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quarta-feira, 20 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 55



Mestre José Brandão*

António Cagica Rapaz

Para quem vive longe, o jornal é como uma carta de um amigo que nos relata o que vai acontecendo na nossa terra, no largo do Canino ou na rua Direita. Mas um amigo, quando tem alguma má notícia a transmitir, prepara o terreno, progride com precaução, previne, avisa, suaviza. O jornal não pode entrar nessas águas da afectividade e informa com alguma secura o que de bom e menos bom ocorre na nossa vila.
Assim, fiquei a saber que o vendaval voltou a rugir, medonho e lúgubre, metendo as garras horrendas e mortíferas por entre os grãos de areia da nossa praia, deixando-a em rocha viva. Esta notícia transportou-me para outros tempos, outros vendavais em invernos longínquos, com as vagas fustigando a Fortaleza e a pedra alta, o vento a ameaçar as folhas de zinco da «Sopa» e as estrelas de papel reforçado, presas por um cordel, a subirem oscilando no céu escuro e as nuvens que fugiam vertiginosas a caminho do Castelo, isolado e fúnebre, onde o Rafael punha a tranca na porta e os torreões tremiam de frio. E o mar levou um jovem pescador, drama que merece respeito e digno silêncio. 
Outra morte que me deixou perplexo e desamparado: perdemos o Zé Brandão. O jornal mostrava-o na fotografia tradicional acompanhada pelo testemunho de gratidão habitual e lembrava-nos que ele se chamava José António Preto Júnior. Mas para nós era o Zé Brandão, o nosso velho mestre de armas, o coronel das Índias que conduzia as tropas no combate da noite e da brincadeira. Um companheiro sempre bem disposto, modelo de correcção, cordialidade e elegância. Os preconceitos postiços de muita gente devem ter provocado certas críticas, decretando que um homem daquela idade devia ter juízo e não andar naquela vida. Bem ele fez em ter aproveitado os últimos anos para respirar a plenos pulmões a alegria bonacheirona da boémia singela e beatífica da companha que embarcava na traineira da Marisqueira que lançava as redes no Chagas ou no Espadarte Clube, guiado pelo timoneiro António do Porto de reco-reco à laia de leme, para ouvir os tremidinhos do Zé Manel e assistir à agonia do cavalo que o Júlio matava noite sim noite não na feira da Agualva. Muitos dos que criticavam passavam as noites no convés do fumo, batendo as cartas em sintéticos de má sorte.
O Zé Brandão era o chefe de fila de uma velha guarda bem humorada e sem outra pretensão que não fosse rir e dar ao pé, sem convicções ilusórias de conquistadores de fotonovela barata.
Fica para a história local a epopeia da peixaria do Ernesto e da oficina do Zé Brandão. E fica na memória de todos nós o sorriso permanente e a figura simpática do velho mestre. A nossa terra é sobretudo a nossa gente. E o Zé Brandão era (e continua a ser) dos nossos. Boa noite, ó mestre!
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* Publicado em O Sesimbrense de 21 de Fevereiro de 1982.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 53



Candeeiros bem bonitos

António Cagica Rapaz

O enérgico e sorridente Eduardo aplicava duas argoladas na porta, invariável e ruidosamente, às sete da manhã. A minha mãe ficava com o leite e, depois de deixar o fervedor na cozinha, acendia a telefonia. Assim começava o dia com o “Talismã”, o seu programa da manhã, produzido pelo Gilberto Cotta. Ao microfone, Armando Marques Ferreira, António Miguel e Dora Maria. Das sete às oito e meia, com segunda sessão das dez ao meio dia. Pelo meio ficava a “Onda do Optimismo”, com o Jorge Alves. Tudo no Rádio Clube Português.

Às sete e meia, ia para o ar um folhetim mais assustador do que as argoladas do Eduardo, a cargo da Manuela Reis que interpretava todos os papéis, fazia todas as vozes, homem, mulher e criança, narrava e dava corpo sonoro às personagens. Eram histórias aterradoras que eu ouvia de longe, do fundo da minha cama...

Mas os primeiros ecos da telefonia são anteriores, situam-se na taberna da minha avó, com os “Companheiros da Alegria”, o Zèquinha e a Lélé, o Vasco Santana, o Igrejas Caeiro, a Elvira Velez. E os fados! Os fados, na rua dos Pescadores, reconfortavam, ajudavam a esperar o fim do vendaval, a aceitar a fatalidade do destino, e iluminavam as noites quentes de Verão, sardinha assada e fogareiro à porta. Até o mar se calava para ouvir a Amália...

Quando mudámos para a rua da Fé, a telefonia passou a ser a do Chico da Cooperativa, com os relatos de futebol e, sobretudo, a magia das transmissões de hóquei em patins, os torneios de Montreux, na longínqua Suíça. Era a vibração apaixonante do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas, os golos de Portugal contra a Espanha, tanta emoção e paixão. A nossa imaginação fervia, tínhamos de dar um rosto, um corpo àquelas vozes cujos donos ninguém conhecia. Era o fascinante sortilégio da Rádio...

Já na rua Monteiro, o Manel Estêvão convenceu o meu pai a comprar uma telefonia Philips, a prestações, com letras assinadas por mim, com a caligrafia insegura dos oito anos e que poucas melhoras regista desde então.

No quadro das estações, da esquerda para a direita, lá estavam a Rádio Voz de Lisboa, a Rádio Graça, os Emissores Associados de Lisboa, o Clube Radiofónico de Portugal, a Rádio Renascença, o Rádio Clube Português e as duas Emissoras, a 2 e a 1 que transmitia com Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Guarda, na banda dos 47 metros.

Nos emissores pequeninos de Lisboa, havia, ao sábado de manhã, para os miúdos, o “Comboio das Seis e Meio, do José Castelo que veio muitos anos para Sesimbra e era amigo do meu pai. Certa vez, num concurso de desenho, ganhei duas grandes caixas de chocolates Regina graças ao talento da minha tia Lucinda e ao descaramento com que assinei o bilhete postal, com uma letra ainda mais incerta do que era habitual. A fraude já prescreveu, espero bem...

Na Emissora, gostava de ouvir o “Jornal Sonoro”, os relatos de futebol e, sobretudo, o teatro radiofónico que ia para o ar às nove e meia da noite, repetindo no dia seguinte à uma e meia da tarde, mal acabavam as aventuras do Patilhas e do Ventoinha, parodiantes do Rádio Clube Português. As vozes mágicas do teatro pertenciam a Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Rogério Paulo, Raúl de Carvalho, Rui de Carvalho, Canto e Castro e outros. Samuel Diniz ensaiava.

Na mesma Emissora, ao sábado, às sete da tarde, depois do banho, era o programa infantil da Maria Madalena Patacho, com realização do Castela Esteves, as Aventuras do Zé Caracol.

Mas o Rádio Clube Português era a estação que mais ouvíamos, o “Talismã”, os “Parodiantes de Lisboa”, o Lança Moreira, o senhor Messias, as cavernosas “Lendas da Nossa Terra”, do Gentil Marques, os sublimes diálogos do sempre imitável mas nunca igualável Olavo d’Eça Leal. A mana Maria Helena tinha a mais bonita voz da nossa Rádio, a meu gosto.

À boca da noite, enquanto esperava o meu pai, ouvia o “Jornal da APA”, apresentado pelo Luís Filipe Costa e pela Tany Belo, das sete e meia às oito e dez. A seguir vinha o “Apontamento do Dia”, por Américo Leite Rosa, o mesmo do apicerum, do segredo da abelha. Os “Apontamentos” eram olhares poéticos, atentos e curiosos, sobre o quotidiano, sobre as pessoas e as coisas.

Se o meu pai demorava, ainda ouvia, na Renascença, os “Cinco Minutos de Jazz”, do José Duarte, com que se atingia as nove da noite.

Era o limite da minha tranquilidade vacilante, a última carreira tinha chegado há muito. A partir daí ficava mais inquieto e preocupado...

Ao sábado, às oito e meia, havia a “Onda Desportiva”, apresentada por um tal Henrique Mendes que ninguém sabia se era alto ou baixo, gordo ou magro. Alto e magro, muito magro, era um certo Alves dos Santos, mas isso só fiquei a saber muitos anos depois. Naquela altura, ele fazia, com o Fernando Pires, as “Jogadas de Antecipação” com que encerrava o programa.

Ao domingo era hábito almoçarmos bacalhau com grão enquanto ouvíamos “A Vida é Assim”, de José de Oliveira Cosme. Era um programa delicioso, sem pretensões, muito caloroso e agradável, com diálogos interpretados pelo autor e pela Mary, o João e a Luísa de uma ficção que integrava os anúncios na conversa do casal. E assim apareciam, com suave naturalidade, as camisas da Camisaria Moderna, as tais que não faziam pregas no peito nem rugas no colarinho, o cafezinho da Pérola do Rossio, no Rossio 105, os chás milagrosos da antiga ervanária do largo da Anunciada, os petiscos da charcutaria Suíça e, o melhor de tudo, os candeeiros bem bonitos, modernos, originais, compre-os na Rádio Vitória, não se preocupe mais. Porque na Rádio Vitória, embaixada do bom gosto, quem lá vai é bem servido e sai sempre bem disposto. Lá na rua da Vitória, 46-48, satisfaz-se plenamente o cliente mais afoito.

Na Rádio Voz de Lisboa, havia uma locutora com uma voz muito doce que dizia, com frequência e muita, muita meiguice “Esta é a Voz de Lisboa”. Um dia, o Vítor Marques, na brincadeira, imitou-as, anunciando com requebros ternurentos “Esta é a Rádio Renascença”. Os senhores padres é que não gostaram e suspenderam-no por quinze dias...

A tal Voz de Lisboa apresentava um programa muito popular, com discos oferecidos aos doentinhos dos hospitais, enfermaria oito, cama nove, a Maria Amélia Canossa a dizer que “anda o vira na minha rua, já me encheram a rua toda, oiço harmónios e cavaquinhos, cabeças à roda”. Enquanto o Artur Ribeiro convidada “a cachopa do Minho que Deus abençoa, deixa o teu cantinho, vem até Lisboa mostrar como baila a tua chinela, ver o lisboeta andar atrás dela”.

Mas eu gostava era de ouvir o Max a contar a história da Maria da Luz. “Na pequena capelinha da aldeia velha e branquinha, dei à Maria da Luz um cruz de pôr ao peito e o juramento foi feito por nós dois sobre essa cruz”.

Hoje há outra Maria da Luz que faz, ali nas Caixas, um pão maravilhoso, mas nunca lhe perguntei se também faz uma cruz na massa, como a tia Clarisse quando cozia a farinha que o filho, o Julinho, e eu trazíamos do velho moinho, num tempo em que, na lonjura do campo, não havia electricidade, só poesia.

Poesia, nostalgia, telefonia, um tempo que foi à via...

2000

quarta-feira, 6 de abril de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 53


Regresso*
António Cagica Rapaz
O Carlinhos da Rã entrou ofegante no Café Central naquele fim de tarde tranquila, lusco-fusco preguiçoso, com a noite a ameaçar cair e o dia a agarrar-se às nuvens ténues que beijam o mar lá longe, em equilíbrio adivinhado sobre a linha do horizonte.
De boina abundante enfiada na cabeçorra, o Carlinhos descera a correr a escada da Repartição de Finanças onde pairavam a sombra esquiva do regedor Ferreira, vulgo Badejo, e a aristocrática elegância do Professor Artur Maria da Silva Costa.
Nós, rapazolas centralistas, estávamos como de costume ancorados ao bilhar da frente, depois de uma voltinha ao Espadarte, um olho à lota e um salto à loja do mestre Adelino. Era a nossa peregrinação, o nosso triângulo das Bermudas onde nos perdíamos entre as páginas d’A Bola, as tacadas do bilhar, a sedução da esquina que nos amparava, o conforto dos poiais das montras, o ar bravio que nos chegava do jardim, do campo do Desportivo, da serra, do mundo que se abria naquela rua do cinema que era o berço da evasão.
E o Carlinhos, já lá chegamos, caía-nos em cima para nos interrogar com febril excitação:
– Vocês não deram pela minha falta?
Foi assim, tal e qual, e nós ficámos embaraçados, confundidos, pesarosos porque, em boa verdade, nenhum de nós podia afirmar ter sentido naquele dia, naquela tarde calma, a ausência do Carlinhos da Rã.
Ver aparecer o Alfredo ou o João Vai-Vem quando jogávamos à bola entre o Grémio e o Central, isso causava-nos certa emoção. Ir ao baile à Quintola e apanhar uma tampa enchia-nos de vergonha. Cair na esparrela do Júlio Mouco era vexame insuportável.
Agora passar uma tarde sem ver o Carlinhos, de facto não era coisa que nos traumatizasse por aí além.
E ficámos mudos como peixes estendidos na lota a ouvir a cantilena do Alfredo Filipe. E não percebíamos sequer a razão daquela pergunta. Estaria o Carlinhos a fazer uma sondagem sobre a sua popularidade? Poderia ele medir o afecto que nos inspirava?
Teria preocupações de ordem metafísica o nosso Carlinhos batráquio?
Nada disso. Sucedera apenas que o Carlinhos tinha ido com a mãe a Lisboa e talvez quisesse verificar se a vida em Sesimbra, no Central, não teria parado durante a sua ausência. Não, Carlinhos, a vida não pára seja para quem for que se ausente. Por umas horas para ir a Lisboa ou para sempre no cemitério, no mar profundo ou algures. Os matraquilhos do Lopes continuam a trincar bolas e a disparar tiraços. O Mestre Adelino não deixou de criticar o Otto Glória entre duas barbas e uma desbastadela a preceito. O Hernâni foi à cave do Tio Chico da Cooperativa para o seu ping-pong antes de vir servir uma bica escaldada ao imenso Duque. O Damião distribuiu as fichas do sintético, o António, na mercearia do senhor Arménio, vendeu dois quilos de sabão de amêndoa e três litros de azeite espesso enquanto o Orlando largava o bilhar para ir fazer um frete à doca.
Não, Carlinhos, a vida não pára e não demos pela tua falta. Pela nossa falta dão aqueles que de nós gostam e mesmo esses têm a sua vida para viver. Há dezanove anos fui mais longe do que Lisboa, abalei para Paris e levei comigo o Central, a doca, a fortaleza e o farol. Na fronteira, quando me perguntaram se tinha alguma coisa a declarar, era difícil dizer que levava aquela carga toda mais as redes do Pai Bernardo, o gelo do Chanoca, as barracas do tio Abel, o carrocel oito, os bancos do jardim, a porta da capela, o campo do Desportivo, a escola Conde de Ferreira, a areia da praia e o cântico das gaivotas.
Mais difícil ainda teria sido dizer que ia à procura do Carlinhos da Rã que se ausentara para parte incerta numa tarde pálida pela calada do tempo.
Lá longe, dei por mim a folhear o álbum da memória com a preocupação de conservar as recordações como se guardava a albacora para os invernos intermináveis. Poderá ter sido uma maneira de não deixar que me esquecessem, de fazer com que dessem pela minha ausência. E longe, sentia-me mais perto, percorria ruas, becos e recantos da nossa terra, mergulhando nas entranhas do tempo, trazendo ao de cima o que me parecia ser importante, interessante, valer a pena.
Ver e sentir Sesimbra de longe é uma abordagem tendenciosa e parcial porque escolhia caminhos e tonalidades, situações e pessoas levado por uma concepção da vida e das coisas que é apenas a minha. E o que para mim é belo ou bom pode ser detestável para o vizinho do lado. Depois, a visão que temos lá de longe, deforma, retoca, altera, reconstrói uma realidade que o tempo por si já se encarregou de transformar sem precisar da nossa ajuda.
Por outro lado, em cada visita rápida, apercebia-me da distância entre o universo relativamente poético e idealizado que eu tentava recriar e a vida, os valores, a realidade.
Diz o poeta que melhor que viver é sonhar. E é verdade que, ao longo destes dezanove anos, eu sonhei, reconstruí quadros do presépio de Sesimbra com uma espiritualidade semelhante à que nos invadia nas noites de Natal, na Missa do Galo, quando olhávamos o nosso próximo com uma ternura sentida e uma fraternidade desusada.
O tempo e a distância trazem-nos, com a saudade, imagens ideais, o melhor da montra do Zé do Lima, os brinquedos mais bonitos.
Nas minhas visitas ocasionais fui descobrindo uma outra realidade mas, no fundo, se as coisas são o que são, elas poderão também ser o que nós quisermos, o que delas fizermos.
Podemos ver com os olhos, com uma lupa, mas também com o coração.
Depois, nem tudo muda e ainda hoje lá está a relíquia que é a mercearia do Arménio, com o mesmo António ao balcão, os mesmos tachos e panelas, fogareiros e penicos, talvez o sabão de amêndoa, aquele cheiro a coisas boas e simples da nossa infância, o aconchego dos sacos de feijão, a tentação de um naco de marmelada e o mesmo azeite espesso que ilumina a eternidade.
O meu longínquo primo Cristiano dizia-me noutro dia que gosta de ir passando pela montra do nosso jornal porque enquanto o fizer é sinal de que não é o retrato dele que lá se encontra debaixo de uma cruz preta. Tanto lhe basta para se sentir bem, chega-lhe estar vivo. É simples como filosofia, mas não deixa de ser lúcida e, porventura, mais profunda do que parece.
E é assim, vamos e vimos, ausentamo-nos e voltamos, as marés sobem e descem, o sol recomeça em cada dia a sua travessia da baía, do Caneiro à doca, o Carlinhos foi a Lisboa e eu dei um salto mais demorado a Paris. Hoje estou de volta, já não vejo Sesimbra de longe, mais ainda imagino. E continuo a reconstruir.
Por enquanto mal tive tempo para pensar e receei não conseguir escrever. Agora estou por dentro e não sei se, para escrever, é melhor ou pior. Só sei que estou de volta, estou de novo em casa. Deixem-me saborear…
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*Publicado em O Sesimbrense de Outubro de 1993.

sexta-feira, 4 de março de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 44

as crónicas da Eventos...




Bem te conheço, ó máscara!*

António Cagica Rapaz

O Carnaval de Sesimbra, antes do 25 de Abril, deixou em muitos de nós mil recordações e muita saudade, mas não podemos fazer uma evocação correcta sem integrarmos aquelas folias no seu contexto, ou seja, sem as enquadrarmos no clima sócio-cultural da época.

Naquele tempo, nos anos cinquenta e sessenta, a sociedade portuguesa regia-se por normas, regras e valores bem diferentes dos que hoje predominam. As mentalidades eram mais rígidas, a influência da Igreja muito mais sensível, e o Carnaval surgia como um curto período de libertação de convenções, espartilhos morais e preconceitos sociais. E, sem cair em exageros, Sesimbra divertia-se...

O meu pai contava-me brincadeiras de gosto mais ou menos duvidoso, roubos de galinhas, besuntadelas mal cheirosas no corrimão do Grémio ou na fechadura da porta de determinado senhor que costumava colar os lábios no orifício para chamar pela mulher. Todos nós pregámos partidas nem sempre recomendáveis, mas era assim, é Carnaval não se leva a mal.

Com o tempo, acabamos por ver as coisas com outros olhos e, muito provavelmente, o R. não voltaria a queimar aquele pedaço de malagueta numa tampa de caixa de pomada para o calçado. Foi no Grémio e o fumo asfixiante e tóxico produziu efeitos tais que o R. chegou a ter receio, perante o quadro dantesco de olhos inflamados, tosse, espirros e outras ventosidades ruidosas que deixaram prostrados alguns prezados consócios.

Recordo-me de ter subido ao sótão do mesmo Grémio e ter despejado cá para baixo pós de espirrar sobre a mesa à volta da qual se disputava animada partida de “sintético”. O festival de espirros, imprecações e recriminações foi indescritível, tendo o Alfredo Filipe escapado por uma unha negra ao linchamento.

O mesmo lhe sucedeu em tarde chuvosa, num Central fechado e cheio de fregueses encostados aos bilhares numa cavaqueira que os pós de espirrar transformaram num inferno. E também desta vez o Alfredo estava inocente. Outros pecados teria, porventura, por confessar...

Estes episódios ocorriam com frequência naquele triângulo das Bermudas localizado entre o Grémio, o Central e o estabelecimento do mestre Adelino. A taberna e a barbearia constituíam um autêntico covil de malandrice, palco e fonte de brincadeiras hilariantes, o lápis do Lopes, os rabos pendurados a preceito e, sobretudo, os porta-moedas pregados no alcatrão. As mulherzinhas do campo vinham vender à praça montadas em burros de que desciam para deitar a mão ao porta-moedas. Logo a impiedosa rapaziada saltava, gritando em coro “Larga! Larga!”, o que provocava a cólera e o despeito das pacatas camponesas que perdiam a cabeça e nos insultavam abundantemente, sugerindo até locais onde poderíamos meter os ditos porta-moedas.

Um dia, quem caiu foi o bom João Vaivém que se baixou para apanhar um relógio. No calor da reacção, o Zé Júlio gritou “Larga, urso” e foi multado em trezentos mil réis que a irmandade ajudou a pagar.

Escasso é este espaço para tanta libertinagem, pelo que aconselhável se torna passarmos ao capítulo dos bailes, prato de resistência do nosso Carnaval. Dificilmente se poderá contestar que, naquele tempo de austeros costumes, os bailaricos eram a grande oportunidade para aproximações entre pessoas do sexo oposto, a pretexto hipócrita de um passo de dança. Em verdade, era (sobretudo para raparigas e mulheres) a ocasião tão desejada de dar largas a todo um leque de apetites, sedução, intrigas, mistérios, mistificações, enredos e aventuras mais ou menos arrojadas, chamemos as coisas pelos nomes. A máscara desinibia, dava confiança, soltava as línguas, estimulava a imaginação, alargava horizontes, excitava os sentidos, dava corda ao diabinho que existe em cada um de nós. Porém, os casos de maior atrevimento não passavam de inocentes brincadeiras quando comparadas com o que vemos nos dias de hoje, à nossa volta, à luz do dia, de cara destapada, o ano inteiro...

Por isso, o que ficou em nós foi, sobretudo, a recordação de um clima mágico, de excitação e fascinação, expectativa e fantasia, com o engenho e a irreverência das raparigas que faziam, elas próprias, os trajes que depois trocavam por forma a porem a cabeça à roda aos rapazolas atrevidos. Mil episódios haveria para contar, a peça de cerâmica do Júlio Mouco, o cartucho de papel, com água, com que a Maria Vitória assustou o António Vidal, a ida da Carlota parteira a minha casa, os telefonemas intrigantes, eu sei lá.

Ficaram para a história quadros deliciosos como o Zé António da Parteira a dançar, desvairadamente apertado, mordendo o lábio, com uma máscara que não era outro senão o Zé Albano.

A magia burlesca do Carnaval atinge um alto expoente no engano em que viveu durante três noites uma figura grada da terra, o Doutor J., que dançou e tentou seduzir uma máscara que, afinal, era a velha D., magra, seca, enrugada, mulher a dias do serviço do próprio Dr. J.. A tia D. comeu, bebeu e dançou durante três noites, Cinderela galhofeira. Brincou realmente ao Carnaval e ajudou a consolidar aquilo que era a sua essência, o mistério e a ilusão...

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* Publicado no n.º 5 de Sesimbra Eventos, de Fevereiro/Março de 2000. Trata-se da estreia de António Cagica Rapaz nesta publicação.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 42

as crónicas da Eventos...



Feijão com arroz em tacho de barro*

António Cagica Rapaz

Muitas vezes, se calhar sempre, o mais importante não é o acontecimento, mas a imagem que dele formamos no nosso espírito, antes e depois. E neste universo gastronómico, cada um de nós tem as suas recordações e as suas referências. Todos conservámos lembranças nítidas de confraternizações à volta de uma mesa, de uma fogueira, a bordo de um barco ou à sombra de um pinheiro. E conservámos, sobretudo, a imagem das pessoas que nos rodeavam…

A minha infância foi, a espaços, povoada pelas narrativas do meu pai que, entre mil outras coisas, evocava, com saudosa frequência, homéricas e pantagruélicas almoçaradas em que, curiosamente, a comida quase ficava na obscuridade, ofuscada pelo envolvimento afectivo, pelo calor e fulgor da descrição dos preparativos, do ambiente de companheirismo, de pândega fraternal que ganhava esplendores de expedição quando o cenário era o mar e a cerimónia tinha lugar a bordo, no Calhau ou na fascinante lonjura da Arrábida.

Ao domingo, depois do jantar e dos comentários do Lança Moreira, o meu pai ficava à mesa, falava, contava, reconstruía a vida, travejava o tempo. Eu conhecia de cor, não me cansava de ouvir os nomes dos corsários da caldeirada, Franco, Abel Embaixador, Duque, Manilhas, Zé Espada, Artur do Raça ou ainda o sublime Antero do Pão que encerrava as festividades com anedotas, partes gagas e relatos hilariantes. A rábula do camponês e do mestre Rabuge é de antologia, incontável agora, irrecuperável, única, teve o seu tempo, o seu lugar, o seu intérprete, morreu com eles…

Mas, no fundo, será realmente importante definir o que é uma boa caldeirada? Interessará mesmo saber se devemos ou não cozer as batatas à parte? Será útil explicar por que é aconselhável utilizar pequenos recipientes e não um panelão grande, à pescador? Para quê afiançar que o melhor da caldeirada é o fígado de tamboril?

Em verdade, tudo isso é secundário, pois o verdadeiro e supremo valor deste tipo de refeições é constituir um pretexto para convívio. De facto, quando buscamos pormenores de repastos memoráveis, depressa nos apercebemos que eles estão, sobretudo, ligados a pessoas, locais e épocas da nossa vida. O acto de comer não é, em regra, um prazer solitário, antes se enquadra num espírito de partilha e de comunhão, num envolvimento afectivo de que nos ficam, algumas vezes, imagens inesquecíveis. O cenário não é indiferente, naturalmente, mas não é essencial. Uma barca ao largo em dia de sol é sempre um deslumbramento, é verdade. A Arrábida ainda é um cantinho do paraíso, mas o prazer maior é estar com as pessoas de quem gostamos. Por essa razão, nos ficam a todos, cada um as suas, recordações de sabores, de cheiros, de atmosferas que o tempo não apaga. No meu espírito, a carne assada da dona Fernanda, em domingos de Inverno, na Cotovia, representa muito mais do que um primor gastronómico. É um marco no tempo, símbolo de uma generosidade que nunca esquecerei. As sardinhadas ou os carapaus secos na adega do Jorge pertencem a outro registo, igualmente inolvidável, mas de outra natureza.

Da infância, ficou-me o sabor inigualado do feijão com arroz, feito em tacho de barro, da sopa de fava, das fatias albardadas e das costeletas panadas, especialidades da minha mãe. Mais tarde, pelos anos fora, há inúmeros episódios marcantes, desde as bacalhauzadas da vindima até às maravilhosas consoadas em casa do tio Nuno. Pelo caminho fica aquela dobrada comprada na Virgilinda e comida na Maçã, com o Manel Galinho, em casa desse maravilhoso amigo que é o Raúl. Era domingo, chovia e seria mais indicado peixe seco. Mas calhou assim, foi decidido à esquina do Central, e teve o sabor dos impulsos e desejos repentinos.

Recordo ainda o Mário Martelo a grelhar, salpicando com um raminho de salsa a melhor posta de cherne que comi até hoje. O Eduardo trouxe o sublime exemplar para aquela noite de Verão iluminada pelo fogo de artifício da presença da Pepita, no pequeno arraial do quintal do Mário.

Quando vivia em França, e sempre que vinha a Portugal, raramente deixava de jantar com o Manel António, no Bairro Alto, bebendo o ar, comendo o céu de Lisboa, em momentos mágicos de celebração, com uma exaltação que era mais habitual no Manel mas que, nessas ocasiões, era muito provocada por mim, feliz por estar ali e com ele. Era uma verdadeira festa, com o pão e o vinho da nostalgia mais os enchidos da saudade. E uns “joaquinzinhos” que nos levaram a dar uma aula de gastronomia a todos os presentes, naquela abençoada euforia que nos invade em momentos raros da nossa vida. Hoje, objectivamente e sem qualquer parcialidade afectiva, garanto que ninguém faz uma caldeirada, um cozido à portuguesa ou sopas como a Dona Romilda…

Numa óptica menos pessoal e em termos institucionais, pode afirmar-se, sem a menor hesitação, que o cartaz gastronómico de Sesimbra é o peixe, sob forma de caldeirada e de peixe grelhado ou assado, como é mais corrente dizer-se. Paradoxalmente, este peixe assado pode ser um prazer solitário quando nos sentamos à porta, no passeio, à sombra, com o fogareiro ao pé, assando e comendo, comendo e assando petingas, enquanto ao longe se ouve o fado e o mar é um imenso espelho de prata.

Durante longos anos, a maioria das famílias comia sopa, feijão com massa, magras couves, e peixe seco no Inverno, sendo a carne apenas para privilegiados. O chouriço na sopa constituía o único luxo, dava gosto e prolongava a refeição. Aconchegado numa carcaça, convidava a um copito na taberna, antes de uma partida de “não-te-irrites”, esperando o fim do vendaval. É uma imagem, mais uma, esta que me ficou da taberna da minha avó…

Mas o cenário ideal da gastronomia em Sesimbra é o das ruas enfeitadas, um pouco como nos banquetes que encerram cada aventura do “Astérix”. Noutro tempo, o Carnaval era preparado com imaginação, fantasia e febrilidade, na concepção dos trajes e na urdidura dos enredos. Depois, vinham os Santos Populares e era a busca do tema para enfeitar a rua, num trabalho de equipa que aproximava as pessoas, criando uma atmosfera de presépio a cada porta. À volta das fogueiras, havia rasgos de polvo, sardinha assada, caldeiradas e canções de roda.

No Verão de 1969, na rua Joaquim Brandão, um grupo de rapazolas de uma barca teve a simpática ideia de jantar à porta da loja. Indo a passar, com um grupo de amigos, fui convidado e não hesitei. Ainda hoje recordo, com nitidez e prazer, aquela agradável jantarada. Comemos chaputa e imperador, foi uma assada deliciosa, eles ficaram contentes, eu fiquei feliz, foi espontâneo, foi saboroso, era assim Sesimbra.

Ali bem perto, o Deodato e o capitão Domingos fritavam lulas pequeninas, preparavam choquinhos com molho à pé descalço, sob o olhar divertido do Alfredo, enquanto do outro lado da rua, o tio Mário, pai da Celestina, tinha sempre marisco escolhido e um sorriso cúmplice iluminado por uns olhos da cor do mar.

Em Sesimbra comia-se no poial da porta, no passeio, no quintal, na loja de companha, a bordo da barca, com naturalidade, sem pressas nem aviso prévio, chegava sempre para mais um, franqueza à mesa. Se calhar não era bem assim, mas é o que nos ficou ou o que nos apetece recordar. A vida era tranquila, havia tempo, e o mar era um festival permanente com o colorido da chegada das traineiras escoltadas por mil gaivotas numa algazarra que chegava à Galé onde o Márinho fez apetitosas sopinhas de pelim que o Júlio Galgão ainda evoca com alguma melancolia.

A Galé continua a ser um porto de abrigo da amizade e, quando não há almoçarada na loja do Eduardo, lá estão o João e o Paulo a tentar-nos com irresistíveis lambujinhas e mexilhões. O segredo é esse, estamos com a nossa gente. Ainda por cima, é mais que barato, é dado, porque o mar a perder de vista e o céu azul estão incluídos no preço…

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*Publicado no n.º 13 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2001.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 39

as crónicas da Eventos...



Nova corrida, nova viagem*

António Cagica Rapaz

Não sei se, como diz o poeta, viajar é preciso, nem sei dizer, com rigor, o que é uma viagem. A nossa vida é certamente uma viagem, mais longa ou mais curta, com mais ou menos peripécias, mas sem sombra de dúvida uma viagem que começa e, em geral, termina sem que nos peçam a opinião. Aliás, não sabemos se termina pois o que aparenta ser o fim pode ser apenas o início de uma nova viagem, bem mais demorada, eternidade fora…

E esta reflexão sobre o tema da eventualidade de uma vida depois da morte é só por si uma viagem fascinante, mesmo que nunca cheguemos a conclusões irrefutáveis. Naturalmente, cada um é livre de acreditar no que entende e de exigir provas concretas e indiscutíveis. Pessoalmente, julgo que nunca se chegará a apresentar factos totalmente convincentes porque tal significaria o fim do mistério e do livre arbítrio. Embora eu esteja muito longe de ser entendido em tão profundo tema, ainda assim atrevo-me a dizer que, para mim, faz sentido que as coisas permaneçam nesta esfera de indefinição, entre uma nuvem de interrogação e uma névoa de dúvida, apesar de haver uma montanha de indícios e sinais dignos de interesse e reflexão. Algumas pessoas, como eu, talvez ingénuas, espíritos fracos, acham que eles são suficientes e flagrantes, mas outras continuarão firmes na exigência de dados irrefutáveis e não arredarão pé do seu cepticismo. Sempre foi e continuará a ser assim…

Não sou, obviamente, autoridade no assunto, e apenas por curiosidade confesso que acredito na vida além da morte. Sem ela, esta existência terrena não faria qualquer sentido, seria uma monstruosidade, um absurdo, uma aberração, tantas são as incongruências, as injustiças e as desigualdades. Mesmo que não dispusesse de um razoável arsenal de pistas (como possuo) continuaria a acreditar, simplesmente porque essa perspectiva me agrada, me parece lógica, natural e infinitamente mais agradável do que aceitar que tudo acaba no cemitério. Confesso que tenho dificuldade em perceber como se pode viver resignado ao final definitivo e irremediável do balde de cal…

Mas o importante não é anunciar que se tem uma convicção ou uma ideologia. O que conta é o que nós fazemos (ou não) com as nossas ideias. Ora a expectativa perante o que nos espera após a morte poderia influenciar a nossa conduta ao longo da viagem que é a vida terrena. Pelo menos, poderia ensinar-nos a olhar o mundo que nos rodeia, as pessoas e as coisas, de outra maneira, numa perspectiva diferente. Deveria ensinar-nos a apreciar o que tem verdadeira importância, o que vale a pena nesta vida. Mas tal não acontece, é a natureza humana. Para muitos o que conta é possuir, adquirir bens materiais, passando ao lado de coisas bem mais valiosas como o amor, a amizade, a fraternidade, a solidariedade, a alegria de uma convivência saudável, a partilha de sentimentos e afectos.

Para alguns, importantes são as pretensas honrarias, as medalhas, os diplomas, as condecorações, os títulos, os sinais externos de evidência, de hipotética relevância, de aparente importância. E fazem desta viagem uma caça ao suposto tesouro constituído por tais panóplias, com sofreguidão, egoísmo e cegueira.

No carrossel da nossa infância, havia sempre nova corrida, nova viagem. E o homem do carrossel “Ribatejano” recordava igualmente que não subíssemos nem descêssemos com o carrossel em movimento. “Deixem parar, fazem favor”, rematava ele, sem ter a noção de que, na sua lengalenga de anos e anos de feira, resumia uma implacável filosofia de vida. Hoje um, amanhã outro, os nossos amigos vão-nos deixando, vão descendo com o carrossel em movimento. Nós vemos, temos consciência, sabemos, até os acompanhamos na última viagem, ao cemitério. Mas fingimos que não é connosco, voltamos para o carrossel, agarramo-nos ao pescoço da girafa, olhamos em frente, e a roda volta a girar sem que aproveitemos para olhar em volta, reflectir sobre o sentido daquela correria desenfreada.

De tanto olharmos em frente e para cima, por querermos ser mais altos, mais fortes, mais ricos, não vemos a ternura no olhar do nosso amigo que teria ficado feliz se tivéssemos parado uns minutos para com ele trocarmos duas frases.

A nossa vida é feita de múltiplas viagens e escrever também é uma viagem, uma dupla viagem, dentro da nossa cabeça e ao encontro do leitor. A palavra é mão estendida a quem nos lê, gesto de esperança na partilha de um tema, de um tempo, de uma emoção em que o texto é apenas pretexto. No poço fundo dos nossos sentimentos, das nossas recordações, dos nossos medos e dos nossos anseios, dos nossos sonhos e da nossa fantasia, buscamos assunto para redacções como esta em que, afinal, só procuramos companheiros para a viagem que é a vida. Na nossa ingenuidade e na nossa ânsia de compreender o sentido das coisas, até nos atrevemos a filosofar sobre temas tão inacessíveis e transcendentes como são a vida e a morte.

A vida está cheia de coisas simples e belas, e o amor é a mais maravilhosa das viagens. No entanto, para a maioria, o conceito de viagem sugere mais deslocações à Tailândia ou à China, voltar com filmes, fotografias, provas de que estiveram lá.

São passageiros frequentes, vedetas de projecções comentadas em serões com amigos, cada um mais viajado do que o vizinho, heróis de aventuras organizadas, gente que cumpriu um alto desígnio, viu mundo. Outros sonharão, porventura, com o Tibete mas acabam em Benidorme enquanto alguns se ficam por angustiadas travessias do Tejo, com análises e outros exames na mala, consultas marcadas. O Tejo não é o Ganges e as radiografias não proporcionam projecções charmosas. A cada um suas viagens…

Há quem, diariamente, percorra a marginal, de ponta a ponta, a pé, em tributo ao mar, saboreando o nosso sol, bendizendo a felicidade de ter nascido nesta terra.

Conservo imagens nítidas das minhas primeiras viagens, a abalada de Sesimbra, do largo da Igreja, às seis da manhã, rumo às Caixas, com o Pintassilgo ao volante da velha Panhard do Covas. O galo do tio Meano esperava por nós, era um deslumbramento, um filme que revejo mil vezes na tela das minhas recordações. Mil outras viagens fiz na minha cabeça ao longo das múltiplas etapas entre Lisboa e Coimbra, no comboio correio ou semi-directo que demorava sete intermináveis horas.

Talvez por não ter sido habituado a viajar por prazer e recreio, fui aprendendo a apreciar este mar, estas árvores, estas ruas, algumas pessoas, o que me rodeia. Poderia, lá bem no fundo, fazer como tantos e sonhar com Maldivas, Hawai ou Maurícias, mas não. Talvez tenha ficado saciado de viagens ouvindo as narrativas do meu pai, marinheiro de guerra que cruzou os mares para acabar em terra, naufragado em pedreiras desastrosas. Teria gostado, isso sim, de o ter acompanhado em inesquecíveis expedições à Arrábida, com o Duque, o Antero e os outros. No fundo, é mais esse o meu registo, proximidade e pacatez, sem filmes, sem compras em bazares de turistas, sem troféus nem autocolantes de hotéis nas malas.

Em verdade, não aspiro a safaris nem a cruzeiros, sou mais de ir ao reminho pela borda d’água…

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*Publicado no n.º 25 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2003.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 42



Carnaval

António Cagica Rapaz

Nos anos cinquenta e sessenta, a sociedade portuguesa regia-se por normas, regras e valores bem diferentes dos que hoje predominam. As mentalidades eram mais rígidas, a influência da Igreja muito mais sensível, e o Carnaval surgia como um curto período de libertação de convenções, espartilhos morais e preconceitos sociais. E, sem cair em exageros, Sesimbra divertia-se...

O meu pai contava-me brincadeiras de gosto mais ou menos duvidoso, roubos de galinhas, besuntadelas mal cheirosas no corrimão do Grémio ou na fechadura da porta de determinado senhor que costumava colar os lábios no orifício para chamar pela mulher. Todos nós pregámos partidas nem sempre muito recomendáveis, mas era assim, é Carnaval não se leva a mal.

Com o tempo, acabamos por ver as coisas com outros olhos e, muito provavelmente, o R. não voltaria a queimar aquele pedaço de malagueta numa tampa de caixa de pomada para o calçado. Foi no Grémio e o fumo asfixiante e tóxico produziu efeitos tais que o R. chegou a ter receio, perante o quadro dantesco de olhos inflamados, tosse, espirros e outras ventosidades ruidosas que deixaram prostrados alguns prezados consócios.

Recordo-me de ter subido ao sótão do mesmo Grémio e ter despejado cá para baixo pós de espirrar sobre a mesa à volta da qual se disputava animada partida de “sintético”. O festival de espirros, imprecações e recriminações foi indescritível, tendo o Alfredo Filipe escapado por uma unha negra ao linchamento.

O mesmo lhe sucedeu em tarde chuvosa, num Central fechado e cheio de fregueses encostados aos bilhares numa cavaqueira que os pós de espirrar transformaram num inferno. E também desta vez o Alfredo estava inocente. Outros pecados teria, porventura, por confessar...

Estes episódios ocorriam com frequência naquele triângulo das Bermudas localizado entre o Grémio, o Central e o estabelecimento do mestre Adelino. A taberna e a barbearia constituíam um autêntico covil de malandrice, palco e fonte de brincadeiras hilariantes, o lápis do Lopes, os rabos pendurados a preceito e, sobretudo, os porta-moedas pregados no alcatrão. As mulherzinhas do campo vinham vender à praça montadas em burros de que desciam para deitar a mão ao porta-moedas. Logo a impiedosa rapaziada saltava, gritando em coro “Larga! Larga!”, o que provocava a cólera e o despeito das pacatas camponesas que perdiam a cabeça e nos insultavam abundantemente, sugerindo até locais onde poderíamos meter os ditos porta-moedas.

Um dia, quem caiu foi o bom João Vaivém que se baixou para apanhar um relógio. No calor da reacção, o Zé Júlio gritou “Larga, urso” e foi multado em trezentos mil réis que a irmandade ajudou a pagar.

Escasso é este espaço para tanta libertinagem, pelo que aconselhável se torna passarmos ao capítulo dos bailes, prato de resistência do nosso Carnaval. Dificilmente se poderá contestar que, naquele tempo de austeros costumes, os bailaricos eram a grande oportunidade para aproximações entre pessoas do sexo oposto, a pretexto hipócrita de um passo de dança. Em verdade, era (sobretudo para raparigas e mulheres) a ocasião tão desejada de dar largas a todo um leque de apetites, sedução, intrigas, mistérios, mistificações, enredos e aventuras mais ou menos arrojadas, chamemos as coisas pelos nomes. A máscara desinibia, dava confiança, soltava as línguas, estimulava a imaginação, alargava horizontes, excitava os sentidos, dava corda ao diabinho que existe em cada um de nós.

Porém, os casos de maior atrevimento não passavam de inocentes brincadeiras quando comparadas com o que vemos nos dias de hoje, à nossa volta, à luz do dia, de cara destapada, o ano inteiro...

Por isso, o que ficou em nós foi, sobretudo, a recordação de um clima mágico, de excitação e fascinação, expectativa e fantasia, com o engenho e a irreverência das raparigas que faziam, elas próprias, os trajes que depois trocavam por forma a porem a cabeça à roda aos rapazolas atrevidos. Mil episódios haveria para contar, a peça de cerâmica do Júlio Mouco, o cartucho de papel, com água, com que a Maria Vitória assustou o António Vidal, a ida da Carlota parteira a minha casa, os telefonemas intrigantes, eu sei lá.

Ficaram para a história quadros deliciosos como o Zé António da Parteira a dançar, desvairadamente apertado, mordendo o lábio, com uma máscara que não era outro senão o Zé Albano.

A magia burlesca do Carnaval atinge um alto expoente no engano em que viveu durante três noites uma figura grada da terra, o Doutor J., que dançou e tentou seduzir uma máscara que, afinal, era a velha D., magra, seca, enrugada, mulher a dias do serviço do próprio Dr. J.. A tia D. comeu, bebeu e dançou durante três noites, Cinderela galhofeira. Brincou realmente ao Carnaval e ajudou a consolidar aquilo que era a sua essência, o mistério e a ilusão...

2000

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 37

as crónicas da Eventos...



Super-homens*

António Cagica Rapaz

Na penumbra do velho salão do João Mota, presos à intriga do filme policial ou arrebatados pelas proezas do Robin dos Bosques, mal dávamos pela presença do bombeiro a nosso lado, deslocando-se silenciosamente, colado à parede, como os detectives privados na peugada dos criminosos.

Do outro lado, um polícia igualmente discreto completava a dupla de segurança que nos permitia ver a fita descansados. As suas silhuetas, diluídas no escuro, acabavam por nos chamar à realidade, agora e mais logo, arrancando-nos à magia do cinema, interrompendo o sonho, por vezes, mas tranquilizando-nos também a meio de algum filme de terror.

Era um pouco o que sucede quando, madrugada alta, temos uma vaga consciência de estar a sonhar e hesitamos entre prolongar a viagem virtual e despertar. Por vezes, deixamo-nos levar, flutuamos, andamos à roleta na borda d’água suave, macia, envoltos na espuma de uma semi-fantasia controlada, com um pé no sonho e outro na realidade. Em qualquer momento podemos pôr um termo à evasão, não corremos riscos, é uma preguiça deliciosa.

E, tal como no cinema eles exerciam a vigilância, garantiam a tranquilidade e representavam o nexo com o mundo real, assim ao longo das nossas vidas nos habituámos a que os bombeiros sejam os nossos anjos da guarda. Talvez nem sempre lhes demos o devido valor, quase acabamos por achar que é normal tê-los assim, perto de nós, sempre atentos, disponíveis e dedicados, como se tal nos fosse devido. Chegávamos a invejá-los porque viam os filmes de graça, e talvez tivesse nascido no salão, da fantasia e da fascinação do cinema, a imagem mítica que, inconscientemente, fomos construindo à volta da figura do bombeiro. Em muitos filmes de aventuras e acção empolgante (como anunciava invariavelmente o Filipe) o herói era um cidadão comum que, de repente, se transformava em Super-Homem, Capitão Marvel ou Zorro, para nosso deslumbramento e admirativo entusiasmo.

Da mesma maneira, aquele bombeiro, de capacete, cinto largo com fivela forte e machado de Viking (sobretudo um calmeirão como o Westerman) no lusco-fusco do salão, acabava por se aproximar do universo de quimera da tela e ganhar aos nossos olhos de miúdos uma dimensão impressionante.

Depois, no dia seguinte, era o regresso à banalidade do quotidiano, desfazia-se o encanto quando, na rua, víamos o Zé Tucha a vender castanhas, o Albano de fato de ganga, a fazer aiolas, o Aldeia na oficina, de fato macaco, ou o Emídio no talho, de avental branco. Os heróis forjados pela nossa ingénua fantasia na penumbra do cinema voltavam à trivialidade das suas ocupações rotineiras, embora atrás da porta estivessem sempre a postos a farda e o equipamento, tudo pronto para a acção comandada pelo lancinante silvo da sirene que punha a vila em alvoroço.

Mal esta soava, toda a gente vinha para a rua, num reflexo ditado pela curiosidade e pela angústia. O ritmo e a cadência do toque indicavam se o fogo era na vila ou no campo, e logo os homens corriam de farda na mão, capacete enfiado no braço, em direcção ao quartel dos Bombeiros, situado lá no alto, longe para quem tem de subir e pressa de acudir.

Os tranquilos e modestos cidadãos tornavam a ser os destemidos defensores das nossas vidas e dos nossos bens, como se uma simples farda azul e um capacete lhes transmitissem energia, audácia, destreza, coragem e abnegação por artes mágicas.

Podemos interrogar-nos sobre as motivações profundas que levam estes homens a colocarem-se ao serviço dos seus semelhantes de forma generosa e por verdadeiro altruísmo. Talvez retirem alguma satisfação dos olhares de reconhecimento e admiração que lhes são dirigidos, o que é normal e mais do que compreensível. É natural que se sintam felizes por contribuírem para o bem-estar dos seus conterrâneos, e é muito provável que se sintam transformados quando a sirene chama por eles. Aquela farda aparentemente banal dá-lhes certamente um ânimo e um ideal reforçados porque os investe de uma responsabilidade nova, os torna, muitas vezes, braços do destino, agentes de vida, combatentes da morte, da destruição e da desgraça.

É uma missão transcendente, um desafio repetido mas sempre novo, um mundo de expectativa, temor e ansiedade que se abre diante deles a cada toque de sirene. E o contacto com a farda, o afivelar do capacete, um gesto simples pode ser o suficiente para transformar o pacato carpinteiro machado num lutador audaz e infatigável.

Mas, contrariamente aos heróis do cinema, os nossos bombeiros não actuam isoladamente, não são heróis solitários. Pelo contrário, muita da sua força e da sua intrepidez deve-se ao espírito de corpo, à união, à fraternidade e à solidariedade que constituem o cimento que conserva e reforça o carácter, a grandeza e o ideal desta corporação humanitária.

Há dias, na Cotovia, um menino dizia-me, com recatado orgulho, que toca caixa na fanfarra dos Bombeiros. E a irmã, pouco mais velha, também. Quando vemos grande parte da nossa juventude agarrada à televisão, presa a computadores e, às vezes, à droga, é reconfortante ficar a saber que ainda há jovens capazes de abraçar causas e valores como os dos Bombeiros.

Nunca serão super-homens como os heróis de ficção da nossa meninice, mas é bom que sejam generosos, sinal de que nem tudo está reduzido a cinzas, que ainda há quem conserve o fogo sagrado, o único que os nossos bombeiros se recusam a combater…

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*Publicado no n.º 26 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2003.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 41


A Tia Luzia*

António Cagica Rapaz

“Faleceram no nosso Concelho no período de 23/1/85 a 27/2/85 as seguintes pessoas: Luzia Vitória, Caixas, etc.”.

Assim começava a rubrica “Falecimentos” do nosso número de Fevereiro.

É assim a informação fria, distante, quase impessoal. Aqui a dois mil quilómetros, recebo desta forma uma lista de falecidos e tento ligar os nomes às pessoas o que raramente consigo.

Desta vez não fui além do primeiro nome da lista: Luzia Vitória.

Para a grande maioria dos leitores este nome nada evoca. Quem é esta Luzia Vitória das Caixas? Eu conto.

Mais do que uma vez me têm perguntado onde vou buscar os temas destas crónicas breves que tendes a paciência de ler. Ora eu penso que a resposta está aqui nesta situação concreta. Há num jornal notícias secas, despidas de sentimento, áridas, agrestes por vezes. São os dados estatísticos ou as publicações dos cartórios notariais. Mas o Jornal é o espelho da terra, tem de preocupar-se com a nossa terra e nesta nada é mais importante do que as pessoas. As ruas com buracos, os abusos camarários, os problemas de trânsito, tudo isso é acessório, secundário, insignificante quando comparado com as pessoas que, boas ou más, são a alma da terra.

Ora pessoalmente julgo que pouco nos preocupamos com as figuras da nossa colectividade. Tratamos de política a nível local e (exageradamente) a nível nacional, fazemos artigos teóricos sem apontar a dedo os que se distinguem negativamente, sem chamar as coisas nem as pessoas pelos seus nomes.

Por isso procuro fazer desfilar por estas colunas pessoas que, na minha opinião, merecem um certo destaque, pelo que são, pelo que valem, pelo que fazem, pelo que significam, pelo que representam a meus olhos.

É evidente que a admiração que eu possa ter por determinada pessoa não tem forçosamente de ser partilhada pelos leitores.

Por outro lado, não é sequer importante que aquilo que eu conto seja inteiramente verdadeiro. Posso até inventar personagens, pintá-las com as cores da minha imaginação e da minha sensibilidade. O leitor não deve preocupar-se com a autenticidade nem com o fundamento das minhas narrativas. A única cosia que deve contar para ele é se a crónica lhe agrada ou não, se lhe dá ou não prazer o que escrevo. Por isso, quando eu falo do meu amigo Alfredo (do Pinto e Pinto) não é para vos dar a notícia da nossa amizade (que pouco vos interessará) mas sim para evocar uma certa atmosfera vivida numa época recente à luz de tonalidades suaves, tudo descrito de forma que possa tocar a vossa sensibilidade. A amizade é um pretexto à partida e o objectivo é um testemunho que constitua um pedaço de prosa saboroso. Essa é a minha intenção.

Dizia-me o Manuel António há tempos que dera a ler a uma amiga uma crónica intitulada “A telefonia”. Ora essa amiga (que não conhecia Sesimbra), depois de ler, confessava que tinha a sensação de ter conhecido a taberna da minha avó Sabina, de ter ouvido os fados nostálgicos da Amália em noites de verão ameno e de ter ouvido o mar rugir em frente da rua dos Pescadores. A ela pouco importa se a minha avó existiu ou se chamava Sabina. O que conta é o que se lê, se agrada ou não, se evoca ou não, se cria ou não um clima, um estado de alma.

Eu sei que há pessoas em Sesimbra que não conhecem o Jorge Patrício nem o Chico. Sei que alguém disse preferir que eu evoque pessoas conhecidas. Ora a verdade é que não se trata de citar nomes apenas por citar. Importa que as pessoas em questão inspirem condições particulares. Aliás, a partir do momento em que as evoco, elas entram, de algum modo, na esfera da fantasia, deixam de ser o que eram para se tornarem personagens dos meus folhetins ingénuos. O Capitão Domingos deixa de ser o Domingos Nogueira para se tornar no Super-Homem das praias, nadador-salvador de olho de águia e braçada vertiginosa. O Vítor deixa de ser o dr. Sevilhano Ribeiro para se tornar no Fellini das noites de Cabíria, das encenações loucas no palco metafórico da padaria do Joaquim do Moinho, não nas barbas mas nos bigodes do Arménio, um Arménio que nasceu nas Caixas como a tia Luzia. A tia Luzia devia ter cerca de 95 anos e conheço-a desde que nasci. Sempre a conheci velha, viúva, vestida de preto com o rosto magro a desaparecer na escuridão de um lenço.

A tia Luzia era uma mulher sem idade, marcada pela vida, pelo sofrimento, pela labuta de quase um século.

A tia Luzia era a avó do Julinho, do João, da Maria Cremilda, da Maria Luzia, a avó de todos nós, miúdos que brincávamos trabalhando na ribeira dos Torrões. O tio Júlio aparelhava a magnífica mula preta chamada Mulata que era um diabo de animal (ao lado dela a Boneca, do tio Justino, era o mar calmo, a par da tempestade) e arrancávamos p’la manhã.

A tia Luzia já nesse tempo deixara de abalar para os campos e ficava na aldeia a organizar a lida da casa. Para mim ela é a boa velhinha que nos preparava os pãezinhos do campo em dia de cozedura. A tia Luzia é a minha meninice nas Caixas, todo um passado maravilhoso e simples como as coisas naturais.

Há uns dois anos tive uma surpresa extraordinária. Numa das minhas visitas ocasionais dei um salto às Caixas para ver os meus amigos. Quando perguntei à tia Clarisse pela mãe, receei que ela me dissesse que a tia Luzia já tivesse morrido. Era o meu receio de cada vez que procurava obter notícias. Afinal a tia Clarisse disse-me que ela estava boa e me ouvia todos os domingos. Confesso que não compreendi o que ela queria dizer e só depois deduzi que a tia Luzia, com os seus 92 anos, ouvia aos domingos as minhas crónicas na Renascença. Fiquei comovido pois nunca imaginara que uma pessoa daquela idade, que não sabia ler nem escrever, que nunca soube o que era um jogo de futebol, pudesse ouvir as minhas crónicas. Mas ouvia porque era eu. Não percebia o que eu dizia, não compreendia mas ouvia, era eu, o filho da tia Amália, que falava na telefonia.

E lá fui ver o pequeno aparelho que estava sobre uma mesa e, por cima, na parede uma fotografia grande da minha mãe.

Ao ouvir-me do fundo dos seus 92 anos a tia Luzia devia olhar a fotografia de minha mãe que ela conhecia também desde miúda. Nunca troquei com a tia Luzia mais do que três ou quatro frases triviais. Era uma mulher simples e boa, uma figura de um mundo que desapareceu.

Hoje ela deve evocar com a minha mãe, o meu tio Justino e a tia Maria Come-figos, cenas desse mundo de que só nos resta a recordação.

Lembro-me de ter visto passar na estrada das Caixas funerais estranhos. Nesse tempo ia-se a pé, caixão a pulso, até ao Castelo, quilómetros palmilhados, figuras insólitas de preto vestidas, na estrada poeirenta à torreira do sol.

Não sei como foi a tia Luzia para o Castelo. Não sei ao certo em que dia faleceu, mas sei que com ela se virou mais uma página no livro da minha vida.

A tia Luzia para mim é mais do que a simples notícia inscrita na rubrica necrológica deste Jornal. É um símbolo de uma época, uma figura insubstituível como o António do Porto, o tio Escuminha, o tio Vicente Faneca.

Por isso a arranco ao anonimato da sua lista de desaparecidos para lhe prestar a minha homenagem, para o adeus que não pude dizer-lhe a tempo.

Quando a Libinha fazia diabruras a tia Luzia ralhava assim: “a menina tem que apanhar!”. Mas a menina nunca apanhou e agora é tarde, a Libinha é adulta e a tia Luzia já não está connosco. Não está fisicamente mas continua a contemplar-nos e qualquer dia é capaz de aconselhar a Libinha quando uma filha desta for traquina. A menina tem que apanhar! – era a receita, a ameaça meiga de uma boa velhinha. Descansa em paz, Luzia Vitória.

Até um dia, tia Luzia.

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Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra em 1985.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 39


O nosso Jorge

António Cagica Rapaz

As raízes da minha infância no campo encontram-se nas Caixas, no tempo do ribeiro dos Torrões, da cozedura do pão, da debulha na eira e da vindima. Muitos anos depois, já adulto, o meu campo passou a ser mais a Cotovia, por bondade do tio Jojó. E lá fui encontrar uma figura notável, o Jorge Patrício, irmão do tio Sebastião, da Sopa, meu velho conhecido da rua dos Pescadores.
O Jorge é uma figura, uma personagem invulgar, com uma filosofia de vida bem sua, sabendo dosear o esforço, repartindo-o entre obrigações e prazer com uma sabedoria admirável. Era homem para cuspir nas mãos e cavar dobrado, de sol a sol, e também sabia manobrar o martelo, a serra, o alicate e a turquês, a pá e o balde. Compunha aqui, desenrascava ali, dava um jeito (um toque cabazeiro, como ele dizia), e aí tínhamos o nosso Jorge, hábil de mãos, vivo de espírito, sempre tranquilo, sem pressas, com um sorriso permanente e um olhar maroto. O Jorge era um homem de uma só peça, da linhagem dos Patrícios, fino recorte de aristocrata da terra, cabelinho branco e curto, risco ao lado nítido, porte seguro, passo ágil, gesto franco, ironia subtil, nobreza de carácter. O Jorge sabia gozar a vida, sabia apreciar. E gostava de partilhar. A sua bagaceira, baptizada “Patricius”, pelo tio Jojó, era um néctar delicioso, a saborear no cálice da amizade. Ao domingo, já almoçado, o Jorge aparecia em casa do tio Jojó, barbinha feita, todo catita. Após múltiplas insistências, acabava por aceitar um pedaço de queijo e uma pinga, para nos dar prazer, para fazer companhia, sob o olhar divertido do tio Nuno e para satisfação do tio Jojó que tinha pelo Jorge uma ternura infinita.

O Jorge foi o último de uma raça, símbolo de um tempo que se finou. Com ele foi-se o romantismo, a visão idealizada da vida campestre, a neblina poética que envolvia a Cotovia nas manhãs de Outono quando o Inverno já espreita e começa a apetecer carapaus secos com batatas, regados com o azeite que o senhor Braguez costumava trazer à Carolina. Como vai longe esse tempo e que vazio à nossa volta!

Resta-nos o Chico, que é a imagem fiel do Jorge. Graças a ele, o Jorge não partiu totalmente. Se forem ao Casal e ele não estiver é porque foi à da Carmelinda. Se lá não o encontrarem é porque foi à Carrasqueira, com o Chico. Se lá não o virem, se não estiver, não procurem mais, ele pode estar em qualquer sítio. De certeza está é nos nossos corações, o nosso Jorge.

1983

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 34


A Natureza faz bem as coisas

António Cagica Rapaz

Há no nosso quotidiano pequenas coisas, gestos que repetimos e a que não atribuimos valor especial. Porém, alguns deles vão ganhando, lenta e subtilmente, no nosso espírito, contornos e significados que, um dia, sem sabermos como, se tornam claros e impressivos. Abrir e fechar uma janela é gesto que podemos realizar mil vezes, uma vida inteira, sem lhes juntarmos a menor partícula de emoção. Mas pode muito bem suceder que, de repente, tomemos consciência de que uma janela que se abre é muito mais do que um fecho que puxamos e duas portadas que afastamos. Aos poucos, foi surgindo em nós um sentimento insinuante associado àquele gesto que adquiriu, sem nos darmos conta, um simbolismo inesperado e maravilhoso. E então apercebemo-nos de que abrir uma janela pode ser como abrir o nosso coração para uma paisagem, para um cantinho do nosso mundo, para a vida, para o amor. Abrir uma janela é como um pai que abre os braços para aconchegar no peito o filho que corre para ele. Como abraçarmos a mulher que amamos ou o amigo leal. Abrir uma janela pode ser fechar os olhos por um instante, deixar entrar o perfume do campo ou a brisa do mar. E voltar a abri-los para contemplarmos, longa e silenciosamente, o ondular do trigo, o oceano a perder de vista, o céu infinito, rodeando pela cintura alguém que partilha connosco esse momento abençoado. Uma andorinha que passa, em voo rasante, interrompe a contemplação e, com febrilidade, vamos abrindo, uma a uma, todas as janelas, com a excitação de crianças às voltas com os brinquedos em manhã de Natal. Fechar uma janela é estar de partida, a penumbra que já invade a casa e a nossa casa. Foi ao fechar uma janela que vi a Cidália...

Acenei-lhe e trocámos duas frases de saudação. Por aí teríamos ficado se ela não tivesse acrescentado, com voz inquieta:

- O homem está no hospital.

O homem podia ser o marido, mas é o pai, o patriarca, o carvalho austero que a Soraia transforma em frágil vime com um olhar meigo ou beicinho sentido. A sua voz sonora faz coro com a natureza, ouvi-lo à distância tranquiliza, estamos com a nossa gente, está tudo no seu lugar. Não preciso de o ver para saber que está, ainda agora o ouvi chamar pelo Rodrigo. O Fernando foi buscar lenha à Raposa, o Inverno não tarda, os sobreiros protegem do vento oeste, os cães já se enroscaram, o pão está cozido, o dia vai chegando ao fim. E o homem está lá...

A Soraia não percebe, revolta-se contra os médicos que não deixam o avô sair do hospital. É a primeira vez que sente receio, finge não compreender, para afastar aquele sentimento estranho, aquela forma de medo vago, impalpável, muito diferente do que sente quando matam o porco.

A Natureza não se engana, nós estamos habituados a uma certa ordem e aquele quadro só faz sentido com o patriarca a comandar as operações do labor quotidiano ou arrimado à casa, contemplando o pôr do sol.

Agora, a Soraia vai brincando aos comerinhos, às casinhas, forma que tem de afugentar angústias. O Rodrigo senta-se horas esquecidas no tractor, imitando o pai. O quadro não é o mesmo, falta a figura maior do presépio. Mas tudo vai voltar ao seu lugar, o homem vai regressar não tarda, a Natureza faz bem as coisas...

1998

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 33


Breve*

António Cagica Rapaz

Tal como sucedera há dois anos, os alunos do Dr. Costa Marques reuniram-se num almoço de confraternização. Desta vez foi na Maçã, no Concorde, e comeu-se ainda pior do que nas Villas de Sesimbra. Não por culpa das incansáveis organizadoras nem do meu bom amigo Carlos Farinha ausente em parte incerta, algures nos confins do Oriente, segundo rezam escrituras de faquires, encantadores de serpentes e engolidores de navalhas de barba.

Antes do parco e porco almoço houve missa e romagem ao cemitério onde repousam tantos dos nossos familiares e amigos. Na véspera, mais um fora levado à sua última morada, como eufemísticamente se diz, de seu nome Augusto Sobral, um homem que participou significativamente na vida associativa e cultural da nossa terra, no Desportivo e neste Jornal, poeta popular de raiz vincadamente sesimbrense.

Na despedida, no recolhimento das pessoas mais chegadas, lá esteve o Pedro Filipe, companheiro de várias frentes e que lhe lançou, com um sorriso cheio de ternura, “Teimoso!”

E foi. Augusto Sobral foi teimoso, senhor das suas opiniões, porventura pouco tolerante, um tanto amargo, em dissonância com o mundo, remando contra uma maré invisível. Pouco contacto tivemos, mas ficou-me a sensação de um certo desperdício, alguma frustração pelo que ele poderia ter feito se tivesse sido capaz de outra abertura aos outros, pois talento, inteligência e conhecimentos tinha.

Melhor conheci o irmão, Joaquim, certamente menos lido, sem preocupações intelectuais, mas de bela feitura humana, franco e caloroso. O tio Joaquim está na minha caderneta, na galeria singela das minhas figuras preferidas, com o avental sobre os joelhos, os banquinhos de madeira na loja minúscula a cheirar a cabedal, a gaiola dos trinados luminosos nas manhãs frescas da rua à espera do sol.

Já vos contei da sua paciência ao escutar as minhas narrativas inocentes e excitadas de verões heróicos na ribeira dos Torrões, as expedições ao velho moinho para trocar um saco de trigo montado num burro capaz de pedir meças ao “Rocinante” do D. Quixote.

Enquanto me ouvia, sorrindo, lá ia colocando umas biqueiras nos sapatos estafados nas correrias infindáveis atrás da bola. Depois era a minha vez de me deliciar com as suas descrições pausadas de pescarias mágicas das segundas-feiras, saltando de rocha em penedo, de cana comprida na mão, na lonjura do Caneiro. Era o empatar minucioso dos anzóis, o segredo do engodo, a escolha criteriosa do local, o tempo certo da maré, a certeza no lançar, a sensibilidade na cana que prolonga o braço, o fascínio da água lusa, a paixão do infinito, o apelo da madrugada. Não sei nem importa se ele me contou estas coisas, se as contou assim, creio bem que não, mas foi o que me ficou, é a imagem (porventura idealizada) que conservo do tio Joaquim Sobral que largava o avental, a sovela e o martelo ao raiar da aurora, de balde na mão, homem de uma cana, a caminho das rochas, para ver nascer o sol, abraçar o mar, respirar a vida. E pescar…

O irmão Augusto também foi hábil pescador, mais explicado, mais científico, mais elaborado. Indesmentível era o seu amor a Sesimbra e talvez ele pudesse ter ajudado a lutar contra esta descaracterização, esta perda progressiva da identidade da nossa terra incapaz de conservar o perfume do alecrim nas ruas enfeitadas e desfigurada por escolas de samba que nada têm de português e, menos ainda, de sesimbrense. Fica-nos o sabor de uma obra inacabada, mas cada um faz o que pode, como pode e como sabe. Foi-se Augusto Sobral e o tio Joaquim está com graves problemas de visão. É o nosso universo que se vai desmoronando, janelas sobre a vida, sobre o passado, que se vão fechando, aqui e ali. Depois da despedida, ao sair da capela, cruzei-me com o Eduardo Marques, ainda visivelmente afectado pelo drama que enlutou Sesimbra, ao afundar-se o seu barco. O filho do Eduardo é internacional de hóquei em patins para nosso orgulho e satisfação. Daí que me veio a recordação do pesadelo que era para o velho Elias ver chegar a rapaziada de (raros) patins na mão à esplanada dos bombeiros, o único sítio onde improvisadamente se patinava.

Nem sonhar em jogar hóquei pois não havia sticks e havia vidros frágeis. Às vezes lá fazíamos umas simulações, protegidos pela presença do Luís Filipe Batista, filho do Comandante.
Pois o filho do tio Elias, o mais velho, o Diamantino, casou com a filha do nosso Joaquim Sobral. O mundo é de facto pequeno. E no almoço dos alunos do Dr. Costa Marques lá estavam o Luís Conceição e a minha prima Carolina, pais de outro internacional de hóquei, o Mário Rui.

Os saudosistas encartados, ferrenhos e assanhados, levam a vida a dizer que antigamente é que era bom, mas veja-se o caso do Ginásio Sede que permite não só a prática de múltiplas modalidades mas também a revelação e a afirmação de talentos como o Eduardo e o Mário. Talento tinha também o pai Luís, mas não levou o futebol a sério. O pai Eduardo chegou a internacional júnior, ali, que nem ginjas…!

Ora este Ginásio é uma obra que se deve à abnegação de um punhado de sesimbrenses entre os quais Augusto Sobral, referência justa que se enquadra nesta reflexão contrastada, misto de melancolia e reconhecimento.

Foi com grande alegria que revi o padre Carlos que me baptizou e que (numa ausência pontual do padre Abílio) haveria de baptizar igualmente a minha filha.

Disse-lhe do meu sincero apreço pelos seus escritos no Jornal de Sesimbra, ricos de erudição e tonalidade poética e trocámos impressões linguísticas com o Dr. Nabais.

E lá foi prosseguindo o almoço da saudade com o habitual rosário de exclamações, a contemplação disfarçada dos efeitos devastadores do tempo, a hipocrisia simpática das avaliações recíprocas, a consolação de que há sempre quem esteja pior.

Há os que estão mais velhos, mais gordos, mais esquisitos. E há os que já não estão, connosco, entre nós, como a Maria Irene e a Silvana que lá de cima devem ter rido das nossas figuras, sorrido com alguma saudade. Pelo Augusto Sobral terão ficado a saber as últimas desta terra que pisamos e que nos há-de pisar um dia.

Chegou a Primavera, o Verão não vai tardar, qualquer dia é o nevoeiro do Outono das folhas que caem no regaço do Inverno. É a vida breve, a nossa fragilidade, a nossa insignificância, o pouco que somos, o nada que valemos, o muito que nos julgamos.

Aos poucos vão-se as figuras do nosso presépio, fecham-se as janelas das nossas recordações, em cada confraternização há ausentes, sentimos-lhes a falta, marcamos-lhes falta.

Por isso é bom apertarmo-nos nos braços uns dos outros, olharmo-nos sem querermos ver rugas nem os cabelos brancos. É uma ilusão colectiva, benigna e inocente, não faz mal, estamos todos na mesma, fingimos acreditar. Ficam as promessas e um sabor a pouco. Depois cada um mete-se no seu carro e desaparece.

Ninguém tem culpa, somos todos culpados. É a vida que nos aproxima na escola, no catecismo, na Mocidade. É a vida que nos afasta na tropa, no casamento, nos empregos.

É isto, é aquilo, é o tempo que passa e não chega senão para nos vermos uma vez por ano, para nos olharmos, para nos abraçarmos, para rirmos e comermos mal.

Se calhar é o castigo para o prazer destes reencontros, o tributo a pagar.

Depois somos aspirados de novo pela vida e voltamos a ser como as paralelas que nunca se encontram.

Por isso é bom comer mal mas estar com amigos, reencontramo-nos, a nós próprios e aos outros, voltarmos a ser jovens por umas horas de ilusão.

Foi assim, foi bom, foi breve, como breve é a vida…
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*Publicado na edição de Abril de 1995 de O Sesimbrense.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 32


O tocador

António Cagica Rapaz

Nos anos cinquenta, a povoação das Caixas era uma aglomeração tranquila, escala rotineira da carreira do Covas entre Sesimbra e Alfarim. À beira da estrada, a taberna do Baratinha era o apeadeiro, o ponto de referência, o farol da aldeia. Ao lado, o palheiro do tio Meano, com a roda de carroça encostada.

A estrada poeirenta animava-se duas vezes por dia, na alvura da manhã e na suavidade do entardecer, à passagem da velha Panhard conduzida pelo Pintassilgo. Ao raiar do dia, a camioneta parava em frente da taberna do Baratinha e, por trás dos vidros embaciados, surgia a trémula claridade do candeeiro a petróleo do ti Manel. Era um novo dia que despertava, saudado pelo galo do tio Meano, imperial e tonitruante.

Ao fim da tarde apeavam-se “à do Baratinha” as pessoas que tinham ido à vila, a longínqua Sesimbra, onde havia, segundo constava, uma imensidão de água chamada mar. Dele vinha o peixe que chegava ao campo em caixas manhosas, em equilíbrio periclitante na traseira de bicicleta velha ou motorizada cavernosa. O peixeiro sacava da gaita e tocava a reunir à volta de meia dúzia de cavalas, carapaus moiros, fains e laretas. As mulheres das Caixas iam a Sesimbra vender couves, cenouras, nabos arrancados à terra, de véspera, nas ribeiras húmidas dos Torrões ou da Amieira. Saíam de casa às quatro da manhã, palmilhando atrás do burro, estrada fora, com o tempo que Deus desse. Depois de aturarem, com paciência e resignação, as regateiras das pexitas que tentavam tirar dois tostões num molhinho de grelos ou num raminho de salsa, comiam uma bucha e voltavam a casa, agora montadas nos burricos, Santana acima, Covas da Raposa adiante, Zambujal abaixo, até avistarem o moinho das Caixas de velas dolentes que giravam tranquilamente, ronronando em voz baixa, moendo o trigo, na paz do Senhor...

Ao lado da taberna do Baratinha ficava uma espécie de armazém, de terra batida, com um palanque ao fundo. Era o salão de baile. O Verão era o tempo da debulha, das vindimas e das corridas de bicicleta. O melhor corredor era o Licínio, namorado da Maria Amália, mocetona trigueira de olhos pestanudos, a mais bonita da aldeia e redondezas. O Verão era também a época dos bailes “à do Baratinha”. Os preparativos começavam no sábado. O Manel Pedro andava na armação, mas, em certas ocasiões, exercia a função de barbeiro da aldeia. Instalava-se no salão de baile e toca a rapar nucas e aparar patilhas. Lá fora, as malhas do chinquilho iam caindo com estrondo nos tabuleiros...

No domingo, após o almoço, começavam a aparecer os rapazes, de bicicleta à corredor, risco ao lado, brilhantina, fatinho à papo-seco, calça recolhida por uma mola, de prevenção contra o óleo da corrente. Na recta comprida que se estende até à curva do lagar, é o desfile das bicicletas, pequenas corridas, esticões ao desafio até ao poço da quinta, picardias e larachas, um certo perfume de rivalidade, é dia de festa, há baile nas Caixas.

O salão é salpicado com precaução, para não fazer poeira, e as janelas permanecem fechadas para conservar a frescura. As bicicletas volteiam como abelhas em torno da colmeia. As raparigas, excitadas mas tímidas, correm de casa em casa, compondo um saiote, retocando o penteado, disfarçando o nervosismo. A expectativa cresce, entre o martelar do chinquilho e o carrocel das bicicletas. Os miúdos passam dedos sonhadores pelo guiador, acariciam o selim, correm à estrada e olham com ansiedade a curva do lagar onde esperam ver surgir o mago, o alquimista, o génio capaz de transformar o barracão de terra batida no salão dourado da fantasia de uma juventude modesta. A emoção atinge o seu ponto mais alto quando o João Canito chega, ofegante, a anunciar: - Já lá vem, vem aí o tocador!

O tocador! Na lonjura da estrada, envolto em poeira, dançando, desengonçado, sobre a bicicleta, com o acordeão às costas, ei-lo que chega. Aos poucos, aquela figura de contornos imprecisos, diluída na distância e no ar quente da tarde, vai ganhando consistência. O chinquilho emudece, os rapazes, com as bicicletas pela mão, abrem alas, a miudagem observa, deslumbrada, a aproximação do homem do acordeão que pedala devagar, até cortar a meta da ansiedade.

Os miúdos rodeiam-no, tocam-lhe nos braços, nas mãos mágicas, no acordeão misterioso, com os seus mil botões, o seu fole colorido.

O tocador desapeia-se em silêncio, encosta a bicicleta e coloca o instrumento sobre o palanque, na penumbra do salão de baile. A notícia já correu a aldeia, Deus seja louvado, o tocador chegou. Os primeiros acordes provocam sorrisos de tranquilidade e certa efervescência radiosa. As raparigas começam a chegar, aos grupinhos, vigiadas por mães severas...

Lá no alto, as velas do moinho continuam a girar ao som do acordeão, o chinquilho adormece, as bicicletas repousam, os miúdos espreitam, fascinados, a tarde cai na aldeia, é dia de festa, o tocador é artista, há baile “à do Baratinha”.

Ao cair da noite, cada um regressa a casa para uma ceia animada. Os candeeiros a petróleo apagam-se cedo, o dia foi de excitação, amanhã há que levantar cedo, recomeça a dura labuta. A festa acabou e ninguém se lembra já do tocador que, cansado e solitário, pedala estrada fora no silêncio da noite, com o acordeão mudo a pesar-lhe nas costas e nas pernas. O carro do Pintassilgo só volta quando o galo do tio Meano anunciar a alvorada...

1985

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 28

as crónicas da Eventos....


Gente do campo*

António Cagica Rapaz

Os chamadores já iam no segundo sono quando a tia Amália se preparava para nos despertar, pelas cinco da manhã. Na realidade, tanto a minha irmã como eu estávamos de olho bem aberto, ansiosos pela alvorada, naquela sublime excitação que nos assaltava sempre que se tratava de abalar para as férias grandes nas Caixas.

Atravessávamos uma Sesimbra vazia, no lusco-fusco silencioso, carregados com as malas, com o coração a palpitar de ansiedade, passo cauteloso mas apressado, como se receássemos ver recusado, no último instante, o visto de saída. No largo da igreja de cima, à porta do “Chico da Cooperativa”, o Pintassilgo esperava por nós para pôr a trabalhar a velha “Panhard” que nos levava penosamente Santana acima para depois contornar o posto da Polícia e se lançar desaustinadamente na recta das Covas da Raposa a caminho do Zambujal onde se começa a descer rumo às Caixas.

Como um náufrago que avista terra, assim nós ficávamos febris quando descíamos na paragem em frente à taberna do Baratinha. Atravessada a estrada, lá estavam o eterno palheiro com a roda de carroça arrimada, e o galo do tio Meano que nos dava as boas-vindas enquanto aguardava o primeiro raio de sol para encher a peitaça e a manhã com o seu cantar triunfal. Era outro mundo, era um deslumbramento, estávamos nas Caixas.

A nossa casinha era modesta e, como as outras, tinha o chão de terra batida, não havia água corrente nem luz eléctrica. Mas havia o poço da Quinta, havia estrelas e uma lua redonda e branca. Tudo era perfeito, foi um tempo muito feliz…

Num raio de vinte metros, contávamos com quatro fornos onde os nossos vizinhos e amigos coziam alternadamente o pão, aquele bendito pão do campo que nos habituámos a considerar um bem precioso e prova tangível da existência de uma entidade superior que regulava a Natureza, concedendo a chuva, acendendo o sol, fertilizando a terra, prodigalizando o trigo, abençoando a farinha.

O Pintassilgo dava meia volta em Alfarim, parava de novo à porta do Baratinha e arrancava rumo a Sesimbra para só regressar ao fim da tarde, quase ao sol-pôr, para trazer o meu pai, vindo do Alfeite, imponente na sua farda branca, para meu contentamento e orgulho. Muitas vezes eu não podia estar à espera dele por me encontrar nos Torrões ou noutro sítio, empenhado nas mil tarefas que partilhava com o Julinho, sob o olhar atento do pai Júlio ou do tio Justino. Era com prazenteiro entusiasmo que começava o dia recolhendo ovos já postos ou enfiando o dedo no orifício adequado das galinhas para detectar a proximidade de nova postura. A seguir, aparelhava e dava de beber à “Boneca”, a mansa mula do tio Justino, mas nunca ousei aproximar-me da escultural “mulata”, a mula preta do tio Júlio que tinha tanto de bela como de brava. Nos Torrões, regávamos os talhões das couves, nabos e cenouras, com a água tirada à picota pelo tio Júlio, antes de brincarmos no ribeiro que desagua na praia do Meco.

Entre outras coisas, amassávamos a comida dos porcos, cavalgávamos o trilho da debulha, vindimávamos e ajudávamos a pisar a uva, juntávamos a camarinheira para aquecer e perfumar o forno e íamos ao moinho trocar um saco de trigo por outro de farinha. Esta era a missão mais nobre e apetecida. Íamos no burro, um à frente, outro ao rabicho e era com curiosidade e receio que nos aproximávamos daquele local misterioso, lá no alto, as velas gigantescas e ameaçadoras, o vento a uivar nos vasos de barro com um furo no fundo e, por fim, o milagre branco da farinha que trazíamos para casa, felizes e orgulhosos.

Ao longo daqueles meses de vida partilhada, eu sentia-me igual ao Julinho, éramos como irmãos, vivíamos ao ritmo do sol, em total intimidade. Os dias nos Torrões constituem uma recordação maravilhosa, era um cantinho do paraíso, com a água puríssima da fonte, um ribeiro de brincar com as rãs enquanto armávamos aos pássaros até a tia Clarisse gritar para irmos comer a sopa de pão, batatas, tomate e ovo. À sexta-feira, voltávamos tarde para casa, a pé, atrás da carroça carregada com a venda que iam levar a Almada ou ao Seixal. Cansados e mal dormidos, abalavam a meio da noite, para uma interminável viagem, por uns magros tostões. Conhecendo bem a dureza da vida no campo, revoltava-me, por vezes, na praça de Sesimbra ao ver algumas pessoas regatearem o preço do que representava tanto sacrifício.

Desse tempo ficou-me uma enorme admiração por esta gente trabalhadora, agarrada a valores, rica de conhecimento e sabedoria, carregada de malícia, temente a Deus e amante da Natureza. Gente que vive a dois passos de Sesimbra e que consegue ser diferente, na maneira de falar, de pensar, de encarar a vida, de agir.

Tenho a felicidade de ter nascido na borda d’água, na rua dos Pescadores, e de ter partilhado a vida das pessoas do que nós chamamos o campo. Tenho agora a sorte de possuir um cantinho na Aiana onde reencontro o cheiro da terra e do pão, o chilrear dos pássaros e a ilusão de que nada mudou. De vez em quando, ainda passa uma velhinha montada num burro que deve ser o último que resta e que me parece o mesmo que nos levava ao moinho, a mim e ao Júlio que mora ali adiante, em frente à escola.

É bom estar na Galé, a ver o mar. Igualmente bom é estarmos com os nossos amigos, a nossa gente que, muitas vezes, é gente do campo…

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* Publicado no nº 32 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2004.