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sexta-feira, 4 de junho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 10

as crónicas da Eventos...


Musicantiga

António Cagica Rapaz

Não sei como chega aos compositores a inspiração, talvez seja sob a forma de melodia que se põe a bailar diante deles e se insinua nos seus ouvidos, vinda sabe-se lá de onde, dádiva de musa na génese da música…

A minha música é outra, é mais letra, fragmentos prosaicos, mosaicos de prosa, arabescos e arremedos de poesia com que, às vezes, me surpreendem palavras que escrevo. Em alguns casos é o ritmo, quando a harmonia suave de uma frase mais feliz acontece para meu contentamento. Noutras ocasiões são ideias, palavras ou expressões geradas num beco escuso do meu cérebro imprevisível que me caem nas mãos, deixando-me interdito, olhando em volta, dizendo para mim mesmo que talvez seja aproveitável, talvez dê alguma coisa, embora eu, naquele momento, não saiba o quê nem como. Quando acontece ter por perto um amigo, ainda posso obter dele uma primeira avaliação sobre o duvidoso mérito do meu achado, e foi o que sucedeu quando, há tempo, alvoroçado como um garoto que acaba de descobrir um ninho, comuniquei ao Pedro Martins que dera à luz uma palavra nova, musicantiga.

Generoso e condescendente, apadrinhou esta aglutinação de música, antiga, musa e cantiga. Depois, ficámos assim, ele foi à sua vida, eu guardei no bolso o compósito vocábulo e não voltei a pensar no assunto. Até que, há dias, o Pedro quis saber em que tom estava eu a ensaiar a musicantiga. Fiquei embarcado como um aluno que não fez os trabalhos de casa, e mal consegui balbuciar uma promessa desafinada de tentar dar corpo à ideia, desenvolver o conceito, fazer variações sobre o tema. E mais não disse…

Depois, senti-me na obrigação de respeitar o compromisso e sentei-me a reflectir, enquanto os passarinhos cantavam nos sobreiros frondosos da Aiana, na magia do entardecer. E os pássaros segredaram-me que a música que nos acompanha, está ligada a bons e maus momentos, desde a nossa meninice, com os sons da Natureza, o murmúrio doce das vagas, o assobio distante do vento, o chilrear dos pardais, os trinados de pintassilgos e rouxinóis nas gaiolas que alegravam as ruas frescas de Sesimbra em manhãs de Primavera. Nessas mesmas ruas, nas tabernas, ouvia-se o fado, a rádio era nossa companheira. Da alegria que nos dava, da saudade que deixava…

No fundo, talvez não seja errado pensar que a música vale pela melodia e pela emoção que em nós desperta, ficando associada a acontecimentos e fases da nossa vida, fazendo-nos muitas vezes sentir transportados no tempo, unicamente ao ouvirmos uma canção. Graças à tecnologia, a música e os seus intérpretes nunca morrem, e o verdadeiro milagre reside na sua capacidade de recriar uma atmosfera longínqua, resgatar um mundo distante, recompro um universo perdido…

Em Sesimbra sempre se cantou e dançou, à volta das fogueiras, nos bailes de Verão e pelo Carnaval. Havia espectáculos de variedades no salão da Vila Amália, vinham ao Parque as “Vozes de Portugal”, o Julião Benedito foi corpo e alma de uma bela revista, cantava-se pelas ruas, no Espadarte Clube, no Chagas, no Ribolé, os Galés e os Zambras animaram verões inesquecíveis nos anos sessenta e o Forno foi um marco na história das noites de Sesimbra.

No campo, havia os bailes coloridos da Quintola, na 5.ª feira de espiga, e no salão do Joaquim do Moinho, em 26 de Dezembro. Sem esquecer os bucólicos bailes “à do Baratinha”, nas Caixas, animados por um melancólico tocador que chegava e partia, de bicicleta, com o acordeão às costas.

Os anos sessenta foram um período de ouro na música nacional e mundial, com a viragem que começou no “Vou dar de beber à dor” até ao zénite que a carreira de Amália atingiu na fase dos grandes poetas e da música do fiel Alain. Foi também a afirmação de novos talentos como Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, José Mário Branco, Sérgio Godinho, José Afonso.

Lá de fora, chegavam-nos o génio insuperável dos Beatles, a voz única de Sinatra, a originalidade dos modelos dos Zambras (Bee Gees), a delícia da bossa nova, Vinicius de Moraes e António Carlos Jobim, o calor de Tom Jones, a sedução do “soul”, com Otis Redding, Aretha Franklin e outros. Não sei se a música antiga era melhor, nem isso é importante. E o que é música antiga? Sabemos apenas que há músicas que perduram. Sabemos que gostamos mais de certas músicas. Sabemos ainda que algumas fazem parte das nossas vidas.

Por acaso, muitas não são recentes, são antigas. E gostamos delas porque gostamos, é apenas isso. O resto é cantiga…

Há muitos anos, na escola, as raparigas costumavam cantar de roda, nos recreios. E, enquanto saltavam à corda, cantarolavam “Pomba, pimba, laranja, limão”. A pomba perdeu-se no céu longínquo da nossa juventude, perseguida por gaivotas portadoras de sinais nefastos, vendavais da vida. A laranja murchou na árvore do tempo. O limão deixou-nos na boca o sabor amargo da nostalgia. Ficou-nos a pimba, que não é música, é apenas uma coisa de que alguns têm o direito de gostar…

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*Publicado no n.º 14 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2001.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 12


Nevoeiro

António Cagica Rapaz

Os primeiros ruídos chegam-me distantes, abafados pelo nevoeiro que nasce no mar e se estende pela serra acima. É uma daquelas manhãs preguiçosas, arrastadas, em que, depois do pequeno almoço, apetece voltar para a cama, deixando que lá fora o mundo prossiga a sua marcha sem se preocupar connosco, a gente já vai, é só mais um bocadinho...

Ao sair para a escola deparo com o tio Zé David ali à minha porta, na rua Monteiro, a dar instruções ao seu pessoal que vem arranjar o passeio um tanto maltratado pelas chuvadas do mês passado. As camionetas do Covas e do “Caretas” ainda não passam na minha rua, ficam-se pelo largo da igreja de cima onde a “Ginjinha Coelho” é o ponto de encontro, o porto de abrigo e a torre de controlo da operação rodoviária. O tio Chico da Cooperativa é o faroleiro que instalou o relógio de ponto para viajantes, motoristas, cobradores, revisores, moços de fretes, todo um mundo que se agita à sua volta. A minha mãe é uma especialista, chega sempre atrasada porque, depois de fechar a porta de casa à chave, ainda volta atrás uma ou duas vezes para se assegurar de que ficou bem fechada. Claro, depois chega lá a cima a deitar os bofes pela boca, com o meu pai impaciente e o carro em cima das sete, às aceleradelas, mais do que pronto para arrancar.

O tio Zé David vem das Pedreiras acompanhado pelo seu pessoal, tudo gente do campo. É um tempo vagaroso, sem pressas, com a lentidão do nevoeiro que, de mansinho, desce sobre a vila, envolvendo a fortaleza e o castelo no seu manto cinzento, macio e denso como um cobertor de papa. A Judite lá vai, com o café e a carcaça para o Jaquim Ruço que está na loja a encher bóias. Lentamente, os homens encostam os carrinhos de mão à parede e deles tiram pás, picaretas, martelos, maços, vassouras, areia, todo um arsenal de ferramentas, utensílios e apetrechos que me deixam mais desejoso de ficar ali, em vez de ir fazer ditados ou resolver problemas de áreas, esteres ou metros cúbicos, na escola. Os homens da Câmara penduram a roupa no muro da minha casa enquanto a minha mãe rega as flores e me repete que já são horas de ir andando. Lá em baixo é a cordoaria, com os eucaliptos gigantescos, pegada à fábrica do gelo que fica em frente da escola de Santa Joana onde aquela malta brava, de cabelo à escovinha, ensaboa o juízo à heróica Cecília Cruz cujo vozeirão já se ouve, apesar da distância e do nevoeiro. Os homens da Câmara ainda não cuspiram nas mãos nem sequer despejaram a areia amarela que vai aconchegar os cubozinhos de pedra do meu passeio. Ah, agora sim, um já abriu a maleta de cabedal. Vai talvez tirar alguma colher de serventia. Ah, não, é uma marmita. Olha, outra, e mais outra ainda...

O mais novito vai apanhar uns pauzitos junto ao muro da escola das raparigas e começa a preparar o recanto onde há-de pôr a caldeira ao lume. Daqui a pouco um fumo suave vai elevar-se para se juntar ao nevoeiro, e tudo isto se desenrola com a lentidão de um sonho agradável, na preguiça filosófica de um tempo que se escoa ao ritmo imperturbável dos barcos a remos, dos burros, das carroças e das velas dos moinhos de vento. Admirável época esta em que há tempo para olhar em redor, colocar cada cubo de pedra no buraco de areia, devagarinho, carinhosamente, aconchegando-o com o martelo, quase com ternura. Com a mão alisa-se, sacode-se a areia, sem pressas, pedra a pedra, gesto a gesto, há todo o tempo do mundo. Lá longe, na doca, outros homens raspam o casco dos barcos, metem a estopa, cobrem com breu, pintam, conversam pela manhã adiante até acharem que é tempo de voltar a pé dessa lonjura que é o porto de abrigo para o almoço que as mulheres já puseram ao lume.

Observo esta gente rija do campo que fala a meia voz, arrastadamente. Aquele mais alto, ali, enrola tranquilamente o tabaco na mortalha e agora vai pedir um fósforo, não, agarra um pau que arde. Acende o cigarro, aspira profundamente, fecha os olhos com prazer e expele o fumo que lá vai, também ele, com lentidão, juntar-se ao nevoeiro. Já devem ser suas onze horas, não querem lá ver. E se a gente começasse a tirar daqui estas pedritas?

A minha mãe deu um ramito de hortelã ao rapaz das marmitas, enquanto do fundo do quintal chega a música do Talismã. Olha, já há marmitas a ferver. Parece mentira como o tempo passa quando se trabalha. Logo despeja-se a areia, coloca-se mais umas pedras, fuma-se um cigarrito, dá-se um jeito com o maço e depois toca a arrumar as ferramentas que se faz tarde. Subir Santana leva o seu tempo, vamos com Deus.

Nevoeiro é tempo de mistério, de sonho, de obras sem pressa, de vida tranquila que, se calhar, só existe na nossa imaginação. Na sexta-feira, com muito esforço, lá para o fim da tarde, o passeio fica pronto, infelizmente. Os homens da Câmara acabarão por arrumar as ferramentas nos carrinhos de mão e desmancha-se o presépio. Fica o passeio e a memória de um tempo...

1994

quarta-feira, 19 de maio de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 11




À porta do «CENTRAL»

António Cagica Rapaz

A nostalgia não é doença de velhos nem angústia de quem está longe. Apenas sucede que nós vivemos a correr sem olhar para trás. Até que um dia, cansados ou tomados de súbita consciência, paramos para reflectir. Olhamos à nossa volta e sentimo-nos estranhos, isolados, perdidos num mundo que não é o nosso, apesar de nele termos vivido dia após dia, colaborando na sua transformação.

Na nossa infância aprendemos a olhar o mundo, a descobri-lo, a penetrar nele com avidez, com a fome da descoberta, da aprendizagem. Desse universo não aprendemos senão as aparências, postais ilustrados que representam casas bonitas de cujos habitantes ignoramos tudo, as suas alegrias, as suas paixões, os seus problemas. E fica-nos uma sucessão de imagens. Umas em que há movimento, outras rígidas, impenetráveis. É assim que vemos o tempo da nossa infância, com imagens plenas, ricas, expressivas e outras sem alma, sem vida, apenas um rosto, uma paisagem…

O mundo evolui, nós acompanhamos o progresso, felizes, deslumbrados mas, cedo ou tarde, lamentamos ou evocamos com saudade o velho mundo que foi o nosso. Então sentamo-nos à beira do caminho que foi o nosso e vemos passar as pessoas que correm atrás do tempo, arrastados no turbilhão. A nostalgia não é doença de velhos…

Em todas as épocas o fenómeno se repete. Já o meu pai contava com saudade a sua meninice. De geração em geração a tecnologia progride, tudo vai mais depressa, foi o telefone, a rádio, a televisão agora a cores, a estereofonia, eu sei lá.

Longe vai o tempo em que ir ao banho à Prainha, à Água-doce era uma aventura maravilhosa, ir a pé até à longínqua doca, que delícia!

Como eram agradáveis as brincadeiras em frente ao «Central», o passarinho de alcatrão, as noites na esplanada…

A calma, a tranquilidade, a qualidade de vida perdeu-se ano após ano. Dão-nos grelhadores eléctricos, frigoríficos e congeladores, mas já não há petinga e quando o velho pescador vai para instalar o fogareiro a carvão no passeio já não pode porque está um carro estacionado, encostado ao poial. Maldito progresso!

Sem condenarmos o progresso de forma global e simplista (o que seria injusto e insensato) vamos ainda assim recordar, recriar, reviver. É minha intenção, de vez em quando, vir aqui sentar-me à porta do «Central», do velho «Central» que conheceu várias gerações, e evocar à minha maneira, pessoas e coisas de um passado que conservo presente. Para começar aqui vos deixo um apontamento com duas versões de férias que o tempo tornou diferentes. Quando eu era menino de bibe ia passar as férias grandes às Caixas, o que para mim e a minha irmã era motivo de grande alegria.

Às cinco da manhã a Rua dos Pescadores dormia a sono solto quando a minha mãe entrava no nosso quarto. Era em Junho, mês dos santos amigos, das fogueiras e dos fogareiros à porta, dos primeiros calores do Verão. Era a alvorada p’ra ir p’rás Caixas. À exclamação desta palavra mágica saltávamos da cama com um entusiasmo bem diferente do despertar arrastado dos dias de escola.

A evocação das Caixas enchia-nos o espírito de trigo, de batatas com pele, de vindima, de trigo da debulha, de moinho velho, de pão caseiro, de ribeiro dos Torrões, de sonho e alegria.

A minha mãe carregada com as malas e nós carregados de sono, atravessámos a vila que ainda se voltava para o outro lado. No largo da igreja, o Pintassilgo punha a trabalhar a velha «Panhard» e antes que o padre João desse os bons dias ao Menino Jesus já nós íamos Santana acima, Zambujal abaixo, aos solavancos na estrada poeirenta, de olhos bem abertos. O sono ficara em Sesimbra, o sonho começava com o Pintassilgo cujo trinado se acelerava na estrada do troço da Quinta. À porta do Baratinha parava a camioneta e começavam as férias…

Às 4 da manhã do dia 31 de Agosto de 1980, o Nicolas e a Samantha acordaram. Só a excitação dos meus filhos era igual à da minha meninice porque às 4,30 em ponto o táxi estava à porta e às 6 horas embarcávamos no aeroporto Charles de Gaulle num Boeing 707 rumo ao Algarve. Lá em cima, no azul do céu, o sol nascia da mesma maneira e, a certa altura, quando o comandante falou, pareceu-me que dizia: - «Senhores passageiros, o comandante Pintassilgo dá-vos as boas-vindas a bordo do «Santa Cruz». A nossa viagem para as Caixas durará 30 anos, voaremos a uma altitude igual à da torre da igreja de cima e a nossa velocidade de cruzeiro será igual à da carroça do tio Júlio a caminho dos Torrões».

O Nicolas dormia e eu sonhava…

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* Publicado originalmente na edição de Outubro de 1981 de O Sesimbrense.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 10



A vindima

António Cagica Rapaz

“E no fim havia uma grande almoçarada, com bacalhau e cães de monte, debaixo do sobreiro grande, no meio da vinha.” Assim se concluía qualquer relato das vindimas na Roça, há quase meio século.

Talvez por influência das incursões africanas do meu pai, nos seus tempos da Marinha, passámos a chamar Roça àquele pedaço esguio de terra, na Aiana, onde havia pinhal, raras árvores de fruto, uma pequena vinha e alguns sobreiros. Da nossa casinha, de chão de terra batida, nas Caixas, até à Roça ia um caminho de areia, estreito e penoso, que criava uma falsa sensação de lonjura. A vindima era prenúncio do Outono, com as cepas a despirem-se das folhas que o sol fora colorindo, primeiro, e queimando, depois. Manhã cedo era o alvoroço da carroça, dos cestos de vime, das navalhas, do farnel, a expedição em marcha para aquela pequena festa com os amigos, ingénuo pretexto para se confraternizar à volta das videiras, para filosofar sobre o sabor da uva, o tamanho dos cachos, piadas e desafios, com o bacalhau à espera. Por fim, à sombra amiga do sobreiro grande, a almoçarada rematava a alegre labuta...

Aos meus olhos de criança, aquele sobreiro era gigantesco e representava protecção e força, acolhia e abençoava a vindima que era, mais que tudo, um cerimonial de fraternidade e partilha.
O ambiente era algo semelhante ao das desfolhadas descritas pelo poético Júlio Dinis, com ditos e gracejos, prova aqui, corta ali, cada cesto mais lindo do que os outros, o espírito fino do tio Nuno, a bonomia calorosa do tio Jójó, dois seres maravilhosos que tão bem cultivavam este espírito de partilha.

A vida dá as voltas que dá e o sobreiro frondoso, acusado de possuir raízes insaciáveis, acabou por ser sacrificado para não prejudicar a vinha. Afinal, com os anos, a vinha acabou ao abandono, nem sobreiro nem vinha, só mato, tojo, ervas e solidão. A vida continuou a dar as voltas que tem de dar e eu voltei à Roça, à terra, às sensações da infância. Aos poucos, fomos metendo ombros, mãos e, sobretudo, paixão, numa tarefa ciclópica, resgatando cepas ao mato, arrancando e queimando silvas e outras pragas danadas. Cavámos, cortámos, carregámos, empilhámos, sulfatámos, podámos, com ardor e entusiasmo. E assim conseguimos o ressurgimento da pequena vinha, coisa modesta mas excitante, com a perspectiva de ver de novo videiras ao sol, talvez alguma uva e, quem sabe, voltar a fazer vinho da Roça, como no tempo em que pisávamos no lagar do tio Justino. Passámos a preocupar-nos com o tempo, nuvens, nevoeiro, neve e granizo, chuva do quadrante oeste. E a ouvir quem sabe, subentenda-se o nosso vizinho, o senhor António, que nos foi aconselhando, dando ordens e pareceres, até marcar a data da vindima. O dia amanheceu suave, envolto em neblina macia. A Soraia e o Rodrigo, madrugadores como o avô, revelavam uma excitação que reconheci, com saudade. Breve comecei a carregar no carrinho de mão os baldes cheios para o lagar de onde o senhor António dirigia as operações. Depois era vazar e dar à manivela para accionar a prensa. Manhã fora, foi-se repetindo a magia, a descoberta de cachos bonitos, a prova repetida de uva periquita e moscatel, pouca coisa, é verdade, mas saborosa, a melhor do mundo, fruto do nosso trabalho, em parte, a Natureza fez o maior. No final, almoçámos bacalhau, meia desfeita, debaixo dos altos sobreiros, à porta de casa. A Soraia e o Rodrigo estão na idade das perguntas e, ao longo das nossas viagens no carrinho de mão, falei-lhes dos sacos de trigo que trocava por outros de farinha no moinho das Caixas, dos vasos de fundo dourado, amarrados às velas, por onde se enfiava o vento, num assobio lúgubre. Um dia, talvez eles contem aos filhos como eram as vindimas da sua infância, com bidões de plástico e carrinho de mão. O Rodrigo, em cada dia, vai aprendendo com o pai, ouve o avô, vai armazenando conhecimentos, vai construindo o seu mundo interior, com isto com aquilo, hoje a vindima, amanhã a matança do porco, depois o armazenar de lenha para o Inverno, sempre com a protecção dos pais e a bênção dos avós. Se calhar, a felicidade é apenas isso, meia dúzia de horas felizes, momentos espaçados e fugidios, uma sensação de paz, uma ilusão de eternidade, um riso de criança num carrinho de mão, através de uma vinha de brincar...

1998

segunda-feira, 3 de maio de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 8


Joaquim Sobral

António Cagica Rapaz

O avental sobre os joelhos, os óculos na ponta do nariz, enquanto me ouvia, ia colocando umas biqueiras nos meus velhos sapatos estafados por correrias infindáveis atrás da bola. Sem se distrair, sem errar o furo nem o prego, escutava com aparente interesse, as minhas aventuras nos verões apaixonantes que passava nas Caixas. Muitas vezes, antes das seis da manhã, passámos à porta dele, no silêncio da alvorada, carregados com as malas, felizes e eufóricos, sem sono nem fadiga, a caminho do largo da igreja de onde saía a camioneta que, com o Pintassilgo ao volante, nos levaria até à paragem do Baratinha. Era justo que, já que não o acordava ao abalar, lhe contasse, depois, como tinha sido a rega nos Torrões ou a debulha do trigo, a fuga da Mulata, a linda e selvagem mula do tio Júlio, ou a vindima na Roça…

Era na lojinha do tio Joaquim, com os banquinhos de madeira, os pássaros na gaiola, o cheiro a cabedal e a frescura da rua à espera de sol.

Durante muitos anos, desde pequenino, me habituei a passar horas a conversar com ele, a vê-lo manobrar a sovela, a dar pontos, a cortar, a coser, a pregar, o jeito de consertar, o gosto de ajudar, aproveitando até à exaustão, sapatos, botas e sandálias. Aquela pequena oficina era quase de brincar, minúscula e acolhedora. Na véspera de Natal havia quem esperasse até muito tarde para ter sapatos para a Missa do Galo ou para pôr na chaminé.

Com a sua bondade e a sua paciência, o tio Joaquim acabava sempre por remendar todas as carências, com a mesma ternura com que me contava, pausadamente, pescarias mágicas das segundas-feiras em que, saltando de rocha em penedo, ele se perdia na lonjura do Caneiro.

Era o empatar minucioso dos anzóis, o segredo do engodo, a escolha criteriosa do local, o tempo certo da maré, o fascínio da água lusa, o apelo da madrugada que o levava a esquecer, por um dia, o avental, a sovela e o martelo, para abalar, ao raiar da aurora, de balde na mão, homem de uma cana que prolonga o braço, a caminho das rochas, ver nascer o sol, abraçar o mar, deixar-se levar pelo fio de nylon até à linha do horizonte, saborear a vida, sentir-se livre, sonhar.

E pescar…

1995

sexta-feira, 16 de abril de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 3

as crónicas da Eventos...



Arrábida, aldeia de irmãos*

António Cagica Rapaz

Encolhida entre as penedias abruptas do Caneiro e a luz protectora mas confinante do farol, Sesimbra sufocava de ansiedade e sonhava com a aventura a que o mar convidava.

No horizonte recortava-se a costa alentejana, América inacessível, Índias impensáveis para os nossos antepassados que contemplavam o oceano infinito entre dois balanços das suas frágeis embarcações.

Por terra, a Alfarrobeira era o limite do real conhecido e dominado. Para além da curva, era o risco de uma aventura que passava pelo Castelo, território de gente com outro falar, mais arrastado, homens vergados sobre a terra, vivendo com animais à beira, hordas que desciam à borda d’água, no pino do Verão, de alcofa na mão, demandando a armação...

Mas a negridão do Inverno também chegava a obrigar homens, mulheres e crianças do nosso burgo a subir a serra, a bater à porta dessa gente de falar estranho, pedindo uma côdea de pão, alguma fruta, naco de toucinho ou um fio de azeite. Era a fome, a miséria de dias sem fim em que o mar negava o sustento, em que a vida ficava presa a uma enfiada de carapaus secos e o estômago era enganado com magras sopas de café.

O homem sofria, rezava e sonhava. E acabou por se fazer ao mar. Cautelosamente, junto à costa, palmo a palmo, a curtas braças, Calhau a Calhau, dobrou o Cabo, enfrentou tormentas, até chegar à Arrábida, ao paraíso, como Ulisses chegou a Ítaca.

E desde então compreendeu que não está isolado e que ali fica outra terra prometida, na imensidão da serra, no deslumbramento da vegetação, na embriaguez dos odores, no êxtase do silêncio, presépio que os deuses quiseram desenhar, moldar, construir, aqui tão perto.

Com o tempo, e embora Sesimbra fosse a nossa bela terra, a verdade é que o apelo se revelou, para sucessivas gerações, irresistível. A magia, o fascínio da Arrábida era como um cântico de sereias, melodia de fim de Verão, sortilégio de Setembro quando certas famílias encetavam a sua peregrinação, lenta e preguiçosa, gozando o deleite do prenúncio do Outono, na paz e no encantamento do Portinho. Entre tufos de alfazema, alecrim e tomilho, era um tempo de recolhimento místico só quebrado pela festança profana de caldeiradas memoráveis. Sentimentos, odores e sabores de fraternidade, na quietude de um cenário idílico, tradição saudosa de caminhantes devotos ante a senhora del Carmen. Arrábida de poetas, comunhão perfeita com uma natureza que nos deslumbra e comove, que nos une na contemplação da beleza suprema. Arrábida, verdadeira aldeia de irmãos, onde sempre voltamos, nessa busca incessante do tal paraíso perdido. Como alguns seguem a estrela do pastor, como outros vão a Meca...

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*Publicado no n.º 29 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2004.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 6

Zé Tucha: foto tirada do blogue Sesimbra


No fundo*

António Cagica Rapaz

Há tempos, numa gloriosa manhã de domingo, bateram-nos à porta, na Aiana, dois mensageiros de Jeová. Chovera durante toda a semana e aquele sol radioso, o perfume da terra molhada, o ar puríssimo e a luminosidade do céu lavado pela chuva benfazeja, tudo isso fazia daquele domingo uma prova suficiente da existência de Deus, de Jeová, de Maomé ou de Buda, à escolha, segunda as crenças.

Não calhou ser eu a ir à porta, e abstive-me de intervir na ladainha dos pacientes e pertinazes pregadores, tendo apenas retido uma frase que me deixou pensativo. Fiquei a saber que, para as testemunhas de Jeová, a alma morre com o corpo. Admito que haja alguma ambiguidade entre os conceitos de alma e espírito, que conviria aprofundar a reflexão, mas não desejei esclarecer o assunto e apenas aproveito o mote para divagação.

Esta convicção dos seguidores de Jeová (a menos de outra interpretação) parece encerrar uma mensagem tenebrosa, e deixa-me alguma curiosidade quanto à maneira como encaixarão esta ideia num quadro positivo de vida. Seria certamente interessante ouvir a argumentação que utilizam para conseguirem transmitir esperança e optimismo, encontrar sentido para uma vida sem prolongamento para além da morte.

Se, de facto, a alma morre com o corpo, o nosso horizonte é curto, o fim do filme da nossa vida não traz qualquer surpresa nem a menor expectativa, muito menos uma esperançazinha de eternidade. Como todos sabemos, estamos condenados a morrer, é mesmo a única certeza que a vida nos dá. Ora, se uma religião nos diz que a morte é o fim, do físico e do espiritual, que sentido poderemos encontrar para a vida?

Este tipo de congeminações poderia tornar-nos pessimistas e macambúzios, pelo que é aconselhável certa prudência na aproximação a assuntos desta natureza morta.

Há tempos, deparei na praça (palco privilegiado de todos os encontros) com o José Embaixador, figura notável da nossa terra, bombeiro, mercador de matacões, bolos e pastéis, e também patriarca dos servidores de Jeová.

Confesso que nunca vislumbrara no nosso Zé Tucha preocupações de ordem espiritual, mas admito perfeitamente que em qualquer altura possamos ser levados por uma onda de misticismo. Cada um tem o direito de acreditar, pregar ou prestar culto segundo as suas convicções, desde que respeite o seu próximo a quem deve reconhecer igual liberdade de pensamento e de expressão. Apesar de tocado pela graça de Jeová, o Zé Tucha não perdeu a outra graça, a sua verve malandra, o bom humor que sempre lhe conhecemos. E disso me apercebi no nosso diálogo na praça. Na sua linguagem pitoresca e metafórica, lá me foi dando conta da sua saúde que já não é o que foi, tendo sido obrigado a usar um “pace maker” para manter o coração a funcionar em bom ritmo. Mas não se ficam por aí os seus constrangimentos. Mais inconformado ainda me pareceu quando rematou, em confidência e desabafo: “Olha, o pior é que já nem vou à tona”.

Habituado às suas excêntricas figuras de retórica, deduzi que já não se sentisse em forma, à tona de água, menos vigoroso, com menos destreza, enfim, algo parecido. Porém o seu sorriso maroto deixou-me, mais tarde, a impressão de ter ouvido mal…

Seja como for, a brejeirice lendária do Zé Tucha mostra que não está muito preocupado com a dicotomia alma-espírito e que conserva uma perspectiva optimista e hedonista da vida.

Aqui chegados, coloca-se-me a angustiante e obsidiante dúvida sobre o rumo a dar a este escrito, hesitante que estou entre a tonalidade mística e a toada maliciosa que o Zé Tucha, impenitente inveterado, me segreda ao ouvido, a mim, frágil criatura impoluta, menino de coro e decoro, nada dado a essas maléficas pantominices. Ainda sinto na pele a valente reprimenda da minha boa amiga Doutora Auzenda que não gostou nada das minhas divagações marotas inspiradas pelo despudorado Camilo José Cela. Em verdade, não estou arrependido, mas que isto fique apenas entre nós…

Voltando às minhas dúvidas quanto ao tom a dar a esta narrativa, pergunto-me se vale a pena abordar assuntos graves. Recentemente escrevi duas crónicas sobre coisas essenciais como são a vida e a morte, as linhas da mão, a força do destino, tudo assente em convicções e experiências pessoais.

E, afinal, para quê? Para encontra a habitual ausência de reacções, isto é, para ficar com a sensação de que é indiferente escrever sobre coisas sérias ou alinhavar escritos triviais. Há uns três anos, contei** de que maneira consegui, em 1971, no Campo de Tiro da Serra da Carregueira, restituir às suas famílias alguns rapazes destinados à guerra colonial. No fundo, talvez não o tenha feito tanto por ideais políticos, como por sentir que era uma guerra absurda, e porque assim ditavam a minha consciência e a minha dignidade. Posto isto, naquele período de guerra, era muito arriscado para mim contornar as regras, furar as malhas da lei, ainda que iníqua e cínica.

A prisão era «a recompensa» para o meu atrevimento, se a falsificação fosse detectada. E não era difícil, bastava que alguém, por acaso ou por curiosidade, tivesse comparado com o original os processos aldrabados que enviei. Afinal, podia ter encolhido os ombros e deixado andar, como fazia, com egoísmo e desprezo, um tenente do quartel da Amadora, um tal Luís.

Mas achei que devia tentar. E consegui. Só conheço um dos rapazes que pude ajudar. É das Caixas, chama-se Bernardino, e a mãe, a tia Líbia, agradeceu-me, com muita emoção e um coelho…

Nunca reclamei medalhas nem cartão do clube dos lutadores anti-fascistas que saíram, apressadamente, das tocas logo no dia 26 de Abril. Apenas observei que esta narrativa não despertou qualquer curiosidade, ninguém achou útil aprofundar a questão, apesar de não ter sido propriamente uma banalidade o que se passou na Carregueira. A maioria desses abnegados resistentes nunca foi além da conspiração de café, à volta da bica e do bagaço, sem jamais ter elevado a voz ou tido um gesto que se visse. Não me considero herói, mas não teria sido de mais se alguém tivesse condescendido em me dirigir uma palavra ou um sorriso de simpatia, procurado, ao menos, saber se tinha sido verdade, se não seria gabarolice ou mistificação. Mas não, nada. Foi como se aquela crónica fosse apenas ficção pura e delirante como “O molho à espanhola” que tratava de uma louca invasão para repor os irmãos Filipes no poder. No fundo, tanto faz escrever sobre a vida para além da morte como sobre a falta de cavala no mar dos Ursos. Mas, ao fazer esta observação, não estou a manifestar surpresa nem estranheza, muito menos decepção.

Gosto de brincar, divirto-me com algumas pinceladas irreverentes, apraz-me misturar melancolia, sonho e poesia, mas não sou ingénuo nem lírico.

Há muito que me habituei a esta relação de sentido (quase) único, marcadamente direccional que existe entre quem escreve e quem lê, embora isso não me impeça de sublinhar que seria desejável que houvesse diálogo, mais intervenção dos leitores, escrevendo para o nosso jornal, tornando-o participado, mais vivo e rico.

Não faz sentido e é frustrante pensar-se que de um lado estão os que escrevem e do outro os que lêem. Ao fazermos o jornal, estendemos a mão, damos um passo, lançamos um olhar, vamos ao vosso encontro. E gostaríamos de vos ver, de vos ouvir, de vos ler.

Só assim o nosso jornal cumprirá a sua missão de nos juntar a todos, leitores e escribas, à volta da mesma causa que é a nossa terra, nas suas múltiplas facetas, as pessoas, as coisas, a economia, o ambiente, a segurança, a pesca, o turismo, a droga, a educação, etc.

As pessoas, de maneira geral, só escrevem para o jornal quando se sentem atacadas, nos seus interesses ou na sua dignidade. É pena, porque a certa altura pode haver o risco de desalento, de desmotivação por parte de quem se sinta cansado de erguer a voz em defesa do nosso mar e dos nossos pescadores, por exemplo. Por alguma razão, recentemente, o Pedro Filipe pedia aos sesimbrenses para acordarem. Um dos sinais desse adormecimento é a posição de alheamento e comodismo, sem se manifestarem, sem se pronunciarem, contra ou em apoio, sobre as causas que o jornal defende com carolice, com bairrismo, certamente, mas também com conhecimento e noção de responsabilidade. No fundo, um jornal é um meio de comunicação e esta faz-se nos dois sentidos.

Por mim, apenas observo, registo, não me queixo, não vale a pena, tudo isto mais não é do que pretexto para a nossa cavaqueira mensal. Afinal, o que escrevo quase sempre se situa na esfera do acessório. Mesmo quando falo da vida e da morte. Ou da guerra que, muitas vezes, nos leva de uma à outra…

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*Publicado originalmente na edição de Maio de 1999 de O Sesimbrense.
** [nota do editor] Na crónica Superveniente, publicada na edição de Dezembro de 1995 de O Sesimbrense. Com o mesmo título, e versando o mesmo assunto, publicou António Cagica Rapaz uma narrativa no livro Janela com Escritos (Sete Caminhos, 2006).

segunda-feira, 12 de abril de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 5




O barco

António Cagica Rapaz

A estibordo o campo de pessegueiros, o recorte dos castanheiros, o declive do ribeiro seco, o pinhal e os caminhos que vão dar ao mar. A bombordo, a estrada estreita, recta esticada à beira da vinha cansada, os cães acorrentados, mais assustados que agressivos, prontos a ladrar ao menor sinal de presença humana.

A proa é cortante, ângulo muito agudo, capaz de sulcar a terra em travessias silenciosas, em noites de lua encoberta por nuvens que o mar carregou de sombras e mistério. A amurada de bombordo acompanha a estrada, desliza-lhe paralela e suave, para não acordar os cães, e o barco lá vai, envolto em bruma macia, com a proa em jeito de esporão qual Nautilus do capitão Nemo que cortava pelo meio navios incrédulos, semeando o terror e desafiando a imaginação em toda a extensão das vinte mil léguas submarinas.

O barco tem a forma, o perfil esguio de uma embarcação costeira, embora não se possa confundir com uma péniche, barcaça como as há em França, batelões que carregam sal, carvão, areia, rios abaixo, de comporta em represa. Costumam transportar bicicletas e mesmo carros, à popa, junto à cabina que serve de casa ao mestre, cortinados nas janelas, vasos com sardinheiras, o fumo suave a diluir-se, rio fora, deixando no ar um perfume de comida caseira. À popa do barco também há um carro, e a encimar o camarote imponente uma chaminé bem erguida ao céu, reforçada por pedra robusta. Na realidade, o barco é uma pequena propriedade de forma triangular, paralela à estrada, na Aiana, cercada por um muro caiadinho de branco que remata, a sul, um ângulo agudo pronunciado que dá ao conjunto uma forma que sugere um barco, fantasia que me passou pela cabeça. Como passamos por ali, com alguma frequência, habituámo-nos a observar se a casa está ou não fechada, se há luz, se a tripulação sobe ao tombadilho. E, assim, o barco entrou na nossa linguagem codificada. Por vezes, quando nos aproximamos, vemos o comandante e a sua companheira entregues à faina de mareantes, ele subindo à gávea, compondo as vergas, aparando a roseira, arrancando as ervas ruins, ela baldeando o convés, estendendo cobertores, abrindo as janelas de par em par, virando de bordo rumo ao sol, a favor da brisa de leste. O barco tornou-se uma curiosidade, quase um mistério adensado pela discrição das pessoas que habitam aquela casa ancorada na curva, rodeada de cães, à falta de gaivotas, quase atracada à muralha do Zé do Justo. Que gente será aquela, terão filhos, virão de Lisboa, que fazem na vida além de embarcar nos fins-de-semana? Nunca vimos grumetes no convés, não me recordo de grande animação a bordo, sardinhada, caldeirada, piratas de perna de pau, apenas o comandante e a companheira, discretos na manobra, mecanizados numa rotina que deixa entrever uma cumplicidade forjada em muitos anos de navegação a dois, sem grandes falas, com silêncios eloquentes, movimentos combinados, acções encadeadas. Não estou certo de os reconhecer se os encontrar noutros mares, noutras paragens, no mercado de escravos de Azeitão, na venda dos arcabuzes ou na tenda das especiarias.

No fundo, levamos a vida a construir o nosso barco, o nosso quartel, o nosso quintal, o cantinho onde nos sentimos ao abrigo das tempestades da vida. Nem sempre conseguimos, mas já é bom tentar, viver de esperança, ir fazendo, calafetando, remendando uma vela, raspando o casco, cosendo a rede, semeando, regando, queimando silvas, procurando a estrela do pastor ao voltar a casa, quando o fumo se eleva das chaminés, os cães ladram ao longe e a terra arrefece lentamente.

O mar e os barcos fazem parte da nossa vida, dos nossos sonhos. Por isso, no campo, mesmo sem searas a ondular, nos parece ver barcos onde, afinal, só há uma casa cercada por um muro pontiagudo, à beira da estrada.

D. Quixote de la Mancha também via gigantes onde apenas havia moinhos de vento. Do moinho das Caixas restam ruínas, vestígios mudos e tristes, de um tempo distante em que eu lá ia, montado num burrico, trocar um saco de trigo por outro de farinha. Foi-se o tempo, fica-nos a fantasia e a memória vacilante…

1997

quarta-feira, 7 de abril de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 5




Ícaro

António Cagica Rapaz

“– Ah, quem anda a escrever um romance é o Tomás.”

Era uma tarde deliciosa como só acontecem ao sábado, daquelas tardes em que o sol acaba por se pôr, vermelho em brasa, por trás da casa da Mafalda. Nessas alturas, gostaria de poder estar, ao mesmo tempo, no muro da lota e ver aquela bola de púrpura cair devagar para lá do farol. E voltar, a correr, para a Aiana…

O Miguel viera visitar-nos, o que sucede menos quando esperamos do que sempre que lhe apetece. E está muito bem assim. Viera deitar um olho à velha vinha revigorada por tardias chuvas e conversámos vagarosamente à espera do crepúsculo e das línguas de bacalhau.

O Tomás é publicitário, companheiro de infância do Miguel, cresceram juntos, e, com eles, cresceu também uma bela e saudável amizade, daquelas em que há partilha, confiança, cumplicidade, fraternidade e tudo quanto se sente sem se conseguir nem precisar definir.

“ – Já me deu a ler dois capítulos, é muito interessante. É uma história que mete um português de origem céltica e mafiosos espanhóis. Não é autobiográfica mas, curiosamente, há muito do Tomás no que li. Não sei como explicar, mas acho que aquilo é ele, é assim.”

O Tomás e o Miguel fazem-me, remotamente, pensar no D. Quixote e no Sancho Pança, aquele mais sonhador, figura esgalgada, pronto a desbravar mundos ao volante do seu decrépito e romântico “2 cavalos”. O Miguel é realista, desconfia de moinhos de vento, é seguro e determinado, positivo e estruturado. Os dois formam uma parelha admirável…

Ficou-me no ouvido a alusão às marcas, ao rasto da personalidade, do espírito do Tomás que se adivinha ou pressente naquilo que escreve.

Ao mesmo tempo, ocorreu-me a ideia de que o leitor que conhece o autor não é imparcial, antes procura (talvez até de forma inconsciente) sinais, referências, vincos pessoais de quem escreve. No fundo, a relação pessoal com o autor rouba neutralidade ao leitor, impede-o de mergulhar sem preconceitos na ficção, aguça-lhe a curiosidade, coloca-lhe uma lupa na mão.

Esta relação de proximidade pode falsear as perspectivas e destruir o equilíbrio e a equidistância indispensáveis a uma apreciação correcta.

Neste processo, cada um tem o seu lugar, e certa forma de intimidade pode afectar, tornar-se perniciosa. Ícaro queimou as asas de cera por se ter aproximado demasiado do sol…

Não sei se será bem assim, mas ocorreu-me a ideia de que o leitor, tal como o espectador do cinema, por exemplo, têm de fazer concessões, têm de se prestar ao jogo, aceitar as regras da ilusão e da ficção. Nenhum de nós espera que, em palco ou no filme, os actores morram de verdade. Ou que o realizador utilize sangue real em vez de um qualquer líquido avermelhado. Ninguém deve preocupar-se com a autenticidade do que nos é relatado, se o Edmond Dantès viveu ou não em Marselha, se o Conde de Monte Cristo existiu ou não. Talvez outro Miguel, amigo de Alexandre Dumas, tenha encontrado traços da personalidade do escritor na figura do Conde.

No fundo, o juízo de valor que fazemos de uma obra, seja qual for a sua natureza, é influenciado ou condicionado pelo facto de conhecermos o autor. E o nosso olhar não é imparcial.

Por outro lado, talvez devêssemos contentar-nos em representar cada um o seu papel, ou seja, mantermos uma certa distância em relação ao artista. Podemos admirar um actor durante anos ou perder essa admiração porque um dia o vimos perdido de bêbado numa discoteca. Há relações de ordem afectiva que funcionam bem enquanto cada um fica no seu lugar, até se ultrapassar o limiar perigoso da intimidade. Ou se arrancar a máscara, pondo um termo à ilusão e ao mistério.

Uma das razões do enorme fascínio que o carnaval de Sesimbra exercia, advinha do jogo de ambiguidade, dos lances cruzados de luz e sombra, realidade e mistificação, provocação e irreverência. A queda da máscara punha fim ao sonho, à delícia da sugestão e da fantasia, ao devolver-nos à crua banalidade do quotidiano. O fim da ilusão acontece, por vezes, quando acaba o namoro e se entra na rotina, sem flores, sem poesia, sem ternura, sem romance. Quando deixamos o nosso lugar na plateia ou na bancada lateral, quando passamos para o outro lado, quando saltamos para o palco, quando furamos a tela, quando nos equipamos no balneário e vemos de perto aqueles que foram nossos ídolos, então, aí, caem-nos os braços de desalento, ficamos mortalmente desiludidos. Recordo uma tarde, no estádio da Luz, em jogo contra o Benfica, em que ouvi jogadores da camisola gloriosa gozarem (à distância, claro) os ingénuos e apaixonados adeptos do clube. Já os cultores da Arte pela Arte achavam que o contacto com a realidade avilta o artista. O mesmo pode ser válido para qualquer de nós, quando entramos em círculos de maior intimidade, correndo fortes riscos de desilusão.

Ao conhecer por dentro o mundo do futebol (que tanto me deslumbrava na meninice) vi caírem inúmeras máscaras. Nas nossas vidas, com os nossos familiares, com os nossos amigos, a fronteira da desilusão situa-se muitas vezes no campo minado dos cifrões, das coisas materiais que provocam, em muitos casos, a queda das máscaras. E então ou há a dignidade da ruptura ou se afivela nova máscara, para um faz de conta, paz podre ou harmonia postiça. Por isso, deixemos trabalhar os artistas, limitemo-nos a vê-los em cena, maquilhados, equipados, fazendo malabarismos com a bola, maravilhas com o pincel, primores com as palavras, fascinação com a voz. Não procuremos saber se a pistola do actor dispara bala real ou pólvora seca, não nos preocupemos em apurar se Sinatra era ou não mafioso. Contentemo-nos em deixar esvoaçar o sonho e a ilusão, ouvindo a voz incomparável do Francis Albert em crepúsculos mágicos de sábado.

Que importa saber se o Tomás tem ou não origem céltica ou se a sua sombra se recorta por trás esta ou daquela personagem. Não me perguntem se o Tomás existe ou se tudo isto não passa de pura invenção. Vivamos a vida como ela vem, não nos aproximemos demasiado do sol…

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*Publicado originalmente na edição de Abril de 1999 de O Sesimbrense.

quinta-feira, 25 de março de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 3


A Cotovia* (2.ª e última parte)

António Cagica Rapaz

Por uma bela tarde de verão, a tia Stella tomou corajosamente o volante do velho Anglia preto e a expedição arrancou com destino à longínqua Cotovia. Estaríamos talvez em 1953 e o tio Jójó tivera a insólita ideia de construir uma casa naquele ermo, longe do mundo civilizado que assentava arraiais no Central e no Grémio. No seu desejo de evasão fora acompanhado pelo tio Né, o Hernâni Baptista, garboso comandante dos Bombeiros que no meu espírito evocava igualmente a fábrica de conservas da Caveira.

A Cotovia era outro mundo, um castelo de aventuras dos cinco que em casa do tio Jójó eram três. Com o Luís Filipe eram quatro, como os três mosqueteiros. O Luís Filipe era o pupilo do Exército muito digno no seu uniforme, sempre de sobrancelha carregada e dons apreciáveis para o desporto. Eu desembarcava naquele universo, com admiração e deslumbramento. As bicicletas, as espingardas de pressão de ar, os mil brinquedos que nunca tive, uma lareira, um ar de festa, uma felicidade contagiante, tudo me deixava seduzido.

Mas a vida é cruel e naquela Cotovia maravilhosa, apesar da protecção sadia dos pinheiros, naquele presépio de sonho, o Luís Filipe viu partir a mãe numa idade em que se não é suficientemente forte para achar normal nem tão infantil que não se fique traumatizado. Vi e senti a alguma distância o seu drama, a sua revolta, a injustiça de um destino que parecia cor-de-rosa…

Nas nossas corajosas pescarias na doca, encavalitados num colchão de borracha (sem sabermos nadar), ou perto do calhau da Cova com o Padre João, nunca nos debruçámos sobre questões de ordem metafísica. Apenas nos habituámos a entender-nos sem grandes conversas, numa complementaridade que não mudou. Ele fala pouco, eu não me calo e ambos pensamos o mesmo, sentindo de igual forma. Chama-se a isto amizade, cumplicidade. Regista-se. Não se explica. Terá sido essa cumplicidade que me levou a ficar em sua casa nessa tarde em que, como dizia, a tia Stella conduziu a expedição à misteriosa Cotovia. O entusiasmo foi enorme e alguém lançou a ideia de irmos armar aos pássaros no dia seguinte, de manhã. Para tanto era melhor ficarmos para dormir. E ficámos. A minha irmã até acabou por ficar na família. Para mim era mais difícil, já que eles eram todos machos, na Cotovia…

Aí nasceu a minha paixão pela Cotovia, ou melhor, por uma certa forma de vida, por uma atmosfera especial que ali se respirava. A Cotovia era a fuga ao bulício de Lisboa durante a semana e à agitação de Sesimbra ao sábado e domingo. Era um retiro, um paraíso, uma estalagem, um convento, uma coutada, uma mansão, um oásis.

As primeiras chuvas do Outono desencorajavam os últimos turistas. Era o momento de voltar a vestir as camisolas grossas que a tia Fernanda fazia à mão. O vento, arauto do inverno, trazia consigo um gosto impreciso que a chuva revelava. Era chegado o tempo do peixe seco, dos carapaus doirados ao sol do verão. O apelo era irresistível e aposto que o tio Jójó não trocaria os primeiros carapaus secos do Outono por uma lata de caviar. A tradição venceu os anos e passei dos melhores domingos da minha vida na Cotovia com os da casa e o Luís Filipe que vinha dar uns toques cabazeiros nos matraquilhos onde ele e o Joca era fregueses certos do Zé e deste vosso servidor. Enquanto a Carmelinda e a tia Fernanda limpam a loiça, o António adormece agarrado à telefonia a ouvir o relato e o tio Jójó troca dois dedos de conversa com o Jorge até o Chico chegar.

O compadre Artur não deve tardar e o tio Nuno vê-se aflito com a «Miss» que procura cravar o dente no pudim que vai acompanhar o café por sua vez iluminado pela espectacular bagaceira «Patricius», segredo do mestre Jorge. O Jorge é o último fidalgo proletário da Cotovia, o último patrício de casta antiga, com a sua filosofia pura da vida que ele manobra com fleumática e cativante sabedoria.

O tio Jójó é o meu senhor feudal que não ergue a ponte levadiça como fazia Conrado, o lobo, o vilão das aventuras do Cavaleiro Branco, Jean de Dardemont, que eu devorava com avidez.

Na Cotovia eu encontrava recriado o ambiente medieval com um senhor feudal bondoso, apaixonado pela caça e pelas artes. O seu castelo estava sempre aberto aos amigos, vassalos ou suzeranos, peregrinos (como eu) de passagem ou membros da numerosa família.

O Jorge nunca tinha fome, já tinha sempre comido mas acabava infalivelmente por petiscar qualquer coisa connosco.

O compadre Artur deixou ao António uma recordação inolvidável com as sardinhas que trouxe de Cascais naquela almoçarada pantagruélica em que o admirável Duque se juntou à nobreza da casa.

O serviço militar é uma viragem na nossa vida. Em vésperas de entrar em Mafra almocei carapaus secos com o Jorge no Casal, à beira do alambique. Foi o fim de uma época, de um capítulo de aventuras, como se eu, leitor do «Cavaleiro Andante», tivesse por artes mágicas penetrado no universo de Jean de Dardemont para viver a seu lado o fragor das lides, percorrido o caminho exaltante da epopeia.

O tio Jójó lá continua, Deus o conserve por muitos anos com a sua bondade, a sua linhagem de figura nobre, o seu sentido estético da vida e o gosto sensível pelas coisas e valores autênticos.

Como Afonso da Maia, o tio Jójó encerra um ciclo. O Jorge é o seu velho mestre de armas que conhece os cantos á casa, as tocas, os abrigos, a direcção do vento, o canto dos pássaros, que maneja a enxada, o martelo, a acha e o pichel.

Protejam o tio Jójó, aguentem-me esse maravilhoso Jorge, não matem a Cotovia…
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*Publicado originalmente na edição de Novembro de 1982 de O Sesimbrense, na rubrica «Contos da Noite Velha».

quarta-feira, 24 de março de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 2


A Cotovia* (1.ª parte)

António Cagica Rapaz

Durante muitos anos a Cotovia nada mais representava na teia das minhas recordações do que uma paragem no itinerário pachorrento do carro de Cacilhas.

Depois da subida soluçante, ruidosa e fumarenta, até Santana, quase sempre atrás de uma camioneta do peixe (daquelas que vão deixando na estrada um rasto salgado), contornando o posto da Polícia onde o Mau-Mau controlava o horário com severidade, rasgava-se um horizonte novo na frescura da manhã. Era a Cotovia. Sesimbra ficava lá em baixo, na cova funda, meia adormecida, com as «beatas» vestidas de preto a saírem da missa das sete e a juntarem-se em grupinhos no jardim, em frente da capela, os miúdos de saco branco com as carcaças quentes para o pai que está na loja e espera o café da manhã. As mulheres do campo começam a chegar com os burros carregados para a praça. Nas tabernas cheira a bagaço e a abafadinho. Os velhos pescadores sentam-se no muro olhando o mar azul, procurando a rabeça do sol que já se eleva por cima do Caneiro. Uma barca cruza a baía, o motor ronrona e o fumo perde-se no céu sem nuvens. O Mau-Mau volta p’rá barraca e o Manel Estêvão mete a quarta, Cotovia abaixo…

A Cotovia era, para mim, apenas uma paragem do carro da carreira, uma aldeia escondida onde, à hora a que eu passava devorando a paisagem com os olhos escancarados de miúdo curioso, o tio Sebastião da Sopa abalara já estrada abaixo enquanto o Jorge bebia uma tigela de café que a Joaninha lhe preparava. Mas nessa altura eu ainda não conhecia o Jorge, só conhecia o Tio Sebastião porque o via muitas vezes na «Sopa», de fato de ganga azul e boné. Para a criança que eu era, o tio Sebastião era um homenzarrão que eu achava parecido com o meu pai, com a mesma estatura, o mesmo aspecto franco e vigoroso. Só que o tio Sebastião ainda desce ao jardim, aconselha o Jerónimo, ajuda o Fernando, caminhando pausadamente, atravessando o tempo sem pressas…

A Cotovia é campo mas um campo diferente do meu. O João Pedro, o meu sobrinho, chamava-lhe o campo da Carmelinda (filha do Jorge). Mas o meu campo era as Caixas, ficava no lado oposto. A Cotovia era menos campo, estava mais perto de Sesimbra e, como ficava na estrada de Cacilhas, cheirava a Lisboa. O meu campo era diferente, a estrada era de terra batida, de macadame, só havia uma carreira de manhã e outra à noite. E a camioneta reservada à carreira de Alfarim era a mais ranhosa do Covas.

A minha paixão pelo campo, pelas Caixas, prolongou-se pelos primeiros anos da minha infância em que virei as costas à praia e só gostava dos porcos, das galinhas, das mulas, da debulha, do pão no forno, dos pinhões, do moinho, da vindima, da água-pé, daquela vida dura mas saudável, com manhãs luminosas, a alvorada anunciada pelo galo garboso do tio Meano, com crepúsculos suaves, com o dia a perder-se na curva da estrada onde desaparecia o carro da carreira que regressava a Sesimbra. Cansado das lides diárias, em que participava com ardor, eu adormecia beatificamente enquanto o meu pai ficava à porta em conversa sem fim com o tio Júlio e o tio Justino que o ouviam com prazer e admiração. Ao longe, confundindo-se com as estrelas, viam-se as luzes trémulas da costa do Estoril, de Lisboa, dessa Lisboa que nos obrigava a passar na Cotovia. E acabei por conhecer a Cotovia, na minha adolescência e já homem capaz de saborear o bagaço do Jorge. Assim aprendi a gostar de outro campo mas as minhas raízes ficaram nas Caixas, na água límpida da fonte dos Torrões, na sopa de tomate e batata com pele, no pão amassado pela tia Clarisse, nas vindimas da Roça, na farda branca do meu pai emergindo da poeira levantada pelo carro da carreira, na corrida atrás do trilho na eira, na melancolia do regresso a Sesimbra após as primeiras chuvas de Outubro e o apelo da escola.

E anos volvidos voltei a encontrar o tio Sebastião que já não me pareceu tão grande. Quando o conheci, em pequenino, não imaginava que ele fosse da Cotovia. Para mim ele era o tio Sebastião da «Sopa», velha mansão que as chapas de zinco protegiam da maresia. E o tio Sebastião simbolizava a sopa, o inverno, o vendaval, a rua dos Pescadores. E afinal ele é da Cotovia, quis Deus que fosse irmão do Jorge. E o Jorge, no meu espírito, é a Cotovia, a Cotovia é o Jorge. Lá iremos…

(continua)
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*Publicado originalmente na edição de 24 de Outubro de 1982 de O Sesimbrense, na rubrica «Contos da Noite Velha».

terça-feira, 23 de março de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 2

O mar do campo

António Cagica Rapaz

Era no início dos anos 50. O ribeiro dos Torrões ia desaguar na praia, mas nós, exploradores de palmo e meio, ignorávamos o destino daquele fio de água límpida que retínhamos, aqui e ali, em represas improvisadas para mergulhos frustrados e caça inocente a rãs saltitantes.

Depois de termos encaminhado para os talhões, um após o outro, a água que o tio Júlio tirava à picota, íamos, o Julinho e eu, encosta acima, armar aos pássaros. Chegados ao alto, contemplávamos, num misto de estranheza e respeito, aquele mar imenso e revolto, com vagas poderosas que se desenrolavam com fragor na areia rija da praia a perder de vista. Ficávamos em silêncio tempos infindos naquela contemplação, maravilhados e intimidados. O Julinho nunca tinha ido a Sesimbra e eu tinha dificuldades em lhe explicar o nosso mar, o verdadeiro mar, o da Pedra Alta, ali mesmo em frente da rua dos Pescadores, quase à nossa porta, o porto de abrigo, os passadiços, a água doce, os destroços do Numância, a imponência da fortaleza, as aiolas baloiçando, dolentes, amarradas à popa das barcas ancoradas na baía, na quietude da manhã apenas quebrada pelo sino da igreja de cima. Esse, sim, era o mar, não aquela imensidão tumultuosa de ondas a rebentar em praia deserta a dois passos do pinhal. Não fazia sentido, ali era o campo, céu de pardais, não de gaivotas. Por isso lhe virávamos costas, em corrida vertiginosa, ladeira abaixo, até à cabana de canas de onde a tia Clarisse já nos chamava porque a sopa de tomate e batatas com pele esperava por nós. A minha mãe enchia-me, regularmente, a marmita com batatas fritas com ovos que eu partilhava com o Julinho. De tarde, íamos lavar as cenouras e os nabos, para a venda no Seixal quando, para lá do cabeço, a noite ia caindo sobre o mar e a neblina já se estendia sobre a praia do Meco…

1983