e raça próprias da casta dos patrícios romanos, e não me é difícil imaginá-lo de manto amplo e comprido, coroado de louros, em Roma, no circo, rodeado de belas vestais ou deitado para comezainas intermináveis abençoadas pelo deus Baco. O Duque teria sido um tribuno histriónico, folgazão impagável, anfitrião generoso.
Vê-lo-ia ainda no comando de uma birreme de velas descomunais e remadores vigorosos em demanda das ilhas misteriosas do mar Egeu. Na realidade, só o conheci dono de uma traineira, de uma bomba de gasolina e patrão do gás Cidla. Mas sempre com a mesma nobreza, o porte majestoso, o sorriso bondoso, o calor da fraternidade e o culto da amizade, sem falhas nem equívocos.
O Duque é um homem de várias gerações, companheiro admirável, parceiro leal, camaradão inigualável, homem do leme, mandador, franco, generoso e sensível, apesar do físico imponente e do vozeirão mata-mouros. Aprendi a conhecê-lo através das narrativas apaixonantes do meu pai, e depressa me familiarizei com os nomes do Abel Embaixador, do Franco, do Manilhas, do Zé Espada, do Zé Cheis, do Farinha, do Zé Augusto, do Augusto de Alfarim, do Antero...
Pelo meio havia o mar, a Arrábida, as caldeiradas, as rábulas atrevidas. E sempre a amizade. Mais tarde, vim a conhecê-lo de perto no círculo de amigos do inesquecível João Batista Gouveia (Jojó), tendo ainda tido a felicidade de partilhar na sua companhia momentos de saborosa camaradagem com o compadre Artur, o Eduardo, o Hernâni Batista e o padre João.
No Central, a meu lado, o Duque sorri e encomenda uma bica e uma aguardente velha. Está com 80 anos saudáveis, vive sem restrições, saboreia cada dia, conserva o ar bondoso e malicioso de quem conheceu uma existência rica de emoções, sensações, luta, prazer, dificuldades e alegrias intensas. Hoje, só um homem da sua dimensão seria capaz de devolver ao Central a ilusão de existir. O velho Central morreu com a nossa mocidade e hoje só ressuscita, a espaços, quando alguma das antigas personagens entra em cena. Então julgamos ouvir as pancadas de Molière, ficamos suspensos, ansiosos pela réplica, pelo gesto redentor. Mas só raramente o milagre se dá, os artistas estão cansados, já não sabem o papel de cor, foram saindo pela esquerda baixa. E cai o pano sobre o nosso desalento.
Mas eis que no horizonte surge nova esperança. Ao leme da sua birreme, desenha-se a silhueta do Duque. Atraca no largo do Grémio, salta a amurada a estibordo e entra, fulgurante, no Central. Recortada na penumbra, a sua figura reconstrói a ilusão do nosso contentamento. Com ele o Central revive, com ele se fecha um ciclo. Acabou o tempo dos grandes homens...
1996


