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segunda-feira, 11 de abril de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 53



Candeeiros bem bonitos

António Cagica Rapaz

O enérgico e sorridente Eduardo aplicava duas argoladas na porta, invariável e ruidosamente, às sete da manhã. A minha mãe ficava com o leite e, depois de deixar o fervedor na cozinha, acendia a telefonia. Assim começava o dia com o “Talismã”, o seu programa da manhã, produzido pelo Gilberto Cotta. Ao microfone, Armando Marques Ferreira, António Miguel e Dora Maria. Das sete às oito e meia, com segunda sessão das dez ao meio dia. Pelo meio ficava a “Onda do Optimismo”, com o Jorge Alves. Tudo no Rádio Clube Português.

Às sete e meia, ia para o ar um folhetim mais assustador do que as argoladas do Eduardo, a cargo da Manuela Reis que interpretava todos os papéis, fazia todas as vozes, homem, mulher e criança, narrava e dava corpo sonoro às personagens. Eram histórias aterradoras que eu ouvia de longe, do fundo da minha cama...

Mas os primeiros ecos da telefonia são anteriores, situam-se na taberna da minha avó, com os “Companheiros da Alegria”, o Zèquinha e a Lélé, o Vasco Santana, o Igrejas Caeiro, a Elvira Velez. E os fados! Os fados, na rua dos Pescadores, reconfortavam, ajudavam a esperar o fim do vendaval, a aceitar a fatalidade do destino, e iluminavam as noites quentes de Verão, sardinha assada e fogareiro à porta. Até o mar se calava para ouvir a Amália...

Quando mudámos para a rua da Fé, a telefonia passou a ser a do Chico da Cooperativa, com os relatos de futebol e, sobretudo, a magia das transmissões de hóquei em patins, os torneios de Montreux, na longínqua Suíça. Era a vibração apaixonante do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas, os golos de Portugal contra a Espanha, tanta emoção e paixão. A nossa imaginação fervia, tínhamos de dar um rosto, um corpo àquelas vozes cujos donos ninguém conhecia. Era o fascinante sortilégio da Rádio...

Já na rua Monteiro, o Manel Estêvão convenceu o meu pai a comprar uma telefonia Philips, a prestações, com letras assinadas por mim, com a caligrafia insegura dos oito anos e que poucas melhoras regista desde então.

No quadro das estações, da esquerda para a direita, lá estavam a Rádio Voz de Lisboa, a Rádio Graça, os Emissores Associados de Lisboa, o Clube Radiofónico de Portugal, a Rádio Renascença, o Rádio Clube Português e as duas Emissoras, a 2 e a 1 que transmitia com Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Guarda, na banda dos 47 metros.

Nos emissores pequeninos de Lisboa, havia, ao sábado de manhã, para os miúdos, o “Comboio das Seis e Meio, do José Castelo que veio muitos anos para Sesimbra e era amigo do meu pai. Certa vez, num concurso de desenho, ganhei duas grandes caixas de chocolates Regina graças ao talento da minha tia Lucinda e ao descaramento com que assinei o bilhete postal, com uma letra ainda mais incerta do que era habitual. A fraude já prescreveu, espero bem...

Na Emissora, gostava de ouvir o “Jornal Sonoro”, os relatos de futebol e, sobretudo, o teatro radiofónico que ia para o ar às nove e meia da noite, repetindo no dia seguinte à uma e meia da tarde, mal acabavam as aventuras do Patilhas e do Ventoinha, parodiantes do Rádio Clube Português. As vozes mágicas do teatro pertenciam a Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Rogério Paulo, Raúl de Carvalho, Rui de Carvalho, Canto e Castro e outros. Samuel Diniz ensaiava.

Na mesma Emissora, ao sábado, às sete da tarde, depois do banho, era o programa infantil da Maria Madalena Patacho, com realização do Castela Esteves, as Aventuras do Zé Caracol.

Mas o Rádio Clube Português era a estação que mais ouvíamos, o “Talismã”, os “Parodiantes de Lisboa”, o Lança Moreira, o senhor Messias, as cavernosas “Lendas da Nossa Terra”, do Gentil Marques, os sublimes diálogos do sempre imitável mas nunca igualável Olavo d’Eça Leal. A mana Maria Helena tinha a mais bonita voz da nossa Rádio, a meu gosto.

À boca da noite, enquanto esperava o meu pai, ouvia o “Jornal da APA”, apresentado pelo Luís Filipe Costa e pela Tany Belo, das sete e meia às oito e dez. A seguir vinha o “Apontamento do Dia”, por Américo Leite Rosa, o mesmo do apicerum, do segredo da abelha. Os “Apontamentos” eram olhares poéticos, atentos e curiosos, sobre o quotidiano, sobre as pessoas e as coisas.

Se o meu pai demorava, ainda ouvia, na Renascença, os “Cinco Minutos de Jazz”, do José Duarte, com que se atingia as nove da noite.

Era o limite da minha tranquilidade vacilante, a última carreira tinha chegado há muito. A partir daí ficava mais inquieto e preocupado...

Ao sábado, às oito e meia, havia a “Onda Desportiva”, apresentada por um tal Henrique Mendes que ninguém sabia se era alto ou baixo, gordo ou magro. Alto e magro, muito magro, era um certo Alves dos Santos, mas isso só fiquei a saber muitos anos depois. Naquela altura, ele fazia, com o Fernando Pires, as “Jogadas de Antecipação” com que encerrava o programa.

Ao domingo era hábito almoçarmos bacalhau com grão enquanto ouvíamos “A Vida é Assim”, de José de Oliveira Cosme. Era um programa delicioso, sem pretensões, muito caloroso e agradável, com diálogos interpretados pelo autor e pela Mary, o João e a Luísa de uma ficção que integrava os anúncios na conversa do casal. E assim apareciam, com suave naturalidade, as camisas da Camisaria Moderna, as tais que não faziam pregas no peito nem rugas no colarinho, o cafezinho da Pérola do Rossio, no Rossio 105, os chás milagrosos da antiga ervanária do largo da Anunciada, os petiscos da charcutaria Suíça e, o melhor de tudo, os candeeiros bem bonitos, modernos, originais, compre-os na Rádio Vitória, não se preocupe mais. Porque na Rádio Vitória, embaixada do bom gosto, quem lá vai é bem servido e sai sempre bem disposto. Lá na rua da Vitória, 46-48, satisfaz-se plenamente o cliente mais afoito.

Na Rádio Voz de Lisboa, havia uma locutora com uma voz muito doce que dizia, com frequência e muita, muita meiguice “Esta é a Voz de Lisboa”. Um dia, o Vítor Marques, na brincadeira, imitou-as, anunciando com requebros ternurentos “Esta é a Rádio Renascença”. Os senhores padres é que não gostaram e suspenderam-no por quinze dias...

A tal Voz de Lisboa apresentava um programa muito popular, com discos oferecidos aos doentinhos dos hospitais, enfermaria oito, cama nove, a Maria Amélia Canossa a dizer que “anda o vira na minha rua, já me encheram a rua toda, oiço harmónios e cavaquinhos, cabeças à roda”. Enquanto o Artur Ribeiro convidada “a cachopa do Minho que Deus abençoa, deixa o teu cantinho, vem até Lisboa mostrar como baila a tua chinela, ver o lisboeta andar atrás dela”.

Mas eu gostava era de ouvir o Max a contar a história da Maria da Luz. “Na pequena capelinha da aldeia velha e branquinha, dei à Maria da Luz um cruz de pôr ao peito e o juramento foi feito por nós dois sobre essa cruz”.

Hoje há outra Maria da Luz que faz, ali nas Caixas, um pão maravilhoso, mas nunca lhe perguntei se também faz uma cruz na massa, como a tia Clarisse quando cozia a farinha que o filho, o Julinho, e eu trazíamos do velho moinho, num tempo em que, na lonjura do campo, não havia electricidade, só poesia.

Poesia, nostalgia, telefonia, um tempo que foi à via...

2000

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

CONFRARIA MÍNIMA, 39

as crónicas da Eventos...



Nova corrida, nova viagem*

António Cagica Rapaz

Não sei se, como diz o poeta, viajar é preciso, nem sei dizer, com rigor, o que é uma viagem. A nossa vida é certamente uma viagem, mais longa ou mais curta, com mais ou menos peripécias, mas sem sombra de dúvida uma viagem que começa e, em geral, termina sem que nos peçam a opinião. Aliás, não sabemos se termina pois o que aparenta ser o fim pode ser apenas o início de uma nova viagem, bem mais demorada, eternidade fora…

E esta reflexão sobre o tema da eventualidade de uma vida depois da morte é só por si uma viagem fascinante, mesmo que nunca cheguemos a conclusões irrefutáveis. Naturalmente, cada um é livre de acreditar no que entende e de exigir provas concretas e indiscutíveis. Pessoalmente, julgo que nunca se chegará a apresentar factos totalmente convincentes porque tal significaria o fim do mistério e do livre arbítrio. Embora eu esteja muito longe de ser entendido em tão profundo tema, ainda assim atrevo-me a dizer que, para mim, faz sentido que as coisas permaneçam nesta esfera de indefinição, entre uma nuvem de interrogação e uma névoa de dúvida, apesar de haver uma montanha de indícios e sinais dignos de interesse e reflexão. Algumas pessoas, como eu, talvez ingénuas, espíritos fracos, acham que eles são suficientes e flagrantes, mas outras continuarão firmes na exigência de dados irrefutáveis e não arredarão pé do seu cepticismo. Sempre foi e continuará a ser assim…

Não sou, obviamente, autoridade no assunto, e apenas por curiosidade confesso que acredito na vida além da morte. Sem ela, esta existência terrena não faria qualquer sentido, seria uma monstruosidade, um absurdo, uma aberração, tantas são as incongruências, as injustiças e as desigualdades. Mesmo que não dispusesse de um razoável arsenal de pistas (como possuo) continuaria a acreditar, simplesmente porque essa perspectiva me agrada, me parece lógica, natural e infinitamente mais agradável do que aceitar que tudo acaba no cemitério. Confesso que tenho dificuldade em perceber como se pode viver resignado ao final definitivo e irremediável do balde de cal…

Mas o importante não é anunciar que se tem uma convicção ou uma ideologia. O que conta é o que nós fazemos (ou não) com as nossas ideias. Ora a expectativa perante o que nos espera após a morte poderia influenciar a nossa conduta ao longo da viagem que é a vida terrena. Pelo menos, poderia ensinar-nos a olhar o mundo que nos rodeia, as pessoas e as coisas, de outra maneira, numa perspectiva diferente. Deveria ensinar-nos a apreciar o que tem verdadeira importância, o que vale a pena nesta vida. Mas tal não acontece, é a natureza humana. Para muitos o que conta é possuir, adquirir bens materiais, passando ao lado de coisas bem mais valiosas como o amor, a amizade, a fraternidade, a solidariedade, a alegria de uma convivência saudável, a partilha de sentimentos e afectos.

Para alguns, importantes são as pretensas honrarias, as medalhas, os diplomas, as condecorações, os títulos, os sinais externos de evidência, de hipotética relevância, de aparente importância. E fazem desta viagem uma caça ao suposto tesouro constituído por tais panóplias, com sofreguidão, egoísmo e cegueira.

No carrossel da nossa infância, havia sempre nova corrida, nova viagem. E o homem do carrossel “Ribatejano” recordava igualmente que não subíssemos nem descêssemos com o carrossel em movimento. “Deixem parar, fazem favor”, rematava ele, sem ter a noção de que, na sua lengalenga de anos e anos de feira, resumia uma implacável filosofia de vida. Hoje um, amanhã outro, os nossos amigos vão-nos deixando, vão descendo com o carrossel em movimento. Nós vemos, temos consciência, sabemos, até os acompanhamos na última viagem, ao cemitério. Mas fingimos que não é connosco, voltamos para o carrossel, agarramo-nos ao pescoço da girafa, olhamos em frente, e a roda volta a girar sem que aproveitemos para olhar em volta, reflectir sobre o sentido daquela correria desenfreada.

De tanto olharmos em frente e para cima, por querermos ser mais altos, mais fortes, mais ricos, não vemos a ternura no olhar do nosso amigo que teria ficado feliz se tivéssemos parado uns minutos para com ele trocarmos duas frases.

A nossa vida é feita de múltiplas viagens e escrever também é uma viagem, uma dupla viagem, dentro da nossa cabeça e ao encontro do leitor. A palavra é mão estendida a quem nos lê, gesto de esperança na partilha de um tema, de um tempo, de uma emoção em que o texto é apenas pretexto. No poço fundo dos nossos sentimentos, das nossas recordações, dos nossos medos e dos nossos anseios, dos nossos sonhos e da nossa fantasia, buscamos assunto para redacções como esta em que, afinal, só procuramos companheiros para a viagem que é a vida. Na nossa ingenuidade e na nossa ânsia de compreender o sentido das coisas, até nos atrevemos a filosofar sobre temas tão inacessíveis e transcendentes como são a vida e a morte.

A vida está cheia de coisas simples e belas, e o amor é a mais maravilhosa das viagens. No entanto, para a maioria, o conceito de viagem sugere mais deslocações à Tailândia ou à China, voltar com filmes, fotografias, provas de que estiveram lá.

São passageiros frequentes, vedetas de projecções comentadas em serões com amigos, cada um mais viajado do que o vizinho, heróis de aventuras organizadas, gente que cumpriu um alto desígnio, viu mundo. Outros sonharão, porventura, com o Tibete mas acabam em Benidorme enquanto alguns se ficam por angustiadas travessias do Tejo, com análises e outros exames na mala, consultas marcadas. O Tejo não é o Ganges e as radiografias não proporcionam projecções charmosas. A cada um suas viagens…

Há quem, diariamente, percorra a marginal, de ponta a ponta, a pé, em tributo ao mar, saboreando o nosso sol, bendizendo a felicidade de ter nascido nesta terra.

Conservo imagens nítidas das minhas primeiras viagens, a abalada de Sesimbra, do largo da Igreja, às seis da manhã, rumo às Caixas, com o Pintassilgo ao volante da velha Panhard do Covas. O galo do tio Meano esperava por nós, era um deslumbramento, um filme que revejo mil vezes na tela das minhas recordações. Mil outras viagens fiz na minha cabeça ao longo das múltiplas etapas entre Lisboa e Coimbra, no comboio correio ou semi-directo que demorava sete intermináveis horas.

Talvez por não ter sido habituado a viajar por prazer e recreio, fui aprendendo a apreciar este mar, estas árvores, estas ruas, algumas pessoas, o que me rodeia. Poderia, lá bem no fundo, fazer como tantos e sonhar com Maldivas, Hawai ou Maurícias, mas não. Talvez tenha ficado saciado de viagens ouvindo as narrativas do meu pai, marinheiro de guerra que cruzou os mares para acabar em terra, naufragado em pedreiras desastrosas. Teria gostado, isso sim, de o ter acompanhado em inesquecíveis expedições à Arrábida, com o Duque, o Antero e os outros. No fundo, é mais esse o meu registo, proximidade e pacatez, sem filmes, sem compras em bazares de turistas, sem troféus nem autocolantes de hotéis nas malas.

Em verdade, não aspiro a safaris nem a cruzeiros, sou mais de ir ao reminho pela borda d’água…

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*Publicado no n.º 25 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2003.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 41


A Tia Luzia*

António Cagica Rapaz

“Faleceram no nosso Concelho no período de 23/1/85 a 27/2/85 as seguintes pessoas: Luzia Vitória, Caixas, etc.”.

Assim começava a rubrica “Falecimentos” do nosso número de Fevereiro.

É assim a informação fria, distante, quase impessoal. Aqui a dois mil quilómetros, recebo desta forma uma lista de falecidos e tento ligar os nomes às pessoas o que raramente consigo.

Desta vez não fui além do primeiro nome da lista: Luzia Vitória.

Para a grande maioria dos leitores este nome nada evoca. Quem é esta Luzia Vitória das Caixas? Eu conto.

Mais do que uma vez me têm perguntado onde vou buscar os temas destas crónicas breves que tendes a paciência de ler. Ora eu penso que a resposta está aqui nesta situação concreta. Há num jornal notícias secas, despidas de sentimento, áridas, agrestes por vezes. São os dados estatísticos ou as publicações dos cartórios notariais. Mas o Jornal é o espelho da terra, tem de preocupar-se com a nossa terra e nesta nada é mais importante do que as pessoas. As ruas com buracos, os abusos camarários, os problemas de trânsito, tudo isso é acessório, secundário, insignificante quando comparado com as pessoas que, boas ou más, são a alma da terra.

Ora pessoalmente julgo que pouco nos preocupamos com as figuras da nossa colectividade. Tratamos de política a nível local e (exageradamente) a nível nacional, fazemos artigos teóricos sem apontar a dedo os que se distinguem negativamente, sem chamar as coisas nem as pessoas pelos seus nomes.

Por isso procuro fazer desfilar por estas colunas pessoas que, na minha opinião, merecem um certo destaque, pelo que são, pelo que valem, pelo que fazem, pelo que significam, pelo que representam a meus olhos.

É evidente que a admiração que eu possa ter por determinada pessoa não tem forçosamente de ser partilhada pelos leitores.

Por outro lado, não é sequer importante que aquilo que eu conto seja inteiramente verdadeiro. Posso até inventar personagens, pintá-las com as cores da minha imaginação e da minha sensibilidade. O leitor não deve preocupar-se com a autenticidade nem com o fundamento das minhas narrativas. A única cosia que deve contar para ele é se a crónica lhe agrada ou não, se lhe dá ou não prazer o que escrevo. Por isso, quando eu falo do meu amigo Alfredo (do Pinto e Pinto) não é para vos dar a notícia da nossa amizade (que pouco vos interessará) mas sim para evocar uma certa atmosfera vivida numa época recente à luz de tonalidades suaves, tudo descrito de forma que possa tocar a vossa sensibilidade. A amizade é um pretexto à partida e o objectivo é um testemunho que constitua um pedaço de prosa saboroso. Essa é a minha intenção.

Dizia-me o Manuel António há tempos que dera a ler a uma amiga uma crónica intitulada “A telefonia”. Ora essa amiga (que não conhecia Sesimbra), depois de ler, confessava que tinha a sensação de ter conhecido a taberna da minha avó Sabina, de ter ouvido os fados nostálgicos da Amália em noites de verão ameno e de ter ouvido o mar rugir em frente da rua dos Pescadores. A ela pouco importa se a minha avó existiu ou se chamava Sabina. O que conta é o que se lê, se agrada ou não, se evoca ou não, se cria ou não um clima, um estado de alma.

Eu sei que há pessoas em Sesimbra que não conhecem o Jorge Patrício nem o Chico. Sei que alguém disse preferir que eu evoque pessoas conhecidas. Ora a verdade é que não se trata de citar nomes apenas por citar. Importa que as pessoas em questão inspirem condições particulares. Aliás, a partir do momento em que as evoco, elas entram, de algum modo, na esfera da fantasia, deixam de ser o que eram para se tornarem personagens dos meus folhetins ingénuos. O Capitão Domingos deixa de ser o Domingos Nogueira para se tornar no Super-Homem das praias, nadador-salvador de olho de águia e braçada vertiginosa. O Vítor deixa de ser o dr. Sevilhano Ribeiro para se tornar no Fellini das noites de Cabíria, das encenações loucas no palco metafórico da padaria do Joaquim do Moinho, não nas barbas mas nos bigodes do Arménio, um Arménio que nasceu nas Caixas como a tia Luzia. A tia Luzia devia ter cerca de 95 anos e conheço-a desde que nasci. Sempre a conheci velha, viúva, vestida de preto com o rosto magro a desaparecer na escuridão de um lenço.

A tia Luzia era uma mulher sem idade, marcada pela vida, pelo sofrimento, pela labuta de quase um século.

A tia Luzia era a avó do Julinho, do João, da Maria Cremilda, da Maria Luzia, a avó de todos nós, miúdos que brincávamos trabalhando na ribeira dos Torrões. O tio Júlio aparelhava a magnífica mula preta chamada Mulata que era um diabo de animal (ao lado dela a Boneca, do tio Justino, era o mar calmo, a par da tempestade) e arrancávamos p’la manhã.

A tia Luzia já nesse tempo deixara de abalar para os campos e ficava na aldeia a organizar a lida da casa. Para mim ela é a boa velhinha que nos preparava os pãezinhos do campo em dia de cozedura. A tia Luzia é a minha meninice nas Caixas, todo um passado maravilhoso e simples como as coisas naturais.

Há uns dois anos tive uma surpresa extraordinária. Numa das minhas visitas ocasionais dei um salto às Caixas para ver os meus amigos. Quando perguntei à tia Clarisse pela mãe, receei que ela me dissesse que a tia Luzia já tivesse morrido. Era o meu receio de cada vez que procurava obter notícias. Afinal a tia Clarisse disse-me que ela estava boa e me ouvia todos os domingos. Confesso que não compreendi o que ela queria dizer e só depois deduzi que a tia Luzia, com os seus 92 anos, ouvia aos domingos as minhas crónicas na Renascença. Fiquei comovido pois nunca imaginara que uma pessoa daquela idade, que não sabia ler nem escrever, que nunca soube o que era um jogo de futebol, pudesse ouvir as minhas crónicas. Mas ouvia porque era eu. Não percebia o que eu dizia, não compreendia mas ouvia, era eu, o filho da tia Amália, que falava na telefonia.

E lá fui ver o pequeno aparelho que estava sobre uma mesa e, por cima, na parede uma fotografia grande da minha mãe.

Ao ouvir-me do fundo dos seus 92 anos a tia Luzia devia olhar a fotografia de minha mãe que ela conhecia também desde miúda. Nunca troquei com a tia Luzia mais do que três ou quatro frases triviais. Era uma mulher simples e boa, uma figura de um mundo que desapareceu.

Hoje ela deve evocar com a minha mãe, o meu tio Justino e a tia Maria Come-figos, cenas desse mundo de que só nos resta a recordação.

Lembro-me de ter visto passar na estrada das Caixas funerais estranhos. Nesse tempo ia-se a pé, caixão a pulso, até ao Castelo, quilómetros palmilhados, figuras insólitas de preto vestidas, na estrada poeirenta à torreira do sol.

Não sei como foi a tia Luzia para o Castelo. Não sei ao certo em que dia faleceu, mas sei que com ela se virou mais uma página no livro da minha vida.

A tia Luzia para mim é mais do que a simples notícia inscrita na rubrica necrológica deste Jornal. É um símbolo de uma época, uma figura insubstituível como o António do Porto, o tio Escuminha, o tio Vicente Faneca.

Por isso a arranco ao anonimato da sua lista de desaparecidos para lhe prestar a minha homenagem, para o adeus que não pude dizer-lhe a tempo.

Quando a Libinha fazia diabruras a tia Luzia ralhava assim: “a menina tem que apanhar!”. Mas a menina nunca apanhou e agora é tarde, a Libinha é adulta e a tia Luzia já não está connosco. Não está fisicamente mas continua a contemplar-nos e qualquer dia é capaz de aconselhar a Libinha quando uma filha desta for traquina. A menina tem que apanhar! – era a receita, a ameaça meiga de uma boa velhinha. Descansa em paz, Luzia Vitória.

Até um dia, tia Luzia.

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Publicado originalmente no Jornal de Sesimbra em 1985.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 39


O nosso Jorge

António Cagica Rapaz

As raízes da minha infância no campo encontram-se nas Caixas, no tempo do ribeiro dos Torrões, da cozedura do pão, da debulha na eira e da vindima. Muitos anos depois, já adulto, o meu campo passou a ser mais a Cotovia, por bondade do tio Jojó. E lá fui encontrar uma figura notável, o Jorge Patrício, irmão do tio Sebastião, da Sopa, meu velho conhecido da rua dos Pescadores.
O Jorge é uma figura, uma personagem invulgar, com uma filosofia de vida bem sua, sabendo dosear o esforço, repartindo-o entre obrigações e prazer com uma sabedoria admirável. Era homem para cuspir nas mãos e cavar dobrado, de sol a sol, e também sabia manobrar o martelo, a serra, o alicate e a turquês, a pá e o balde. Compunha aqui, desenrascava ali, dava um jeito (um toque cabazeiro, como ele dizia), e aí tínhamos o nosso Jorge, hábil de mãos, vivo de espírito, sempre tranquilo, sem pressas, com um sorriso permanente e um olhar maroto. O Jorge era um homem de uma só peça, da linhagem dos Patrícios, fino recorte de aristocrata da terra, cabelinho branco e curto, risco ao lado nítido, porte seguro, passo ágil, gesto franco, ironia subtil, nobreza de carácter. O Jorge sabia gozar a vida, sabia apreciar. E gostava de partilhar. A sua bagaceira, baptizada “Patricius”, pelo tio Jojó, era um néctar delicioso, a saborear no cálice da amizade. Ao domingo, já almoçado, o Jorge aparecia em casa do tio Jojó, barbinha feita, todo catita. Após múltiplas insistências, acabava por aceitar um pedaço de queijo e uma pinga, para nos dar prazer, para fazer companhia, sob o olhar divertido do tio Nuno e para satisfação do tio Jojó que tinha pelo Jorge uma ternura infinita.

O Jorge foi o último de uma raça, símbolo de um tempo que se finou. Com ele foi-se o romantismo, a visão idealizada da vida campestre, a neblina poética que envolvia a Cotovia nas manhãs de Outono quando o Inverno já espreita e começa a apetecer carapaus secos com batatas, regados com o azeite que o senhor Braguez costumava trazer à Carolina. Como vai longe esse tempo e que vazio à nossa volta!

Resta-nos o Chico, que é a imagem fiel do Jorge. Graças a ele, o Jorge não partiu totalmente. Se forem ao Casal e ele não estiver é porque foi à da Carmelinda. Se lá não o encontrarem é porque foi à Carrasqueira, com o Chico. Se lá não o virem, se não estiver, não procurem mais, ele pode estar em qualquer sítio. De certeza está é nos nossos corações, o nosso Jorge.

1983

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 32


O tocador

António Cagica Rapaz

Nos anos cinquenta, a povoação das Caixas era uma aglomeração tranquila, escala rotineira da carreira do Covas entre Sesimbra e Alfarim. À beira da estrada, a taberna do Baratinha era o apeadeiro, o ponto de referência, o farol da aldeia. Ao lado, o palheiro do tio Meano, com a roda de carroça encostada.

A estrada poeirenta animava-se duas vezes por dia, na alvura da manhã e na suavidade do entardecer, à passagem da velha Panhard conduzida pelo Pintassilgo. Ao raiar do dia, a camioneta parava em frente da taberna do Baratinha e, por trás dos vidros embaciados, surgia a trémula claridade do candeeiro a petróleo do ti Manel. Era um novo dia que despertava, saudado pelo galo do tio Meano, imperial e tonitruante.

Ao fim da tarde apeavam-se “à do Baratinha” as pessoas que tinham ido à vila, a longínqua Sesimbra, onde havia, segundo constava, uma imensidão de água chamada mar. Dele vinha o peixe que chegava ao campo em caixas manhosas, em equilíbrio periclitante na traseira de bicicleta velha ou motorizada cavernosa. O peixeiro sacava da gaita e tocava a reunir à volta de meia dúzia de cavalas, carapaus moiros, fains e laretas. As mulheres das Caixas iam a Sesimbra vender couves, cenouras, nabos arrancados à terra, de véspera, nas ribeiras húmidas dos Torrões ou da Amieira. Saíam de casa às quatro da manhã, palmilhando atrás do burro, estrada fora, com o tempo que Deus desse. Depois de aturarem, com paciência e resignação, as regateiras das pexitas que tentavam tirar dois tostões num molhinho de grelos ou num raminho de salsa, comiam uma bucha e voltavam a casa, agora montadas nos burricos, Santana acima, Covas da Raposa adiante, Zambujal abaixo, até avistarem o moinho das Caixas de velas dolentes que giravam tranquilamente, ronronando em voz baixa, moendo o trigo, na paz do Senhor...

Ao lado da taberna do Baratinha ficava uma espécie de armazém, de terra batida, com um palanque ao fundo. Era o salão de baile. O Verão era o tempo da debulha, das vindimas e das corridas de bicicleta. O melhor corredor era o Licínio, namorado da Maria Amália, mocetona trigueira de olhos pestanudos, a mais bonita da aldeia e redondezas. O Verão era também a época dos bailes “à do Baratinha”. Os preparativos começavam no sábado. O Manel Pedro andava na armação, mas, em certas ocasiões, exercia a função de barbeiro da aldeia. Instalava-se no salão de baile e toca a rapar nucas e aparar patilhas. Lá fora, as malhas do chinquilho iam caindo com estrondo nos tabuleiros...

No domingo, após o almoço, começavam a aparecer os rapazes, de bicicleta à corredor, risco ao lado, brilhantina, fatinho à papo-seco, calça recolhida por uma mola, de prevenção contra o óleo da corrente. Na recta comprida que se estende até à curva do lagar, é o desfile das bicicletas, pequenas corridas, esticões ao desafio até ao poço da quinta, picardias e larachas, um certo perfume de rivalidade, é dia de festa, há baile nas Caixas.

O salão é salpicado com precaução, para não fazer poeira, e as janelas permanecem fechadas para conservar a frescura. As bicicletas volteiam como abelhas em torno da colmeia. As raparigas, excitadas mas tímidas, correm de casa em casa, compondo um saiote, retocando o penteado, disfarçando o nervosismo. A expectativa cresce, entre o martelar do chinquilho e o carrocel das bicicletas. Os miúdos passam dedos sonhadores pelo guiador, acariciam o selim, correm à estrada e olham com ansiedade a curva do lagar onde esperam ver surgir o mago, o alquimista, o génio capaz de transformar o barracão de terra batida no salão dourado da fantasia de uma juventude modesta. A emoção atinge o seu ponto mais alto quando o João Canito chega, ofegante, a anunciar: - Já lá vem, vem aí o tocador!

O tocador! Na lonjura da estrada, envolto em poeira, dançando, desengonçado, sobre a bicicleta, com o acordeão às costas, ei-lo que chega. Aos poucos, aquela figura de contornos imprecisos, diluída na distância e no ar quente da tarde, vai ganhando consistência. O chinquilho emudece, os rapazes, com as bicicletas pela mão, abrem alas, a miudagem observa, deslumbrada, a aproximação do homem do acordeão que pedala devagar, até cortar a meta da ansiedade.

Os miúdos rodeiam-no, tocam-lhe nos braços, nas mãos mágicas, no acordeão misterioso, com os seus mil botões, o seu fole colorido.

O tocador desapeia-se em silêncio, encosta a bicicleta e coloca o instrumento sobre o palanque, na penumbra do salão de baile. A notícia já correu a aldeia, Deus seja louvado, o tocador chegou. Os primeiros acordes provocam sorrisos de tranquilidade e certa efervescência radiosa. As raparigas começam a chegar, aos grupinhos, vigiadas por mães severas...

Lá no alto, as velas do moinho continuam a girar ao som do acordeão, o chinquilho adormece, as bicicletas repousam, os miúdos espreitam, fascinados, a tarde cai na aldeia, é dia de festa, o tocador é artista, há baile “à do Baratinha”.

Ao cair da noite, cada um regressa a casa para uma ceia animada. Os candeeiros a petróleo apagam-se cedo, o dia foi de excitação, amanhã há que levantar cedo, recomeça a dura labuta. A festa acabou e ninguém se lembra já do tocador que, cansado e solitário, pedala estrada fora no silêncio da noite, com o acordeão mudo a pesar-lhe nas costas e nas pernas. O carro do Pintassilgo só volta quando o galo do tio Meano anunciar a alvorada...

1985

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 28

as crónicas da Eventos....


Gente do campo*

António Cagica Rapaz

Os chamadores já iam no segundo sono quando a tia Amália se preparava para nos despertar, pelas cinco da manhã. Na realidade, tanto a minha irmã como eu estávamos de olho bem aberto, ansiosos pela alvorada, naquela sublime excitação que nos assaltava sempre que se tratava de abalar para as férias grandes nas Caixas.

Atravessávamos uma Sesimbra vazia, no lusco-fusco silencioso, carregados com as malas, com o coração a palpitar de ansiedade, passo cauteloso mas apressado, como se receássemos ver recusado, no último instante, o visto de saída. No largo da igreja de cima, à porta do “Chico da Cooperativa”, o Pintassilgo esperava por nós para pôr a trabalhar a velha “Panhard” que nos levava penosamente Santana acima para depois contornar o posto da Polícia e se lançar desaustinadamente na recta das Covas da Raposa a caminho do Zambujal onde se começa a descer rumo às Caixas.

Como um náufrago que avista terra, assim nós ficávamos febris quando descíamos na paragem em frente à taberna do Baratinha. Atravessada a estrada, lá estavam o eterno palheiro com a roda de carroça arrimada, e o galo do tio Meano que nos dava as boas-vindas enquanto aguardava o primeiro raio de sol para encher a peitaça e a manhã com o seu cantar triunfal. Era outro mundo, era um deslumbramento, estávamos nas Caixas.

A nossa casinha era modesta e, como as outras, tinha o chão de terra batida, não havia água corrente nem luz eléctrica. Mas havia o poço da Quinta, havia estrelas e uma lua redonda e branca. Tudo era perfeito, foi um tempo muito feliz…

Num raio de vinte metros, contávamos com quatro fornos onde os nossos vizinhos e amigos coziam alternadamente o pão, aquele bendito pão do campo que nos habituámos a considerar um bem precioso e prova tangível da existência de uma entidade superior que regulava a Natureza, concedendo a chuva, acendendo o sol, fertilizando a terra, prodigalizando o trigo, abençoando a farinha.

O Pintassilgo dava meia volta em Alfarim, parava de novo à porta do Baratinha e arrancava rumo a Sesimbra para só regressar ao fim da tarde, quase ao sol-pôr, para trazer o meu pai, vindo do Alfeite, imponente na sua farda branca, para meu contentamento e orgulho. Muitas vezes eu não podia estar à espera dele por me encontrar nos Torrões ou noutro sítio, empenhado nas mil tarefas que partilhava com o Julinho, sob o olhar atento do pai Júlio ou do tio Justino. Era com prazenteiro entusiasmo que começava o dia recolhendo ovos já postos ou enfiando o dedo no orifício adequado das galinhas para detectar a proximidade de nova postura. A seguir, aparelhava e dava de beber à “Boneca”, a mansa mula do tio Justino, mas nunca ousei aproximar-me da escultural “mulata”, a mula preta do tio Júlio que tinha tanto de bela como de brava. Nos Torrões, regávamos os talhões das couves, nabos e cenouras, com a água tirada à picota pelo tio Júlio, antes de brincarmos no ribeiro que desagua na praia do Meco.

Entre outras coisas, amassávamos a comida dos porcos, cavalgávamos o trilho da debulha, vindimávamos e ajudávamos a pisar a uva, juntávamos a camarinheira para aquecer e perfumar o forno e íamos ao moinho trocar um saco de trigo por outro de farinha. Esta era a missão mais nobre e apetecida. Íamos no burro, um à frente, outro ao rabicho e era com curiosidade e receio que nos aproximávamos daquele local misterioso, lá no alto, as velas gigantescas e ameaçadoras, o vento a uivar nos vasos de barro com um furo no fundo e, por fim, o milagre branco da farinha que trazíamos para casa, felizes e orgulhosos.

Ao longo daqueles meses de vida partilhada, eu sentia-me igual ao Julinho, éramos como irmãos, vivíamos ao ritmo do sol, em total intimidade. Os dias nos Torrões constituem uma recordação maravilhosa, era um cantinho do paraíso, com a água puríssima da fonte, um ribeiro de brincar com as rãs enquanto armávamos aos pássaros até a tia Clarisse gritar para irmos comer a sopa de pão, batatas, tomate e ovo. À sexta-feira, voltávamos tarde para casa, a pé, atrás da carroça carregada com a venda que iam levar a Almada ou ao Seixal. Cansados e mal dormidos, abalavam a meio da noite, para uma interminável viagem, por uns magros tostões. Conhecendo bem a dureza da vida no campo, revoltava-me, por vezes, na praça de Sesimbra ao ver algumas pessoas regatearem o preço do que representava tanto sacrifício.

Desse tempo ficou-me uma enorme admiração por esta gente trabalhadora, agarrada a valores, rica de conhecimento e sabedoria, carregada de malícia, temente a Deus e amante da Natureza. Gente que vive a dois passos de Sesimbra e que consegue ser diferente, na maneira de falar, de pensar, de encarar a vida, de agir.

Tenho a felicidade de ter nascido na borda d’água, na rua dos Pescadores, e de ter partilhado a vida das pessoas do que nós chamamos o campo. Tenho agora a sorte de possuir um cantinho na Aiana onde reencontro o cheiro da terra e do pão, o chilrear dos pássaros e a ilusão de que nada mudou. De vez em quando, ainda passa uma velhinha montada num burro que deve ser o último que resta e que me parece o mesmo que nos levava ao moinho, a mim e ao Júlio que mora ali adiante, em frente à escola.

É bom estar na Galé, a ver o mar. Igualmente bom é estarmos com os nossos amigos, a nossa gente que, muitas vezes, é gente do campo…

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* Publicado no nº 32 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2004.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 20

as crónicas da Eventos...


Foto tirada daqui.


Do Caneiro à Doca*

António Cagica Rapaz

Eu só tomei consciência de viver numa vila quando comecei a passar férias na aldeia das Caixas e me fui habituando à expressão “ir à vila”. Naquele tempo, na década de cinquenta, para uma pessoa do campo, ir à vila era o mesmo que, para alguém de Sesimbra, ir a Lisboa. O campo era outro mundo, outra gente, outra fala, e certo distanciamento orgulhoso ditado por uma rivalidade ancestral e alguma antipatia à flor da pele. Eu era um intruso, vinha da vila, embora não tivesse sotaque comprometedor, não falava à pexito. E gostava tanto daquela aldeia, daquele universo, que fui adoptando usos, gestos e expressões que iam apagando os poucos traços de pexito que, eventualmente, me restassem. E foi neste processo de integração que aprendi a olhar de fora, da lonjura de uma dúzia de quilómetros, a nossa terra, a vila de Sesimbra.

Hoje, à procura de assunto e recuando mais de cinquenta anos, chego à conclusão de que, quando migrava para as Caixas durante os três meses das férias de Verão, eu deixava o meu frágil bairrismo enterrado na praia, junto à Pedra Alta. Não era propriamente uma infidelidade, mas sim a fascinação perante uma realidade totalmente diferente da relativa monotonia da praia e do mar, a dois passos da rua dos Pescadores.

Caixas era sinónimo de aventura, de descoberta, selar uma mula, dar-lhe de beber, participar nos trabalhos do amanho da terra, ir ao moinho trocar trigo por farinha, correr atrás do trilho da debulha, comer batatas com pele e pão acabado de sair do forno da tia Clarisse, armar aos pássaros, fazer a vindima e beber água-pé pelo tacho de barro, o deslumbramento da Natureza, o nascer e o pôr-do-sol, o contacto com os animais…

Sesimbra só começou a fazer-me falta e a ganhar importância na minha vida quando dela me fui afastando. As primeiras crises de nostalgia surgiram em Lisboa, aos vinte e poucos anos, na década de sessenta. Atacavam-me, normalmente, ao fim da tarde e assumiam a forma de um desejo súbito e forte de me meter no carro e abalar, ponte fora, levado pelo apelo do mar. Era como se me faltasse o oxigénio e precisasse de ir a correr até ao muro da marginal para inspirar demoradamente o ar do mar, o cheiro a maresia, e ver o sol a declinar por trás do farol. Todavia, e curiosamente, talvez o melhor não fosse satisfazer aquela necessidade imperiosa, cedendo à deliciosa tentação de ir ao encontro do mar e de Sesimbra. Se calhar, o melhor era a ideia que, de repente, e de forma mais ou menos nebulosa, se desenhava no meu espírito. Então, algures em Lisboa, no meio do trânsito, em casa a estudar ou no barco vindo do Barreiro, como num sonho, eu via a praia, as gaivotas, o mar azul sem fim, naquela hora mágica do entardecer, toda feita de poesia, suavidade e mistério. Provavelmente, a imagem que eu, quase involuntariamente, criava no meu espírito excederia a realidade que ia encontrar, mas o milagre era a euforia do impulso que me levava a procurar a borda d’água como um náufrago do deserto…

Estar longe, verdadeiramente longe, reconcilia-nos com tudo quanto esteja ligado à nossa terra, em particular quando se tem a felicidade, como nós temos, de ter nascido em Sesimbra. É um lugar comum, mas nem por isso menos verdadeiro, dizer-se que só damos valor às coisas quando as perdemos. Há muita gente que aqui nasceu e nunca esteve longe, o que talvez explique certa forma de alheamento ou de indiferença perante a beleza da nossa terra. Mas não se trata apenas do recorte paisagístico, é muito mais do que isso, é a magia do mar, é tudo aquilo que ele nos inspira, que nos enfeitiça, que nos prende, que nos marca para toda a vida.

Os camponeses gostam de zombar do sotaque dos pexitos que, temos de reconhecer, não é propriamente bonito. Contudo, é nosso e, mesmo que não o exibamos permanentemente, há ocasiões em que se torna saboroso e desopilante falar à nossa moda. Quando vivia em França, de cada vez que vinha a Lisboa, raramente não estava com o Manel António. E mais raramente ainda não íamos jantar ao Bairro Alto. Quem nos via, a meio da refeição, felizes e exuberantes, havia de estranhar aquele sotaque esquisito e, sobretudo, as mil expressões pitorescas que ambos cultivamos com ternura e calor. E em cada frase colorida, em cada lance da nossa barca da amostra generosa de ternura e fraternidade, era uma rede cheia da nossa mocidade, da nossa cumplicidade, daquilo que nos une e identifica, a começar pelo sentimento profundo de pertencermos ali, àquela terra cujo falar copiado das gaivotas e amolado pelo vento constitui uma bandeira que, em tantas ocasiões, desenrolamos e exibimos com orgulho. E numa qualquer tasca simpática do velho Bairro, não era Lisboa que cantava, era Sesimbra que enchia a casa, eram as gargalhadas vibrantes do Manel e a minha reencontrada alegria, por estar de volta, por estar em casa, por estar com o meu amigo. E era uma festa, sempre, de cada vez que eu podia vir a correr de Paris, coma mesma crise de nostalgia que, noutro tempo, me levava a atravessar a ponte, Apostiça abaixo, Alfarrobeira por fim, à procura do mar.

Entretanto, enquanto eu estava longe, Sesimbra aproveitava para se desfigurar, para se deixar possuir por construções disformes. Parece que se modernizou, mas, como certas mulheres demasiado retocadas, envelheceu mal. O Manel dizia-me quanto lhe doía a alma, e virava a cara para não ver o massacre dos Passadiços. Eu percebi, mas estava longe. E, à distância, a nossa Sesimbra continuava a ter o mesmo ar de menina que nada perdera da sua pureza nem da sua beleza. Por isso, eu fingia não saber e escrevia, escrevia, trincheira que ergui e atrás da qual me contive para não desatar a correr por aí fora em cada fim de tarde, guiado por uma estrela que me mostrava a nossa terra, inteirinha, beijada pelo mar que nos envolve e abraça, de uma ponta à outra, do Caneiro à doca…

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* Publicado no n.º 31 de Sesimbra Eventos, de Junho/Julho de 2004.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 17

as crónicas da Eventos...




Torrões*

António Cagica Rapaz

Porque a língua é viva e a aldeia global, há palavras a nascer todos os dias, umas necessárias, outras supérfluas, muitas indesejáveis. Ao mesmo tempo, e reflexamente, inúmeros vocábulos e expressões vão caindo em desuso. Há modas mais ou menos passageiras, amiúde infelizes, em certos casos pindéricas, que vão conquistando espaço com a ajuda de jornalistas semi-analfabetos, meras caixas de ressonância, e políticos janotas, pavões da era da empresarialização e outras pérolas catitas que enfeitam o universo pedante e pimba da nossa comunicação social, em particular, da televisão.

Antigamente, na nossa santa ingenuidade, fazíamos perguntas. Hoje, coloca-se questões. Dantes havia comerciantes, industriais, empreiteiros. Hoje só há empresários. Não há vendedor de cautelas ou engraxador de vão de escada que não seja empresário. É o mundo da aparência, do faz de conta, do protagonismo ilusório, da visibilidade em sede de presunção e notoriedade rasca e manhosa.

É assim, à maneira, prontos, tudo numa boa. Mais palavras para quê? Os artistas são portugueses, trabalham muito e dão o seu melhor para alcançar os objectivos…

Ora vem isto à colação por força da quadra que se avizinha e que me fez recordar a expressão torrão natal que repousa, mumificada, na galeria silenciosa do esquecimento. Para a generalidade das pessoas, as suas raízes estão na terra ou no torrão natal. No caso dos sesimbrenses talvez fosse mais apropriado falar de areia ou mar natal. Isto para os que nasceram na vila, podendo os camponeses reivindicar o monopólio dos tradicionais terra ou torrão natal. Ainda assim, teríamos de admitir a existência de faixas de ambiguidade, espaços híbridos (ou anfíbios) onde o mar e a terra se abraçam e se confundem, como acontece na aldeia do Meco.

Na própria vila de Sesimbra, a fronteira é ténue. Aliás, a dicotomia terra-mar foi, em tempos, bem visível na rivalidade entre marítimos e terristas, embora estes últimos nunca tenham pretendido ser os únicos com direito legítimo a falar de terra natal. Por outro lado, esta noção de terra ou torrão natal, não é rígida nem inflexível, antes varia consoante a distância a que nos encontramos. Assim, para um sesimbrense que viva em Lisboa, a sua terra natal é, indiscutivelmente, Sesimbra. Porém, se o mesmo sesimbrense estiver no Minho e falar da terra natal, é mais provável que se refira não só à vila, mas igualmente ao concelho, à região. Por fim, se o tal sesimbrense andar a viajar no estrangeiro e evocar o seu torrão natal, é evidente que se refere a Portugal.

Para complicar ainda mais esta reflexão, acresce o facto de, nos últimos anos, inúmeros sesimbrenses terem trocado a vila pelo campo onde passaram a viver não só casais jovens mas também muitos reformados, em busca de tranquilidade. Nestas condições, mesmo para quem nasceu em Sesimbra, ao fim de algum tempo, é natural que surjam flutuações e hesitações à volta da noção de terra natal. No fundo, o nosso torrão natal será o sítio onde estão as nossas raízes, e estas podem perfeitamente estar espalhadas. No meu caso, tendo nascido na rua dos Pescadores, a dois passos da Pedra Alta, é ali que estão as minhas primeira e, porventura, mais fundas raízes. O que não me impediu de, bem cedo, ter aprendido a amar a terra, o campo, ao longo de inesquecíveis verões passados nas Caixas.

Mais tarde, outra zona do campo me foi (e é) muito cara, a Cotovia. Agora, e desde há uma década, tenho a felicidade de estar na Aiana, bem perto das Caixas, fechando assim o círculo e um ciclo de vida. Curiosamente, quando vou à praia do Moinho de Baixo não posso deixar de recordar a minha meninice, os dias maravilhosos passados ali ao lado, nos Torrões. Do alto das dunas, contemplava com estranheza e temor a praia selvagem que a meus olhos não fazia sentido por ficar no campo. Aquela parcela de terra, que o tio Júlio e a tia Clarisse cultivavam, foi a minha pátria do campo, ali à esquina do mar para onde corria a límpida água do ribeirinho dos Torrões. Por estas razões e outras inocentes divagações, teria grande dificuldade se tivesse de nomear com rigor a minha terra natal, tantas são as raízes, tantos são os amores, tantas são as saudades.

Alguns terão nascido e morrido na mesma rua, a ver o mar. Outros, como eu, terão andado por longe. Felizmente, o nosso sangue e o nosso instinto não se enganam e, quando voltamos, sentimos com nitidez, sabemos com certeza profunda, onde é o nosso lugar, a quem pertencemos, ao colo da nossa mãe, aos braços do nosso primeiro amor. Por isso, olhando para trás, vogando entre mar e campo, alargo os horizontes para lá da terra ou do torrão, revivo as emoções, volto a brincar nos Torrões…

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*Publicado no n.º 22 de Sesimbra Eventos, de Natal/Ano Novo de 2002-2003.

sábado, 12 de junho de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 14

no décimo aniversário do lançamento de Noventa e Tal Contos...



Maria Amália

António Cagica Rapaz


A casa mais alta das Caixas pertencia à tia Maria Come-Figos que reinava na aldeia com o peso da sua autoridade e da sua imponência física. Era a madrasta da minha mãe e a minha avó do campo. Em Sesimbra tinha a minha avó Sabina, pequenina, consumida pelos desgostos, gasta pela vida...

A nossa casinha ficava perto da grande mansão da tia Maria e de frente para a estrada da qual nos separava o terreno do tio Meano que possuía o mais belo galo que ainda vi. Encostada ao palheiro do tio Meano esteve, durante anos, uma roda de carroça que era a primeira coisa que eu procurava com os olhos mal saltava da camioneta que o Pintassilgo parava à porta do Baratinha. Aquela roda era o tempo parado, relógio sem ponteiros, âncora lançada no mar da tranquilidade, o campo sem outra referência que não fosse o sol, o ritmo natural dos dias e das noites, carroças sonolentas, burros de passo curto, moinhos sem pressas, noites infinitas de céu estrelado...

Se a tia Maria era a rainha, a princesa era certamente a Maria Amália, afilhada da minha mãe e a cara mais bonita da aldeia. Bela moça trigueira, faces rosadas, olhos marotos, a Maria Amália parecia sair de um calendário antigo, ceifeira de chapéu de palha e lenço vermelho. Com os meus oito ou nove anos, eu via nela um fruto autêntico da terra, feito de trigo maduro, de sol cor de romã, de uva generosa, de bom pão amassado com amor e cozido em forno de tijolo moreno.

Nos bailes do Baratinha, a Maria Amália e o Licínio formavam um belo par, dava gosto vê-los, jovens, bonitos, felizes. A morte teve ciúmes e levou o Licínio, cedo de mais.

Ali a dois passos do salão de baile, parava a camioneta, ao fim da tarde e o meu pai descia, fardado de branco. Eu ia esperá-lo, feliz e orgulhoso. À noite, sentávamo-nos na rua e eram as narrativas, as odisseias a bordo do Bartolomeu Dias, a fascinação sob um céu de mil estrelas, à luz de um copo do nosso vinho feito de uva pisada no lagar do Tio Justino. Muitas vezes devo ter adormecido, exausto pela faina dos Torrões, pela brincadeira com o Julinho, embalado pela voz do meu pai e talvez a sonhar com a Maria Amália...

1992


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fac-simile do convite para o lançamento de Noventa e Tal Contos, em 12 de Junho de 2000

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

CONFRARIA MÍNIMA, 10

as crónicas da Eventos...


Musicantiga

António Cagica Rapaz

Não sei como chega aos compositores a inspiração, talvez seja sob a forma de melodia que se põe a bailar diante deles e se insinua nos seus ouvidos, vinda sabe-se lá de onde, dádiva de musa na génese da música…

A minha música é outra, é mais letra, fragmentos prosaicos, mosaicos de prosa, arabescos e arremedos de poesia com que, às vezes, me surpreendem palavras que escrevo. Em alguns casos é o ritmo, quando a harmonia suave de uma frase mais feliz acontece para meu contentamento. Noutras ocasiões são ideias, palavras ou expressões geradas num beco escuso do meu cérebro imprevisível que me caem nas mãos, deixando-me interdito, olhando em volta, dizendo para mim mesmo que talvez seja aproveitável, talvez dê alguma coisa, embora eu, naquele momento, não saiba o quê nem como. Quando acontece ter por perto um amigo, ainda posso obter dele uma primeira avaliação sobre o duvidoso mérito do meu achado, e foi o que sucedeu quando, há tempo, alvoroçado como um garoto que acaba de descobrir um ninho, comuniquei ao Pedro Martins que dera à luz uma palavra nova, musicantiga.

Generoso e condescendente, apadrinhou esta aglutinação de música, antiga, musa e cantiga. Depois, ficámos assim, ele foi à sua vida, eu guardei no bolso o compósito vocábulo e não voltei a pensar no assunto. Até que, há dias, o Pedro quis saber em que tom estava eu a ensaiar a musicantiga. Fiquei embarcado como um aluno que não fez os trabalhos de casa, e mal consegui balbuciar uma promessa desafinada de tentar dar corpo à ideia, desenvolver o conceito, fazer variações sobre o tema. E mais não disse…

Depois, senti-me na obrigação de respeitar o compromisso e sentei-me a reflectir, enquanto os passarinhos cantavam nos sobreiros frondosos da Aiana, na magia do entardecer. E os pássaros segredaram-me que a música que nos acompanha, está ligada a bons e maus momentos, desde a nossa meninice, com os sons da Natureza, o murmúrio doce das vagas, o assobio distante do vento, o chilrear dos pardais, os trinados de pintassilgos e rouxinóis nas gaiolas que alegravam as ruas frescas de Sesimbra em manhãs de Primavera. Nessas mesmas ruas, nas tabernas, ouvia-se o fado, a rádio era nossa companheira. Da alegria que nos dava, da saudade que deixava…

No fundo, talvez não seja errado pensar que a música vale pela melodia e pela emoção que em nós desperta, ficando associada a acontecimentos e fases da nossa vida, fazendo-nos muitas vezes sentir transportados no tempo, unicamente ao ouvirmos uma canção. Graças à tecnologia, a música e os seus intérpretes nunca morrem, e o verdadeiro milagre reside na sua capacidade de recriar uma atmosfera longínqua, resgatar um mundo distante, recompro um universo perdido…

Em Sesimbra sempre se cantou e dançou, à volta das fogueiras, nos bailes de Verão e pelo Carnaval. Havia espectáculos de variedades no salão da Vila Amália, vinham ao Parque as “Vozes de Portugal”, o Julião Benedito foi corpo e alma de uma bela revista, cantava-se pelas ruas, no Espadarte Clube, no Chagas, no Ribolé, os Galés e os Zambras animaram verões inesquecíveis nos anos sessenta e o Forno foi um marco na história das noites de Sesimbra.

No campo, havia os bailes coloridos da Quintola, na 5.ª feira de espiga, e no salão do Joaquim do Moinho, em 26 de Dezembro. Sem esquecer os bucólicos bailes “à do Baratinha”, nas Caixas, animados por um melancólico tocador que chegava e partia, de bicicleta, com o acordeão às costas.

Os anos sessenta foram um período de ouro na música nacional e mundial, com a viragem que começou no “Vou dar de beber à dor” até ao zénite que a carreira de Amália atingiu na fase dos grandes poetas e da música do fiel Alain. Foi também a afirmação de novos talentos como Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, José Mário Branco, Sérgio Godinho, José Afonso.

Lá de fora, chegavam-nos o génio insuperável dos Beatles, a voz única de Sinatra, a originalidade dos modelos dos Zambras (Bee Gees), a delícia da bossa nova, Vinicius de Moraes e António Carlos Jobim, o calor de Tom Jones, a sedução do “soul”, com Otis Redding, Aretha Franklin e outros. Não sei se a música antiga era melhor, nem isso é importante. E o que é música antiga? Sabemos apenas que há músicas que perduram. Sabemos que gostamos mais de certas músicas. Sabemos ainda que algumas fazem parte das nossas vidas.

Por acaso, muitas não são recentes, são antigas. E gostamos delas porque gostamos, é apenas isso. O resto é cantiga…

Há muitos anos, na escola, as raparigas costumavam cantar de roda, nos recreios. E, enquanto saltavam à corda, cantarolavam “Pomba, pimba, laranja, limão”. A pomba perdeu-se no céu longínquo da nossa juventude, perseguida por gaivotas portadoras de sinais nefastos, vendavais da vida. A laranja murchou na árvore do tempo. O limão deixou-nos na boca o sabor amargo da nostalgia. Ficou-nos a pimba, que não é música, é apenas uma coisa de que alguns têm o direito de gostar…

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*Publicado no n.º 14 de Sesimbra Eventos, de Agosto/Setembro de 2001.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 12


Nevoeiro

António Cagica Rapaz

Os primeiros ruídos chegam-me distantes, abafados pelo nevoeiro que nasce no mar e se estende pela serra acima. É uma daquelas manhãs preguiçosas, arrastadas, em que, depois do pequeno almoço, apetece voltar para a cama, deixando que lá fora o mundo prossiga a sua marcha sem se preocupar connosco, a gente já vai, é só mais um bocadinho...

Ao sair para a escola deparo com o tio Zé David ali à minha porta, na rua Monteiro, a dar instruções ao seu pessoal que vem arranjar o passeio um tanto maltratado pelas chuvadas do mês passado. As camionetas do Covas e do “Caretas” ainda não passam na minha rua, ficam-se pelo largo da igreja de cima onde a “Ginjinha Coelho” é o ponto de encontro, o porto de abrigo e a torre de controlo da operação rodoviária. O tio Chico da Cooperativa é o faroleiro que instalou o relógio de ponto para viajantes, motoristas, cobradores, revisores, moços de fretes, todo um mundo que se agita à sua volta. A minha mãe é uma especialista, chega sempre atrasada porque, depois de fechar a porta de casa à chave, ainda volta atrás uma ou duas vezes para se assegurar de que ficou bem fechada. Claro, depois chega lá a cima a deitar os bofes pela boca, com o meu pai impaciente e o carro em cima das sete, às aceleradelas, mais do que pronto para arrancar.

O tio Zé David vem das Pedreiras acompanhado pelo seu pessoal, tudo gente do campo. É um tempo vagaroso, sem pressas, com a lentidão do nevoeiro que, de mansinho, desce sobre a vila, envolvendo a fortaleza e o castelo no seu manto cinzento, macio e denso como um cobertor de papa. A Judite lá vai, com o café e a carcaça para o Jaquim Ruço que está na loja a encher bóias. Lentamente, os homens encostam os carrinhos de mão à parede e deles tiram pás, picaretas, martelos, maços, vassouras, areia, todo um arsenal de ferramentas, utensílios e apetrechos que me deixam mais desejoso de ficar ali, em vez de ir fazer ditados ou resolver problemas de áreas, esteres ou metros cúbicos, na escola. Os homens da Câmara penduram a roupa no muro da minha casa enquanto a minha mãe rega as flores e me repete que já são horas de ir andando. Lá em baixo é a cordoaria, com os eucaliptos gigantescos, pegada à fábrica do gelo que fica em frente da escola de Santa Joana onde aquela malta brava, de cabelo à escovinha, ensaboa o juízo à heróica Cecília Cruz cujo vozeirão já se ouve, apesar da distância e do nevoeiro. Os homens da Câmara ainda não cuspiram nas mãos nem sequer despejaram a areia amarela que vai aconchegar os cubozinhos de pedra do meu passeio. Ah, agora sim, um já abriu a maleta de cabedal. Vai talvez tirar alguma colher de serventia. Ah, não, é uma marmita. Olha, outra, e mais outra ainda...

O mais novito vai apanhar uns pauzitos junto ao muro da escola das raparigas e começa a preparar o recanto onde há-de pôr a caldeira ao lume. Daqui a pouco um fumo suave vai elevar-se para se juntar ao nevoeiro, e tudo isto se desenrola com a lentidão de um sonho agradável, na preguiça filosófica de um tempo que se escoa ao ritmo imperturbável dos barcos a remos, dos burros, das carroças e das velas dos moinhos de vento. Admirável época esta em que há tempo para olhar em redor, colocar cada cubo de pedra no buraco de areia, devagarinho, carinhosamente, aconchegando-o com o martelo, quase com ternura. Com a mão alisa-se, sacode-se a areia, sem pressas, pedra a pedra, gesto a gesto, há todo o tempo do mundo. Lá longe, na doca, outros homens raspam o casco dos barcos, metem a estopa, cobrem com breu, pintam, conversam pela manhã adiante até acharem que é tempo de voltar a pé dessa lonjura que é o porto de abrigo para o almoço que as mulheres já puseram ao lume.

Observo esta gente rija do campo que fala a meia voz, arrastadamente. Aquele mais alto, ali, enrola tranquilamente o tabaco na mortalha e agora vai pedir um fósforo, não, agarra um pau que arde. Acende o cigarro, aspira profundamente, fecha os olhos com prazer e expele o fumo que lá vai, também ele, com lentidão, juntar-se ao nevoeiro. Já devem ser suas onze horas, não querem lá ver. E se a gente começasse a tirar daqui estas pedritas?

A minha mãe deu um ramito de hortelã ao rapaz das marmitas, enquanto do fundo do quintal chega a música do Talismã. Olha, já há marmitas a ferver. Parece mentira como o tempo passa quando se trabalha. Logo despeja-se a areia, coloca-se mais umas pedras, fuma-se um cigarrito, dá-se um jeito com o maço e depois toca a arrumar as ferramentas que se faz tarde. Subir Santana leva o seu tempo, vamos com Deus.

Nevoeiro é tempo de mistério, de sonho, de obras sem pressa, de vida tranquila que, se calhar, só existe na nossa imaginação. Na sexta-feira, com muito esforço, lá para o fim da tarde, o passeio fica pronto, infelizmente. Os homens da Câmara acabarão por arrumar as ferramentas nos carrinhos de mão e desmancha-se o presépio. Fica o passeio e a memória de um tempo...

1994

quarta-feira, 19 de maio de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 11




À porta do «CENTRAL»

António Cagica Rapaz

A nostalgia não é doença de velhos nem angústia de quem está longe. Apenas sucede que nós vivemos a correr sem olhar para trás. Até que um dia, cansados ou tomados de súbita consciência, paramos para reflectir. Olhamos à nossa volta e sentimo-nos estranhos, isolados, perdidos num mundo que não é o nosso, apesar de nele termos vivido dia após dia, colaborando na sua transformação.

Na nossa infância aprendemos a olhar o mundo, a descobri-lo, a penetrar nele com avidez, com a fome da descoberta, da aprendizagem. Desse universo não aprendemos senão as aparências, postais ilustrados que representam casas bonitas de cujos habitantes ignoramos tudo, as suas alegrias, as suas paixões, os seus problemas. E fica-nos uma sucessão de imagens. Umas em que há movimento, outras rígidas, impenetráveis. É assim que vemos o tempo da nossa infância, com imagens plenas, ricas, expressivas e outras sem alma, sem vida, apenas um rosto, uma paisagem…

O mundo evolui, nós acompanhamos o progresso, felizes, deslumbrados mas, cedo ou tarde, lamentamos ou evocamos com saudade o velho mundo que foi o nosso. Então sentamo-nos à beira do caminho que foi o nosso e vemos passar as pessoas que correm atrás do tempo, arrastados no turbilhão. A nostalgia não é doença de velhos…

Em todas as épocas o fenómeno se repete. Já o meu pai contava com saudade a sua meninice. De geração em geração a tecnologia progride, tudo vai mais depressa, foi o telefone, a rádio, a televisão agora a cores, a estereofonia, eu sei lá.

Longe vai o tempo em que ir ao banho à Prainha, à Água-doce era uma aventura maravilhosa, ir a pé até à longínqua doca, que delícia!

Como eram agradáveis as brincadeiras em frente ao «Central», o passarinho de alcatrão, as noites na esplanada…

A calma, a tranquilidade, a qualidade de vida perdeu-se ano após ano. Dão-nos grelhadores eléctricos, frigoríficos e congeladores, mas já não há petinga e quando o velho pescador vai para instalar o fogareiro a carvão no passeio já não pode porque está um carro estacionado, encostado ao poial. Maldito progresso!

Sem condenarmos o progresso de forma global e simplista (o que seria injusto e insensato) vamos ainda assim recordar, recriar, reviver. É minha intenção, de vez em quando, vir aqui sentar-me à porta do «Central», do velho «Central» que conheceu várias gerações, e evocar à minha maneira, pessoas e coisas de um passado que conservo presente. Para começar aqui vos deixo um apontamento com duas versões de férias que o tempo tornou diferentes. Quando eu era menino de bibe ia passar as férias grandes às Caixas, o que para mim e a minha irmã era motivo de grande alegria.

Às cinco da manhã a Rua dos Pescadores dormia a sono solto quando a minha mãe entrava no nosso quarto. Era em Junho, mês dos santos amigos, das fogueiras e dos fogareiros à porta, dos primeiros calores do Verão. Era a alvorada p’ra ir p’rás Caixas. À exclamação desta palavra mágica saltávamos da cama com um entusiasmo bem diferente do despertar arrastado dos dias de escola.

A evocação das Caixas enchia-nos o espírito de trigo, de batatas com pele, de vindima, de trigo da debulha, de moinho velho, de pão caseiro, de ribeiro dos Torrões, de sonho e alegria.

A minha mãe carregada com as malas e nós carregados de sono, atravessámos a vila que ainda se voltava para o outro lado. No largo da igreja, o Pintassilgo punha a trabalhar a velha «Panhard» e antes que o padre João desse os bons dias ao Menino Jesus já nós íamos Santana acima, Zambujal abaixo, aos solavancos na estrada poeirenta, de olhos bem abertos. O sono ficara em Sesimbra, o sonho começava com o Pintassilgo cujo trinado se acelerava na estrada do troço da Quinta. À porta do Baratinha parava a camioneta e começavam as férias…

Às 4 da manhã do dia 31 de Agosto de 1980, o Nicolas e a Samantha acordaram. Só a excitação dos meus filhos era igual à da minha meninice porque às 4,30 em ponto o táxi estava à porta e às 6 horas embarcávamos no aeroporto Charles de Gaulle num Boeing 707 rumo ao Algarve. Lá em cima, no azul do céu, o sol nascia da mesma maneira e, a certa altura, quando o comandante falou, pareceu-me que dizia: - «Senhores passageiros, o comandante Pintassilgo dá-vos as boas-vindas a bordo do «Santa Cruz». A nossa viagem para as Caixas durará 30 anos, voaremos a uma altitude igual à da torre da igreja de cima e a nossa velocidade de cruzeiro será igual à da carroça do tio Júlio a caminho dos Torrões».

O Nicolas dormia e eu sonhava…

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* Publicado originalmente na edição de Outubro de 1981 de O Sesimbrense.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 10



A vindima

António Cagica Rapaz

“E no fim havia uma grande almoçarada, com bacalhau e cães de monte, debaixo do sobreiro grande, no meio da vinha.” Assim se concluía qualquer relato das vindimas na Roça, há quase meio século.

Talvez por influência das incursões africanas do meu pai, nos seus tempos da Marinha, passámos a chamar Roça àquele pedaço esguio de terra, na Aiana, onde havia pinhal, raras árvores de fruto, uma pequena vinha e alguns sobreiros. Da nossa casinha, de chão de terra batida, nas Caixas, até à Roça ia um caminho de areia, estreito e penoso, que criava uma falsa sensação de lonjura. A vindima era prenúncio do Outono, com as cepas a despirem-se das folhas que o sol fora colorindo, primeiro, e queimando, depois. Manhã cedo era o alvoroço da carroça, dos cestos de vime, das navalhas, do farnel, a expedição em marcha para aquela pequena festa com os amigos, ingénuo pretexto para se confraternizar à volta das videiras, para filosofar sobre o sabor da uva, o tamanho dos cachos, piadas e desafios, com o bacalhau à espera. Por fim, à sombra amiga do sobreiro grande, a almoçarada rematava a alegre labuta...

Aos meus olhos de criança, aquele sobreiro era gigantesco e representava protecção e força, acolhia e abençoava a vindima que era, mais que tudo, um cerimonial de fraternidade e partilha.
O ambiente era algo semelhante ao das desfolhadas descritas pelo poético Júlio Dinis, com ditos e gracejos, prova aqui, corta ali, cada cesto mais lindo do que os outros, o espírito fino do tio Nuno, a bonomia calorosa do tio Jójó, dois seres maravilhosos que tão bem cultivavam este espírito de partilha.

A vida dá as voltas que dá e o sobreiro frondoso, acusado de possuir raízes insaciáveis, acabou por ser sacrificado para não prejudicar a vinha. Afinal, com os anos, a vinha acabou ao abandono, nem sobreiro nem vinha, só mato, tojo, ervas e solidão. A vida continuou a dar as voltas que tem de dar e eu voltei à Roça, à terra, às sensações da infância. Aos poucos, fomos metendo ombros, mãos e, sobretudo, paixão, numa tarefa ciclópica, resgatando cepas ao mato, arrancando e queimando silvas e outras pragas danadas. Cavámos, cortámos, carregámos, empilhámos, sulfatámos, podámos, com ardor e entusiasmo. E assim conseguimos o ressurgimento da pequena vinha, coisa modesta mas excitante, com a perspectiva de ver de novo videiras ao sol, talvez alguma uva e, quem sabe, voltar a fazer vinho da Roça, como no tempo em que pisávamos no lagar do tio Justino. Passámos a preocupar-nos com o tempo, nuvens, nevoeiro, neve e granizo, chuva do quadrante oeste. E a ouvir quem sabe, subentenda-se o nosso vizinho, o senhor António, que nos foi aconselhando, dando ordens e pareceres, até marcar a data da vindima. O dia amanheceu suave, envolto em neblina macia. A Soraia e o Rodrigo, madrugadores como o avô, revelavam uma excitação que reconheci, com saudade. Breve comecei a carregar no carrinho de mão os baldes cheios para o lagar de onde o senhor António dirigia as operações. Depois era vazar e dar à manivela para accionar a prensa. Manhã fora, foi-se repetindo a magia, a descoberta de cachos bonitos, a prova repetida de uva periquita e moscatel, pouca coisa, é verdade, mas saborosa, a melhor do mundo, fruto do nosso trabalho, em parte, a Natureza fez o maior. No final, almoçámos bacalhau, meia desfeita, debaixo dos altos sobreiros, à porta de casa. A Soraia e o Rodrigo estão na idade das perguntas e, ao longo das nossas viagens no carrinho de mão, falei-lhes dos sacos de trigo que trocava por outros de farinha no moinho das Caixas, dos vasos de fundo dourado, amarrados às velas, por onde se enfiava o vento, num assobio lúgubre. Um dia, talvez eles contem aos filhos como eram as vindimas da sua infância, com bidões de plástico e carrinho de mão. O Rodrigo, em cada dia, vai aprendendo com o pai, ouve o avô, vai armazenando conhecimentos, vai construindo o seu mundo interior, com isto com aquilo, hoje a vindima, amanhã a matança do porco, depois o armazenar de lenha para o Inverno, sempre com a protecção dos pais e a bênção dos avós. Se calhar, a felicidade é apenas isso, meia dúzia de horas felizes, momentos espaçados e fugidios, uma sensação de paz, uma ilusão de eternidade, um riso de criança num carrinho de mão, através de uma vinha de brincar...

1998

segunda-feira, 3 de maio de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 8


Joaquim Sobral

António Cagica Rapaz

O avental sobre os joelhos, os óculos na ponta do nariz, enquanto me ouvia, ia colocando umas biqueiras nos meus velhos sapatos estafados por correrias infindáveis atrás da bola. Sem se distrair, sem errar o furo nem o prego, escutava com aparente interesse, as minhas aventuras nos verões apaixonantes que passava nas Caixas. Muitas vezes, antes das seis da manhã, passámos à porta dele, no silêncio da alvorada, carregados com as malas, felizes e eufóricos, sem sono nem fadiga, a caminho do largo da igreja de onde saía a camioneta que, com o Pintassilgo ao volante, nos levaria até à paragem do Baratinha. Era justo que, já que não o acordava ao abalar, lhe contasse, depois, como tinha sido a rega nos Torrões ou a debulha do trigo, a fuga da Mulata, a linda e selvagem mula do tio Júlio, ou a vindima na Roça…

Era na lojinha do tio Joaquim, com os banquinhos de madeira, os pássaros na gaiola, o cheiro a cabedal e a frescura da rua à espera de sol.

Durante muitos anos, desde pequenino, me habituei a passar horas a conversar com ele, a vê-lo manobrar a sovela, a dar pontos, a cortar, a coser, a pregar, o jeito de consertar, o gosto de ajudar, aproveitando até à exaustão, sapatos, botas e sandálias. Aquela pequena oficina era quase de brincar, minúscula e acolhedora. Na véspera de Natal havia quem esperasse até muito tarde para ter sapatos para a Missa do Galo ou para pôr na chaminé.

Com a sua bondade e a sua paciência, o tio Joaquim acabava sempre por remendar todas as carências, com a mesma ternura com que me contava, pausadamente, pescarias mágicas das segundas-feiras em que, saltando de rocha em penedo, ele se perdia na lonjura do Caneiro.

Era o empatar minucioso dos anzóis, o segredo do engodo, a escolha criteriosa do local, o tempo certo da maré, o fascínio da água lusa, o apelo da madrugada que o levava a esquecer, por um dia, o avental, a sovela e o martelo, para abalar, ao raiar da aurora, de balde na mão, homem de uma cana que prolonga o braço, a caminho das rochas, ver nascer o sol, abraçar o mar, deixar-se levar pelo fio de nylon até à linha do horizonte, saborear a vida, sentir-se livre, sonhar.

E pescar…

1995

quarta-feira, 14 de abril de 2010

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 6

Zé Tucha: foto tirada do blogue Sesimbra


No fundo*

António Cagica Rapaz

Há tempos, numa gloriosa manhã de domingo, bateram-nos à porta, na Aiana, dois mensageiros de Jeová. Chovera durante toda a semana e aquele sol radioso, o perfume da terra molhada, o ar puríssimo e a luminosidade do céu lavado pela chuva benfazeja, tudo isso fazia daquele domingo uma prova suficiente da existência de Deus, de Jeová, de Maomé ou de Buda, à escolha, segunda as crenças.

Não calhou ser eu a ir à porta, e abstive-me de intervir na ladainha dos pacientes e pertinazes pregadores, tendo apenas retido uma frase que me deixou pensativo. Fiquei a saber que, para as testemunhas de Jeová, a alma morre com o corpo. Admito que haja alguma ambiguidade entre os conceitos de alma e espírito, que conviria aprofundar a reflexão, mas não desejei esclarecer o assunto e apenas aproveito o mote para divagação.

Esta convicção dos seguidores de Jeová (a menos de outra interpretação) parece encerrar uma mensagem tenebrosa, e deixa-me alguma curiosidade quanto à maneira como encaixarão esta ideia num quadro positivo de vida. Seria certamente interessante ouvir a argumentação que utilizam para conseguirem transmitir esperança e optimismo, encontrar sentido para uma vida sem prolongamento para além da morte.

Se, de facto, a alma morre com o corpo, o nosso horizonte é curto, o fim do filme da nossa vida não traz qualquer surpresa nem a menor expectativa, muito menos uma esperançazinha de eternidade. Como todos sabemos, estamos condenados a morrer, é mesmo a única certeza que a vida nos dá. Ora, se uma religião nos diz que a morte é o fim, do físico e do espiritual, que sentido poderemos encontrar para a vida?

Este tipo de congeminações poderia tornar-nos pessimistas e macambúzios, pelo que é aconselhável certa prudência na aproximação a assuntos desta natureza morta.

Há tempos, deparei na praça (palco privilegiado de todos os encontros) com o José Embaixador, figura notável da nossa terra, bombeiro, mercador de matacões, bolos e pastéis, e também patriarca dos servidores de Jeová.

Confesso que nunca vislumbrara no nosso Zé Tucha preocupações de ordem espiritual, mas admito perfeitamente que em qualquer altura possamos ser levados por uma onda de misticismo. Cada um tem o direito de acreditar, pregar ou prestar culto segundo as suas convicções, desde que respeite o seu próximo a quem deve reconhecer igual liberdade de pensamento e de expressão. Apesar de tocado pela graça de Jeová, o Zé Tucha não perdeu a outra graça, a sua verve malandra, o bom humor que sempre lhe conhecemos. E disso me apercebi no nosso diálogo na praça. Na sua linguagem pitoresca e metafórica, lá me foi dando conta da sua saúde que já não é o que foi, tendo sido obrigado a usar um “pace maker” para manter o coração a funcionar em bom ritmo. Mas não se ficam por aí os seus constrangimentos. Mais inconformado ainda me pareceu quando rematou, em confidência e desabafo: “Olha, o pior é que já nem vou à tona”.

Habituado às suas excêntricas figuras de retórica, deduzi que já não se sentisse em forma, à tona de água, menos vigoroso, com menos destreza, enfim, algo parecido. Porém o seu sorriso maroto deixou-me, mais tarde, a impressão de ter ouvido mal…

Seja como for, a brejeirice lendária do Zé Tucha mostra que não está muito preocupado com a dicotomia alma-espírito e que conserva uma perspectiva optimista e hedonista da vida.

Aqui chegados, coloca-se-me a angustiante e obsidiante dúvida sobre o rumo a dar a este escrito, hesitante que estou entre a tonalidade mística e a toada maliciosa que o Zé Tucha, impenitente inveterado, me segreda ao ouvido, a mim, frágil criatura impoluta, menino de coro e decoro, nada dado a essas maléficas pantominices. Ainda sinto na pele a valente reprimenda da minha boa amiga Doutora Auzenda que não gostou nada das minhas divagações marotas inspiradas pelo despudorado Camilo José Cela. Em verdade, não estou arrependido, mas que isto fique apenas entre nós…

Voltando às minhas dúvidas quanto ao tom a dar a esta narrativa, pergunto-me se vale a pena abordar assuntos graves. Recentemente escrevi duas crónicas sobre coisas essenciais como são a vida e a morte, as linhas da mão, a força do destino, tudo assente em convicções e experiências pessoais.

E, afinal, para quê? Para encontra a habitual ausência de reacções, isto é, para ficar com a sensação de que é indiferente escrever sobre coisas sérias ou alinhavar escritos triviais. Há uns três anos, contei** de que maneira consegui, em 1971, no Campo de Tiro da Serra da Carregueira, restituir às suas famílias alguns rapazes destinados à guerra colonial. No fundo, talvez não o tenha feito tanto por ideais políticos, como por sentir que era uma guerra absurda, e porque assim ditavam a minha consciência e a minha dignidade. Posto isto, naquele período de guerra, era muito arriscado para mim contornar as regras, furar as malhas da lei, ainda que iníqua e cínica.

A prisão era «a recompensa» para o meu atrevimento, se a falsificação fosse detectada. E não era difícil, bastava que alguém, por acaso ou por curiosidade, tivesse comparado com o original os processos aldrabados que enviei. Afinal, podia ter encolhido os ombros e deixado andar, como fazia, com egoísmo e desprezo, um tenente do quartel da Amadora, um tal Luís.

Mas achei que devia tentar. E consegui. Só conheço um dos rapazes que pude ajudar. É das Caixas, chama-se Bernardino, e a mãe, a tia Líbia, agradeceu-me, com muita emoção e um coelho…

Nunca reclamei medalhas nem cartão do clube dos lutadores anti-fascistas que saíram, apressadamente, das tocas logo no dia 26 de Abril. Apenas observei que esta narrativa não despertou qualquer curiosidade, ninguém achou útil aprofundar a questão, apesar de não ter sido propriamente uma banalidade o que se passou na Carregueira. A maioria desses abnegados resistentes nunca foi além da conspiração de café, à volta da bica e do bagaço, sem jamais ter elevado a voz ou tido um gesto que se visse. Não me considero herói, mas não teria sido de mais se alguém tivesse condescendido em me dirigir uma palavra ou um sorriso de simpatia, procurado, ao menos, saber se tinha sido verdade, se não seria gabarolice ou mistificação. Mas não, nada. Foi como se aquela crónica fosse apenas ficção pura e delirante como “O molho à espanhola” que tratava de uma louca invasão para repor os irmãos Filipes no poder. No fundo, tanto faz escrever sobre a vida para além da morte como sobre a falta de cavala no mar dos Ursos. Mas, ao fazer esta observação, não estou a manifestar surpresa nem estranheza, muito menos decepção.

Gosto de brincar, divirto-me com algumas pinceladas irreverentes, apraz-me misturar melancolia, sonho e poesia, mas não sou ingénuo nem lírico.

Há muito que me habituei a esta relação de sentido (quase) único, marcadamente direccional que existe entre quem escreve e quem lê, embora isso não me impeça de sublinhar que seria desejável que houvesse diálogo, mais intervenção dos leitores, escrevendo para o nosso jornal, tornando-o participado, mais vivo e rico.

Não faz sentido e é frustrante pensar-se que de um lado estão os que escrevem e do outro os que lêem. Ao fazermos o jornal, estendemos a mão, damos um passo, lançamos um olhar, vamos ao vosso encontro. E gostaríamos de vos ver, de vos ouvir, de vos ler.

Só assim o nosso jornal cumprirá a sua missão de nos juntar a todos, leitores e escribas, à volta da mesma causa que é a nossa terra, nas suas múltiplas facetas, as pessoas, as coisas, a economia, o ambiente, a segurança, a pesca, o turismo, a droga, a educação, etc.

As pessoas, de maneira geral, só escrevem para o jornal quando se sentem atacadas, nos seus interesses ou na sua dignidade. É pena, porque a certa altura pode haver o risco de desalento, de desmotivação por parte de quem se sinta cansado de erguer a voz em defesa do nosso mar e dos nossos pescadores, por exemplo. Por alguma razão, recentemente, o Pedro Filipe pedia aos sesimbrenses para acordarem. Um dos sinais desse adormecimento é a posição de alheamento e comodismo, sem se manifestarem, sem se pronunciarem, contra ou em apoio, sobre as causas que o jornal defende com carolice, com bairrismo, certamente, mas também com conhecimento e noção de responsabilidade. No fundo, um jornal é um meio de comunicação e esta faz-se nos dois sentidos.

Por mim, apenas observo, registo, não me queixo, não vale a pena, tudo isto mais não é do que pretexto para a nossa cavaqueira mensal. Afinal, o que escrevo quase sempre se situa na esfera do acessório. Mesmo quando falo da vida e da morte. Ou da guerra que, muitas vezes, nos leva de uma à outra…

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*Publicado originalmente na edição de Maio de 1999 de O Sesimbrense.
** [nota do editor] Na crónica Superveniente, publicada na edição de Dezembro de 1995 de O Sesimbrense. Com o mesmo título, e versando o mesmo assunto, publicou António Cagica Rapaz uma narrativa no livro Janela com Escritos (Sete Caminhos, 2006).

segunda-feira, 12 de abril de 2010

NOVENTA E TAL CONTOS, 5




O barco

António Cagica Rapaz

A estibordo o campo de pessegueiros, o recorte dos castanheiros, o declive do ribeiro seco, o pinhal e os caminhos que vão dar ao mar. A bombordo, a estrada estreita, recta esticada à beira da vinha cansada, os cães acorrentados, mais assustados que agressivos, prontos a ladrar ao menor sinal de presença humana.

A proa é cortante, ângulo muito agudo, capaz de sulcar a terra em travessias silenciosas, em noites de lua encoberta por nuvens que o mar carregou de sombras e mistério. A amurada de bombordo acompanha a estrada, desliza-lhe paralela e suave, para não acordar os cães, e o barco lá vai, envolto em bruma macia, com a proa em jeito de esporão qual Nautilus do capitão Nemo que cortava pelo meio navios incrédulos, semeando o terror e desafiando a imaginação em toda a extensão das vinte mil léguas submarinas.

O barco tem a forma, o perfil esguio de uma embarcação costeira, embora não se possa confundir com uma péniche, barcaça como as há em França, batelões que carregam sal, carvão, areia, rios abaixo, de comporta em represa. Costumam transportar bicicletas e mesmo carros, à popa, junto à cabina que serve de casa ao mestre, cortinados nas janelas, vasos com sardinheiras, o fumo suave a diluir-se, rio fora, deixando no ar um perfume de comida caseira. À popa do barco também há um carro, e a encimar o camarote imponente uma chaminé bem erguida ao céu, reforçada por pedra robusta. Na realidade, o barco é uma pequena propriedade de forma triangular, paralela à estrada, na Aiana, cercada por um muro caiadinho de branco que remata, a sul, um ângulo agudo pronunciado que dá ao conjunto uma forma que sugere um barco, fantasia que me passou pela cabeça. Como passamos por ali, com alguma frequência, habituámo-nos a observar se a casa está ou não fechada, se há luz, se a tripulação sobe ao tombadilho. E, assim, o barco entrou na nossa linguagem codificada. Por vezes, quando nos aproximamos, vemos o comandante e a sua companheira entregues à faina de mareantes, ele subindo à gávea, compondo as vergas, aparando a roseira, arrancando as ervas ruins, ela baldeando o convés, estendendo cobertores, abrindo as janelas de par em par, virando de bordo rumo ao sol, a favor da brisa de leste. O barco tornou-se uma curiosidade, quase um mistério adensado pela discrição das pessoas que habitam aquela casa ancorada na curva, rodeada de cães, à falta de gaivotas, quase atracada à muralha do Zé do Justo. Que gente será aquela, terão filhos, virão de Lisboa, que fazem na vida além de embarcar nos fins-de-semana? Nunca vimos grumetes no convés, não me recordo de grande animação a bordo, sardinhada, caldeirada, piratas de perna de pau, apenas o comandante e a companheira, discretos na manobra, mecanizados numa rotina que deixa entrever uma cumplicidade forjada em muitos anos de navegação a dois, sem grandes falas, com silêncios eloquentes, movimentos combinados, acções encadeadas. Não estou certo de os reconhecer se os encontrar noutros mares, noutras paragens, no mercado de escravos de Azeitão, na venda dos arcabuzes ou na tenda das especiarias.

No fundo, levamos a vida a construir o nosso barco, o nosso quartel, o nosso quintal, o cantinho onde nos sentimos ao abrigo das tempestades da vida. Nem sempre conseguimos, mas já é bom tentar, viver de esperança, ir fazendo, calafetando, remendando uma vela, raspando o casco, cosendo a rede, semeando, regando, queimando silvas, procurando a estrela do pastor ao voltar a casa, quando o fumo se eleva das chaminés, os cães ladram ao longe e a terra arrefece lentamente.

O mar e os barcos fazem parte da nossa vida, dos nossos sonhos. Por isso, no campo, mesmo sem searas a ondular, nos parece ver barcos onde, afinal, só há uma casa cercada por um muro pontiagudo, à beira da estrada.

D. Quixote de la Mancha também via gigantes onde apenas havia moinhos de vento. Do moinho das Caixas restam ruínas, vestígios mudos e tristes, de um tempo distante em que eu lá ia, montado num burrico, trocar um saco de trigo por outro de farinha. Foi-se o tempo, fica-nos a fantasia e a memória vacilante…

1997